As Primeiras Narrativas Britânicas sobre a ilha de Bali: raça e civilização

Juliana Coelho de Souza Ladeira Sobre o autor

Résumé:

Cet article prétend analyser les écrits premiers de deux administrateurs-historiens britanniques sur l’archipel malais: Thomas Stanford Raffles et John Crawfurd. L’intérêt de cet article est celui de présenter les prémices du discours ethnologique britannique sur les “races” du monde, à travers quelques travaux de ces deux auteurs, en particulier le deuxième. Puisque John Crawfurd a également étendu sa réflexion sur lesdites races à d’autres exemples que celui des peuples de l’archipel malais, ses écrits donnent un aperçu de l’ampleur géographique des théories racistes du XIXe siècle. Analyser ces discours, fréquemment laissés de côté en milieu académique brésilien, est important pour contribuer à l’élargissement de la discussion sur la notion de races dans différentes époques et contextes.

Mots-clés:
Races; Théories Racistes; Ethnologie; Bali; Siècle XIX

Abstract:

This article deals with the first papers of two British historian-administrators on the Malay archipelago: Thomas Stanford Raffles and John Crawfurd. The interest of this article is to present the beginnings of the British ethnological accounts on the “races” of the world, through some works of these two authors, in particular the second one. As John Crawfurd also spread his thoughts on the races to other contexts than that of the Malay archipelago, his writings give us an overview of the geographical scale of the racist theories of the XIXth century. To analyze these accounts, frequently left aside in Brazilian academic circle, is important to broaden the discussion about the notion of human races in different times and contexts.

Keywords:
Races; Racist Theories; Ethnology; Bali; XIXth Century

Resumo:

Este artigo pretende analisar os primeiros escritos de dois administradores-historiadores britânicos no arquipélago malaio: Thomas Stanford Raffles e John Crawfurd. O interesse do artigo é apresentar o início do discurso etnológico britânico sobre as “raças” do mundo, a partir de alguns trabalhos desses dois autores, em particular do segundo. Como John Crawfurd também ampliou sua reflexão sobre a noção de raças humanas a outros exemplos que o dos povos do arquipélago malaio, seus escritos são um indício da amplitude geográfica das teorias racistas do século XIX. Analisar esses discursos, frequentemente deixados de lado no círculo acadêmico brasileiro, é importante para tentarmos ampliar a discussão sobre a noção de raças humanas em diferentes épocas e contextos.

Palavras-chave:
Raças; Teorias Racistas; Etnologia; Bali; Século XIX

Introdução

Antes mesmo da publicação dos célebres textos de Antonin Artaud sobre a apresentação da trupe balinesa na Exposição Colonial de 1931, a ilha de Bali já pertencia ao imaginário orientalista europeu e estadunidense. Assim, examinar historicamente a configuração desse imaginário de Bali e de suas artes espetaculares é especialmente importante para compreendermos essa ilha, como também o olhar europeu sobre o Outro.

Historicamente, as narrativas sobre Bali começam a ganhar importância com a publicação de duas obras muito completas sobre o arquipélago malaio: The History of Java, publicada em dois volumes (Imagem 1) (Raffles, 1817aRAFFLES, Thomas Stamford. The History of Java. v. I. London: Booksellers to the Hon; East-India Company, [etc.], 1817a.; 1817bRAFFLES, Thomas Stamford. The History of Java . v. II. London: Booksellers to the Hon ; East-India Company, [etc.], 1817b.), e History of Indian Archipelago, publicada em três volumes (Imagem 2) (Crawfurd, 1820aCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants. v. I. Edinburgh: Archibald Constable and Co., [etc.], 1820a.; 1820bCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants . v. II. Edinburgh: Archibald Constable and Co. , [etc.], 1820b.; 1820cCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants . v. III. Edinburgh: Archibald Constable and Co. , [etc.], 1820c.). Escritos, respectivamente, por Thomas Stanford Raffles e John Crawfurd, esses livros descrevem vários aspectos da ilha de Java e do arquipélago malaio. São trabalhos detalhados do ponto de vista documental. Este artigo aborda especialmente os discursos sobre as “raças”18 18 A palavra “raça”, referindo-se a “raças humanas” foi colocada entre aspas apenas no início do texto para evitar uma pontuação exaustiva. As aspas são uma lembrança ao caráter ultrapassado e inapropriado do uso desse termo no meio científico. do arquipélago e sua tentativa de hierarquizá-las nessas duas obras. Em escritos posteriores, John Crawfurd tratou longamente dessa temática, já que era um árduo defensor do poligenismo, isto é, a ideia de que a humanidade teria sido originada a partir de diversos casais, tendo assim diferentes origens. Por um lado, esses discursos são um exemplo da amplitude geográfica das teorias racistas no século XIX. Dessa forma, eles nos ajudam a compreender a extensão cronológica e geográfica dessas teorias. Por outro lado, observamos que as manifestações espetaculares desses povos também foram classificadas segundo as raças das quais foram originadas. A apreciação das danças e a classificação das práticas espetaculares do arquipélago também acompanhou esse tipo de classificação.

Imagem 1
A primeira página da primeira edição do livro The History of Java de Thomas Stamford Raffles

Imagem 2
As primeiras páginas do livro History of Indian Archipelago, de John Crawfurd. Abaixo da primeira ilustração constam as inscrições raja Bliling, ou o rei de Buleleng, um antigo reino balinês

De Selvagens a Artistas, a Evolução do Retrato e das Narrativas sobre os Balineses

A profusão de imagens e de sentimentos que a ilha de Bali suscita foi progressivamente construída através de depoimentos de estrangeiros, principalmente de europeus e americanos19 19 Para designar os habitantes dos Estados Unidos da América, será utilizado o termo estadunidense; para o conjunto dos habitantes do continente americano, os termos americanos e americanas. , ao longo de 400 anos de história compartilhada. Entre administradores coloniais, antropólogos e artistas, esses estrangeiros produziram diversos documentos que fizeram a fama da ilha no mundo e influenciaram, direta ou indiretamente, artistas cênicos. A história de Bali, assim como a das outras ilhas do arquipélago indonésio, foi marcada pela colonização holandesa. Aos poucos, mas sobretudo no início do século XX, a política colonialista favoreceu a abertura da ilha ao turismo, o que acarretou transformações irreversíveis em suas estruturas sociais e econômicas:

Muito sobre a imagem mundial de Bali foi esquecido. Os primeiros escritores europeus viram-na cheia de ameaças, uma ilha de roubos e assassinatos, simbolizada pela espada ondulada do mundo malaio, a kris. Ainda que a imagem da ilha no século vinte como um paraíso exuberante venha de escritos precedentes sobre Bali, estes foram seletivamente citados, quando não contradiziam a ideia de ilha do Éden. As palavras negativas globais dos escritos ocidentais sobre Bali foram rejeitadas20 20 Tradução livre do original em inglês: There is much that has been forgotten in the world’s image of Bali. Early European writers once saw it as full of menace, an island of theft and murder, symbolized by the wavy dagger of the Malay world, the kris. Although the twentieth-century image of the island as a lush paradise drew on the earlier writings about Bali, these were only selectively referred to, when they did not contradict the idea of the island of Eden. The overall negative intent of the earlier western writings about Bali has been discarded. (Vickers, 2012VICKERS, Adrian. Bali: a paradise created. Tokyo: Tuttle Publishing, 2012., p. 26).

Os primeiros registros sobre a presença europeia em Bali datam do século XVI, na época das grandes navegações. O arquipélago malaio estava sob o domínio português, mas a ilha de Bali continuava sem ocupação direta. Durante esse período, um primeiro relato, o do navegador holandês Cornelis de Houtman, é publicado em 1598 e é rapidamente traduzido para outras línguas. As primeiras edições francesas datam de 1601 e 1609. A presença portuguesa no arquipélago vai sendo progressivamente substituída pelo domínio da Companhia Holandesa das Índias Orientais, a VOC21 21 A Companhia Holandesa das Índias Orientais, a Vereenigde Oost-Indische Compagnie ou VOC, foi a empresa mais poderosa no mundo entre os séculos XVII e XVIII. . Como a ilha não possuía especiarias, a VOC não demonstrou muito interesse por Bali. O comércio com a ilha era baseado essencialmente no tráfico de escravos - uma prática comum na região desde o século X. A fundação de Batavia, a atual Jakarta, assim como as ligações comerciais que foram criadas posteriormente, fizeram crescer consideravelmente o número de homens, mulheres e crianças balinesas e não-balinesas negociadas pelos rajas22 22 Os reis balineses. (Vickers, 2012VICKERS, Adrian. Bali: a paradise created. Tokyo: Tuttle Publishing, 2012., p. 33).

As sucessivas rebeliões de escravos balineses, conhecidos por se tornarem amuk23 23 Palavra indonésia frequentemente traduzida por: cólera, loucura furiosa (Labrousse; Soemargono, 1984, p. 25). , além de desacordos e desentendimentos com os rajas iriam progressivamente marcar a imagem de Bali. Os rajas eram vistos como déspotas decadentes, temidos por sua força bélica e conhecidos por seus luxos desmedidos. Os balineses adquiriram a reputação de povo violento graças certamente às revoltas de escravos. Além disso, a sati, o sacrifício de viúvas, era um costume amplamente evocado como prova da selvageria desse povo. Ainda em 1799, Dirk van Hogendorp descreveu os balineses como “agressivos, selvagens, ardilosos e bélicos”, bem longe da imagem de artistas em profunda harmonia com a natureza que eles teriam depois (Hogendorp apud Guermonprez, 2001GUERMONPREZ, Jean-François. La religion balinaise dans le miroir de l’hindouisme. Bulletin de l’Ecole française d’Extrême-Orient, Paris, BEFFO, v. 88, n. 1, p. 271-293, 2001., p. 272).

A Curta Presença Britânica: Bali como um museu vivo de Java

Como consequência das guerras napoleônicas (1803-1815), as Índias Orientais Holandesas foram ocupadas pelos britânicos, sob a administração de Thomas Stamford Raffles24 24 Thomas S. Raffles nasceu num navio em 1781. Aos 14 anos, ele integrou a East India Company e estudou várias línguas e ciências naturais. Dez anos mais tarde, ele se torna assistente do governador de Penang (na atual Malásia). Depois da retirada britânica do arquipélago malaio, ele parte para o norte e funda o porto de Singapura. De volta à Londres, ele dedica o fim da sua vida aos estudos orientalistas. , entre 1810 e 1816. Durante esse período, duas obras foram escritas: The History of Java, de Raffles e History of Indian Archipelago, de John Crawfurd25 25 John Crawfurd foi um orientalista escocês, filólogo e sanscritista, empregado pela East India Company. Formado em medicina, ele foi alocado durante cinco anos na Índia (1803-1808). Em 1808, foi transferido para Penang, no arquipélago malaio, onde nasceu seu interesse pela língua malaia. Em 1811, com a invasão britânica, ele consegue um cargo importante no seio da administração. Em 1820, ele participa de missões diplomáticas na Tailândia e no Vietnam. Em 1823, ele substitui Thomas S. Raffles na fundação de Singapura. De volta ao Reino-Unido em 1930, Crawfurd se dedica ao estudo e aos escritos orientalistas. Ele tenta carreira no parlamento, sem sucesso. Ganeth Knapam descreve Raffles e Crawfurd como administradores-historiadores, denominação que nós também adotamos (Knapman, 2016, p. 1). . Essas obras e seus autores ajudam a compreender o contexto do início da etnologia e seus reflexos na política colonialista que seria posta em prática posteriormente em Bali. As narrativas de Raffles e Crawfurd podem ser consideradas como escritos etnológicos precursores, como o disse Marcel Mauss ao analisar o estado da etnografia na França e no exterior:

Na Inglaterra, a descoberta e conquista das colônias levaram a discussão d um mundo de fatos, questões e ideias. De 1800 a 1825, livros como o de Collins sobre os Australianos, os de Raffles e Marsden sobre a Malásia, o de Ellis sobre os Polinésios provocaram a mais viva curiosidade. Ainda hoje, são fontes indispensáveis. A tradição etnográfica estava fundada, mesmo estando longe de qualquer cátedra magistral nas universidades, mesmo apartada da comunidade científica (Mauss, 1930MAUSS, Marcel. L’Ethnographie en France et à l’étranger. La Revue de Paris. Paris, La Revue de Paris , n. 20, p. 537-560, sept. 1930., p. 538).

Em 1817, são publicados os dois volumes de The History of Java, de Thomas Stamford Raffles, nos quais ele defendia a tese da antiguidade da herança hindu de Java. Assim, Bali começou a ser considerada como um museu vivo da antiga Java e um dos últimos refúgios do hinduísmo26 26 Segundo Jean Gelman Taylor, os marinheiros indianos presentes na expedição de Thomas S. Raffles teriam identificado esses traços hinduístas em Java (Taylor, 2003). no arquipélago. Nessa obra, constam um primeiro e único comentário sobre as artes balinesas: “Nas artes eles estão muito atrás dos javaneses, mesmo parecendo poder ultrapassá-los rapidamente” (Raffles, 1817b, v. II, p.ccxxxiii). Raffles olha os balineses de forma muito positiva:

Eles são um povo em ascensão. Nem corrompidos pelo despotismo, nem enfraquecidos pela indolência e o luxo. Eles são talvez mais promissores para realizar progressos civilisatórios e para um bom governo que os seus vizinhos27 27 Tradução livre do original em inglês: They are now a rising people. Neither degraded by despotism nor enervated by habits of indolence or luxury, they perhaps promise fairer for a progress in civilisation and good government than any of their neighbours. (Raffles, 1817bRAFFLES, Thomas Stamford. The History of Java . v. II. London: Booksellers to the Hon ; East-India Company, [etc.], 1817b., v. II, p. ccxxxii).

John Crawfurd apresentou o History of Indian Archipelago como o resultado de nove anos de residência no arquipélago malaio. Depois de ser nomeado para a equipe médica do príncipe de Gales, ele foi enviado à Java em 1811. Nessa obra, entre outros assuntos, ele consagra um capítulo à religião de Bali e, como na obra de Raffles, ela é continuamente descrita como hinduísta. Aproximando-se da análise de Raffles sobre o contexto balinês, mas estudando-o com mais profundidade, John Crawfurd defendeu também a religião balinesa como um vestígio da religião de Java e Bali como seu museu vivo. Ele também descreveu as danças e as dramatic performances do arquipélago, sem mencionar Bali e dando destaque às formas javanesas:

O amor à dança, que tem variadas formas, é uma das paixões prediletas dos indianos insulares. De fato, de alguma forma, ela é mais que um divertimento, se misturando aos assuntos mais sérios da vida. A dança como é praticada por eles, não é uma arte, nem como ela existe entre os selvagens da América, nem entre os Hindus e Maometanos da Índia Ocidental. Como esses últimos, eles têm mulheres dedicadas exclusivamente à dança, que se apresentam por encomenda; mas como os primeiros, de tempos em tempos, eles mesmos dançam em cortejos públicos e em ocasiões mais sérias. A dança faz parte das solenidades28 28 Tradução livre do original em inglês: The love of dancing, in a variety of shapes, is a favourite passion of the Indian islanders. It is somewhat more, indeed, than an amusement, often mingling itself with the more serious business of life. Dancing, as practised by them, is neither the art, as it exists among the savages of America, nor among the Hindus and Mahomedans of Western India. Like the latter, they have professed dancing women, who exhibit for hire; but, like the former, they occasionally dance themselves, and in public processions, and even more serious occasions, dancing forms a portion of the solemnities. (Crawfurd, 1820aCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants. v. I. Edinburgh: Archibald Constable and Co., [etc.], 1820a., v. I, p. 121).

The History of Java se detinha na descrição da grande ilha do arquipélago, dedicando um anexo a Bali e Lombok. Por sua vez, History of Indian Archipelago se interessava por certos costumes e pela moral dos habitantes de todo o arquipélago, atribuindo um lugar importante aos dos balineses. A narrativa de John Crawfurd retifica as descrições de Raffles, acrescentando outras observações e desenvolvendo uma classificação dos seres, ou “raças” encontradas no arquipélago.

Imagem 3
A gravura de um brâmane de Bali: Bukyan, an Ida or Bramin of Bali

O discurso de Crawfurd em History of Indian Archipelago fazia do homem da ilha de Java, e consequentemente também o de Bali, um ser superior, pois os balineses foram considerados como uma raça-testemunho do que seriam os javaneses antes da islamização (Imagem 3). O Islam é descrito como uma causa da decadência de Java. Por exemplo, ele descrevia com detalhes o aspecto físico dos indianos insulares, com o intuito de medir a raça mais desenvolvida, além de julgar as faculdades mentais dos mesmos:

Todas as suas faculdades intelectuais estão num estado de fraqueza; a memória deles não é nem fiel, nem confiável; e a imaginação desavergonhada e pueril; sua razão é geralmente falsa e enganosa, e mais defeituosa que o resto quando aplicada a qualquer assunto acima do pensamento mais comum. Nenhum homem pode dizer sua idade, nem a data de nenhuma transação notável na história de sua tribo ou país. [...] A fraqueza de suas faculdades intelectuais e a sua imaginação lasciva os tornam crédulos e supersticiosos a um grau impressionante29 29 Tradução livre do original em inglês: All the faculties of their minds are in a state of comparative feebleness; their memories are treacherous and uncertain; their imaginations wanton and childish; and their reason, more defective than the rest, when exerted on any subject above the most vulgar train of thought, commonly erroneous and mistaken. No man can tell his own age, nor the date of any remarkable transaction in the history of his tribe or country. [...] The weakness of their reason, and the pruriency of their imagination, make them to a wonderful degree credulous and superstitious. (Crawfurd, 1820aCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants. v. I. Edinburgh: Archibald Constable and Co., [etc.], 1820a., v. I, p. 46).

Observações como estas são feitas em diversos momentos da obra. Ainda nesse livro, as observações mais elogiosas são destinadas às habilidades dos insulares ligadas à imitação e à música:

Eles possuem duas qualidades que estão bem acima de seus outros poderes. - Em comum com todos os semibárbaros, eles são bons imitadores; mas nesse quesito, eles não estão à altura dos hindus. Eles superam esses últimos e, eu acho, todos os outros semibárbaros, em sua segunda qualidade: o seu talento para a música. Eles têm orelhas de uma delicadeza extraordinária para os sons musicais e são facilmente educados para tocar, em qualquer instrumento, as mais difíceis e complexas melodias30 30 Tradução livre do original em inglês: Two qualities they possess in a degree which far outstrips their other powers. – In common with all semibarbarians, they are good imitators; but in this respect they fall short of the Hindus. They exceed these, however, and, I believe, all other semibarbarians, in the second quality, their capacity for music. They have ears of remarkable delicacy for musical sounds, and are readily taught to play, upon any instrument, the most difficult and complex airs. (Crawfurd, 1820aCRAWFURD, John. History of the Indian Archipelago Containing an Account of the Manners, Arts, Languages, Religions, Institutions, and Commerce of its Inhabitants. v. I. Edinburgh: Archibald Constable and Co., [etc.], 1820a., v. I, p. 46).

Imagem 4
A representação de um balinês (à direita) e de um habitante de Papua (à esquerda)

É importante notar como as noções de “raça” e “povos” são definidas por John Crawfurd: a primeira se refere aos atributos físicos e cognitivos de um povo (Imagem 4). Para se expressar sobre os “povos”, ele vai classificá-los como “bárbaros”, “semibárbaros” e “civilizados”. Em outros artigos, escritos posteriormente, John Crawfurd enfatiza a superioridade das civilizações de Java, Bali e Lombok quando comparadas a outras populações do arquipélago, as quais ele denominava “bárbaros”:

Neste Arquipélago, onde há pradarias sem florestas com um solo fértil, encontraremos sempre uma civilização bastante respeitável; e em todos os lugares onde a terra é coberta por uma floresta densa, encontraremos com certeza certa barbárie. Mesmo que a mesma raça habite outros lugares, Java, e as duas pequenas ilhas logo a leste dessa, pertencem às ilhas de primeira classe. [...] As três ilhas comportam cerca de doze milhões de habitantes civilizados, possuindo artes úteis e uma língua escrita inventada na ilha principal nos tempos imemoriais31 31 Tradução livre do original em inglês: In this Archipelago, wherever there are plains forest-free with a fertile soil, there will always be found a very respectable civilization; and wherever the land is covered with a dense forest, we are certain to encounter a certain barbarism. Although exactly the same race inhabits others localities, Java, and the two small islands immediately to the east of it, belong to the first class of islands. [...] The three islands contain between them about twelve millions of civilized inhabitants, immemorially in possession of the useful arts and of a written language, invented in the principal island. (Crawfurd, 1861CRAWFURD, John. On the Conditions Which Favour, Retard, or Obstruct the Early Civilization of Man. Transactions of the Ethnological Society of London, London, Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 1, p. 154-177, janv. 1861., p. 168).

Desse modo, Bali é classificada ao lado de Java na primeira classe das ilhas do arquipélago. As obras de Thomas S. Raffles e de John Crawfurd abriram o caminho para uma forma de ver e analisar Bali e o arquipélago malaio. Suas análises não se limitaram apenas à visão colonialista e orientalista britânica característica da época. Elas expunham a natureza do olhar do colonizador sobre os povos subjugados. Thomas S. Raffles, e sobretudo John Crawfurd, seriam considerados etnólogos posteriormente, já que esse termo será incorporado na Inglaterra no decorrer de suas vidas. Este último fez carreira como etnólogo e orientalista em Londres. Sendo poligenista, ele defendia a tese de que a humanidade teria origens múltiplas. Entre 1861 e 1868, ele presidiu a Ethnological Society of London e foi um oponente feroz de Charles Darwin e de sua tese da origem comum da humanidade32 32 Além disso, John Crawfurd escrevia para revistas diversas como a The Examiner. . De fato, a maior parte dos primeiros etnólogos eram funcionários das metrópoles e que, em paralelo às suas obrigações administrativas, se dedicavam à observação dos povos colonizados. Em seus artigos posteriores, John Crawfurd se dedicou ao estudo etnológico dos povos do arquipélago, mas também ao dos portugueses e espanhóis na Europa, por exemplo. Ao longo desses artigos, os habitantes do arquipélago iriam ser comparados, medidos e classificados entre si.

Esses escritos posteriores de Crawfurd são também um exemplo das teorias racistas correntes na antropologia da época. Seu artigo, On the Malayan Race of Man and Its Prehistoric Career (Crawfurd, 1869CRAWFURD, John. On the Malayan Race of Man and Its Prehistoric Career. Transactions of the Ethnological Society of London , London, Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 7, p. 119-133, janv. 1869. ), dedicado à exploração científica do arquipélago malaio, analisava a raça malaia, afirmando sempre a superioridade da raça europeia diante desses povos. Ele também produziu numerosos escritos etnológicos sobre a raça ariana ou indo-germânica, sobre a classificação das raças humanas a partir da medida e do formato do crânio, entre outros. No seu texto On the Conditions Which Favour, Retard, or Obstruct the Early Civilization of Man (Crawfurd, 1861CRAWFURD, John. On the Conditions Which Favour, Retard, or Obstruct the Early Civilization of Man. Transactions of the Ethnological Society of London, London, Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 1, p. 154-177, janv. 1861.), ele afirmava, do ponto de vista científico, a excelência e a superioridade da raça do homem branco europeu sobre as outras raças do mundo e, entre os europeus, a superioridade dos britânicos. Assim, segundo ele, o fator mais determinante para o progresso de uma civilização seria a raça.

Para ele, a mistura seria a causa maior da degeneração das raças e, em seu artigo On the Commixture of the Races of Man as Affecting the Progress of Civilisation (Crawfurd, 1865CRAWFURD, John. On the Commixture of the Races of Man as Affecting the Progress of Civilisation. Transactions of the Ethnological Society of London , London, Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 3, p. 98-122, 1865.), ele analisa a mistura dos portugueses e espanhóis com os povos do Sudeste asiático, comparando-a com a dos britânicos. Os dois primeiros teriam criado híbridos, que não se diferenciavam muito dos povos malaios (Crawfurd, 1865, p. 117). Para ele, a mistura entre os britânicos e os taitianos teria criado um ser superior:

Sem dúvida, a diferença foi produzida devido à superioridade da raça e da civilização, mesmo se esta última tivesse como fonte apenas um cadete e oito marinheiros ingleses. Isso foi suficiente para gerar inteligência e indústria e para eliminar os vícios sociais dos colonos que obstruem o progresso da população em outros locais33 33 Tradução livre do original em inglês: The difference, no doubt, has arisen from superiority of race and civilization; and although the last of these had no higher source than a midshipman and eight English sailors, yet it was sufficient to generate intelligence and industry, and to exempt the colonists from the social vices which elsewhere hinder the advance of population. (Crawfurd, 1865CRAWFURD, John. On the Commixture of the Races of Man as Affecting the Progress of Civilisation. Transactions of the Ethnological Society of London , London, Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 3, p. 98-122, 1865., p. 118).

É interessante notar também que no History of Indian Archipelago, John Crawfurd faz episodicamente críticas ao olhar, às concepções e mesmo a certas ações dos holandeses com relação aos povos do arquipélago, especialmente os javaneses. Grande parte dessas considerações era depreciativa, sempre duvidando do julgamento dos holandeses sobre os povos colonizados. Tal movimento discursivo parece querer renegar os antigos conquistadores para legitimar a própria presença no arquipélago.

Nesses escritos, a mestiçagem e o hibridismo das raças são considerados como processos que causam a degeneração dos povos, das religiões e das culturas, razão e fator da inferioridade de certas raças e civilizações. Essas obras influenciaram posteriormente os orientalistas que se interessariam por Bali? Parece-nos provável que essa direção epistemológica possa ter dado uma garantia antropológica e científica para o processo posterior de preservação da pureza da cultura balinesa, considerada como superior a outras do arquipélago. Para eles, os javaneses, e consequentemente os balineses, ocupavam uma posição de superioridade no arquipélago. Esse aspecto tão presente nos escritos desses autores evidencia a relação que certos orientalistas da época mantinham quando do encontro com o Outro.

Aberturas Conclusivas

Desde as suas origens, o pensamento antropológico34 34 Embora se trate de uma tese partilhada por muitos antropólogos, fazemos referência aqui ao livro de Jean-Loup Amselle (Amselle, 1990). tratou de analisar as noções de cultura e etnia. Como ciência humana, e sobretudo muito identificada ao estudo dos povos colonizados, a antropologia influenciou o pensamento político de diferentes épocas. Além disso, como vimos anteriormente, os primeiros etnólogos eram funcionários dos governos coloniais. Filha ao mesmo tempo do Iluminismo e do colonialismo, a antropologia nem sempre teve suas origens diretamente vinculadas com o estabelecimento do sistema colonial:

Durante suas primeiras décadas de existência, a antropologia valorizou o ideia do progresso, tanto material quanto moral, que marcou a evolução da humanidade das sociedades inferiores às sociedades superiores e cujo pináculo era representado pela Grã-Bretanha. Volens nolens, a antropologia vangloriava a ascensão da ciência e das técnicas como formas de resolver os problemas da humanidade e permitir o acesso de todos os homens à civilização, eliminando o obscurantismo (Deliège, 2008DELIÈGE, Robert. Des catégories coloniales à l’indigénisme. Heurs et malheurs d’un parcours ethnologique. L’Homme, Paris, Éditions de l'EHESS, v. 3, p. 423-431, juil. 2008., p. 424).

Para o microbiologista André Langaney, a teoria segundo a qual os seres humanos seriam uma espécie, e o conceito de raça visto como uma subespécie, não pode ser aplicada. Em seu texto, Enjeux pluridisciplinaires des théories de l’hominisation, o microbiologista explica de maneira breve como o conceito de raça e as hipóteses sobre a gênese da humanidade são extremamente condicionados à época e ao contexto cultural dos cientistas, além de serem influenciados por questões econômicas e geopolíticas do meio acadêmico:

Desde então, a noção de raça vai enrijecer, no momento em que foi produzido o pior da colonização. Durante toda essa era, a classificação dos seres humanos se torna uma questão capital, especialmente no mundo ocidental, com o objetivo de justificar o que foi infligido aos outros. Assim, esquecemos então das notáveis intuições de Helder que, no fim do século XVIII, escreveu: ‘Não há nem quatro, nem cinco raças humanas; as populações formam um lençol contínuo cujas sombras se espalham sobre todos os tempos e todos os continentes’ [...] No tempo de Darwin e Haeckel, os relatos de viagem eram muito lidos e eles deixavam uma lacuna entre o mundo humano e o mundo animal. Certas narrativas fantásticas falavam de homens dos bosques (o que é conforme a etimologia do termo malaio). Não se hesitava em apresentar pretensos híbridos de grandes macacos e homens. Isso quer dizer que a noção ainda não estava compreendida, mesmo que Buffon tivesse há muito tempo tentado esclarecê-la pelo critério da interesterilidade das espécies. Como pudemos chegar a uma confusão tão grande? (Langaney, 2002LANGANEY, André. Enjeux pluridisciplinaires des théories de l'hominisation. In: BOUQUET, Simon; RASTIER, François. Une Introduction aux Sciences de la Culture. Paris: Presses universitaires de France, 2002., p. 40).

De fato, os registros de viagem dedicados à Bali nos interessam, e os estudos antropológicos ocupam um lugar central. Desde a Antiguidade existem registros europeus sobre a Índia ou a China, por exemplo, passando pelos registros de Marco Polo e dos missionários jesuítas durante o período das grandes navegações. No entanto, Bali começaria a ser melhor descrita e analisada pelos viajantes europeus pelo intermédio dos relatórios de Thomas S. Raffles e John Crawfurd, sobretudo depois da efetiva colonização holandesa, quase um século mais tarde.

A curta presença britânica no arquipélago e as obras que foram escritas mudariam a perspectiva dos registros europeus sobre Bali e sobre a religião balinesa. Esse ponto de vista seria retomado pelos estudos holandeses. Foi depois dessa estadia britânica que a administração holandesa começou a prestar atenção em Bali, estabelecendo a preservação da religião e das manifestações espetaculares da ilha como princípio de colonização, algumas décadas mais tarde (Vickers, 2012VICKERS, Adrian. Bali: a paradise created. Tokyo: Tuttle Publishing, 2012., p. 29). Bali, que até então não apresentava o mínimo interesse comercial, conheceu uma nova forma de exploração: o turismo. Nesse contexto de preservação das tradições culturais e de promoção do turismo, as manifestações espetaculares balinesas, que até então não haviam chamado muito a atenção dos estrangeiros europeus, se transformariam progressivamente num dos primeiros produtos de consumo da ilha.

É difícil medir o impacto e até que ponto essas narrativas influenciaram os cronistas seguintes. No entanto, uma verdadeira mudança nos discursos sobre a ilha foi observada depois das obras de Raffles e Crawfurd. A partir da curta presença britânica, os habitantes de Java, e consequentemente os de Bali, foram apresentados como sendo raças de primeira classe. Da mesma forma, suas manifestações artísticas também foram apresentadas como as mais desenvolvidas do arquipélago. Podemos dizer que é a partir dessas duas obras e da análise racial contida nelas que os balineses ganharam status maior. Quando a trupe balinesa de Peliatan vai à Europa em 1931, se apresentando nos Países Baixos e durante toda a Exposição Colonial em Paris, os artigos da imprensa e outros textos vão colocar as danças balinesas num nível superior às outras atrações do evento:

Mesmo na Exposição Colonial, nesse teatro de Bali, parece que estamos nos extremos da sensibilidade artística, nos confins de uma beleza primitiva e erudita (Fels, 1931FELS, Florent. À l’Exposition Coloniale: danses de Bali. Vu: journal de la semaine, p. 995, juil. 1931., p. 995).

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    Este texto inédito, traduzido pela própria autora, também se encontra publicado em francês neste número do periódico.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Ago 2017

Histórico

  • Recebido
    31 Jul 2016
  • Aceito
    09 Mar 2017
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