Protocolo de samba brasileiro para reabilitação cardíaca

The brasilian samba protocol for cardiac rehabilitation

Protocolo de samba brasileño para rehabilitación cardiaca

Helena de Oliveira Braga Ana Inês Gonzáles Sabrina Weiss Sties Gabriela Maria Dutra de Carvalho Almir Schmitt Netto Oswaldo Augusto Campos Daiane Pereira Lima Tales de Carvalho Sobre os autores

RESUMO

Introdução:

O samba é uma dança de movimentos intensos e variados que proporcionam alegria e boa resposta cronotrópica, sendo plausível a expectativa de que beneficie o sistema cardiovascular.

Objetivo:

Desenvolver e avaliar um protocolo de samba brasileiro visando o treinamento físico na reabilitação cardíaca. Métodos: Quinze indivíduos com doença arterial coronariana estável, idade 60,74±5,96 anos, realizaram teste cardiopulmonar máximo com determinação da frequência cardíaca (FC) correspondente ao VO2pico e primeiro e segundo limiares ventilatórios. Durante seis sessões executaram vinte passos de samba, em três andamentos musicais, classificados por metrônomo em lento, médio ou rápido. Posteriormente, realizaram três sessões para verificar o comportamento da FC e a percepção de esforço. A análise descritiva foi utilizada na caracterização da amostra e verificação da FC, o teste t ou teste de Wilcoxon foram utilizados para comparar o comporta-mento da FC (nas diferentes sessões), com nível de significância de 5%.

Resultados:

Houve boa adaptação aos passos de samba, com FC situando-se entre 62% e 72% da FCpico. Durante as sessões de dança os pacientes mantiveram-se em 86 ±4,17% do tempo na zona alvo proposta para treinamento físico na reabilitação (60% a 90% da FCpico) e 77±2,26% do tempo na zona alvo considerada ideal, com a FC situada entre o primeiro e o segundo limiares ventilatórios. Durante todo o tempo os pacientes referiram percepção de esforço de leve a moderada.

Conclusão:

Os pacientes demonstraram boa adaptação ao protocolo de samba, que se mostrou em condições de ser adotado como proposta de treinamento na reabilitação cardíaca.

Palavras-chave:
exercício; terapia através da dança; doenças cardiovasculares

ABSTRACT

Introduction:

Samba requires intense and varied movements that provide happiness and good chronotropic res-ponse making plausible to expect its benefits on cardiovascular health.

Objective:

To develop and evaluate a brazilian samba protocol aiming at physical training in cardiac rehabilitation.

Methods:

Fifteen patients with stable coronary artery disease, aged 60.74±5.96 years, underwent maximal cardiopulmonary test with determination of heart rate (HR) corresponding to the peak VO2 and first and second ventilation thresholds. During six sessions, they underwent twenty samba steps, in three music tempo classified by a metronome (slow, medium and fast). Subsequently, they underwent three sessions to verify the HR behavior and perception of effort. Descriptive analysis has been utilized in order to characterize the sample and check HR; T test or Wilcoxon test have been used to compare HR behavior (in different sessions) with significance level of 5%.

Results:

There was good adaptation to the samba steps, with HR between 62% and 72% of peak HR. During the dance sessions patients remained 86±4.17% of time in the target zone proposed for physical training in rehabilitation (60% to 90% of HR peak) and 77±2.26% of time in the target zone considered ideal, with HR situated between the first and the second ventilation threshold. Throughout the time the patients reported having perceived mild to moderate effort.

Conclusion

: Patients showed good adaptation to samba protocol, which proved being able to be adopted as a proposal for training in cardiac rehabilitation.

Keywords:
exercise; dance therapy; cardiovascular diseases

RESUMEN

Introducción:

Samba es una danza de movimientos intensos y variados que traen alegría y buena respuesta cronotrópica, y es plausible esperar que beneficia el sistema cardiovascular.

Objetivo:

Desarrollar y evaluar un proto-colo de samba brasileño destinado a entrenamiento físico en la rehabilitación cardiaca.

Métodos:

Quince pacientes con enfermedad coronaria estable, edad 60,74 ± 5,96 años, fueron sometidos a prueba de esfuerzo cardiopulmonar máximo para determinar la frecuencia cardíaca (FC) correspondiente a VO2pico y primer y segundo umbrales ventila-torios. Durante seis sesiones realizaron veinte pasos de samba, en tres movimientos musicales clasificados en orden de metrónomo a lento, medio o rápido. Posteriormente se realizaron tres sesiones para comprobar el comportamiento de la FC y el esfuerzo percibido. Se realizó un análisis descriptivo para la caracterización de la muestra y la verificación de la FC; se utilizaron la prueba t o prueba de Wilcoxon para comparar el comportamiento de la FC (en diferentes sesiones), con un nivel de significación del 5%.

Resultados:

Hubo una buena adaptación a los pasos de samba, com la FC entre el 62% y el 72% de FCpico. Durante las sesiones de baile, los pacientes se mantuvieron en 86 ± 4,17% del tiempo en la zona de destino propuesta para el entrenamiento físico en rehabilitación (60% a 90% de FCpico) y 77 ± 2,26% del tiempo en la zona de destino considerado óptimo, con la FC situada entre el primero y el segundo umbral ventilatorio. Todo el tiempo la percepción percibida pelos pacientes fue de esfuerzos leves a moderados.

Conclusión:

Los pacientes mostraron una buena adaptación al protocolo de samba, que resultó en condiciones de ser adoptado como una propuesta para el entrenamiento en rehabilitación cardiaca.

Palabras clave:
ejercicio; terapia a través de la danza; enfermedades cardiovasculares

INTRODUÇÃO

O reconhecimento do exercício físico como recurso terapêutico para pacientes cardiopatas é consensual11. Perk J, Backer GD, Gohlke H, Graham I, Reiner Z, Verschuren WMM, et al. European Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice (version 2012). Eur Heart J. 2012; 33:1635-701. 33. Leon AS, Chair MS, Franklin BA, Costa F, Balady GJ, Berra KA, et.al. Cardiac Rehabilitation and Secondary Prevention of Coronary Heart Disease: An American Heart Association Scientific Statement From the Council on Clinical Cardiology (Subcommittee on Exercise, Cardiac Rehabilitation, and Prevention) and the Council on Nutrition, Physical Activity, and Metabolism (Subcommittee on Physical Activity), in Collabora-tion with the American Association of Cardiovascular and Pulmonary Rehabilitation. 2005;111(3): 369-76., pois pode proporcionar melhora da angina em repouso, atenuação da gravidade da isquemia, ganho de aptidão física e controle de fatores de risco11. Perk J, Backer GD, Gohlke H, Graham I, Reiner Z, Verschuren WMM, et al. European Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice (version 2012). Eur Heart J. 2012; 33:1635-701. 33. Leon AS, Chair MS, Franklin BA, Costa F, Balady GJ, Berra KA, et.al. Cardiac Rehabilitation and Secondary Prevention of Coronary Heart Disease: An American Heart Association Scientific Statement From the Council on Clinical Cardiology (Subcommittee on Exercise, Cardiac Rehabilitation, and Prevention) and the Council on Nutrition, Physical Activity, and Metabolism (Subcommittee on Physical Activity), in Collabora-tion with the American Association of Cardiovascular and Pulmonary Rehabilitation. 2005;111(3): 369-76. 44. Ghorayeb N, Costa RVC, Castro I, Daher DJ, Oliveira Filho JA, Oliveira MAB, et al. Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Arq. Bras. Cardiol. 2013;100(1) Supl.2:1-41..

Os programas de reabilitação cardíaca reduzem a morbidade e a mortalidade de coronariopatas11. Perk J, Backer GD, Gohlke H, Graham I, Reiner Z, Verschuren WMM, et al. European Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice (version 2012). Eur Heart J. 2012; 33:1635-701. 55. Heran BS, Chen JM, Ebrahim S, Moxham T, Oldridge N, Rees K, et al. Exercise-based cardiac rehabilitation for coronary heart disease.The Cochrane Database of Systematic Reviews 2011;6(7).. No entanto, existe dificuldade em manter o entusiasmo dos pacientes, visando à aderência ao tratamento66. Daly J, Sindone AP, Thompson DR, Hancock K, Chang E, Davidson P. Barriers to participation in and adhe-rence to cardiac rehabilitation programs: a critical literature review. ProgCardiovascNurs. 2002;17(1):8-17. 77. Farley RL, Wade TD, Birchmore L. Factors Influencing Attendance at Cardiac Rehabilitation among Coronary Heart Disease Patients. Eur J CardiovascNurs. 2003;2:205., tornando necessárias novas estratégias, o que tem motivado pesquisas no Brasil e no exterior88. Guimarães GV, Carvalho VO, Bocchi EA, d`Avila VM. Pilates in heart failure patients: a randomized controlled pilot Trial. CardiovascTher. 2012;30:351-6. 1010. Look AM, Kaholokula JK, Carvahio A, Seto TB, Silva M. Developing a culturally based cardiac rehabilitation program: The HELA Study. Prog Community Health Partnersh. 2012;6(1):103-10..

Nesse contexto, a dança configura-se como alternativa eficaz1111. Belardinelli R, Lacalaprice F, Ventrella C, Volpe L, Faccenda E. Waltz dancing in patients with chronic heart failure: new form of exercise training. CORC Heart Fail. 2008;(1):107-14. 1212. Schenkel IC, Bündchen DC, Quites MP, Santos RZ, Santos MB, Carvalho T. Comportamento da pressão arterial em hipertensos após única sessão de caminhada e de dança de salão: estudo preliminar. RevBrasCardiol. 2011;24(1):26-32., sendo uma atividade lúdica e prazerosa, capaz de proporcionar motiva-ção para realização de atividades físicas1313. Kaltsatou ACH, Kouidi EI, Anifanti MA, Douka SI, Deligiannis AP. Functional and psychosocial effects of either a traditional dancing or a formal exercising training program in patients with chronic heart failure: a comparative randomized controlled study. ClinRehabil. 2014;28(2):128-38., beneficiar os aspectos social, emocional e cognitivo, comprovadamente melhorando a capacidade física e a qualidade de vida (QV) de indivíduos saudáveis1414. Hui E, Chui BT, Woo J. Effects of dance on physical and psychological well-being in older persons. Arch GerontolGeriatr. 2009;49:e45-e50. 1515. Kirsch LP, Drommelschmidt KA, Cross ES. The impact of sensorimotor experience on affective evaluation of dance. FronHumNeurosci. 2013, 7(521):1-10., já sendo utilizada na recuperação de pacientes com doenças crônicas não trans-missíveis1111. Belardinelli R, Lacalaprice F, Ventrella C, Volpe L, Faccenda E. Waltz dancing in patients with chronic heart failure: new form of exercise training. CORC Heart Fail. 2008;(1):107-14. 1212. Schenkel IC, Bündchen DC, Quites MP, Santos RZ, Santos MB, Carvalho T. Comportamento da pressão arterial em hipertensos após única sessão de caminhada e de dança de salão: estudo preliminar. RevBrasCardiol. 2011;24(1):26-32. 1616. Bradt J, Goodill SW, Dileo C. Dance/movement therapy for improving psychological and physical outcomes in cancer patients. The Cochrane Database of Systematic Reviews 2011;5(10). 1818. Aweto HA, Owoeye OB, Akinbo SR, Onabajo AA. Effects of dance movement therapy on selected cardiovascular parameters and estimated maximum exygen consumption in hypertensive patients. Nig Q J Hosp Me. 2012;22(2):125-9.. Estudos têm demonstrado que a dança pode proporcio-nar resultados similares ou até superiores no aprimoramento da aptidão física e das condições cardiovasculares, com destaque para a melhora da função endotelial, quando comparada aos exercícios convencionais1111. Belardinelli R, Lacalaprice F, Ventrella C, Volpe L, Faccenda E. Waltz dancing in patients with chronic heart failure: new form of exercise training. CORC Heart Fail. 2008;(1):107-14. 1313. Kaltsatou ACH, Kouidi EI, Anifanti MA, Douka SI, Deligiannis AP. Functional and psychosocial effects of either a traditional dancing or a formal exercising training program in patients with chronic heart failure: a comparative randomized controlled study. ClinRehabil. 2014;28(2):128-38. 1818. Aweto HA, Owoeye OB, Akinbo SR, Onabajo AA. Effects of dance movement therapy on selected cardiovascular parameters and estimated maximum exygen consumption in hypertensive patients. Nig Q J Hosp Me. 2012;22(2):125-9..

"A dança é uma atividade que pode ser desempenhada com músi-cas de variados gêneros e diferentes andamentos musicais, sabendo-se que a resposta cronotrópica de um indivíduo pode ser fortemente in-fluenciada de acordo com o andamento musical utilizado"1919. Karageorghis CI, Jones L, Priest DL, Akers RI, Clarke A, Perry JM, et al. Revisiting the relationship between exercise heart rate music tempo preference. Res Q Exerc Sport. 2011;82(2):274-84. 2020. Birnbaum L, Boone T, Huschle B. Cardiovascular Responses To Music Tempo During Steady-State Exercise. J ExercPhysiol 2009;12(1):50-6.. O samba apresenta-se de várias formas, é dançado individualmente ou em casal, tendo sido introduzido no estado da Bahia, Brasil por escravos africa-nos, posteriormente popularizado no estado do Rio de Janeiro, Brasil e atualmente praticado em todo o país, sendo mundialmente conhecido como dança típica brasileira2121. Perna MA. Samba de Gafieira - a História da Dança de Salão Brasileira. Rio de Janeiro: s/ editora; 2001.. A música de ritmo empolgante possui diferentes manifestações, como a sofisticada bossa nova, o samba de raiz e as populares marchas de carnaval2121. Perna MA. Samba de Gafieira - a História da Dança de Salão Brasileira. Rio de Janeiro: s/ editora; 2001.. Essa mistura de dança e música proporciona uma movimentação espontânea de todo o corpo, o que combina com o espírito alegre e festivo da população brasileira.

Diante do exposto, torna-se plausível a expectativa da influência po-sitiva do samba na saúde geral, com possibilidade de que seja adotado na reabilitação cardíaca, ou, de forma mais abrangente, na reabilitação cardiopulmonar e metabólica (RCPM). O objetivo do estudo foi desen-volver e avaliar um protocolo de samba a ser adotado no treinamento físico de cardiopatas participantes de programa de reabilitação cardíaca.

MATERIAIS E MÉTODO

Trata-se de estudo longitudinal com amostragem não probabilística. Realizado no Centro de Ciências da Saúde e do Esporte da Universidade do Estado de Santa Catarina SC , Brasil. A pesquisa foi aprovada pelo Co-mitê de Ética em Pesquisa da Instituição sob o parecer nº 109.433. Todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Dezenove pacientes foram recrutados em um centro de reabilita-ção cardíaca da cidade de Florianópolis, SC, Brasil, no período de 4 de fevereiro a 12 de julho de 2013.

Os critérios de inclusão foram: doença arterial coronariana (DAC), estabilidade clínica e sedentarismo há pelo menos três meses e os critérios de exclusão: angina instável, arritmias descompensadas, uso de marca-passo artificial cardíaco, doença pulmonar ou neurológica grave, alterações musculoesqueléticas que limitassem a prática de exercício, alteração do tratamento farmacológico durante o período do estudo e o não cumprimento de pelo menos 80% das sessões. Quinze sujeitos completaram com êxito todas as etapas do estudo. As características da população são demonstradas na tabela 1.

Tabela 1
Características clínicas da população estudada.

Teste Cardiopulmonar

Os pacientes foram avaliados por meio de teste cardiopulmonar máximo em esteira rolante motorizada (Centurion 200 fabricado pela Micromed Brasília, Brasil), com protocolo em rampa. A troca gasosa foi determinada mediante sistema computadorizado de espirometria e análise de gases, de circuito aberto (Metalyser 3B, Córtex Biophisik, Leipzig - Alemanha) conectado ao software Ergo PC Elite (Micromed , Brasilia, Brasil). Foram determinados os limiares ventilatórios anaeróbio (LV1) e ponto de compensação respiratória (LV2), que serviram de parâmetro para a prescrição da zona ideal de exercício (zona alvo)2424. Meneghelo RS, Araújo CGS, Stein R, Mastrocolla LE, Albuquerque PF, Serra SM et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia. III Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Teste Ergométrico. ArqBrasCar-diol. 2010;95(5 supl.1):1-26..

Protocolo de Samba Brasileiro

As músicas foram previamente selecionadas e classificadas em três andamentos musicais (lento, moderado e rápido) de acordo com suas batidas por minuto (bpm) determinadas por metrônomo da marca Wittner, com andamento lento variando de 40bpm a 72bpm, o médio de 72bpm a 120bpm e o rápido de 120bpm a 208bpm2525. Bohumil MED. Teoria da Musica. 3ª Edição. Musimed; 1996..

As sessões de samba foram realizadas durante três semanas, com frequência de três vezes por semana, sempre sob orientação de uma professora de dança de salão, e supervisão da equipe responsável pelo programa de reabilitação cardíaca.

O estudo foi realizado em duas fases distintas. Na primeira fase foi verificada a adaptação dos pacientes aos passos de samba, durante a realização dos passos nos diferentes andamentos musicais. Em seguida foi verificada a intensidade relativa de treinamento em cada andamento.

1ª Fase: Comportamento da FC durante os passos de samba:os sujeitos foram divididos de forma aleatória, com sorteio prévio, em três grupos, sendo que o Grupo 1 iniciou as sessões com a utilização do andamento lento, o Grupo 2 com médio e o Grupo 3 com rápido (figura 1).

Em seguida foram selecionados 20 passos de samba (tabela 2), que foram dançados individualmente, durante seis sessões, com diferentes andamentos. No andamento lento, foi utilizada a música "Cajueiro Ve-lho" (65 bpm) versão cantada por Alcione; para o andamento médio, a música "Samba a Dois", (74 bpm) versão cantada pela banda Los Herma-nos; e para o andamento rápido, a música "Curtição Nº2" do Batucada (124 bpm). Cada passo foi executado pelo tempo de um minuto, nos três diferentes andamentos(lento, médio, rápido), com intervalos entre as execuções. A frequência cardíaca (FC) foi monitorada por cardio-fre-quencímetros (Marca Polar, modelo RS800cx, da Finlândia).

2ª Fase: Intensidade de Treinamento: foram selecionados os passos que foram mais efetivos em manter o percentual da FC entre 60-90% da FCpico2626. American College of Sports Medicine Position Stand: Exercise For Patients With Coronary Artery Disease. Med. Sci. Spans. Exenz. 1994;26( 3):i-v.. Em seguida foram realizadas três sessões de aproximadamente 40 min. cada uma, com 30 min. destinados ao treinamento principal, 5 min. de aquecimento e 5 min. de volta à calma.

A primeira sessão foi utilizada para familiarização com o treinamento. Na segunda sessão foram selecionadas duas músicas para cada andamento musical. Para a terceira sessão, foi selecionada uma música para o andamento lento, três músicas para o andamento médio e três para o rápido (tabela 3).

Durante as sessões, os sujeitos foram motivados a manter-se a maior parte do tempo na zona alvo ideal de treinamento, entre o primeiro e o segundo limiares ventilatórios, sendo monitorados por cardio-frequencímetros da marca Polar (modelo RS800cx(c) da Finlân-dia) . Durante cada sessão, a percepção de esforço foi registrada em intervalos de 5 min. por meio da escala subjetiva de percepção de esforço de BORG CR-1037 adaptada para uso no Brasil2727. Borg G. Escalas de Borg para a Dor e Esforço Percebido. São Paulo: Manole, 2000..

Figura 1
Organograma de aleatorização dos pacientes para execução dos passos.

Análise Estatística

Os dados foram analisados no software estatístico StatisticalPackage for the Social Sciences (SPSS, versão 20.0) para Windows, com um nível de significância de 5% para todas as análises. Foi empregada a esta-tística descritiva, com medidas de porcentagem, tendência central e variabilidade (média e desvio padrão), para a caracterização dos par-ticipantes do estudo. Na primeira fase do estudo, foi realizada a moda para verificar a frequência cardíaca que os sujeitos mantiveram por mais tempo, em cada passo, sendo a média utilizada na análise dos grupos. Na segunda fase, para comparação entre as sessões foi utilizado teste t pareado ou Teste de Wilcoxon, conforme a normalidade dos dados.

Tabela 2
Passos de samba inicialmente selecionados para o protocolo.

RESULTADOS

Os resultados das variáveis do teste cardiopulmonar máximo são demonstrados em valores médios da FC do grupo, sendo 104,60 ±4,04 bpm no LV1 e 113,26 ± 4,43bpm no LV2. A média da FCpicofoi de 124,73 ± 4,55, e do volume do consumo de oxigênio pico (VO2pico) de 18,22 ± 1,09ml/Kg/min.

1ª FASE: Comportamento da FC durante os passos de samba: os valores médios do percentual da FCpico nos 20 passos realizados de-monstram que os pacientes se mantiveram dentro da zona de FC de treinamento preconizada (tabela 4).

2ª FASE: Intensidade de Treinamento: A tabela 5 demonstra os passos utilizados na aplicação do protocolo, sendo priorizados de acordo com a melhor adaptação dos pacientes.

Tabela 4
Resposta cronotrópica observada durante a execução dos passos de samba nos diferentes andamentos musicais.
Tabela 5
Passos de samba definitivamente integrados ao protocolo, conforme adaptação dos pacientes.

Durante as sessões de treinamento os sujeitos permaneceram 86,57±4,17% do tempo total das sessões na zona de treinamento proposta para treinamento físico em reabilitação que compreende os valores entre 60% e 90% da FCpico avaliado pelo teste cardiopulmonar. Quando analisado o tempo total em que os indivíduos permaneceram na zona-alvo considerada ideal de treinamento para esta população, em que a FC deve se situar entre o primeiro e o segundo limiar ventilatório, este valor ficou em 76,79±2,28% do tempo, sendo 75,18±16,03% do tempo na sessão 2 e 78,41±14,64% na sessão 3 (tabela 6). Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre as sessões 2 e 3, nas variáveis estudadas. Os resultados são independentes do tempo disposto para cada andamento, percebendo-se que há uma tendência a maior permanência em zona alvo quando otimizado o tempo nos andamentos médio e rápido. Quando analisados os anda-mentos musicais de forma independente, verificamos que os sujeitos permaneceram dentro da zona alvo de treinamento, em maior parte do tempo no andamento rápido, segundamente, no andamento médio e por último no andamento lento, não sendo verificadas diferenças significativas entre as duas sessões propostas.

A figura 2 demonstra os valores médios da escala de percepção subjetiva de esforço modificada - BORG, em intervalos de 5 minutos, nas sessões 2 e 3. Pode-se observar que, em ambas as aulas, os valores permaneceram entre 2,07 ± 1,18 e 3,53 ± 2,25, correspondentes às percepções de esforço leve e moderada, sem diferenças estatistica-mente significativas.

DISCUSSÃO

Na literatura atual é limitado o número de estudos que investi-gam os efeitos da dança como forma alternativa na reabilitação para cardiopatas1111. Belardinelli R, Lacalaprice F, Ventrella C, Volpe L, Faccenda E. Waltz dancing in patients with chronic heart failure: new form of exercise training. CORC Heart Fail. 2008;(1):107-14. 1313. Kaltsatou ACH, Kouidi EI, Anifanti MA, Douka SI, Deligiannis AP. Functional and psychosocial effects of either a traditional dancing or a formal exercising training program in patients with chronic heart failure: a comparative randomized controlled study. ClinRehabil. 2014;28(2):128-38. 1818. Aweto HA, Owoeye OB, Akinbo SR, Onabajo AA. Effects of dance movement therapy on selected cardiovascular parameters and estimated maximum exygen consumption in hypertensive patients. Nig Q J Hosp Me. 2012;22(2):125-9.. Não foi encontrado na literatura um protocolo de dança que seja reprodutível para uso em programas de reabilitação. Tendo em vista os resultados relacionados à resposta cronotrópica e percepção de esforço, o protocolo de samba brasileiro pode ser uma alternativa eficaz de treinamento para pacientes com doença arterial coronariana. O American Collegeof Sport Medicine2626. American College of Sports Medicine Position Stand: Exercise For Patients With Coronary Artery Disease. Med. Sci. Spans. Exenz. 1994;26( 3):i-v. e a Sociedade Brasi-leira de Cardiologia44. Ghorayeb N, Costa RVC, Castro I, Daher DJ, Oliveira Filho JA, Oliveira MAB, et al. Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Arq. Bras. Cardiol. 2013;100(1) Supl.2:1-41. recomendam para coronariopatas a prática regular de exercício físico com intensidade entre 60% a 90% da FCpico, com percepção de esforço em nível moderado. Nosso estudo demonstrou que durante a primeira fase, com todos os passos de samba, nos três andamentos musicais, houve uma resposta cronotrópica dentro da faixa preconizada.

Recomenda-se como forma ideal de prescrição de treinamento para cardiopatas a zona alvo compreendida entre o primeiro e o se-gundo limiar ventilatório do teste ergoespirométrico44. Ghorayeb N, Costa RVC, Castro I, Daher DJ, Oliveira Filho JA, Oliveira MAB, et al. Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Arq. Bras. Cardiol. 2013;100(1) Supl.2:1-41. 2626. American College of Sports Medicine Position Stand: Exercise For Patients With Coronary Artery Disease. Med. Sci. Spans. Exenz. 1994;26( 3):i-v. 2828. Godoy M, Bellini AJ, Passaro LC, Mastrocolla LE. I Consenso nacional de Reabilitação Cardiovascular (Fase Crônica). Arq Bras Cardiol.1997;69 (4):267-91.. O nosso pro-tocolo de samba brasileiro manteve os pacientes em torno de 77% do tempo de atividade com FC dentro da zona alvo ideal de treinamento, com percepção de esforço subjetiva de leve a moderada. O nível de percepção de esforço encontrado pode ser justificado pelo fato de que exercícios realizados com a adição de música são capazes de ati-var áreas cerebrais específicas, que estimulam sentimentos de prazer e euforia e desviam a percepção humana de seu próprio esforço2929. Chanda ML & Daniel JL. The neurochemistry of music. Trends Cogn Sci. 2013;17(4):179-93. 3030. Zatorre RJ, Salimpoor VN. From perception to pleasure: music and its neural substrates. PNAS 2013;110 (suppl. 2):10430-7..

Sabe-se que dentro de cada andamento musical há variações de bpm2525. Bohumil MED. Teoria da Musica. 3ª Edição. Musimed; 1996., desta forma, na prescrição do protocolo a escolha do bpm da musica é algo relevante, pois a proximidade ao limite superior ou infe-rior poderá proporcionar diferentes respostas cardiovasculares, servindo como alternativa para evolução do treinamento.

Os três diferentes andamentos musicais devem ser abordados durante as sessões, utilizados de forma gradativa, iniciando sempre do andamento lento, seguido do médio e rápido, para maior adaptação cardiovascular. Os dados apresentados neste estudo demonstraram que o andamento musical lento pode ser utilizado como aquecimento e desaquecimen-to para coronariopatas com melhor aptidão cardiopulmonar, ou como fase principal para os pacientes menos condicionados. Os andamentos médio e rápido, por proporcionarem maior resposta cardiovascular no treinamento, devem ser utilizados durante a parte principal das aulas dos pacientes com status funcional elevado.

Tabela 6
Permanência na zona alvo (em relação aFCpico) e zona alvo ideal de treinamento (entre limiares ventilatórios) nas sessões 2 e 3.

Figura 2
Percepção subjetiva de esforço modificada nas sessões 2 e 3 do protocolo.

Diante do exposto, este estudo apresentou informações originais no processo de construção e aplicação de um protocolo de dança para participantes de programa de reabilitação cardíaca, que se mos-trou capaz de colocar com segurança pacientes com doença arterial coronariana na zona alvo proposta para treinamento físico sem inter-corrências médicas.

CONCLUSÃO

Os pacientes demonstraram boa adaptação ao protocolo de sam-ba brasileiro, que se mostrou efetivo como proposta de treinamento na reabilitação cardíaca, considerando os parâmetros relacionados à frequência cardíaca, limiares ventilatórios e percepção de esforço.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem aos integrantes do Núcleo de Cardiologia e Medicina do Exercício (NCME) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) por auxiliarem na execução da coleta de dados. A todos os pacientes que participaram das coletas durante a pesquisa e aos pesquisadores colaboradores Mirele Porto Quites, Vitor Angarten, e o bailarino Ricardo Koscialkowski Tetzner, contribuindo no planejamento da pesquisa e auxiliando na melhor descrição dos movimentos do samba.

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Sep-Oct 2015

Histórico

  • Recebido
    15 Jun 2014
  • Aceito
    13 Abr 2015
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