O púlpito como cena: performance e teatralidade em Damares Alves

The pulpit as a stage: performance and theatricality in Damares Alves

Juliana Coelho de Souza Ladeira Sobre o autor

RESUMO

Um número considerável de setores evangélicos constitui o que se convencionou denominar a “nova direita brasileira” ou a “direita radical”. Por vinte anos, Damares Alves, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos no atual governo Jair Bolsonaro, ocupa um lugar privilegiado no Congresso Nacional no controle de políticas públicas. Três palestras de Alves serão examinadas neste artigo dedicado à análise de suas estratégias performativas e teatrais, ou seja, suas formas de autoexpressão, seus meios e reivindicações, bem como os valores e símbolos a elas associados.

Palavras-chave:
Damares Alves; Igrejas evangélicas; Mulheres; Política; Performance; Teatralidade

ABSTRACT

A substantial number of evangelical sectors are part of what is being identified as the “new Brazilian right” or the “radical right”. For twenty years, Damares Alves, Minister for Women, Family and Human Rights in the current government of Jair Bolsonaro, has occupied a privileged place in the National Congress, in controlling public policies. Three Alves lectures will be examined in this article devoted to the analysis of its performative strategies. Here we call performative and theatrical strategies the forms of self-expression, their means, and requests, as well as the values and the symbols associated with them.

Keywords:
Damares Alves; Evangelical churches; Women; Politics; Performance; Theatricality

RÉSUMÉ

Un nombre considérable de secteurs évangéliques constitue ce qu’il est convenu d’appeler aujourd’hui la “nouvelle droite brésilienne” ou la “droite radicale”. Or, depuis une vingtaine d’années, Damares Alves, ministre des Femmes, de la Famille et des Droits de l’Homme de l’actuel gouvernement de Jair Bolsonaro, occupe une place privilégiée au Congrès national dans le contrôle de politiques publiques. Trois conférences d’Alves seront examinées dans le présent article consacré à l’analyse de ses stratégies performatives et théâtrales, à savoir, les formes d’expression personnelle, leurs moyens et les revendications, ainsi que les valeurs et symboles liés à celles-ci.

Mots-clés:
Damares Alves; Églises évangéliques; Femmes; Politique; Performance; Théâtralité

Desde o final do século passado, o movimento evangélico vem sendo considerado como uma das maiores forças políticas no Brasil1 1 De acordo com Bastian (2018) e diversos outros autores, o apoio dos evangélicos foi crucial para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. . Composto por uma multiplicidade de igrejas e congregações, espalhadas por todas as regiões do país, esse movimento está longe de ser teologicamente homogêneo e coerente. Consequentemente, ele apresenta divergências importantes em seu seio e dentro dos diferentes grupos que o constituem. Dentre os diversos atores presentes na cena política contemporânea, Damares Alves, a atual ministra das Mulheres, das Minorias e dos Direitos Humanos, ocupa uma posição privilegiada. Parte integrante do atual governo de Jair Bolsonaro, Alves exerce suas funções desde 2019 e tem diversas políticas públicas sob seu controle, gozando de considerável presença na mídia.

O principal objetivo deste trabalho é examinar, de maneira mais detida, o uso estratégico de certos dispositivos teatrais e performáticos feito por Damares Alves, os quais têm o intuito de convencer seus interlocutores a respeito de seus propósitos e de exortá-los a agir politicamente. O corpus aqui reunido conta com três performances híbridas de Alves, entre palestra e pregação: “Pregação com Dr. Damares Alves”, de 2013PREGAÇÃO com Dr. Damares Alves. Canal Primeira Batista, [s.l.], 13 abril 2013. (72 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BKWc0sUOvVM. Acesso em: 26 jan. 2020.
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; “Mulheres Avivadas ADEG 2015”2 2 Este vídeo não se encontra mais presente no YouTube. No entanto, ele faz parte de nosso arquivo pessoal. , de 2015; e “Infância Protegida/PR Damares Alves”, de 2016INFÂNCIA Protegida | Pr. Damares Alves. Canal Lagoinha, Belo Horizonte, 3 mai. 2016. (88 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=O2bJI_W10vI. Acesso em: 26 jan. 2020.
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, realizados respectivamente nos templos Primeira Igreja Batista de Campo Grande, Primeira Igreja Batista de Gama e Igreja Batista da Lagoinha3 3 Trechos desses vídeos tornaram-se famosos após a nomeação de Damares Alves para o governo de Jair Bolsonaro. Em sua maioria, os trechos popularizados pelas redes sociais tinham o objetivo de ridicularizar Alves, não se dedicando à análise do conteúdo restante. Por exemplo, em um trecho que se tornou popular do vídeo “Mulheres Avivadas ADEG 2015”, Alves afirma que as feministas seriam “feias” e que tinham inveja das mulheres evangélicas, porque estas últimas seriam “lindas” e “casadas”. , em Belo Horizonte. Vistos como performances, essas palestras-pregações são um espaço para o que Schechner (1985)SCHECHNER, Richard. Between Theater and Anthropology. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1985. denomina “comportamento restaurado”, em que as ações do performer transmitem “[...] conhecimento, memória e senso de identidade social” (Taylor, 2003).

Este artigo busca responder às seguintes questões: como Damares Alves se apresenta e se coloca em situação de performance? Como podemos interpretar e analisar as relações entre o conjunto de códigos visíveis que ela exibe e seus discursos? Como esses discursos articulam-se com referências vindas da retórica religiosa e outras oriundas da esfera do real, com o intuito de convencer o auditório? E, finalmente, quais estratégias performativas e teatrais (Ladeira, 2020LADEIRA, Juliana Coelho De Souza. Le corps féminin en performance: une étude de cas des mouvements #elenão et #elesim. L’Ethnographie, 3-4, 2020. Disponível em: https://revues.mshparisnord.fr/ethnographie/index.php?id=646. Acesso em: 24 abr. 2020.
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) poderiam ser discernidas a partir do corpus de vídeos selecionado? Antes de iniciar esta análise, é necessário apresentar algumas considerações preliminares sobre o engajamento político dos diversos setores evangélicos no país.

Os evangélicos no Brasil

Na América Latina, o termo “evangélico” refere-se, de um modo geral, a todas as igrejas cristãs nascidas da Reforma Protestante do século XVI, englobando as igrejas protestantes conhecidas como “históricas”4 4 As igrejas protestantes tradicionais também são chamadas de “missões evangélicas” Estas incluem as igrejas presbiterianas, anglicanas, metodistas, batistas e congregacionais evangélicas. , bem como as pentecostais e neopentecostais:

[…] os pentecostais, diferentemente dos protestantes históricos, acreditam que Deus, por intermédio do Espírito Santo e em nome de Cristo, continua a agir hoje da mesma forma que no cristianismo primitivo, curando enfermos, expulsando demônios, distribuindo bênçãos, concedendo infinitas amostras concretas de Seu supremo poder e inigualável bondade (Mariano, 2005, p. 10MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2005.).

O estabelecimento do Pentecostalismo no Brasil é frequentemente descrito por seu desenvolvimento em três ondas sucessivas (Freston, 1993FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1993. Tese (Doutorado em Ciências Sociais).; Mariano, 1999). A primeira teve início na década de 1910 e foi marcada pelo surgimento das igrejas Congregação Cristã (1910) e Assembleia de Deus (1911). A segunda onda corresponde aos anos 50 e 60 e se caracterizou pela fragmentação do campo pentecostal e pelo aparecimento da Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), O Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). O início da terceira onda teve início na década de 1970, com a criação da Igreja Universal do Reino de Deus (1977), da Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) e da Igreja Renascer em Cristo (1986), o que corresponde ao nascimento do neopentecostalismo brasileiro. O neopentecostalismo é caracterizado por sua ênfase no “[...] exorcismo – baseado na teologia da batalha espiritual –, na teologia da prosperidade, na participação na política institucional, no investimento em mídia e numa certa liberalização dos costumes5 5 (Tradução nossa) [...] l’exorcisme – basé sur la théologie de la bataille spirituelle – , la théologie de la prospérité, la participation à la politique institutionnelle, l'investissement dans les médias et une certaine libéralisation des mœurs. ” (Oro, 2010ORO, Ari Pedro. Ascension et déclin du pentecôtisme politique au Brésil. Archives de sciences sociales des religions, 149, janvier-mars 2010. Disponível em: http://journals.openedition.org/assr/21887. Acesso em: 23 jan. 2020.
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).

Abandonando a velha escatologia pentecostal, que defendia reiteradamente o fim apocalíptico do mundo e a entrada no Paraíso Eterno prometido aos crentes, os neopentecotistas se consideram como os legítimos eleitos da comunhão eterna com Deus. Eles souberam transformar profundamente suas práticas litúrgicas e cotidianas “[...] antes de irem viver eternamente ao lado de Deus, futuro para o qual se creem destinados, eles querem gozar, ao máximo, com tudo a que têm direito e sem a menor culpa moral, esta vida e o que julgam haver de bom nesse mundo” (Mariano, 2005, pp. 8-9MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2005.). Assim, eles preconizam a teologia da prosperidade, que corresponde à busca de bênçãos materiais como sinais da presença de Deus na vida das pessoas, bem como a busca de cura em oposição ao tratamento médico e o exorcismo, uma vez que, na opinião deles, esses males também são manifestações de Satanás. Nesse sentido, a inclusão social se realizaria por meio da prosperidade material (“Vida em Bênção”) alcançada pelos “Filhos do Rei” (ou “Príncipes”) através da fidelidade material e espiritual a Deus. Além disso, os “Filhos do Rei” também devem invocar todo o poder divino para travar uma guerra espiritual contra os “poderes do mal”, que impediriam a sociedade de adquirir as bênçãos da prosperidade (Cunha, 2004CUNHA, Magali do Nascimento. VINHO NOVO EM ODRES VELHOS. Um olhar comunicacional sobre a explosão gospel no cenário religioso evangélico no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2004. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação).).

Em 1999, as pessoas que se definiam como evangélicas correspondiam a 8,98% da população brasileira6 6 Diferentes pesquisas mostram um pequeno aumento do número de protestantes históricos, a partir dos anos 90, diante do aumento exponencial dos pentecostais e neopentecostais no Brasil (Almeida, 2016). Segundo Mariano (2004), o aumento do número de evangélicos no Brasil é constante e não é um fenômeno pontual. Dados do censo do IBGE indicam que sua expansão se acelerou na última década do século XX. . No último Censo de 2010, elas representavam 22% da população do país, o que corresponderia a 42,3 milhões de pessoas. Já em 1999, Ricardo Mariano observava que as práticas neopentecostais haviam se modificado consideravelmente, uma vez que esses movimentos haviam conseguido se adaptar profundamente à sociedade “[...] abandonando vários traços sectários, hábitos ascéticos e o velho estereótipo pelo qual os crentes eram reconhecidos e, implacavelmente, estigmatizados” (Mariano, 2005, p. 8MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2005.).

Os evangélicos na política

Desde os anos 1980, observamos uma crescente politização dos segmentos pentecostal e neopentecostal. O número de deputados evangélicos pertencentes a esses movimentos eleitos ao Congresso Nacional aumentou de 2 para 18 após as eleições de 1986, superando o número de deputados designados como “protestantes históricos” (Machado, 2015MACHADO, Maria das Dores Campos. Religião e Política no Brasil Contemporâneo: uma análise dos pentecostais e carismáticos católicos. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 35, n. 2, 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010085872015000200045&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 23 jan. 2020.
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). Diversos estudos brasileiros evidenciam a intenção e a ação de grupos evangélicos para defender seus interesses na arena política (Freston, 1993FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 1993. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). e Pierucci; Prandi, 1996PIERUCCI, A. F., PRANDI, J. R. Realidade social das religiões no Brasil: religião, sociedade e política. São Paulo: Hucitec, 1996.). Algumas igrejas, tais como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular e a Assembleia de Deus, estruturaram mecanismos para apoiar a atividade política de seus participantes, incluindo debates internos em torno da representação política dos evangélicos, recrutamento de voluntários e desenvolvimento de um sistema de treinamento de candidatos para as campanhas eleitorais, bem como para a ação parlamentar.

Essa necessidade de representação política é entendida como um dever moral, ancorado no fato de que os evangélicos se viam, e ainda se veem, como uma minoria religiosa frequentemente ignorada pelo Estado e pela elite política em detrimento dos segmentos católicos. Dessa forma, a formação política dos evangélicos configura-se como fundamental para acessar os espaços de poder e para defender políticas públicas inspiradas na ideologia cristã. Além dessas medidas internas, Machado (2015)MACHADO, Maria das Dores Campos. Religião e Política no Brasil Contemporâneo: uma análise dos pentecostais e carismáticos católicos. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 35, n. 2, 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010085872015000200045&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 23 jan. 2020.
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observa que essas igrejas estão tentando evangelizar as pessoas que já trabalham nos círculos políticos. Ademais, nesses círculos, as demandas das minorias LGBTQ+ são frequentemente vistas como ameaças malignas, assim como as mobilizações da sociedade civil para legalizar o aborto ou a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

Sabe-se que as igrejas evangélicas são ideologicamente orientadas para promover práticas e discursos que contribuam para a manutenção de relações sociais conservadoras entre homens e mulheres. As mulheres podem alçar uma posição de destaque nessas instituições, no entanto, ainda permanecem em posição subordinada, pois, raramente, ocupam funções hierárquicas elevadas. Em algumas dessas igrejas, as mulheres podem pregar como pastoras, geralmente auxiliares, como no caso de Damares Alves. Em particular, o movimento gospel desempenha um papel fundamental no aparecimento de mulheres que ocupam papéis de destaque nas comunidades evangélicas e, portanto, também no reconhecimento de sua capacidade de liderança7 7 “A Força das Pastoras”. Disponível em: https://istoe.com.br/325432_A+FORCA+DAS+PASTORAS/. Acesso em: 20 jan. 2020. .

Analisando a divisão do trabalho dentro das Igrejas Batistas no Estado de São Paulo, Souza (2016)SOUZA, Valéria Vieira de. A (r)existência das vocacionadas ao ministério pastoral batista: descortinando a relação entre as pastoras batistas de São Paulo e a não filiação na ordem dos pastores batistas do Brasil em São Paulo (OPBB-SP). São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2016. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). identifica tensões entre as pastoras e a liderança da OPBB-SP (Ordem dos Pastores Batistas do Brasil – Secção Estado de São Paulo), uma associação a qual elas não têm direito de acesso. Nessas igrejas, assim como em outras, os cargos destinados às mulheres são aqueles em que a remuneração é modesta ou voluntária: ensinamentos dominicais e organização de ensaios e apresentações artísticas destinadas a um público feminino ou infantil. Mesmo no trabalho missionário, as mulheres estão alegadamente sujeitas a uma hierarquia masculina. O baixo número de pastoras nas igrejas evangélicas seria justificado pelas diferenças naturais intrínsecas entre homens e mulheres, sendo elas, as últimas destinadas à reprodução e à esfera privada do lar e da família. Dada a importância da formação de uma família para o exercício da profissão de pastor, a posição das mulheres como pastoras é constantemente questionada, como pode ser evidenciado pela relutância em remunerá-las.

Damares Alves: dos bastidores do Congresso para os holofotes

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, em dezembro de 2019DATAFOLHA. Avaliação dos ministros do governo Bolsonaro. Instituto de Pesquisa Datafolha. Folha de S. Paulo, dez. 2019. Disponível em: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2019/12/09/201905025f88dc7911d74b 36b6fe0238d8c486a2amb2019.pdf. Acesso em: 20 jan. 2020.
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, o desempenho de Damares Alves foi avaliado como excelente ou bom por 43% dos entrevistados que a conheciam. Foi o segundo maior índice de aprovação de ministros no governo Jair Bolsonaro, ficando atrás, apenas, do ex-juiz de operação Lava-Jato e do então ministro da Justiça, Sérgio Moro8 8 A pesquisa “A avaliação dos Ministros no governo Bolsonaro - outubro 2019” foi realizada pelo Instituto Datafolha, em conjunto com o jornal Folha de São Paulo. . Damares Regina Alves nasceu na cidade de Paranaguá, no estado do Paraná, em 19649 9 As informações biográficas sobre Damares Alves estão espalhadas em vários sites e são de difícil verificação. A maior parte vem de artigos publicados na imprensa a partir do final de 2018, quando Alves foi promovida a Ministra. Sua página de apresentação no site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é resumida. . Ainda muito jovem, sua família se mudou para Sergipe, acompanhando seu pai, Henrique Alves Sobrinho, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. Desde sua juventude, Alves se treinou para o exercício da oratória. Na adolescência, ela se tornou pastora auxiliar da mesma igreja, de acordo com ela, devido à falta de missionários na região. A Igreja do Evangelho Quadrangular, fundada em 1923, por Aimee Semple McPherson, é singularmente aberta à presença de mulheres no seu efetivo de pastores e, mais importante, seu plano de carreira não mostra nenhuma diferença particular entre homens e mulheres (Bandini, 2009BANDINI, Claudirene Aparecida de Paula. Costurando certo por linhas tortas: um estudo de práticas femininas no interior de igrejas pentecostais. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2009. Tese (Doutorado em Sociologia).). Em 1958, a Igreja do Evangelho Quadrangular foi a primeira a nomear pastoras no Brasil, e o grupo de mulheres missionárias é considerado o mais ativo nessa denominação. Mesmo sendo vista como a igreja mais aberta às mulheres sacerdotes, Bandini (2009)BANDINI, Claudirene Aparecida de Paula. Costurando certo por linhas tortas: um estudo de práticas femininas no interior de igrejas pentecostais. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2009. Tese (Doutorado em Sociologia). identifica muitas tensões entre homens e mulheres dentro da instituição. Segundo Machado (2013)MACHADO, Maria das Dores Campos. Discursos pentecostais em torno do aborto e da homossexualidade na sociedade brasileira. Revista Cultura & Religión, v. 7, n. 2, pp-48-68, 2013., Damares Alves teve acesso à teologia da libertação10 10 A teologia da libertação é uma corrente de pensamento ligada ao catolicismo latino-americano e ao espectro político de esquerda. e, por um período, ela se distanciou de sua primeira igreja. Na World Vision, uma organização não-governamental internacional, ela relatou ter trabalhado com crianças que vivem em situação de rua.

Alves está presente no Congresso Nacional desde 1999, quando começou a trabalhar no gabinete parlamentar de seu tio, o deputado e pastor Josué Bengtson, permanecendo nele até 2003. Ela, então, se tornou assistente dos deputados conservadores João Campos, Magno Malta e Arolde de Oliveira. Além disso, Alves esteve ativamente envolvida na Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE), na Frente Parlamentar Conjunta para a Família e para o Apoio à Vida, da Frente Parlamentar de Luta contra as Drogas e da Frente Parlamentar Evangélica. Damares Alves é formada em Direito, pela já extinta FADISC11 11 A FADISC - Faculdades Integradas de São Carlos - foi desacreditada pelo Ministério da Educação do Brasil em 2011. Em 2012 seus exames de ingresso foram suspensos e a faculdade foi permanentemente fechada. , e em Pedagogia, pela Faculdade Pio Décimo. Graças ao seu carisma entre a população, Damares Alves pretende concorrer a uma vaga no Senado Federal nas próximas eleições de 2022, onde aspira ser a primeira mulher a presidir a casa12 12 Em agosto de 2020, Damares Alves foi considerada uma das principais ministras do governo Jair Bolsonaro: “Como Damares Alves saiu de ministra ‘periférica’ a figura central do bolsonarismo”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53980530. Acesso em: 26 jul. 2020. .

Foi em 2013, graças ao vídeo “Pregação com Dr. Damares Alves”, que será analisado mais adiante neste artigo, que Alves começou a ganhar notoriedade no mundo evangélico. Sua palestra na Primeira Igreja Batista de Campo Grande gerou quase 800.000 visualizações on-line e foi um enorme sucesso no mundo religioso brasileiro13 13 Trechos de outra palestra de Alves foram utilizados no vídeo “Sua família está em perigo. Cuidado!”, produzido pelo Fórum Evangélico de Ação e Política. Segundo Machado (2013), este vídeo foi amplamente utilizado por pastores evangélicos, bispos e políticos para desacreditar a campanha de Dilma Rousseff em 2010. . Trabalhando desde os 14 anos de idade como professora em vários projetos sociais e como pastora, Damares Alves está acostumada a falar em público. Ela parece estar consciente de sua capacidade de comunicação quando refuta as críticas a essa mesma palestra: “Quando o vídeo estoura, o PT entende que era um discurso contra a Dilma, contra o PT. Não era. Eles começaram a dizer o seguinte: agora a bancada fundamentalista encontrou uma mulher carismática. Tiveram a brilhante ideia de desqualificar o meu discurso” (Neves, 2015).

Teatralidade e performance nos templos evangélicos

A relação entre o palco do teatro e do culto evangélico é estreita, para muito além das semelhanças arquitetônicas entre esses dois espaços. Campos (1997)CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado. Organizacão e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes/ São Paulo, Sim-pósio/ São Bernardo do Campo, UMESP, 1997. analisou a Igreja Universal do Reino de Deus como um teatro no qual pastores e fiéis, se engajam coletiva e dramaticamente em uma encenação de fé. O papel do pastor-ator seria o de tornar o sagrado e seu poder tangíveis. Essa encenação acontece em um templo, considerado como um “espaço geográfico” onde se realiza o ato dramatúrgico. Um espaço que perdeu parcialmente sua qualidade de “lugar de morada dos deuses” para adquirir uma qualidade de “espaço energético”. Embora exista uma extrema variedade e heterogeneidade nos espaços de culto evangélico, essa reflexão sobre os templos da IURD pode ajudar a entender a dinâmica presente nos espaços evangélicos aqui analisados.

Na maioria dos casos, a configuração interior dos templos evangélicos, assim como a das igrejas católicas, apresenta uma disposição semelhante à dos teatros italianos, que valorizam um palco emoldurado e a relação frontal entre o palco/púlpito e o público. Os púlpitos são frequentemente colocados no centro de um palco elevado no espaço. O público pode ser colocado em frente e abaixo de um ponto de vista vertical, ou nas galerias, quando o templo as tiver. Tal separação, tão evidente entre o palco superior e o público inferior, cria uma certa relação hierárquica e também estabelece uma forma de controle entre esses dois espaços. O orador tem uma visão completa da sala e das pessoas na plateia, enquanto o espectador tem apenas uma visão parcial do todo, já que o palco monopoliza seu olhar. Tal configuração italiana também favorece a criação de efeitos ilusórios: a profundidade do palco e a maquinaria auxiliar têm a função de atrair o público para um mundo “[...] que se afirma como mais verdadeiro que o mundo – mais real14 14 (Tradução nossa) [...] qui s’affirme comme plus vrai que le monde — plus réel. ” (Duvignaud, 1965, p. 261DUVIGNAUD, Jean. Sociologie du théâtre. Essai sur les ombres collectives. Paris: Presses universitaires de France, 1965.).

Ao longo das décadas, os templos evangélicos se implantaram em antigas salas de cinema e de teatros que caíram em ostracismo nos centros das grandes metrópoles brasileiras. Os primórdios da Igreja Universal do Reino de Deus são emblemáticos a esse respeito: em 1977, após realizar suas primeiras pregações em coretos de praças públicas, Edir Macedo começou a alugar cinemas pornográficos no centro do Rio de Janeiro por algumas horas. Mais tarde, vários desses cinemas tornaram-se templos da IURD (Oro; Tadvald, 2018ORO, Ari Pedro, TADVALD, Marcelo. A Igreja Universal do Reino de Deus no espaco público religioso global. Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Vol. XXXVI, 2018.).

Costumeiramente, os templos evangélicos refletiam certa racionalidade e austeridade estética. Devido a essa depuração decorativa e até mesmo a uma certa improvisação quanto ao uso dos espaços destinados ao culto, esses espaços devem seu sucesso à interação dos fiéis que, apropriando-se deles, contribuem para transformá-los em lugares cheios de significado, não apenas durante suas celebrações litúrgicas, mas, também, através da sociabilidade gerada entre os membros de uma igreja (Geier, 2012, p. 78GEIER, Vivian Kruger. Os templos evangélicos, suas configurações espaciais e seu valor para os usuários em Maceió, Alagoas. Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 2012. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo).). No entanto, o espaço cenográfico das igrejas evangélicas mudou consideravelmente ao longo das últimas décadas. Hoje, a arquitetura dos templos evangélicos é muito heterogênea, mostrando grande adaptabilidade às diversas realidades urbanas, indo desde gigantescos templos (megachurches), com projetos cuidadosamente elaborados, até galpões adaptados para uso religioso. Ademais, o grau de cuidado e de sofisticação arquitetônica desses edifícios é influenciado por sua localização nas cidades, diferindo entre subúrbios e bairros nobres.

O templo da Igreja Batista da Lagoinha15 15 Um comentário sobre Damares Alves é feito no seguinte vídeo que apresenta também uma visão geral da estrutura da Igreja Batista da Lagoinha. Disponível em: https://veja.abril.com.br/videos/em-pauta/igreja-batista-da-lagoinha-o-pulpito-de-damares/. Acesso em: 26 jul. 2020. , localizado em Belo Horizonte, e onde Damares Alves foi pastora voluntária, é um edifício com vários andares de galerias e como uma arena coberta. Na cenografia interna do prédio, destacam-se a quantidade extraordinária e o tamanho dos painéis de LED presentes no palco/púlpito e que formam o fundo de cena; a iluminação com diversos efeitos de luz; os recursos sonoros consideráveis; bem como a capacidade de tele transmissão ao vivo. Telões, holofotes, refletores e máquinas comparáveis às de um edifício de teatro profissional estão presentes em todos os grandes templos. De fato, a configuração desses palcos/púlpitos é muito semelhante à dos palcos de programas de auditório, uma vez que os cultos são concebidos para terem um público participando ativamente no templo e também para serem gravados e transmitidos ao vivo pela televisão e internet. Igualmente, vale a pena destacar a importância da transmissão televisiva na divulgação de cultos desde os anos 70, com a concessão de canais de televisão e o uso massivo do rádio por numerosos grupos evangélicos (Cunha, 2004CUNHA, Magali do Nascimento. VINHO NOVO EM ODRES VELHOS. Um olhar comunicacional sobre a explosão gospel no cenário religioso evangélico no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2004. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação).).

As palestras-pregações de Damares Alves

As palestras-pregações selecionadas no presente artigo seguem uma estrutura semelhante: inicialmente, realiza-se uma apresentação pessoal; em seguida, desenrolam-se uma série de denúncias em torno da defesa da infância, enquanto são enumeradas diversas ameaças às crianças, tais como pedofilia, turismo sexual, homossexualidade (e, consequentemente, direitos da população LGBTQ+), legalização do aborto, legalização da prostituição, “ideologia de gênero” ensinada nas escolas e infanticídio das crianças ameríndias. Geralmente, no final de sua apresentação, Alves relata ao público, na forma de um pungente testemunho pessoal, o abuso sexual que sofreu entre os seis e os oito anos de idade.

Estratégias performativas e teatrais

Ao analisar as palestras de Damares Alves do ponto de vista teatral e performativo, procurou-se identificar as estratégias recorrentemente empregadas, aqui referidas como performativas e teatrais. Essas estratégias constituem um verdadeiro conjunto de ações habilmente coordenadas em torno da performance de si. Ademais, o termo estratégia refere-se ao campo semântico de guerra, subjacente ao conteúdo dos discursos de Damares Alves e atualiza a narrativa da batalha entre o Bem e o Mal. Para a análise desse corpus, é necessário explanar brevemente acerca dos termos “performatividade” e “teatralidade”, pois, dada sua natureza polissêmica, permitem usos múltiplos. A noção de teatralidade é caracterizada aqui por um agenciamento deliberado do olhar, o que implica em uma intenção de direcionar a atenção do espectador com o intuito de obter um efeito, ao mesmo tempo em que seu próprio mecanismo é destacado. Entenda-se, aqui, o efeito em um sentido mais amplo, como consequência de uma ação, uma impressão deixada em alguém e um processo que atrai a atenção.

A teatralidade está em busca de eficiência, não estando apegada à autenticidade, tendo uma “[...] dimensão consciente, controlada e política” (Taylor, 2013, p. 41TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas Américas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.). Segundo Josette Féral (2012), a teatralidade predispõe o público a reconhecer certos sinais teatrais em um espaço diferente, ou seja, o palco, que nada tem a ver com o espaço cotidiano. Um espaço com suas próprias regras e que exige que o espectador tenha uma certa perspectiva. Da mesma forma, segundo Dièguez (2009), que por sua vez se refere a Nicolás Evreinov (1963)EVREINOV, Nicolás. El teatro en la vida. Santiago de Chile: Ercilla, 1963., a teatralidade seria como “[...] um instinto de transfiguração capaz de criar um ambiente diferente do cotidiano, de subverter e transformar a vida”. Entretanto, em um culto evangélico, ao contrário do teatro, não estamos na dualidade ficção/realidade, mas na instância da fé e da crença ou, pelo menos, na vontade do público de acreditar em algo. Há um pacto de confiança e orientação entre aquele que ocupa o púlpito e o público, uma particularidade que nos parece fundamental na análise das palestras-pregações de Damares Alves.

Por sua vez, o performativo, aqui, refere-se tanto ao agenciamento discursivo quanto à expressividade pessoal, já que não se trata de um personagem nem de uma persona, mas da própria pessoa. Assim, na performatividade, se a considerarmos como Butler (2010)BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. São Paulo: Civilização brasileira, 2010., estar-se-ia lidando com práticas de produção de sentido a partir de cenas de interação, em um exercício constante de exterioridade. Nas palestras-pregações de Damares Alves, essas estratégias performativas e teatrais referem-se à organização complexa de um como “ser assistida e vista”, assumindo a forma de uma ação elaborada, com o intuito de reunir e coordenar forças (os espectadores) contra um inimigo. Assim, cinco estratégias performativas e teatrais foram identificadas e serão aqui analisadas, a fim de compreender seus mecanismos, bem como seus efeitos potenciais sobre o público.

A apresentação pessoal: o efeito da legitimidade religiosa e secular

Como é frequentemente o caso dos oradores em geral, Damares Alves começa suas intervenções com uma apresentação pessoal16 16 Em outras entrevistas, Alves se apresentou “como a pastora mais bonita do Brasil, corinthiana feliz e convicta”, procurando suscitar tanto a empatia do público quanto um efeito cômico. Em seu discurso de posse no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ela se definiu como “terrivelmente cristã”. . No vídeo “Pregação com Dr. Damares Alves”, de 2013PREGAÇÃO com Dr. Damares Alves. Canal Primeira Batista, [s.l.], 13 abril 2013. (72 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BKWc0sUOvVM. Acesso em: 26 jan. 2020.
https://www.youtube.com/watch?v=BKWc0sUO...
, ela se descreve da seguinte forma: “Eu sou advogada, sou mestre em Educação também, mestre em Direito Constitucional, Direito da Família e eu trabalho há quatorze anos no Congresso Nacional como assessora jurídica na Frente Parlamentar Evangélica e da Frente Parlamentar da Família e de Apoio a Vida”. Contudo, Alves não possui mestrado nas áreas citadas. Alves recorre à auto invenção para se apresentar como uma autoridade do mundo secular em um contexto religioso. Durante a apresentação, Damares Alves também afirma ser pastora, mas declara que não falará como uma autoridade religiosa, mas como uma autoridade secular, mostrando uma dupla competência. A apresentação pessoal aqui é uma forma de despertar a empatia do público e, sobretudo, de produzir um efeito de legitimidade, já que, graças à sua formação, Alves seria capaz de lidar com certos assuntos e transitar entre esses dois mundos. Poderia essa também ser uma forma de se distinguir de outros pastores, que são em sua maioria homens?

Alves também apresenta sua trajetória pessoal entre diferentes esferas: ela seria uma mulher com uma formação excepcional e conhecedora da realidade brasileira, além de ser capaz de circular facilmente entre diferentes instâncias institucionais. Como no contexto das mulheres evangélicas o papel de mãe é fundamental, ela também se apresenta como uma mulher fora do comum: uma mãe divorciada, encarregada da criação de uma criança de origem ameríndia adotada17 17 Indígena da aldeia Kamayurá, Kajutiti Lulu Kamayurá, foi alegadamente retirada de sua aldeia por Damares Alves aos seis anos de idade. Alves não seguiu um procedimento de adoção formal. .

A palavra performativa de Deus e a do pastor no púlpito

Preliminarmente, a compreensão e o uso da palavra de Deus em sua dimensão performativa no lugar de adoração devem ser levados em consideração. Em uma leitura católica do cristianismo, essa dimensão é definida por Bento XVI (2007) nestes termos: “[...] a mensagem cristã não era só ‘informativa’, mas ‘performativa’. Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida”. Não obstante, a palavra dos pastores também se pretende performativa. Durante um culto, todo desejo anunciado de uma bênção é seguido pelas palavras “Amém”, “Assim seja” ou “Glória a Deus”. Os desejos são expressos por esses oradores e seguidos por um pedido direto de intervenção divina. Nas três palestras analisadas, Alves exorta insistentemente o público a agir politicamente na sociedade a fim de concretizar a palavra de Deus no mundo: “Deus está chamando a Igreja Evangélica brasileira para um novo momento, um novo instante”. Assim, nessas três palestras-pregações, ela instiga as pessoas presentes e toda a Igreja Evangélica a “[...] salvar a Nação de tudo o que está acontecendo” fazendo-lhes a pergunta: “como realmente influenciamos as mudanças na sociedade?”.

Alves claramente encoraja os fiéis à ação política, pois lhes assegura que Deus os convida a entrar em uma nova fase, a da “transformação da sociedade”. Ao invocar Deus e pedir-lhe que atue sobre ela, Alves expressa a vontade de que sua palavra seja performativa. É através dela que Deus fala. Uma transferência de agentividade se dá então, pois seriam os fiéis aqueles que realizariam a palavra divina performativa anunciada por Alves. A crença no poder performativo da palavra de Deus se torna, então, o propulsor para a ação do público. A fim de demonstrar a necessidade urgente de uma ação política da comunidade evangélica, Alves apresenta vários documentos e atesta a veracidade deles, evidenciando a grande ameaça que paira sobre a nação, mais especificamente, sobre a educação nacional e das crianças do país.

O uso de dados ou o efeito de verdade/autenticidade

Como visto, Damares Alves não se priva de exibir suas supostas credenciais acadêmicas com o objetivo de afirmar sua autoridade em determinadas áreas e assuntos que são abordados por ela em determinado ponto da sua alocução. É importante reforçar algumas considerações sobre a cenografia de duas igrejas evangélicas18 18 As duas igrejas em questão são a Primeira Igreja Batista da cidade de Campo Grande, no Mato Grosso, e a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. nas quais Alves se apresenta: seus adereços cenográficos são sóbrios e incluem várias telas de projeção; são ambientes a meio caminho entre os anfiteatros das salas de conferências e de espetáculos. Assim, quando Alves inicia sua palestra-pregação, uma apresentação de slides em PowerPoint é lançada, fornecendo, ao público, informações e vários dados que apóiam seus argumentos. Tanto a encenação quanto a atuação parecem querer se aproximar dos códigos adotados por oradores em um evento de divulgação científica. Os dados apresentados, extraídos de reportagens de jornais ou de documentos oficiais do Governo Federal, seriam da ordem “factual”. Além disso, Alves se refere a supostas pesquisas “científicas” que validariam suas alegações. Logo na introdução do vídeo “Pregação com Dr. Damares Alves”, Alves lança a seguinte pergunta ao auditório: “E sabem o que estão fazendo com nossas crianças nas escolas? (...) Vou mostrar para vocês o que está acontecendo nas escolas”. Ao apresentar o primeiro slide, são exibidas as seguintes informações:

O QUE ACONTECE NO BRASIL? “(...) a prefeitura de São Paulo contratou Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual (GTPOS) por R$ 2 milhões de reais para ensinar professores de creches sobre ereção de bebês e masturbação” Fonte: Jornal o Estado de São Paulo 08/07/2004.

Alves então indiretamente menciona Marta Suplicy, política brasileira, psicóloga de formação e sexóloga, conhecida por seu envolvimento no movimento feminista brasileiro e prefeita da cidade de São Paulo entre 2001 e 2005. Lembrando à plateia que Suplicy era, à época, Ministra da Cultura e filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), Alves exclama em tom denunciatório: “Essa mulher, quando era prefeita da cidade de São Paulo, irmãos, ela gastou dois milhões de reais com aquele grupo, o grupo GTPOS, para ensinar sobre ereção e masturbação de bebês nas escolas. Dois milhões de reais!”. Em seguida, Alves prossegue e afirma:

Há um grupo de especialistas, e esse grupo começou lá na Holanda, na Europa, que já está influenciando que nós precisamos aprender a masturbar os nossos bebês a partir dos sete meses de idade. Inclusive, na Holanda, os especialistas, esses homens que são grandes especialistas, fizeram não sei quantas universidades, eles ensinam que os meninos têm que ser masturbados com sete meses de idade para que quando ele [sic] chegar na fase adulta, ele possa ser um homem saudável sexualmente, e a menina tem que ter a vagina manipulada desde cedo para que ela tenha prazer na fase adulta. E essa prefeita fez isso. Lá na Holanda, eles estão até distribuindo uma cartilha ensinando os [sic] pais como massagear sexualmente as suas crianças. Isto está acontecendo no Brasil!

Ao consultar as matérias do jornal O Estado de S. Paulo, do dia 8 de julho de 2004, é possível encontrar um artigo com o seguinte título: “Marta Suplicy libera R$ 372 mil para ONG de Marta Suplicy”. O texto critica o favorecimento da ONG GTPOS em uma licitação municipal, já que Suplicy havia sido presidente da mesma até sua investidura como prefeita de São Paulo. É provável que Damares Alves estivesse se referindo ao artigo “Cara orientação sexual” que foi publicado no editorial do mesmo jornal, no dia 14 de julho de 2004. Por sua vez, esse último artigo questionava a capacidade da ONG GTPOS em implementar o programa de formação a professores devido a suas ligações com a prefeita:

De fato, pagar R$ 406 mil para ensinar educadores a tratar da ereção e de masturbação de bebês parece desproporcional em muitos sentidos. Primeiro, porque são inúmeras as boas publicações a respeito do assunto (algumas até obrigatórias para qualquer educador), que poderiam tirar dúvidas dos profissionais das creches a um custo bem menor. Segundo, parece ter havido valorização exagerada do tema, principalmente se considerada a fase da infância em questão. As necessidades das crianças em creches e Emeis, realmente, são outras.

Na paginação do jornal, a frase “[...] muito dinheiro para um treinamento que os educadores já conhecem” está em destaque. Assim, o objeto das críticas do jornal não é, em nenhum trecho, o conteúdo do treinamento em si. Pelo contrário, o artigo enfatiza sua importância. Ademais, a veracidade de todas as declarações que Damares Alves faz no restante de seu discurso sobre as práticas de masturbação infantil na Holanda é difícil de ser verificada e parece fantasiosa. Em vários aspectos, esse trecho ilustra de maneira exemplar a estratégia argumentativa de Alves, já que todos os principais objetos de crítica estão presentes, a saber, o feminismo, o Partido dos Trabalhadores, a pedofilia como ação da esquerda, os cientistas, ou seja, a ciência, as más influências vindas da Europa e, principalmente, a crítica à educação nacional. É preciso lembrar que Marta Suplicy foi um ícone do feminismo brasileiro, especialmente por ter apresentado um quadro sobre sexualidade no programa de TV Mulher, transmitido pela maior emissora de televisão brasileira, a Rede Globo, nos anos 1980. Ao evocar a figura de Marta Suplicy, Alves desperta, na geração mais velha, o que as famílias evangélicas percebem como uma ameaça feminista.

O roteiro apresentado por Alves é complexo e inverossímil: a Ministra da Cultura, uma feminista do Partido dos Trabalhadores, teria promovido uma formação pedófila para professores de creches e escolas infantis públicas, financiada pelo governo da cidade de São Paulo e subscrevendo a teses de cientistas holandeses. No entanto, a fim de convencer seu público, Damares Alves parece querer criar um efeito de autenticidade por meio de dispositivos cênicos geralmente ligados à esfera do “factual” e do “racional”: a apresentação de um trecho de um artigo do jornal O Estado de S. Paulo como fonte confiável através de um PowerPoint, um dispositivo de exposição comum nos meios acadêmicos. Através da invenção de conteúdos inexistentes, Damares Alves parece agir de acordo com o “princípio da associação degradante” da dialética heurística de Schopenhauer, associando feministas, Partido dos Trabalhadores, professores e cientistas à pedofilia e à degradação dos valores cristãos na sociedade brasileira.

O entrelaçamento dramatúrgico de histórias bíblicas e notícias da atualidade

No centro de um palco rosa, dourado e branco, repleto de flores, há um trono. Sobre ele, uma almofada vermelha e uma coroa. O cenário é inspirado numa passagem do Livro de Provérbios (12:4): “A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que o envergonha é como podridão nos seus ossos”. No topo do palco, com letras brilhantes preenchidas de purpurina rosa, encontra-se escrito: “EU SOU A FILHA DO REI”. Neste palco foi realizada a conferência anual de 2015 das “Mulheres Avivadas”19 19 “Mulheres Avivadas” é um ministério da Igreja da Assembleia de Deus, da cidade de Gama. Este ministério procura aperfeiçoar e fomentar o desenvolvimento pessoal das mulheres. , na cidade de Gama, Distrito Federal. O público era majoritariamente feminino e grande parte das participantes usavam camisetas cor-de-rosa com uma coroa dourada e a inscrição “Eu sou a filha do Rei” estampadas.

Nessa conferência-pregação, Damares Alves expõe seus temas favoritos e, concomitantemente, relaciona-os ao episódio bíblico da opressão dos israelitas no Egito apresentado em Êxodos. Nesse trecho da Bíblia, o faraó do Egito ordena a morte de todos os homens israelitas recém-nascidos. Alves evoca, veementemente, a coragem das parteiras Shifrá e Puá, que não obedeceram à ordem do faraó e, assim, salvaram a vida de Moisés: “Eu estou vendo muitas mães evangélicas aqui hoje que sabem que faraó tá nos dias de hoje furioso como naquele período. E faraó nos dias de hoje está usando outras armas. E o nosso rio Nilo hoje tem outros nomes”. Ela então suplica às mulheres presentes que tenham a coragem de desobedecer ao faraó, como fez a princesa ao acolher Moisés em seus braços. Em seguida, ela faz referência a um episódio do capítulo 11 do Livro 2 de Reis, passagem essa também mencionada nos outros vídeos analisados: Alves faz menção à Jeoseba, uma vez que, graças a ela, Joás foi salvo do massacre realizado sob as ordens de Atalia. Para Alves, Atalia reina hoje sob outros nomes: pedofilia, drogas, ideologia de gênero. Seu alvo reatualizado seriam os filhos das mulheres evangélicas, pois elas seriam as herdeiras do trono. Assim, a igreja seria o único lugar onde as crianças brasileiras estariam seguras, já que a escola seria um lugar de decadência e de falência moral.

Segundo ela, “[...] não são alianças políticas que trarão soluções a esta Nação. Não são as políticas públicas que trarão soluções para nosso país”, uma vez que a solução estaria no Céu. Mais adiante, ela anuncia que “[...] o papel da igreja hoje é treinar os Joás que irão governar esta terra”. Essas narrativas bíblicas estão entrelaçadas com os conteúdos apresentados nos slides: os projetos de legalização do aborto, a descriminalização das drogas (ponto potencialmente aludido em referência ao plano de legalização da cannabis), a ideologia de gênero (especialmente presente nas universidades), as feministas e os ativistas LGBTQ+ seriam os responsáveis pela desconstrução moral da sociedade já que “[...] querem nossos filhos e filhas”.

Em relação à teatralidade de Alves e as estratégias dela nesse campo, vale dizer que existe uma organização do olhar e do discurso dramatúrgico que entrelaça o real e o ficcional. Dada sua formação, a narrativa bíblica é parte do repertório de Alves. Considera-se, aqui, essa narrativa como ficcional e dramatúrgica, já que serve a uma cena. Essa dramaturgia criada na ação improvisacional da palestra-pregação é alimentada nos repertórios duplamente ficcionais de Alves: as histórias bíblicas e o uso distorcido de conteúdos da esfera da realidade, do factual. A ficção bíblica é tomada por fato real e é entrelaçada a eventos do cotidiano, o que colabora para a criação de um estado de ficção permanente. Além disso, como mencionado anteriormente, no ambiente do culto evangélico, existe uma organização de dispositivos concretos para a concentração do olhar e da atenção.

O testemunho do abuso sexual e o encontro com Jesus: a catarse final

O testemunho é uma prática amplamente utilizada no culto evangélico, tanto pelos pastores em suas pregações como em muitas técnicas religiosas de narrativas de si. Em um estudo sobre a IURD, Jacqueline Teixeira (2018)TEIXEIRA, Jacqueline Moraes Teixeira. A conduta universal: governo de si e políticas de gênero na Igreja Universal do Reino de Deus. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2018. Tese (Doutorado em Antropologia). descreve essa igreja como um lugar complexo de produção de sujeitos “[...] por meio do treino e da elaboração contínua das técnicas de ajuntamento, governo das condutas e narrativas públicas de si”. A narrativa do testemunho refere-se às ações de Deus na vida da testemunha e, em particular, ao seu caminho de evangelização, enquanto articula uma narrativa da vida antes e depois do encontro e da aceitação de Deus.

Nas três conferências analisadas, Damares Alves testemunha o abuso sexual perpetrado por dois pastores da Igreja do Evangelho Quadrangular que foram hospedados na casa de seus pais e dos quais ela foi vítima. Nos vídeos de 2015 e 2016, esse episódio é narrado em detalhes e ela emprega cerca de quinze minutos de fala nele. Ela também relata como se sentiu abandonada por sua família e pela comunidade religiosa, pois ninguém suspeitava do que estava acontecendo. Assim, aos dez anos de idade, ela buscou tirar sua própria vida do alto de um pé de goiaba, mas foi a visão que ela teve de Jesus escalando a árvore e beijando-a que a dissuadiu do intento. Alves, então, confessa ao público que sua mãe, seu pai e a comunidade religiosa próxima estavam cientes do abuso.

Além do conteúdo, a estrutura da narrativa é quase idêntica nos dois vídeos: as sentenças, expressões e o desenrolar dos acontecimentos são semelhantes, pressupondo uma elaboração ou domínio prévio do discurso, graças à sua constante repetição. Alves expõe sua narrativa nas fronteiras da performance, do reenactement20 20 É um termo que define as formas de “obras performativas do passado, eventos históricos ou fenômenos culturais”. É a repetição de uma ação e “um retorno a um estado anterior” (Bénichou, 2017). de um trauma pessoal e da confissão religiosa. Colocado no final da apresentação, esse testemunho inevitavelmente provoca na plateia um grande choque emocional que beira uma catarse. Primeiramente definida por Aristóteles na Poética, a catarse seria um dos propósitos e consequências da tragédia e seria provocada pela identificação do espectador com o herói, inspirando piedade e horror, permitindo-lhe purgar suas emoções. Catarsis é também um termo médico que designa o ato de evacuação e de descarga afetiva (Pavis, 1987PAVIS, Patrice. Dictionnaire du Théâtre. Paris: Messidor/ Éditions Sociales, 1987.). Refletindo sobre questões relativas ao testemunho pessoal como uma prática enunciativa de atuação, Óscar Cornago Bernal observa o impacto da verdade dos corpos de um ponto de vista emocional:

Frente ao relato que um historiador pode fazer das condições de vida em um campo de concentração, preferimos a narração de alguém que esteve ali, inclusive se pode ser mais parcial ou imprecisa devido ao tempo transcorrido desde o acontecimento ou até ilegível pela idade da testemunha. O que importa não é a palavra da testemunha, mas sim a presença desse corpo que esteve ali e agora está aqui, uma “ponte” entre o que foi e o que é (...) (Bernal, 2018, pp. 101-102BERNAL, Óscar C. Atuar “de verdade”. a confissão como estratégia cênica. Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas, [S. l.], v. 2, n. 13, pp. 099-111, 2018. DOI: 10.5965/1414573102132009099. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1414573102132009099. Acesso em: 6 jan. 2020.
https://www.revistas.udesc.br/index.php/...
).

Durante esse discurso final de Alves, várias pessoas na plateia estão em lágrimas e visivelmente emocionadas. Seu testemunho tem o potencial de provocar essa diacronia entre passado, presente e futuro: uma espectadora pode se identificar com Alves relembrando de um abuso passado e também pode projetar o medo em relação ao futuro de seus próprios filhos. Dado o conteúdo do que ela expõe e a franqueza com a qual se entrega, ela acaba convidando o público a uma adesão emocional total (e não racional) às denúncias apresentadas ao longo de sua apresentação.

Observações finais

A repetição quase idêntica desse último testemunho nas palestras-pregações analisadas sugere que Alves está acostumada a falar sobre o abuso sexual que sofreu. Ao oferecer sua privacidade ao público, ela requer em troca a legitimidade e autoridade para falar em nome das crianças: “[...] a espada de Atalia caiu sobre mim”. Ao mesmo tempo, a compaixão do público e, provavelmente, a identificação dele com sua história é despertada. Assim, dificilmente o público duvida do que foi dito durante toda a alocução. Inspiradas pelo testemunho, uma prática própria da teatralidade evangélica, as performances de Damares Alves ultrapassaram os muros das igrejas pentecostais e neopentecostais e encontraram uma sociedade já acostumada aos dispositivos de enunciação confessional através da televisão, do jornalismo e das redes sociais. Suas performances parecem mesmo nos mostrar certo avant-gardisme evangélico na evolução desses dispositivos. No palco, o corpo de Alves está totalmente envolvido na narração: em um esforço contínuo para alcançar o público, ela se move contínua e febrilmente de um lado para o outro segurando o microfone em uma das mãos, enquanto dirige um olhar penetrante e desesperado para o público.

Em princípio, essas conferências foram destinadas a um público evangélico e fomentam uma sensação de segurança entre eles: o inimigo é o outro, já que o pedófilo não é o pastor, mas as feministas e os ativistas LGBTQ+. Essa sensação de segurança dentro da igreja é ameaçada pelo exterior, pelo mundo não evangélico. Todavia, o abuso sexual sofrido por ela na infância partiu precisamente de dentro desse ambiente interior que deveria, em princípio, garantir a segurança de seus membros.

Damares Alves transforma técnicas de encenação e de narrativas de si em estratégias comunicativas com objetivos explicitamente políticos. Mais recentemente, seu discurso como ministra está centrado em combates altamente louváveis, como a luta contra a exploração sexual de menores, pedofilia e pornografia infantil. Esses são seus temas prioritários e são esmiuçados em suas aparições públicas e nas redes sociais, gerando um consenso moral entre diferentes setores da população brasileira. Seu arranjo retórico enquadra todas as críticas a ela como um ataque a esses temas21 21 Um exemplo deste arranjo pode ser observado durante a alocução semanal de Jair Bolsonaro do dia 27 de agosto de 2020, transmitida ao vivo pelo Facebook, onde Alves foi a principal convidada. . Dessa forma, ela reatualiza certos elementos constitutivos da identidade pentecostal e ne-opentecostal, tais como o sentimento de perseguição e ressentimento. Alves atualiza o sectarismo evangélico e, ao mesmo tempo, apela para a evangelização do país, suas políticas e instituições, renovando seu proselitismo.

Notas

  • 1
    De acordo com Bastian (2018)BASTIAN, Jean-Pierre. Pentecôtisme, clientélisme et pratiques politiques au Brésil. Observatoire international du fait religieux, Bulletin n° 22, octobre 2018. Disponível em: https://www.sciencespo.fr/ceri/fr/oir/pentecotisme-clientelisme-et-pratiques-politiques-au-bresil. Acesso em: 6 jan. 2020.
    https://www.sciencespo.fr/ceri/fr/oir/pe...
    e diversos outros autores, o apoio dos evangélicos foi crucial para a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.
  • 2
    Este vídeo não se encontra mais presente no YouTube. No entanto, ele faz parte de nosso arquivo pessoal.
  • 3
    Trechos desses vídeos tornaram-se famosos após a nomeação de Damares Alves para o governo de Jair Bolsonaro. Em sua maioria, os trechos popularizados pelas redes sociais tinham o objetivo de ridicularizar Alves, não se dedicando à análise do conteúdo restante. Por exemplo, em um trecho que se tornou popular do vídeo “Mulheres Avivadas ADEG 2015”, Alves afirma que as feministas seriam “feias” e que tinham inveja das mulheres evangélicas, porque estas últimas seriam “lindas” e “casadas”.
  • 4
    As igrejas protestantes tradicionais também são chamadas de “missões evangélicas” Estas incluem as igrejas presbiterianas, anglicanas, metodistas, batistas e congregacionais evangélicas.
  • 5
    (Tradução nossa) [...] l’exorcisme – basé sur la théologie de la bataille spirituelle – , la théologie de la prospérité, la participation à la politique institutionnelle, l'investissement dans les médias et une certaine libéralisation des mœurs.
  • 6
    Diferentes pesquisas mostram um pequeno aumento do número de protestantes históricos, a partir dos anos 90, diante do aumento exponencial dos pentecostais e neopentecostais no Brasil (Almeida, 2016ALMEIDA, Ronaldo de. Le pentecôtisme brésilien: expansion, variation, invention. Brésil(s), 9, 2016. Disponível em: http://journals.openedition.org/bresils/1843; DOI: https://doi.org/10.4000/bresils.1843. Acesso em: 6 jan. 2020.
    http://journals.openedition.org/bresils/...
    ). Segundo Mariano (2004)MARIANO, Ricardo. Expansão pentecostal no Brasil: o caso da Igreja Universal. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 52, pp. 121-138, Déc. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000300010&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 23 ago. 2020.
    http://www.scielo.br/scielo.php?script=s...
    , o aumento do número de evangélicos no Brasil é constante e não é um fenômeno pontual. Dados do censo do IBGE indicam que sua expansão se acelerou na última década do século XX.
  • 7
    “A Força das Pastoras”. Disponível em: https://istoe.com.br/325432_A+FORCA+DAS+PASTORAS/. Acesso em: 20 jan. 2020.
  • 8
    A pesquisa “A avaliação dos Ministros no governo Bolsonaro - outubro 2019” foi realizada pelo Instituto Datafolha, em conjunto com o jornal Folha de São Paulo.
  • 9
    As informações biográficas sobre Damares Alves estão espalhadas em vários sites e são de difícil verificação. A maior parte vem de artigos publicados na imprensa a partir do final de 2018, quando Alves foi promovida a Ministra. Sua página de apresentação no site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é resumida.
  • 10
    A teologia da libertação é uma corrente de pensamento ligada ao catolicismo latino-americano e ao espectro político de esquerda.
  • 11
    A FADISC - Faculdades Integradas de São Carlos - foi desacreditada pelo Ministério da Educação do Brasil em 2011. Em 2012 seus exames de ingresso foram suspensos e a faculdade foi permanentemente fechada.
  • 12
    Em agosto de 2020, Damares Alves foi considerada uma das principais ministras do governo Jair Bolsonaro: “Como Damares Alves saiu de ministra ‘periférica’ a figura central do bolsonarismo”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53980530. Acesso em: 26 jul. 2020.
  • 13
    Trechos de outra palestra de Alves foram utilizados no vídeo “Sua família está em perigo. Cuidado!”, produzido pelo Fórum Evangélico de Ação e Política. Segundo Machado (2013)MACHADO, Maria das Dores Campos. Discursos pentecostais em torno do aborto e da homossexualidade na sociedade brasileira. Revista Cultura & Religión, v. 7, n. 2, pp-48-68, 2013., este vídeo foi amplamente utilizado por pastores evangélicos, bispos e políticos para desacreditar a campanha de Dilma Rousseff em 2010.
  • 14
    (Tradução nossa) [...] qui s’affirme comme plus vrai que le monde — plus réel.
  • 15
    Um comentário sobre Damares Alves é feito no seguinte vídeo que apresenta também uma visão geral da estrutura da Igreja Batista da Lagoinha. Disponível em: https://veja.abril.com.br/videos/em-pauta/igreja-batista-da-lagoinha-o-pulpito-de-damares/. Acesso em: 26 jul. 2020.
  • 16
    Em outras entrevistas, Alves se apresentou “como a pastora mais bonita do Brasil, corinthiana feliz e convicta”, procurando suscitar tanto a empatia do público quanto um efeito cômico. Em seu discurso de posse no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ela se definiu como “terrivelmente cristã”.
  • 17
    Indígena da aldeia Kamayurá, Kajutiti Lulu Kamayurá, foi alegadamente retirada de sua aldeia por Damares Alves aos seis anos de idade. Alves não seguiu um procedimento de adoção formal.
  • 18
    As duas igrejas em questão são a Primeira Igreja Batista da cidade de Campo Grande, no Mato Grosso, e a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, Minas Gerais.
  • 19
    “Mulheres Avivadas” é um ministério da Igreja da Assembleia de Deus, da cidade de Gama. Este ministério procura aperfeiçoar e fomentar o desenvolvimento pessoal das mulheres.
  • 20
    É um termo que define as formas de “obras performativas do passado, eventos históricos ou fenômenos culturais”. É a repetição de uma ação e “um retorno a um estado anterior” (Bénichou, 2017BÉNICHOU, Anne. Le reenactment ou le répertoire en régime intermédia. Revue Intermédialités, Issue 28–29, Automne 2016, Printemps 2017. Disponível em: https://doi.org/10.7202/1041075ar. Acesso em: 17 fev. 2020.
    https://doi.org/10.7202/1041075ar...
    ).
  • 21
    Um exemplo deste arranjo pode ser observado durante a alocução semanal de Jair Bolsonaro do dia 27 de agosto de 2020, transmitida ao vivo pelo Facebook, onde Alves foi a principal convidada.
  • Este texto inédito também se encontra publicado em francês neste número do periódico.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2022
  • Data do Fascículo
    2022

Histórico

  • Recebido
    30 Abr 2021
  • Aceito
    21 Jul 2021
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