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Impacto da Covid-19 na prática de automedicação em estudantes universitários

Impact of COVID-19 on self-medication practice in university students

Impacto de la Covid-19 en la práctica de la automedicación en estudiantes universitarios

Resumo

A automedicação expõe os indivíduos a riscos como reações adversas, intoxicações, interações medicamentosas, falhas terapêuticas e erros de medicação. Na pandemia de Covid-19, houve aumento de compra e consumo de produtos farmacêuticos pelos brasileiros. O presente estudo teve como objetivo estimar a prevalência e os fatores associados à automedicação em estudantes de um centro universitário na região do Campo das Vertentes, Minas Gerais, bem como avaliar a incidência durante a pandemia de Covid-19. O estudo teve delineamento transversal e quantitativo, com 248 estudantes de um centro universitário em 2021. Os achados mostraram que 67,3% dos participantes relataram realizar a automedicação; 28,7% apontaram aumento da automedicação durante a pandemia; e 30,9% indicaram o início nesse período. Houve diferença significativa sobre: considerar-se capaz de se automedicar, ter costume de indicar medicamentos para outras pessoas e consumi-los por indicação de outros. Para aqueles que aumentaram a prática de automedicação na pandemia, houve associação com o hábito de indicar medicamentos para outras pessoas. Já para quem iniciou essa prática no período pandêmico, a capacidade de automedicação esteve associada. Os resultados abrem caminhos para medidas educativas sobre o uso irracional dos medicamentos pelos estudantes do ensino superior, independentemente da área de formação.

Palavras-chave:
pandemia; hábitos de consumo de medicamentos; saúde; universidade

Abstract

Self-medication exposes individuals to risks such as adverse reactions, intoxications, drug interactions, therapeutic failures and medication errors. In the COVID-19 pandemic, there was an increase in the purchase and consumption of pharmaceutical products by Brazilians. The present study aimed to estimate the prevalence and factors associated with self-medication in students of a university center in the region of Campo das Vertentes, Southeastern Brazil, as well as to evaluate the incidence during the COVID-19 pandemic. The study had a cross-sectional and quantitative design, with 248 students from a university, in 2021. The findings showed that 67.3% of the participants reported self-medication; 28.7% indicated an increase in self-medication during the pandemic; and 30.9% indicated the beginning in this period. There was a significant difference about: to consider oneself capable of self-medicating, to have the habit of referring drugs to other people and to consume them by indication of others. For those who increased the practice of self-medication in the pandemic, there was an association with the habit of indicating drugs to other people. For those who initiated this practice in the pandemic period, the capacity of self-medication was associated. The results open paths for educational measures on the irrational use of medicines by higher education students, regardless of the education area.

Keywords:
pandemic; drug consumption habits; health; university

Resumen

La automedicación expone a los individuos a riesgos tales como reacciones adversas, intoxicaciones, interacciones medicamentosas, fracasos terapéuticos y errores medicamentosos. En la pandemia de Covid-19, hubo un aumento en la compra y consumo de productos farmacéuticos por parte de los brasileños. El presente estudio tuvo como objetivo estimar la prevalencia y los factores asociados a la automedicación en estudiantes de un centro universitario en la región de Campo das Vertentes, Sudeste de Brasil, así como evaluar la incidencia durante la pandemia de Covid-19. El estudio tuvo un diseño transversal y cuantitativo, con 248 estudiantes de un centro universitario en 2021. Los hallazgos mostraron que el 67,3% de los participantes reportaron automedicación; el 28,7% indicó un aumento en la automedicación durante la pandemia; y el 30,9% indicó el inicio en este período. Hubo una diferencia significativa en: Considerarse capaz de automedicarse, tener el hábito de referir drogas a otras personas y consumirlas por indicación de otros. Para aquellos que incrementaron la práctica de la automedicación en la pandemia, hubo una asociación con el hábito de indicar drogas a otras personas. Para aquellos que iniciaron esta práctica en el período pandémico, se asoció la capacidad de automedicación. Los resultados abren caminos para medidas educativas sobre el uso irracional de medicamentos por parte de los estudiantes de educación superior, independientemente del área de formación.

Palabras clave:
pandemia; hábitos de consumo de medicamentos; salud; universidad

Introdução

Durante a pandemia de Covid-19, o aumento da compra e do consumo de produtos farmacêuticos pelos brasileiros alertou os profissionais da área da saúde (Melo et al., 2021MELO, José R. R. et al. Automedicação e uso indiscriminado de medicamentos durante a pandemia da Covid-19. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 4, e00053221, mar. 2021. https://doi.org/10.1590/0102-311X00053221. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/e00053221/pt. Acesso em: 19 abr. 2023.
https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/...
). No cerne do problema estava o uso indevido de medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina, corticosteroides e vitaminas para o tratamento precoce da Covid-19, na maioria das vezes consumidos por iniciativa dos próprios pacientes, sem indicação ou prescrição médica, o que classificamos como automedicação (Melo et al., 2021MELO, José R. R. et al. Automedicação e uso indiscriminado de medicamentos durante a pandemia da Covid-19. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 4, e00053221, mar. 2021. https://doi.org/10.1590/0102-311X00053221. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/e00053221/pt. Acesso em: 19 abr. 2023.
https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/...
).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a automedicação “é caracterizada pela autosseleção e autoadministração de medicamentos para tratar doenças ou condições autodiagnosticadas” (Organização Mundial da Saúde, 1998ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). The role of the pharmacist in self-care and self-medication: report of the 4th WHO Consultative Group on the Role of the Pharmacist. Haia: OMS, ago. 1998. Disponível em: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/who-65860. Acesso em: 10 ago. 2023.
https://pesquisa.bvsalud.org/portal/reso...
, p. 3). Essa prática é considerada uns dos principais aspectos fundamentais do autocuidado e é um comportamento comum a diversas populações e culturas; porém, o uso abusivo dos medicamentos via automedicação torna-se um problema de saúde pública (Gama e Secoli, 2017GAMA, Abel S. M.; SECOLI, Silva R. Automedicação em estudantes de enfermagem do estado do Amazonas - Brasil. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 1, e65111, mar. 2017. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.01.65111. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw68wWrB7wtWR4FMQ/. Acesso em: 25 abr. 2023.
https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw...
; Melo et al., 2021MELO, José R. R. et al. Automedicação e uso indiscriminado de medicamentos durante a pandemia da Covid-19. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 4, e00053221, mar. 2021. https://doi.org/10.1590/0102-311X00053221. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/e00053221/pt. Acesso em: 19 abr. 2023.
https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/...
; Organização Mundial da Saúde, 1998; Sansgiry et al., 2016SANSGIRY, Sujit S. et al. Abuse of over-the-counter medicines: a pharmacist’s perspective. Integrated Pharmacy Research and Practice, Londres, v. 19, n. 6, p. 1-6, dez. 2016. https://doi.org/10.2147/IPRP.S103494. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5774309/. Acesso em: 28 abr. 2023.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/article...
).

No Brasil, oitenta milhões de pessoas optam pela automedicação, expondo-se, de tal forma, a riscos como reações adversas, intoxicações por medicamentos, interações medicamentosas, falhas terapêuticas e erros de medicação (Silva e Álvares, 2019SILVA, Elany R.; ÁLVARES, Alice C. M. Intoxicação medicamentosa relacionada à tentativa de autoextermínio. Revista de Iniciação Científica e Extensão, Valparaíso de Goiás, v. 2, n. 2, p. 102-108, fev. 2019. Disponível em: https://revistasfacesa.senaaires.com.br/index.php/iniciacao-cientifica/article/view/154. Acesso em: 19 abr. 2023.
https://revistasfacesa.senaaires.com.br/...
; Souza et al., 2014SOUZA, Thais T. et al. Morbidade e mortalidade relacionadas a medicamentos no Brasil: revisão sistemática de estudos observacionais. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, Araraquara, v. 35, n. 4, p. 519-532, out. 2014. Disponível em: https://rcfba.fcfar.unesp.br/index.php/ojs/article/view/82. Acesso em: 12 mar. 2023.
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). Estima-se que as reações adversas aos medicamentos afetem aproximadamente 52 a cada 100 adultos ou idosos hospitalizados e 20 a cada 100 crianças (Souza et al., 2014SOUZA, Thais T. et al. Morbidade e mortalidade relacionadas a medicamentos no Brasil: revisão sistemática de estudos observacionais. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica e Aplicada, Araraquara, v. 35, n. 4, p. 519-532, out. 2014. Disponível em: https://rcfba.fcfar.unesp.br/index.php/ojs/article/view/82. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://rcfba.fcfar.unesp.br/index.php/o...
). Dos 20.637 casos de intoxicações medicamentosas no ano de 2017, 1,92% foram decorrentes da automedicação (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, 2017SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES TÓXICO-FARMACOLÓGICAS (SINITOX). Casos registrados de intoxicação humana por agente tóxico e circunstância. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2017. Disponível em: https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/files//Brasil6_1.pdf. Acesso em: 15 mar. 2023.
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).

Pesquisas nacionais relativas à prática refletem as altas prevalências, com variância de 14,9% a 18,3% nos anos de 2016 e 2017, tendo como associação a influência de fatores econômicos, políticos e culturais. Além disso, esses estudos indicam que a automedicação é mais prevalente em pessoas na faixa etária de 18 a 34 anos e nas populações de maior poder econômico e maior nível de escolaridade (Arrais et al., 2016ARRAIS, Paulo S. D. et al. Prevalência da automedicação no Brasil e fatores associados. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 50, supl. 2, p. 1s-11s, dez. 2016. https://doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006117. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/PNCVwkVMbZYwHvKN 9b4ZxRh/?lang=pt#ModalHowcite. Acesso em: 24 mar. 2023.
https://www.scielo.br/j/rsp/a/PNCVwkVMbZ...
; Domingues et al., 2017DOMINGUES, Paulo H. F. et al. Prevalência e fatores associados à automedicação em adultos no Distrito Federal: estudo transversal de base populacional. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 26, n. 2, p. 319-330, abr.-jun. 2017. https://doi.org/10.5123/S1679-49742017000200009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ress/a/FD7s5rP6RwrhLqLVBThgGQR. Acesso em: 19 maio 2023.
https://www.scielo.br/j/ress/a/FD7s5rP6R...
; Pons et al., 2017PONS, Emília S. et al. Predisposing factors to the practice of self-medication in Brazil: results from the National Survey on Access, Use and Promotion of Rational Use of Medicines (PNAUM). PLoS One, São Francisco, v. 12, n. 12, e0189098, dez. 2017. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0189098. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0189098. Acesso em: 17 maio 2023.
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).

Especificamente, os jovens adultos universitários constituem uma parcela significativa que realiza essa prática (Zewdie, Andargie e Kassahun, 2020ZEWDIE, Segenet; ANDARGIE, Assefa; KASSAHUN, Haile. Self-medication practices among undergraduate university students in Northeast Ethiopia. Risk Management and Healthcare Policy, Londres, v. 13, p. 1.375-1.381, ago. 2020. http://dx.doi.org/10.2147/RMHP.S266329. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7457820/. Acesso em: 13 mar. 2023.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/article...
; Gama e Secoli, 2017GAMA, Abel S. M.; SECOLI, Silva R. Automedicação em estudantes de enfermagem do estado do Amazonas - Brasil. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 1, e65111, mar. 2017. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.01.65111. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw68wWrB7wtWR4FMQ/. Acesso em: 25 abr. 2023.
https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw...
; Lima et al., 2022LIMA, Paula A. V. et al. Automedicação entre estudantes de graduação do interior do Amazonas. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 35, eAPE039000134, 2022. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2022AO000134. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ape/a/4msxJqzGG7skL8FhxKX3ZBM/abstract/?lang=pt#. Acesso em: 21 mar. 2023.
https://www.scielo.br/j/ape/a/4msxJqzGG7...
; Tognoli et al., 2019TOGNOLI, Thais A. et al. Automedicação entre acadêmicos de medicina de Fernandópolis - São Paulo. Revista de Saúde e Ciências Biológicas, Fortaleza, v. 7, n. 4, p. 382-386, out. 2019. http://dx.doi.org/10.12662/2317-3076jhbs.v7i4.2571.p382-386.2019. Disponível em: https://periodicos.unichristus.edu.br/jhbs/article/view/2571. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://periodicos.unichristus.edu.br/jh...
), principalmente no que concerne aos universitários da área da saúde, por acreditarem ter conhecimento teórico suficiente para se automedicarem (Lima et al., 2021LIMA, José M. S. et al. A prática da automedicação por universitários. Research, Society and Development , Vargem Grande Paulista, v. 10, n. 8, e47610817594, jul. 2021. https://doi.org/10.33448/rsd-v10i8.17594. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/17594. Acesso em: 19 maio 2023.
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).

Autores advogam a ideia de que esse comportamento pode advir de experiências anteriores, economia de tempo e dinheiro, busca de alívio rápido, insatisfação com serviços de saúde, dentre outros fatores (Zewdie, Andargie e Kassahun, 2020ZEWDIE, Segenet; ANDARGIE, Assefa; KASSAHUN, Haile. Self-medication practices among undergraduate university students in Northeast Ethiopia. Risk Management and Healthcare Policy, Londres, v. 13, p. 1.375-1.381, ago. 2020. http://dx.doi.org/10.2147/RMHP.S266329. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7457820/. Acesso em: 13 mar. 2023.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/article...
). O efeito estressor de estar no ensino superior com alta carga horária de estudos e de demandas também pode favorecer o adoecimento físico e mental dos universitários, acarretando a busca por medicamentos de fácil acesso - o que pode ser observado no estudo de Al Rasheed e colaboradores (2017)AL RASHEED, Fatima et al. Academic stress and prevalence of stress-related self-medication among undergraduate female students of health and non-health cluster colleges of a public sector university in Dammam, Saudi Arabia. Journal of Pharmacy and Bioallied Sciences, v. 9, n. 4, p. 251-258, out. 2017. https://doi.org/10.4103/jpbs.JPBS_189_17. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29456376/. Acesso em: 26 mar. 2023.
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, ao relatar o estresse acadêmico e a prevalência de automedicação relacionada ao estresse em estudantes de graduação, em que a prevalência de automedicação induzida por estresse foi de 59,09%.

Entender a prevalência da automedicação em estudantes universitários pode ser um subsídio para o Ministério da Saúde e para as instituições de ensino superior, os quais, juntos, podem elaborar estratégias de monitoramento e prevenção (Yasmin et al., 2022YASMIN, Farah et al. Self-medication practices in medical students during the Covid-19 pandemic: a cross-sectional analysis. Frontiers in Public Health, Londres, v. 9, n. 10, 803937, mar. 2022. http://dx.doi.org/10.3389/fpubh.2022.803937. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012/. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012...
). Ademais, pode auxiliar na aplicação de medidas cabíveis para impedir o uso inadequado dos medicamentos em situações pandêmicas por doenças infecciosas, como foi o caso da Covid-19 (Melo et al., 2021MELO, José R. R. et al. Automedicação e uso indiscriminado de medicamentos durante a pandemia da Covid-19. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 37, n. 4, e00053221, mar. 2021. https://doi.org/10.1590/0102-311X00053221. Disponível em: https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/e00053221/pt. Acesso em: 19 abr. 2023.
https://scielosp.org/pdf/csp/2021.v37n4/...
). Destaca-se que dados recentes demonstram que a automedicação na Covid-19 pode ser considerada um comportamento preocupante na população (Alves et al., 2022ALVES, Deisielly K. B. et al. Impacto da pandemia da Covid-19 nas práticas de automedicação: um estudo descritivo com professores da rede pública de Pernambuco. Revista Eletrônica Acervo Saúde, São Paulo, v. 15, n. 8, e10744, ago. 2022. https://doi.org/10.25248/reas.e10744.2022. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/10744. Acesso em: 7 set. 2023.
https://acervomais.com.br/index.php/saud...
; Branco et al., 2023BRANCO, Letícia et al. Automedicação durante a pandemia de Covid-19 e fatores associados. Research, Society and Development, Vargem Grande Paulista, v. 12, n. 2, e11212239924, jan. 2023. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i2.39924. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/39924. Acesso em: 7 set. 2023.
https://rsdjournal.org/index.php/rsd/art...
; Silva, Jesus e Rodrigues, 2021SILVA, Alícia F.; JESUS, Jefferson S. P.; RODRIGUES, Juliana L. G. Automedicação na pandemia do novo coronavírus. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, São Paulo, v. 7, n. 4, p. 2.675-3.375, abr. 2021. https://doi.org/10.51891/rease.v7i4.1038. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/1038. Acesso em: 7 set. 2023.
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).

O estudo aqui apresentado objetivou identificar a prática de automedicação em estudantes universitários de São João del-Rei, Minas Gerais, bem como a incidência e o aumento da prática durante a pandemia de Covid-19 nesse público-alvo.

Metodologia

Este estudo teve delineamento transversal e quantitativo e foi realizado com 248 estudantes do Centro Universitário Presidente Tancredo de Almeida Neves (Uniptan) regularmente matriculados de junho a agosto de 2021. O Uniptan fica no município de São João del-Rei, no interior de Minas Gerais, precisamente no Campos das Vertentes. Ali foram ofertados, em 2021, 13 cursos de graduação: administração, ciências contábeis, direito, educação física, enfermagem, engenharia civil, engenharia de produção, fisioterapia, medicina, nutrição, odontologia, pedagogia e psicologia.

A composição da amostra foi do número de estudantes matriculados nos 13 cursos de graduação, identificados na própria instituição: 2.533 até dezembro de 2020. Dessa forma, a amostra mínima foi calculada considerando-se erro amostral de 5% e intervalo de confiança de 95%, totalizando 335 universitários.

Para alcançar os objetivos propostos, aplicou-se um questionário digital transposto no programa Google Forms. Reitera-se que nessa aplicação foi utilizado um instrumento adaptado do estudo de Collier (2015COLLIER, Karin F. S. Automedicação praticada por acadêmicos do curso de graduação em enfermagem do Centro Universitário de Gurupi, Tocantins. Revista Cereus, Gurupi, v. 7, n. 2, p. 116, set. 2015. http://dx.doi.org/10.18605/2175-7275/cereus.v7n2p105-116. Disponível em: http://www.ojs.unirg.edu.br/index.php/1/article/view/105/0. Acesso em: 7 set. 2023.
http://www.ojs.unirg.edu.br/index.php/1/...
). O questionário foi composto por três questões abertas e 11 fechadas. Entre os itens abordados nas perguntas fechadas, com opções de respostas dicotômicas, estavam: 1) Curso; 2) Período; 3) Você já cursou a disciplina de farmacologia?; 4) Você se acha capaz de se automedicar?; 5) Você conhece os efeitos adversos dos medicamentos?; 6) Você costuma indicar medicamentos para outras pessoas?; 7) Você já tomou medicamentos indicados por outras pessoas?; 8) Você tem o costume de consumir algum tipo de medicamento sem receita médica/odontológica ou orientação farmacêutica?; 9) Em caso afirmativo, durante a pandemia a frequência de automedicação aumentou?; em caso negativo, essa prática foi iniciada durante a pandemia de Covid-19?

As questões abertas incluíram: 10) Quais foram os medicamentos utilizados por automedicação em algum momento da vida, exceto pandemia?; 11) Quais foram os medicamentos utilizados por automedicação durante a pandemia? Em caso afirmativo, quais medicamentos você costuma indicar para outras pessoas?

Antes da aplicação do instrumento para a coleta de dados, foi apresentado um ‘questionário-piloto’, em que dez universitários validaram a sua legibilidade. Tais dados não foram considerados na pesquisa. Durante a fase de testes, houve uma mudança no questionário, com a inclusão da pergunta complementar à 11: em caso afirmativo, quais medicamentos você costuma indicar para outras pessoas?

Assim, os pesquisadores realizaram intensa divulgação do instrumento nas mídias sociais, tais como o WhatsApp e o Instagram. Entretanto, somente 248 alunos se disponibilizaram a responder ao questionário, integrando a amostra mínima do estudo. Desses participantes, todos atenderam aos critérios de inclusão: ser aluno matriculado e regular na instituição durante o período da coleta de dados; e concordar com o termo de consentimento livre e esclarecido. Ainda se consideraram como critério de exclusão as respostas incompletas dos participantes.

Considerou-se como variável dependente a ‘prática de automedicação’, que foi avaliada pela questão ‘uso de um medicamento sem a prescrição médica ou de dentista antes da/durante a pandemia’. As variáveis independentes foram as acadêmicas (‘área do curso’, ‘disciplina de farmacologia’ e o ‘período de formação’) e comportamentos e conhecimentos dos estudantes acerca dos medicamentos (a ‘capacidade de se automedicar’; o ‘conhecimento sobre as reações adversas’; a ‘indicação de medicamentos para terceiros’; e o ‘uso de medicamentos indicados por outras pessoas’).

As variáveis foram apresentadas como frequências absolutas (n) e relativas (%). Associações entre as variáveis independentes e a prática de automedicação foram avaliadas pelo teste qui-quadrado. Considerou-se o nível de significância de 5%; as análises foram realizadas no software R versão 4.0.3.

Resultados

Participaram do estudo 248 estudantes, a maioria do curso de nutrição (n=71; 28,6%) e a minoria da engenharia civil (n=1; 0,4%). O período letivo mais expressivo da amostra foi o sexto (n=93; 37,5%), com menor taxa de resposta o décimo (n=4; 1,6%), conforme pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1
Dados descritivos referentes a curso, período letivo, ter cursado a disciplina de farmacologia, consumo de medicamento sem receita médica (aumento da frequência e início na pandemia de Covid-19) - São João del-Rei, Minas Gerais, 2023.

No que se refere à prática de automedicação, foi relatada por 167 (67,3%) participantes, sendo que 48 (28,7%) destes apontaram aumento da automedicação durante a pandemia. Dos 81 participantes que não relataram automedicação, 25 (30,9%) indicaram início da prática durante a pandemia. Os medicamentos mais citados, tanto antes da pandemia quanto durante, foram analgésicos (n=102; 69,4%), anti-inflamatórios (n=62; 42,2%), relaxante muscular (n=29; 19,7%), anti-histamínico (n=25; 27%) e antigripal (n=21; 14,3%).

Dentre os participantes que relataram automedicação ou início da prática durante a pandemia, os motivos mais citados foram a não necessidade de prescrição dos medicamentos utilizados (n=98; 51,3%), a facilidade de acesso aos medicamentos nas farmácias (n=63; 33%), a falta de tempo para se consultar (n=36; 18,8%), a dificuldade de acesso aos serviços de saúde (n=34; 17,8%) e ter conhecimento sobre os medicamentos e seus efeitos adversos (n=26; 13,6%).

Na Tabela 2, é possível observar aspectos como: a comparação da área do curso (saúde ou não), o ano letivo, ter cursado a disciplina de farmacologia, capacidade de se automedicar, presença e consumo por indicação de medicamentos para outras pessoas, costume de consumir algum tipo de medicamento sem receita médica ou odontológica ou orientação farmacêutica.

Tabela 2
Comparação das variáveis estudadas com a prática de automedicação - São João del-Rei, Minas Gerais, 2023.

Encontrou-se associação significativa entre a prática de automedicação e se achar capaz de se automedicar (p=0,005), indicar medicamentos para outras pessoas (p<0,001) e tomar medicamentos indicados por outras pessoas (p<0,001). Embora a relação não seja significativa, alunos nos últimos anos dos respectivos cursos (da saúde ou não) apresentaram maior frequência de automedicação, assim como alunos da área da saúde que já cursaram a disciplina de farmacologia.

No que concerne ao aumento de automedicação durante a pandemia para os participantes que relataram automedicação (Tabela 3), é possível observar associação significativa entre o aumento da prática de automedicação e a indicação de medicamentos para outras pessoas (p=0,023).

Tabela 3
Comparação das variáveis com o aumento da prática de automedicação durante a pandemia para os participantes que relataram automedicação - São João del-Rei, Minas Gerais, 2023.

Sobre a comparação entre o início da prática de automedicação durante a pandemia e os que não se automedicavam antes (Tabela 4), foi possível observar associação significativa entre ter iniciado a prática de automedicação durante a pandemia e se achar capaz de se automedicar (p=0,024).

Tabela 4
Comparação das variáveis com a incidência de automedicação durante a pandemia para os participantes que não relataram automedicação antes da pandemia - São João del-Rei, Minas Gerais, 2023.

Participantes no início do curso que costumam indicar medicamentos para outras pessoas e que já tomaram medicamentos indicados por outras pessoas apresentaram maior incidência de automedicação durante a pandemia, mesmo que não significativa.

Discussão

A prevalência de universitários com o costume de consumir medicamento sem receita médica ou odontológica ou orientação farmacêutica foi de 67,3% antes da pandemia. Destaca-se que esse comportamento já era comum antes mesmo da pandemia de Covid-19, conforme indicam resultados semelhantes encontrados em outros países, como Etiópia (64,9%) e Egito (62,9%) (Helal e Abou-Elwafa, 2017HELAL, Randah M.; ABOU-ELWAFA, Hala S. Self-medication in university students from the city of Mansoura, Egypt. Journal of Environmental and Public Health, Basileia, v. 2017, ID 9145193, 7p., abr. 2017. http://dx.doi.org/10.1155/2017/9145193. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28479921/. Acesso em: 7 maio 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28479921...
; Zewdie, Andargie e Kassahun, 2020ZEWDIE, Segenet; ANDARGIE, Assefa; KASSAHUN, Haile. Self-medication practices among undergraduate university students in Northeast Ethiopia. Risk Management and Healthcare Policy, Londres, v. 13, p. 1.375-1.381, ago. 2020. http://dx.doi.org/10.2147/RMHP.S266329. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7457820/. Acesso em: 13 mar. 2023.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/article...
), Arábia Saudita (73,2%), Espanha (73,8%) e França (95%) (Andrés et al., 2021ANDRÉS, Maria I. G. et al. Self-medication of drugs in nursing students from Castile and Leon (Spain). International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 4, p. 1.498, fev. 2021. https://doi.org/10.3390/ijerph18041498. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33562435/. Acesso em: 24 mar. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33562435...
; Al Essa et al., 2019AL ESSA, Mohammed et al. Practices, awareness and attitudes toward self-medication of analgesics among health sciences students in Riyadh, Saudi Arabia. Saudi Pharmaceutical Journal, v. 27, n. 2, p. 235-239, fev. 2019. https://doi.org/10.1016/j.jsps.2018.11.004. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30766435/. Acesso em: 4 abr. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30766435...
; Gras et al., 2020GRAS, Marion et al. Self-medication practices and their characteristics among French university students. Therapies, Toulouse, v. 75, n. 5, p. 419-428, set.-out. 2020. http://dx.doi.org/10.1016/j.therap.2020.02.019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32204933/. Acesso em: 23 abr. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32204933...
).

Quando iniciado o período pandêmico (2019), os resultados demonstraram que 30,9% dos participantes deste estudo iniciaram o consumo de medicamentos sem prescrição ou orientação de profissionais da saúde - o que ilustra um considerável acréscimo, semelhante às taxas de aumento encontradas em países dos Emirados Árabes Unidos (31,3%) durante a pandemia de Covid-19 (Jairoun et al., 2021JAIROUN, Ammar A. et al. Online medication purchasing during the Covid-19 pandemic: a pilot study from the United Arab Emirates. Journal of Pharmaceutical Policy and Practice, Londres, v. 14, n. 1, p. 38, abr. 2021. https://doi.org/10.1186/s40545-021-00320-z. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33931118. Acesso em: 7 set. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33931118...
).

Destaca-se que os participantes deste estudo, nos dois momentos avaliados (antes da pandemia e durante), tinham o costume de se automedicar. E tanto em universitários dos cursos de saúde como naqueles que não são dessa área, houve aumento de tal prática durante a pandemia. Consoante a isso, não houve diferença na automedicação com relação ao período letivo em que se encontravam e ao fato de terem cursado a disciplina de farmacologia - o que implica, independentemente do grau de instrução e informação em saúde, que os indivíduos tendem a se automedicar de forma geral.

É interessante se refletir sobre o fato de que estudantes da área da saúde ou que tenham conhecimento sobre a área de farmacologia, supostamente, deveriam ter maior cuidado na automedicação, ou seja, não deveriam se automedicar. Contudo, não é o que nos mostram os achados deste estudo. Autores como Gama e Secoli (2017GAMA, Abel S. M.; SECOLI, Silva R. Automedicação em estudantes de enfermagem do estado do Amazonas - Brasil. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 1, e65111, mar. 2017. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.01.65111. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw68wWrB7wtWR4FMQ/. Acesso em: 25 abr. 2023.
https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw...
), Tognoli e colaboradores (2019TOGNOLI, Thais A. et al. Automedicação entre acadêmicos de medicina de Fernandópolis - São Paulo. Revista de Saúde e Ciências Biológicas, Fortaleza, v. 7, n. 4, p. 382-386, out. 2019. http://dx.doi.org/10.12662/2317-3076jhbs.v7i4.2571.p382-386.2019. Disponível em: https://periodicos.unichristus.edu.br/jhbs/article/view/2571. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://periodicos.unichristus.edu.br/jh...
) e Yasmin e colaboradores (2022YASMIN, Farah et al. Self-medication practices in medical students during the Covid-19 pandemic: a cross-sectional analysis. Frontiers in Public Health, Londres, v. 9, n. 10, 803937, mar. 2022. http://dx.doi.org/10.3389/fpubh.2022.803937. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012/. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012...
) confirmam que essa não é uma realidade nesses universitários, ressaltando que hábitos da automedicação estão presentes nos estudantes da área da saúde. Atenção deve ser dada a esse achado, visto que a automedicação em estudantes da área da saúde pode acarretar condutas inadequadas quando egressos, como adaptações medicamentosas sem a devida análise interdisciplinar (Gama e Secoli, 2017GAMA, Abel S. M.; SECOLI, Silva R. Automedicação em estudantes de enfermagem do estado do Amazonas - Brasil. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 1, e65111, mar. 2017. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.01.65111. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw68wWrB7wtWR4FMQ/. Acesso em: 25 abr. 2023.
https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw...
).

Sobre a associação significativa entre a prática de automedicação e se achar capaz de se automedicar (p=0,005), os autores desta pesquisa acreditam que esse fato esteja atrelado ao construto da autoconfiança. No estudo de Santos, Andrade e Bohomol (2019SANTOS, Eduardo D.; ANDRADE, Camilla M.; BOHOMOL, Elena. Prática da automedicação entre estudantes de Ensino Médio. Cogitare Enfermagem, Curitiba, v. 24, e61324, jul. 2019. http://dx.doi.org/10.5380/ce.v24i0.61324. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/61324. Acesso em: 24 abr. 2023.
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), que teve como objetivo identificar os motivos de automedicação, a autoconfiança é um dos quatro motivos mais prevalentes, superado apenas por acesso fácil, praticidade e tentativa de alívio da dor. Os autores destacam ainda a importância da educação como meio de levar informações aos estudantes e familiares, visando desestimular a prática da automedicação na população (Santos, Andrade e Bohomol, 2019SANTOS, Eduardo D.; ANDRADE, Camilla M.; BOHOMOL, Elena. Prática da automedicação entre estudantes de Ensino Médio. Cogitare Enfermagem, Curitiba, v. 24, e61324, jul. 2019. http://dx.doi.org/10.5380/ce.v24i0.61324. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/61324. Acesso em: 24 abr. 2023.
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).

Além disso, o hábito de se medicar sem orientações médicas se associou ao costume de indicar medicamentos para outras pessoas (88%) e consumi-los por indicação de outros (77,5%), bem como o aumento dessa prática na pandemia se associou ao hábito de indicar medicamentos para outras pessoas (43,2%), o que pode ser atrelado à herança cultural da automedicação - uma vez que, no Brasil, essa prática teve início no período colonial e persiste até os dias atuais (Delgado e Vriesmann, 2018DELGADO, Arthur F. D. S.; VRIESMANN, Lucia C. O perfil da automedicação na sociedade brasileira. Revista Saúde e Desenvolvimento, Curitiba, v. 12, n. 11, p. 57-75, 2018. Disponível em: https://www.revistasuninter.com/revistasaude/index.php/saudeDesenvolvimento/article/view/950. Acesso em: 19 mar. 2023.
https://www.revistasuninter.com/revistas...
).

Matos e colaboradores (2018MATOS, Januária F. et al. Prevalência, perfil e fatores associados à automedicação em adolescentes e servidores de uma escola pública profissionalizante. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, p. 76-83, mar. 2018. https://doi.org/10.1590/1414-462X201800010351. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cadsc/a/65DK5G5dCrhCsWJZgWXBsmF/abstract/?lang=pt. Acesso em: 14 nov. 2023.
https://www.scielo.br/j/cadsc/a/65DK5G5d...
) dissertaram sobre os principais fatores culturais da prática de automedicação, trazendo em primeiro lugar a experiência com o medicamento, falta de tempo para ir a uma consulta e indicação de amigos e familiares. Azevedo, Santos e Menezes (2023)AZEVEDO, Monarly C.; SANTOS, Rafael P.; MENEZES, Ana C. P. M. Influência da propaganda na automedicação entre a população de Vitória da Conquista. Id On Line Psicologia Revista, Jaboatão dos Guararapes, v. 17, n. 65, p. 383-396, fev. 2023. https://doi.org/10.14295/idonline.v17i65.3634. Disponível em: https://idonline.emnuvens.com.br/id/article/view/3634. Acesso em: 20 abr. 2023.
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também avaliaram o perfil da prática de automedicação e como o marketing influencia em seu comportamento de consumo. Os autores verificaram que 42% dos participantes já compraram medicamentos porque assistiram a propagandas; 54% acreditavam que a automedicação tem relação com as propagandas medicamentosas; e ainda que 63% declararam acreditar na eficácia desses medicamentos (Azevedo, Santos e Menezes, 2023AZEVEDO, Monarly C.; SANTOS, Rafael P.; MENEZES, Ana C. P. M. Influência da propaganda na automedicação entre a população de Vitória da Conquista. Id On Line Psicologia Revista, Jaboatão dos Guararapes, v. 17, n. 65, p. 383-396, fev. 2023. https://doi.org/10.14295/idonline.v17i65.3634. Disponível em: https://idonline.emnuvens.com.br/id/article/view/3634. Acesso em: 20 abr. 2023.
https://idonline.emnuvens.com.br/id/arti...
).

Ao se analisar a prevalência da automedicação com as associações a ela verificadas no presente estudo, encontrou-se um aspecto que evidencia a gravidade de um problema: os universitários, incluindo os da saúde, comprometem a própria saúde e podem futuramente colocar em risco a saúde da população (Gama e Secoli, 2017GAMA, Abel S. M.; SECOLI, Silva R. Automedicação em estudantes de enfermagem do estado do Amazonas - Brasil. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 38, n. 1, e65111, mar. 2017. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2017.01.65111. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw68wWrB7wtWR4FMQ/. Acesso em: 25 abr. 2023.
https://www.scielo.br/j/rgenf/a/HQm9Gznw...
).

Os resultados desta pesquisa permitem às instituições de ensino considerarem a importância do fortalecimento de medidas educativas que avaliem a relevância do conhecimento de universitários sobre os medicamentos (Yasmin et al., 2022YASMIN, Farah et al. Self-medication practices in medical students during the Covid-19 pandemic: a cross-sectional analysis. Frontiers in Public Health, Londres, v. 9, n. 10, 803937, mar. 2022. http://dx.doi.org/10.3389/fpubh.2022.803937. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012/. Acesso em: 12 mar. 2023.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35356012...
). Destaca-se que este estudo teve como uma de suas limitações as análises baseadas em um questionário on line, o que permitiu a seleção de relatos excessivos ou insuficientes. O período em que a pesquisa foi realizada também pode ter subestimado o uso de alguns medicamentos, principalmente aqueles associados ao uso para prevenir e tratar a Covid-19, delimitando nossos resultados.

Considerações finais

Houve uma prevalência significativa da prática de automedicação em universitários do município de São João del-Rei, Minas Gerais. Para os indivíduos que têm o hábito de consumir algum tipo de medicação sem receita médica ou odontológica, em comparação com aqueles que não se automedicam, houve diferença significativa sobre se achar capaz de se automedicar, ter costume de indicar medicamentos para outras pessoas e consumi-los por indicação de outros. Para os que aumentaram a automedicação durante a pandemia, houve uma associação com o hábito de indicar medicamentos para outras pessoas. Já para aqueles que iniciaram essa prática no período pandêmico, a capacidade de automedicação esteve associada.

Dessa forma, os resultados abrem caminhos para medidas educativas sobre o uso irracional dos medicamentos por estudantes do ensino superior, independentemente da área de formação.

Referências

  • Financiamento

    Sem financiamento.
  • Aspectos éticos

    A pesquisa que deu origem a este artigo foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Presidente Tancredo de Almeida Neves (Uniptan), mediante o parecer n. 4.557.322/2020.
  • Apresentação prévia

    Não se aplica.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Fev 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    20 Maio 2023
  • Aceito
    27 Out 2023
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