RESUMO
Objetivo: Analisar a tendência temporal e a distribuição espacial das titulações de mestrado e doutorado na área de enfermagem no Brasil.
Método: Estudo ecológico com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, empregando estatística descritiva e regressão Joinpoint para análise de tendência temporal.
Resultados: Entre 2004 e 2023, foram registradas 22.923 titulações, sendo 74,92% de mestrado e 25,08% de doutorado, com maior concentração nas regiões Sudeste (49,74%), Nordeste (22,20%) e Sul (20,78%). As titulações de mestrado apresentaram tendência crescente no Brasil (Variação Percentual Anual Média-AAPC: 7,55; p < 0,000), com maior variação na região Norte (AAPC: 16,40; p < 0,000). Para o doutorado, verificou-se igualmente tendência crescente no país (AAPC: 8,31; p < 0,000), com destaque para o Centro-Oeste (AAPC:15,96; p < 0,000), enquanto a região Norte não registrou titulações nesse nível no período analisado.
Conclusão: Os resultados evidenciaram tendência crescente das titulações de pós-graduação na área de enfermagem, coexistindo com desigualdades regionais, o que reforça a necessidade de estratégias voltadas à ampliação e à descentralização da pós-graduação para redução das assimetrias na formação avançada.
DESCRITORES
Enfermagem; Educação de Pós-Graduação; Recursos Humanos de Enfermagem; Ensino; Pesquisa em Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To analyze the temporal trend and spatial distribution of master’s and doctoral degrees in the field of nursing in Brazil.
Method: An ecological study using data from the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel, employing descriptive statistics and Joinpoint regression for temporal trend analysis.
Results: Between 2004 and 2023, 22,923 degrees were awarded, of which 74.92% were master’s degrees and 25.08% were doctoral degrees, with the highest concentration in the Southeast (49.74%), Northeast (22.20%), and South (20.78%) regions. Master’s degrees showed an upward trend in Brazil (Average Annual Percentage Change—AAPC: 7.55; p < 0.000), with the greatest variation in the North region (AAPC: 16.40; p < 0.000). For doctoral degrees, an upward trend was also observed nationwide (AAPC: 8.31; p < 0.000), particularly in the Midwest (AAPC: 15.96; p < 0.000), while the North region did not record any doctoral degrees at this level during the analyzed period.
Conclusion: The results showed an increasing trend in postgraduate degrees in the field of nursing, coexisting with regional inequalities, which reinforces the need for strategies aimed at expanding and decentralizing postgraduate education to reduce disparities in advanced training.
DESCRIPTORS
Nursing; Education; Graduate; Nursing Staff; Teaching; Nursing Research
RESUMEN
Objetivo: Analizar la tendencia temporal y la distribución espacial de los títulos de maestría y doctorado en el área de enfermería en Brasil.
Método: Estudio ecológico con datos de la Coordinación de Perfeccionamiento del Personal de Nivel Superior, utilizando estadística descriptiva y regresión Joinpoint para el análisis de la tendencia temporal.
Resultados: Entre 2004 y 2023, se registraron 22 923 títulos, de los cuales el 74,92 % correspondieron a maestrías y el 25,08 % a doctorados, con mayor concentración en las regiones del Sudeste (49,74 %), Nordeste (22,20 %) y Sur (20,78 %). Los títulos de maestría mostraron una tendencia al alza en Brasil (Variación porcentual anual promedio [AAPC]: 7,55; p < 0,000), con la mayor variación en la región Norte (AAPC: 16,40; p < 0,000). En cuanto al doctorado, también se observó una tendencia al alza en el país (AAPC: 8,31; p < 0,000), con especial destaque para la región Centro-Oeste (AAPC: 15,96; p < 0,000), mientras que la región Norte no registró títulos de este nivel en el período analizado.
Conclusión: Los resultados evidenciaron una tendencia al alza en los títulos de posgrado en el área de enfermería, junto con desigualdades regionales, lo que refuerza la necesidad de estrategias orientadas a la ampliación y la descentralización de la educación de posgrado para reducir las asimetrías en la formación avanzada.
DESCRIPTORES
Enfermería; Educación de Postgrado; Personal de Enfermería; Enseñanza; Investigación en Enfermería
INTRODUÇÃO
A Pós-Graduação em Enfermagem (PGENF) no Brasil foi instituída com o objetivo de qualificar profissionais para a docência no ensino superior, impulsionar a produção científica e fortalecer as práticas baseadas em evidências(1). Esse processo consolidou-se com a implantação do primeiro mestrado na Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), em 1972, e do doutorado na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), em 1981(1,2).
Nas últimas décadas, a pós-graduação na área cresceu exponencialmente. Dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) indicam que, até 2024, o país contava com 86 programas, totalizando 135 cursos, sendo 58 programas e 99 cursos na modalidade acadêmica e 28 programas e 36 cursos na modalidade profissional. A modalidade acadêmica prioriza a produção de conhecimento científico, a formação para a pesquisa e a qualificação para a docência, enquanto a profissional enfatiza a aplicação do conhecimento na prática e o desenvolvimento de tecnologias e inovações nos serviços de saúde(3).
Os Programas de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENFs) são os principais responsáveis pela produção de conhecimento especializado na área e contribuem substancialmente para o avanço da ciência da enfermagem(4), posição que se reflete no primeiro lugar do Brasil na produção científica em enfermagem na América Latina e entre os dez países de maior produção mundial, conforme o ranking SCImago de 2024(5).
À luz desse cenário, torna-se relevante compreender como as titulações de mestrado e doutorado em enfermagem têm se configurado sob as perspectivas temporal e espacial no território brasileiro. Embora a expansão da PGENF brasileira seja amplamente reconhecida, ainda são escassos os estudos que adotam as titulações concedidas como objeto central de análise, especialmente considerando sua distribuição regional e evolução ao longo do tempo. Nesse contexto, investigar esse cenário pode contribuir para identificação de assimetrias na formação avançada em enfermagem, subsidiando reflexões relacionadas ao planejamento dos PPGENFs, à formação de recursos humanos e às políticas científicas e educacionais da área.
Diante do exposto, este estudo tem como objetivo analisar a tendência temporal e a distribuição espacial das titulações de mestrado e doutorado na área de enfermagem no Brasil.
MÉTODO
Desenho e Local de Estudo
Trata-se de um estudo ecológico desenvolvido com base em dados secundários extraídos da CAPES. Nesse tipo de delineamento, as inferências restringem-se ao nível populacional(6). As unidades de análise corresponderam aos 27 estados e às cinco regiões geográficas do Brasil. O estudo foi reportado de acordo com as recomendações do STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).
Amostra, Critérios de Seleção e Fonte de Dados
O estudo foi constituído por todos os registros de titulação de mestres e doutores em enfermagem disponíveis no Painel de Dados Abertos da CAPES(7). A coleta de dados foi realizada em 15 de novembro de 2025, mediante seleção do tema “Avaliação da Pós-graduação Stricto Sensu” e do grupo “Discentes da Pós-graduação Stricto Sensu no Brasil”. Foram extraídos arquivos no formato CSV (Comma-Separated Values) referentes ao período de 2004 a 2023, correspondente ao intervalo temporal completo disponível na base no momento da coleta. Para o tratamento dos dados, procedeu-se inicialmente à filtragem da variável “área do conhecimento”, com seleção exclusiva dos registros classificados como “Enfermagem” e exclusão dos demais. Em seguida, os dados extraídos das diferentes planilhas foram agregados em uma única base para organização e análise. Após a agregação, os registros foram revisados quanto à consistência das variáveis analisadas, não sendo identificados dados faltantes.
Variáveis do Estudo
As variáveis extraídas foram: ano da titulação; faixa etária do titulado; país de nacionalidade; grau acadêmico (mestrado acadêmico, mestrado profissional, doutorado acadêmico ou doutorado profissional); e instituição de ensino superior (IES) formadora. Na análise de tendência, a variável dependente foi o percentual anual de titulações, calculado como a razão entre o número de titulados em cada ano e o total de titulações do respectivo nível de formação no período analisado, multiplicado por 100. A variável independente correspondeu ao ano da titulação.
Análise e Tratamento dos Dados
Os dados foram organizados no Microsoft Excel®. As estatísticas descritivas foram calculadas no software JASP (versão 0.95.4; Amsterdã, Holanda). A distribuição espacial das titulações foi representada por meio de mapas coropléticos elaborados no software QGIS (versão 3.44.4), utilizando shapefiles das unidades federativas disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados foram agregados por estado e representados por meio de frequências absolutas e relativas, permitindo a visualização da distribuição espacial das titulações no território brasileiro. Adicionalmente, em cada região foram destacadas as duas IES que mais titularam mestres e doutores na área de enfermagem.
A análise de tendência temporal foi conduzida a partir de séries anuais independentes para as titulações de mestrado e de doutorado no Joinpoint Regression Program (versão 5.3.0). O método emprega regressão segmentada com transformação logarítmica dos valores e o teste de permutação de Monte Carlo, com nível de significância de p < 0,05, para identificar pontos de mudança ao longo do período analisado(8). As tendências foram expressas pela Variação Percentual Anual Média (Average Annual Percentage Change – AAPC), com intervalo de confiança de 95% (IC95%). A AAPC é uma medida resumida da tendência ao longo de um intervalo temporal predefinido, calculada como a média ponderada das variações percentuais anuais do modelo de pontos de inflexão(9).
A fórmula da AAPC é expressa como: AAPC = {exp (Σwibi/Σwi) − 1} × 100, em que bi representa o coeficiente de regressão de cada intervalo temporal identificado pelo modelo e wi, a largura do intervalo, definida pelo número de anos de cada segmento(9). Valores negativos de AAPC indicam tendência decrescente e valores positivos, tendência crescente, desde que estatisticamente significativos (p < 0,05). Na ausência de significância estatística (p > 0,05), a série é interpretada como estacionária(10).
Aspectos Éticos
Por tratar-se de uma investigação conduzida com dados secundários de domínio público e acesso irrestrito, dispensou-se a aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelecido na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde(11).
RESULTADOS
Entre 2004 e 2023, foram identificadas 22.923 titulações de pós-graduação na área de enfermagem no Brasil, das quais 17.174 (74,92%) corresponderam ao mestrado e 5.749 (25,08%) ao doutorado, com maior concentração nas regiões Sudeste (49,74%), Nordeste (22,20%) e Sul (20,78%). Entre os titulados, predominaram as faixas etárias de 30 a 39 anos (n = 10.390; 45,32%) e de 20 a 29 anos (n = 6.789; 29,62%) (Tabela 1).
Em relação ao grau acadêmico, observaram-se maiores proporções de mestrado acadêmico (n = 14.294; 62,36%) e de doutorado acadêmico (n = 5.743; 25,05%). Quanto à natureza jurídica das IES formadoras, a maioria das titulações ocorreu em instituições públicas federais (n = 13.654; 59,56%) (Tabela 1). A Figura 1 apresenta a distribuição temporal das titulações por modalidade no período analisado, evidenciando a variação anual do número de títulos concedidos ao longo da série histórica, com redução observada em 2020.
Distribuição dos titulados segundo região, faixa etária, grau acadêmico e natureza jurídica da instituição – Brasil, 2004–2023.
Em relação às IES que mais outorgaram títulos de mestre e doutor, destacaram-se, na região norte, a Universidade Federal do Pará (n = 133) e a Universidade do Estado do Pará (n = 102). No Nordeste, as maiores frequências foram observadas na Universidade Federal do Ceará (n = 1.130) e na Universidade Federal da Paraíba (n = 654). No Centro-Oeste, sobressaíram a Universidade Federal de Goiás (n = 418) e a Universidade Federal do Mato Grosso (n = 226). No Sudeste, a formação concentrou-se na Universidade de São Paulo (n = 4.012) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (n = 903). Na região Sul, destacaram-se a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) (n = 1.118) e a Universidade Federal do Paraná (n = 571). Quanto à nacionalidade dos titulados, 92,86% (n = 22.717) eram brasileiros e 7,14% (n= 206) estrangeiros, provenientes de 29 países. Entre os estrangeiros, 98 obtiveram o mestrado e 108 o doutorado. As maiores frequências foram observadas entre titulados oriundos do México (n = 44), Chile (n = 28), Colômbia (n = 24) e Peru (n = 23) (Figura 2).
Distribuição dos titulados na área de enfermagem no Brasil segundo país de nacionalidade, 2004–2023.
A distribuição espacial das titulações de mestrado evidenciou acentuada concentração nas regiões Sul e Sudeste, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, integrantes da classe de maior intensidade. No Nordeste, destacaram-se Bahia, Ceará e Paraíba. Em contraposição, Espírito Santo, Sergipe, Amazonas, Maranhão e grande parte dos estados da região Norte apresentaram quantitativos reduzidos, ao passo que Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins não registraram titulações de mestrado no período analisado (Figuras 3A e 3B).
Distribuição espacial das titulações de mestrado e doutorado na área de enfermagem por unidade federativa – Brasil, 2004–2023.
No que tange às titulações de doutorado, observa-se, nas Figuras 3C e 3D, concentração nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No Nordeste, o Ceará destacou-se como principal polo formador, enquanto Bahia e Paraíba apresentaram níveis intermediários. Em contraste, nenhuma titulação de doutorado em enfermagem por instituições locais foi registrada nos estados da região Norte (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) nem nos estados do Maranhão, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul no período analisado (Figuras 3C e 3D).
Ao longo dos 20 anos analisados, as titulações de mestrado em enfermagem apresentaram tendência temporal crescente e estatisticamente significativa (AAPC: 7,55%; p < 0,000), com crescimento registrado em todas as cinco regiões e destaque para a região Norte (AAPC: 16,40%; p < 0,000). No doutorado, verificou-se tendência nacional igualmente crescente e significativa (AAPC: 8,31% ao ano; p < 0,000), observada em quatro regiões, com maior AAPC no Centro-Oeste (15,96%; p < 0,000), conforme apresentado na Tabela 2.
Variação percentual média anual das titulações de mestrado e doutorado na área de enfermagem no Brasil e regiões – Brasil, 2004–2023.
DISCUSSÃO
Os dados desvelaram proeminência de titulações de mestrado e doutorado nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul, com predominância da modalidade acadêmica e maior participação das IES públicas federais na outorga dos títulos. Esse padrão é coerente com o documento de área da enfermagem, que aponta a centralização de PPGENFs nessas regiões e a prevalência da modalidade acadêmica(3). As IES públicas federais reúnem a maior parcela dos programas stricto sensu no país, o que contribui para explicar sua centralidade na formação de mestres e doutores neste estudo(12).
O protagonismo da região Sudeste na formação stricto sensu em enfermagem pode ser compreendido a partir do seu processo histórico de institucionalização, considerando que os primeiros PPGENFs foram implantados nessa região e, em seguida, expandiram-se para as regiões Sul e Nordeste(1). Sob essa perspectiva, a distribuição das titulações observada nos resultados reflete trajetórias históricas de consolidação e expansão da pós-graduação na área, uma vez que regiões com institucionalização mais precoce tendem a concentrar maior volume de programas e, consequentemente, de titulações. Essa trajetória situa-se em um processo mais amplo de expansão da PGENF nas Américas, cujos primeiros programas foram iniciados nos Estados Unidos (EUA) na década de 1930, expandindo-se posteriormente para países latino-americanos. Nesse sentido, destaca-se a influência norte-americana na consolidação da PGENF brasileira, evidenciada pela especialização de docentes brasileiros nos EUA e pelo apoio financeiro de instituições como a Fundação Kellogg tanto para a formação de recursos humanos quanto para a estruturação dos primeiros programas no país(2).
Na região Norte, o primeiro mestrado em enfermagem teve início apenas em 2010, em associação entre a Universidade do Estado do Pará (UEPA) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM)(13), evidenciando assimetria histórica de várias décadas em relação às regiões Sudeste, Sul e Nordeste, onde cursos de mestrado já estavam em funcionamento desde a década de 1970(1). Ademais, no período analisado, não foram identificadas outorgas de títulos de doutorado em enfermagem por instituições da região, uma vez que o primeiro curso nesse nível foi aprovado apenas em 2023, também vinculado à UEPA/UFAM, com início da primeira turma em 2024. A implantação desse curso constitui um marco na consolidação da formação avançada regional, ao ampliar a qualificação de recursos humanos em nível de doutorado e fortalecer a produção científica e a inovação em enfermagem no contexto amazônico(14,15). A incipiência das titulações de Doutorado Profissional (DP) observada neste estudo pode ser explicada pela recente implementação dessa modalidade na enfermagem brasileira. Os cursos de DP tiveram início em 2019, enquanto as primeiras defesas ocorreram apenas em 2023, na UFSC e na Universidade Estadual Paulista (UNESP)(16).
As assimetrias regionais identificadas não constituem novidade e são reconhecidas pela própria área, que aponta a persistência de desafios relacionados à concentração de programas nas capitais e à baixa oferta de cursos na região Norte, no interior do Nordeste e no Centro-Oeste. Como estratégias para a redução dessas assimetrias, destacam-se a interiorização da pós-graduação, a ampliação da oferta de cursos de doutorado e o fortalecimento de estratégias indutivas, como os Programas Interinstitucionais de Mestrado e Doutorado (chamados respectivamente Minter e Dinter) e o estabelecimento de parcerias entre PPGENFs com diferentes níveis de maturidade(3).
Neste estudo, observou-se redução no número de titulações em 2020. Esse achado não se configura como um fenômeno isolado, tendo em vista que evidência da pós-graduação brasileira aponta diminuição das titulações em diferentes áreas, associada às dificuldades para a conclusão dos cursos durante a pandemia de COVID-19(17). Dados da enfermagem provenientes da pesquisa Brasil: mestres e doutores corroboram esse panorama, indicando redução nas taxas de crescimento das titulações em 2020, tanto no mestrado (–25,54%) quanto no doutorado (–24,9%)(18). À luz desse contexto, o decréscimo observado pode ter sido influenciado por medidas institucionais adotadas pela CAPES, como a flexibilização dos prazos de titulação e a prorrogação excepcional das bolsas no período pandêmico(19, 20, 21). Paralelamente, os impactos psicossociais da pandemia também se mostraram relevantes, associados a efeitos na saúde mental dos pós-graduandos brasileiros, como desmotivação, dificuldades de concentração, insônia e elevados níveis de ansiedade e depressão, além de prejuízos na produção acadêmica e no cumprimento de prazos, fatores que podem ter influenciado a progressão acadêmica(22, 23, 24).
Quanto à nacionalidade dos titulados, os dados indicam que o Brasil tem contribuído exponencialmente para a formação de mestres e doutores estrangeiros, especialmente oriundos da América Latina. O desenvolvimento de cursos interinstitucionais de pós-graduação constitui uma das principais formas pelas quais essa contribuição pode ocorrer(25). Nesse âmbito, a área de enfermagem aponta o compromisso de continuar contribuindo solidariamente com propostas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) voltadas à formação de enfermeiros doutores para a América Latina e o Caribe, incluindo a adoção de mecanismos de atração de estudantes da região e o fortalecimento da integração Sul–Sul, com vistas à nucleação de doutores em seus países de origem e à promoção do desenvolvimento científico e tecnológico na região(3).
No contexto ibero-americano, a formação doutoral em enfermagem tem se caracterizado pela expansão progressiva dos programas, acompanhada da persistência de desigualdades regionais em sua oferta. Nesse cenário, o Brasil desponta como país pioneiro nessa modalidade formativa, com início em 1982, e como principal polo regional, concentrando o maior número de PPGENFs em funcionamento(26). No âmbito específico da América Latina, observa-se crescimento no número de programas, com Brasil, Peru e México respondendo pela maior parte da oferta. Apesar dessa expansão, persistem desafios que comprometem a qualidade e a sustentabilidade da formação doutoral, a saber: a distribuição geográfica desigual dos programas, as limitações de financiamento para pesquisa, a baixa articulação interinstitucional e a proeminência de doutorados orientados majoritariamente à pesquisa acadêmica, com reduzida inserção de modelos voltados à prática avançada(27).
Nessa perspectiva, a nucleação de doutores na América Latina pode representar estratégia relevante para redução de assimetrias na formação avançada em enfermagem, sobretudo em países com oferta ainda limitada de cursos doutorais. A formação desses profissionais em programas brasileiros pode favorecer a expansão da capacidade regional de pesquisa e formação stricto sensu. Contudo, os impactos desse processo dependem de condições estruturais nos países de origem, incluindo políticas de valorização profissional, financiamento científico e suporte institucional para consolidação de novos programas de pós-graduação.
Para além desses aspectos, a literatura aponta a necessidade de intensificar a cooperação internacional e o desenvolvimento de pesquisas multicêntricas como estratégias para o fortalecimento da formação doutoral em enfermagem e para a consolidação da área em diferentes contextos(28). Nessa mesma direção, evidenciam-se desigualdades que extrapolam a dimensão territorial, alcançando aspectos sociais e raciais, com barreiras persistentes para populações minoritárias e lacunas no suporte a estudantes com identidades interseccionais, o que reforça a centralidade da equidade como eixo estruturante da educação doutoral em enfermagem(29).
A formação em nível de mestrado e doutorado em enfermagem deve ser compreendida para além da obtenção do diploma, envolvendo a constituição de sujeitos capazes de exercer liderança científica, política e social, produzir conhecimento relevante e responder aos desafios contemporâneos da profissão e da sociedade. Nesse contexto, a PGENF insere-se em um contexto de profundas transformações científicas, tecnológicas e sociais, demandando mestres e doutores comprometidos com a inovação, a sustentabilidade, a equidade e a produção de impactos concretos no cuidado, na gestão e na formulação de políticas em saúde. Assim, a expansão e a consolidação da formação stricto sensu devem ser acompanhadas de reflexões contínuas sobre o papel desses profissionais na construção da ciência da enfermagem e no fortalecimento de seu compromisso ético, social e político(30).
Este estudo demonstrou aumento das titulações de mestrado e doutorado no país ao longo do período analisado, inclusive nas regiões historicamente menos contempladas pela oferta de programas. Esse avanço, embora relevante, suscita reflexões que extrapolam a dimensão quantitativa da formação avançada. Quantos titulados seriam necessários para promover uma distribuição mais equitativa da formação no território nacional? E, sobretudo, seria a ampliação do número de mestres e doutores suficiente para enfrentar as assimetrias regionais historicamente construídas na enfermagem brasileira?
Essas questões evidenciam contradições, incertezas e desafios inerentes à evolução histórica da profissão de enfermagem no Brasil, à trajetória da formação universitária e aos percursos de consolidação da ciência e tecnologia em enfermagem. Do mesmo modo, revelam tensões em relação ao próprio modelo de expansão da pós-graduação, uma vez que o impacto da titulação não depende exclusivamente do volume de profissionais formados, mas de condições estruturais mais amplas, como políticas de fixação e valorização de mestres e doutores, financiamento sustentável da pesquisa, oportunidades de inserção qualificada no ensino, na prática e na gestão em saúde, bem como da capacidade dos territórios de absorver e valorizar esses profissionais. Nesse sentido, a formação stricto sensu, embora fundamental, não garante automaticamente a redução das desigualdades regionais nem a produção de impactos proporcionais na prática profissional, demandando articulação entre políticas educacionais, científicas, de saúde e de desenvolvimento regional. Assim, o desafio não se restringe a formar mais, mas a criar condições para que mestres e doutores produzam efeitos concretos nesses diferentes campos, com vistas a alcançar elevado domínio científico e tecnológico e a consolidar a enfermagem brasileira como referência no cenário internacional.
Este estudo apresenta algumas limitações. A primeira relaciona-se ao uso de dados secundários, o que pode acarretar restrições quanto à qualidade das informações disponíveis. Além disso, a utilização dessa modalidade de base de dados pode limitar análises mais aprofundadas pela restrição das variáveis disponíveis. Acrescenta-se que a análise de tendência baseada em percentuais de titulação pode restringir a compreensão da magnitude das variações observadas ao longo do tempo. Outra limitação refere-se à condução da análise com dados agregados por unidade federativa e região, o que pode atenuar a identificação de desigualdades em escalas geográficas menores, como municípios. Diante disso, estudos futuros podem empregar distintos delineamentos metodológicos, variáveis adicionais e análises complementares com valores absolutos ou taxas ajustadas, a fim de ampliar a compreensão do fenômeno.
O recorte temporal contemplado pela base de dados restringiu-se ao período de 2004 a 2023, não abrangendo a totalidade da formação stricto sensu em enfermagem no contexto brasileiro. Soma-se a isso a escassez de estudos sobre a evolução temporal das titulações em enfermagem, especialmente em perspectiva internacional, o que limitou comparações mais aprofundadas entre os achados deste estudo e contextos com tradição consolidada na PGENF. Ainda assim, os dados analisados permitiram uma avaliação consistente da evolução das titulações em enfermagem ao longo de duas décadas, oferecendo subsídios relevantes para a compreensão da dinâmica da formação avançada na área.
CONCLUSÃO
Este estudo analisou a tendência temporal e a distribuição espacial das titulações de mestrado e doutorado na área de enfermagem, demonstrando crescimento ao longo do período em todas as regiões do Brasil. Os achados indicam proeminência das titulações em nível de mestrado, majoritariamente na modalidade acadêmica, e centralidade das IES públicas federais na outorga dos títulos. Do ponto de vista espacial, observou-se concentração da formação nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul, bem como a ausência de titulações de mestrado e doutorado por instituições locais em alguns estados ao longo do período analisado, especialmente na região Norte.
Apesar do crescimento observado, persistem marcadas assimetrias regionais na formação stricto sensu em enfermagem. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias voltadas à descentralização dos PPGENFs, à ampliação da oferta de cursos em regiões historicamente menos contempladas e à interiorização da formação avançada. Os dados apresentados podem, nesse sentido, subsidiar gestores acadêmicos e formuladores de políticas educacionais na definição de ações direcionadas ao fortalecimento de programas em consolidação e à indução de novas ofertas formativas nos níveis de mestrado e doutorado. Ademais, a ampliação das titulações deve ser acompanhada de políticas de valorização, fixação e inserção qualificada de mestres e doutores nos territórios, de modo a potencializar impactos no ensino, na pesquisa, na prática profissional e na gestão em saúde.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
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*A = frequência absoluta (mestrado); †B = frequência relativa (mestrado); ‡C = frequência absoluta (doutorado); §D = frequência relativa (doutorado)