Open-access Desdobramentos da educação interprofissional na Atenção Primária à Saúde no Brasil: revisão de escopo

Developments of interprofessional education in primary health care in Brazil: a scoping review

Desarrollos de la educación interprofesional en la atención primaria de salud en Brasil: revisión de alcance

Resumo

Neste artigo, objetivou-se identificar e mapear a literatura acerca das vivências e dos fatores potenciais da educação interprofissional no contexto da Atenção Primária à Saúde no Brasil. Trata-se de uma revisão de escopo realizada de novembro de 2023 a fevereiro de 2024 nas bibliotecas e bases de dados Medline/Pubmed, Cochrane Library, Scopus, Embase, Web of Science, SciELO, Lilacs e Base de Dados de Enfermagem via Biblioteca Virtual em Saúde, Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Google Acadêmico e Biblioteca Digital de Teses e Dissertações. Duas pesquisadoras conduziram a seleção de forma independente, utilizando o software Rayyan®. Os dados foram analisados segundo a análise de conteúdo temática, com auxílio do software Iramuteq®. Incluíram-se vinte artigos na revisão. Identificaram-se seis classes de palavras: competências colaborativas; práticas colaborativas; profissionais envolvidos na educação interprofissional; educação interprofissional no ensino da graduação; dificuldades para a efetivação da educação interprofissional nos serviços; e contexto da Atenção Primária à Saúde. Concluiu-se que a educação interprofissional é estratégica para fortalecer o Sistema Único de Saúde e o trabalho colaborativo na atenção primária, com avanços na formação em saúde, especialmente na graduação, mas persistem desafios para sua implementação nos serviços.

Palavras-chave
Atenção Primária à Saúde; educação interprofissional; aprendizagem colaborativa; Sistema Único de Saúde

Abstract

The objective of this study was to identify and map the literature on the experiences and potential factors of Interprofessional Education in the context of Primary Health Care in Brazil. This scoping review was conducted between November 2023 and February 2024 in the following libraries and databases: Medline/Pubmed; Cochrane Library; Scopus; Embase; Web of Science; SciELO; Lilacs and Nursing Database via the Virtual Health Library; CAPES Catalog of Theses and Dissertations; Digital Library of Theses and Dissertations; and Google Scholar. Two researchers independently conducted the selection process using Rayyan® software. Data were analyzed using thematic content analysis with the help of IRAMUTEQ® software. Twenty articles were included in the review. After data processing, six word classes were identified: collaborative competencies; collaborative practices; professionals involved in interprofessional education; interprofessional education in undergraduate education; challenges in implementing interprofessional education in health services; and the context of Primary Health Care. The conclusion is that Interprofessional Education is strategic for strengthening the Unified Health System and collaborative work in Primary Health Care, with advances in health education, particularly at the undergraduate level though challenges regarding its implementation within health services persist.

Keywords
primary health care; interprofessional education; collaborative learning; unified health system

Resumen

El objetivo de este estudio fue identificar y mapear la literatura sobre las experiencias y factores potenciales de la Educación Interprofesional en el contexto de la Atención Primaria de Salud en Brasil. Esta revisión de alcance se realizó entre noviembre de 2023 y febrero de 2024 en las siguientes bibliotecas y bases de datos: Medline/Pubmed; Biblioteca Cochrane; Scopus; Embase; Web of Science; SciELO; Lilacs y Base de datos de enfermería a través de la Biblioteca Virtual en Salud; Catálogo de Tesis y Disertaciones de CAPES; Biblioteca Digital de Tesis y Disertaciones; y Google Académico. Dos investigadores realizaron de forma independiente el proceso de selección utilizando el software Rayyan®. Los datos se analizaron mediante análisis de contenido temático con la ayuda del software IRAMUTEQ®. Se incluyeron veinte artículos en la revisión. Después del procesamiento de datos, se identificaron seis clases de palabras: competencias colaborativas; prácticas colaborativas; profesionales involucrados en Educación Interprofesional; Educación Interprofesional en la educación universitaria; desafíos en la implementación de la Educación Interprofesional en los servicios de salud; y el contexto de la Atención Primaria de Salud. Se concluye que la Educación Interprofesional es estrategia para fortalecer el Sistema Único de Salud y el trabajo colaborativo en la Atención Primaria de Salud, con avances en la formación sanitaria, especialmente a nivel de pregrado, pero persisten desafíos para su implementación en los servicios de salud.

Palabras clave
atención primaria de salud; educación interprofesional; aprendizaje colaborativo; sistema único de salud

Introdução

A escassez de recursos humanos qualificados para lidar com a complexidade das questões de saúde da população e a compreensão da realidade do trabalho em comunidade constitui um ponto crítico em escala global. Diante de tal cenário, torna-se imprescindível ampliar os investimentos na formação dessa força de trabalho, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos usuários e fortalecer a economia dos países (Organização Mundial da Saúde, 2016). Especificamente na Atenção Primária à Saúde (APS), conhecimentos e aprendizados são necessários para a administração e a programação do serviço de modo intersetorial (Organização Pan-Americana da Saúde, 2008).

Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe uma resposta eficaz e resolutiva às necessidades do cuidado centrado na família e da melhoria da capacidade de resposta dos sistemas de saúde, por meio do estímulo à educação e ao trabalho interprofissional (Organização Mundial da Saúde, 2010). Tal abordagem fundamenta-se na integração entre dois ou mais profissionais de áreas distintas que, por meio da reflexão sobre os papéis profissionais e da tomada de decisão compartilhada, constroem saberes de forma mútua, com respeito às singularidades de cada prática profissional (Araújo et al., 2017). Por intermédio da prática colaborativa (World Health Organization, 2010), atuam em prol da obtenção da qualidade do cuidado na APS, cujo trabalho é complexo devido à busca pelo cuidado integral de usuários com necessidades e territórios diversos (Starfield, 2002). Oportunizam-se, assim, a aprendizagem e a articulação de diferentes saberes em prol da qualidade no cuidado (Merhy e Franco, 2013).

Atualmente, o Brasil tem incorporado a educação interprofissional (EIP) nas políticas de educação na saúde como abordagem prioritária, devido ao seu potencial estratégico que exerce para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) (Medeiros, Forte e Toassi, 2024). No contexto internacional, há relatos de EIP desde 1960 no Reino Unido, expandido para diversos países (Barr e Low, 2013; Reeves et al., 2016; Frenk et al., 2022).

Para o alcance efetivo da interprofissionalidade, seis domínios e competências devem ser desenvolvidos: comunicação em equipe (fala colaborativa, responsável); cuidados e serviços focados no relacionamento (valorização da participação do paciente no cuidado); esclarecimento e negociação de papéis (reconhecimento da especificidade do trabalho do outro); funcionamento da equipe (articulação da complementaridade do trabalho em equipe); processamento nas diferenças e nos desacordos da equipe (envolvimento crítico e positivo incluindo o usuário); e liderança colaborativa (coordenação que sustenta a prática colaborativa) (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024).

A prática colaborativa interprofissional na APS vem promovendo complementaridade de conhecimento entre os profissionais, oportunizando a aprendizagem mútua, com articulação de diferentes saberes, o que favorece, dessa forma, o aumento da integralidade do cuidado (Peduzzi e Agrelli, 2018). Ocorre, principalmente, por meio de consultas compartilhadas, visitas domiciliares e atividades intersetoriais (Alves et al., 2021).

Contudo, há limitações e resistências políticas, teóricas e práticas na EIP em saúde, área ainda dominada pelo individualismo disciplinar especializado e descontextualizado (Pereira, 2018). Como desafios da incorporação da EIP na APS, destacam-se o predomínio da cultura do trabalho uniprofissional (Peduzzi e Agrelli, 2018), a falta de espaços de comunicação, a necessidade do cumprimento de metas quantitativas individuais e a atuação baseada no modelo biomédico (Barbosa et al., 2021). São necessárias mudanças na formação em saúde que impliquem transformações na formação de trabalhadores para o SUS (Batista e Gonçalves, 2011).

Apesar do crescente reconhecimento da EIP como estratégia fundamental para qualificar o trabalho colaborativo e fortalecer a APS brasileira, a produção científica sobre o tema encontra-se dispersa em diferentes contextos de formação e prática profissional. Embora estudos nacionais tenham abordado experiências de EIP em cursos de graduação (Isidoro et al., 2022; Camara, Grosseman e Pinho, 2015), nas residências (Araújo et al., 2021; Arruda e Moreira, 2018) e nos serviços de saúde (Condeles et al., 2019; Daminello, 2022), ainda são limitadas as iniciativas de síntese capazes de reunir e analisar de forma abrangente as evidências no país. Assim, permanece a necessidade de se compreender como a EIP vem sendo desenvolvida no contexto da APS brasileira, quais abordagens têm sido adotadas e quais lacunas persistem na produção científica. Ao mapear e sistematizar essas evidências, o presente estudo busca contribuir para o avanço do conhecimento na área, a fim de oferecer uma visão integrada do cenário nacional e subsidiar o desenvolvimento de estratégias de formação e práticas colaborativas alinhadas às necessidades do SUS.

Ao se considerarem os benefícios que a EIP promove aos estudantes, aos profissionais e à comunidade, este estudo teve como objetivo identificar e mapear a literatura acerca das vivências e dos fatores potenciais da EIP no contexto da APS no Brasil.

Métodos

Este estudo trata de uma revisão de escopo da literatura, com o propósito de compreender a EIP no contexto da APS. O protocolo com o detalhamento da revisão foi registrado no Open Science Framework® (OSF) (DOI 10.17605/OSF.IO/7UKR9). O estudo teve por base a pergunta norteadora: quais são as formas de ocorrência da EIP no contexto da APS no Brasil?

Estabeleceram-se os seguintes critérios de inclusão para a seleção do material: ser trabalho derivado de pesquisas (artigos originais, dissertações e teses) e relatos de experiência; ter sido publicado desde 2005, ano de criação das residências multiprofissionais em saúde pelos ministérios da Saúde, da Educação e da Cultura, considerado neste estudo como um marco importante para o fomento da interprofissionalidade na APS; ter sido publicado em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; estar disponível como texto completo em uma das bases de dados utilizadas, considerando como critério de disponibilidade o acesso permitido pela rede institucional da pesquisadora, vinculada à Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); tratar da APS no Brasil.

Para exclusão, eis os critérios estabelecidos: trabalhos duplicados; editoriais, artigos de opinião, artigos de revisão, documentos e resumos de eventos científicos; e trabalhos que não versavam sobre a temática do estudo.

A pesquisa teve seu foco nas seguintes bases de dados e bibliotecas digitais: National Library of Medicine/Pubmed (Medline); Embase; Scientific Electronic Library Online (SciELO); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e Base de Dados de Enfermagem (BDENF) via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); Google Acadêmico; Web of Science; nos bancos de dados Cochrane Library e Scopus; no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BGTD).

Utilizaram-se os descritores Atenção Primária à Saúde, educação interprofissional, aprendizagem colaborativa e Sistema Único de Saúde. Para elaboração das chaves de busca, adotamos os operadores booleanos AND e OR, ajustados para cada biblioteca e base de dados.

A seleção dos artigos foi feita de forma independente e cega por duas pesquisadoras previamente treinadas e calibradas, sob a supervisão de uma terceira pesquisadora, no período de novembro de 2023 a fevereiro de 2024. Usou-se o aplicativo Rayyan® (www.rayyan.ai) durante o processo de seleção para auxiliar na identificação e na remoção de duplicatas, bem como na resolução de conflitos entre as pesquisadoras. Ademais, aplicamos os dez primeiros textos para calibração, a fim de realizar os alinhamentos conceitual e metodológico, os quais incluímos no estudo, por não haver divergências. Na primeira etapa da seleção, após a exclusão das duplicatas, procedeu-se à leitura dos títulos e os resumos dos textos para avaliar se eles atendiam aos critérios de seleção. Os artigos classificados nesta primeira etapa foram lidos na íntegra e novamente submetidos aos critérios de seleção. As etapas do processo estão ilustradas no fluxograma da Figura 1, conforme o modelo Prisma 2020 Flow Diagram (Page et al., 2021).

Figura 1
– Fluxograma da seleção dos textos da revisão de escopo.

Para análise dos textos incluídos na revisão, usou-se uma abordagem qualitativa, com análise de conteúdo na modalidade temática, proposta por Minayo (2014). Seguiram-se todas as fases sugeridas nesse tipo de análise: exploração do material, tratamento dos resultados e interpretação dos dados, objetivando a interpretação subjetiva dos textos, a organização e o agrupamento dos conteúdos semelhantes e a apresentação dos achados de maneira organizada e categorizada (Minayo, 2014). Na pré-análise, procedeu-se à leitura flutuante, à constituição do corpus e à formulação. Com base nas competências colaborativas (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024), identificaram-se nos textos as vivências e os fatores que influenciam a EIP no contexto da APS no Brasil, com transcrição dos trechos no programa LibreOffice Writer® versão: 6.3.2.2 (x64), num total de vinte arquivos.

Na segunda fase da análise, ocorreu a exploração do material, de acordo com as unidades de registro preestabelecidas (comunicação em equipe; cuidados, serviços focados no relacionamento; esclarecimento e negociação de papéis; funcionamento da equipe; processamento nas diferenças; liderança colaborativa) que revelam os núcleos de sentido que compõem os textos analisados. Desse modo, cada texto foi averiguado e disposto contendo a unidade de registro preestabelecida, o que gerou um corpus com oitenta linhas de comando. Reorganizado o corpus, criando-se um segundo agrupamento com um arquivo correspondente a cada unidade de registro de cada um dos vinte textos, gerando um corpus único.

Procedeu-se à organização dos dados com auxílio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ®), versão 0.7 alpha 2, um programa gratuito e ancorado no Software R®, que permite fazer análises estatísticas sobre corpus textuais.

Realizou-se o processamento de dados deste estudo para obtenção da nuvem de palavras, a fim de identificar as palavras que obtiveram maior repetição no corpus. Em seguida, houve o processamento da classificação hierárquica descendente (CHD), que visa extrair as classes de segmentos de texto e as palavras que se aproximam e se diferenciam dentro do corpus (Camargo e Justo, 2013). O corpus compôs-se por oitenta linhas de comando, cujo aproveitamento foi de 82,6%, considerando-se como valor satisfatório um aproveitamento superior a 75% (Souza et al., 2018).

Não houve necessidade de submissão e aprovação do estudo por um comitê de ética em pesquisa por se tratar de uma revisão bibliográfica com documentos de acesso público.

Resultados

Reuniram-se 3.407 textos, dentre estes 1.558 duplicados. Dos 1.849 restantes, houve a exclusão de 1.791 após leitura de título e resumos e de 38 após leitura completa, restando vinte textos, os quais foram incluídos na análise. Notou-se predomínio de pesquisas qualitativas (n=11) e relatos de experiência (n=5), identificados na base Lilacs (n=13) e publicados nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste do Brasil (n=17). A análise descritiva dos textos está apresentada no Quadro 1.

Quadro 1
– Caracterização dos textos utilizados nesta revisão de escopo.

A forma inicial de contextualização dos resultados obtidos da revisão dos artigos é representada por meio de uma nuvem de palavras (Figura 2), que demonstra aquelas agrupadas graficamente e em tamanho de fonte maior em razão da frequência obtida dentro do corpus. As palavras mais frequentes foram ‘saúde’, ‘profissional’, ‘equipa’ representando a palavra ‘equipe’, ‘prático’, ‘estudante’, ‘processo’, ‘cuidado’ e ‘interprofissional’.

Figura 2
– Nuvem de palavras resultantes do processamento do corpus documental no software Iramuteq.

Nessa configuração, destaca-se a palavra ‘profissional’, que, no contexto dos textos analisados, refere-se às relações de poder interferindo na integração entre profissionais; e “embora os profissionais não reconheçam, as relações de poder vão se tecendo no interior das equipes, numa forma de polarizar que se estabelece entre as pessoas e divide as que podem mais das que podem menos, estabelecendo uma hierarquia nas relações” (Farias et al., 2018, p. 150).

Ademais, a palavra ‘interprofissional’ salienta a necessidade do paciente de não ser atendido apenas por um profissional, em que “a convivência favoreceu, ainda, a valorização do outro profissional, pois, a partir do momento em que se conhece mais sobre a profissão do outro, aumenta o respeito e a compreensão de que o paciente não precisa apenas de um profissional” (Arruda et al., 2018, p. 1.316).

Além disso, destaca-se a participação do ‘usuário’ dentro do plano de cuidado, considerando que “a participação do usuário no plano de cuidados é a assimetria do saber entre o usuário e os profissionais”. Neste trecho, destaca-se que a assimetria do saber prejudica a comunicação, dominando as decisões dos profissionais em uma estrutura procedimental em cima da doença e não no indivíduo” (Silva et al., 2015, p. 19).

Em relação aos resultados obtidos após o processamento da CHD na fase final da análise de conteúdo, registraram-se 17.271 ocorrências de palavras, 2.047 formas diferentes e 1.843 hapax, ou seja, palavras com apenas uma aparição. A unidade foi formada por um corpus único que se dividiu em três subcorpus, gerando três categorias, apresentadas no dendrograma representado pela Figura 3.

Figura 3
– Dendrograma da classificação hierárquica descendente obtida pelo Iramuteq, indicando as potencialidades e os desafios da interprofissionalidade na Atenção Primária à Saúde.

Uma categoria gerou as classes IV, III, II e I, e as classes III e II apresentaram maior proximidade de sentido dos discursos. A segunda categoria gerou a classe V e, por fim, a terceira categoria gerou a classe VI.

Classe VI: contexto da APS

A classe VI foi composta por 15,1% dos vocábulos, apresentando o contexto da APS no desenvolvimento da EIP, no cotidiano do trabalho em saúde. Eis as principais palavras definidoras: ‘comunitária’, ‘agente’, ‘visita’, ‘domiciliar’ e ‘território’.

As palavras ‘agente’ e ‘comunitário’ referem-se ao agente comunitário de saúde (ACS). Segundo um dos estudos analisados, esse profissional “é capaz de falar para a equipe sobre a dinâmica social, política e cultural do território, devido ao contato direto com as famílias” (Salomão et al., 2018, p. 752). No entanto, outro estudo apontou que “o foco na gestão de processos burocráticos tem prejudicado a quantidade de visitas domiciliares e a qualidade das ações desses profissionais no território” (Beraldi et al., 2021, p. 12).

Os vocábulos ‘visita’ e ‘domiciliar’ dizem respeito aos atendimentos realizados no ambiente em que o usuário está inserido, possibilitando ao profissional conhecer as reais necessidades que o paciente apresenta, assim como entender o contexto vivenciado por ele. Conforme descrito em um dos estudos, a “integração de saberes e de práticas nessas atividades” revela-se, também, em uma visita domiciliar (Farias et al., 2018, p. 13). Por sua vez, a palavra ‘território’ refere-se ao cenário em que os profissionais de saúde e usuários estão inseridos, “abrangendo as peculiaridades que são importantes para prestação do cuidado integral, a partir das quais deve-se compreender a dinâmica social do território, em suas áreas e microáreas” (Vendruscolo et al., 2020, p. 285).

Classe V: dificuldades para a efetivação da EIP nos serviços

A classe V foi composta por 20% dos vocábulos, sendo definida pelas palavras: ‘realidade’, ‘instrumento’, ‘qualidade’, ‘trabalhadores’ e ‘avaliação’.

A ‘realidade’ no cenário da APS teve destaque nessa classe e ligou-se às palavras ‘instrumento’ e ‘avaliação’, relacionadas à pressão no cumprimento de metas, o que pode afetar a ‘qualidade’ do serviço realizado pelos ‘trabalhadores’ da saúde, evidenciando a pressão por produtividade que vem gerando sobrecarga de trabalho, desgaste emocional e perda de sentido nos trabalhadores (Beraldi et al., 2021).

Com sentido semelhante, a palavra ‘qualidade’ aparece relacionada à ‘produção’, demonstrando a “priorização de gestores pela quantidade de procedimentos em detrimento da qualidade, viabilizados pelas atividades individuais, com comunicação frágil, o que interfere negativamente na qualidade do atendimento” (Vendruscolo et al., 2020, p. 283).

Classe I: competências colaborativas

A classe I foi composta por 14,1% das palavras e retrata a importância da articulação de conhecimentos em prol da colaboração profissional no cotidiano do trabalho em saúde. As palavras que representam essa classe são: ‘resolver’, ‘problema’, ‘prestar’, ‘interação’ e ‘profissionais’.

As palavras ‘resolver’, ‘problema’ e ‘prestar’ aparecem juntas, retratando a compreensão dos profissionais sobre a interdependência entre o conhecimento e a experiência adquiridos no trabalho em equipe e o cuidado dos usuários e comunidade (Santos, Simonetti e Cyrino, 2018). Nessa perspectiva, a “interprofissionalidade otimiza habilidades de compartilhamento e gerenciamento de casos, aumentando assim a qualidade dos serviços prestados” (Vendruscolo et al., 2020, p. 277).

Já os vocábulos ‘profissionais’ e ‘interação’ referem-se à “comunicação colaborativa entre a equipe, que promove a colaboração interprofissional, pois o diálogo favorece a resolução de problemas que aparecem no ambiente de trabalho” (Beraldi et al., 2021, p. 4). Essa interação entre os profissionais propicia a “corresponsabilização do cuidado pelos usuários, com a mobilização de diversos saberes, aguçando a criatividade no cuidado” (Lago et al., 2022, p. 4).

Classe II: práticas colaborativas

Essa classe é composta por 12,9% dos vocábulos, retratando as práticas colaborativas, definidas pelas palavras ‘terapêutico’, ‘cuidado’, ‘singular’, ‘plano’ e ‘projeto’.

As palavras ‘terapêutico’, ‘singular’ e ‘projeto’, em conjunto, apresentam os processos realizados coletivamente pelos profissionais. Destaca-se que o compartilhamento do saber e o estabelecimento de objetivos comuns que compõem as competências colaborativas, como representado pelo Projeto Terapêutico Singular (PTS), são propostas de intervenção por meio do diálogo entre os profissionais, complementando, assim, a noção da prática de cuidado integral (Arruda et al., 2018).

Tais palavras referem-se também “à prática do matriciamento, na qual duas ou mais equipes compartilham a responsabilidade do cuidado ampliado de modo colaborativo” (Daminello, 2022, p. 114).

Nessa perspectiva, as palavras ‘plano’ e ‘cuidado’ dizem respeito aos “pontos de convergência entre as atuações dos profissionais, a fim de um cuidado compartilhado” (Condeles et al., 2019, p. 4), e ainda à “colaboração do usuário nesse processo de cuidado à saúde, compartilhando a responsabilidade pelos resultados do cuidado juntamente com os trabalhadores da saúde, trazendo informações necessárias para a adaptação da terapêutica” (Lago et al., 2022, p. 4).

Classe III: profissionais envolvidos na EIP

A classe III compôs-se de 15,6% dos vocábulos, refletidos, principalmente, sobre as divergências entre as categorias profissionais para a implementação da EIP. As palavras que retratam essa classe são: ‘categoria’, ‘enfermeiros’, ‘ESF’, ‘equipe’ e ‘médico’.

As palavras ‘enfermeiros’, ‘categoria’ e ‘médico’ foram citadas para representar a baixa interação entre diversas categorias profissionais, com o estabelecimento de relações de hierarquia. Os profissionais “entendiam que o aprender com outras categorias da saúde seria um desperdício àquilo que aprenderam durante a graduação, de forma uniprofissional” (Branco Junior, et al., 2021, p. 45). Tais palavras denotam também a “falha da liderança ao utilizar uma comunicação vertical, deixando a critério de cada equipe construir práticas colaborativas, sem promover uma articulação entre os profissionais na Estratégia de Saúde” (Farias et al., 2018, p. 150).

Já os termos ‘equipe’ e ‘ESF’ vêm confirmando esse contexto de relações de poder no interior das equipes, que “polariza as relações entre os que podem mais e os que podem menos e dificulta a efetivação de um trabalho colaborativo” (Beraldi et al., 2021, p. 2).

Classe IV: a EIP no ensino da graduação em saúde

A classe IV é a mais representativa do discurso; retrata as potencialidades e os desafios para a efetivação da EIP nas universidades, representada pelas palavras ‘estudante’, ‘curso’, ‘docente’, ‘disciplina’ e ‘EIP’.

As palavras ‘estudante’, ‘formação’ e ‘curso’ refletem os “desafios da integração dos alunos, quando a formação ocorre em silos isolados, com arquitetura dividida em campus e currículos segmentados, dificultando a convivência entre os estudantes e culminando na formação de profissionais que não sabem compartilhar o trabalho com os demais” (Miguel et al., 2018, p. 1.771). Isso provém de comportamentos enraizados em uma perspectiva uniprofissional, de proteção de uma área de conhecimento e trabalho, resultando no isolamento (Ely e Toassi, 2018).

No entanto, as palavras ‘docente’, ‘disciplina’ e ‘EIP’ dizem respeito às “potencialidades do papel docente no fortalecimento da EIP, capaz de mediar os obstáculos no reconhecimento dos estudantes sobre as outras profissões” (Silva et al., 2015, p. 18). Nesse sentido, “a disciplina integradora e o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) surgem como possibilidades de integração entre estudantes, professores e profissionais da saúde, com o compartilhamento de espaços e aprendizagens característicos da EIP, em cenários do SUS” (Vendruscolo et al., 2020, p. 284).

Discussão

A literatura analisada revelou que a EIP tem propiciado a qualificação dos profissionais para o exercício da colaboração nas equipes na APS em prol da qualidade do cuidado. Verificou-se o desenvolvimento das competências colaborativas, impulsionadas pela articulação dentro da comunidade e mediante iniciativas de formação na graduação. Fatores como a atuação do ACS, bem como a utilização de ferramentas e estratégias como o PTS, o matriciamento e o PET-Saúde, têm favorecido a EIP na APS. Contudo, a formação isolada de cada área profissional, a manutenção da hierarquia e diferentes valorizações entre as áreas, tanto na formação quanto no dia a dia dos serviços, e a pressão excessiva por produtividade têm sido barreiras à efetivação dessa importante estratégia formativa.

Pôde-se observar a relevância do trabalho do ACS na implementação da EIP na APS, devido ao papel desempenhado por esse profissional. O agente comunitário de saúde relata a realidade das famílias para a equipe, com a identificação de problemas, necessidades e fragilidades do usuário, auxiliando assim na tomada de decisões e na definição de estratégias de ação (Carli et al., 2014). Corroborando esses resultados, estudo desenvolvido em uma unidade de saúde da família em região periférica de uma capital do Sudeste do Brasil mostrou que o ACS vincula a perspectiva da APS à saúde comunitária tanto na parte técnica, propiciando acesso aos serviços com prevenção de agravos e monitoramento de situações em risco, quanto na política, integrando as dimensões de exclusão e cidadania (Binda, Bianco e Sousa, 2013).

No entanto, atividades administrativas, como o excesso de formulários que os ACSs necessitam preencher, são desafios para o desempenho desses profissionais, desviando seu foco de atuação e sobrecarregando sua rotina, o que culmina na perda de qualidade da assistência prestada (Almeida et al., 2016). Nesse contexto, é crucial que os gestores ajam como líderes e responsabilizem-se pela organização dos fluxos de trabalho, promovendo uma mudança que reduza os processos burocráticos para uma abordagem colaborativa, centrada no usuário (Caneppele, 2023).

Especialmente sobre a visita domiciliar, os estudos analisados revelaram que ela propicia a comunicação interprofissional com o compartilhamento de conhecimentos e experiências entre as diversas áreas profissionais, favorecendo, assim, um cuidado coordenado e integrado colaborativamente no domicílio (Smith-Carrier et al., 2015).

A APS brasileira é organizada de acordo com os preceitos do SUS e busca permanentemente a integralidade do cuidado (Starfield, 2002). Diante disso, destaca-se a EIP como alternativa para qualificação da formação dos profissionais de saúde da APS, em razão da complexidade das necessidades em saúde e das mudanças epidemiológicas vivenciadas (Peduzzi, 2016).

Como desafios para efetivação da EIP na graduação na APS, destacou-se a formação com viés nas especialidades em cada núcleo profissional, o que dificulta a integração entre estudantes e colabora para concepções estereotipadas e o desconhecimento das responsabilidades e dos papéis dos demais profissionais da saúde. Nesse sentido, Camara, Grosseman e Pinho (2015) ressaltam que a grade curricular leva a uma formação uniprofissional, com predominância da abordagem biomédica e da pedagogia tradicional, promovendo a fragmentação do cuidado e a divisão da formação em diferentes silos isolados.

A Competency Framework for Advancing Collaboration descreve as competências colaborativas, salientando como elas favorecem a integração entre os diversos saberes da expertise dos profissionais da equipe. O aprimoramento de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores dos profissionais, quando utilizados de forma conjunta, produz a prática colaborativa (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024). Na formação com foco na EIP, os domínios de competências colaborativas são reconhecidos como elementos essenciais para a produção de qualidade na APS, com propostas que visam solucionar a fragmentação do cuidado (Organização Mundial da Saúde, 2010).

Entre as condutas que favorecem a prática colaborativa dos profissionais da APS, objetivo final da EIP, destacam-se as reuniões de equipe. Elas possibilitam a construção do PTS, que é o resultado da discussão coletiva de uma equipe interprofissional, assim como o matriciamento, que torna viáveis o diálogo e a troca dos saberes entre as várias categorias de equipes. Ademais, permitem a concretização da educação permanente em saúde, com a problematização da prática que pretende ser transformada, de modo a facilitar a comunicação (Arruda e Moreira, 2018).

A comunicação, como competência identificada nas entrelinhas nos estudos analisados, traduz a comunhão, a confiança e a cooperação nas estratégias formais de reuniões e atividades coletivas entre os membros da equipe, com o compartilhamento de inquietações e resultados no cuidado ao usuário. Ela é capaz de propiciar a reflexão da contribuição de cada membro, gerando transformações nas relações de trabalho e na atenção à saúde (Previato e Baldissera, 2018). Outra vertente dessa competência é evitar omissões, duplicações de estratégias de cuidado, longas esperas ou adiantamentos desnecessários (Adams et al., 2014).

Apesar de a reunião de equipe ser um dos principais espaços em que ocorre a comunicação (Smith-Carrier et al., 2015), verificou-se neste estudo que algumas instituições não realizam reuniões de equipe. Corroborando esses achados, o estudo de Bardach, Real e Bardach (2017) salienta que a falta de reuniões de equipe consolida uma comunicação unilateral, por prontuários e meios eletrônicos, ou uma comunicação informal, pelos corredores, não havendo dessa forma uma potencialização da troca de saberes e transformação dos fazeres, o que se distancia assim da prática interprofissional.

Os estudos analisados ressaltam a importância do cuidado centrado no usuário e do estabelecimento de relações na APS para favorecer a adesão ao cuidado, por meio das trocas de saberes e decisões compartilhadas com os profissionais. O cuidado centrado no usuário oportuniza o acolhimento das reais demandas dos usuários, com respeito e empatia, de forma integral, relacionando fatores sociais e incluindo aspectos da saúde mental; e como forma de resposta, necessita de articulações interprofissionais (Agrelli, Peduzzi e Silva, 2016).

Como já destacado na literatura, as áreas profissionais que mais apareceram nos estudos analisados foram a enfermagem e a medicina. O estudo de Frenk e colaboradores (2022) registra o aumento de graduados das duas profissões. Essas áreas demonstraram dificuldade na interação com as demais áreas profissionais, diante da barreira cultural para o diálogo com outros grupos profissionais e do receio de expressar a insegurança profissional, o que dificulta a interação entre eles (Costa et al., 2018). Tal impasse provém do modelo educacional centrado em suas especificidades, que interfere no fortalecimento das relações interpessoais e interprofissionais (Peduzzi, 2016).

A literatura ressalta ainda que as relações de poder na equipe interferem na integração entre profissionais e desafiam a gestão em coordenar a resolução de conflitos. Cenários como esse apresentam-se como dificultadores para a colaboração, considerando-se que os profissionais, isoladamente, não conseguem prestar um cuidado de qualidade, já que a saúde dos usuários é complexa e apenas mediante a comunicação entre os membros da equipe é que as intervenções se efetivam (Araújo et al., 2017).

A competência ‘funcionamento da equipe’ foi definida como a ação conjunta de dois ou mais profissionais que compartilham metas, objetivos e convicções, reconhecem suas limitações e atuam em uma dinâmica de trabalho colaborativo, mediada pelos gestores. Esse processo favorece o aprendizado mútuo, a transformação das práticas e o desenvolvimento de competências comuns (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024; Frenk et al., 2022). No entanto, os estudos analisados apontam que apenas a reunião de vários profissionais em uma mesma unidade de saúde não deve ser considerada trabalho em equipe, uma vez que é necessário haver integração de saberes. De forma complementar, Peduzzi e colaboradores (2020) afirmam que, para sua efetivação, tornam-se necessários valores como vínculo, diálogo, respeito, confiança, gerenciamento e responsabilidade na execução de atividades coletivas.

O profissional reconhece o seu papel e o princípio das outras profissões, com a utilização de falas compreensíveis, favorecendo, dessa forma, a integração do conhecimento com os demais membros na dinâmica do trabalho, a fim de se obter um serviço colaborativo (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024). No entanto, quando não se compreende como o colega é formado e o que ele faz, cria-se uma barreira que impede o bom relacionamento.Com relação à EIP na graduação, os textos revelaram que majoritariamente os modelos de formação em saúde têm sido uniprofissionais, com os cursos apresentando grades curriculares distintas, separados arquitetonicamente em espaços de acordo com o segmento formativo, com tribalismo das profissões e reprodução da divisão do trabalho em saúde (Peduzzi e Agrelli, 2018). Tal fato tem dificultado a aproximação dos estudantes de diferentes cursos, conforme apontado pelo presente estudo.

Porém, estratégias como a EIP, quando aplicadas, favorecem a integração entre os diversos cursos, o que propicia a colaboração entre os estudantes em prol da integralidade do cuidado no SUS (Peduzzi, 2016; Medeiros, Forte e Toassi, 2024). Tal prática oportuniza a efetivação do trabalho coletivo, mediada pelo diálogo, com interação entre as disciplinas e cooperação entre os estudantes com estímulo à prática colaborativa, com o desenvolvimento de domínios pelas competências, no sentido de se discutirem atitudes, habilidades, decisões e valores (Barr e Low, 2013). Nesse aspecto, outra iniciativa favorável identificada pelo estudo é a articulação entre os estudantes de diferentes cursos pelo PET-Saúde, com o pressuposto da educação pelo trabalho, integrando assim serviço-instituição-comunidade (Arruda e Moreira, 2018).

Os estudos apontam ainda que alguns profissionais veem os conflitos como algo pessoal, não considerando o êxito coletivo, que se traduz no cuidado ao paciente. Embora não explícito nos resultados, esses comportamentos fazem referência à competência processamento de diferenças e desacordos da equipe, em que se considera que todos os membros são capazes de mediar os conflitos, por meio do reconhecimento da causa em busca de um consenso, evitando desse modo a intensificação ou a não resolução (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024).

A competência de esclarecimento e negociação de papéis e a de liderança colaborativa não aparecem nos resultados dos textos analisados. Ambas são de suma importância para a efetivação da prática colaborativa. A primeira denota a cooperação no cuidado, com a associação de diversos saberes, incitando a criatividade no cuidado e contribuindo para o reconhecimento e o respeito da diversidade de pensamento de cada um dos profissionais da equipe (Regis, 2018), enquanto a liderança colaborativa enaltece uma comunicação horizontal entre os profissionais e com a gestão, com tomada de decisões e responsabilidades compartilhadas para que as informações sejam coordenadas, compartilhadas e discutidas entre todos os membros da equipe, independentemente do nível hierárquico (Canadian Interprofessional Health Collaborative, 2024).

Esta revisão de escopo apresenta como limitação a escassez de informações sobre o desenvolvimento das seis competências colaborativas nos estudos analisados, reconhecendo a importância e a grandeza da temática.

Conclusão

Compreende-se, por meio do mapeamento da literatura, que o interesse pela EIP no Brasil tem ganhado destaque, com aumento no número de publicações no decorrer dos anos analisados, embora seja uma prática recente na formação dos profissionais que integram os serviços de saúde. Após a análise dos textos, concluiu-se que a comunicação potencializa o desenvolvimento das práticas colaborativas. A EIP na APS é potencializada pela atuação do ACS, bem como pelas reuniões de equipe, com o desenvolvimento do PTS, do matriciamento e do PET-Saúde. No entanto, a formação uniprofissional resulta em preconceito e hierarquias entre as categorias profissionais, o que dificulta a colaboração entre a equipe.

Diante disso, o estudo destacou a necessidade de se incluírem, já na graduação, práticas que superem esses desafios e favoreçam o aprendizado da EIP, que oportuniza a estudantes de diferentes profissões da saúde desenvolverem um pensamento interprofissional, de aprendizagem coletiva, de maneira interativa e colaborativa, com ideais inclusivos, a fim de ampliar, dessa forma, a qualidade e a resolutividade das ações em saúde.

O fortalecimento da EIP no Brasil está relacionado à integralidade dos serviços e das ações de saúde realizados por equipes multiprofissionais no contexto do SUS, conforme os princípios basilares do sistema. Essa abordagem busca responder à complexidade das demandas em saúde do usuário, da família e da comunidade. As reflexões suscitadas pelo estudo trazem informações relevantes sobre a reorientação do trabalho em equipe de modo interprofissional. Iniciar a EIP desde a graduação pode potencializar práticas pautadas no diálogo entre diferentes núcleos de conhecimento, de modo a favorecer a atuação diante da realidade dinâmica e complexa da APS.

Referências

Aspectos éticos:

Não se aplica.

Apresentação prévia:

Este artigo é resultante do trabalho de conclusão do curso de terapia ocupacional de Dinakézia Almeida Pereira de Jesus – Departamento de Terapia Ocupacional, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo, 2025.

Preprint e versão final:

Não se aplica.

Declaração de disponibilidade de dados:

Os dados de pesquisa estão depositados no SciELO Data, no DOI: https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.HRYQAO e estão disponíveis mediante solicitação.

Processo de avaliação:

Revisão por pares duplo-cega (double blind peer review).

Avaliadores:

Um parecerista ad hoc avaliou este artigo: Denise Bueno https://orcid.org/0000-0002-6037-8764

Financiamento:

Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) – Bolsa de Iniciação Científica vinculada ao Programa Institucional de Iniciação Científica (PIIC) da Universidade Federal do Espírito Santo, edital 2023/2024.

Conflito de interesses:

Não há conflito de interesses.

Editora científica:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Set 2025
  • Recebido
    23 Jun 2026
  • Aceito
    15 Jul 2026
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