Resumo:
O Odin Teatret, fundado em Oslo em 1964 e estabelecido na Dinamarca desde 1966, começou a tecer relações importantes com artistas latino-americanos a partir da segunda metade dos anos 1970, sobretudo durante suas diversas turnês além-mar (de 1976 até os dias de hoje). No artigo, através de dois estudos de caso (as turnês do Odin em Cuba, em 2002 e no Uruguai, em 2006), serão analisadas algumas características dessa rede, ao mesmo tempo antiga e contemporânea, que permitiu aos performers dos dois continentes tornar suas aventuras teatrais mais sólidas e duráveis por meio do compartilhamento de reflexões e savoir-faire, bem como de formas de produção e de divulgação alternativas.
Palavras-chave:
Odin Teatret; Cuba; Uruguai; Teatro de Grupo; Século XXI
Résumé:
L’Odin Teatret, fondé à Oslo en 1964 et installé au Danemark depuis 1966, a commencé à tisser des relations privilégiées avec les artistes latino-américains à partir de la deuxième moitié des années 1970, notamment lors de ses nombreuses tournées au-delà de l’Océan (1976-aujourd’hui). À travers deux études de cas (tournées de l’Odin à Cuba, 2002 et en Uruguay, 2006), cet article analyse quelques caractéristiques de ce réseau, à la fois ancien et contemporain, qui a permis aux performeurs des deux continents de rendre leur aventure théâtrale plus solide et durable en partageant des réflexions, des savoir-faire ainsi que des voies de production et de diffusion alternatives.
Mots-clés:
Odin Teatret; Cuba; Uruguay; Théâtre de Groupe; XXIe siècle
Abstract:
The Odin Teatret, founded in Oslo in 1964 and established in Denmark since 1966, began to build privileged relations with Latin American artists from the second half of the 1970s, especially during its many tours beyond the Ocean (1976-today). In this article, through two case studies (tour of the Odin in Cuba in 2002 and in Uruguay in 2006), we will analyze some characteristics of this network, both old and contemporary, which allowed the performers of the two continents to make their theatrical adventure more solid and sustainable by sharing reflections, know-how as well as alternative production and distribution channels.
Keywords:
Odin Teatret; Cuba; Uruguay; Theater Group; 21st Century
O Odin Teatret, grupo de teatro fundado em Oslo em 1964 e estabelecido na Dinamarca desde 1966, começou a explorar o continente latino-americano a partir da segunda metade dos anos 197088. Durante suas turnês além-mar, ele dedicou-se tanto a apresentações de performances e demonstrações de trabalho quanto à organização de encontros, seminários e trocas com as comunidades locais. O grupo também produziu e apresentou filmes sobre sua própria atividade, estabeleceu parcerias com instituições culturais locais e desenvolveu localmente uma importante atividade editorial89.
O grupo dinamarquês contribuiu a difundir, para além-mar, práticas como as trocas (trocas de savoir-faire com as comunidades locais) e noções como a de antropologia teatral e de tiers théâtre90, mas as contribuições do teatro latino-americano ao Odin também foram importantes. O professor Lluís Masgrau chega mesmo a afirmar que o teatro latino-americano revelou ao Odin a dimensão ética do ofício teatral91:
Se [os grupos latino-americanos] foram capazes de adaptar as formulações de Barba às suas necessidades, o Odin, por sua vez, foi capaz de utilizar a realidade do teatro latino-americano como um estímulo fértil e essencial para construir sua ‘terceira dimensão’ (Masgrau, 1995, p. 155)92.
O alcance dessa rede também é visível em nível institucional, já que o italiano Eugenio Barba, diretor do Odin, recebeu muitos títulos honoríficos de universidades deste continente e, de maneira recíproca, fez questão de receber diversos colegas e amigos latino-americanos nas sessões da International School of Theatre Anthropology (ISTA)93. Nessas ocasiões, ele não hesitou em ajudá-los financeiramente para encorajar suas participações.
Diversas vezes, Barba explicou que um dos motivos que o havia levado a criar a ISTA tinha sido o de esclarecer os mal-entendidos criados com alguns colegas latino-americanos que, durante as viagens do Odin à Venezuela (1976) e ao Peru (1978), haviam acusado o grupo de colonialismo, formalismo e imperialismo cultural94.
O diretor ítalo-dinamarquês preocupava-se em compreender essas opiniões e, por meio da criação da ISTA, mesmo consciente das diferenças de trajetórias e contextos culturais, ele tentava criar um terreno neutro e produtivo para o diálogo. Para isso, e para mostrar aos artistas latino-americanos que o Odin abandonava seu papel de líder pedagógico, na primeira sessão da ISTA (em Bonn, Alemanha, em 1980)95 Barba convidou performers asiáticos para serem os formadores.
Os artistas latino-americanos também desempenharam um papel essencial na organização dos encontros de tiers théâtre. De fato, em um primeiro momento, eles ocorreram em território europeu (Belgrado, 1976; Bérgamo, 1977), mas, a partir de 1978, essas reuniões começam a organizar-se regularmente na América Latina (Ayacucho, Peru, 1978; Zacatecas, México, 1981; Bahia Blanca, Argentina, 1987; Urubamba, Peru, 1987; e Huampani, Peru, 1988)96. Promovidos pelos artistas latino-americanos e apoiados pelo Odin, esses encontros foram indispensáveis para o desenvolvimento de uma rede ao mesmo tempo política e estética, baseada no compartilhamento de técnicas de treinamento, métodos de transmissão de conhecimento e vias alternativas de produção.
No início do século XXI, os diálogos entre o Odin e os performers latino-americanos desenvolvem-se sob duas formas principais. De um lado, o Odin continua indo regulamente ao continente para visitar os velhos amigos e colegas e mostrar-lhes seus novos espetáculos. De outro, o grupo dinamarquês começa a entrar em contato com jovens artistas que foram sensibilizados à sua abordagem através de seus professores universitários, professores de teatro e diretores de grupos independentes das gerações precedentes.
Para esses jovens artistas, o contato com o Odin ocorre principalmente por meio de narrativas e depoimentos dos mais velhos. Ele também advém da leitura de livros e/ou da observação de vídeos e, de maneira mais rara, evolui ao longo dos anos para se concretizar em uma visita do grupo ou de um de seus membros.
Os trechos de reportagens e entrevistas que selecionamos neste texto concentram-se nas turnês do Odin em Cuba e no Uruguai no início do século XXI. Nesses dois países, as visitas do grupo dinamarquês começaram mais tarde e foram menos frequentes do que em outros países da América Latina. No entanto, a variedade de atividades que o grupo propôs nesses lugares e o número de lugares visitados durante suas estadias reforçou e ampliou de forma significativa sua rede no continente americano. Os diferentes trechos citados a seguir mostram o vasto leque de percepções relacionadas à presença do Odin no território, esboçam os diversos graus de relações existentes (amizade, lealdade, admiração etc.) e esclarecem, à luz da micro-história97, os mecanismos que permitiram tecer esses laços.
Cuba: o eterno retorno à utopia
Entre 1986 e 2010, o Nordisk Teaterlaboratorium98 esteve 13 vezes em Cuba e, ao todo, ficou lá 16 meses e cinco dias. Ele passou pelas cidades de Havana (dez vezes), Santa Clara (cinco vezes), Machurrucutu, Santiago, Bayamo, Camagüey, Matanzas e Trinidad (uma vez).
Eugenio Barba havia visitado a Ilha pela primeira vez em 1986, antes de voltar em 1989, acompanhado por uma das atrizes do grupo, a italiana Roberta Carreri99. Abel Gonzalez Melo, jornalista da revista Tablas, relata essa visita dos dois membros do Odin:
Em 1989, o Odin Teatret chegava em Havana com Judith [...]. A figura deste teórico [Eugenio Barba] deixará uma marca nos mais jovens, sobretudo nos do ISA [Instituto Superior de Arte]: [a partir de agora] as experiências textuais, os métodos de pesquisa, a maneira de compreender a criação mudam (Melo, 2008, p. 329)100.
Essa viagem permitiu que Roberta Carreri e Eugenio Barba entrassem em contato pela primeira vez com os membros do Teatro Buendía, um dos grupos de teatro envolvidos de maneira histórica na rede criada pelo Odin na América Latina. Vinte e dois anos depois, os atores do Buendía lembram-se desse primeiro encontro, que marcou o início de uma longa e profícua relação, artística e pessoal:
Tivemos nosso primeiro encontro como grupo com Eugenio [Barba] e com um espetáculo do Odin em 1989. Antes disso, tínhamos lido os livros e assistido aos vídeos. Mais de vinte anos passaram. Eles sempre estão presentes em nossos treinamentos, em nossas montagens e durante os ensaios. Não são um modelo a ser imitado. Eles são seres humanos dos quais aprendemos a maior parte da ‘arte secreta’ do nosso ofício. E em nossos espetáculos, sempre há uma citação, um olhar cúmplice ou uma pequena homenagem aos mestres do Odin (Teatro Buendía apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 136)101.
A primeira turnê em Cuba do Odin como grupo ocorre entre 26 de abril e 6 de maio de 1994. O grupo dinamarquês apresenta-se em Havana com os espetáculos Kaosmos, Judith, O Castelo de Holstebro, Itsi-Bitsi, e com as demonstrações de trabalho O Eco do silêncio, O Irmão morto, Pegadas na neve, Os caminhos do pensamento. Eugenio Barba e seus atores também organizaram um colóquio, uma troca e um ciclo de vídeos. Um depoimento escrito por Julia Varley, atriz ítalo-inglesa do Odin, nos permite compreender melhor a situação política, econômica e social cubana na qual ocorre essa visita do grupo. A atriz explica que, na época, Cuba atravessava o chamado período especial e que, para evitar desperdícios e economizar recursos em um momento de grande crise econômica, os cortes de eletricidade (apagones) eram frequentes em certos bairros da capital. O teatro no qual Julia Varley ministra sua oficina de trabalho vocal, por exemplo, não dispõe de luz elétrica durante o dia (e, às vezes, durante a noite também). No primeiro dia de oficina, muitos participantes aparecem sem se inscrever previamente. Apesar do grande número de pessoas, a atriz aceita sua participação e começa a explicar o andamento da oficina. No momento em que pergunta se eles preferem trabalhar seis horas seguidas ou fazer uma pausa no meio das aulas, ela percebe que os alunos parecem estar inquietos pelos horários tão longos da atividade. Essa reação se deve, entre outras coisas, pela dificuldade de se conseguir água potável, em falta, no centro da cidade. No fim das contas, a atriz encontra uma solução: “[...] eu precisei fazer a secretária do teatro prometer que ela deixaria o seu escritório aberto, no qual se podia encontrar água potável” (Varley, 2009, p. 248)102 e, graças a essa mediação, ela chega a um acordo com os participantes, sobre a duração da oficina. No entanto, quando ela propõe começar o trabalho limpando o chão do palco, os alunos reagem prontamente mostrando incompreensão e desacordo. No final de seu depoimento, a atriz relata que um dos exercícios propostos nessa oficina se inspirava em sua própria experiência da realidade cotidiana de Cuba:
Para ensinar-lhes a ‘oferecer’ suas vozes e a realizar ações vocais, eu pedia que dissessem um texto ao mesmo tempo em que lançavam seus sapatos no escuro. [...] Eu também fiz com que fizessem o exercício que chamei ‘o carro cubano’: para dar a partida no carro se utiliza uma manivela que, quando o motor começa a funcionar, é jogada longe [...]. O automóvel no qual me inspirei foi o de Raquel [Carrió]103, que precisava pedir emprestada a bateria de seu vizinho para poder dar a partida (Varley, 2009, p. 248)104.
Agora, nossa análise será focada em alguns depoimentos sobre a turnê do Odin em Cuba no ano de 2002 (27 de janeiro - 21 de fevereiro), durante a qual o grupo vai a diversas cidades (Havana, Santa Clara, Santiago) e apresenta um vasto programa de espetáculos e demonstrações105. A companhia também organiza um ciclo de vídeos106, uma troca e atividades parateatrais com os grupos de teatro locais107. Nessa ocasião, Barba profere uma conferência108 e apresenta seu discurso, intitulado En las entrañas del monstruo [Nas entranhas do monstro], durante a cerimônia de entrega do título de doutor honoris causa pelo Instituto Superior de Artes (ISA) de Havana.
O crítico de teatro cubano, Omar Valiño, organizador dessa nova turnê do Odin na Ilha, se diz satisfeito de ter persistido em sua vontade de realizar esse projeto, mesmo que, no início, alguns membros do Odin o tivessem prevenido sobre uma possível resposta negativa de Barba para seu convite. Ele explica que sua tenacidade vinha principalmente do desejo e da necessidade de compartilhar com os performers e com o público cubanos o espetáculo Mythos, ao qual havia assistido durante uma estadia na Alemanha. Ele revela os bastidores dessa iniciativa e enumera os obstáculos e as longas negociações com o Odin: “Agora, após um ano e meio, e muitas cartas trocadas com Patricia [Alves], preocupações, desgostos, incertezas e tensões, podemos dizer: vencemos” (Valiño, 2002, p. 3)109. Sobre esse assunto, é importante mencionar que, consciente das dificuldades econômicas dos colegas cubanos, muitas vezes o Odin foi à Ilha assumindo grande parte (e, às vezes, a totalidade) dos custos da turnê. Esta pode ter sido uma das razões da indecisão do diretor sobre essa nova visita além-mar.
Valiño comenta que a longa visita do grupo dinamarquês a Cuba foi possível graças à colaboração e ao apoio econômico e logístico de muitas pessoas e diversas instituições, entre as quais o Consejo Nacional de las Artes Escénicas, as estruturas provinciais, o Ministério da Cultura, bem como ao “o ardor mostrado para o sucesso [do Odin] por esta revista [Conjunto]” (Valiño, 2002, p. 4)110. Além disso, o grupo dinamarquês insistiu em descentralizar e multiplicar suas atividades para poder estar presente em diversas cidades e não apenas na capital. Sobre isso, Valiño constata o sucesso da iniciativa, destacando a extensão do programa de atividades apresentado pelo Odin:
O Odin, que, por trás de seu mito, esconde um grupo de pessoas excelentes, apresentou-se em seis províncias, com 23 espetáculos, quase todo seu repertório, vinte demonstrações de trabalho, sete oficinas, um curso, uma aula magna, uma troca conduzida pelo grupo inteiro e muitas conduzidas pelos atores. Eles realizaram diversos encontros, encorajaram novos projetos, assistiram a dezesseis espetáculos de grupos cubanos: de Santiago, Bayamo, Camagüey, Villa Clara, Matanzas e Havana (Valiño, 2002, p. 3)111.
Valiño também observa que essa viagem, particularmente longa e intensa, permitiu que o Odin se mostrasse como nunca havia feito antes, “em sua dimensão total” (Valiño, 2002, p. 4)112, e apresentasse seu trabalho à nova geração de performers. Sua colega, Vivian Martínez Tabares, considera os membros do Odin como “trabalhadores incansáveis do intelecto, do aprendizado e da pesquisa, dedicados ao ato criativo, com cuidado [...] e disciplinados” (Martínez Tabares, 2002, p. 6)113, enquanto o jornalista Andrés D. Abreu os descreve como “[...] um grupo de guerreiros defensores de uma expressão pessoal, um laboratório de criatividade autoconfirmada, uma escola sem fronteiras sobre o ato de atuar, uma possibilidade de um encontro salutar com um teatro outro” (Abreu, 2002)114. Abreu menciona diversas vezes a dimensão autodidata e a busca de autonomia que caracterizam o grupo dinamarquês. Ele incita os artistas que residem nas regiões da Ilha “onde exista um foco vivo de teatro” a ficarem atentos às iniciativas desse grupo europeu que começa uma intensa programação na capital cubana (Abreu, 2002)115.
A dramaturga Raquel Carrió assiste ao espetáculo Mythos e o qualifica como “seu espetáculo preferido” pois “extremamente tocante e vivo” (Carrió, 2002, p. 7)116. Seu colega, Abelardo Estorino, que afirma ter seguido ao longo dos anos a trajetória do grupo dinamarquês e a de seus discípulos de Cuba, comenta sua recepção de Mythos:
Creio que, após assistir a um espetáculo deste tipo, sentimos uma gratidão total pelo grupo. Isso não quer dizer que eu deva seguir este caminho. Mas Mythos abre possibilidades para mim, desperta-me o desejo de fazer mais teatro (Estorino, 2002, p. 7)117.
A atriz Roxana Pineda, por sua vez, considera As borboletas de Dona Música, espetáculo solo de Julia Varley, atriz ítalo-inglesa do Odin, como “[...] uma tessitura dos planos de ficção tão sutil, com um tal domínio dos ritmos e cujas ações da atriz são tão profundamente ancoradas em seu corpo-memória, que nos dá medo de falar de teatro” (Pineda, 2002, p. 27)118. Sobre os ensinamentos transmitidos pelos atores do Odin durante sua passagem por Havana, a performer Agnès Cecilia comenta:
A presença de Torgeir [Wethal], Roberta [Carreri], Jan [Ferslev], Iben [Nagel Rasmussen] e Kai [Bredholt] no palco do teatro Mella, fez lembrar mais uma vez das palavras de Else Marie [Laukvik] quando ela afirma: ‘O ator possui um mundo de segredos íntimos. Ele deve ser capaz de abrir as portas deste mundo custe o que custar, e correr o risco de ser humilhado’ (Cecilia, 2002, p. 21)119.
Mesmo que, durante essa nova estadia, o Odin tenha obtido a simpatia e a aprovação dos cubanos que já conheciam seu trabalho desde as visitas anteriores, além de suscitar o interesse das novas gerações, Valiño observa que a reação de uma parte do público e de algumas instituições locais não foi tão benevolente: “Não faltaram, como também é necessário para nos sentirmos vivos, oposições, mentes fechadas e portas fechadas, traições e incompreensões” (Valiño, 2002, p. 3)120. O crítico conclui sua análise sobre o impacto da visita do Odin com uma questão aberta sobre o legado futuro:
Agora me pergunto, como tudo isso vai se transformar em um humus fértil para o teatro insular. Não sabemos, não podemos saber. Mas a semente foi lançada, não como um paradigma que conduz à imitação das formas, mas como um exemplo de culto da profissão e do papel eterno e presente do teatro; teatro que Barba vislumbra e que o Odin executa como ‘areia, e não como óleo, na máquina do mundo’ (Valiño, 2002, p. 3)121.
O escritor Alejandro Aguilar concorda com as preocupações e questões de Valiño e pergunta-se qual foi a percepção dos jovens performers locais sobre o Odin. Ele questiona-se principalmente sobre a visão crítica, a capacidade desses jovens artistas “[...] de assimilar, digerir, mastigar [esta] maneira de fazer, [esta] concepção da vida e da arte” (Aguilar, 2002, p. 8)122. Ele continua: “Quanto deste mito continua de pé para a irreverência dos novos olhares?”. Quanto àqueles que haviam conhecido o Odin e Barba nos anos 1980 e que se reconhecem como seus discípulos, Aguilar indaga-se sobre o olhar atual deles, se ficou consolidado ou depurado com a nova visita: “Depois de tudo, e através do tempo, eu continuo me questionando sobre minha própria visão do tema do mito” (Aguilar, 2002, p. 8)123.
Vivian Martínez Tabares, por sua vez, considera que a marca mais importante deixada pela passagem deste “coletivo cultural duradouro” (Martínez Tabares, 2002, p. 5)124 na Ilha reside em sua obstinação pela criação de um discurso “[...] pessoal, sensorial, artesanal e imaginativo, baseado em uma ética de resistência do teatro diante da facilidade e da superficialidade” (Martínez Tabares, 2002, p. 5)125. A crítica cubana constata que a comunidade artística local está cada vez mais preparada a nivelar-se ao Odin e, nesse sentido, ela acredita que a visita do grupo dinamarquês possa ser proveitosa para essa comunidade (Martínez Tabares, 2002, p. 5). Ela também exprime sua admiração diante da capacidade do Odin em persistir no tempo, qualidade que ela relaciona ao fato de compartilhar uma ética profissional, mesmo ao denunciar a falta de estrutura do teatro de grupo cubano que, diferentemente da companhia dinamarquesa, “parece tender, perigosamente, a tornar-se uma lembrança nostálgica” (Martínez Tabares, 2002, p. 6)126.
O Odin é apresentado por Raquel Carrió como um “modelo de resistência, de investigação e de perseverança”, que conservou “uma fé impressionante” e que foi capaz de criar “uma família enorme, em muitos lugares do planeta”, graças ao seu “sentido de identidade profissional e de humanismo” (Carrió, 2002, p. 7)127. A dramaturga cubana conta ter participado das comemorações do trigésimo aniversário do grupo dinamarquês, o que a fez compreender as razões da longa duração desse “pomar” (Carrió, 2002, p. 7)128 e identificar-se como uma de suas discípulas. Seu ponto de vista é compartilhado pelo ator Jorge Ferrera, que se diz surpreso pela capacidade e pela tenacidade do Odin em manter a formação do grupo durante tantos anos. Ele descreve o grupo como um “mistério” e como a “possibilidade de uma utopia” (Ferrera, 2002, p. 8)129. O ator cubano também identifica uma diferença no trabalho físico dos membros do Odin, em relação às visitas anteriores: mesmo agora sendo “um pouco contido”, ele continua “bastante preciso”, inclusive no que diz respeito à voz e aos gestos, que Ferrera caracteriza como “limpos e muito agradáveis” (Ferrera, 2002, p. 8)130. O poeta e crítico Fernando León Jacomino ficou tocado pela lição de rigor que o grupo dinamarquês transmite durante sua longa turnê de 2002, uma lição que resume a “inestimável importância destes trinta dias de reencontro com o Odin” (León Jacomino, 2002, p. 9)131. Ele também destaca a raridade e o valor da presença do grupo dinamarquês no território cubano e conclui: “Nem sempre temos um grande mestre em casa, menos ainda por um período tão longo e com humildade suficiente para que o vejamos como um conterrâneo” (León Jacomino, 2002, p. 9)132.
Uruguai: a renovação do sentido da profissão
Entre 1984 e 2010, o Nordisk Teaterlaboratorium visitou 13 vezes o Uruguai e passou, ao todo, 13 meses e dois dias no país, visitando diferentes cidades, entre as quais Montevidéu (13 vezes), Colônia e Maldonado (duas vezes), Paso de los Toros, Salto, Canelones, Paysandú e Las Piedras (uma vez).
Um artigo escrito pelo professor Jean-Marie Pradier133, e publicado na revista Maldoror134, contribuiu para introduzir o trabalho do grupo dinamarquês e torná-lo conhecido no Uruguai a partir da segunda metade dos anos 1970. Em sua introdução, Pradier opõe o “teatro do querer dizer”, que se baseia em um texto e considera o corpo como uma “variável”, e o “teatro do fazer”, no qual “o corpo inteiro participa a cada um de nossos movimentos” (Pradier, 1975, p. 33 et 35)135. Depois, o professor analisa a trajetória e as ideias do Odin, grupo que, segundo ele, “persegue, pela via da ação, o que outros tentam fazer com o texto” (Pradier, 1976, p. 30)136. Ele destaca a desconfiança de Barba e de seu grupo de atores em relação à sistematização do conhecimento e à verborragia (palabreria). Ele também descreve o nascimento desse laboratório escandinavo, sua posição geográfica, seu interesse pela pedagogia e pela pesquisa, o ritmo de trabalho e a disciplina respeitada por seus membros. Depois, Pradier concentra-se na maneira como o Odin monta seus espetáculos e na qualidade de presença, quase etológica, de seus atores:
No entanto, essa emoção que conduz o espectador ao mais profundo dele mesmo reencontra, nos espetáculos do Odin, a transformação do habitual, proporcionada apenas pelos atos espontâneos, pelos eventos biológicos da vida, da morte e do amor; já que eles não provêm de um estado natural à la Rousseau, nem de uma simplicidade mítica e/ou mística (Pradier, 1976, p. 31)137.
Pradier explica que o treinamento rigoroso, composto de exercícios de acrobacia e de improvisações corporais, ajuda os performers do Odin a fugir da atuação exagerada. Por um lado, a precisão, a concentração e o domínio necessários à execução das acrobacias impedem que eles “se observem enquanto ator[es]”, por outro lado, as improvisações corporais os afastam da abordagem psicológica e impedem que eles caiam em um teatro de tipo “essencialista” (Pradier, 1976, p. 31)138. Como conclusão de seu artigo, Pradier destaca o processo ético subjacente às atividades do Odin, sem esquecer, no entanto, o poder desencadeado pela dimensão sensual dos corpos dos atores em cena:
Teatro visionário, essencial, no qual vemos ‘o ator montando no tigre’, espetáculo perigoso já que se encontra fora dos rituais comuns, ato que transtorna já que acessa a beleza física (Pradier, 1976, p. 32)139.
Os laços entre o Uruguai e o Odin também foram reforçados pelo encontro dos membros do grupo dinamarquês com personalidades conhecidas do mundo teatral, político e literário latino-americano. É o caso de Américo Celestino Del Cioppo Fogliacco, conhecido pelo nome de Atahualpa del Cioppo (Canelones, Uruguai, 1904 - Havana, Cuba, 1993), um artista de teatro bastante admirado por Barba, tanto por sua prática quanto por suas reflexões teóricas:
Atahualpa del Cioppo era grande, magro, quase ondulante. Não era ator (‘muito tímido, muito inibido’, ele dizia), mas se fosse, ele teria sido um perfeito Capitão da antiga Commedia dell’arte. Um Don Quixote? Não, não creio. Ele não lutava contra moinhos de vento. Se opôs a inimigos muito mais perigosos para ele e para o mundo. Não foi um vencedor. Nem um vencido. [...] Foi um bom fabricante de sombras. Mais do que isso, fez de si mesmo uma sombra. Falo aqui de sombras muito especiais: sombras indeléveis (Barba; Masgrau, 2002, p. 63)140.
Antes de encontrá-lo pessoalmente em 1984 no México, Barba já ouvira falar muito de Atahualpa del Cioppo durante suas viagens pela América Latina e havia conhecido parte de sua obra graças à sua importância continental. No entanto, a primeira vez em que ouve seu nome foi em Holstebro, na sede do Odin, citado por um jovem diretor uruguaio vindo à Dinamarca, movido por sua fascinação pelo grupo:
No outono de 1974, um diretor uruguaio [José Ramon Novoa]141 veio estudar alguns meses no Odin Teatret. Seu comportamento chamou a minha atenção: era alguém que havia encontrado um mestre. Assim, pela primeira vez, eu ouvi falar de Atahualpa del Cioppo. Mais tarde, encontrei seus vestígios em todos os lugares da América Latina por onde passei (Barba, 1999, p. 224-225)142.
Para Barba, a biografia de Atahualpa del Cioppo está associada à de Bertolt Brecht, com quem ele divide a experiência do exílio:
A semelhança com Brecht não se baseava na escolha de um estilo ou de uma estética - nem mesmo em uma ideologia -, mas sim em uma atitude preliminar, uma fraternidade de princípios: a vontade de não se deixar eclipsar pelos tempos obscuros (Barba; Masgrau, 2002, p. 65)143.
Em homenagem àquele que ele considera como um “mestre” e uma “tradição viva”, Barba dedica o espetáculo Mythos (1998) e escreve um texto intitulado Fabricantes de sombras (Conversación nocturna con Atahualpa)144, no qual retraça o percurso profissional desse diretor, dramaturgo e intelectual e define seu teatro como “divertido, cheio de vida, de denúncias e de esperanças” e “[...] uma alegria para os sentidos e para a mente” (Barba; Masgrau, 2002, p. 65)145. Para ele, o diretor uruguaio, assim como muitos homens e mulheres do teatro latino-americano, possui uma tenacidade, um valor sólido e recorrente no qual Barba afirma “crer”:
Creio que a tenacidade representa o mundo mais justo em nós, não um sonho, mas algo de concreto, corpóreo, que pertence ao corpo do pensamento que são nossas ações. A tenacidade é o manter-se de pé. O manter-se contra. É a sombra que consegue manter-se indelével, que não desaparece entre a penumbra do mundo-como-ele-é e a luz ofuscante das ilusões. É o sorriso de animal inquieto e de criança do velho Atahualpa (Barba; Masgrau, 2002, p. 69)146.
A primeira visita do Odin ao Uruguai foi em 1987, no entanto, o grupo Farfa, um dos projetos do Nordisk Teaterlaboratorium, dirigido pela atriz Iben Nagel Rasmussen, havia estado lá em 1984 e o próprio Eugenio Barba havia visitado o país pela primeira vez em 1986.
Durante essas duas primeiras viagens, o grupo Farfa e Eugenio Barba, respectivamente, participaram da primeira e da segunda Muestra Internacional de Teatro de Montevideo. Esses eventos artísticos tiveram um papel essencial no Uruguai, pois eles ocorreram em um período crítico da história do país, muito difícil. A primeira Muestra ocorreu em Montevidéu, em 1984, com o objetivo de permitir que artistas uruguaios e estrangeiros se encontrassem e realizassem trocas, através de colóquios, fóruns, oficinas, seminários e espetáculos, após anos de censura, perseguição e isolamento impostos pela ditadura. Na segunda vez, ela ocorreu em um país onde a democracia começava a se reafirmar, onde as restrições da censura haviam sido reduzidas e a liberdade de expressão e os espaços de trabalho haviam sido restituídos147. Além disso, os artistas teatrais expulsos durante a ditadura estavam sendo readmitidos no país, entre eles encontravam-se alguns membros do El Galpón, um famoso grupo de teatro fundado em 1949 por Atahualpa del Cioppo e outros.
Algumas décadas mais tarde, quando Barba lembra de sua primeira estadia no Uruguai, ele explica o contexto histórico no qual ocorreu a Segunda Muestra, destacando o trabalho, a coragem e a persistência dos organizadores, bem como a dimensão artesanal do evento:
Eu havia visitado este país pela primeira vez em 1986, exatamente um ano após o fim da ditadura, em um clima de paixão e efervescência. O Odin Teatret participou de um festival concebido por alguns críticos de teatro que, no ano anterior, nos últimos meses de uma ditadura de dez anos, tinham decidido romper o isolamento cultural, o cerco de chumbo da informação oficial, da televisão estatal e da imprensa, que estavam nas mãos dos militares. Eles não eram muito competentes na organização, mas haviam colocado na cabeça que fariam um festival. E conseguiram (Barba; Masgrau, 2002, p. 14)148.
O diretor ítalo-dinamarquês mostra que, apesar da fragilidade do período histórico, era fácil notar no meio artístico um entusiasmo que criava uma atmosfera “viva e estimulante” (Barba; Masgrau, 2002, p. 14)149. O diretor também ficou impressionado com o espírito de iniciativa e a capacidade de autogestão dos intelectuais que deram origem a esse evento, que se mostraram capazes de coordenar todos os aspectos logísticos da manifestação:
Este grupo de intelectuais criou uma forma de resistência e uma maneira concreta de ultrapassar os limites de suas profissões, produzindo um encontro concebido por eles mesmos, baseado na autogestão até os mínimos detalhes, como, por exemplo, a limpeza do chão (Barba; Masgrau, 2002, p. 14)150.
Durante a Segunda Muestra, Barba tem seu primeiro encontro com Roger Mirza, intelectual e crítico de teatro local, que possui até hoje um papel central na rede construída pelo Odin na América Latina. As circunstâncias desse primeiro contato são bastante peculiares. Mirza, que está entre os principais organizadores do Festival, também é responsável pelo apoio técnico ao Odin. Barba relata, com certo humor:
[...] nos foi dado como técnico Roger Mirza, um excelente crítico de Montevidéu, e foi um prazer ambíguo ter à nossa disposição um especialista em semiótica teatral que mergulhava em reflexões profundas com uma tomada dinamarquesa nas mãos (Barba; Masgrau, 2002, p. 14)151.
Essa atitude certamente gerou em Barba uma fraternidade imediata com seus colegas uruguaios. De fato, um dos pontos-chave da filosofia odiniana consiste em aplicar no interior do grupo o princípio da divisão de tarefas de uma criação (tarefas artísticas, logísticas, econômicas, administrativas). Esse princípio é ampliado aos hóspedes e visitantes que vão à sede do grupo em Holstebro, convidados a gerenciar a limpeza dos espaços comuns e dividir as tarefas domésticas com os membros permanentes do teatro. A esse respeito, Felisa Jezierski, atriz e pedagoga uruguaia, membra do El Galpón, que entrevistamos durante nossa pesquisa de campo, em 2010, conta:
Quando, na ocasião da minha primeira Odin Week, uma reunião de boas-vindas foi anunciada, o discurso esperado não foi sobre a arte e suas técnicas secretas, mas sobre a coabitação, a organização prática, a limpeza, a distribuição das tarefas, etc., o que foi uma grande lição para mim (Jezierski apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 146)152.
Durante a visita de 1986, a imprensa local observa que as oficinas e espetáculos do Odin têm bastante público, louvando Barba como “fundador [do Odin], convertido em um verdadeiro catalizador dos setores mais jovens do teatro uruguaio” (Coterillo, 1986, p. 54)153.
Nos parágrafos seguintes, focaremos na turnê de Eugenio Barba e Julia Varley no Uruguai em dezembro de 2006.
Em 8 de junho de 2006, Ulrik Skeel154 encaminha à atriz Julia Varley uma mensagem que ele havia recebido dois dias antes, cujo assunto é Desde Paysandú-Uruguay155. Nesse e-mail, Imaginateatro procura o Odin para contar-lhe sua trajetória profissional. Esse grupo independente trabalha há nove anos na comunidade de Paysandú; há três anos ele possui seu próprio espaço, uma sala com capacidade para receber 80 pessoas.
O autor da mensagem, assinada pelo grupo, menciona que os membros têm outras atividades profissionais principais, às vezes distantes do mundo do teatro, e que cada ator dedica seu tempo livre para o teatro, o que é uma condição “bastante habitual deste lado do mundo”. No entanto, os membros do grupo compartilham “as preocupações com o crescimento artístico, a busca constante de aprender e a vontade de fazer teatro” (Imaginateatro, 2006)156. O redator conclui a mensagem comentando que ele acaba de saber que, no mês de novembro, o Odin estará em Buenos Aires, à 400 km da cidade onde reside o grupo, e acrescenta: “Nos perguntamos qual seria o mecanismo, se há um, para conseguir trazê-los a Paysandú. Estamos esperando uma resposta para... poder sair e festejar” (Imaginateatro, 2006)157.
Imaginateatro recebe a resposta de Julia Varley informando que um desvio do grupo até o Uruguai é possível. Em 6 de julho de 2006, os uruguaios respondem ao e-mail, intitulando o assunto da mensagem como Odin a Paysandú. Primeiro, o grupo desculpa-se pela demora da resposta, explicando que precisou de tempo para recuperar-se da surpresa inicial provocada pelo retorno inesperado do Odin, “surpresa na qual continuamos alegremente imersos” (Imaginateatro, 2006)158. A mensagem explica que Paysandú e Montevidéu são separados pela mesma distância que Buenos Aires e Paysandú, assim, seria indiferente para o grupo buscar os dois membros do Odin em uma ou outra das capitais. Um automóvel estará disponível para garantir a viagem e os deslocamentos internos; o hotel e a alimentação também serão providenciados pelo Imaginateatro. Do ponto de vista financeiro, o grupo informa ter entrado em contato com algumas instituições para poder reunir a maior soma de dinheiro possível. Além da cotização dos participantes, foi feita uma solicitação de apoio financeiro ao Ministério da Cultura, bem como à prefeitura, às Comisiones de Apoyo e a associações de teatro. Imaginateatro também pede detalhes sobre as datas e as atividades propostas a fim de terminar o projeto e poder apresentar os pedidos de financiamento a essas organizações. Em 29 de julho, Dario Lapáz, diretor do grupo, escreve um e-mail a Julia Varley cujo assunto é Odin a Paysandú 2. Ele explica que, em 6 de junho, Imaginateatro lhe havia enviado uma mensagem. Ele teme que ela “tenha se perdido em algum ponto do caminho tortuoso do ciberespaço” (Imaginateatro, 2006)159 e, por esta razão, ele a encaminha novamente. Alguns dias mais tarde, em 15 de agosto de 2006, Julia Varley responde a Lapáz informando que Imaginateatro pode vir buscá-los em Buenos Aires no domingo, 3 de dezembro, e que seria possível programar algumas atividades nessa mesma noite. O grupo deverá acompanhá-los a Montevidéu na segunda-feira, 4 de dezembro. Barba lembra-se dessa aventura uruguaia nos seguintes termos:
Às oito em ponto da manhã, vieram nos pegar no hotel em que estávamos em Buenos Aires. Tinham viajado a noite toda desde Paysandú, uma pequena cidade do norte do Uruguai onde fica a sede do grupo deles, o Imaginateatro. Foi há quase um ano que eles ficaram sabendo da minha participação no aniversário do Séptimo em Buenos Aires. Durante as sete horas de viagem, Marcelo [Goyos] e Dario [Lapáz] contam como tiveram a ideia de me procurar e as piadas que faziam um com o outro por nutrirem a ilusão de que eu teria levado a proposta deles a sério. Não conseguem acreditar que eu tenha aceitado fazer um détour de 800 km para visitá-los. O grupo deles existia desde 1997, umas quinze pessoas que ganham o pão durante o dia e se reúnem três vezes por semana, de nove à meia-noite, para preparar ou apresentar um espetáculo. Em 2005 ganharam o prêmio nacional Florencio. Eles trabalham como professores de escola, técnicos, caminhoneiros e distribuidores de bebidas. Aqui todo trabalho é bom para conquistar a autonomia econômica (Barba, 2011, p. 274)160.
Julia Varley, por sua vez, conta suas impressões da viagem e suas trocas com os membros do grupo local:
Em um velho micro-ônibus, em viagem de Buenos Aires a Paysandú [...], eu percorro as planícies infinitas da Argentina. Para passar o tempo, converso com os organizadores que me convidaram. Eu lhes pergunto: Por que vocês fazem teatro? Como começaram? Estou curiosa para saber quais as motivações que os levaram a continuar em condições tão difíceis. Todos trabalham durante o dia para se sustentar, [...] e, no entanto, encontram-se regularmente a cada noite no teatro para ensaiar e apresentar espetáculos. Eles vivem em uma pequena cidade, muitos quilômetros os separam dos centros da cultura e da arte, da possibilidade de receber informações, das livrarias, de outros grupos semelhantes ao deles. Marcelo [Goyos] me responde: ‘É uma boa questão... Eu não sei. Eu assisti a um espetáculo e depois comecei a fazer teatro também. É como se apaixonar. É a necessidade de um ritual. O teatro é mágico’ (Varley, 2007, p. 1)161.
Em janeiro de 2007, Dario Lapáz e Marcelo Goyos enviam outra carta a Julia Varley e Eugenio Barba após o encontro realizado em Paysandú dia 3 de dezembro de 2006. Primeiramente, os redatores pedem desculpas pela demora da resposta e agradecem aos dois membros do Odin por todas as coisas que eles “creem ter compreendido” após a visita e por aquelas que “ainda lhes falta descobrir” (Imaginateatro, 2007)162.
De fato, os autores explicam que esse encontro lhes permitiu constatar que “[...] as grandes obras, as grandes ações e as grandes pessoas (grandes de verdade), são maravilhosamente simples, tangíveis e mesmo cotidianas, quando carregam nelas a marca desta gigantesca energia criadora que chamamos amor” (Imaginateatro, 2007)163. Os grandes resultados obtidos são, segundo os dois performers uruguaios, a demonstração da capacidade de enfrentar as dificuldades. Sobre as lições aprendidas a partir desse encontro, eles compreenderam que, no momento em que os obstáculos diminuem, é necessário inventar outros para renovar os esforços e estímulos, e que, definitivamente, fazer teatro consiste em “celebrar a loucura de Deus e rir da sanidade dos homens” (Imaginateatro, 2007)164.
Nesse e-mail eles descrevem o intercâmbio inesperado e surpreendente entre Imaginateatro e o Odin. De fato, desde a primeira tentativa de contato, que eles definem como uma “mensagem em uma garrafa jogada no mar”, a correspondência mantida entre os dois grupos os surpreendia cada vez mais. Eles relembram a viagem de Julia Varley e Eugenio Barba de Buenos Aires a Paysandú em “uma espécie de veículo de guerra, de acordo com as circunstâncias políticas” (Imaginateatro, 2007)165. Eles dizem sentir-se agradavelmente surpresos pela última mensagem recebida dos dois membros do Odin, que contam terem-se lembrado deles no aeroporto de Paris. A carta termina da seguinte forma:
Só nos resta agradecê-los novamente por terem tido a determinação de vir visitar um grupo de desconhecidos, que um dia pensou em os convidar. Estamos à disposição [...] para o for necessário, e esperamos um dia poder visitá-los em Holstebro (Imaginateatro, 2007)166.
Logo após sua visita ao Imaginateatro, Eugenio Barba e Julia Varley vão para Las Piedras, onde encontram o Teatro La Sala - Residuarte, outro jovem grupo local. O diretor, Sebastián Femenías Costa, descreve a companhia como um “pequeno grupo desconhecido” (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 146)167 atuando na cidade de Las Piedras:
Começamos a fazer teatro, ou a buscar e a inventar nosso teatro, há cerca de quinze anos, nesta cidade onde, há décadas, não existia teatro, como prédio ou como atividade (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 146)168.
Afirmando, em seu depoimento, não acreditar na “casualidade” e no “misticismo”, ele descreve seu encontro com o Odin como tendo sido “casual, fortuito, quase involuntário” (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 146)169, dando-lhe um valor quase mágico. Um videocassete sobre o treinamento do grupo dinamarquês, que havia ficado em uma caixa por muito tempo, esteve na origem desse encontro. As imagens registradas nesse vídeo, que de início foram ignoradas por não serem compreendidas, amadurecerem lentamente nas consciências dos membros do grupo. Levados por sua busca de pontos de referência e por sua curiosidade, eles descobriram o trabalho do Odin por meio desse vídeo e, pouco a pouco, aprenderam a reconhecer seus princípios subjacentes. Depois disso, os livros de Eugenio Barba chegaram às mãos do jovem grupo uruguaio e “abriram novos significados, novos nomes, novas experiências e novas razões” (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 148)170. Por fim, o encontro pessoal com o Odin permitiu que o grupo uruguaio verificasse a “coerência de suas palavras”. Costa descreve o grupo dinamarquês como “uma referência clara, [...] uma espécie de mito que constrói e destrói a si mesmo, que transforma [seus membros] em eternos desencantadores [desmaravilladores], em atores ‘santos’, distantes, inalcançáveis” (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 148)171. O jovem diretor uruguaio afirma que, apesar de seu nível de excelência, o Odin continua sendo acessível e generoso ao mostrar a possibilidade de construir “[...] não um caminho impossível, mas, ao contrário, profundamente humano e, sendo assim, realizável, não idêntico, não semelhante, mas com certeza possível” (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 148)172. Ele acredita que a capacidade que esses “grandes representantes do teatro universal”173 têm de aproximar-se das novas gerações, dos pequenos grupos de teatro, dos “eternos desconhecidos”174, faz deles uma referência. E ele acrescenta:
E foi essa coerência que permitiu que nos projetássemos prática e eticamente no desenvolvimento de nosso trabalho, mostrando-nos o teatro e um mundo possível, com outras regras, mas possível. Muito além das estéticas, das circunstâncias históricas, geográficas e econômicas, o Odin Teatret representa para nós a possibilidade de construir-se a partir do que somos, do que sonhamos e do que significamos como indivíduos e como grupo de teatro (Femenías Costa apud Masgrau; De Sanctis, 2011, p. 148)175.
A admiração de Costa pelos membros do Odin foi retribuída. Ao retornar de sua visita ao grupo Residuarte, Barba elogia a perseverança, a vontade e a motivação mostradas pelos membros do grupo e ele diz ter ficado marcado por um detalhe bastante significativo sobre as formas de subsistência de uma das integrantes do grupo:
Fazer bolos de laranja e vendê-los nas feiras populares: esse é o ganha pão de Marilena, uma atriz de ResiduArte, um grupo de Las Piedras que fica a 40 km de Montevidéu. [...] Eu sei, teríamos a tentação de dizer que eles são amadores. [...] Mas eles não são. Mesmo fazendo outros trabalhos para viver (Barba, 2011, p. 274)176.
Barba também destaca a recepção calorosa dos membros do grupo local, que, entre outras coisas, fizeram um gesto atencioso a fim de tornar visível e concreto o profundo respeito que têm com sua profissão, e que os aproximou da família espiritual do Odin:
Quando os visitei, prepararam a mesa em sua minúscula sala preta com uma antiga toalha de renda, como aquelas das avós. Não são historinhas sentimentais, são as tesselas daquele mosaico de energias em transição que eu chamo de minha origem (Barba, 2011, p. 274)177.
Em Busca da Ampliação de uma Rede Artística, Pedagógica, Ética e Afetiva
A partir dos depoimentos e artigos jornalísticos citados neste estudo de caso, fica claro que as relações mantidas pelos membros do Odin com alguns performers e espectadores cubanos e uruguaios, no início do século XXI, baseiam-se na lembrança das antigas aventuras e no desenvolvimento de novos projetos em comum.
A dimensão artesanal da profissão, a invenção de noções e técnicas, os métodos de transmissão de conhecimento e o modelo comunitário de ajuda mútua foram pontos em comum entre o grupo dinamarquês e os performers latino-americanos, possibilitando, apesar dos mal-entendidos, a criação de uma verdadeira confraria que desafia o desgaste do tempo e as distâncias geográficas. Como observa o professor Jean-Marie Pradier (1994, p. 72): “[...] existe ali certa forma de renascimento de uma cultura do companheirismo radicalmente moderna que se caracteriza pelo compartilhamento de outros valores, além dos técnicos e estéticos”178.
De fato, os intercâmbios diversos, duráveis e de diferentes naturezas entre o Odin e os performers latino-americanos levaram o professor Lluís Masgrau a afirmar que: “jamais, um grupo de qualquer destes dois continentes manteve uma presença tão forte no outro” (Barba; Masgrau, 2002, p. 78)179. Masgrau também explica que boa parte dos espectadores que consideram o Odin como “o seu teatro, […] um parte de sua pátria profissional e ideal”, encontra-se na América Latina, e que Eugenio Barba sentiu, desde o início, “uma afinidade especial” com os homens e mulheres de teatro neste continente, pois “reconheceu neles o fogo de um idealismo perspicaz, de uma atitude rebelde que não aceitava as condições, as injustiças, as espoliações [expolios] contra sua realidade social”180 (Barba; Masgrau, 2002, p. 84)181.
O entrelaçamento dos contatos disseminados pelo Odin na América Latina está em evolução permanente e lembra o feixe definido por Jacques Derrida como “[...] a estrutura de uma intrincação, de uma tessitura, de um cruzamento que deixaria repetir os diferentes fios e as diferentes linhas de sentido - ou de força - tal como estará pronto a enlaçar outros” (Derrida, 1972, p. 4)182.
Referências bibliográficas
- ABREU, Andrés D. El Odin Teatret en Cuba. Comprometidos con el otro teatro. Gramma Culturales, La Havane, mercredi 30 janvier 2002, p. 6.
- AGUILAR, Alejandro. Después de todo y del tiempo. Tablas, La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 8, mai-août 2002.
- BARBA, Eugenio. Théâtre: solitude, métier, révolte. Saussan: l’Entretemps, 1999. (Collection Les Voies de l’acteur).
- BARBA, Eugenio. Queimar a Casa: origens de um diretor. Tradução de Patrícia Furtado de Mendonça. São Paulo: Perspectiva, 2010. 304 p.
- BARBA, Eugenio. Brûler sa Maison: Origines d’un metteur en scène. Montpellier: L’Entretemps, 2011.
- BARBA, Eugenio; MASGRAU, Lluís. Arar el Cielo: Diálogos latinoamericanos. La Havane: Fondo Editorial Casa de las Américas, 2002.
- BORIE, Monique. Eugenio Barba et son école. Théâtre/Public, Montreuil, n. 38, mars 1981.
- CARRIÓ, Raquel. La nueva visita del Odin a Cuba era algo que se imponía. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, 2/02, v. LXVIII, p. 7, mai-août 2002.
- CECILIA, Agnès. Secretos compartidos del Odin. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 20-21, mai-août 2002.
- COTERILLO, Moisés Pérez. Cono sur Montevideo: nueve días de abril. El Publico, Internacional, p. 53-55, juin 1986.
- DERRIDA, Jacques. Marges de la Philosophie. Paris: Les Éditions de minuit, 1972. (Collection ‘Critique’).
- DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. Tradução de Joaquim Torres Costa e António M. Magalhães. Campinas: Papirus Editora, 1991. 373 p.
-
DE SANCTIS, Arianna Berenice. L’Odin Teatret et l’Amérique latine. L’invention d’un réseau politique, esthétique et de compagnonnage. 2014. Thèse (Doctorat en Ethnoscénologie) - École doctorale Esthétique, sciences et technologie des arts, Saint-Denis, Seine-Saint-Denis, 2014. Disponible sur: <Disponible sur: http://www.theses.fr/2014PA084080
>. Consulté le: 01 févr. 2018.
» http://www.theses.fr/2014PA084080 - ESTORINO, Abelardo. Para mi el placer de acercarme a un grupo. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 7, mai-août 2002.
- FERRERA, Jorge. Para mi la visita del Odin a Cuba. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 8, mai-août 2002.
- GUERRA, Fabio. Atahualpa Del Cioppo: un hombre para pensar. Cádiz: Fundación Municipal de Cultura de Cádiz y Festival Iberoamericano de Teatro de Cádiz, 2004. P. 155-163.
- IMAGINATEATRO (Uruguay). Correspondance courriel entre le groupe et l’actrice de l’Odin Teatret Julia Varley en 2006 qui nous a été envoyée par mail par Julia Varley le 27 décembre 2007 2006.
- IMAGINATEATRO (Uruguay). Correspondance courriel entre le groupe et l’actrice de l’Odin Teatret Julia Varley en 2007 qui nous a été envoyée par mail par Julia Varley le 27 décembre 2007. 2007
- LEÓN JACOMINO, Fernando. Confieso, ante todo, no ser devoto. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 9, mai-août 2002.
- MARTÍNEZ TABARES, Vivian. Los mitos y las huellas del Odin. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 5-6, mai-août 2002.
- MASGRAU, Lluís. Introducción: Las peripecias del sentido o la ruta de los pajaros. Huitième partie. El Odin Teatret y Latinoamérica: Las dos orillas del río. Mascara, México, año 4, n. 19-20, p. 145-167, 1995.
- MASGRAU, Lluís; DE SANCTIS, Arianna Berenice. Testimonios de l’Odin en Latinoamérica. Memorias de Teatro, Santiago de Cali, Revue du Festival de Cali, n. 9, p. 124-147, p. 136, mai/nov. 2011.
- MELO, Abel Gonzalez. Hasta la victoria? Siempre? Teatro e paradosso a Cuba. Il Patalogo, Milan, Ubulibri, n. 31, p. 326-332, année 2008.
- PINEDA, Roxana. Efecto mariposa. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 26-28, mai-août 2002.
- PRADIER, Jean-Marie Pradier. Del cuerpo, a proposito del odin teatret. Maldoror. Revista de la ciudad de Montevideo, Montevideo, n. 10, août 1975, p. 33-35.
- PRADIER, Jean-Marie Pradier. Del cuerpo, a proposito del odin teatret. Maldoror. Revista de la ciudad de Montevideo , Montevideo, n. 11, août 1976, p. 30-33.
- PRADIER, Jean-Marie. De l’esthétique de la scène à l’éthique du réseau. Theatre/Public, Montreuil, n. 116, p. 69-75, 1994. (Communication présentée au 3ème Congrès mondial de sociologie du théâtre qui s’est tenu à Lisbonne du 30 octobre au 2 novembre 1992).
-
ROSENTAL, Paul-André. Micro-Histoire. In: ENCYCLOPÆDIA UNIVERSALIS. Dictionnaire de l’Encyclopædia Universalis. Boulogne-Billancourt, 2018. Disponible sur: <Disponible sur: http://www.universalis.fr/encyclopedie/micro-histoire/
>. Consulté le: 3 février 2018.
» http://www.universalis.fr/encyclopedie/micro-histoire/ - VALIÑO, Omar. El Odin se detuvo en La Habana. Tablas , La Havane, Casa editorial Tablas Alarcos, n. 2/02, v. LXVIII, p. 3-4, mai-août 2002.
- VARLEY, Julia. Credere: presenza della memoria. Article envoyé par courriel par l’actrice le 29 décembre 2007. (en cours de vérification).2007
- VARLEY, Julia. Pierres d’Eau: Carnet d’une actrice de l’Odin Teatret. Montpellier: L’Entretemps , 2009.
- VARLEY, Julia. Pedras d’Água - bloco de notas de uma atriz do Odin Teatret. Brasília: Teatro Caleidoscópio; Ed. Dulcina, 2010.
- WATSON, Ian. Eugenio Barba: The latin american connection. New Theatre Quarterly, Cambridge, Cambridge University Press, v. 5, n. 17, p. 67-72, février 1989.
- WATSON, Ian. Third Theatre: a legacy of Independence. In: WATSON, Ian. Towards a third theatre. Eugenio Barba and the Odin Teatret. London: Routledge, 1993. P. 197-220.
- WATSON, Ian. Negotiating Cultures: Eugenio Barba and the Intercultural Debate. Manchester: University Press, 2002.
