Prevalência de Burnout entre Médicos Residentes de um Hospital Universitário

Prevalence of Burnout among Medical Residents of a University Hospital

Marina Macedo Kuenzer Bond Michele Salibe de Oliveira Bruno Júnior Bressan Marisa Macedo Kuenzer Bond André Luis Ferreira Azeredo da Silva Álvaro Roberto Crespo Merlo Sobre os autores

RESUMO

Introdução

A medicina é uma atividade laborativa conhecida por elevados padrões de exigência. O período de formação do profissional médico inclui a residência médica, etapa em que fatores estressores podem ser magnificados. Assim, essa população poderia estar mais suscetível a síndrome de exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização profissional, conhecida como burnout.

Objetivo

Determinar a prevalência de burnout e de cada uma de suas dimensões na população de médicos residentes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e investigar características sócio-ocupacionais associadas.

Métodos

Estudo transversal com médicos residentes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), realizado no período de dezembro de 2015 a janeiro de 2016, mediante aplicação de um instrumento informatizado que contém dois questionários: um com variáveis sociodemográficas e o questionário Maslach Burnout Inventory (MBI). Análise estatística foi realizada pelo software SPSS versão 18, sendo utilizado o teste exato de Fisher e o teste do Qui-Quadrado de Pearson para as correlações.

Resultados

Dos 506 médicos residentes do HCPA, 151 participaram voluntariamente do estudo. Burnout esteve presente em 123 participantes (81,5%). “Exaustão emocional” foi a mais frequente dimensão (53%), seguida por “despersonalização” (47,7%) e “falta de realização profissional” (45%). Gênero masculino e residentes do segundo ano apresentaram maior possibilidade estatística de desenvolver burnout, sendo que os últimos também apresentaram menor realização profissional e maior despersonalização. Residentes do quarto ano estiveram menos associados à despersonalização e ao burnout de maneira global. Residentes de especialidades cirúrgicas estiveram menos associados à exaustão emocional. Cursar Psiquiatria mostrou-se um fator protetor para despersonalização, enquanto Radiologia apresentou ser um risco para essa dimensão.

Conclusão

A alta prevalência de burnout entre médicos residentes, especialmente entre aqueles que cursam o segundo ano, suscita preocupação, uma vez que pode levar ao risco de desenvolver depressão, ao abandono profissional e à diminuição na qualidade assistencial prestada aos pacientes. Assim, medidas preventivas contra seu desenvolvimento, associadas ao diagnóstico precoce e manejo clínico adequado, são fundamentais para a redução de sua prevalência.

Esgotamento Profissional; Prevalência; Internato e Residência

ABSTRACT

Introduction

Medicine is a labor activity known for high standards of demand. The medical professional’s training period includes medical residency, a step in which stressors factors can be magnified. Thus, this population could be more susceptible to the syndrome of emotional exhaustion, depersonalization and reduced professional accomplishment, known by burnout.

Objective

To determine the prevalence of burnout and of each of its dimensions in the population of medical residents of the Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) and to investigate associated socio-occupational characteristics.

Methods

A cross-sectional study was carried out with medical residents of the Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) conducted from December 2015 to January 2016, using a computerized instrument containing two questionnaires: one with sociodemographic variables and the Maslach Burnout Inventory (MBI).Statistical analysis was performed by SPSS Software version 18, using Fisher’s exact test and Pearson’s chi-square test. for correlations.

Results

Of the 506 HCPA medical residents’, 151 participated voluntarily in the study. Burnout was present in 123 participants (81.5%). “Emotional exhaustion” was the most frequent dimension (53%), followed by “depersonalization” (47.7%) and “lack of professional achievement” (45%). Male gender and residents of the second year had a higher statistical possibility of developing Burnout, and the latter, also presented lower professional achievement and greater depersonalization. Fourth-year residents were less associated with depersonalization and burnout overall. Residents of surgical specialties were less associated with emotional exhaustion. Studying psychiatry was shown to be a protective factor for depersonalization, while radiology presented a risk to this dimension.

Conclusion

The high prevalence of burnout among medical residents especially among those attending the second year, raises concern, since it can lead to the risk of developing depression, to professional abandonment, to a decrease in the quality of care provided to patients. Thus, preventive measures against its development associated to the early diagnosis and adequate clinical management are fundamental for the reduction of its prevalence.

Burnout, Professional; Prevalence; Internship and Residency

INTRODUÇÃO

A medicina é uma atividade laborativa conhecida por elevados padrões de exigência. O período de formação do profissional médico inclui a residência médica, etapa em que fatores estressores podem ser ampliados. É um período propício à fadiga física e mental, o que pode prejudicar o rendimento no ambiente de trabalho e levar ao sofrimento do indivíduo, que, quando intensificado, leva ao que foi definido como burnout.

O conceito de burnout foi introduzido na década de 1970 pelo psicólogo germânico Herbert Freudenberger (1926-1999)11. Freudenberger, H., Richelson G. Burn Out: The High Cost of High Achievement. What it is and how to survive it. New York: Bantam, 1980.. Esse estudioso definiu burnout como a exaustão consequente da excessiva exigência de energia, força ou recurso na realização de determinada atividade. O assunto, depois, foi exaustivamente estudado pela pesquisadora Christina Maslach22. Maslach, C.; Jackson, S.E.; Leiter, M.P. (Maslach burnout inventory. (3rd ed.). Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1996.,33. Maslach C, Schaufeli WB, Leiter MP. Job burnout. Ann Rev Psychol. 2001;52:397-422., que definiu o burnout da maneira mais conhecida e empregada atualmente: uma síndrome de exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização profissional que pode ocorrer entre indivíduos que trabalham com pessoas22. Maslach, C.; Jackson, S.E.; Leiter, M.P. (Maslach burnout inventory. (3rd ed.). Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1996..

Em sua definição, o burnout é constituído por três dimensões independentes, que podem se relacionar entre si. A primeira consiste na exaustão emocional, marcada pela carência de entusiasmo e energia, levando à sensação de esgotamento de recursos. Despersonalização, que caracteriza a segunda dimensão, é constituída pela insensibilidade emocional, que reflete o desenvolvimento de atitudes frias, negativas e insensíveis direcionadas ao serviço prestado, culminando na desumanização, na hostilidade, na intolerância e no tratamento impessoal para com clientes, colegas e superiores. Por fim, a última dimensão é a falta de realização no trabalho, quando os indivíduos tendem a acreditar que seus objetivos profissionais não foram atingidos e vivenciam uma sensação de insuficiência e baixa autoestima.

A síndrome de burnout apresenta-se com sintomas físicos (fadiga constante e progressiva, distúrbios do sono, dificuldade para relaxar, dores musculares, cefaleia, sudorese, palpitações, distúrbios gastrointestinais, transtornos alimentares, imunodeficiência), psíquicos (dificuldade para se concentrar, diminuição da memória, tendência a ruminar pensamentos, lentidão do pensamento), emocionais (irritação, agressividade, desânimo, ansiedade, depressão), comportamentais (perda da iniciativa, inibição, desinteresse, tendência ao isolamento, negligência, falta de interesse pelo trabalho ou lazer, adoção de uma rotina cada vez mais estreita, falta de flexibilidade). Tudo isso em conjunto pode levar a um sentimento de autodepreciação, de culpa, ou à adoção de uma conduta de superioridade e onipotência, que pode levar ao isolamento, aumentando o absenteísmo, à dependência do tabaco, ao consumo de bebidas alcoólicas, drogas ilícitas, café, ansiolíticos e outras medicações44. Benevides-Pereira A.M., Gonçalves M.B. Transtornos mentais e a formação em medicina: um estudo longitudinal. RevBrasEduc Med. 2009; 33(1):10-23..

Existem diversas ferramentas para avaliar o índice de burnout em determinadas populações de trabalhadores. A mais aceita foi desenvolvida pela própria Christina Maslach e por Susan Jackson na década de 1980 (Maslach Burnout Inventory, 1981), constando em mais de 90% das publicações, com validação para diversos idiomas, inclusive para a língua portuguesa55. Benevides-Pereira A.M.T, organizador. Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2002.. Esse questionário foi modificado e adaptado em função das diferentes áreas de atuação do profissional, incluindo a saúde (Maslach Burnout Inventory – Human Services Survey). Todas as versões abordam o conceito tridimensional do burnout (exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional).

Dada a sua importância e relevância, vários estudos sobre o tema de burnout em médicos residentes foram desenvolvidos nos últimos anos, enfatizando a necessidade de aprofundar esse conhecimento, buscando identificar fatores predisponentes, riscos e, principalmente, propor mudanças para sua prevenção.

Na Universidade de Washington, por exemplo, um estudo demonstrou prevalência de burnout em 76% dos residentes participantes do estudo, com valor médio de 26,4 para exaustão emocional, 12,7 para despersonalização e 36,2 para baixa realização profissional66. Shanafelt TD, Bradley KA, Wipf JE, Back AL. Burnout and self-reported patient care in an internal medicine residency program. Ann Intern Med. 2002; 136(5): 358-67..

Oliveira et al.77. Oliveira G.S.J., Chang R.B.S., Fitzgerald P.C., Almeida M.D., Castro-Alves L.S., Ahmad S., et al. The prevalence of burnout and depression and their association with adherence to safety and practice standards: a survey of united states anesthesiology trainees. AnesthAnalg. 2013;117(1)182-93. também analisaram a prevalência de burnout e depressão entre 1.508 residentes de Anestesiologia norte-americanos; 41% apresentavam elevados níveis de burnout e, desses, 71% estavam insatisfeitos com o trabalho quando comparados aos 23% com baixos níveis de burnout (p < 0,001). Além disso, residentes que apresentaram elevados níveis de burnout admitiram ter cometido mais erros com consequências negativas para o paciente.

Outro estudo, realizado por Thomas88. Thomas N.K. Resident burnout. JAMA. 2004; 292(23): 2880-9., também encontrou alta incidência de burnout em médicos residentes e sugeriu que a síndrome poderia estar associada com depressão e dificuldade de cuidar dos pacientes. Entretanto, os trabalhos atuais são insuficientes para determinar o agente causal e/ou identificar perfis característicos de alto risco para burnout.

Com o objetivo de analisar a associação entre burnout, autopercepção de erro médico e compromisso com o trabalho, Prins99. Prins J.T., Van der Heijden F.M.M.A., Hoekstra-Weebers J.E.H.M., Bakker A.B., Van de Wiel H.B.M., Jacobs B., et al. Burnout, engagement and resident physicians’ self-reported errors. Psychol Health Med. 2009;14(6):654-66. realizou um estudo transversal em 2.115 residentes dos Países Baixos e demonstrou que residentes com burnout cometeram maior número de erros médicos (p < 0,001).

Já na literatura nacional, em estudo realizado com 120 médicos residentes do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia em 2004, 65% apresentaram alta exaustão emocional, 61,7% alta despersonalização, e 30% baixa realização profissional. Além disso, observou-se que os residentes pertencentes às áreas cirúrgicas apresentaram maior despersonalização em relação aos das áreas clínicas1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46..

Em outro estudo brasileiro realizado com 24 residentes do programa de Clínica Médica da cidade de São Paulo em 2012, metade dos participantes apresentou critérios para a síndrome de burnout. Exaustão emocional foi relatada por 75% dos participantes (escore médio: 32,37; DP ± 9,99), assim como despersonalização (escore médio: 12,91; DP ± 5,15). Os níveis de realização profissional foram baixos em 70,8% dos residentes (escore médio: 27,66; DP ± 7,81)1111. Fabichak C., Da Silva-Junior J.S, Morrone L.C. Síndrome de burnout em médicos residentes e preditores organizacionais do trabalho. RevBrasMed Trab.2014;12(2):79-84.

Em dissertação de mestrado, 305 residentes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto foram estudados em 2012, sendo registrados altos índices de distanciamento emocional (71,1%), seguidos por exaustão emocional (69,2%) e desumanização (52,8%). Quanto à dimensão realização pessoal, apenas 11,8% dos residentes apresentaram níveis reduzidos. Os indicadores exaustão emocional, distanciamento emocional e desumanização foram associados positivamente aos indicadores de ansiedade e depressão, ao passo que realização pessoal foi associada negativamente1212. Lima, K.P. Associações e comparações entre burnout, ansiedade, depressão e habilidades sociais de residentes médicos de diferentes áreas. Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestre em Ciências. 2014.

Rodrigues1313. Rodrigues, R.T.S.. Resiliência e características de Personalidade de médicos residentes como proteção para o Burnout e Qualidade de vida. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. 2012, em sua tese de doutorado, buscou verificar a associação entre resiliência e sua influência no burnout entre 121 médicos residentes durante o primeiro ano de residência de Medicina no Hospital Central da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ingressantes no Programa de Residência no ano de 2010. Quanto a burnout, os médicos residentes apresentaram escores indicativos de burnout moderado, não tendo havido diferença estatisticamente significante comparando-se o início e o fim do primeiro ano (p = 0,121). Porém, ao analisar os domínios isoladamente, encontrou diferença estatisticamente significante, entre os dois momentos, na despersonalização (p = 0,004) e baixa realização profissional (p = 0,001). A associação de burnout com resiliência não apresentou resultados estatisticamente significantes, porém houve forte tendência de associação nos domínios exaustão emocional e baixa realização profissional.

Hoelz1414. Hoelz L., Campello L. Relação entre Síndrome de Burnout médico e longa jornada de trabalho em residentes de medicina. RevBrasMed Trab. 2015;13(2):126-34. escreveu uma revisão bibliográfica sobre o tema, publicada em 2015, na qual selecionou 25 artigos que avaliaram burnout por meio da MBI em residentes. Concluiu que o modelo de residência médica utilizado como forma de aperfeiçoamento acadêmico faz com que o residente atue não só como aprendiz, quando cumpre o papel de estudante junto à preceptoria, mas também como mão de obra do serviço, dinamizando o fluxo de atendimento. Esse duplo papel poderia ser um facilitador para distúrbios mentais como o burnout. Além disso, a autora observou um aumento de erros médicos entre os residentes acometidos por burnout e/ou que trabalham por longas jornadas, e a redução da carga horária tem mostrado resultados positivos para amenizar esse problema.

Outra questão relevante é a influência da personalidade do indivíduo como fator indutor de burnout. Segundo Benevides-Pereira55. Benevides-Pereira A.M.T, organizador. Burnout: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2002., as características pessoais têm o papel de facilitadores ou inibidores da ação dos agentes estressores. Elas interagem de modo complexo com estes agentes, inibindo, eliminando ou intensificando o quadro. Pessoas mais competitivas, esforçadas, impacientes, com excessiva necessidade de controle, dificuldade de tolerar frustração, baixa autoestima em geral apresentam maior propensão ao desenvolvimento da síndrome. Segundo Schaufeli e Buunk1515. Schaufeli WB, Buunk BP. Burnout: an overview of 25 years of research an theorizing. In: Schabracq MJ, Winnusbst JAM, Cooper CL, eds. The handbook of work and health psychology. New York: J Wiley & Sons; 2003; 383-425., somente indivíduos que atribuem grande significado a seu trabalho são suscetíveis ao burnout, pois estão envolvidos de forma intensa com o que realizam.

Com base na literatura nacional e internacional e em todos os argumentos apresentados, torna-se clara a motivação para realizar estudos, mesmo que transversais, para determinar a prevalência dessa síndrome, formular fatores preditores e/ou agravantes e gerar uma estratégia para redução da síndrome.

OBJETIVOS DO ESTUDO

Determinar a prevalência de burnout e de cada uma de suas dimensões na população de médicos residentes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, estratificando-os nas diferentes áreas de atuação, ano de residência, necessidade de trabalho externo para complementação de renda, gênero, estado civil e presença de família para suporte financeiro e emocional. Por fim, comparar os resultados obtidos com os apresentados na literatura mundial.

MÉTODOS

Estudo transversal numa população de médicos residentes com contrato ativo com a Coreme do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) no ano de 2015, de todas as áreas de atuação, mediante aplicação de uma avaliação informatizada enviada ao e-mail institucional desses profissionais. Antes de responder ao questionário, o residente deveria concordar em participar do estudo de forma voluntária e anônima, lendo e aceitando o texto explicativo enviado por e-mail, dispensando, dessa forma, a aplicação de termo de consentimento informado. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE: 50787215.0.0000.5327), tendo recebido aprovação pelo parecer no 1.348.894.

O instrumento usado era constituído de duas partes: a primeira incluía características sociodemográficas, e a segunda, o questionário Maslach Burnout Inventory (MBI). O questionário MBI de 22 perguntas abrangeu as três dimensões relacionadas ao quadro: nove questões sobre exaustão emocional, oito questões sobre realização profissional e cinco sobre despersonalização. As respostas foram em escala do tipo Likert com sete opções: “nunca”, “uma vez ao ano ou menos”, “uma vez ao mês ou menos”, “algumas vezes no mês”, “uma vez por semana”, “algumas vezes por semana” e “todos os dias”. A síndrome foi definida usando-se os pontos de corte da exaustão emocional em nível alto (≥ 26), despersonalização em nível alto (≥ 9) ou nível baixo para realização profissional (≤ 33).

A fim de estimar a proporção de casos de burnout entre os médicos residentes, o tamanho da amostra, calculado por meio do programa WinPepi, versão 11.47, foi de 93 indivíduos. Para o cálculo foi utilizado um nível de confiança de 95%, considerando amostragem simples, e uma proporção de 0,4 com uma diferença aceitável de 0,1. Essa proporção foi estipulada em conformidade com um conjunto de estudos prévios identificados na literatura sobre o assunto; consideramos, assim, uma prevalência de 40% como razoável.

Para a análise estatística do estudo utilizou-se o software SPSS, versão 18. Para avaliar a ocorrência de burnout e seus múltiplos domínios nos diferentes grupos da estratificação, foram utilizados o teste exato de Fisher e o teste do Qui-Quadrado de Pearson, dependendo do tamanho do grupo em análise.

RESULTADOS

A amostra consistiu em 151 participantes de um total de 506 residentes, com dados coletados de dezembro de 2015 a janeiro de 2016. A maioria era do sexo feminino (58,3%) e solteira (83,4%); tinha suporte familiar (84,1%); trabalhava para complementação de renda (63,6%); e tinha rendimentos de até R$ 5.000,00 mensais (78,8%). A distribuição dos participantes por ano de residência foi praticamente homogênea, com a grande maioria cursando até o terceiro ano do programa (81,5%). Residentes do quarto e quinto ano corresponderam à menor parte da amostra (15,2% e 3,3%, respectivamente).

A maioria dos participantes pertencia à categoria “Clínica Médica, incluindo subespecialidades” (37,1%). Residentes da Psiquiatria corresponderam a 11,3% da amostra, seguidos por “Cirurgia e subespecialidades” e “Anestesiologia” (7,9% cada). A categoria “Outras” teve 26 respostas, o que correspondeu a 17,2% do total da amostra. Outras áreas de atuação na residência médica tiveram participação mais discreta e estão discriminadas na Tabela 1.

TABELA 1
Características da amostra pesquisada

Burnout foi definido pela presença de pontuação acima do ponto de corte estabelecido em pelo menos uma das três dimensões, como preconizam Grunfeld et al.1717. Grunfeld E., Whelan T.J., Zitzelsberger L., Willan A.R., Montesanto B., Evans W.K.. Cancer care workers in Ontario: prevalence of burnout, job stress and job satisfaction. Canadian Medical Association Journal, 2000 Jul 25; 163(2):166-9.. De maneira geral, o fenômeno esteve presente em 123 participantes do nosso estudo (prevalência de 81,5%), conforme mostrado no Gráfico 1.

GRÁFICO 1
Prevalência de burnout na população de médicos residentes do HCPA

A dimensão “exaustão emocional” foi a mais frequente (53%), seguida por “despersonalização” (47,7%) e por “falta de realização profissional” (45%), como visualizado no Gráfico 2.

GRÁFICO 2
Prevalência das diferentes dimensões de burnout na amostra

Quanto à soma dos domínios de burnout, 33,1% dos médicos residentes apresentaram o fenômeno em apenas uma de suas dimensões; 28,7% em duas; e, por fim, 20,5% nas três dimensões da síndrome. (Gráfico 3).

GRÁFICO 3
Prevalência da soma das diferentes dimensões de burnout na amostra

Apenas 18,5% da amostra não atingiram os valores de corte que definem burnout, em qualquer uma das dimensões (Tabela 2).

TABELA 2
Prevalência de burnout e suas dimensões entre os médicos residentes pesquisados

Uma análise estatística foi realizada a fim de se verificarem associações das características sociodemográficas dos participantes e área de atuação com o fenômeno de burnout. Esses resultados e os valores de erro alfa das medidas de associação podem ser encontrados na Tabela 3.

TABELA 3
Relação entre frequência de burnout e cada uma de suas dimensões com características sócio-ocupacionais da amostra

Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas na estratificação para estado conjugal (p 0,27), necessidade de trabalho externo para complementação de renda (p 0,34) ou presença de família para suporte financeiro ou emocional (p 0,38). Também não foram encontradas diferenças quando cada dimensão do burnout foi analisada separadamente. Da mesma forma, a estratificação da amostra por faixa de renda não encontrou significância estatística, à exceção de p alfa significativo para a dimensão da exaustão emocional naqueles que declararam renda maior do que R$ 10.000,00 mensais (RP 0,16, IC 0,01 – 1,00).

O gênero masculino associou-se positivamente ao fenômeno de burnout, com p alfa significativo de 0,02 (razão de prevalência de 1,20, com IC 1,04 – 1,40). Os homens também apresentaram maior associação com despersonalização quando comparados às mulheres (RP 1,36, IC 1,009 – 1,838). Não foram encontradas diferenças quanto às outras duas dimensões do burnout (p 0,26 para exaustão emocional e p 0,59 para falta de realização profissional).

Quando a amostra foi estratificada pelo ano de residência, encontrou-se significância estatística para ocorrência de burnout nos médicos que cursavam o segundo e o quarto ano. Os cursistas do segundo ano tiveram maior associação com a síndrome (RP 1,19, IC 1,04 – 1,36), enquanto aqueles que estavam no quarto ano não (RP 0,77, IC 0,56 – 1,00, p = 0,04). Quando examinamos as dimensões separadamente, médicos residentes do segundo ano tiveram maior associação com falta de realização profissional (RP 1,41, IC 1,001 – 2,01, com p = 0,05), além de despersonalização (RP 1,36, IC 1,009 – 1,836, com p = 0,05). Médicos do quarto ano, por outro lado, apresentaram menores taxas de despersonalização, alcançando significância estatística (RP 0,38, IC 0,17 – 0,83). Não foi encontrada diferença para burnout ou quaisquer de suas dimensões nos residentes dos demais anos.

Por fim, a amostra foi analisada segundo a área de atuação do médico residente. Nenhuma especialidade teve maior associação com o fenômeno de burnout; vale destacar que “Pediatria” teve valor de erro alfa muito próximo da significância estatística (p 0,06), com tendência a menor associação. Vale mencionar ainda que, quando analisamos cada dimensão do burnout individualmente, percebemos que residentes de especialidades cirúrgicas estiveram menos associados à exaustão emocional (RP 0,25, IC 0,09 – 0,67, p = 0,04) e à falta de realização na profissão (RP 0,17, IC 0,04 – 0,59). Residentes da Psiquiatria e da Radiologia tiveram resultados com significância estatística para a dimensão da despersonalização, mas com vetores opostos: cursar Psiquiatria se mostrou um fator protetor (RP 0,53, IC 0,25 – 1,00), ainda que fracamente, enquanto cursar Radiologia esteve fortemente associado a essa dimensão em especial (RP 2,15, IC 1,80 – 2,56). Os resultados encontrados foram resumidos na Tabela 4.

TABELA 4
Razões de prevalência das características dos médicos que estiveram associadas a burnout e suas dimensões

DISCUSSÃO

A residência médica é uma etapa em que o médico residente está, indubitavelmente, mais suscetível ao burnout. É um período de formação em que o profissional vive uma dualidade de papéis: por um lado, ele é cobrado como aluno em aprendizado; por outro, deve agir como um profissional completo, de quem se exige responsabilidade, competência e eficiência1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46..

A pontuação para existência ou não de burnout difere na literatura. Alguns pesquisadores, como Ramirez et al.1616. Ramirez A.J., Graham J., Richards M.A.,Cull A., Gregory W.M., Leaning M.S., et al. Burnout and psychiatric disorder among cancer clinicians. British journal of cancer, 1995; 71(6): 1263-9. definem a presença de burnout caso o indivíduo apresente alterações nas três dimensões (exaustão emocional, despersonalização e falta de realização profissional). Grunfeld et al.1717. Grunfeld E., Whelan T.J., Zitzelsberger L., Willan A.R., Montesanto B., Evans W.K.. Cancer care workers in Ontario: prevalence of burnout, job stress and job satisfaction. Canadian Medical Association Journal, 2000 Jul 25; 163(2):166-9., por outro lado, consideram que a presença de alteração em apenas uma das três dimensões já é suficiente para caracterizar a síndrome. A despeito dessa controvérsia na literatura, decidimos seguir este último autor, uma vez que consideramos a presença de burnout em quaisquer das dimensões, mesmo que de forma isolada, igualmente deletéria para que o médico residente desempenhe plenamente seu papel.

Em nosso estudo, a prevalência da síndrome de burnout foi de 81,5%. Em estudos internacionais, ela varia de 50% a 74% entre residentes médicos em geral88. Thomas N.K. Resident burnout. JAMA. 2004; 292(23): 2880-9.,99. Prins J.T., Van der Heijden F.M.M.A., Hoekstra-Weebers J.E.H.M., Bakker A.B., Van de Wiel H.B.M., Jacobs B., et al. Burnout, engagement and resident physicians’ self-reported errors. Psychol Health Med. 2009;14(6):654-66.,1818. Fahrenkopf A.M., Sectish T.C., Berger L.K., Sharek P.J., Lewin D., Chiang V.W., et al. Rates of medication errors among depressed and burnt out residents: prospective cohort study. BMJ. 2008; 336(7642):488-91.. No Brasil, a presença dessa síndrome foi encontrada em 50% a 78,4%1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46.,1111. Fabichak C., Da Silva-Junior J.S, Morrone L.C. Síndrome de burnout em médicos residentes e preditores organizacionais do trabalho. RevBrasMed Trab.2014;12(2):79-84,1313. Rodrigues, R.T.S.. Resiliência e características de Personalidade de médicos residentes como proteção para o Burnout e Qualidade de vida. Tese de Doutorado. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. 2012.

Thomas88. Thomas N.K. Resident burnout. JAMA. 2004; 292(23): 2880-9., em estudos sobre burnout em médicos residentes, aponta que algumas características demográficas e de personalidade estão presumivelmente relacionadas com o risco de desenvolvimento de burnout na residência. No entanto, o autor afirma que os trabalhos atuais são insuficientes para determinar quais fatores demográficos estão associados a esse risco. Ao encontro da literatura, em nosso estudo não identificamos perfis demográficos característicos de alto risco para burnout, à exceção de diferença estatisticamente significativa entre as populações feminina e masculina, com maior frequência de burnout e despersonalização nos homens. Poder-se-ia inferir que, por ser de adesão voluntária, a frequência de residentes que apresenta burnout e despersonalização talvez não reflita a totalidade deles, pois aqueles que aceitaram participar do questionário poderiam ter maior sensibilização e conhecimento sobre o assunto.

Michels et al.1919. MichelsI, P. J., Probst, J. C., Godenick, M. T., Palesch, Y.. Anxiety and anger among family practice residents: a South Carolina family practice research consortium study. Academic Medicine, Philadelphia.2003; 78(1), 69-79., em um estudo longitudinal com 350 médicos residentes norte-americanos do programa de Medicina de Família, identificaram um nível significativamente maior de despersonalização em residentes do sexo masculino em relação ao sexo feminino. Outro estudo longitudinal, desenvolvido por Campbell et al.2020. Campbell, J., Prochazka, A. V., Yamashita, T., & Gopal, R. Predictors of persistent burnout in internal medicine residents: a prospective cohort study. Academic Medicine.2010; 85(10), 1630-1634. com 86 residentes médicos norte-americanos do programa de Clínica Médica, realizou três avaliações, sendo uma por ano de residência, tendo também identificado níveis mais elevados de despersonalização em residentes do sexo masculino. O mesmo achado foi demonstrado no estudo de Shanafelt et al2121. Shanafelt T.D., Bradley K.A., Wipf J.E., Back A.L. Burnout and self-reported patient care in an internal medicine residency program. Ann Intern Med. 2002; 136(5): 358-67., sendo, no entanto, um dado de interpretação bastante limitada, em virtude de poucos trabalhos publicados estratificarem o burnout por gênero. Por outro lado, alguns estudos não identificaram diferença estatística entre os sexos1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46.,1111. Fabichak C., Da Silva-Junior J.S, Morrone L.C. Síndrome de burnout em médicos residentes e preditores organizacionais do trabalho. RevBrasMed Trab.2014;12(2):79-84, e outros mostraram maior frequência no sexo feminino. Peterlini et al.2222. Peterlini, M., Tibério, I. F., Saadeh, A., Pereira, J. C., & Martins, M. A. Anxiety and depression in the first year of medical residency training. Medical Education, Oxford. 2002; v. 36, p. 66-72., em estudo desenvolvido num hospital público universitário do Estado de São Paulo, identificaram médias significativamente maiores tanto para ansiedade quanto para depressão em residentes do sexo feminino.

Com relação ao ano de residência, nosso trabalho mostrou que os médicos do segundo ano foram os que apresentaram maior associação com burnout. Esse dado é consistente com o estudo de Bellini et al.2323. Bellini L.M., Baime M., Shea J.A. Variation of mood and empathy during intership. JAMA, 2002;287(23):3143-3146., em que a frequência de burnout foi maior conforme os anos de residência progrediam. Uma explicação plausível para esse fenômeno seria o fato de que os residentes iniciam o primeiro ano de residência com mais vigor e energia, ao passo que, após esse período, predominariam as manifestações dos domínios do burnout. Pode-se inferir que as crescentes responsabilidades e preocupações profissionais colaboram para esse fenômeno. Porém, Sakata et al.2424. Sakata, Y., Wada, K., Tsutsumi, A., Ishikawa, H., Aratake, Y., Watanabe, M., Tanaka. Effort-reward imbalance and depression in Japanese medical residents. Journal of Occupational Health, Tokyo. 2008; 50(6), 498-504. não identificaram diferença significativa, em estudo longitudinal com 196 médicos residentes japoneses de diferentes especialidades, ao compararem a presença de indicadores de depressão em residentes de primeiro e segundo ano.

Ademais, na literatura, são diversos os resultados sobre o peso de cada dimensão do burnout segundo a área de atuação do médico residente. Enquanto o novo estudo mostrou as especialidades cirúrgicas apresentando menores taxas de exaustão emocional e redução de realização profissional, Gelfand et al.2525. Gelfand D.V., Podnos Y.D., Carmichael J.C., Saltzman D.J., Wilson S.E., Williams R.A. Effect of the 80-hour workweek on resident burnout. Arc Surg. 2004; 139:933-38. mostraram que, em médicos residentes da Cirurgia Geral, predominam a exaustão emocional e a despersonalização. Assim como Lima et al.1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46., que mostraram que não houve diferença estatística entre as especialidades para a exaustão emocional, porém mostraram associação entre especialidades cirúrgicas e despersonalização. O mesmo resultado foi visto na dissertação de mestrado realizada na USP de Ribeirão Preto1212. Lima, K.P. Associações e comparações entre burnout, ansiedade, depressão e habilidades sociais de residentes médicos de diferentes áreas. Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo para a obtenção do título de Mestre em Ciências. 2014.

Outro dado interessante apresentado no presente estudo foi a associação da Psiquiatria com fator protetor para despersonalização, diferentemente da Radiologia, que foi fator de risco. Isto nos leva a pensar que existem fatores organizacionais e características de personalidade – estas últimas com forte influência sobre a escolha do residente pela especialidade – relacionadas ao desenvolvimento de burnout.

Um dos pontos positivos do nosso estudo é que a coleta dos dados ocorreu próxima ao final do ano dos programas de residência. Assim, os participantes já tinham sido expostos a todas as condições ocupacionais previstas para o seu treinamento. A exposição crônica aos estressores ocupacionais de forma acumulada é descrita como um dos pilares da etiopatogenia da síndrome de burnout1010. Lima F.D., Buunk A.P., Araújo M.B.J., Chaves J.G.M.,Muniz D.L.O.,Queiroz L.B.D.Síndrome de Burnout em Residentes da Universidade Federal de Uberlândia-2004. Revbraseduc méd. 2007; 31(2):137-46..

Outra questão interessante, já abordada em estudo transversal com128 residentes, é a qualidade de vida dos médicos residentes. Observou-se que a qualidade de vida era melhor no segundo de residência em comparação ao primeiro ano (p < 0,01). Além disso, identificaram-se alguns preditores de melhor qualidade de vida, como: estar no segundo ou terceiro ano, estar satisfeito com o treinamento, ter tempo suficiente para lazer e atender paciente crítico durante menos de 30 horas semanais26.

A grande relevância desse tema se torna mais notável quando grandes instituições começam a criar soluções para prevenir e tratar as complicações do estresse relacionado ao trabalho. Em estudo retrospectivo de dezembro de 1996 a novembro de 2002, que incluiu 233 estagiários (residentes médicos e de Enfermagem, e estudantes de pós-graduação em especialização, mestrado ou doutorado) atendidos por um serviço criado para auxiliar os jovens profissionais da Universidade Federal de São Paulo, observou-se que 52,4% dos profissionais atendidos referiram uso de bebidas alcoólicas, 11,6% já tinham pensado em cometer suicídio e 3,4% já haviam tentado. No que diz respeito aos médicos residentes, a demanda por ajuda profissional ocorreu no primeiro ano de treinamento e estava relacionada a um aumento acentuado do estresse. Essa estratégia deve ser parabenizada e tomada como exemplo para as demais instituições2727. Fagnani Neto, R., Obara, C. S., Macedo, P. C. M., Cítero, V. A., & Nogueira-Martins, L. A. Clinical and demographic profile of users of a mental health system for medical residents and other health professionals undergoing training at the Universidade Federal de São Paulo. Sao Paulo Medical Journal, 2004.;122(4), 152-157..

Nosso estudo apresenta algumas limitações que merecem ser citadas. Primeiramente, é possível ter ocorrido viés de seleção, talvez pelo maior interesse de indivíduos com sofrimento físico e emocional, manifestações clássicas da síndrome, em participar. Ainda assim, a presença de casos nessa amostra já indica a necessidade de melhorias nas condições de trabalho e a abordagem desses médicos para tratamento. Em segundo, viés de aferição pode ter ocorrido, mesmo utilizando-se um instrumento validado, uma vez que o inquérito aborda questões subjetivas, sendo essa limitação inerente ao método. Em terceiro, por ser um estudo transversal, não permite inferir causalidade, estando sujeito ao confundimento. Por fim, em quarto, embora a amostra de 151 residentes seja superior ao necessário pelo cálculo de amostra inicial, esta não representa a totalidade dos residentes dessa instituição, o que compromete o seu poder de generalização.

CONCLUSÃO

A elevada prevalência de burnout evidenciada entre os 151 médicos residentes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre neste trabalho suscita preocupação e indica a necessidade de intervenções preventivas. Entre as consequências negativas do burnout, além da desistência da profissão, estão a diminuição da qualidade da assistência aos pacientes e o risco aumentado de erro médico e de desenvolvimento de depressão.

Além disso, nosso estudo demonstrou associação entre sexo masculino e segundo ano de residência e burnout, porém tais associações variam na literatura mundial. Quanto à área de atuação, nenhuma especialidade mostrou associação com burnout, mas, quando separada por domínios, a Radiologia foi fator de risco para despersonalização, e a Psiquiatria, fator protetor.

Acreditamos que nosso estudo alerta para o fato de que é necessária a continuidade de pesquisas com médicos residentes, especialmente para que se elucidem os fatores de risco que desencadeiam o desenvolvimento de burnout, tais como fatores organizacionais e características de personalidade, os quais não foram abordados neste estudo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Sep 2018

Histórico

  • Recebido
    29 Nov 2017
  • Aceito
    12 Jan 2018
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