Competências dos médicos no atendimento a idosos em situação de violência: revisão de escopo

Cesar Augusto de Freitas e Rathke Gabriela Maria Cavalcanti Costa Rafaella Queiroga Souto Sobre os autores

Resumo

Objetivo

descrever, por meio das evidências da literatura, as competências dos médicos de serviços hospitalares diante de situações de violência contra a pessoa idosa (VCPI).

Método

revisão de escopo com busca em bases de dados/plataformas/buscadores e literatura cinzenta abrangendo Medline; BVS; Embase; CINAHL; Web of Science; BDTD, OpenGrey, OpenThesis, RCAAP, Portal de Teses e Dissertações da CAPES, DART-Europe E-theses Portal e Theses Canada Portal (catálogos Aurora e Voilà). Os descritores e palavras-chave utilizados, combinados com os operadores booleanos OR, AND e NOT, foram: “Physicians”, “Médicos”, “Atitude”, “Attitude”, “Conhecimento”, “Knowledge”, “Behavior”, “Atendimento Médico”, “Cuidados Médicos”, “Medical Care”, “Serviços Hospitalares”, “Hospital Services”, “Hospital”, “Hospitalists”, “Médicos Hospitalares”, “Maus-Tratos ao Idoso”, “Elder Abuse”, “Physical Abuse”, “Elder Neglect”, “Aged Abuse”, “Elder Mistreatment”.

Resultados

seis trabalhos foram selecionados. Evidenciou-se falta de conhecimento sobre o tema e a abordagem, e de treinamento específico. Quanto às habilidades, os achados que mais levaram os médicos a suspeitarem de abuso foram achados físicos ligados à aparência, higiene e lesões - problemas de comunicação e relacionamento foram pouco apontados. Na atitude houve pesquisa de abusos em apenas 44% das suspeitas e percentuais baixos ou nulos de denúncia de casos. Apenas um estudo explorou a atitude frente às negligências, onde 24,8% relataram aos serviços sociais e 21,3% informaram à polícia.

Conclusão

a maioria dos casos de VCPI continua não percebida e, consequentemente, não reportada ou manejada. Há múltiplos problemas quanto às competências dos médicos hospitalares ao abordarem tais situações, cenário que expõe a demanda por medidas de sensibilização, capacitação e incentivo ao adequado enfrentamento da VCPI.

Palavras-Chave:
Serviços de Saúde para Idosos; Maus-Tratos ao Idoso; Competência Clínica

Abstract

Objective

describing by means of the evidence in the literature, the competences of doctors in hospital services in situations of violence against older people (VAOP).

Method

scope review with search in databases/platforms/searchers and grey literature covering Medline; VHL; Embase; CINAHL; Web of Science; BDTD, OpenGrey, OpenThesis, RCAAP, Portal de Teses e Dissertações da CAPES, DART-Europe E-theses Portal and Theses Canada Portal (Aurora and Voilà catalogs). The descriptors and keywords used, combined with the Boolean operators OR, AND, NOT were: “Physicians”, “Doctors”, “Attitude”, “Attitude”, “Knowledge”, “Knowledge”, “Behavior”, “Medical Care”, “Medical Care”, “Medical Care”, “Hospital Services”, “Hospital Services”, “Hospital”, “Hospitalists”, “Hospital Doctors”, “Older People Abuse”, “Older People Abuse”, “Physical Abuse”, “Older People Neglect ”, “Aged Abuse”, “Older People Mistreatment”.

Results

six papers were selected. There was a lack of knowledge on the topic and the approach, and of specific training. As for skills, the findings that most led doctors to suspect abuse were physical findings linked to appearance, hygiene and injuries - communication and relationship problems were little mentioned. In the attitude, there was a research of abuse in only 44% of the suspicions and low or null percentages on case reporting. Only one study explored the attitude towards negligence, where 24.8% reported to social services and 21.3% informed the police.

Conclusion

most cases of VAOP remain unnoticed and therefore unreported or unhandled. There are multiple problems regarding the competences of hospital doctors when dealing with such situations, a scenario that exposes the demand for measures to raise awareness, training, and encouragement to adequately deal with VAOP.

Keywords
Health Services for the Aged; Elder Abuse; Clinical Competence

INTRODUÇÃO

O percentual de idosos na população cresce rapidamente. No Brasil, prevê-se aumento superior à média mundial: os idosos de 60 anos ou mais em 1950 correspondiam a 4,9% do total da população e atingiram 14% em 202011 United Nations Organization, Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2019: Highlights [Internet]. New York: United Nations; 2019 [acesso em 10 abr. 2020]. Disponível em https://population.un.org/wpp/.
https://population.un.org/wpp/...
. Esse crescimento, associado às mudanças nas famílias e às transformações sociais, tem se traduzido no aumento da Violência Contra a Pessoa Idosa (VCPI)22 Mallet SM, Côrtes MCJW, Giacomin KC, Gontijo ED. Violência contra idosos: um grande desafio do envelhecimento. Rev Med Minas Gerais. 2016;26(Supl 8):408-3..

Múltiplos tipos de violência os vitimam: abusos e maus-tratos de ordem física, emocional, financeira, sexual, bem como abandono, negligência e autonegligência, em quaisquer ambientes. Tais agressões, independentemente do tipo, podem causar sofrimento psíquico intenso, aumento de adoecimentos físicos e da utilização de serviços de saúde, traumas e até levar à morte33 Pillemer K, Burnes D, Riffin C, Lachs MS. Elder Abuse: Global Situation, Risk Factors, and Prevention Strategies. Gerontologist. 2016;56(S2):194-205.,44 Brasil. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Manual de Enfrentamento à Violência contra a Pessoa Idosa. É possível prevenir. É necessário superar [Internet]. Brasília, DF: Secretaria de Direitos Humanos; 2014 [acesso em 10 abr. 2020]. Disponível em https://www.gov.br/mdh/pt-br/sdh/noticias/2014/junho/ManualdeEnfrentamentoViolenciacontraaPessoaIdosa.pdf/view.
https://www.gov.br/mdh/pt-br/sdh/noticia...
. A questão é, portanto, multifatorial revestida de grande complexidade e, usualmente, subnotificada55 Alves CS, Serrão C. Fatores de risco para a ocorrência de violência contra a pessoa idosa: revisão sistemática. PAJAR. 2018;6(2):58-71..

O Estatuto do Idoso tipifica a VCPI, preconiza a notificação compulsória mesmo em suspeitas e defende a punição66 Brasil. Lei no 10.741, de 1º de Outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da União. 3 out. 2003.. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), por meio do Disque 100, revela que o número de denúncias saltou de 8.224 em 2010 para 37.454 em 2018, sendo as principais: Negligência (79,54%), Abuso Financeiro e Econômico/Violência Patrimonial (41,7%) e Violência Física (26,49%)77 Brasil. Ministério da Mulher,da Família e dos Direitos Humanos. Balanço Disque 100 Pessoa Idosa 2011-2018. 2019 [acesso em 15 de outubro de 2019]. Disponível em https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/ouvidoria/balanco-disque-100.
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Sendo a VCPI frequente, impactante e pouco diagnosticada, o contato do idoso com a equipe médica pode ser oportunidade única para detecção e abordagem88 Dong XQ. Elder abuse: systematic review and implications for practice. J Am Geriatr Soc. 2015;63(6):1214-38.,99 Rosen T, Stern ME, Mulcare MR, Elman A, McCarthy TJ, LoFaso VM, et al. Emergency department provider perspectives on elder abuse and development of a novel ED-based multidisciplinary intervention team. Emerg Med J. 2018;35(10):600-7.. Há evidências de que idosos vítimas de violência e negligência têm menor probabilidade de receber atendimento em atenção primária à Saúde (APS) do que outros idosos. Porém, provavelmente, receberão cuidados hospitalares, geralmente emergenciais, com maior frequência88 Dong XQ. Elder abuse: systematic review and implications for practice. J Am Geriatr Soc. 2015;63(6):1214-38..

A atuação do médico transcende o diagnóstico e manejo de efeitos físicos da violência. Deve participar da organização da abordagem multiprofissional, sensibilizar os profissionais e encaminhar o tratamento das repercussões e a responsabilização dos causadores88 Dong XQ. Elder abuse: systematic review and implications for practice. J Am Geriatr Soc. 2015;63(6):1214-38.. Para tal, deve ter as competências necessárias para o atendimento de VCPI.

Na Saúde as competências são consideradas como conhecimentos, habilidades e atitudes exigidos para resolver os problemas de forma eficiente e eficaz. Esses três aspectos são conhecidos pelo acrônimo CHA. O conhecimento é o saber teórico, adquirido com escolaridade, experiência e facilitadores. A habilidade é o saber fazer, colocar em prática o conhecimento, e depende de treino e experiência. Atitude é querer fazer, implantar a prática, fazer acontecer. Médicos precisam desenvolver as essenciais (conhecimento, interesse e pesquisa de casos, capacidade de identificação e manejo destes), o que assegura perícia e confiança para atuar com pacientes, familiares/cuidadores, colegas e sistemas de saúde diante da VCPI1010 Suárez Conejero J, Godue C, García Gutiérrez JF, Magaña Valladares L, Rabionet S, Concha J, et al. Competencias esenciales en salud pública: un marco regional para las Américas. Rev Panam Salud Publica. 2013;34(1):47-53..

Na literatura há poucos estudos enfatizando o atendimento médico de VCPI, muitos focados em contextos de urgência/emergência88 Dong XQ. Elder abuse: systematic review and implications for practice. J Am Geriatr Soc. 2015;63(6):1214-38.. Diante desse cenário justifica-se o presente trabalho, uma revisão de escopo cujo o objetivo é descrever, por meio das evidências da literatura, as competências dos médicos de serviços hospitalares em relação à VCPI, divididas em conhecimentos, habilidades e atitudes1111 Madruga R. Um novo significado de competência. Rev Melhor. 2019:1-3. Disponível em https://www.revistamelhor.com.br/um-novo-significado-de-competencia/.
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MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo com análise da informação sobre o atendimento médico em serviços hospitalares a idosos vítimas de violência, conforme o método proposto pelo Instituto Joanna Briggs (JBI). Esse tipo de estudo mapeia os principais conceitos, elucida áreas de pesquisa e identifica lacunas do conhecimento1212 Peters MDJ, Godfrey C, McInerney P, Khalil H, Parker D. Scoping Reviews. In: Aromataris E, Munn Z, Editors. JBI Manual for Evidence Synthesis [Internet]. 2020 [acesso em 10 set. 2020]. Chapter 11. Disponível em: https://reviewersmanual.joannabriggs.org/.
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Na elaboração foi seguido o protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis - Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR), para agregar confiabilidade à revisão pelo refinamento do processo de análise e relato dos estudos incluídos1313 Tricco AC, Lillie E, Zarin W, O’Brien KK, Colquhoun H, Levac D, et al. PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation. Ann Intern Med. 2018;169(7):467-73.. A busca sistemática foi realizada entre agosto e outubro de 2020 nas bases/plataformas de dados Medline; Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); Embase; Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); e Web of Science.

A busca de literatura cinzenta e estudos não publicados incluiu: Base Digital de Teses e Dissertações (BDTD), OpenGrey, OpenThesis, Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), Portal de Teses e Dissertações da CAPES, DART-Europe E-theses Portal e Theses Canada Portal (catálogos Aurora e Voilà). Adicionalmente foi utilizada a estratégia de busca Snowballing nas referências dos artigos selecionados para esta revisão1414 Greenhalgh T, Peacock R. Effectiveness and efficiency of search methods in systematic reviews of complex evidence: audit of primary sources. BMJ. 2005;331(5):1064-65..

Este estudo seguiu a estratégia PCC, acrônimo para População (P), Conceito (C) e Contexto (C)1111 Madruga R. Um novo significado de competência. Rev Melhor. 2019:1-3. Disponível em https://www.revistamelhor.com.br/um-novo-significado-de-competencia/.
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; sendo P (médicos de serviços hospitalares), C (conhecimentos, atitudes e habilidades dos médicos hospitalares sobre VCPI) e C (idosos vítimas de violência atendidos em serviços hospitalares). Desta surgiu a questão norteadora: quais as competências apresentadas pelos médicos hospitalares diante de casos de VCPI?

Seguiu-se à definição dos descritores e palavras-chave constantes no MeSH (Medical Subject Headings) e no DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), utilizados combinados com os operadores booleanos OR, AND e NOT: “Physicians”, “Médicos”, “Atitude”, “Attitude”, “Conhecimento”, “Knowledge”, “Behavior”, “Atendimento Médico”, “Cuidados Médicos”, “Medical Care”, “Serviços Hospitalares”, “Hospital Services”, “Hospital”, “Hospitalists”, “Médicos Hospitalares”, “Maus-Tratos ao Idoso”, “Elder Abuse”, “Physical Abuse”, “Elder Neglect”, “Aged Abuse”, “Elder Mistreatment”, aplicados nas estratégias de busca explicitadas no Quadro 1.

Quadro 1
. Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados/bibliotecas/buscadores e literatura cinzenta incluídos na revisão de escopo sobre as competências dos médicos hospitalares diante de casos de VCPI. João Pessoa, PB, 2021.

Foram incluídos os estudos que atenderam à temática, abrangendo artigos científicos (quantitativos, qualitativos e mistos) e literatura cinzenta (dissertações e teses, guias médicos, textos de especialistas e legislação médicos ou relacionados ao tema); nos idiomas inglês, português ou espanhol; publicados de 1 de outubro de 2003 a 20 de outubro de 2020 - limite definido por ser imediatamente posterior à promulgação do Estatuto do Idoso, em 2003. Foram excluídos os estudos que: não abordaram a temática estudada; revisões integrativas ou sistemáticas; não apresentaram possibilidade de serem localizados na íntegra em meios eletrônicos ou impressos; e que não demonstraram conduta ética.

A seleção dos estudos aconteceu em duas etapas: uma triagem inicial, com a leitura do título e do resumo, e uma segunda triagem, com leitura do texto completo, selecionando os artigos de acordo com os critérios supracitados. A extração dos dados ocorreu através de instrumento desenvolvido pelo revisor, que abrangeu título, autor(es), ano de publicação/país, objetivo, método, categorias profissionais dos participantes, principais resultados referentes às competências dos médicos hospitalares sobre VCPI. Não foram considerados para exclusão de artigos a qualidade metodológica dos mesmos e o nível de evidência científica, pois este tipo de revisão busca reunir toda a produção encontrada sobre o objeto de estudo1212 Peters MDJ, Godfrey C, McInerney P, Khalil H, Parker D. Scoping Reviews. In: Aromataris E, Munn Z, Editors. JBI Manual for Evidence Synthesis [Internet]. 2020 [acesso em 10 set. 2020]. Chapter 11. Disponível em: https://reviewersmanual.joannabriggs.org/.
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RESULTADOS

As buscas nas bases de dados revelaram 161 artigos, sendo 36 achados na BVS, 40 na PubMed, 2 na Web of Science, 16 na Scopus, 60 na EMBASE e 7 na CINAHL. Na pesquisa da literatura cinzenta foram encontrados 119 trabalhos, sendo 4 na BDTD, 61 na OpenThesis, 6 no Portal de Teses e Dissertações da CAPES e 32 no RCAAP. Nenhum material foi obtido nas bases DART-Europe E-theses Portal, OpenGrey e Theses Canada Portal.

Dos 280 registros encontrados, 37 estavam duplicados e foram excluídos, restando 193 para leitura dos respectivos títulos e resumos. Esse processo levou à exclusão de 175 publicações por não se adequarem aos critérios de inclusão, e à pré-seleção de 18 trabalhos para leitura integral, onde dois artigos foram obtidos pela estratégia Snowballing. Ao final restaram 06 trabalhos que se adequaram a este estudo1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76.. O resultado do processo de busca e seleção está descrito na Figura 1.

Figura 1
Fluxograma de busca e seleção dos estudos sobre as competências dos médicos hospitalares diante de casos de VCPI. João Pessoa, PB, 2021.

Um estudo foi procedente da Itália, dois da Turquia, um de Israel, um do Canadá e um da Irlanda, produzidos no período de 2007 a 2018, todos publicados em revistas médicas. No que se refere às características metodológicas, os estudos selecionados nesta revisão são todos quantitativos descritivos, e utilizaram amostragem por conveniência.

Quanto às categorias profissionais abordadas, apenas em dois estudos (33%) o Médico foi o único profissional abordado, enquanto 6 estudos (50%) incluíram o Enfermeiro. Outros profissionais como o Assistente Social e o Técnico de Enfermagem foram considerados em dois estudos (33%). Esses dados e os objetivos dos estudos podem ser observados no Quadro 2.

Quadro 2
. Características dos estudos incluídos na revisão de escopo sobre as competências dos médicos hospitalares diante de casos de VCPI. João Pessoa, PB, 2021.

As competências dos médicos nos estudos envolveram conhecimentos gerais sobre o tema e a abordagem, além de treinamento específico; habilidades de detecção e manejo, bem como experiência com casos; e atitudes diante de casos reais ou hipotéticos, enfatizando a realização da denúncia dos casos e barreiras identificadas.

Conhecimentos

O Quadro 3 traz a descrição da competência Conhecimentos dos médicos diante da VCPI avaliada nos estudos.

Quadro 3
. Conhecimento dos médicos hospitalares diante de idosos em situação de violência nos estudos incluídos na revisão de escopo. João Pessoa, PB, 2021.

Quanto ao saber teórico geral sobre VCPI, três1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.

19 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.
-2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76. trabalhos constaram baixos níveis de conhecimento. Kennelly et al. evidenciaram que 45% relataram nunca ter ouvido o termo maus-tratos ao idoso, e apenas 30% leram material técnico2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76.. Em outro estudo, obtiveram escores apenas intermediários em conhecimento1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.. Somente 43% sabiam que a vítima poderia receber ajuda estatal, e apenas 14% sabiam que, sem denúncia, não haveria penalidade para os agressores1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

Dois estudos avaliaram o saber sobre procedimentos para reportar casos. Corbi et al. constataram que apenas 44,7% dos médicos estavam cientes dos procedimentos. Noutro estudo, a maioria dos médicos se sentia apta a denunciar casos domésticos (68%) e institucionais (63%)1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Aspecto considerado central na aquisição de conhecimento para enfrentar o problema, ter recebido treinamento específico para manejar casos foi medido por quatro estudos. Em um, apenas 14,9% receberam treinamento específico1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65., enquanto outro apontou um percentual de 24%1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.. O estudo irlandês apontou ausência de treinamento formal1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.. Caines et al. evidenciaram que 35% não completaram treinamento sobre abuso ao idoso, 83% sentiam que o treinamento foi insuficiente, 50% relataram que os seus serviços não dispunham de protocolo escrito para abordar casos de abuso, e 39% estavam incertos se havia protocolo em seus serviços1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Comparando os médicos treinados com aqueles que não o foram, um estudo destacou que os primeiros denunciaram mais do que os demais (p<0,001), com maior taxa de constatação de casos (p=0,04) e, mais frequentemente, sentiam-se aptos a abordar o tema (p<0,001)1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65..

Comparando médicos de instituições públicas e privadas, um estudo revelou que os primeiros tinham maior formação sobre o assunto (p=0,004), com maiores taxas de comunicação de casos (p=0,005)1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.. Outro estudo demonstrou que os de hospitais universitários tiveram desempenho superior aos dos particulares2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76.. O estudo de Almogue et al., todavia, não encontrou essa diferença1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

Quanto à experiência com casos, em dois estudos os médicos nunca atenderam um caso de abuso ou negligência1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.,1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Já no estudo irlandês1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9., 65% disseram ter tratado pelo menos um caso suspeito de abuso no último ano. No estudo de Caines et al., 78% suspeitaram de casos em suas carreiras1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Habilidades

O Quadro 4 traz a descrição da competência Habilidades dos médicos diante da VCPI avaliada nos estudos.

Quadro 4
. Habilidades dos médicos hospitalares diante de idosos em situação de violência nos estudos incluídos na revisão de escopo. João Pessoa, PB, 2021.

As situações que mais levaram os médicos a suspeitarem de abuso foram levantadas em dois estudos. Um revelou que achados físicos ligados à aparência e à higiene do idoso foram os principais indícios para 91,4%. A comunicação problemática entre idoso e familiares/cuidadores foi a menos apontada, com 56,8%1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41.. O outro estudo também destacou achados físicos, enfatizando queimaduras, contusões, abrasões e estágios variados de cura de machucados e fraturas1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55..

Atitudes

O Quadro 5 traz a descrição da competência Atitudes dos médicos diante da VCPI avaliada nos estudos.

Quadro 5
Atitudes dos médicos hospitalares diante de idosos em situação de violência nos estudos incluídos na revisão de escopo. João Pessoa, PB, 2021.

No que tange às atitudes, todos os estudos relataram considerações dos médicos sobre diversos aspectos da VCPI. As opiniões sobre determinadas condutas no manejo apareceram em um estudo que englobou médicos e enfermeiros. Foram neutros diante da alegação de que apenas as intervenções da autoridade legal impediriam a VCPI. Colocar vítimas em lares para idosos foi visto como benéfico desde que voluntário - houve opiniões conflitantes quanto à institucionalização compulsória. A maioria achou útil obter ordem de restrição contra um agressor1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

Neste estudo, 41% consideraram que denunciar abuso tornaria o agressor mais irritado, e 28% concordaram que as famílias considerariam que foi um membro da equipe quem denunciou o abuso. Cerca de 30% sentiam-se certos de que as vítimas geralmente negariam o abuso1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

Não houve unanimidade quanto a considerar responsabilidade do médico denunciar casos de VCPI nos quatro estudos que avaliaram esse aspecto1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.. Os percentuais variaram de 79%1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55. a 90%1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. O efeito da denúncia na relação médico-paciente com a vítima foi considerado negativo em um estudo2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76., com médicos considerando invasivo perguntar sobre abuso. Já no estudo israelense, 59% avaliaram que o vínculo não seria prejudicado1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

Ao contrário do encontrado nos demais estudos, 75% dos médicos do estudo de Mandiracioglu et al. acreditavam que o abuso ao idoso era raro na Turquia2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76.. No estudo irlandês, embora 85% dos médicos considerassem o abuso comum e subnotificado, 46% se sentiam desconfortáveis ao definir casos como sendo de maus-tratos ao idoso1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9..

A pesquisa de VCPI quando havia suspeita foi abordada por apenas um estudo, onde os médicos “sempre” ou “frequentemente” perguntaram diretamente sobre abuso em 44% das suspeitas1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

No que se refere à comunicação dos casos, médicos não denunciaram em 75% dos estudos. Um estudo mostrou que não reportaram casos suspeitos ou testemunhados nem às autoridades, nem às agências regulatórias1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.. Em outro, 24,3% denunciaram casos de VCPI às autoridades, apesar de 45% terem testemunhado1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65., achado semelhante ao de Caines et al1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41.. Noutro, houve tendência geral de neutralidade1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.. Outro estudo revelou escores baixos em disposição para reportar e para saber suas obrigações diante dos casos2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76..

Na investigação das razões para os médicos não comunicarem os casos, um estudo detalhou os motivos. Destacaram-se preocupação com a possibilidade do idoso sofrer mais danos, recursos insuficientes para gerenciar a questão, e o provável desgaste com o processo da denúncia1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Outro estudo apontou desejo de não se envolver legalmente, negação do abuso pela vítima, não reconhecimento do abuso na consulta, falta de clareza na definição de caso de VCPI e incerteza sobre como proceder à denúncia1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55..

As ações específicas diante de casos VCPI foram elencadas por estudo onde 55,1% afirmaram ter relatado casos à polícia sem informar a família, enquanto 23,1% atenderam ao desejo do idoso, e 17,5% falaram à família advertindo acerca da denúncia posterior à polícia em reincidência1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Noutro estudo, relataram procurar costumeiramente o aconselhamento de colegas mais experientes para gerenciar os casos1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9..

Em termos de abordagem nos casos de negligência, um estudo apontou que, em 24,8% das respostas, os médicos relataram aos serviços sociais, 21,3% informaram as agências policiais e 19,5% consultaram equipe multiprofissional1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Nenhum outro estudo explorou especificamente as atitudes frente a casos de negligência.

DISCUSSÃO

Os resultados tornaram evidentes as deficiências nas competências necessárias aos médicos hospitalares para o devido enfrentamento da VCPI. Falta de conhecimento sobre o assunto e sua abordagem, treinamento específico ausente ou insuficiente, pouca valorização de problemas de comunicação e relacionamento entre o idoso e seus responsáveis, pesquisa de casos na minoria das situações suspeitas e denúncias poucas ou nulas sobressaíram dentre os problemas constatados.

A VCPI é questão importante de saúde pública1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.,1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41. e, diante desse cenário, é esperado número cada vez maior de vulneráveis. Yon et al. estimaram a prevalência global de VCPI em 15,7%, um em cada 6 adultos acima de 65 anos2121 Yon Y, Ramiro-Gonzalez M, Mikton CR, Huber M, Sethi D. The prevalence of elder abuse in institutional settings: a systematic review and meta-analysis. Eur J Public Health. 2019;29(1)58-67.. Entretanto, estudo realizado pela universidade Cornell e pelo New York City Department of Aging revelou que apenas um em cada 24 casos é reportado2222 Berman J, Lachs MS. Under the Radar: New York State Elder Abuse Prevalence Study: self-reported prevalence and documented case surveys. Final Report. New York: Sem Publicador; 2011..

Serviços médicos hospitalares desempenham papel crucial para detecção e manejo desses casos, pois costumam ser o primeiro serviço com retaguarda médica acessado por essa população99 Rosen T, Stern ME, Mulcare MR, Elman A, McCarthy TJ, LoFaso VM, et al. Emergency department provider perspectives on elder abuse and development of a novel ED-based multidisciplinary intervention team. Emerg Med J. 2018;35(10):600-7.,1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.,2323 Rosen T, Stern ME, Elman A, Mulcare MR. Identifying and Initiating Intervention for Elder Abuse and Neglect in the Emergency Department. Clin Geriatr Med. 2018;34(3):435-51., e podem proporcionar condições necessárias para a avaliação do caso, como sigilo, privacidade e abordagem multidisciplinar. Logo, é fundamental a abordagem rotineira e abrangente da VCPI nesses serviços, com pesquisa de evidências da ocorrência, medidas iniciais, acompanhamento, encaminhamentos para proteção e cuidados de longo prazo e prevenção de reincidência22 Mallet SM, Côrtes MCJW, Giacomin KC, Gontijo ED. Violência contra idosos: um grande desafio do envelhecimento. Rev Med Minas Gerais. 2016;26(Supl 8):408-3..

Casos de VCPI são subnotificados e mal documentados em decorrência da falta de conhecimento e de consciência sobre o tema2424 Touza Garma C. Influence of health personnel’s attitudes and knowledge in the detection and reporting of elder abuse: an exploratory systematic review. Psychosoc Interv. 2017;26:73-91.. A falta de conhecimento exposta pelos estudos abrange conhecimentos gerais1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.

19 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.
-2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76. e procedimentos necessários à abordagem dos casos1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.,1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41.. Provavelmente é uma das principais razões para o baixo número de diagnósticos e notificações de casos, e para a atitude frequentemente neutra sobre essa questão1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.. Avaliações realizadas com médicos da APS endossam essa constatação2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2626 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9..

Esse cenário de falta de conhecimento é reforçado pelos baixos percentuais de médicos que receberam treinamento específico1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.,1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.,2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76., da percepção que esse havia sido insuficiente1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41. e da ideia que negligência não significa maus-tratos para 40%1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.. Ao comparar médicos treinados sobre VCPI com não treinados, um estudo destacou que os primeiros detectaram e denunciaram mais, além de se sentirem mais aptos a abordar a questão1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Da mesma forma, revelaram-se percepções e opiniões conflitantes acerca do tema, da legislação pertinente e de condutas1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91..

A falta de treinamento também apareceu nos estudos com médicos de família e foi determinante para a insegurança dos médicos em detectar e notificar casos2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.

26 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9.

27 Kennedy RD. Elder abuse and neglect: The experience, knowledge, and attitudes of primary care physicians. Fam Med. 2005;37(7):481-5.
-2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66.. Na revisão realizada por Cooper et al. a maioria dos profissionais desconhecia que muitos casos não se apresentam com danos graves2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38.. O nível de consciência e percepção dos médicos ainda é baixo, principalmente sobre como reportar1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.. Tais fatos reiteram a importância de protocolos de abordagem e de equipes multidisciplinares para garantir cuidado, assistência e suporte legal adequados, abrangentes e oportunos1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Atividades educacionais envolvendo ensino prático em grupo podem aumentar o conhecimento dos médicos3030 Hoover RM, Polson M. Detecting Elder Abuse and Neglect: Assessment and intervention. Am Fam Physician. 2014;89(6):453-60.. A capacitação amplia o entendimento do tema, com maior sensibilidade em relação a ele1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41.. Faltam estudos para avaliar o quanto detecção e manejo poderiam melhorar, mas há achados associando treinamentos de reforço e maiores taxas de denúncia, ainda que sem comprovação de que ocorreram mais diagnósticos de abuso2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38.,3030 Hoover RM, Polson M. Detecting Elder Abuse and Neglect: Assessment and intervention. Am Fam Physician. 2014;89(6):453-60..

Convém salientar que treinar profissionais para identificar sinais de maus-tratos é mais complexo do que ensinar procedimentos burocráticos de denúncia e encaminhamento2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38., e esses processos precisam avançar juntos. Mais oportunidades de educação médica continuada são essenciais ao avanço na abordagem da VCPI. No entanto, costuma haver falta de recursos para abordar esse problema adequadamente1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Quanto à experiência com casos, os percentuais baixos e variáveis de médicos que atenderam ou suspeitaram de VCPI traz suspeição da associação com a falta de conhecimento supracitada e com barreiras ao enfrentamento da VCPI. Tal possibilidade encontra eco na baixa notificação de casos suspeitos demonstrada em dois estudos1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.,1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41. e na ausência de notificações, apesar da suspeição, em outro1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55., a despeito da obrigação ética e legal de fazê-lo.

Diante da elevada frequência de casos, principalmente em indivíduos doentes física e mentalmente2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38., e pelos estudos terem avaliado profissionais de serviços de referência em nível hospitalar, esperava-se que estes tivessem encontrado diversos casos ao longo da carreira. Isso se repete na APS, onde a oferta de serviços que são portas de entrada acessíveis e bastante utilizadas não resulta em detecção na mesma proporção2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66.,3131 Platts-Mills TF, Barrio K, Isenberg EE, Glickman LT. Emergency physician identification of a cluster of elder abuse in nursing home residents. Ann Emerg Med. 2014;64(1):99-100..

Abordando fatores que geraram suspeita de abuso, achados físicos de aparência, higiene e lesões foram destaque, em detrimento de problemas claros na comunicação entre o idoso e familiares/cuidadores1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Muitas demandas sociais e emocionais são negligenciadas pelo uso racional do tempo, fato acentuado pela formação e que acaba limitando a comunicação entre o médico e demais entes2323 Rosen T, Stern ME, Elman A, Mulcare MR. Identifying and Initiating Intervention for Elder Abuse and Neglect in the Emergency Department. Clin Geriatr Med. 2018;34(3):435-51., barreira importante à abordagem de VCPI como rotina99 Rosen T, Stern ME, Mulcare MR, Elman A, McCarthy TJ, LoFaso VM, et al. Emergency department provider perspectives on elder abuse and development of a novel ED-based multidisciplinary intervention team. Emerg Med J. 2018;35(10):600-7.,2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66.. Esse direcionamento da prática sem priorizar a pesquisa de VCPI é mais natural e fácil do que lidar com questões legais e sociais2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66..

Todos os estudos avaliaram a atitude dos médicos sobre diferentes aspectos do tema. Opiniões conflitantes e tendência à neutralidade predominaram, sem pesquisa das razões. Estudos em APS tiveram resultados semelhantes, atribuídos a influências de valores pessoais ou profissionais2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66.. Médicos de família tenderam a acreditar que profissionais do serviço social teriam mais chance de deparar com casos e seriam os peritos no assunto2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36..

Dadas a formação técnica, a experiência clínica e a posição privilegiada dos médicos hospitalares para encontrar maus-tratos a idosos, chama a atenção que, embora haja reconhecimento da responsabilidade do médico em denunciar casos, não houve unanimidade nos quatro estudos que avaliaram esse aspecto1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9., o que corrobora as deficiências de formação e a prática voltada às questões clínicas.

As atitudes dos médicos revelaram as barreiras à notificação dos casos face à obrigatoriedade de reportar, gerando obstáculos à abordagem em si, impedindo tanto o manejo global necessário quanto a busca da cessação da violência2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2626 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9.,2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66.,3232 Rodríguez MA, Wallace SP, Woolf NH, Mangione CM. Mandatory reporting of elder abuse: between a rock and a hard place. Ann Fam Med. 2006;4(5):403-9.. Nesse ínterim, os profissionais precisam estar totalmente seguros antes de delatar um caso, cenário onde a insegurança decorrente da falta de conhecimento reduz ainda mais a proporção de casos denunciados1818 Almogue A, Weiss A, Marcus EL, Beloosesky Y. Attitudes and knowledge of medical and nursing staff toward elder abuse. Arch Gerontol Geriatr. 2010;51(1):86-91.,2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38.,. Em sintonia com essa realidade, a baixa notificação foi a tônica em todos os estudos, inclusive com amostra onde nenhum caso foi reportado, sob forma nenhuma1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55..

A obrigatoriedade de informar às autoridades competentes os casos de abuso está prevista no Estatuto do Idoso66 Brasil. Lei no 10.741, de 1º de Outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da União. 3 out. 2003., o qual também determina que a não comunicação pelo profissional de saúde assistente é infração administrativa passível de multa. Os trabalhadores da saúde devem considerar as denúncias legais uma exceção à confidencialidade, cuja importância vem da necessidade de investigar crimes, identificar responsáveis e manter a saúde das vítimas, sem manter quaisquer informações confidenciais1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65.. Os médicos hospitalares, mesmo majoritariamente conscientes da responsabilidade de denunciar VCPI, ainda que não totalmente cientes de que é uma questão social1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55..

Os resultados também apontaram que poucos perguntam sobre abuso, constatação semelhante à de estudos realizados na APS 2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2626 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9.. Médicos de família também enfatizaram que, sem poder provar que a suspeita procedia, não reportavam os casos2525 Schmeidel AN, Daly JM, Rosenbaum ME, Schmuch GA, Jogerst GJ. Health Care Professionals’ Perspectives on Barriers to Elder Abuse Detection and Reporting in Primary Care Settings. J Elder Abuse Negl. 2012;24(1):17-36.,2626 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9.. Conforme revelou revisão sistemática, os médicos norte-americanos que questionavam sobre VCPI eram mais propensos a detectar e reportar, corroborando as evidências de que o questionamento de idosos e cuidadores a respeito ser, provavelmente, a estratégia isolada mais efetiva para detecção2929 Cooper C, Selwood A, Livingston G. Knowledge, Detection and Reporting of Abuse by Health and Social Care Professionals: a Systematic Review. Am J Geriatr Psychiatry. 2009;17(10):826-38.. No entanto, fica claro mais uma vez que os médicos não estão familiarizados com identificação, manejo, protocolos, legislação e encaminhamento1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65..

Valores pessoais aparecem como barreiras à abordagem, como temores de que a denúncia acentuaria a VCPI ou afetaria o vínculo com a família ou o idoso, e deste negar o fato1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.,1919 Kennelly S, Sweeney N, O’Neill D. Elder abuse: knowledge, skills, and attitudes of healthcare workers. Ir Med J. 2007;100(1):1-9.. O temor de se envolver legalmente também foi destacado1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41., assim como a ideia do questionamento ser invasivo2020 Mandiracioglu A, Govsa F, Celikli S, Yildirim GO. Emergency health care personnel’s knowledge and experience of elder abuse in Izmir. Arch Gerontol Geriatr. 2006;43(2):267-76.. Tais percepções também são explicitadas em outros níveis de atenção, com similares dificuldades e temores, e impedem os médicos de definir como situações de VCPI sinais de abuso ou negligência2626 O’Brien JG, Riain AN, Collins C, Long V, O’Neill D. Elder Abuse and Neglect: A Survey of Irish General Practitioners. J Elder Abuse Negl. 2014;26(3):291-9.,2828 Mohd Mydin FH, Yuen CW, Othman S. Elder Abuse and Neglect Intervention in the Clinical Setting: Perceptions and Barriers Faced by Primary Care Physicians in Malaysia. J Interpers Violence. 2017;35(23-24):6041-66..

Apenas um estudo1616 Eraslan BS, Çaki İE, Karadayi B, Özaslan A. A study on physicians’ perspectives on elder abuse and neglect. Turk J Geriatr. 2018;21(2):157-65. abordou atitudes e barreiras diante de casos de negligência. A subestimação desta pode decorrer do senso comum de que a percepção de maus-tratos ao idoso é algo incerto, baseado em sinais físicos1515 Corbi G, Grattagliano I, Sabbà C, Fiore G, Spina S, Ferrara N, et al. Elder abuse: perception and knowledge of the phenomenon by healthcare workers from two Italian hospitals. Intern Emerg Med. 2019;14(4):549-55.. Achados do exame físico podem servir como sinais de alerta para o médico atentar à possibilidade, mas não devem ser considerados diagnósticos sem informações circunstanciais que corroboram o fato22 Mallet SM, Côrtes MCJW, Giacomin KC, Gontijo ED. Violência contra idosos: um grande desafio do envelhecimento. Rev Med Minas Gerais. 2016;26(Supl 8):408-3. e onde, com frequência, constata-se negligência.

Ficaram claras lacunas importantes de conhecimento, percepções equivocadas e falta de tradução do conhecimento em melhores atitudes e habilidades, bem como de melhores atitudes e habilidades após treinamento. As barreiras permeiam os três aspectos da competência e se inter-relacionam, apontando necessidades de educação médica qualificada e continuada. Muitos serviços não dispõem sequer de protocolos para VCPI1717 Caines J, Ward MJ. Identifying Elder Abuse in the Emergency Department: Results from a Structured Physician Survey in Canada. J Fam Med Community Health. 2017;4(8):1134-41..

Além disso, os resultados mostraram que, quando houve suspeita, raramente houve ação. As campanhas de conscientização, tão em voga na mídia e no meio acadêmico e preconizadas pelo Ministério da Saúde, devem atingir também os médicos, incentivando-os ao constante aprimoramento na abordagem.

Apesar das contribuições descritas, o presente estudo apresenta limitações relacionadas ao viés de seleção, pelas restrições de inclusão de artigos apenas nas línguas: inglês, português e espanhol; textos disponíveis na íntegra; e com limitação temporal. Foi considerado um ponto positivo o fato de ter sido incluída a literatura cinzenta.

As condutas práticas dos médicos diante dos casos de abuso, com o exercício de um papel de articulador do cuidado, o devido manejo das repercussões da VCPI e a colaboração para a responsabilização dos causadores não foram abordadas pelos estudos. Além disso, as amostras pequenas, com baixas taxas de resposta e questionários por vezes pouco abrangentes diante da complexidade do tema comprometem a acurácia dos achados dos estudos selecionados em retratar fielmente a realidade. Tais fatos, associados ao pequeno número de artigos encontrado e à inexistência de trabalhos nacionais com essa temática, constituem limitações deste à extrapolação dos resultados para nossa realidade, sem deixar de elucidar fatos de extrema relevância a esse enfrentamento.

Fica nítida a necessidade de mais estudos para elucidar tais aspectos e viabilizar o estabelecimento de estratégias baseadas em evidência para capacitação profissional ampla e o desenvolvimento ou refinamento de instrumentos de abordagem e avaliação de casos, bem como de sua incorporação à prática clínica.

CONCLUSÃO

Este estudo obteve achados preocupantes acerca das competências dos médicos hospitalares diante de casos de VCPI. Como são intimamente inter-relacionadas, as deficiências identificadas em uma esfera afetam as demais. Destarte, há perda substancial da capacidade de identificar e abordar adequadamente a VCPI.

Os baixos níveis de conhecimento ficaram claramente evidentes, o que impactou diretamente nas habilidades. As características da formação e da prática médicas voltadas a doenças clínicas e ao uso racional do tempo, sem treinamento específico, bem como serviços despreparados, muito sem protocolos de atuação, resultam em falta de preparo, confiança e atitude pró-ativa dos médicos que atendem essa população numerosa e vulnerável.

O resultado é o triste cenário onde persiste a pouca pesquisa de abusos diante de suspeitas e de denúncias de VCPI, reforçando as diversas barreiras à abordagem ao invés de mitigá-las. Há, portanto, muito trabalho a ser feito em educação médica e em estudos avaliando diferentes formas de treinamento e estímulo e o impacto prático dessas medidas nas competências médicas, buscando formar profissionais aptos a garantir cuidado e proteção a essa população vulnerável.

  • Financiamento da pesquisa: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Edital Universal: 28/2018. Nº do processo: 424604-2018-3.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Jun 2021
  • Data do Fascículo
    2021

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2021
  • Aceito
    25 Maio 2021
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