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Agricultores e comerciantes em São Paulo nos inícios do século XVIII: o processo de sedimentação da elite paulistana

Resumos

Estudos mais recentes sobre a vila de São Paulo no período colonial têm destacado seu grau de mercantilização crescente e a formação de uma sociedade rigidamente hierarquizada. Preten-de-se, tomando como baliza os inícios do século XVIII, apontar para a sedimentação de uma elite paulistana que concentra em suas mãos terras, escravos, produção agrícola, criação de gado e comércio e, que, através das relações patrimonialistas no âmbito da Coroa Portuguesa, consolida-se progressivamente no poder.

Elite Paulistana; Relações Mercantis; Século XVIII


Lately, the bibliography about the village of São Paulo in the colonial period insists on the importance of mercantile relations and points out the formation of a rigid social hierarchy. This article deals with the settlings, in the beginning of the 18th century, of a paulistana elite which concentrates slaves, agricultural production, cattle raising and commerce, establishing patrimonial relationships and consolidating political power.

Paulistana Elite; Mercantile Relations; 18 Century


Agricultores e comerciantes em São Paulo nos inícios do século XVIII: o processo de sedimentação da elite paulistana

Ilana Blaj

Universidade de São Paulo

Resumo

Estudos mais recentes sobre a vila de São Paulo no período colonial têm destacado seu grau de mercantilização crescente e a formação de uma sociedade rigidamente hierarquizada. Preten-de-se, tomando como baliza os inícios do século XVIII, apontar para a sedimentação de uma elite paulistana que concentra em suas mãos terras, escravos, produção agrícola, criação de gado e comércio e, que, através das relações patrimonialistas no âmbito da Coroa Portuguesa, consolida-se progres-sivamente no poder

Palavras-chave: Elite Paulistana; Relações Mercantis; Século XVIII.

Abstract

Lately, the bibliography about the village of São Paulo in the colonial period insists on the importance of mercantile relations and points out the formation of a rigid social hierarchy.

This article deals with the settlings, in the beginning of the 18th century, of a paulistana elite which concentrates slaves, agricultural production, cattle raising and commerce, establishing patrimonial relationships and consolidating political power.

Key words: Paulistana Elite; Mercantile Relations; 18 Century.

Nas últimas décadas, observa-se todo um movimento de regionalização dos estudos coloniais, buscando-se, não mais partir das grandes sínteses e generalizações, mas, através do apontamento das particularidades locais e regionais, refletir sobre o que seria a colônia brasileira. Acompanhando esse movimento, as análises acerca do passado colonial paulista têm revelado aspectos extremamente distantes das antigas imagens cristalizadas ou pelos escritos do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - a de uma vila pujante, autosuficiente, democrática e de um paulista destemido, valente e rebelde - ou pelas obras de uma historiografia fortemente marcada pelos debates cepalinos - de uma área extremamente pobre, tendente à auto-subsistência, sem grandes articulações com o nordeste exportador ou mesmo com o Antigo Sistema Colonial1 1 A respeito da historiografia sobre São Paulo colonial, veja-se o primeiro capítulo de nossa tese de doutoramento: A trama das tensões. O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo, FFLCH - USP, 1995 (mimeo). .

Assim, em tese de livre docência defendida em 1974, Maria Luiza Marcílio aponta a dinamização paulista através do comércio interno e das articulações com outras regiões e, ao contrário de acepções tradicionais que sempre enfatizaram o despovoamento da capitania de São Paulo no XVIII, a autora conclui que houve um forte crescimento demográfico, superior a 400% neste período2 1 A respeito da historiografia sobre São Paulo colonial, veja-se o primeiro capítulo de nossa tese de doutoramento: A trama das tensões. O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo, FFLCH - USP, 1995 (mimeo). .

John French detecta, já a partir de fins do XVI na vila paulistana, todo um comércio de gêneros alimentícios e de gado e, questionando as teses acerca da democracia, frisa o crescente nível de diferenciação na distribuição de riquezas3 3 FRENCH, John. "Riqueza, poder e mão de obra numa economia de subsistência. São Paulo, 1596-1625". In Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Arquivo Municipal de São Paulo, vol. 195, jan.-dez., 1982. . No mesmo sentido, as pesquisas de Muriel Nazzari mostram uma sociedade não igualitária mas fortemente estratificada tendo em seu topo uma elite que acumula a maior parte da riqueza em suas mãos4 4 NAZZARI, Muriel. Disappearance of the dowry. Women, families and social change in São Paulo , Brazil (1600-1900 ). Stanford, Stanford University Press, 1991. Ainda na perspectiva de desmistificação de uma sociedade democrática, veja-se o estudo seminal de DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX: Ana Gertrudes de Jesus. São Paulo, Brasiliense, 1984. .

São estas também as conclusões a que chega John M. Monteiro em inúmeros artigos e em seu livro Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo5 5 MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. . Tomando o Donativo Real como documentação de fundo, o autor caracteriza a sociedade paulista como extremamente hierarquizada; suas pesquisas nos vários bairros rurais revelam uma pequena elite que detém em suas mãos a maior parte de bens e riquezas da região6 5 MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. . Ainda mais, na introdução de sua tese de doutorado, contesta as posições que defendem a diferenciação e a superioridade de São Paulo e sua economia autárquica:

Basicamente este trabalho sustenta que, como no restante do Brasil colonial, o desenvolvimento da agricultura comercial e da escravidão moldaram os contornos mais amplos da organização social nesta região [São Paulo] no século XVII (...) a sociedade local e a economia repousavam em um sistema escravista bem articulado e em unidades produtivas orientadas para o comércio7 5 MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. .

Dessa forma, evidenciando toda uma produção interna transacionada com as vilas vizinhas e com as outras capitanias através do porto de Santos, acentuando uma base escravista e comercial que origina uma formação social hierarquizada, estratificada, com alto grau de concentração de riquezas nas mãos de uma elite produtora e mercantil, estas pesquisas apontam tendências que irão se desenvolver de forma plena a partir da descoberta dos minérios nas áreas de Minas Gerais e Cuiabá, dinamizando, ainda mais, o processo de mercantilização paulista.

A articulação de São Paulo com as áreas mineratórias propicia a acumulação de verdadeiras fortunas nas mãos dos comerciantes que abasteciam as minas com gêneros alimentícios, gado e escravos. Grande parte destes comerciantes eram paulistas, filhos da tradicional elite local, que ao receberem sesmarias nas principais rotas que levavam às vilas mineiras, acabavam por integrar a produção de gêneros agrícolas, a criação de gado e muares, atividades que suas famílias já realizavam em São Paulo e Curitiba, com o comércio de abastecimento para as minas.

Todas estas atividades mercantis promovem o investimento de parte ponderável deste capital acumulado na região paulista estimulando ainda mais o próprio comércio e, a médio prazo, propiciando o final do percurso para a tradicional elite paulistana: de sertanistas aventureiros e de agricultores e criadores de gado voltados ao mercado interno, tornam-se também comerciantes audazes e, destes, já na segunda metade do XVIII, transformam-se em fazendeiros bem situados, voltados não apenas à produção para o abastecimento interno mas, igualmente, de gêneros agrícolas para a exportação8 8 Sérgio Buarque de Holanda chama a atenção em "Movimentos da população em São Paulo no século XVIII". In Revista do I.E.B nº 1, São Paulo, 1966, para a volta dos paulistas enriquecidos com o comércio mineratório e seus investimentos na área paulista; Suely Robles Reis de Queiroz analisa a verdadeira fortuna acumulada, neste tipo de atividade, por José de Góes e Moraes em "José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou São Paulo". In Revista de História. São Paulo, nº 86, abr.-jun. 1971; Antonil, nos capítulos que descreve os vários caminhos para Minas Gerais, cita várias vezes o paulista Garcia Rodrigues Pais como detentor de várias sesmarias muito bem situadas nesses caminhos; ANDREONI, João Antonio (Antonil). Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas [1711]. 2ª ed., São Paulo, Nacional, 1966, pp. 288-289. .

Todo este movimento representa, para Sérgio Buarque de Holanda, no tocante ao paulista, uma nova ética, um novo dever ser:

O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos pontos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou mesmo a fraude encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora9 9 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956, p. 158. .

No caso do comerciante monçoneiro:

Todavia, os elementos de que agora dispõe o sertanista para alcançar sua terra de promissão, vão deixar menos margens ao capricho e às iniciativas individuais. É inevitável pensar que o rio, que as longas jornadas fluviais, tiveram uma ação disciplinadora e de algum modo amortecedora sobre o ânimo tradicionalmente aventuroso daqueles homens (...) Se o quadro dessa gente aglomerada à popa de um barco tem, em sua aparência, qualquer coisa de desordenado, não será a desordem das paixões em alvorôço, mas antes a de ambições submissas e resignadas10 9 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956, p. 158. .

Tanto Sérgio Buarque de Holanda como outros autores apontam para a mudança nas atividades e no caráter do paulista na primeira metade do século XVIII. Os habitantes de Piratiniga não serão mais os "caçadores de índios, aventureiros à caça de ouro, gente de pouca conversa, altiva e independente..."11 11 MORAES, Rubens Borba de. Introdução à Saint-Hilaire. Viagem à província de São Paulo. São Paulo, Martins, 1940, p. 08. . Agora, "a figura dominadora do bandeirante marcial e seminômade cedeu lugar à do fazendeiro patriarcal e à do esperto comerciante urbanizado"12 11 MORAES, Rubens Borba de. Introdução à Saint-Hilaire. Viagem à província de São Paulo. São Paulo, Martins, 1940, p. 08. ; "o próprio espírito de liberdade e de aventura de seus moradores cedia lugar - no ocaso dessa primeira fase sertanista - a um período de vida sedentária e ao gôsto pelo confôrto, conseqüente a algumas fortunas acumuladas"13 13 BRUNO, Ernani da Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. 3ª ed., São Paulo, Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, vol. I, 1984, p. 82. ; "a terra rica e o viver fácil transformavam lentamente o aventureiro dos primeiros tempos coloniaes no agricultor, pesadão e desconfiado, e no pallido caboclo, victima como o antepassado indio, do alcool, da doença e do fakirismo indolente. O mamaluco incançavel, fragueiro, agil e ardiloso, será o Jéca, do escriptor paulista"14 13 BRUNO, Ernani da Silva. História e tradições da cidade de São Paulo. 3ª ed., São Paulo, Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, vol. I, 1984, p. 82. ; "(...) acabava uma era cheia de audácias e de abusos (...) Os paulistas integram-se nos trilhos do proceder cortesão, obedientes embora animosos (...) domesticados e engaiolados, não mais sertanejarão nem minerarão"15 15 FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. 2ª ed., São Paulo/Porto Alegre, Edusp/Globo, vol. 01, 1975, pp. 163-164. .

As amplas possibilidades para o comércio descortinadas com o abastecimento das áreas mineratórias trazem consigo, principalmente a partir da terceira década do século XVIII, um grande afluxo de comerciantes portugueses que, estabelecendo-se em São Paulo, enriquecem e tentam galgar os degraus da ascenção social, ambicionando serem reconhecidos como "homens bons".

As relações deste grupo de adventícios com a velha elite local ainda são objeto de controvérsias no âmbito da historiografia. Muriel Nazzari observa o crescimento dos casamentos de filhas da elite local com comerciantes, casos onde um dote rico não era tão importante pois estes já traziam considerável fortuna para o casamento. Para os mercadores, esses matrimônios eram interessantes, pois traziam consigo toda uma rede de parentes que poderiam investir nos seus negócios; para a elite local significava a continuidade do controle sobre os recursos acumulados, além de aumento do patrimônio16 15 FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. 2ª ed., São Paulo/Porto Alegre, Edusp/Globo, vol. 01, 1975, pp. 163-164. .

Kátia Maria Abud, por sua vez, enfatiza as tensões entre os dois segmentos afirmando:

Em São Paulo os comerciantes ameaçavam a posição de mando das famílias de antiga cepa, disputando com elas os cargos que mantinham no Senado da Câmara, nos quadros militares e nas funções burocráticas do governo, pois além de tudo, como eram em grande parte reinóis, gozavam da confiança da Metrópole. Diante de tal ameaça, os paulistas antigos procuravam garantir sua ligação com a nobreza, já que com ela se identificavam enquanto proprietários de terra. Buscavam, assim, uma maneira de se sustentarem nos cargos que ocupavam desde o início da colonização, visto que a ascendência nobre não era apanágio dos comerciantes que enriqueciam em São Paulo17 17 ABUD, Kátia Maria. Autoridade e riqueza. Contribuição para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH-USP, 1978, pp. 04-05 (mimeo). .

Diferentemente ainda, Elizabeth Darwiche Rabello não considera estes comerciantes como pertencentes às camadas superiores da sociedade paulistana, identificando-os, no período imediatamente posterior, enquanto estratos médios18 17 ABUD, Kátia Maria. Autoridade e riqueza. Contribuição para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH-USP, 1978, pp. 04-05 (mimeo). .

Este debate revela as tensões e conciliações possíveis entre a velha elite local e os recém emigrados portugueses a partir de aproximadamente 1730. Com efeito, a política de casamentos sempre representou, do ponto de vista das elites locais, uma estratégia no sentido de integrar ao clã parental mercadores enriquecidos nos momentos em que isto interessava; estes, por sua vez, através do matrimônio, viam abertas as portas da ascensão social19 19 Veja-se a respeito: MESGRAVIS, Laima. "Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil colonial". In Estudos Econômicos, São Paulo, vol. 13, nº especial, 1983; SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, notadamente o capítulo 9. . No entanto, cabe ressaltar que esta ascensão era sempre individual e dependia, necessariamente, do beneplácito das tradicionais famílias paulistanas. Qualquer ação mais coletiva era barrada. Como exemplo, poderíamos citar as tensões ocorridas na década de 1730 quando a Câmara de São Paulo se recusa a dar posse a comerciantes eleitos para o conselho municipal20 19 Veja-se a respeito: MESGRAVIS, Laima. "Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil colonial". In Estudos Econômicos, São Paulo, vol. 13, nº especial, 1983; SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, notadamente o capítulo 9. .

Se este jogo de mediações e conflitos entre comerciantes adventícios, que gradativamente passam a deter o abastecimento das zonas mineratórias, e a velha elite local parece ser a tônica a partir dos anos trinta, outro era o panorama no primeiro quartel do século XVIII. Com isto não queremos afirmar a inexistência de conturbações relativas ao mundo mercantil, mas apenas que estas se verificam, sobretudo nas questões concernentes ao abastecimento da vila/cidade e nos reclamos quanto à carestia dos gêneros de consumo corrente, envolvendo, portanto, pequenos e médios comerciantes e os habitantes da região. Dessa forma, atravessadores, mercadores, vendeiros confrontavam-se freqüentemente com a população local, a qual recorria constantemente à Câmara Municipal na esperança de que esta coibisse tanto os altos preços das mercadorias de primeira necessidade como a falta dos mesmos.

A Câmara, no entanto, pouco pôde fazer no sentido de minorar os sofrimentos desta população pois os seus principais membros, os chamados "homens bons", ou diretamente, ou através de seus parentes mais próximos, são os que mais se beneficiam com o comércio realizado com as áreas mineiras.

Assim, o que se pretende discutir, neste texto, é que nas primeiras décadas do século XVIII o que ocorre é a sedimentação de uma elite paulistana que concentra em suas mãos, terras, escravos, produção e comércio, e que, através das relações patrimonialistas no âmbito da Coroa portuguesa, consolida-se progressivamente no poder. Somente tendo claro este movimento é que poderemos entender o porquê das tensões posteriores com o grupo de mercadores adventícios.

Os problemas envolvendo o abastecimento da área planaltina e a carestia dos principais gêneros de consumo não são fenômenos típicos do século XVIII decorrentes da articulação com as áreas metalíferas. Ao contrário, desde as últimas décadas do XVII, pelo menos, são constantes os reclamos da população aos membros da Câmara Municipal. Em sessão realizada a 03/08/1690 pede-se aos camaristas que impeçam os negociantes de aumentarem o preço das mercadorias que vendiam21 21 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1690. ; dois anos depois, o povo solicita que se faça vereança, pois tinha o que requerer. Exige o cumprimento de um termo de 1691 fixando o preço de algumas fazendas, muitas delas importadas, termo este que não estava ainda assinado e que não fôra, portanto, posto em prática22 21 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1690. .

Várias reuniões trazem as queixas da população quanto à falta de víveres produzidos na região, pois se preferia vendê-los para outras áreas onde os mesmos poderiam auferir preços melhores. Como exemplo, poderíamos citar o requerimento do procurador do concelho, feito em janeiro de 1695, que impõe a fabricação de um quartel no qual nenhum criador de gado, de qualquer qualidade ou condição, vendesse o gado fora da terra (já que havia muita falta dele na vila), e quem o fizesse pagaria uma multa de 6$00023 23 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 19/01/1695. . John Monteiro chama a atenção para esta questão no tocante ao trigo, produto preferencialmente comercializado para as regiões litorâneas e utilizado também no abastecimento das frotas portuguesas: "As atas da Câmara Municipal são testemunhas da orientação comercial da triticultura, uma vez que em diversas reuniões, os camaristas reclamaram da falta de trigo para o consumo local, a despeito da sua abundância na região"24 23 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 19/01/1695. .

Estes reclamos vistos tradicionalmente como indícios da pobreza de São Paulo, na verdade indicam toda uma produção local e regional e todo um movimento mercantil que se orienta, gradativamente, para a lógica do mercado. A articulação com as áreas mineiras só viria a acelerar esta tendência.

Muitos autores costumam acentuar os efeitos prejudiciais da descoberta do ouro para a região de São Paulo: abandono da produção local, carestia, despovoamento são alguns dos fatores tradicionalmente elencados25 25 Consulte-se, por exemplo, MILLIET, Sérgio. "Trigais de São Paulo". In Roteiro do café e outros ensaios. 2ª ed., São Paulo, Bipa, 1946; TAUNAY, Affonso de E. op. cit., 1931. ABREU, J. Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 2ª ed., Rio de Janeiro, Briguiet, 1960; ELLIS JR., Alfredo. Resumo da história de São Paulo (quinhentismo e seiscentismo). São Paulo, Tipografia Brasil, 1942. . Ora, julgamos que a falta de víveres e a tão propalada carestia não ocorrem por falta de produtos e sim pelo efeito inflacionário que as minas provocaram, não apenas em São Paulo, mas também no restante da colônia.

No seu clássico relato acerca da economia e da sociedade em minas nos primeiros anos, Antonil enfatiza a disparidade de preços dos principais gêneros concluindo:

E êstes preços, tão altos e tão correntes nas minas, foram causa de subirem tanto os preços de tôdas as cousas, como se experimenta nos portos das cidades e vilas do Brasil, e de ficarem desfornecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias e de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos, por se levarem quase todos aonde vendidos hão de dar maior lucro26 25 Consulte-se, por exemplo, MILLIET, Sérgio. "Trigais de São Paulo". In Roteiro do café e outros ensaios. 2ª ed., São Paulo, Bipa, 1946; TAUNAY, Affonso de E. op. cit., 1931. ABREU, J. Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 2ª ed., Rio de Janeiro, Briguiet, 1960; ELLIS JR., Alfredo. Resumo da história de São Paulo (quinhentismo e seiscentismo). São Paulo, Tipografia Brasil, 1942. .

Em São Paulo, os maiores protestos se dão no tocante ao preço dos mantimentos e não à falta dos mesmos. Assim, em novembro de 1704 o procurador do concelho queixa-se do preço da farinha de guerra que antigamente era vendida a dez tostões o alqueire e agora o era a 10 patacas27 27 Um tostão correspondia a cem réis; cada pataca equivalia a 320 réis. ; igualmente reclama dos altos preços do milho e do feijão requerendo que se dê preço comum "do q.l se não excedesse nesta v. a nem fora dela"28 28 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 08/11/1704. . No final do ano, o mesmo procurador solicita que se convoque os lavradores, comerciantes e homens do povo para se ajustar os preços dos mantimentos; requer também que os produtores de farinha não a vendam "fora da terra", bem como não transacionem para outros locais a farinha de guerra, de trigo, o milho, o feijão, toucinho e gado29 28 Actas da Camara da villa de S. Paulo, 08/11/1704. . Dessa forma, percebe-se que a carestia e a falta de mantimentos não decorrem da inexistência da produção local ou regional mas, unicamente, da existência de um mercado mais compensador como era o mercado mineiro30 30 Segundo Andrée Mansuy, "a conversão em réis de todos os preços (...) à taxa de 1200 réis o grosso, seguindo o valor corrente do ouro em pó não quintado no Rio de Janeiro, permite constatar que as mercadorias de primeira necessidade atingiam nas Minas de 1500 a 4800 vezes o valor que elas tinham na Bahia ou em São Paulo", em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Texte de l'édition de 1711, traduction et commentaire critique. Paris, Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine, 1968, p. 383. .

Quanto ao tão propalado despovoamento da região paulista cabe ressaltar que Sérgio Buarque de Holanda chama a atenção para a dinâmica específica do povoamento/despovoamento em São Paulo colonial, articulando-o à obtenção do que denomina de "equilíbrio vital" (terra e mão de obra) e apontando para o movimento dialético, onde o povoamento gera o despovoamento e este conduz a novas formas de povoamento, numa integração tensional constante entre meio, sociedade e cultura31 30 Segundo Andrée Mansuy, "a conversão em réis de todos os preços (...) à taxa de 1200 réis o grosso, seguindo o valor corrente do ouro em pó não quintado no Rio de Janeiro, permite constatar que as mercadorias de primeira necessidade atingiam nas Minas de 1500 a 4800 vezes o valor que elas tinham na Bahia ou em São Paulo", em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Texte de l'édition de 1711, traduction et commentaire critique. Paris, Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine, 1968, p. 383. . Assim, não devemos imputar a esta corrida para as minas um caráter catastrófico pois, por um lado, a vila paulistana e seu termo articulam-se com a área mineratória através de um comércio crescente que irá ativar ainda mais o processo de mercantilização paulista32 32 Os inúmeros pousos e roças que se desenvolvem nos caminhos para as minas, conforme aponta ANTONIL, op. cit ., terceira parte, cap. X, representam igualmente uma articulação com a região do planalto; a este respeito veja-se MORAES, Rubens Borba de. "Contribuições para a história do povoamento em São Paulo até fins do século XVIII". In Geografia. São Paulo, nº 01, 1935. John Monteiro, da mesma maneira, chama a atenção para os paulistas que estabelecem unidades agrárias nas imediações das áreas metalíferas, em MONTEIRO. op. cit., p. 224 e, por outro, passados alguns anos, há a volta dos indivíduos enriquecidos através destas e atividades que passam a investir sua fortuna na região paulista33 33 TAUNAY, Affonso de E. Historia da cidade de São Paulo. São Paulo, Melhoramentos, s/d., p. 96, chama a atenção para a volta dos indivíduos que fizeram fortuna nas minas e que passam a arrematar, em São Paulo, os contratos do vinho, azeite e aguardentes do Reino pagando subsídios de 200$000 anuais. .

O que queremos enfatizar é que, através da articulação com os territórios metalíferos, acentua-se toda uma dinâmica já observada desde as últimas décadas do século XVII, qual seja, a crescente concentração, nas mãos da elite paulistana, de uma produção para o abastecimento interno, da criação de gado e das atividades mercantis mais rentáveis. Concomitantemente, por se tratar de uma sociedade estamental-escravista, onde as relações patrimonialistas com a Coroa representam um traço estrutural, esta mesma elite monopoliza também contratos, arrematação de tributos, cargos e postos que irão cristalizar o seu poder no âmbito regional, tornando-a, assim, parceira menor da metrópole portuguesa. Quão longe estamos da velha imagem do paulista rebelde que não se curva jamais à Coroa34 34 Estamos pensando nas colocações, por exemplo, de Alfredo Ellis Jr: "(...) o planalto sempre se fêz evidente em todos os movimentos de independência da América portuguesa. Eis a aclamação de Amador Bueno! Eis a expulsão dos jesuitas! Eis as manifestações de antagonismo contra Salvador Correia de Sá e Benevides! Eis a Guerra dos Emboabas!", em op., cit., 1942, p. 141. Veja-se, do mesmo autor, Capitulos da História Psicológica de São Paulo. São Paulo, Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, nº 53, 1945, especialmente os capítulos XVII e XIX. .

Nesta parte final, gostaríamos de apontar alguns casos que são exemplares no sentido de ilustrar todo este movimento de cristalização, nas mãos de uma elite tradicional, das oportunidades de enriquecimento, de cargos, contratos e postos; enfim, dos símbolos de prestígio e dignidade, vitais em uma sociedade estamental-escravista, e que acentuam, igualmente, as relações patrimonialistas dos paulistas, colonos-vassalos, com o Estado português35 35 A respeito do patrimonialismo, da caracterização da sociedade colonial como estamental-escravista, e do colono ser entendido como colono-vassalo, veja-se o ensaio de FERNANDES, Florestan. "A sociedade escravista no Brasil". In Circuito Fechado, São Paulo, Hucitec, 1976. .

Comecemos, portanto, pelo clã de Pedro Taques de Almeida, talvez a família mais proeminente de São Paulo na virada do XVII para o XVIII. Ele próprio descendia de Lourenço Castanho Taques e casara-se com uma filha de Luiz Pedroso de Barros36 35 A respeito do patrimonialismo, da caracterização da sociedade colonial como estamental-escravista, e do colono ser entendido como colono-vassalo, veja-se o ensaio de FERNANDES, Florestan. "A sociedade escravista no Brasil". In Circuito Fechado, São Paulo, Hucitec, 1976. ; José de Góes e Moraes era seu filho; D. Francisco Rendon e Bartolomeu Pais de Abreu seus genros; o famoso Padre Guilherme Pompeu de Almeida era seu primo; as famílias Almeida, Lara e Moraes, Pedroso de Barros, Siqueira e Leme, suas aparentadas37 37 Consulte-se: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana histórica e genealógica. 5ª ed., Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1980, tomo I; MARQUES, Manuel E. de Azevedo. Apontamentos históricos, geográficos, biográficos, estatísticos e noticiosos da província de São Paulo. Belo Horizonte/São Paulo, Edusp/Itatiaia, vol. 02, 1980. ; seu neto foi o famoso genealogista Pedro Taques de Almeida Paes Leme38 38 A respeito da importância da família e dos clãs parentais durante o período colonial, veja-se CANDIDO, Antonio. "The Brazilian family". In SMITH, T. Lynn (org.). Brazil, portrait of half a continent. New York, Dryden Press, 1951. .

Com efeito, os laços de parentesco entre as principais famílias da elite local paulistana eram tão sólidos que o ouvidor geral da capitania, Antonio Luís Peleja, chega a escrever em 1700 que "naquelas vilas todos eram parentes, amigos, ou inimigos e com qualquer dêstes efeitos juntos a sua incivilidade se não inquiria o verdadeiro do fato"39 39 "O ouvidor geral da capitania de São Paulo dá conta de ser conveniente que êle tire devassa de todos os casos, que provados, tiverem pena de morte (...)", 04/05/1700, Documentos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 93, 1951, pp. 106-107. .

Além de chefiar o poderoso clã dos Taques e de seus aparentados, e, talvez devido a isso, Pedro Taques ocupou os mais prestigiados postos na capitania de São Paulo. Foi capitão da fortaleza de Vera Cruz em Itapema, provedor e contador da Fazenda Real da capitania de São Paulo, juiz da alfândega e vedor da gente de guerra da praça de Santos, capitão-mór, alcaide-mór, procurador da Coroa e administrador-geral das aldeias do real padroado.

Suas terras não eram de se desprezar. Em São Paulo, detinha propriedades que começavam nas cercanias da igreja de São Francisco e acabavam na divisa de Santo Amaro com Pinheiros40 40 "Carta que a Câmara da vila de S. Paulo escreve a Sua Magestade pedindo o capão do capitão mór Pedro Taques de Almeida", 17/11/1706, em ENNES, Erneste. "Pedro Taques de Almeida e as terras do concelho ou rossio da vila de São Paulo (1709)". In Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, vol. 84, 1942. . Já em 1704, percebendo quão lucrativo era o negócio do gado com a área mineratória requer, consegue, juntamente com seus filhos, genros e noras, terras na área de Curitiba alegando que "elles supplicantes são casados com filhas das principaes familias da dita villa, e nella nobres, e republicanos que a elles lhes são necessarias, as terras sitas no caminho que vae para a villa de Curiytiba, termo e districto da capitania, da Conceição"41 41 "Registo de uma carta de sesmaria passada ao capitão mór Pedro Taques de Almeida" 19/03/1704. In Registo Geral da Câmara Municipal de S. Paulo (1710-1734). São Paulo, Typographia Piratininga, vol. 04, 1917, pp. 387-390. .

Seu filho, José de Góes e Moraes, além de partilhar as extensas terras do pai em São Paulo, também consegue carta de sesmaria, em 1713, juntamente com seus primos João Gonçalves Figueira e João Pedroso para "fabricar de união commum curraes de gados e fazendas nos campos que estão devolutos no sertão da Curutyba"42 41 "Registo de uma carta de sesmaria passada ao capitão mór Pedro Taques de Almeida" 19/03/1704. In Registo Geral da Câmara Municipal de S. Paulo (1710-1734). São Paulo, Typographia Piratininga, vol. 04, 1917, pp. 387-390. ; antes disso, já obtivera uma sesmaria de uma légua de testada e três de sertão, repartida pelos dois lados do Caminho Novo para Minas Gerais para criar gado e abastecer os viajantes e negociantes que iam para o território mineiro43 43 "Carta de sesmaria dada ao capitão-mór José de Gôes de Moraes por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro", 18/06/1706. In Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Casa Vanorden, vol. 52, 1930. . Provavelmente foi através destas atividades mercantis nas minas que conseguiu amealhar tal fortuna que, em 1708 chega a oferecer, ao Marquês de Cascais, donatário da capitania de São Vicente, a quantia de quarenta mil cruzados para comprar a referida capitania44 43 "Carta de sesmaria dada ao capitão-mór José de Gôes de Moraes por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro", 18/06/1706. In Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Casa Vanorden, vol. 52, 1930. .

Fruto de seu enriquecimento através do comércio do gado e de outros gêneros com as zonas metalíferas, oferece, em 1717, ao Concelho Municipal, 300$000 de subsídios anuais em troca do monopólio do contrato das bebidas para a cidade de São Paulo, além de comprometer-se em construir, às suas custas, a cadeia local45 45 Actas da Camara da Cidade de S. Paulo, 17/01/1716 e 25/01/1716. . A proposta é aceita e José de Góes mantém o contrato das bebidas até 1720.

Cargos também não lhe foram estranhos: foi capitão-mór da vila de São Paulo, juiz ordinário e guarda-mór das minas de Paranapanema.

Bartolomeu Pais de Abreu, genro de Pedro Taques, percorreu caminho semelhante. Em inícios do XVIII ocupa as funções de procurador do concelho e juiz da Câmara Municipal da vila; detinha parte da propriedade de seu sogro em São Paulo que recebera como dote quando se casara com sua filha; em 1713, também é aquinhoado com terras nos sertões de Curitiba46 45 Actas da Camara da Cidade de S. Paulo, 17/01/1716 e 25/01/1716. e na região do Rio Grande, onde irá criar gado.

O comércio do gado para as áreas mineiras era atividade tão lucrativa que, no início da década de 1720, habilita-se a fazer, às suas custas, o caminho para as minas do Cuiabá requerendo, em troca, o monopólio de fornecimento do gado para a região durante nove anos, sem pagar, igualmente, os direitos de passagem nos rios para a entrada de seus tropéis47 47 "Condições com que o Cap m Bertholameu Pais de Abreu se quer obrigar a fazer o caminho p. a as minas novas do Certão do Cuiava" , s.d. In Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo. Typographia Andrade & Mello, vol. 32, 1901. . Apesar de não ser atendido pelo governador Rodrigo Cesar de Menezes, Bartolomeu Pais de Abreu obtém o contrato dos dízimos das minas novas de Cuiabá e também a arrematação da passagem do Rio Grande continuando, dessa maneira, seus negócios na região48 48 "Registo de huma petição q fes o Capitam Bar. Paiz de Abreu contratador dos dizimos Reais do Cauyaba ao Dezor. Ouvidor Geral o Dor Mel de Mello Godinho ManSo, Estando em CorreiSão nas villas desta Comarqua" , 06/07/1722. In Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial, vol. 13, 1935. .

Assim, cargos, postos, contratos, terras, concentravam-se nas mãos do clã dos Taques que passam, em inícios do XVIII, a desfrutar do lucrativo comércio do gado com as minas gerais.

Notável também é a trajetória de Garcia Rodrigues Pais. Filho do sertanista Fernão Dias Pais, compromete-se a construir o Caminho Novo para as minas obtendo, do governador Artur de Sá e Menezes, a monopolização mercantil do dito caminho por dois anos, a contar de junho de 170049 49 "Hey por bem fazer m ce em nome de S. Mag. de que Deos gr. de conceder ao dito Capittam Garcia Roiz Paes que sô elle possa meter o neg. cio que lhe parecer pello dito caminho por espaço de dous annos...", "Provisão de Arthur de Sá e Menezes concedendo a Garcia Rodrigues Paes o uso exclusivo, por dois annos, do caminho por este aberto, entre o Rio de Janeiro e os campos geraes", 02/10/1699. In Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo. São Paulo, Diário Official, vol. 18, 1914, pp. 388-390. ; em 1702 é agraciado com o cargo de guarda-mór das minas50 49 "Hey por bem fazer m ce em nome de S. Mag. de que Deos gr. de conceder ao dito Capittam Garcia Roiz Paes que sô elle possa meter o neg. cio que lhe parecer pello dito caminho por espaço de dous annos...", "Provisão de Arthur de Sá e Menezes concedendo a Garcia Rodrigues Paes o uso exclusivo, por dois annos, do caminho por este aberto, entre o Rio de Janeiro e os campos geraes", 02/10/1699. In Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo. São Paulo, Diário Official, vol. 18, 1914, pp. 388-390. . Ainda mais, obtém do rei as mercês do hábito de Cristo, fôro de fidalgo, largas extensões de terras na região do rio Paraíba com o privilégio de fundar vila nesta localidade além de arrematar as passagens do rio Paraíba e Paraibuna51 51 "Cartta pa. Infformar Sobre a deMarCação davila deque Sefes mce. a graçia Roiz Pais" , 04/08/1711. In Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial, vol. 07, 1934, pp. 77-78; " Provisão Régia sobre as datas de Sesmarias no caminho novo das minas, aberto por Garcia Rodrigues Paes, para se executar a mercê feita a este pelo soberano", 26/12/1716. In Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Irmãos Ferraz, vol. 49, 1929, pp. 210-211. .

Nas sesmarias que consegue nas rotas do Caminho Novo, estabelece roçados de mantimentos e vendas, suprindo assim as milhares de pessoas que iam tentar a sorte nas minas. Antonil, ao descrever os vários roteiros de São Paulo e do Rio de Janeiro que levavam ao território mineiro, aponta que todos eles convergiam para as roças de Garcia e para suas vendas; ao se referir, por exemplo, à rota do Caminho Novo, afirma: "Dêste morro [do Cabaru] se vai ao famoso rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. Da parte de aquém, está uma venda de Garcia Rodrigues e há bastante ranchos para os passageiros; e da parte dalém, está a casa do dito Garcia, com larguíssimas roçarias"52 52 ANDREONI, João Antonio (Antonil). op. cit., p. 289; veja-se também pp. 287-288. ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. Tese de Doutoramento. São Paulo, FFCL-USP, 1951, p. 127, refere-se ao fato de que todas as variantes deste caminho entrocavam-se em Paraíba do Sul, nas roças de Garcia Rodrigues Pais. .

Dessa forma, o que percebemos nas primeira décadas do século XVIII, é a continuidade do processo de mercantilização de São Paulo, processo este já iniciado no decorrer do XVII mas fortemente dinamizado agora, através da vinculação com o mercado mineiro. Centro de convergência de inúmeras rotas53 53 Caio Prado Jr. desmistifica totalmente a idéia tão cara ao Instituto Histórico Geográfico de São Paulo do isolamento planaltino: "Como se vê, através de toda história colonial da capitania, São Paulo ocupa o centro do sistema de comunicações do planalto. Todos os caminhos, fluviais ou terrestres que cortam o território paulista vão dar nele e nele se articulam. O contato entre as diferentes regiões povoadas e colonizadas se faz necessariamente pela capital", em "O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo". In Evolução política do Brasil e outros estudos. 9ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1975, p. 104. , articulando as vilas mais interioranas e os bairros rurais, abastecendo as Minas Gerais, Cuiabá e Goiás, mantendo todo um comércio de exportação/importação através de Santos e fornecendo gêneros para as capitanias do Rio de Janeiro e Bahia, a antiga vila de Piratininga torna-se um importante pólo comercial, estendendo, cada vez mais, as redes de sua teia mercantil.

Assim, pelo menos até os inícios do XVIII, não assistimos aos propalados embates entre agricultores bem situados e comerciantes forâneos. Ao contrário, os principais clãs da vila/cidade de São Paulo detêm a produção de gêneros agrícolas locais, a criação de gado e o comércio destas mercadorias. No bojo deste processo sedimentam, ao mesmo tempo, suas riquezas e funções de mando.

É o que analisamos através dos casos paradigmáticos discutidos, centrados nas principais famílias locais. Através dos mesmos, e no âmbito da política patrimonialista portuguesa, observa-se a cristalização de uma elite paulistana que concentra em suas mãos terras, escravos, produção, comércio, contratos e cargos.

Dessa maneira, a partir de aproximadamente 1730, quando aumenta o número de comerciantes portugueses na região planaltina, a tradicional elite paulistana já se encontra entrincheirada no poder e é com ela que estes mercadores terão de se haver. Assimilando alguns através de uma política racional de casamentos, mas lutando tenazmente no sentido de impedir a hegemonia destes adventícios na Câmara Municipal, tradicional reduto de sua dominação, a ação dessa elite local permite visualizar as tensões mas, e principalmente, as mediações possíveis na esfera do patrimonialismo, talvez a mais forte herança de nosso passado colonial.

Notas

2 MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evolução agrária paulista - 1770-1836. Tese de Livre-Docência, São Paulo, FFLCH - USP, 1974 (mimeo).

6Idem.

7 MONTEIRO, John Manuel. São Paulo in the seventeenth century: economy and society. Tese de Doutoramento. Chicago, University of Chicago, 1985 (mimeo).

10 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. 2ª ed., São Paulo, Alfa-Ômega, 1976, p. 76.

12 MORSE, Richard. Formação econômica de São Paulo (de comunidade à metrópole). 2ª ed., São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1970, p. 35.

14 PRADO, Paulo. Paulística. Historia de S. Paulo. São Paulo, Monteiro Lobato, 1925, p. 39.

16 NAZZARI, Muriel. op. cit., pp. 54-58 e 76-82.

18 RABELLO, Elizabeth Darwiche. As elites na sociedade paulista da segunda metade do século XVIII. São Paulo, Safady, 1980, pp. 71-84.

20 TAUNAY, Affonso de E. "Historia da cidade de São Paulo no seculo XVIII". In Annaes do Museu Paulista. São Paulo, Museu Paulista, 1931, tomo 5.

22Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1692.

24 MONTEIRO, John M. op. cit., p. 114.

26 ANDREONI, João Antonio (Antonil). op. cit., p. 269.

29Actas da Camara da villa de S. Paulo, 26/12/1704.

31 HOLANDA, S. B., op. cit., 1966.

36 A família Barros também formava um núcleo importante em São Paulo. Veja-se, a respeito, BELMONTE. No tempo dos bandeirantes. 2ª ed., São Paulo, Departamento de Cultura, 1940.

42Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo, 18/10/1713, vol. 4, pp. 436-438.

44 Veja-se a respeito o artigo já citado de Suely R. Robles de Queiroz.

46 "Registo da carta de sesmaria passada, ao capitão Bartholomeu Paes de Abreu...", 14/10/1713. In Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo, vol. 4.

50 O documento da nomeação, datado de 19/04/1702, encontra-se transcrito em LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Informação sobre as minas de S. Paulo. São Paulo, Melhoramentos, s/d., pp. 150-151.

  • 1
    1A respeito da historiografia sobre São Paulo colonial, veja-se o primeiro capítulo de nossa tese de doutoramento: A trama das tensões. O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo, FFLCH - USP, 1995 (mimeo).
  • 2MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento demográfico e evoluçăo agrária paulista - 1770-1836. Tese de Livre-Docęncia, Săo Paulo, FFLCH - USP, 1974 (mimeo).
  • 3FRENCH, John. "Riqueza, poder e măo de obra numa economia de subsistęncia. Săo Paulo, 1596-1625". In Revista do Arquivo Municipal de Săo Paulo Săo Paulo, Arquivo Municipal de Săo Paulo, vol. 195, jan.-dez., 1982.
  • 4NAZZARI, Muriel. Disappearance of the dowry. Women, families and social change in Săo Paulo, Brazil (1600-1900) Stanford, Stanford University Press, 1991.
  • Ainda na perspectiva de desmistificaçăo de uma sociedade democrática, veja-se o estudo seminal de DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em Săo Paulo no século XIX: Ana Gertrudes de Jesus Săo Paulo, Brasiliense, 1984.
  • 5MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de Săo Paulo. Săo Paulo, Companhia das Letras, 1994.
  • 7MONTEIRO, John Manuel. Săo Paulo in the seventeenth century: economy and society Tese de Doutoramento. Chicago, University of Chicago, 1985 (mimeo).
  • 8 Sérgio Buarque de Holanda chama a atençăo em "Movimentos da populaçăo em Săo Paulo no século XVIII". In Revista do I.E.B nş 1, Săo Paulo, 1966,
  • para a volta dos paulistas enriquecidos com o comércio mineratório e seus investimentos na área paulista; Suely Robles Reis de Queiroz analisa a verdadeira fortuna acumulada, neste tipo de atividade, por José de Góes e Moraes em "José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou Săo Paulo". In Revista de História. Săo Paulo, nş 86, abr.-jun. 1971;
  • Antonil, nos capítulos que descreve os vários caminhos para Minas Gerais, cita várias vezes o paulista Garcia Rodrigues Pais como detentor de várias sesmarias muito bem situadas nesses caminhos; ANDREONI, Joăo Antonio (Antonil). Cultura e opulęncia do Brasil por suas drogas e minas [1711]. 2Ş ed., Săo Paulo, Nacional, 1966, pp. 288-289.
  • 9HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras Rio de Janeiro, José Olympio, 1956, p. 158.
  • 10HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monçőes. 2Ş ed., Săo Paulo, Alfa-Ômega, 1976, p. 76.
  • 11MORAES, Rubens Borba de. Introduçăo ŕ Saint-Hilaire. Viagem ŕ província de Săo Paulo Săo Paulo, Martins, 1940, p. 08.
  • 12MORSE, Richard. Formaçăo econômica de Săo Paulo (de comunidade ŕ metrópole). 2Ş ed., Săo Paulo, Difusăo Européia do Livro, 1970, p. 35.
  • 13BRUNO, Ernani da Silva. História e tradiçőes da cidade de Săo Paulo 3Ş ed., Săo Paulo, Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, vol. I, 1984, p. 82.
  • 14PRADO, Paulo. Paulística. Historia de S. Paulo. Săo Paulo, Monteiro Lobato, 1925, p. 39.
  • 15FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formaçăo do patronato político brasileiro. 2Ş ed., Săo Paulo/Porto Alegre, Edusp/Globo, vol. 01, 1975, pp. 163-164.
  • 17ABUD, Kátia Maria. Autoridade e riqueza. Contribuiçăo para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. Dissertaçăo de Mestrado. Săo Paulo, FFLCH-USP, 1978, pp. 04-05 (mimeo).
  • 18RABELLO, Elizabeth Darwiche. As elites na sociedade paulista da segunda metade do século XVIII. Săo Paulo, Safady, 1980, pp. 71-84.
  • 19Veja-se a respeito: MESGRAVIS, Laima. "Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil colonial". In Estudos Econômicos, Săo Paulo, vol. 13, nş especial, 1983;
  • 20TAUNAY, Affonso de E. "Historia da cidade de Săo Paulo no seculo XVIII". In Annaes do Museu Paulista. Săo Paulo, Museu Paulista, 1931, tomo 5.
  • 21Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1690.
  • 22Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1692.
  • 23Actas da Camara da villa de S. Paulo, 19/01/1695.
  • 25Consulte-se, por exemplo, MILLIET, Sérgio. "Trigais de Săo Paulo". In Roteiro do café e outros ensaios 2Ş ed., Săo Paulo, Bipa, 1946;
  • TAUNAY, Affonso de E. op. cit., 1931. ABREU, J. Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 2Ş ed., Rio de Janeiro, Briguiet, 1960;
  • 30Segundo Andrée Mansuy, "a conversão em réis de todos os preços (...) à taxa de 1200 réis o grosso, seguindo o valor corrente do ouro em pó não quintado no Rio de Janeiro, permite constatar que as mercadorias de primeira necessidade atingiam nas Minas de 1500 a 4800 vezes o valor que elas tinham na Bahia ou em São Paulo", em Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Texte de l'édition de 1711, traduction et commentaire critique. Paris, Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine, 1968, p. 383.
  • 32Os inúmeros pousos e roças que se desenvolvem nos caminhos para as minas, conforme aponta ANTONIL, op. cit., terceira parte, cap. X, representam igualmente uma articulaçăo com a regiăo do planalto; a este respeito veja-se MORAES, Rubens Borba de. "Contribuiçőes para a história do povoamento em Săo Paulo até fins do século XVIII". In Geografia. Săo Paulo, nş 01, 1935.
  • 33TAUNAY, Affonso de E. Historia da cidade de Săo Paulo. Săo Paulo, Melhoramentos, s/d., p. 96,
  • 34Estamos pensando nas colocações, por exemplo, de Alfredo Ellis Jr: "(...) o planalto sempre se fêz evidente em todos os movimentos de independência da América portuguesa. Eis a aclamação de Amador Bueno! Eis a expulsão dos jesuitas! Eis as manifestações de antagonismo contra Salvador Correia de Sá e Benevides! Eis a Guerra dos Emboabas!", em op., cit., 1942, p. 141. Veja-se, do mesmo autor, Capitulos da História Psicológica de São Paulo. São Paulo, Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, nº 53, 1945, especialmente os capítulos XVII e XIX.
  • 35A respeito do patrimonialismo, da caracterizaçăo da sociedade colonial como estamental-escravista, e do colono ser entendido como colono-vassalo, veja-se o ensaio de FERNANDES, Florestan. "A sociedade escravista no Brasil". In Circuito Fechado, Săo Paulo, Hucitec, 1976.
  • 36A família Barros também formava um núcleo importante em Săo Paulo. Veja-se, a respeito, BELMONTE. No tempo dos bandeirantes. 2Ş ed., Săo Paulo, Departamento de Cultura, 1940.
  • 37Consulte-se: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia paulistana histórica e genealógica. 5Ş ed., Belo Horizonte/Săo Paulo, Itatiaia/Edusp, 1980, tomo I;
  • 38A respeito da importância da família e dos clăs parentais durante o período colonial, veja-se CANDIDO, Antonio. "The Brazilian family". In SMITH, T. Lynn (org.). Brazil, portrait of half a continent New York, Dryden Press, 1951.
  • 39"O ouvidor geral da capitania de Săo Paulo dá conta de ser conveniente que ęle tire devassa de todos os casos, que provados, tiverem pena de morte (...)", 04/05/1700, Documentos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 93, 1951, pp. 106-107.
  • 40"Carta que a Câmara da vila de S. Paulo escreve a Sua Magestade pedindo o capăo do capităo mór Pedro Taques de Almeida", 17/11/1706, em ENNES, Erneste. "Pedro Taques de Almeida e as terras do concelho ou rossio da vila de Săo Paulo (1709)". In Revista do Arquivo Municipal de Săo Paulo Săo Paulo, vol. 84, 1942.
  • 41"Registo de uma carta de sesmaria passada ao capităo mór Pedro Taques de Almeida" 19/03/1704. In Registo Geral da Câmara Municipal de S. Paulo (1710-1734). Săo Paulo, Typographia Piratininga, vol. 04, 1917, pp. 387-390.
  • 42Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo, 18/10/1713, vol. 4, pp. 436-438.
  • 43"Carta de sesmaria dada ao capitão-mór José de Gôes de Moraes por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro", 18/06/1706. In Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Casa Vanorden, vol. 52, 1930.
  • 45Actas da Camara da Cidade de S. Paulo, 17/01/1716 e 25/01/1716.
  • 46 "Registo da carta de sesmaria passada, ao capităo Bartholomeu Paes de Abreu...", 14/10/1713. In Registo Geral da Camara Municipal de S. Paulo, vol. 4.
  • 49"Hey por bem fazer mce em nome de S. Mag.de que Deos gr.de conceder ao dito Capittam Garcia Roiz Paes que sô elle possa meter o neg.cio que lhe parecer pello dito caminho por espaço de dous annos...", "Provisão de Arthur de Sá e Menezes concedendo a Garcia Rodrigues Paes o uso exclusivo, por dois annos, do caminho por este aberto, entre o Rio de Janeiro e os campos geraes", 02/10/1699. In Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo. São Paulo, Diário Official, vol. 18, 1914, pp. 388-390.
  • 50O documento da nomeaçăo, datado de 19/04/1702, encontra-se transcrito em LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Informaçăo sobre as minas de S. Paulo Săo Paulo, Melhoramentos, s/d., pp. 150-151.
  • 51"Cartta pa. Infformar Sobre a deMarCação davila deque Sefes mce. a graçia Roiz Pais" , 04/08/1711. In Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial, vol. 07, 1934, pp. 77-78; "
  • 52ANDREONI, Joăo Antonio (Antonil). op. cit., p. 289; veja-se também pp. 287-288. ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. Tese de Doutoramento. Săo Paulo, FFCL-USP, 1951, p. 127,
  • 1
    A respeito da historiografia sobre São Paulo colonial, veja-se o primeiro capítulo de nossa tese de doutoramento:
    A trama das tensões. O processo de mercantilização de São Paulo colonial (1681-1721). São Paulo, FFLCH - USP, 1995 (mimeo).
  • 3
    FRENCH, John. "Riqueza, poder e mão de obra numa economia de subsistência. São Paulo, 1596-1625". In
    Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Arquivo Municipal de São Paulo, vol. 195, jan.-dez., 1982.
  • 4
    NAZZARI, Muriel.
    Disappearance of the dowry. Women, families and social change in São Paulo
    ,
    Brazil (1600-1900
    ). Stanford, Stanford University Press, 1991. Ainda na perspectiva de desmistificação de uma sociedade democrática, veja-se o estudo seminal de DIAS, Maria Odila Leite da Silva.
    Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX: Ana Gertrudes de Jesus. São Paulo, Brasiliense, 1984.
  • 5
    MONTEIRO, John Manuel.
    Negros da terra. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
  • 8
    Sérgio Buarque de Holanda chama a atenção em "Movimentos da população em São Paulo no século XVIII". In
    Revista do I.E.B nº 1, São Paulo, 1966, para a volta dos paulistas enriquecidos com o comércio mineratório e seus investimentos na área paulista; Suely Robles Reis de Queiroz analisa a verdadeira fortuna acumulada, neste tipo de atividade, por José de Góes e Moraes em "José de Góis e Morais: o paulista que quase comprou São Paulo". In
    Revista de História. São Paulo, nº 86, abr.-jun. 1971; Antonil, nos capítulos que descreve os vários caminhos para Minas Gerais, cita várias vezes o paulista Garcia Rodrigues Pais como detentor de várias sesmarias muito bem situadas nesses caminhos; ANDREONI, João Antonio (Antonil).
    Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas [1711]. 2ª ed., São Paulo, Nacional, 1966, pp. 288-289.
  • 9
    HOLANDA, Sérgio Buarque de.
    Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956, p. 158.
  • 11
    MORAES, Rubens Borba de. Introdução à Saint-Hilaire.
    Viagem à província de São Paulo. São Paulo, Martins, 1940, p. 08.
  • 13
    BRUNO, Ernani da Silva.
    História e tradições da cidade de São Paulo. 3ª ed., São Paulo, Hucitec/Secretaria Municipal de Cultura, vol. I, 1984, p. 82.
  • 15
    FAORO, Raymundo.
    Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro. 2ª ed., São Paulo/Porto Alegre, Edusp/Globo, vol. 01, 1975, pp. 163-164.
  • 17
    ABUD, Kátia Maria.
    Autoridade e riqueza. Contribuição para o estudo da sociedade paulistana na segunda metade do século XVIII. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FFLCH-USP, 1978, pp. 04-05 (mimeo).
  • 19
    Veja-se a respeito: MESGRAVIS, Laima. "Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil colonial". In
    Estudos Econômicos, São Paulo, vol. 13, nº especial, 1983; SCHWARTZ, Stuart B.
    Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, notadamente o capítulo 9.
  • 21
    Actas da Camara da villa de S. Paulo, 03/08/1690.
  • 23
    Actas da Camara da villa de S. Paulo, 19/01/1695.
  • 25
    Consulte-se, por exemplo, MILLIET, Sérgio. "Trigais de São Paulo". In
    Roteiro do café e outros ensaios. 2ª ed., São Paulo, Bipa, 1946; TAUNAY, Affonso de E.
    op. cit., 1931. ABREU, J. Capistrano de.
    Caminhos antigos e povoamento do Brasil. 2ª ed., Rio de Janeiro, Briguiet, 1960; ELLIS JR., Alfredo.
    Resumo da história de São Paulo (quinhentismo e seiscentismo). São Paulo, Tipografia Brasil, 1942.
  • 27
    Um tostão correspondia a cem réis; cada pataca equivalia a 320 réis.
  • 28
    Actas da Camara da villa de S. Paulo, 08/11/1704.
  • 30
    Segundo Andrée Mansuy, "a conversão em réis de todos os preços (...) à taxa de 1200 réis o grosso, seguindo o valor corrente do ouro em pó não quintado no Rio de Janeiro, permite constatar que as mercadorias de primeira necessidade atingiam nas Minas de 1500 a 4800 vezes o valor que elas tinham na Bahia ou em São Paulo", em
    Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Texte de l'édition de 1711, traduction et commentaire critique. Paris, Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine, 1968, p. 383.
  • 32
    Os inúmeros pousos e roças que se desenvolvem nos caminhos para as minas, conforme aponta ANTONIL,
    op. cit
    ., terceira parte, cap. X, representam igualmente uma articulação com a região do planalto; a este respeito veja-se MORAES, Rubens Borba de. "Contribuições para a história do povoamento em São Paulo até fins do século XVIII". In
    Geografia. São Paulo, nº 01, 1935. John Monteiro, da mesma maneira, chama a atenção para os paulistas que estabelecem unidades agrárias nas imediações das áreas metalíferas, em MONTEIRO.
    op. cit., p. 224
  • 33
    TAUNAY, Affonso de E.
    Historia da cidade de São Paulo. São Paulo, Melhoramentos, s/d., p. 96, chama a atenção para a volta dos indivíduos que fizeram fortuna nas minas e que passam a arrematar, em São Paulo, os contratos do vinho, azeite e aguardentes do Reino pagando subsídios de 200$000 anuais.
  • 34
    Estamos pensando nas colocações, por exemplo, de Alfredo Ellis Jr: "(...) o planalto sempre se fêz evidente em todos os movimentos de independência da América portuguesa. Eis a aclamação de Amador Bueno! Eis a expulsão dos jesuitas! Eis as manifestações de antagonismo contra Salvador Correia de Sá e Benevides! Eis a Guerra dos Emboabas!", em
    op., cit., 1942, p. 141. Veja-se, do mesmo autor,
    Capitulos da História Psicológica de São Paulo. São Paulo, Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, nº 53, 1945, especialmente os capítulos XVII e XIX.
  • 35
    A respeito do patrimonialismo, da caracterização da sociedade colonial como estamental-escravista, e do colono ser entendido como colono-vassalo, veja-se o ensaio de FERNANDES, Florestan. "A sociedade escravista no Brasil". In
    Circuito Fechado, São Paulo, Hucitec, 1976.
  • 37
    Consulte-se: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes.
    Nobiliarquia paulistana histórica e genealógica. 5ª ed., Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1980, tomo I; MARQUES, Manuel E. de Azevedo.
    Apontamentos históricos, geográficos, biográficos, estatísticos e noticiosos da província de São Paulo. Belo Horizonte/São Paulo, Edusp/Itatiaia, vol. 02, 1980.
  • 38
    A respeito da importância da família e dos clãs parentais durante o período colonial, veja-se CANDIDO, Antonio. "The Brazilian family". In SMITH, T. Lynn (org.).
    Brazil, portrait of half a continent. New York, Dryden Press, 1951.
  • 39
    "O ouvidor geral da capitania de São Paulo dá conta de ser conveniente que êle tire devassa de todos os casos, que provados, tiverem pena de morte (...)", 04/05/1700,
    Documentos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 93, 1951, pp. 106-107.
  • 40
    "Carta que a Câmara da vila de S. Paulo escreve a Sua Magestade pedindo o capão do capitão mór Pedro Taques de Almeida", 17/11/1706, em ENNES, Erneste. "Pedro Taques de Almeida e as terras do concelho ou rossio da vila de São Paulo (1709)". In
    Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, vol. 84, 1942.
  • 41
    "Registo de uma carta de sesmaria passada ao capitão mór Pedro Taques de Almeida" 19/03/1704. In
    Registo Geral da Câmara Municipal de S. Paulo (1710-1734). São Paulo, Typographia Piratininga, vol. 04, 1917, pp. 387-390.
  • 43
    "Carta de sesmaria dada ao capitão-mór José de Gôes de Moraes por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro", 18/06/1706. In
    Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Casa Vanorden, vol. 52, 1930.
  • 45
    Actas da Camara da Cidade de S. Paulo, 17/01/1716 e 25/01/1716.
  • 47
    "Condições com que o Cap
    m Bertholameu Pais de Abreu se quer obrigar a fazer o caminho p.
    a as minas novas do Certão do Cuiava" , s.d. In
    Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo. Typographia Andrade & Mello, vol. 32, 1901.
  • 48
    "Registo de huma petição q fes o Capitam Bar. Paiz de Abreu contratador dos dizimos Reais do Cauyaba ao Dezor. Ouvidor Geral o Dor Mel de Mello Godinho ManSo, Estando em CorreiSão nas villas desta Comarqua" , 06/07/1722. In
    Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial, vol. 13, 1935.
  • 49
    "Hey por bem fazer m
    ce em nome de S. Mag.
    de que Deos gr.
    de conceder ao dito Capittam Garcia Roiz Paes que sô elle possa meter o neg.
    cio que lhe parecer pello dito caminho por espaço de dous annos...", "Provisão de Arthur de Sá e Menezes concedendo a Garcia Rodrigues Paes o uso exclusivo, por dois annos, do caminho por este aberto, entre o Rio de Janeiro e os campos geraes", 02/10/1699. In
    Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo. São Paulo, Diário Official, vol. 18, 1914, pp. 388-390.
  • 51
    "Cartta pa. Infformar Sobre a deMarCação davila deque Sefes mce. a graçia Roiz Pais" , 04/08/1711. In
    Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Imprensa Oficial, vol. 07, 1934, pp. 77-78; " Provisão Régia sobre as datas de Sesmarias no caminho novo das minas, aberto por Garcia Rodrigues Paes, para se executar a mercê feita a este pelo soberano", 26/12/1716. In
    Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo. São Paulo, Irmãos Ferraz, vol. 49, 1929, pp. 210-211.
  • 52
    ANDREONI, João Antonio (Antonil).
    op. cit., p. 289; veja-se também pp. 287-288. ZEMELLA, Mafalda.
    O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. Tese de Doutoramento. São Paulo, FFCL-USP, 1951, p. 127, refere-se ao fato de que todas as variantes deste caminho entrocavam-se em Paraíba do Sul, nas roças de Garcia Rodrigues Pais.
  • 53
    Caio Prado Jr. desmistifica totalmente a idéia tão cara ao Instituto Histórico Geográfico de São Paulo do isolamento planaltino: "Como se vê, através de toda história colonial da capitania, São Paulo ocupa o centro do sistema de comunicações do planalto. Todos os caminhos, fluviais ou terrestres que cortam o território paulista vão dar nele e nele se articulam. O contato entre as diferentes regiões povoadas e colonizadas se faz necessariamente pela capital", em "O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da cidade de São Paulo". In
    Evolução política do Brasil e outros estudos. 9ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1975, p. 104.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      06 Maio 1999
    • Data do Fascículo
      1998
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