ANÁLISE DA PREVALÊNCIA DA SÍNDROME DE BURNOUT EM PROFISSIONAIS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SAÚDE

ANALYSIS OF THE PREVALENCE OF BURNOUT SYNDROME IN PROFESSIONALS OF PRIMARY HEALTH CARE

ANÁLISIS DE LA PREVALENCIA DEL SÍNDROME DE BURNOUT EN PROFESIONALES DE LA ATENCIÓN PRIMARIA EN SALUD

Amanda de Souza Lima Beatriz Francisco Farah Maria Teresa Bustamante-Teixeira Sobre os autores

Resumo

A síndrome de burnout resulta de um processo crônico de exposição a estressores laborais. Caracteriza-se pelas dimensões exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional. Profissionais de saúde são propensos a ela por lidarem diretamente com pessoas e sofrimento, o que prejudica sua saúde e o cuidado ofertado à sociedade. A atenção primária à saúde é o nível assistencial mais adjacente à comunidade, expondo os profissionais às realidades desta. Este estudo objetiva identificar a prevalência de burnout nos profissionais da atenção primária e fatores associados. Estudo transversal, realizado com 153 profissionais de saúde da atenção básica do município de Juiz de Fora, entre 2013 e 2014. Utilizou-se o Maslach Burnout Inventory para mensurar o desfecho. A prevalência da síndrome foi de 51%, destacando-se que ela foi maior entre os profissionais de enfermagem. As variáveis associadas ao desfecho após análise multivariada foram: autoavaliação do estado de saúde ruim e insatisfação no trabalho. O trabalho no nível primário de atenção é complexo e exigente, o que torna relevante atentar para a saúde e satisfação destes profissionais, visando resguardar seu bem-estar e a produção do cuidado de qualidade à sociedade.

Palavras-chave
esgotamento profissional; pessoal de saúde; atenção primária à saúde

Abstract

Burnout syndrome results from a chronic process of exposure to labor stressors. It is characterized by emotional exhaustion dimensions, depersonalization and low personal accomplishment. Health professionals are prone to it by dealing directly with people and suffering, which harms their health and the care offered to society. The primary health care is the level of care that is most adjacent to the community, exposing professionals to their realities. This study aims to identify the prevalence of burnout in Primary Care professionals and associated factors. This is a cross-sectional study carried out with 153 health care professionals from the city of Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil, between 2013 and 2014. The Maslach Burnout Inventory was used to measure the outcome. The prevalence of the syndrome was 51%, highlighting that the prevalence was higher among nursing professionals. The variables associated with the outcome after multivariate analysis were: self-assessment of poor health status and job dissatisfaction. Work at the primary level of care is complex and demanding, which makes it relevant to care for the health and satisfaction of these professionals, in order to protect their well-being and the production of quality care for society.

Keywords
burnout; health personnel; primary health care

Resumen

El síndrome de burnout resulta de un proceso crónico de exposición a estrés laboral. Se caracteriza por agotamiento emocional, despersonalización y baja realización profesional. Los profesionales de la salud son propensos a ella por tratar directamente con las personas y el sufrimiento, lo que perjudica su salud y el cuidado ofrecido a la sociedad. La atención primaria a la salud es el nivel asistencial más adyacente a la comunidad, exponiendo a los profesionales a las realidades de ésta. Este estudio objetiva identificar la prevalencia de burnout en los profesionales de la Atención Primaria y factores asociados. Se trata de un estudio transversal, realizado con 153 profesionales de salud de la Atención Básica del municipio de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, entre 2013 y 2014. Se utilizó el Maslach Burnout Inventory para medir el desenlace. La prevalencia del síndrome fue del 51%, destacándose que la prevalencia fue mayor entre los profesionales de enfermería. Las variables asociadas al desenlace después del análisis multivariado fueron: autoevaluación del estado de salud malo e insatisfacción en el trabajo. El trabajo en el nivel primario de atención es complejo y exigente, lo que hace relevante atentar para la salud y satisfacción de estos profesionales, buscando resguardar su bienestar y la producción del cuidado de calidad a la sociedad.

Palabras clave
agotamiento profesional; personal de salud; atención primaria de salud

Introdução

As transformações que o mundo globalizado vem sofrendo têm mudado notavelmente o cenário de trabalho, onde a competitividade e a produtividade ganham progressivamente mais força para suprir as necessidades dos consumidores e da economia. Cada vez mais se valoriza o capital em detrimento do trabalhador. Nesse cenário, os indivíduos são pressionados por produtividade e qualificação. Tais mudanças, cobranças e a desvalorização que os trabalhadores têm sofrido podem gerar desgaste e estresse, impactando seriamente sua saúde ( Carlotto et al., 2013CARLOTTO, Mary S. et al. Prevalence and factors associated with burnout syndrome in professionals in basic health units. Ciencia & Trabajo, Léon, v. 15, n. 47, p. 76-80, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art07.pdf>. Acesso em: set. 2014.
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; França et al., 2012FRANÇA, Flávia M. et al. Burnout e os aspectos laborais na equipe de enfermagem de dois hospitais de médio porte. Revista Latino-Americana de Enfermagem , Cáceres, v. 20, n. 5, p. 961-970, 2012. ; World Health Organization, 2010WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665...
).

Estresse é a reação que um indíviduo produz diante de uma inespecífica situação estressora. A resposta pode ser benéfica ( eustress ) ou nociva ( distress ), dependendo de como o indivíduo a percebe ( Le Fevre, Matheny e Kolt, 2003LE FEVRE, Mark; MATHENY, Jonathan; KOLT, Gregory S. Eustress, distress, and interpretation in occupational stress. Journal of Managerial Psychology, Auckland, v. 18, n. 7, p. 726-744, 2003. Disponível em: <http://www.emeraldinsight.com/doi/abs/10.1108/02683940310502412>. Acesso em: abr. 2015.
http://www.emeraldinsight.com/doi/abs/10...
; Selye, 1985SELYE, Hans. The nature of stress. Basal Facts, Quebec v. 7, n. 1, p. 3-11, 1985. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2990402>. Acesso em: mar. 2014.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2990...
). A síndrome de burnout (SB) caracteriza-se como um fenômeno psicossocial, resultado da incapacidade de adaptação e enfrentamento a estressores aos quais o profissional é exposto cronicamente, sofrendo permanentemente distress relacionado ao trabalho ( Schaufeli e Enzmann, 1998SCHAUFELI, Wilmar; ENZMANN, Dirk. The burnout companion to study and practice: a critical analysis. The Netherlands: CRC Press, 1998. ), sem a habilidade de atenuar esses sintomas e tampouco se revigorar ( Bakker e Costa, 2014BAKKER, Arnold B.; COSTA, Patrícia L. Chronic job burnout and daily functioning: a theoretical analysis. Burnout Research , Rotterdam, v. 1, n. 3, p. 112-119, 2014. Disponível em: <http://isiarticles.com/bundles/Article/pre/pdf/58842.pdf>. Acesso em: maio 2015.
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; Maslach, 2009MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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).

O burnout origina-se de um desequilíbrio entre demandas versus recursos e expectativa versus realidade, em que os níveis de demandas e expectativas superam os recursos e a realidade e impedem o indivíduo de se adaptar à situação ( Bakker e Costa, 2014BAKKER, Arnold B.; COSTA, Patrícia L. Chronic job burnout and daily functioning: a theoretical analysis. Burnout Research , Rotterdam, v. 1, n. 3, p. 112-119, 2014. Disponível em: <http://isiarticles.com/bundles/Article/pre/pdf/58842.pdf>. Acesso em: maio 2015.
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; Schaufeli, Leiter e Maslach, 2009SCHAUFELI, Wilmar B.; LEITER, Michael P.; MASLACH, Christina. Burnout: 35 years of research and practice. Career Development International, Utrecht, v. 14, n. 3, p. 204-220, 2009. Disponível em: <http://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/311.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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). Em decorrência, os indivíduos desenvolvem uma gradual perda de energia, de comprometimento e de esperança, gerando prejuízos à produtividade e à satisfação laboral ( Carlotto e Câmara, 2008CARLOTTO, Mary S.; CÂMARA, Sheila G. Análise da produção científica sobre a Síndrome de burnout no Brasil. Psico , Porto Alegre, v. 39, n. 2, p. 152-158, 2008. ).

A SB é definida pela dimensão exaustão emocional (EE), evidenciada por sentimentos de fadiga, esgotamento físico e emocional; pela despersonalização (DE), em que o indivíduo se distancia das relações interpessoais; e pela dimensão baixa realização profissional (RP), em que o profissional supre sentimentos negativos de si mesmo ( Maslach, 2009MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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). Ela é insidiosa, associada a profissionais que lidam frequentemente com pessoas e a estressores advindos do ambiente laboral ( Maslach, Schaufeli e Leiter, 2001MASLACH, C.; SCHAUFELI, W.B.; LEITER, M.P Job burnout. Annual review of psychology, Berkeley, v. 52, n. 1, p. 397-422, 2001. Disponível em: <http://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/154.pdf>. Acesso em: fev: 2014.
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).

A síndrome provoca numerosos danos à saúde emocional e física dos trabalhadores, como irritabilidade; desenvolvimento de humor depressivo; fadiga; redução da autoestima; ideais suicidas; agressividade; alterações de memória e concentração; dores musculares; distúrbios do sono e sexuais; úlcera; comprometimento imunológico, cardiovascular e hormonal; isolamento social; aumento do consumo de drogas e desilusão ( World Health Organization, 2010WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
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; Maslach, 2009MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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). Pode ainda gerar respostas desfavoráveis ao ambiente de trabalho e à instituição, como o aumento da taxa de absenteísmo ou de presenteísmo, aumento das taxas de acidentes laborais e de afastamentos, com redução da produtividade ( Carlotto, 2013CARLOTTO, Mary S. et al. Prevalence and factors associated with burnout syndrome in professionals in basic health units. Ciencia & Trabajo, Léon, v. 15, n. 47, p. 76-80, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art07.pdf>. Acesso em: set. 2014.
http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art0...
; World Health Organization, 2010WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665...
; Maslach e Leiter, 2008MASLACH, Christina; LEITER, Michael P. Early predictors of job burnout and engagement. Journal of Applied Psychology, Berkeley, v. 93, n. 3, p. 498, 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18457483>. Acesso em: mar. 2014.
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).

O reconhecimento, o sentimento de importância e a valorização são recursos fundamentais aos trabalhadores, pois são necessidades humanas fundamentais para a satisfação laboral. Esses fatores influenciam na forma como os indivíduos enxergam seu trabalho (prazeroso ou não) e como lidam com seu trabalho e suas próprias vidas, o que pode associar-se ao burnout. Um ambiente de trabalho em que faltam recursos, valorização e satisfação, por exemplo, apresenta-se como fator de risco para SB; já um ambiente que promova a valorização dos profissionais e as relações interpessoais, que garanta a satisfação dos profissionais, tende a ser um fator de proteção ( Lima et al., 2015LIMA, Amanda S. et al. A educação permanente na gestão da atenção primária de saúde no Sistema Único de Saúde. Revista de Enfermagem UFPE (on line), Recife, v. 9, supl. 4, p. 8.135-8.145, 2015. Disponível em: <http://www.revista.ufpe.br/revistaenfermagem/index.php/revista/article/view/7088>. Acesso em: fev. 2015.
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; Zhou et al., 2015ZHOU, Wenjuan et al. Job dissatisfaction and burnout of nurses in Hunan, China: A cross-sectional survey. Nursing & Health Sciences, Changsha, v. 17, n. 4, p. 444-450, 2015. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26269392>. Acesso em: set. 2015.
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; Martins et al., 2014MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. ). Para Maslach (2009)MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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, a SB é mais associada aos problemas no ambiente de trabalho do que aos individuais.

Nota-se uma insuficiência de estudos sobre burnout , sobretudo entre os profissionais da atenção primária à saúde (APS), principalmente no cenário brasileiro ( Martins et al., 2014MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. ). Além de profissionais de saúde serem mais propensos à SB por lidarem diretamente com pessoas e seus sofrimentos ( Maslach, 2009MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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), aqueles atuantes na APS têm o encargo de prevenir e reduzir agravos, realizar a promoção, reabilitação e manutenção da saúde de forma integral, continuada, coparticipativa e equânime ( Brasil, 2012BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica . Brasília: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/geral/pnab.pdf>. Acesso em: jun. 2014.
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).

Esses profissionais ainda se encontram mais próximos da comunidade e de suas realidades, sentindo-se cobrados e pressionados a dar respostas às necessidades das comunidades que atendem. Além disso, são cobrados por produtividade num cenário com carência de recursos humanos, materiais e de infraestrutura e com visão curativista que diverge dos ideais da APS, o que demonstra ser um trabalho complexo por exigir a utilização da tecnologia leve ( Maissiat et al., 2015MAISSIAT, Greisse S. et al. Contexto de trabalho, prazer e sofrimento na atenção básica em saúde. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 42-49, 2015. ; Albuquerque, Melo e Araújo Neto, 2012ALBUQUERQUE, Francisco J. B.; MELO, Cinthia F.; ARAÚJO NETO, João L. Avaliação da Síndrome de burnout em profissionais da Estratégia Saúde da Família da capital paraibana. Psicologia: Reflexão e Crítica, João Pessoa, v. 25, n. 3, 542-549, 2012. ; Trindade e Lautert, 2010TRINDADE, Letícia L.; LAUTERT, Liana. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Revista da Escola de Enfermagem da USP , São Paulo, v. 44, n. 2, p. 274-279, 2010. ). A APS tem o papel de ser o nível de assistência mais efetivo e eficiente, e para isto se consumar o trabalho dos profissionais é imprescindível ( Alameddine et al., 2012ALAMEDDINE, Mohamad et al. The retention of health human resources in primary healthcare centers in Lebanon: a national survey. BMC Health Services Research, Beirut, v. 12, n. 1, p. 1-11, 2012. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3570494/>. Acesso em: jun. 2015.
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).

Estudos apontam diversos fatores associados à SB. Dentre estes, os mais discutidos são sexo, idade, escolaridade, personalidade, tempo de serviço, sobrecarga de trabalho, papéis conflitantes, dificuldades no relacionamento interpessoal e satisfação laboral. Entretanto, ainda existem muitas controvérsias sobre esses e outros fatores, não havendo um consenso sobre eles, além de muitos ainda não se diferenciarem como precursor, sintoma ou consequência, como o isolamento social, por exemplo ( Oliveira, Costa e Santos, 2013OLIVEIRA, Ramonyer K. M.; COSTA, Théo D.; SANTOS, Viviane E. P. Síndrome de burnout em enfermeiros: uma revisão integrativa. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental (online),Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 3.168-3.175, 2013. Disponível em: <http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=BDENF&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=24239&indexSearch=ID>. Acesso em: set. 2015.
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; Maslach, 2009MASLACH, Christina. Comprendiendo el burnout. Ciencia & Trabajo, Berkeley, v. 11, n. 32, p. 37-43, 2009. Disponível em: <http://www.vitoria-gasteiz.org/wb021/http/contenidosEstaticos/adjuntos/es/16/40/51640.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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; Schaufeli e Enzmann, 1998SCHAUFELI, Wilmar; ENZMANN, Dirk. The burnout companion to study and practice: a critical analysis. The Netherlands: CRC Press, 1998. ).

A maioria dos estudos sobre SB nos profissionais de saúde investiga equipes de enfermagem e médicos, observando-se uma lacuna de conhecimento acerca dos demais profissionais integrantes da APS e suas características que possam ser relacionadas à SB ( Silva e Menezes, 2008SILVA, Andréa T. C.; MENEZES, Paulo R. Esgotamento profissional e transtornos mentais comuns em agentes comunitários de saúde. Revista de Saúde Pública , São Paulo, v. 42, n. 5, p. 921-929, 2008. ). Faz-se importante, diante da necessidade de se prevenir o burnout precocemente, investigar a prevalência da SB nas diversas categorias profissionais e apontar possíveis meios de resolução, alertando a sociedade e os gestores sobre sua relevância e a importância de implementar meios para a melhoria das condições de trabalho.

A pesquisa aqui apresentada objetivou identificar a prevalência da SB nos profissionais da APS e fatores associados. A hipótese inicial era de que haveria diferença da prevalência da SB entre as categorias profissionais investigadas e associação com as características sociodemográficas e do seu trabalho.

Desenho e população do estudo

Tratou-se de um estudo seccional, realizado num município de médio porte com os profissionais de saúde da APS atuantes em todas as unidades de atenção primária à saúde (UAPSs) do município. A pesquisa foi parte de um estudo maior sobre a prevalência da SB nos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) de Juiz de Fora (JF), em Minas Gerais. Realizou-se um recorte estudando os profissionais do nível de atenção primária à saúde.

Para seleção da amostra, obteve-se a lista de profissionais existentes no SUS/JF por unidade de assistência, no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), que foi conferida com a lista cedida pela Secretaria Municipal de Saúde de Juiz de Fora (SMS/JF). Constatou-se um total de 1.161 profissionais de saúde nos três níveis de assistência, com 527 da APS. Para o cálculo de tamanho de amostra, utilizou-se o programa Epi Info versão 3.5.3, considerando-se o nível de confiança de 95%, uma prevalência estimada do desfecho principal (síndrome de burnout) de 10% e erro aceitável de 5%. Realizou-se a estimativa dessa população por categoria profissional (médicos, enfermeiros, técnicos/auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, dentistas e técnicos de saúde bucal), obtendo-se uma amostra de 176, de acordo com o tamanho da amostra calculado.

Coleta de dados

A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2013 e maio de 2014. Os pesquisadores, após autorização do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da autorização da SMS/JF, comunicavam aos gerentes das UAPSs sobre a pesquisa e faziam um sorteio dos profissionais por categoria profissional que seriam abordados naquele local.

Para manter o quantitativo ideal da amostra, os pesquisadores, quando recebiam recusas, buscavam outros profissionais da mesma categoria na equipe ou em outra UAPS subsequente da listagem. Optou-se por excluir da análise os cinco assistentes sociais e um técnico de saúde bucal, pois estes resultaram em um número muito reduzido, o que poderia comprometer a análise. Após as perdas (17, todas por recusas) e exclusões, totalizaram-se 153 indivíduos. Observou-se que os profissionais que se recusaram a participar da pesquisa tinham receio em preencher os seus dados pessoais no termo de consentimento livre esclarecido, embora fosse explicitado a todos que a pesquisa era autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFJF e sobre seu caráter sigiloso.

A variável de desfecho foi a síndrome de burnout, considerando-se o proposto por Maslach e Jackson (1986)MASLACH, Christina; JACKSON, Susan E. Maslach burnout inventory manual . 2. ed. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1986. . As variáveis de exposição investigadas foram características sociodemográficas, laborais, autoavaliação do estado de saúde, apoio social e satisfação no trabalho.

Os participantes receberam um questionário com noventa questões fechadas e autoaplicáveis. Estas questões foram baseadas no questionário intitulado “Inquérito sobre as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores da UFJF” ( Godinho, 2013GODINHO, Marluce R. Capacidade para o trabalho dos técnico-administrativos em educação de uma universidade pública e fatores associados . 2013. 166 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2013. ), que utilizou o questionário validado do “Estudo Pró-Saúde” (questionário “Censo de Saúde Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Uerj” – 1999 – Estudo Pró-Saúde) e também fez uso do questionário de apoio social traduzido e validado por Griep e colaboradores (2005)GRIEP, Rosane H. et al. Validade de constructo de escala de apoio social do Medical Outcomes Study adaptada para o português no Estudo Pró-Saúde. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, p. 703-714, 2005. .

As variáveis sociodemográficas avaliadas foram: sexo (masculino, feminino); estado conjugal (com ou sem companheiro); idade (<34, 35-49 e ≥50); escolaridade (curso técnico, graduação e pós-graduação); e classificação econômica (A, B e C). Em relação ao trabalho, consideraram-se: cargo (médico, equipe de enfermagem e dentista); supervisão (sim e não); tempo de serviço na UAPS (≤10 anos e >10 anos); número de vínculos empregatícios (um, dois e três ou mais); carga horária semanal na APS (vinte ou trinta horas e quarenta horas); modalidade contratual (estatutário e outros); equipe completa (sim e não). As demais variáveis foram categorizadas da seguinte forma: autoavaliação do estado de saúde (bom e ruim) e prática de exercício físico (sim e não).

Para medir a percepção dos profissionais referente à valorização, reconhecimento e importância de seu trabalho, foram aplicadas 13 questões sobre estes três valores na equipe de trabalho, nas chefias das instituições e na comunidade. As respostas utilizaram uma escala de Likert 1 (sempre) a 4 (nunca). Os pontos referentes às respostas foram somados e classificados conforme o escore, baseado na média da amostra (25,7): até 26 pontos (satisfeito) e 27 ou mais (insatisfeito). Tal instrumento foi elaborado para a realização dessa pesquisa e apresentou um alfa de Cronbach de 0,89.

Para avaliar o nível econômico dos profissionais, utilizaram-se os Critérios de Classificação Econômica Brasil (CCEB) de 2013, formulados e difundidos pela ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (2013), que têm a finalidade de categorizar a população segundo o potencial de consumo (A= alto; B= médio e C= baixo).

A fim de mensurar o apoio social, aplicou-se a escala de apoio social traduzida, adaptada e validada para o português por Griep e colaboradores (2005)GRIEP, Rosane H. et al. Validade de constructo de escala de apoio social do Medical Outcomes Study adaptada para o português no Estudo Pró-Saúde. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, p. 703-714, 2005. , composta por 19 perguntas com escala de Likert 5, que contemplam as dimensões de apoio material, emocional, de informação, de interação social positiva e apoio afetivo. Para se calcular o escore desse item, utilizou-se o critério baseado em Godinho (2013)GODINHO, Marluce R. Capacidade para o trabalho dos técnico-administrativos em educação de uma universidade pública e fatores associados . 2013. 166 f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2013. , que adotou ponto de corte estabelecido com base no cálculo dos valores centrais. Assim, os profissionais que obtiveram 75 pontos ou menos, como resultado do escore das cinco dimensões, foram classificados com baixo apoio social, e aqueles com mais de 75 pontos, com alto apoio social. O instrumento original apresentou alta confiabilidade, com alfa de Cronbach de 0,83 ( Griep et al., 2005GRIEP, Rosane H. et al. Validade de constructo de escala de apoio social do Medical Outcomes Study adaptada para o português no Estudo Pró-Saúde. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, p. 703-714, 2005. ), que no estudo aqui apresentado teve valor igual a 0,96.

Para mensurar a variável desfecho SB, optou-se pelo Maslach Burnout Inventory (MBI), que é universalmente o mais utilizado e considerado ‘padrão ouro’. A versão original do questionário criado por Maslach e colaboradores (1986)MASLACH, Christina; JACKSON, Susan E. Maslach burnout inventory manual . 2. ed. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1986. apresenta uma consistência interna satisfatória com um valor de alfa de Cronbach de 0,71 até 0,90 ( Schaufeli, Leiter e Maslach, 2009SCHAUFELI, Wilmar B.; LEITER, Michael P.; MASLACH, Christina. Burnout: 35 years of research and practice. Career Development International, Utrecht, v. 14, n. 3, p. 204-220, 2009. Disponível em: <http://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/311.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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). Os valores de alfa de Cronbach foram calculados para cada dimensão do MBI na população do estudo e resultaram em: 0,90 para EE; 0,67 para DE; e 0,82 para a dimensão RP.

Utilizou-se o MBI-HSS, versão empregada para profissionais da área de serviços humanos e de saúde, com um sistema adaptado de pontuação na escala Likert de 5 também utilizado por Carlotto e Câmara (2008)CARLOTTO, Mary S.; CÂMARA, Sheila G. Análise da produção científica sobre a Síndrome de burnout no Brasil. Psico , Porto Alegre, v. 39, n. 2, p. 152-158, 2008. . Tal sistema é composto por 22 itens, dos quais nove estão relacionados a sentimentos de fadiga e exaustão no trabalho, caracterizando o fator denominado EE; cinco tratam de sentimentos de insensibilidade e afastamento dos clientes ou do serviço, caracterizando a subescala DE; e oito se referem a sentimentos de incompetência, compondo a subescala RP. Nota-se que é um instrumento baseado nas três dimensões da SB, portanto, um questionário multifatorial ( Maslach e Jackson, 1986MASLACH, Christina; JACKSON, Susan E. Maslach burnout inventory manual . 2. ed. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1986. ).

Para análise da prevalência da SB, utilizaram-se os critérios de classificação adotados por Shirom (1989)SHIROM, A. Burnout in work organizations. In: Cooper C.L.; Robertson I. (eds.). International Review of Industrial and Organizational Psychology . 1. ed. Nueva York: Wiley & Sons, 1989. p. 25-48. e sugeridos por Gil-Monte (2003)GIL-MONTE, Pedro R. El síndrome de quemarse por el trabajo (síndrome de burnout) en profesionales de enfermería. Revista Eletrônica InterAção Psy, Curitiba, v. 1, n. 1, p. 19-33, 2003. Disponível em: <https://gepeb.files.wordpress.com/2011/12/pedrogil-monte.pdf>. Acesso em: jul. 2014.
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e Batista e colaboradores (2010)BATISTA, Jaqueline B. V. et al. Prevalência da síndrome de burnout e fatores sociodemográficos e laborais em professores de escolas municipais da cidade de João Pessoa, PB. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 502-512, 2010. , que indicam que indivíduos com a média das opções de resposta, por dimensão, igual ou superior a “algumas vezes na semana” referente ao valor 4 na escala de Likert –, relacionada às dimensões EE e DE, apresentam alto risco de serem acometidos pela SB. Quanto aos itens pertencentes à dimensão RP, quando os sujeitos as respondiam com média igual ou inferior ao valor 4 na escala Likert demonstravam-se altamente vulneráveis à SB ( Batista et al., 2010BATISTA, Jaqueline B. V. et al. Prevalência da síndrome de burnout e fatores sociodemográficos e laborais em professores de escolas municipais da cidade de João Pessoa, PB. Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 13, n. 3, p. 502-512, 2010. ). Logo, para as duas primeiras subescalas (EE e DE), altas pontuações definem alto grau de predisposição ao burnout , enquanto para a última (RP), baixos escores significam alto grau de predisposição à SB – esta independente das demais ( Maslach e Jackson, 1986MASLACH, Christina; JACKSON, Susan E. Maslach burnout inventory manual . 2. ed. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press, 1986. ).

Optou-se no estudo aqui apresentado por se considerar presença de burnout quando verificada alteração em qualquer uma das dimensões, conforme sugerido por Grunfeld e colaboradores (2000)GRUNFELD, Eva et al. Cancer care workers in Ontario: prevalence of burnout, job stress and job satisfaction. Canadian Medical Association Journal, Otawa, v. 163, n. 2, p. 166-169, 2000. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10934978>. Acesso em: abr. 2014.
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. Maslach e Leiter (2008)MASLACH, Christina; LEITER, Michael P. Early predictors of job burnout and engagement. Journal of Applied Psychology, Berkeley, v. 93, n. 3, p. 498, 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18457483>. Acesso em: mar. 2014.
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afirmam que escores alterados para qualquer uma das dimensões devem ser valorizados no sentido de impedir o desenvolvimento de consequências negativas, como o burnout. Ressalta-se que o MBI não pode ser considerado como meio de diagnóstico do burnout , pois necessita da confirmação por métodos clínicos ( Schaufeli, Leiter e Maslach, 2009SCHAUFELI, Wilmar B.; LEITER, Michael P.; MASLACH, Christina. Burnout: 35 years of research and practice. Career Development International, Utrecht, v. 14, n. 3, p. 204-220, 2009. Disponível em: <http://www.wilmarschaufeli.nl/publications/Schaufeli/311.pdf>. Acesso em: mar. 2015.
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).

Organização e análise dos dados

Os dados coletados foram organizados em um banco utilizando-se o programa Epi Info versão 3.5.3. No processo de digitação, optou-se pela dupla digitação a fim de minimizar os erros e garantir maior precisão aos dados. Caso houvesse discordância, o digitador responsável pelo instrumento fazia a correção usando como base o respectivo questionário. As análises foram realizadas no programa SPSS versão 21 e Stata versão 11. Para minimizar os dados faltantes, estes foram imputados considerando-se a média dos valores existentes para cada uma das dimensões da SB. Observou-se que cinco participantes deixaram caselas vazias para EE, dois participantes para DE e três para RP. Nenhum deixou de preencher mais de uma das respostas relativas a cada dimensão. Para a variável apoio social, nove participantes ficaram com uma casela vazia, e para a satisfação no trabalho, sete ficaram com uma das caselas ausente).

Realizou-se a análise univariada para a descrição da distribuição e prevalência das variáveis, seguida da análise bivariada, considerando-se como variável dependente a presença da SB e como independentes as demais variáveis coletadas. O teste qui-quadrado e, quando necessário, o teste exato de Fisher foram utilizados para avaliar as associações existentes, considerando-se estatisticamente significantes as que apresentaram p≤0,05. Verificou-se ainda a razão de prevalência bruta e ajustada com respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95%). Para testar o efeito independente das variáveis nos desfechos de alto risco para burnout em cada um dos domínios, utilizou a regressão de Poisson, com variância robusta.

O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFJF, mediante o parecer n. 403.217, de 3 de outubro de 2013.

Caracterização da população de estudo

Os 153 profissionais de saúde da APS de Juiz de Fora que participaram do estudo tinham, em média, 45 anos de idade (desvio-padrão: 9,78); 82,4% eram mulheres; 76,5% eram casados; 30,1% eram médicos; 69,3% possuíam casa própria já paga; e 55,2% pertenciam à classe B, conforme a classificação econômica da ABEP.

Os participantes, em sua maioria, tinham pós-graduação. As funções de gerência das UAPSs, geralmente, eram exercidas por enfermeiros, e nenhum dentista desempenhava tal função.

Dos profissionais, 79,5% revelaram trabalhar mais de dez anos na área da saúde; 56,1% trabalhavam menos de dez anos na APS; e 72,7% trabalhavam menos de dez anos na UAPS. Mais da metade da amostra tinha apenas um vínculo de trabalho (65,6%); 69,5% trabalhavam quarenta horas semanais na UAPS; 19% trabalhavam em regime de plantão; 87,5% eram concursados; e 58,9% das equipes de trabalho não estavam completas.

Quanto à autoavaliação do estado de saúde dos profissionais, 49% consideravam sua saúde boa; 41,2% revelaram ter baixo nível de apoio social; e a maioria (55,6%) era sedentária. Em relação à satisfação no seu trabalho, 65,4% mostraram-se satisfeitos.

Prevalência da síndrome de burnout

Observou-se a prevalência de burnout de 51% nos profissionais pesquisados, ou seja, 51% apresentavam alteração em ao menos uma das dimensões avaliadas. Os valores de alfa de Cronbach foram calculados para cada dimensão do MBI na amostra do estudo e resultaram em: 0,90 para EE; 0,67 para DE; e 0,82 para a dimensão RP.

A Tabela 1 apresenta a caracterização da amostra, segundo a prevalência da SB e os fatores associados, o valor de p, a razão de prevalência e o intervalo de confiança para cada fator considerado.

Tabela 1
Descrição da amostra, prevalência e razão de prevalência da síndrome de burnout segundo as variáveis independentes em profissionais da APS/JF (n=153), 2014.

Fatores associados à síndrome de burnout

Verificou-se que os profissionais que relataram trabalhar na UAPS há mais de dez anos apresentaram uma probabilidade de SB 36% menor do que os que trabalhavam há menos tempo (RP=0,64; IC95% 0,42-0,99), enquanto aqueles que autoavaliaram negativamente suas condições de saúde (RP=1,86; IC95% 1,42-2,42) e referiram-se insatisfeitos no trabalho (RP=1,91; IC95% 1,45-2,53) apresentaram maior prevalência de SB.

Incluíram-se na análise multivariada as variáveis tempo de serviço na UAPS, autoavaliação da condição de saúde, satisfação profissional e ainda as variáveis número de vínculos, carga horária semanal na APS e apoio social que apresentaram valor de p<0,20 na análise bivariada ( Tabela 1 ).

A análise multivariada, realizada por meio de regressão de Poisson robusta, controlada por faixa etária e sexo, mostrou que os fatores associados significativamente à SB ( Tabela 2 ) foram a autoavaliação do estado de saúde ruim (RP=1,67; IC95% 1,26-2,20) e insatisfação profissional (RP=1,77; IC95% 1,33-2,38).

Tabela 2
Razão de prevalência bruta e ajustada * segundo fatores associados à síndrome de burnout em trabalhadores da APS/JF (n=153), 2014.

Discussão

Observou-se predominância de profissionais do sexo feminino no estudo, possivelmente pelo fato de a maior parte ser formada por profissionais da equipe de enfermagem, categoria profissional historicamente desempenhada por mulheres, pelo seu caráter solidário, de ter em sua essência o cuidado, a caridade ( Moreira et al., 2009MOREIRA, Davi S. et al. Prevalência da síndrome de burnout em trabalhadores de enfermagem de um hospital de grande porte da região Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 7, p. 1.559-1.568, 2009. ).

Outro fator importante a ser destacado é que quase metade dos profissionais tinha dois ou mais vínculos de trabalho, fato que se deve, possivelmente, à busca de incremento na renda familiar. Observou-se que 39,7% dos profissionais com mais de um vínculo de trabalho assumiam plantões e trabalhavam quarenta horas semanais nas UAPSs. Destes, 48,3% eram médicos, seguidos, em ordem de frequência, pelos técnicos/auxiliares de enfermagem (34,5%) (dados não apresentados). Ressalta-se que trabalhar em regime de plantão além das quarenta horas regulares pode afetar o organismo pelas noites de sono perdidas e pela maior sobrecarga de trabalho. Soma-se a tal situação o fato de a maioria dos profissionais ser formada por mulheres, as quais usualmente realizam tarefas domésticas, o que as sobrecarrega fisicamente ( Albuquerque, Melo e Araújo Neto, 2012ALBUQUERQUE, Francisco J. B.; MELO, Cinthia F.; ARAÚJO NETO, João L. Avaliação da Síndrome de burnout em profissionais da Estratégia Saúde da Família da capital paraibana. Psicologia: Reflexão e Crítica, João Pessoa, v. 25, n. 3, 542-549, 2012. ; World Health Organization, 2010WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665...
).

Prevalência da síndrome de burnout

O estudo apontou a prevalência da SB em 51% nos profissionais de saúde da APS. Resultados semelhantes foram encontrados por Navarro-González, Ayechu-Díaz e Huarte-Labiano (2015)NAVARRO-GONZÁLEZ, David; AYECHU-DÍAZ, A.; HUARTE-LABIANO, I. Prevalencia del síndrome del burnout y factores asociados a dicho síndrome en los profesionales sanitarios de atención primaria. Semergen: Medicina de Familia, v. 41, n. 4, p. 191-198, 2015. Disponível em: <https://medes.com/publication/97438>. Acesso em: set. 2014.
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, Lima e colaboradores (2013)LIMA, Raitza A. S. et al. Vulnerabilidade ao burnout entre médicos de hospital público do Recife. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 1.051-1.058, 2013. , Moreira e colaboradores (2009)MOREIRA, Davi S. et al. Prevalência da síndrome de burnout em trabalhadores de enfermagem de um hospital de grande porte da região Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 7, p. 1.559-1.568, 2009. e Tucunduva e colaboradores (2006)TUCUNDUVA, Luciana T. C. M. et al. A síndrome da estafa profissional em médicos cancerologistas. Revista Associação Médica Brasileira, São Paulo, v. 52, n. 2, p. 108-12, 2006. , que encontraram, respectivamente, 39,3%, 69%, 35,7% e 52,3% de SB, considerando critérios baseados em Grunfeld e colaboradores (2000)GRUNFELD, Eva et al. Cancer care workers in Ontario: prevalence of burnout, job stress and job satisfaction. Canadian Medical Association Journal, Otawa, v. 163, n. 2, p. 166-169, 2000. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10934978>. Acesso em: abr. 2014.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1093...
.

O estudo de Martins e colaboradores (2014)MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. , também realizado com profissionais de saúde da APS, foi um dos trabalhos científicos que mais se aproximaram do método da pesquisa aqui apresentada. Encontraram a prevalência da SB de 41,6%, enquanto o presente estudo encontrou 51%, apontando que os profissionais da APS apresentam alto risco para a SB.

Comparar resultados de estudos realizados sobre burnout é um processo delicado, pois não há um consenso de critérios para a mensuração da síndrome. Nota-se que existem vários instrumentos, embora o mais utilizado seja o MBI. Cabe ressaltar que o MBI tem adaptações nas escalas de Likert, não possui um padrão na definição de escores, além de contar com distintos critérios de classificação do burnout ( Moreira et al., 2009MOREIRA, Davi S. et al. Prevalência da síndrome de burnout em trabalhadores de enfermagem de um hospital de grande porte da região Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 7, p. 1.559-1.568, 2009. ).

Fatores associados à prevalência da síndrome de burnout

Neste artigo, os profissionais do sexo feminino apresentaram maior percentual de alto risco de desenvolvimento da SB do que o sexo masculino. Apesar da ausência de diferença estatisticamente significativa para a variável sexo neste estudo, os resultados de Silva e colaboradores (2015)SILVA, Salvyana C. P. S. et al. A síndrome de burnout em profissionais da Rede de Atenção Primária à Saúde de Aracaju, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 20, n. 10, 3.011-3.020, 2015. demonstraram que mulheres associam-se estatisticamente à SB. No entanto, Martins e colaboradores (2014)MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. , Navarro-González, Ayechu-Díaz e Huarte-Labiano (2015)NAVARRO-GONZÁLEZ, David; AYECHU-DÍAZ, A.; HUARTE-LABIANO, I. Prevalencia del síndrome del burnout y factores asociados a dicho síndrome en los profesionales sanitarios de atención primaria. Semergen: Medicina de Familia, v. 41, n. 4, p. 191-198, 2015. Disponível em: <https://medes.com/publication/97438>. Acesso em: set. 2014.
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, Thomas, Kohli e Choi (2014)THOMAS, Madhavappallil; KOHLI, Vandana; CHOI, Jong. Correlates of job burnout among human services workers: implications for workforce retention. Journal of Sociology & Social Welfare , v. 41, n. 4, p. 69, 2014. Disponível em: <http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41/iss4/5/>. Acesso em: fev. 2014.
http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41...
e Lima e colaboradores (2013)LIMA, Raitza A. S. et al. Vulnerabilidade ao burnout entre médicos de hospital público do Recife. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 1.051-1.058, 2013. encontraram maior percentual de homens em suas pesquisas.

Após o levantamento de estudos internacionais, a World Health Organization (2010)WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
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, sugerindo que o burnout está associado ao sexo masculino, apontou que as diferenças de genêros resultam em riscos laborais distintos para homens e mulheres. Usualmente, homens são mais vulneráveis a riscos físicos e químicos, enquanto mulheres se predispõem aos riscos psicossociais, devido às demandas da dupla jornada, do menor status ocupado e da menor autonomia quando comparadas àqueles.

O fato de ter ou não companheiro não apresentou diferenças importantes nos percentuais deste estudo. Aqueles que possuíam companheiro tiveram uma prevalência um pouco maior da SB do que os que não possuíam, o que corrobora os resultados de Moreira e colaboradores (2009)MOREIRA, Davi S. et al. Prevalência da síndrome de burnout em trabalhadores de enfermagem de um hospital de grande porte da região Sul do Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 25, n. 7, p. 1.559-1.568, 2009. . A maioria dos estudos demonstrou que ter companheiro diminui o risco de desenvolver SB, possivelmente porque profissionais casados são mais maduros e estáveis. Com o convívio familiar, o indivíduo desenvolve as relações interpessoais, além de priorizar a segurança em detrimento da satisfação pessoal ( Shanafelt et al., 2012SHANAFELT, Tait D. et al. Burnout and satisfaction with work-life balance among US physicians relative to the general US population. Archives of Internal Medicine , v. 172, n. 18, p. 1.377-1.385, 2012. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22911330>. Acesso em: nov. 2015.
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).

Em nosso estudo, indivíduos com maiores faixas etárias apresentaram menores porcentagens da SB do que os mais jovens. Em concordância, Silva e colaboradores (2015)SILVA, Salvyana C. P. S. et al. A síndrome de burnout em profissionais da Rede de Atenção Primária à Saúde de Aracaju, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 20, n. 10, 3.011-3.020, 2015. , Carlotto e colaboradores (2013)CARLOTTO, Mary S. et al. Prevalence and factors associated with burnout syndrome in professionals in basic health units. Ciencia & Trabajo, Léon, v. 15, n. 47, p. 76-80, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art07.pdf>. Acesso em: set. 2014.
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e Trindade e Lautert (2010)TRINDADE, Letícia L.; LAUTERT, Liana. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Revista da Escola de Enfermagem da USP , São Paulo, v. 44, n. 2, p. 274-279, 2010. demonstraram que o fato de ser jovem está associado significativamente à SB. No estudo de Martins e colaboradores (2014)MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. , foi identificado que os profissionais maiores de trinta anos apresentavam 2,2 vezes menos chances de desenvolver SB, apesar de não ter sido significante estatisticamente. Acredita-se que o fato de indivíduos maiores de trinta anos estarem protegidos da SB pode se relacionar com o chamado ‘efeito do trabalhador sadio’, fenômeno que acontece devido à desistência e fuga do indivíduo da sua profissão, permanecendo os funcionários sadios ( Martins et al., 2014MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. ).

Barreto e colaboradores (2012)BARRETO, Aline S. et al. Síndrome de burnout: sistemática de um problema. Enfermagem Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 276-296, 2012. e Thomas, Kohli e Choi (2014)THOMAS, Madhavappallil; KOHLI, Vandana; CHOI, Jong. Correlates of job burnout among human services workers: implications for workforce retention. Journal of Sociology & Social Welfare , v. 41, n. 4, p. 69, 2014. Disponível em: <http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41/iss4/5/>. Acesso em: fev. 2014.
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relatam que trabalhadores jovens são mais propensos à síndrome, por estarem numa fase de transição entre expectativa e realidade, podendo sofrer um choque de realidade. Ademais, ela pode advir de uma crise de identidade ante a falta de socialização no trabalho ou ainda ser explicada pelo fato de trabalhadores mais antigos desenvolverem meios de enfrentamento às situações ( Thomas, Kohli e Choi, 2014THOMAS, Madhavappallil; KOHLI, Vandana; CHOI, Jong. Correlates of job burnout among human services workers: implications for workforce retention. Journal of Sociology & Social Welfare , v. 41, n. 4, p. 69, 2014. Disponível em: <http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41/iss4/5/>. Acesso em: fev. 2014.
http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41...
; Carlotto et al., 2013CARLOTTO, Mary S. et al. Prevalence and factors associated with burnout syndrome in professionals in basic health units. Ciencia & Trabajo, Léon, v. 15, n. 47, p. 76-80, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art07.pdf>. Acesso em: set. 2014.
http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art0...
; Barreto et al., 2012BARRETO, Aline S. et al. Síndrome de burnout: sistemática de um problema. Enfermagem Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 276-296, 2012. ).

A hipótese inicial do estudo aqui apresentado era de que houvesse diferença da prevalência de burnout entre as categorias profissionais de saúde da APS. De fato, a equipe de enfermagem apresentou maior prevalência da síndrome em relação aos demais cargos, porém este não foi um fator estatisticamente significativo, impossibilitando afirmar que o resultado não foi encontrado devido ao acaso. Silva e colaboradores (2015)SILVA, Salvyana C. P. S. et al. A síndrome de burnout em profissionais da Rede de Atenção Primária à Saúde de Aracaju, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 20, n. 10, 3.011-3.020, 2015. , em seu estudo com profissionais do nível primário de saúde, também verificaram maior percentual de SB nos enfermeiros, mas sem significância estatística.

Muitos estudos referem que os profissionais da enfermagem são mais acometidos pela SB por assumirem posições de liderança, pela sobrecarga laboral, pela falta de autonomia e indefinição de papéis, geralmente manifestando cansaço, desilusão, falta de expectativas e de esperança ( Laschinger e Fida, 2014LASCHINGER, Heather K. S.; FIDA, Roberta. New nurses burnout and workplace wellbeing: the influence of authentic leadership and psychological capital. Burnout Research , v. 1, n. 1, p. 19-28, 2014. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213058614000059>. Acesso em: mar. 2015.
http://www.sciencedirect.com/science/art...
; Barreto et al., 2012BARRETO, Aline S. et al. Síndrome de burnout: sistemática de um problema. Enfermagem Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 276-296, 2012. ; Raftopoulos, Charalambous e Talias, 2012RAFTOPOULOS, Vasilios; CHARALAMBOUS, Andreas; TALIAS, Michael. The factors associated with the burnout syndrome and fatigue in Cypriot nurses: a census report. BMC Public Health , Nicosia, v. 12, n. 1, p. 1-13, 2012. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22716044>. Acesso em: maio 2015.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2271...
). Falgueras e colaboradores (2015)VILÁ FALGUERAS, Maite et al. Burnout y trabajo en equipo en los profesionales de atención primaria. Atención Primaria, v. 47, n. 1, p. 25-31, 2015. Disponível em: <http://www.elsevier.es/es-revista-atencion-primaria-27-articulo-burnout-trabajo-equipo-los-profesionales-S0212656714001498>. Acesso em: jun. 2015.
http://www.elsevier.es/es-revista-atenci...
, no entanto, verificaram que os enfermeiros apresentaram menor nível de SB em comparação com o restante da equipe de profissionais na APS.

Lima e colaboradores (2013)LIMA, Raitza A. S. et al. Vulnerabilidade ao burnout entre médicos de hospital público do Recife. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 1.051-1.058, 2013. apontam que em muitos estudos a categoria médica apresenta maiores níveis de burnout , propiciado pela crescente pressão por produtividade, perda de autonomia, pelo crescente desrespeito da sociedade, a qual está cada vez mais exigente e violenta. Em concordância, Navarro-González, Ayechu-Díaz e Huarte-Labiano (2015)NAVARRO-GONZÁLEZ, David; AYECHU-DÍAZ, A.; HUARTE-LABIANO, I. Prevalencia del síndrome del burnout y factores asociados a dicho síndrome en los profesionales sanitarios de atención primaria. Semergen: Medicina de Familia, v. 41, n. 4, p. 191-198, 2015. Disponível em: <https://medes.com/publication/97438>. Acesso em: set. 2014.
https://medes.com/publication/97438...
notaram maior percentual da SB em médicos quando comparados a enfermeiros, com a justificativa de maior pressão e maior número de consultas.

Os dentistas tiveram o menor percentual de SB dentre os trabalhadores, o que pode ser explicado pela menor responsabilidade administrativa nas UAPSs, pelo seu menor contato com os problemas da comunidade, por desenvolverem um trabalho mais específico que não necessariamente envolve os demais profissionais da equipe e pela sua menor carga horária nas UAPSs, em comparação com os demais. Existem poucas investigações sobre SB em odontólogos, o que dificulta realizar comparações. Gorter e Freeman (2011)GORTER, Ronald C.; FREEMAN, Ruth. Burnout and engagement in relation with job demands and resources among dental staff in Northern Ireland. Community Dentistry and Oral Epidemiology , The Netherlands, v. 39, n. 1, p. 87-95, 2011. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20735447>. Acesso em: ago. 2015.
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, em estudo com dentistas da Irlanda do Norte, encontraram altos níveis de burnout atribuídos especialmente à pressão do tempo, a preocupações financeiras e a pacientes difíceis, enquanto Falgueras e colaboradores (2015)VILÁ FALGUERAS, Maite et al. Burnout y trabajo en equipo en los profesionales de atención primaria. Atención Primaria, v. 47, n. 1, p. 25-31, 2015. Disponível em: <http://www.elsevier.es/es-revista-atencion-primaria-27-articulo-burnout-trabajo-equipo-los-profesionales-S0212656714001498>. Acesso em: jun. 2015.
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, ao estudarem profissionais da rede de atenção primária à saúde em Barcelona, encontraram níveis de burnout menores em odontólogos e enfermeiros, em comparação com os profissionais médicos e administrativos. Esses autores destacam, em seu trabalho, que o trabalho em equipe constitui um fator protetor para o burnout.

No estudo aqui apresentado, verificou-se maior percentual de burnout naqueles profissionais que tinham pós-graduação. Apesar de esses resultados não terem significância estatística, acredita-se que quanto maior o grau de escolaridade maior a expectativa de sucesso e de carreira próspera, e caso não haja a realização desses ideais, ocorrem a insatisfação e maior propensão à SB. Além disso, indivíduos com maior grau de escolaridade ocupam postos em que tendem a assumir diversas responsabilidades sobre outras pessoas ( Thomas, Kohli e Choi, 2014THOMAS, Madhavappallil; KOHLI, Vandana; CHOI, Jong. Correlates of job burnout among human services workers: implications for workforce retention. Journal of Sociology & Social Welfare , v. 41, n. 4, p. 69, 2014. Disponível em: <http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41/iss4/5/>. Acesso em: fev. 2014.
http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41...
).

Os profissionais com mais de dez anos de serviço na UAPS apresentaram menor prevalência da SB, resultado também observado na maioria dos estudos ( Barreto et al., 2012BARRETO, Aline S. et al. Síndrome de burnout: sistemática de um problema. Enfermagem Revista, Belo Horizonte, v. 16, n. 3, p. 276-296, 2012. ; Maissiat et al., 2015MAISSIAT, Greisse S. et al. Contexto de trabalho, prazer e sofrimento na atenção básica em saúde. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 42-49, 2015. ). Carlotto e colaboradores (2013)CARLOTTO, Mary S. et al. Prevalence and factors associated with burnout syndrome in professionals in basic health units. Ciencia & Trabajo, Léon, v. 15, n. 47, p. 76-80, 2013. Disponível em: <http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art07.pdf>. Acesso em: set. 2014.
http://www.scielo.cl/pdf/cyt/v15n47/art0...
e França e colaboradores (2012)FRANÇA, Flávia M. et al. Burnout e os aspectos laborais na equipe de enfermagem de dois hospitais de médio porte. Revista Latino-Americana de Enfermagem , Cáceres, v. 20, n. 5, p. 961-970, 2012. também verificaram que quanto menor a experiência profissional maior é a propensão à SB, o que para os autores pode ser explicado pelo fato de profissionais mais experientes adquirirem confiança no seu trabalho e maior habilidade em lidar com fatores estressores. Além disso, jovens são mais idealistas e propensos a desilusões, sentem-se despreparados em assumir as responsabilidades da profissão e podem ser mais vulneráveis devido a possíveis dificuldades de inserção no grupo de trabalho ( Trindade e Lautert, 2010TRINDADE, Letícia L.; LAUTERT, Liana. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Revista da Escola de Enfermagem da USP , São Paulo, v. 44, n. 2, p. 274-279, 2010. ).

Verificou-se no estudo que originou este artigo que profissionais com dois vínculos de trabalho apresentaram menor frequência da síndrome, e aqueles com três ou mais vínculos, maior percentual de burnout – embora não tenham apresentado significância estatística. Albuquerque, Melo e Araújo Neto (2012)ALBUQUERQUE, Francisco J. B.; MELO, Cinthia F.; ARAÚJO NETO, João L. Avaliação da Síndrome de burnout em profissionais da Estratégia Saúde da Família da capital paraibana. Psicologia: Reflexão e Crítica, João Pessoa, v. 25, n. 3, 542-549, 2012. observaram que a atuação em dois ambientes laborais incrementa a renda, fazendo com que os profissionais se sintam mais satisfeitos com seu ganho. Além disso, o outro vínculo pode satisfazer mais o profissional, possibilitando-lhe mudar o foco dos problemas e lidar com situações diferentes de modo a gerar maior proteção aos estressores, o que poderia justificar o fato de indivíduos com dois vínculos terem apresentado menos SB em relação aos demais.

Trindade e Lautert (2010)TRINDADE, Letícia L.; LAUTERT, Liana. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Revista da Escola de Enfermagem da USP , São Paulo, v. 44, n. 2, p. 274-279, 2010. , em seu estudo com profissionais da APS, notaram que profissionais que possuíam outro vínculo de trabalho apresentaram maiores níveis de SB; no entanto, essa relação não foi significativa. O fato de o profissional possuir mais de um vínculo ocasiona maior sobrecarga de trabalho, podendo predispô-lo à SB, o que condiz com o maior percentual da SB encontrado no estudo aqui apresentado naqueles com três ou mais vínculos.

As variáveis carga horária semanal em todos os serviços assumidos e carga horária semanal na APS, ambas de quarenta horas desenvolvidas pelos profissionais, apresentaram maior percentual de burnout . Pode-se verificar que a maioria dos profissionais que tinham até quarenta horas semanais eram os que faziam quarenta horas na APS, inferindo-se que o desenvolvimento das atividades na APS tem trazido desgaste e tensão aos trabalhadores (dados não apresentados nos resultados).

Possivelmente os profissionais da APS são mais expostos à SB, pois atuam no ponto da rede assistencial mais próximo dos usuários, sofrendo pressão para a resolução de problemas numa perspectiva de saúde ampliada e de responsabilização, em cenários que envolvem questões sociais complexas distantes da capacidade dos profissionais de as solucionarem – o que pode gerar estresse e tensão nos trabalhadores ( Albuquerque, Melo e Araújo Neto, 2012ALBUQUERQUE, Francisco J. B.; MELO, Cinthia F.; ARAÚJO NETO, João L. Avaliação da Síndrome de burnout em profissionais da Estratégia Saúde da Família da capital paraibana. Psicologia: Reflexão e Crítica, João Pessoa, v. 25, n. 3, 542-549, 2012. ).

Sabe-se que a prática de exercício físico pode proporcionar uma vida mais saudável ao indivíduo e diminuir tensões, prevenindo o estresse ( Portela et al., 2015PORTELA, Nytale L. C. et al. Síndrome de burnout em profissionais de enfermagem de serviços de urgência e emergência. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental ( online ), Rio de Janeiro, v. 7, n. 3, p. 2.749-2.760, 2015. Disponível em: <http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=BDENF&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=26898&indexSearch=ID>. Acesso em: set. 2015.
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; Bakker e Costa, 2014BAKKER, Arnold B.; COSTA, Patrícia L. Chronic job burnout and daily functioning: a theoretical analysis. Burnout Research , Rotterdam, v. 1, n. 3, p. 112-119, 2014. Disponível em: <http://isiarticles.com/bundles/Article/pre/pdf/58842.pdf>. Acesso em: maio 2015.
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). A variável prática de atividade física, no estudo aqui apresentado, não mostrou relação significativa com o desenvolvimento da SB, mas aqueles que relataram realizar atividade física demonstraram menor relação com o alto risco de desenvolver SB do que os que não realizavam.

A variável apoio social não apresentou significância estatística, mas pôde-se observar que aqueles que possuíam baixo apoio apresentaram maior prevalência da SB em relação àqueles que tiveram alto apoio. Nos estudos de Lin e colaboradores (2014)LIN, Yung-Sen et al. Work-leisure conflict and its associations with well-being: the roles of social support, leisure participation and job burnout. Tourism Management, v. 45, p. 244-252, 2014. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/262841829_Work-leisure_conflict_and_its_associations_with_well-being_The_roles_of_social_support_leisure_participation_and_job_burnout. Acesso em: mar. 2015.
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, Laschinger e Fida (2014)LASCHINGER, Heather K. S.; FIDA, Roberta. New nurses burnout and workplace wellbeing: the influence of authentic leadership and psychological capital. Burnout Research , v. 1, n. 1, p. 19-28, 2014. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213058614000059>. Acesso em: mar. 2015.
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e Hombrados-Mendieta e Cosano-Rivas (2013)HOMBRADOS-MENDIETA, Isabel; COSANO-RIVAS, Francisco. Burnout, workplace support, job satisfaction and life satisfaction among social workers in Spain: a structural equation model. International Social Work, v. 56, n. 2, p. 228-246, 2013. Disponível em: <http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/0020872811421620>. Acesso em: mar. 2015.
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foi encontrada associação entre falta de suporte social e SB. A afetividade e a proteção que familiares proveem aos trabalhadores podem ajudá-los nas estratégias de enfrentamento aos estressores, indicando o apoio social como importante fator na prevenção da síndrome – assim como o apoio social no ambiente laboral, proporcionado por colegas e supervisores, pode reduzir os níveis de estresse, promovendo satisfação e diminuição do fenômeno burnout ( Thomas, Kohli e Choi, 2014THOMAS, Madhavappallil; KOHLI, Vandana; CHOI, Jong. Correlates of job burnout among human services workers: implications for workforce retention. Journal of Sociology & Social Welfare , v. 41, n. 4, p. 69, 2014. Disponível em: <http://scholarworks.wmich.edu/jssw/vol41/iss4/5/>. Acesso em: fev. 2014.
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; Bakker e Costa, 2014BAKKER, Arnold B.; COSTA, Patrícia L. Chronic job burnout and daily functioning: a theoretical analysis. Burnout Research , Rotterdam, v. 1, n. 3, p. 112-119, 2014. Disponível em: <http://isiarticles.com/bundles/Article/pre/pdf/58842.pdf>. Acesso em: maio 2015.
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; Maslach, Leiter e Jackson, 2012MASLACH, Christina; LEITER, Michael P.; JACKSON, Susan E. Making a significant difference with burnout interventions: researcher and practitioner collaboration. Journal of Organizational Behavior, Berkeley, v. 33, n. 2, p. 296-300, 2012. Disponível em: <https://smlr.rutgers.edu/sites/default/files/documents/faculty_staff_docs/SusanJackson_Making%20a%20significant%20difference%20with%20burnout%20interventions%20JOB%202012.pdf>. Acesso em: fev. 2015.
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).

Verificou-se que os participantes que autorreferiram ter condição de saúde de muito ruim a regular apresentaram associação com burnout (p<0,001). Trindade e colaboradores (2010)TRINDADE, Letícia L.; LAUTERT, Liana. Síndrome de Burnout entre os trabalhadores da Estratégia de Saúde da Família. Revista da Escola de Enfermagem da USP , São Paulo, v. 44, n. 2, p. 274-279, 2010. observaram que os profissionais esgotados sofreram mais problemas de saúde do que aqueles que não se sentiam esgotados. Grau-Alberola e colaboradores (2009)GRAU-ALBEROLA, Ester et al. Efectos de los conflictos interpersonales sobre el desarrollo del síndrome de quemarse por el trabajo ( burnout ) y su influencia sobre la salud: un estudio longitudinal en enfermería. Ciencia & Trabajo , Santiago, v. 11, n. 32, p. 72-79, 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237684062_Efectos_de_los_Conflictos_Interpersonales_Sobre_el_Desarrollo_del_Sindrome_de_Quemarse_por_el_Trabajo_Burnout_y_su_Influencia_Sobre_la_Salud_Un_Estudio_Longitudinal_en_Enfermeria_LONGITUDINAL_STUDY_OF. Acesso em: abr. 2015.
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defendem a ideia de que o burnout pode ocorrer antes das repercussões negativas sobre a saúde do trabalhador, ou seja, a má condição de saúde seria gerada pela instalação da SB.

Também se observou que a variável satisfação no trabalho apresentou associação com a SB (p<0,001) e que pessoas com baixo nível de satisfação apresentaram maior prevalência da síndrome. Corroborando este achado, Navarro-González, Ayechu-Díaz e Huarte-Labiano (2015)NAVARRO-GONZÁLEZ, David; AYECHU-DÍAZ, A.; HUARTE-LABIANO, I. Prevalencia del síndrome del burnout y factores asociados a dicho síndrome en los profesionales sanitarios de atención primaria. Semergen: Medicina de Familia, v. 41, n. 4, p. 191-198, 2015. Disponível em: <https://medes.com/publication/97438>. Acesso em: set. 2014.
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, Martins e colaboradores (2014)MARTINS, Leonardo F. et al. Esgotamento entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 19, n. 12, p. 4.739-4.750, 2014. e Neves, Oliveira e Alves (2014)NEVES, Vanessa F.; OLIVEIRA, Áurea F.; ALVES, Priscila C. Síndrome de burnout: impacto da satisfação no trabalho e da percepção de suporte organizacional. Psico, Porto Alegre, v. 45, n. 1, p. 45-54, 2014. verificaram que aqueles profissionais que se declaravam satisfeitos ou muito satisfeitos no trabalho apresentaram menor probabilidade de desenvolverem burnout , apesar de não terem apresentado significância estatística após análise multivariada.

Lima e colaboradores (2013)LIMA, Raitza A. S. et al. Vulnerabilidade ao burnout entre médicos de hospital público do Recife. Ciência & Saúde Coletiva , Rio de Janeiro, v. 18, n. 4, p. 1.051-1.058, 2013. e World Health Organization (2010)WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665...
apontam que a satisfação no trabalho pode ser um fator de proteção, o que corrobora os resultados de Zhou e colaboradores (2015)ZHOU, Wenjuan et al. Job dissatisfaction and burnout of nurses in Hunan, China: A cross-sectional survey. Nursing & Health Sciences, Changsha, v. 17, n. 4, p. 444-450, 2015. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26269392>. Acesso em: set. 2015.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2626...
, Laschinger e Fida (2014)LASCHINGER, Heather K. S.; FIDA, Roberta. New nurses burnout and workplace wellbeing: the influence of authentic leadership and psychological capital. Burnout Research , v. 1, n. 1, p. 19-28, 2014. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213058614000059>. Acesso em: mar. 2015.
http://www.sciencedirect.com/science/art...
e Hombrados-Mendieta e Cosano-Rivas (2013)HOMBRADOS-MENDIETA, Isabel; COSANO-RIVAS, Francisco. Burnout, workplace support, job satisfaction and life satisfaction among social workers in Spain: a structural equation model. International Social Work, v. 56, n. 2, p. 228-246, 2013. Disponível em: <http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/0020872811421620>. Acesso em: mar. 2015.
http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1...
, que encontraram insatisfação no trabalho relacionada ao burnout estatisticamente significante. Jodas e Haddad (2009)JODAS, Denise A.; HADDAD, Maria C. L. Síndrome de burnout em trabalhadores de enfermagem de um pronto-socorro de hospital universitário. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 22, n. 2, p. 192-197, 2009. verificaram que aqueles que se sentiam valorizados e reconhecidos pelo seu trabalho e incentivados pela organização tiveram menos chances de desenvolver SB.

Schaufeli e Greenglass (2001)SCHAUFELI, Wilmar B.; GREENGLASS, Esther R. Introduction to special issue on burnout and health. Psychology & Health, v. 16, n. 5, p. 501-510, 2001. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22804495>. Acesso em: jul. 2014.
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defendem a teoria da equidade, em que os indivíduos investem nas relações interpessoais e organizacionais a fim de obter reciprocidade. Caso essa troca seja desigual, surge o denominado distress, que pode acarretar burnout. Portanto, relações interpessoais e organizacionais em que o indivíduo se sente injustiçado e insatisfeito no trabalho o predispõem à SB. Quando ocorre essa inequidade nas relações do trabalho, inicia-se um processo que acarreta conflito interpessoal. Se esse conflito perdura, possivelmente gera estresse, que ao se cronificar pode predispor os profissionais à SB ( Grau-Alberola et al., 2009GRAU-ALBEROLA, Ester et al. Efectos de los conflictos interpersonales sobre el desarrollo del síndrome de quemarse por el trabajo ( burnout ) y su influencia sobre la salud: un estudio longitudinal en enfermería. Ciencia & Trabajo , Santiago, v. 11, n. 32, p. 72-79, 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237684062_Efectos_de_los_Conflictos_Interpersonales_Sobre_el_Desarrollo_del_Sindrome_de_Quemarse_por_el_Trabajo_Burnout_y_su_Influencia_Sobre_la_Salud_Un_Estudio_Longitudinal_en_Enfermeria_LONGITUDINAL_STUDY_OF. Acesso em: abr. 2015.
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). Grau-Alberola e colaboradores (2009)GRAU-ALBEROLA, Ester et al. Efectos de los conflictos interpersonales sobre el desarrollo del síndrome de quemarse por el trabajo ( burnout ) y su influencia sobre la salud: un estudio longitudinal en enfermería. Ciencia & Trabajo , Santiago, v. 11, n. 32, p. 72-79, 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/237684062_Efectos_de_los_Conflictos_Interpersonales_Sobre_el_Desarrollo_del_Sindrome_de_Quemarse_por_el_Trabajo_Burnout_y_su_Influencia_Sobre_la_Salud_Un_Estudio_Longitudinal_en_Enfermeria_LONGITUDINAL_STUDY_OF. Acesso em: abr. 2015.
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, em seu estudo longitudinal, afirmam que os conflitos interpessoais são fatores de risco significativos para o incremento do nível de EE e para a diminuição da RP, e consequentemente da SB.

A autonomia e a satisfação no trabalho repercutem em sentimentos laborais positivos, enquanto o contrário afeta o estado de saúde do trabalhador, possibilitando maior fragilidade ao burnoutWorld Health Organization (2010)WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Health impact of psychosocial hazards at work: an overview. Geneva: Word Health Organization, 2010. Disponível em: <http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/44428/1/9789241500272_eng.pdf>. Acesso em: ago. 2015.
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.

Limitações do estudo

Por se tratar de um estudo transversal, tornou-se difícil identificar a relação temporal entre as variáveis estudadas. Os fatores referentes à percepção do estado de saúde ruim e insatisfação ao trabalho podem ser consequências do trabalhador em burnout , caracterizando uma causalidade reversa.

Considera-se que o estudo aqui apresentado tem validade interna por possuir uma amostra aleatória e representativa e ter utilizado instrumento validado. Diante disso, os resultados podem traduzir a situação da população de profissionais de saúde da atenção básica à saúde do município pesquisado. Embora a pesquisa tenha sido realizada localmente, a conjuntura laboral na APS é nacionalmente similar, pois adota a mesma política de saúde, enfrenta desafios relativos ao financiamento, aos modelos de assistência e à formação dos profissionais da saúde, o que leva a pressupor que os resultados podem ser generalizados, de forma precavida em razão dos diferentes contextos municipais.

Conclusão

O estudo procurou contribuir para o incremento do conhecimento acerca da SB, além de apontar a importância dos profissionais de saúde para a provisão de um cuidado integral à sociedade. Sobretudo aqueles profissionais atuantes na APS, pela natureza complexa do seu trabalho, por serem responsáveis pela organização e comunicação entre os níveis de assistência do SUS, por estarem mais próximos dos usuários e por serem encarregados de prover o cuidado continuado a eles.

Os resultados demonstraram uma população vulnerável à SB e que necessita de atenção por parte do gestor de saúde do município para a realização de investigações complementares, além de ações de prevenção e promoção da saúde. Com os resultados, não se pode afirmar que uma categoria profissional tenha maior predisposição à SB do que outra, mas percebeu-se que há poucos estudos acerca do tema, o que indica uma lacuna a ser preenchida.

Também observou-se uma possível influência que a SB tem sobre a autoavaliação da condição de saúde dos profissionais. Sabendo-se que a SB causa exaustão física e emocional nos indivíduos e demais prejuízos à sua saúde, torna-se um fator importante a ser estudado. Além disso, os achados indicaram a importância que a satisfação no trabalho tem no sentido de reduzir a chance de se desenvolver a SB – o que corrobora a maioria das publicações encontradas, indicando que um ambiente de trabalho saudável, que facilite a satisfação do profissional, pode protegê-lo do burnout .

Tais resultados ensejam a realização de novos estudos que aprofundem a relação do estado de saúde, da qualidade de vida e da satisfação profissional com a SB, de modo a evidenciar quais são os fatores que possam influenciar e resultar nestas condições influenciar essas condições.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Dez 2017
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2018

Histórico

  • Recebido
    24 Maio 2016
  • Aceito
    21 Abr 2017
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