RESUMO
O artigo investiga a biblioteca de José Eutrópio (1886-1929), composta por 410 volumes entre livros, revistas, dicionários, catálogos, partituras, discos e fitas de cinema. Homem negro, formado em Direito, dedicou-se ao magistério, jornalismo e teatro de revista em Juiz de Fora, Minas Gerais. Inspirado na Limana, expressão cunhada por Lima Barreto, denomina-se Eutropiana a biblioteca, o consumo de livros e as práticas de leitura elaboradas por José Eutrópio. A análise desse acervo oferece perspectivas de estudo para a história do pensamento intelectual negro no pós-abolição, pois revela traços da personalidade do proprietário, seus interesses e preferências, além de padrões de leitura e consumo de obras e autores. A pesquisa contribui para compreender os mecanismos de produção, circulação e consumo das culturas letradas no início do século XX. Metodologicamente, o artigo baseia-se no inventário post-mortem de José Eutrópio e em sua produção intelectual – crônicas, artigos de opinião e crítica publicados na imprensa. Por fim, o estudo da Eutropiana representa uma oportunidade historiográfica para investigar práticas de leitura de uma geração de intelectuais negros que se formou e atuou politicamente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, no contexto do pós-abolição no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
posse privada de livros; práticas de leitura; pós-abolição
ABSTRACT
This article examines the private library of José Eutrópio (1886-1929), which contains 410 volumes, including books, magazines, dictionaries, catalogues, sheet music, records, and film reels. a black man with a law degree, he dedicated himself to teaching and journalism. The analysis of this collection provides valuable insights into black intellectual thought during the post-abolition period, highlighting traits of the owner’s personality, interests, and preferences, as well as reading patterns and choices of works and authors. This research aids in understanding the production, circulation, and consumption of literate cultures in the early twentieth century. From a methodological standpoint, the article is based on José Eutrópio’s inventory and his intellectual output – chronicles, opinion pieces, and critical articles published in the press. Ultimately, studying this private library presents a historiographical opportunity to explore the reading practices of a generation of black intellectuals who were educated and politically active between the late nineteenth and early twentieth centuries in post-abolition Brazil.
KEYWORDS:
private book ownership; reading practices; post-abolition
Em 21 de junho de 1929, faleceu José Eutrópio (1886-1929), homem negro formado em Direito que atuou como professor, inspetor escolar, jornalista e dramaturgo em Juiz de Fora, Minas Gerais. Seu inventário post-mortem revelou a posse de uma biblioteca privada composta por 410 volumes, incluindo livros, revistas, partituras e catálogos, um acervo expressivo de um intelectual negro atuante no pós-abolição. A análise dessa biblioteca – aqui denominada Eutropiana – oferece uma oportunidade historiográfica singular para compreender práticas de leitura, sociabilidades letradas e formas de mediação cultural de intelectuais negros no início do século XX. A escolha do termo Eutropiana é inspirada no gesto de Lima Barreto ao batizar sua própria biblioteca de “Limana”. Diferentemente do famoso literato carioca, José Eutrópio não nomeou seu acervo. Ao adotar essa designação, assumo conscientemente um recurso heurístico: trata-se de uma categoria interpretativa construída para iluminar a dimensão política e cultural da biblioteca de José Eutrópio, sem pretender reproduzir integralmente as condições de formação ou o sentido subjetivo da “Limana”. Assim, o conceito é menos uma analogia direta e mais uma chave analítica que permite articular posse de livros, práticas de leitura e experiência intelectual negra no pós-abolição.
Este artigo parte da hipótese de que a biblioteca de José Eutrópio não pode ser entendida apenas como acúmulo material de livros, mas como espaço de construção de uma gramática intelectual marcada pela circulação de ideias e por um certo tipo de engajamento político. Para tanto, proponho abordar três objetivos inter-relacionados: analisar a constituição material da biblioteca, a partir do inventário post-mortem, considerando suas potencialidades e limites como fonte; investigar as práticas de leitura e apropriação cultural que esse acervo sugere, em diálogo com a produção intelectual de José Eutrópio; e situar a Eutropiana como expoente simbólico de redes de pensamento negro, evidenciando de que modo a presença de obras de autores negros se articulava a projetos de contestação das hierarquias raciais no pós-abolição.
Metodologicamente, a pesquisa combina a análise do inventário post-mortem – documento elaborado no contexto jurídico da partilha de bens – com o exame de textos produzidos pelo próprio José Eutrópio. Tal análise permite não apenas descrever o acervo, mas também problematizar seus significados sociais, políticos e culturais. Ao longo do artigo, argumento que a Eutropiana deve ser compreendida como um espaço de mediação cultural, que refletia tanto as restrições e possibilidades impostas por uma sociedade racializada quanto os projetos políticos de um intelectual negro engajado. Nesse sentido, busquei refletir sobre os padrões e práticas de leitura, bem como os mecanismos de produção, circulação e consumo de culturas letradas por um intelectual negro no início do século XX.
O INVENTÁRIO POST-MORTEM DE UM HOMEM NEGRO, “CULTO, AFORTUNADO E AMANTE DA BOA CULTURA”
Alguns meses após a morte de José Eutrópio, em abril de 1930, a então diretoria da Associação Mineira de Imprensa, da qual ele fora um dos fundadores no início da década anterior, lançou, pela imprensa de Juiz de Fora, o projeto de construção de uma herma em sua homenagem. O plano não se concretizou. Na ocasião, o jornalista Gilberto de Alencar (1886-1961), um de seus amigos mais próximos, definiu-o como um “homem culto, afortunado e amante da boa cultura”, que, por essa razão, deveria receber uma “homenagem à sua memória”.1 Tal testemunho somou-se a outras declarações que compuseram o rol de justificativas do projeto de tributo a José Eutrópio. Ele foi reconhecido por seus pares intelectuais como um deles: um homem escolarizado, que atuou profissionalmente em ocupações consideradas prestigiadas, como o magistério e o jornalismo. Além disso, era financeiramente remediado e expoente de um determinado tipo de cultura de elite, ao menos em termos simbólicos.2
Nesse contexto, a análise de inventários post-mortem de indivíduos como José Eutrópio pode oferecer caminhos para a caracterização das condições materiais de vida de pessoas e famílias negras que elaboraram distintas estratégias de ascensão social, mas que também se configuraram como participantes e, simultaneamente, como demandantes de modelos de consumo de capitais de diferentes naturezas, então em expansão no Brasil do início do século XX. Entretanto, considerando o tipo, o formato e a finalidade do inventário post-mortem enquanto documento judicial, torna-se difícil estabelecer parâmetros para noções como “elite”, “classe média” ou mesmo definições precisas de riqueza e pobreza no início do século XX. Para isso, faz-se necessária uma análise historiográfica de fôlego, baseada na comparação e no estudo conjunto de vários inventários e/ou testamentos (Silveira, 2023). Ciente de tais limites, minha intenção não foi realizar uma abordagem em série da condição social e de classe de indivíduos ou grupos negros no pós-abolição a partir do estudo de inventários post-mortem. Busquei, antes, destacar as possibilidades que a descrição do espólio de um homem negro, contida nesse tipo de documento judicial, pode oferecer como guia para compreender o universo mais amplo de experiências negras nas primeiras décadas do século XX. Essa perspectiva permite problematizar, ao mesmo tempo, as oportunidades e os obstáculos às formas de mobilidade social em uma sociedade marcada por hierarquias e desigualdades raciais, na qual a maioria esmagadora das populações negras vivia nas fronteiras tênues entre uma sobrevivência material precária e a pobreza.
Diversos estudos ressaltaram a relevância dos inventários post-mortem como fonte útil para o estudo da cultura material. Esse tipo documental permite compreender não apenas o patrimônio econômico, mas também os modos de vida de diferentes estratos da população. No caso de José Eutrópio, não foi diferente. Seu inventário, assim como tantos outros confeccionados nos cartórios de ofícios, “referia-se não apenas à listagem dos bens contida em um processo de partilha, mas também ao processo judicial como um todo, que registrava por escrito os atos necessários para realizar a divisão dos bens entre os herdeiros” (Furtado, 2009, p. 103). O documento compõe-se, dessa forma, do “termo de abertura, avaliação dos bens, documentos comprobatórios (apensos) com avaliação das dívidas ativas e passivas, e partilha dos bens” (Teixeira, 2012, p. 65).
O inventário post-mortem de José Eutrópio permite, por exemplo, visualizar a relação entre os processos de urbanização e as transformações nos hábitos de consumo – entendidos aqui como um processo social – de estratos das populações negras em curso no início do século XX. Sempre discreto em relação à vida privada, José Eutrópio raramente publicizava em seus escritos informações sobre sua família. Assim, construiu e difundiu, em diferentes momentos da vida, discursos que atribuíam sua “posição” e “condição” social unicamente ao mérito e aos talentos próprios, advindos especialmente de seus ofícios no magistério, no jornalismo e no teatro de revista. Ainda assim, ele não provinha de uma família pobre ou sem recursos. Sua formação escolar – com passagens por colégios de elite e pelo ensino superior em tradicionais faculdades de Direito – indica que vivenciou uma condição financeira abastada (Ribeiro, 2024).
Tais fatores, combinados ou não, podem ter contribuído para a construção de uma determinada riqueza ao longo da vida de José Eutrópio. Pelo menos por ocasião de sua morte, ele usufruía de uma condição material significativa. Sua residência localizava-se na rua Marechal Deodoro, um dos principais logradouros de Juiz de Fora. Daniel Moratori (2017) observou que essa via foi tradicionalmente dedicada ao comércio, mas também abrigou numerosas residências particulares, incluindo sobrados e palacetes, sobretudo em sua parte alta, próxima ao Parque Halfeld. No número 482, José Eutrópio residia desde, pelo menos, o início da década de 1920. Não se tratava de um bem próprio, mas de um imóvel alugado pela significativa quantia de 250$000 (duzentos e cinquenta mil réis) mensais.3 Era uma casa térrea espaçosa, composta por sala, alcova, gabinete (biblioteca), corredor, dois quartos, banheiro e latrina, cozinha com água encanada e quintal murado. Apesar desses confortos, é possível que José Eutrópio – assim como outros moradores e comerciantes de imóveis térreos da rua Marechal Deodoro – tenha sofrido com as frequentes inundações do rio Paraibuna, que afetavam a região no início do século XX (Moratori, 2017).
Em meio a tais adversidades – ou apesar delas – o inventário post-mortem de José Eutrópio revela um estilo doméstico refinado, evidenciado pela posse de um conjunto de mobiliário considerado, segundo as dinâmicas de consumo da época, como sofisticado e luxuoso (Barbuy, 2006; Deaecto, 2002; Needel, 1993). Os cômodos de sua residência eram compostos por armários em macaúba, estofados para a sala de visitas, piano, vitrola, gramofone, espelho, escrivaninha, estantes, mesa e cadeiras de peroba, relógio, buffet e guarda-pratos de carvalho, louças de porcelana, fogão de ferro e lavatório. É válido ressaltar, contudo, que esses registros representam o patrimônio material de José Eutrópio em um momento muito específico: o de seu falecimento, em meados de 1929. Nesse sentido, e considerando as particularidades desse tipo de documento, o espólio inventariado pode não ter correspondido à totalidade dos bens. Alguns objetos podem ter sido omitidos ou partilhados informalmente entre Themístocles e Júlio Eutrópio, seus irmãos e herdeiros, já que a legislação da época permitia a realização de partilhas amigáveis, desde que não houvesse prejuízo à quitação das dívidas ativas e passivas do falecido (Furtado, 2009; Silveira, 2023; Teixeira, 2012). Além disso, é plausível supor que José Eutrópio tenha acumulado – e também se desfeito – de outros bens ao longo de sua vida, os quais, por essa razão, não constaram em seu inventário post-mortem.
Seja como for, o patrimônio material amealhado por José Eutrópio – ao menos aquele descrito por ocasião de seu falecimento – oferece, ainda que com muitas restrições, possibilidades empíricas e perspectivas de análise para refletir sobre relações de classe, raça, mobilidade social e sobre os processos de acumulação e distribuição de riqueza de indivíduos e famílias negras no pós-abolição. Não se pretende aqui realizar uma pesquisa sobre a chamada “elite” negra, nem sobre os múltiplos sentidos que tal conceito político poderia ter assumido na vida de homens e mulheres que construíram algum patrimônio material significativo nas primeiras décadas do século XX. A proposta é, antes, fomentar investigações acerca da multiplicidade de experiências que marcaram as distintas vivências de pessoas negras que alcançaram melhores condições materiais de vida em um contexto político no qual os marcadores raciais (cor, condição étnico-racial) eram fundamentais para a constituição dos padrões de classe e das concepções de consumo material na sociedade brasileira, na qual, em geral, a ascensão social de pessoas negras confundia-se com uma forma de compromisso político com as lógicas da ideologia da brancura.4
Ainda que José Eutrópio fosse “excepcional” em termos de condição financeira – sobretudo quando comparamos sua trajetória às experiências dos estratos pobres das populações negras em Juiz de Fora no início do século XX, por exemplo (Batista, 2006; Guimarães, 2006) – sua vida oferece elementos para o estudo de histórias negras “excepcionais-normais” (Grendi, 2009). Trata-se de biografias que combinaram experiências associadas à riqueza, ocupação, mobilidade e ao reconhecimento de status social. Nesse sentido, Melina Perussatto (2018, p. 30), ao analisar trajetórias de indivíduos e famílias negras que construíram significativo patrimônio material e simbólico em Porto Alegre (RS) no pós-abolição, sugeriu o uso da categoria analítica de “classe instruída da raça”. Ela destacou, em especial, a capacidade heurística dessa noção para investigar “as particularidades de processos de mobilidade social e diferenciação interna entre estratos das populações negras tendo a raça como ponto de referência”. Ainda, segundo a autora:
Indivíduos e famílias negras não estavam “jogadas à própria sorte” no pós-abolição, tampouco aquelas que alcançaram mobilidade social não o fizeram por emulação aos ditos padrões brancos. Apesar de toda ordem de adversidades enfrentadas em uma sociedade que se estruturava em linhas de cor e raça, indivíduos e famílias negras agenciaram suas vidas em liberdade, por mais estreitas que fossem ou aparentassem ser suas margens de possiblidades, e nos apresentam seus pontos de vista sobre o turbulento processo histórico compreendido entre meados do século XIX e primeiras décadas do XX (Perussatto, 2018, p. 178).
Em meio aos diversos projetos de mobilidade e ascensão social elaborados e vivenciados por estratos das populações negras no pós-abolição – sobretudo por aqueles que construíram significativo patrimônio material – o apreço à escolarização formal destacou-se como forma de capital cultural arduamente perseguido. Esse investimento oferecia não apenas status, mas também vantagens financeiras e simbólicas. A posse de livros, por esse viés, tinha uma dimensão que ia além do aspecto estético vinculado a uma determinada cultura do consumo em vigor no início do século XX. Ela funcionava igualmente como uma espécie de “atestado” de ascensão e posição social (Almeida, 2018).
Essas balizas permitem compreender como manifestações de preconceito racial – como o racismo – influenciavam a vida desses indivíduos. Elas condicionavam, em grande medida, seus modos de perceber o mundo e de recriá-lo a partir de posições econômicas relativamente privilegiadas. Nesse sentido, essas experiências ajudam a revelar as configurações assumidas pelo racismo enquanto prática política e como padrão de comportamento social. Mostram também como tais dimensões afetavam, de maneiras distintas, mas de forma transversal, os amplos e diversos segmentos da população negra. Esse tipo de preocupação historiográfica tem o potencial de ampliar o campo de debate sobre a historicidade da construção social do racismo na sociedade brasileira do pós-abolição.
Nesse contexto, semelhanças culturais compartilhadas por indivíduos e famílias negras remediadas podem ter se convertido em marcadores de identidade de classe. Tais balizas têm potencial para ajudar a compreender como formas de discriminação racial – como o racismo – impactavam esses sujeitos, moldando, em grande medida, seus modos de perceber o mundo e de reinventá-lo a partir de posições econômicas relativamente privilegiadas.
Com a pretensão de contribuir para discussões nesse sentido, mas ciente de que a experiência de José Eutrópio oferece apenas conjecturas gerais e, portanto, limitadas, considero que o estudo de seu patrimônio material, em especial de sua biblioteca, por meio da análise do inventário post-mortem, pode fornecer elementos para avançar no debate sobre indivíduos negros que construíram alguma forma de riqueza. Essas trajetórias revelam como tais sujeitos vivenciaram dimensões de classe e de raça, marcadores em torno dos quais se desenvolveram processos de produção de diferenças, bem como mecanismos de inclusão e exclusão na sociedade brasileira do pós-abolição.
OS LIVROS DA EUTROPIANA
Com a finalidade de refletir sobre os padrões e práticas de leitura, bem como os mecanismos de produção, circulação e consumo de culturas letradas experimentados por José Eutrópio no início do século XX, adoto a categoria de intelectual negro como recurso teórico, conceitual e epistêmico para investigar a sua biografia, bem como algumas características de sua biblioteca privada. Nas palavras de Matheus Gato:
Para uma análise interessada em compreender a constituição de intelectuais negros, a exigência metodológica é discernir, para cada caso particular, os constrangimentos e os privilégios implicados no exercício da ‘função de intelectuais’ e, entre estes, a relevância ou não da raça [...]. Em sociedades racializadas, historicamente marcadas pela escravidão e colonialismo, nas quais a circulação de capitais econômicos e simbólicos forja a existência e a hierarquia entre os grupos de cor, as práticas descritas como intelectuais e as formas de distinção social que as mesmas constituem também são valoradas em relação à ordem racial (Gato, 2023, p. 187-188).
Meu objetivo foi tentar compreender as formas de leitura e apropriação de textos desenvolvidas por José Eutrópio, a fim de entender as concepções intelectuais que orientaram a conformação de sua biblioteca e, por consequência, dos seus modelos de comportamento político adotados no debate público. Trata-se de uma proposta difícil e ousada, considerando a impossibilidade de apreender as múltiplas subjetividades presentes nos atos de adquirir, colecionar, organizar, ler e viver uma biblioteca privada e os objetos que a compõem. O inventário post-mortem de José Eutrópio, de fato, permitiu acessar informações sobre sua biblioteca, mas não sobre os significados que essa posse de livros poderia ter para ele, especialmente no que diz respeito às dimensões afetivas e simbólicas dessa relação. As possibilidades de investigação sobre a posse privada de livros são, portanto, inesgotáveis. Ainda assim, considerando que o estudo de bibliotecas particulares permite desenvolver análises historiográficas sobre traços específicos da personalidade de seus proprietários, entendi que a Eutropiana poderia oferecer subsídios para uma reflexão sobre aspectos da vida de José Eutrópio, em especial sua formação intelectual.
As bibliotecas particulares constituem um campo profícuo de estudo, capaz de revelar tanto o perfil intelectual de seu proprietário quanto a formação da mentalidade de uma determinada época (Ferreira, 1999; Silva, 2002; Silva, 2014). Por esse viés, considero que a Eutropiana oferece a possibilidade de construir uma história das práticas de leitura de um expoente da geração de intelectuais negros formada entre a última década do século XIX e as primeiras do XX, inserida na cronologia e no processo social do pós-abolição, contexto marcado pela intensa racialização das relações sociais e pela disseminação de diversas formas de interdição às possibilidades de que pessoas negras vivenciassem a plenitude de sua humanidade (Santos; Nascimento, 2023).
A historiografia da história das bibliotecas (especialmente das particulares) e das práticas de leitura tem apresentado caminhos profícuos para a investigação de dinâmicas sociais, políticas, econômicas e culturais de diferentes cronologias (entre outros, Darnton, 1987; Chartier, 1994). Assim, uma biblioteca particular oferece inúmeras pistas sobre a trajetória de quem a constituiu. Os livros reunidos, ainda que nem todos tenham sido efetivamente lidos, permitem delinear perfis de leitores e modos de ler. Conforme Robert Darnton:
O catálogo de uma biblioteca particular pode servir como perfil de um leitor, mesmo que não leiamos todos os livros que possuímos e leiamos muitos livros que nunca compraremos. Examinar o catálogo de uma biblioteca particular é inspecionar os materiais do cérebro de seu proprietário e ligar o “quê” com o “quem” da leitura” (Darnton, 1990, p. 151).
Em diálogo com tais considerações, realizei uma análise historiográfica orientada à compreensão da conexão entre os livros de José Eutrópio e sua atuação intelectual, tanto como leitor quanto como produtor de bens simbólicos e mediador cultural (Gomes; Hansen, 2016), considerando a relação entre a “ortodoxia dos textos” e a “diversidade das leituras”, nos termos propostos por Roger Chartier (1990). Nesse quadro interpretativo, a biblioteca de José Eutrópio torna-se um ponto de observação privilegiado. O seu inventário post-mortem oferece uma rara oportunidade de acessar os contornos materiais desse universo de leituras e de compreender como se articulavam as práticas de consumo cultural e a produção intelectual.
“Possui uma biblioteca composta de 410 itens, sendo 390 livros encadernados e brochuras, para estudos de Direito, educação, arte e literatura”.5 Assim foi descrita, no inventário post-mortem, a biblioteca de José Eutrópio, por Ormindo Maia, escrivão do Cartório do 3º Ofício, com base na avaliação de Sebastião Augusto Gomes, então avaliador judicial da Primeira Vara da Comarca de Juiz de Fora.6 Nesse documento notarial, os livros não foram inventariados de forma completa. Por descuido, ou por critérios não explicitados, os responsáveis pela avaliação dos bens dedicaram pouca atenção ao acervo bibliográfico, que acabou registrado de modo impreciso e pouco rigoroso. Informações sobre autoria, título, local, editora e data de publicação aparecem de forma incompleta, fragmentada ou imprecisa. Em muitos casos, há apenas o registro do autor; em outros, apenas o título, muitas vezes anotado de maneira parcial. Essas lacunas no inventário post-mortem sugerem que parte da biblioteca pode ter circulado fora do registro formal do documento, seja por empréstimos, doações ou partilhas informais. Ainda que descrita de modo lacunar, a menção a mais de 300 livros indica um acervo significativo. Sua posse podia sinalizar distinção social em um contexto em que o acesso a esse tipo de bem cultural era restrito, sobretudo entre as populações pobres no início do século XX.
Tudo indica que José Eutrópio não dispunha de um catálogo de sua biblioteca, o que possivelmente teria facilitado o trabalho do avaliador judicial e do escrivão. No exercício de suas funções burocráticas, os oficiais de justiça elaboraram uma listagem desordenada, na qual os livros não foram registrados segundo qualquer critério de organização, como gênero, temática ou autoria. Além disso, consignou-se de forma genérica apenas o valor total da biblioteca em relação aos demais bens do espólio, sem qualquer especificação do preço individual dos exemplares. Nesse contexto, os livros da Eutropiana foram avaliados em 600$000 (seiscentos mil réis), um valor expressivo quando comparado às quantias atribuídas aos demais itens do inventário post-mortem.7
Alguns dos objetos mais bem avaliados no espólio de José Eutrópio estavam dispostos em um cômodo da casa descrito, no inventário post-mortem, como “gabinete”, onde se encontrava a Eutropiana. É possível que os livros, além de “revistas, estatística, catálogos de livrarias e catálogos de partituras para piano”, estivessem organizados nas “oito estantes” ou acomodados sobre a “mesa secretária com estante”. A “vitrola ortofônica, da marca Victor”, provavelmente harmonizava o ambiente, pensado não apenas para os deveres profissionais, mas também para momentos de lazer. Completava a composição do espaço um “gramofone Victor” e “nove fitas de cinema”, possivelmente dispostos nas várias estantes do gabinete.8 A existência de um espaço – reveladoramente nomeado como gabinete – reservado à leitura, com estantes, escrivaninha e outros objetos próprios de uma biblioteca, indica não apenas hábitos intelectuais, mas também a incorporação de padrões de conforto e distinção característicos da cultura de consumo das classes médias e altas da época (Deaecto, 2002).
Considerando as limitações impostas pela natureza do inventário post-mortem de José Eutrópio, que inviabilizaram a construção de uma categorização rigorosa de seus livros, optei por formular uma divisão temática assumidamente arbitrária e, em certa medida, artificial. Meu objetivo não foi produzir uma classificação bibliográfica, mas elaborar aquilo que Almeida (2018, p. 70) definiu como um “catálogo de intenções de leitura”. A análise do inventário, articulada a outros registros da produção intelectual de José Eutrópio, sugere que o acúmulo de livros não correspondeu, necessariamente, a uma prática efetiva de leitura. Assim, é razoável supor que nem tudo o que integrava a Eutropiana foi, de fato, lido. Da mesma forma, é possível afirmar que sua formação como leitor também se deu por meio do acesso a obras que não faziam parte de sua biblioteca, seja por não terem sido registradas no inventário post-mortem, seja por terem circulado em outros espaços.
Esse foi o caso, por exemplo, das obras de Manuel Raymundo Querino (1851-1923), intelectual negro que foi um dos fundadores da moderna antropologia afro-baiana e ganhou destaque nos estudos sobre folclore e cultura popular no início do século XX. Em 1925, José Eutrópio publicou, no Correio de Minas, uma crônica política na qual discutiu a tentativa de elaboração de um saber escolarizado sobre determinada concepção da história da África, em estreito diálogo com as ideias presentes em O colono preto como fator da civilização brasileira, originalmente publicado nos Anais do 6º Congresso Brasileiro de Geografia, em 1918.9 Todavia, nem esse texto nem outras obras de Manuel Querino constaram no inventário post-mortem de José Eutrópio.
No exercício de elaborar uma “classificação” para as obras da Eutropiana, considerei os limites tênues na relação entre aquisição e consumo dos livros, como a distinção entre exemplares possivelmente adquiridos para atender às exigências profissionais e aqueles ligados aos interesses pessoais de José Eutrópio. No gráfico a seguir, o tópico “Estudos Sociais” – que concentra a maior quantidade de livros – inclui, de forma discricionária, uma diversidade de autores e obras sobre Sociologia, Política, Geografia, História da Literatura, História do Teatro e, especialmente, Economia Política. Dos 111 livros atribuídos a esse tema, 11 pertencem à área de Economia Política e, possivelmente, relacionavam-se a uma das atividades profissionais de José Eutrópio.
Entre 1918 e meados da década de 1920, ele lecionou a cadeira de Economia Política na Escola de Engenharia de Juiz de Fora.10 Não há registros específicos sobre sua atuação nesse ramo do magistério, mas é provável que suas aulas tenham sido elaboradas e ministradas com base em leituras e interpretações originais de clássicos da Economia Política, como Economia política, finanças e contabilidade (1918) e Direito Administrativo Brasileiro (1923), ambos de Aarão Leal de Carvalho Reis; Curso Didático de Economia Política ou Ciência do Valor (1913), de Joaquim José Vieira de Carvalho; e Elements of Political Economy (1821), de James Mill.11 Apesar de essa bibliografia ser considerada clássica no ensino da disciplina (Cosentino, 2019), é razoável supor que José Eutrópio tenha imprimido suas marcas intelectuais na oferta desse curso, especialmente considerando suas reflexões centradas na questão racial no Brasil do início do século XX, conforme será abordado adiante.
Ainda sobre a “classificação” temática da Eutropiana, os tópicos com maior volume de livros – “Literatura geral”, “Literatura didático-escolar (manuais, compêndios, cartilhas)”, “Educação, Ciências da Educação, Pedagogia e afins” e “História” – apresentam elementos relevantes para compor o perfil de leitor, bem como o consumo e as práticas de leitura de José Eutrópio. No que se refere à “Literatura geral”, que inclui romances, contos, poesias e poemas, destaca-se a presença significativa de autores negros, como Luiz Gama, Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto e Mário de Andrade. A presença expressiva desses autores na Eutropiana pode ser interpretada como um indício das estratégias intelectuais e afetivas mobilizadas por José Eutrópio na construção de uma trajetória como intelectual negro, cujas referências dialogavam com uma tradição literária e política marcada pela crítica à organização da sociedade brasileira, fundamentada em hierarquias raciais. Essa característica será analisada com mais detalhe na próxima seção. Ressalto, entretanto, o apreço e o interesse de José Eutrópio por uma dimensão ampla e diversificada de literatura, bem como o papel de sua biblioteca como espaço de lazer, para além de um local dedicado exclusivamente aos livros relacionados ao magistério ou ao Direito.
Os três últimos tópicos com maior volume de livros refletem a atuação de José Eutrópio no magistério, tanto no ensino normal quanto no secundário. Na Escola Normal Santa Cruz, de Juiz de Fora, ele lecionou por quase uma década, a partir de 1915, ministrando as disciplinas de Pedagogia Prática e Organização Escolar. No nível secundário, atuou regularmente no ensino de História do Brasil, História Universal e História Geral, na Academia de Comércio, entre 1915 e o final da década de 1920. Nesses campos, José Eutrópio desenvolveu um pensamento educacional sobre didática e outras metodologias de ensino, assim como sobre História escolar. Esse trabalho intelectual foi certamente influenciado por autores e obras agrupados sob o termo “Ciências da Educação”, entre os quais se destacam Carneiro Leão, Manoel Bomfim, Camilo Passalaqua e Jean Baptiste Daligault, nomes mais citados por José Eutrópio em seus textos publicados na imprensa.
Em relação aos livros de História escolar, além de sua posse decorrer das demandas do ofício de professor dessa disciplina, muitos outros exemplares foram doados a José Eutrópio após seu ingresso no cargo de relator do Conselho Superior de Instrução Pública, órgão da administração centralizada do Governo de Minas Gerais, vinculado à Secretaria do Interior. Nomeado em outubro de 1919, ele passou a integrar essa seção da Inspetoria Geral de Instrução em razão de sua atuação como inspetor regional de ensino.12 Entre as atribuições dos membros do Conselho Superior, estavam as de “emitir parecer a respeito de compêndios e aparelhos didáticos” e “organizar a relação dos compêndios aprovados para o ensino público, bem como a dos livros a serem adotados em cada um dos quatro anos do curso primário”.13
Nessa atividade, José Eutrópio atuou como relator da Comissão de Compêndios de História Pátria, entre 1919 e 1922. Tanto durante quanto após seu desligamento dessa função, recebeu obras didáticas de alguns autores desse universo editorial como presentes, e, para algumas delas, chegou a publicar breves comentários na imprensa. Em 1922, por exemplo, recebeu de Carlos Góes – seu amigo e colega no Conselho Superior de Instrução – a primeira edição de Pontos de Instrução Moral e Cívica, destinada ao ensino escolar de História nos estabelecimentos de nível primário. Em tom afetuoso, “com muita amizade e admiração”, José Eutrópio “agrade[ceu] a cortesia com que [foi] galharde[ado] com o primoroso livro”.14 Já em 1925, utilizou a imprensa para registrar o recebimento da segunda edição do manual escolar Nossa Pátria (1917), de Rocha Pombo, informando que “agradec[ia] o envio do livro, com o testemunho de reconhecimento e afetuosos sentimentos”.15
Para compreender as possibilidades que se apresentaram a José Eutrópio no que se refere à vivência com livros e práticas de leitura, considerando não apenas as condições mercadológicas da época, mas também seu poder aquisitivo, segui as lições de Vivian Nani Ayres (2018) e procurei priorizar a apreensão dos modos como os livros foram possivelmente apropriados e mobilizados para determinados propósitos, em detrimento de um exercício de definição sobre como foram lidos e assimilados. Isso não significa, contudo, desconsiderar os prováveis efeitos que essas leituras produziam. De acordo com Marisa Midori Deaecto (2019, p. 348), “as bibliotecas privadas resultam de escolhas subjetivas, já que são frutos das possibilidades de consumo de uma época, tanto financeiras, considerando que os livros não eram acessíveis a qualquer interessado, quanto das possibilidades de acesso, à vista do desenvolvimento do comércio livreiro”.
José Eutrópio foi um intelectual profundamente inserido no que, então, se denominava “mundo das letras”, no início do século XX. Nesse contexto, é certo que também participou – ao menos na condição de consumidor e leitor – da rede de comércio livreiro de Juiz de Fora no período. Para se ter uma ideia, entre 1915 e 1930, o setor livreiro juiz-forano contava com seis livrarias, algumas delas especializadas em segmentos específicos, como a Livraria Bulcão, na rua Halfeld, que, em propaganda de 1922, informava possuir “grande sortimento de livros de ensino primário, secundário e superior, os quais vende por preços baratíssimos”.16
Já a Livraria Sampaio, também localizada na rua Halfeld, atuava no comércio de “compra e venda de livros novos e usados”, conforme divulgava na imprensa. Suas publicidades informavam que o estabelecimento “compra[va] bibliotecas e livros avulsos” e oferecia um “completo sortimento de livros escolares, de Literatura, Ciência, Direito”.17 Havia, ainda, outros “circuitos do livro” (Deaecto, 2019, p. 28) presentes em Juiz de Fora nos primeiros anos do século XX, como a venda de livros em casas comerciais não especializadas ou em tipografias. A Sociedade Propagadora de Letras e Artes, também sediada na rua Halfeld, dedicava-se ao comércio de “papelaria, tipografia, pequeno bazar e livraria”.18 A oficina da Tipografia de O Pharol, igualmente situada na mesma rua, também se inseria nesse comércio livreiro. Ao longo de 1926, seus anúncios informavam que, em sua sede, podiam ser adquiridos exemplares da Enciclopédia Tesouro da Juventude.19
Não há espaço aqui para tratar adequadamente das relações – econômicas e culturais – entre os circuitos livreiros e a população juiz-forana em sua diversidade. Ainda assim, é importante destacar que, no início do século XX, e certamente também em períodos anteriores, havia na cidade diversas formas de circulação do livro, o que implicava uma variedade de práticas de leitura experimentadas por diferentes grupos sociais. Os circuitos do livro em Juiz de Fora foram constituídos por distintos espaços de sociabilidade vinculados às práticas leitoras. Além das livrarias, integravam esse universo a Sociedade Maçônica Fidelidade Mineira, a Confeitaria Rio de Janeiro e a Charutaria Campos, todas localizadas na rua Halfeld. Maraliz de Castro Vieira Christo (1994) e Ana Lúcia Fiorot de Souza (2005) identificaram tais espaços como pontos de encontro cultural das intelectualidades juiz-foranas. A própria rua Halfeld, onde se concentrava a maior parte das livrarias e de outros estabelecimentos congêneres, pode ser interpretada como um espaço de expressão e produção desse circuito livreiro.
Todavia, esse universo do livro e das práticas de leitura não se restringia a uma determinada elite intelectual, tampouco ao mundo das pessoas alfabetizadas ou que, ao menos, dominavam as regras mínimas da leitura e da escrita. Houve, por certo, inúmeras possibilidades de experimentar e conviver com os circuitos livreiros em Juiz de Fora.20 Nesse cenário, livreiros e mercadores ambulantes, além das tradicionais livrarias, disputavam clientes anunciando livros de diversos tipos e formatos a baixos preços, especialmente durante as festas religiosas realizadas na cidade.21 No festejo de Santo Antônio, ocorrido em julho de 1924, a imprensa noticiou que a “festa teve a parte religiosa e recreativa, com livreiros ambulantes, quermesse, barraquinhas e uma grande tômbola”.22 O mesmo ocorreu na Festa de Nossa Senhora das Graças, em 1925, cujos organizadores informaram pela imprensa que a festividade contaria com a presença de livreiros entre suas atrações.23
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O ÚLTIMO LIVRO PARA A EUTROPIANA
Retomando uma chave analítica já esboçada ao longo deste artigo, as reflexões finais se voltam à noção de intelectual negro como conceito que permite compreender o sentido mais amplo da biblioteca de José Eutrópio e sua atuação como leitor e agente de mediação cultural. Entre os débitos deixados por ele e quitados pelos seus inventariantes e herdeiros, estava a compra de um livro, possivelmente o último que adquiriu para compor a Eutropiana. Um recibo de pagamento, emitido em agosto de 1929, pela Casa Crashley & Co., livraria especializada na importação de livros, impressos, jornais e revistas estrangeiras, sediada no Rio de Janeiro (Machado, 2012), informava que o exemplar encomendado junto à Livraria Aillaud Bertrand, de Lisboa, em Portugal, chegaria em algumas semanas.24 O preto do Charleston (1929), de autoria de Mário José Domingues (1899-1977), jornalista e historiador são-tomense radicado em Portugal, foi adquirido pela expressiva quantia de 95$000 (noventa e cinco mil contos de réis).
Os estudos sobre a vida e a obra de Mário Domingues indicam que a elaboração dessa narrativa de ficção em prosa foi informada pelas tendências políticas dos modernismos pan-africanistas que circulavam no circuito transnacional da modernidade negra dos anos 1920, do qual seu autor foi um dos expoentes (Beleza, 2024; Domingues, 2022; Garcia, 2022; Pereira, 2023). O Preto do Charleston narra a história de um jovem emigrante angolano que, na década de 1890, após viver nos Estados Unidos, fixa residência em Lisboa (Portugal), onde passa a atuar como dançarino e divulgador da cultura musical afro-diaspórica, como o charleston e outros gêneros congêneres. José Eutrópio se envolveu profundamente com esse universo transnacional dos modernismos negros. Considero, inclusive, que seu interesse por essa obra específica de Mário Domingues esteve relacionado à sua atuação no teatro de revista.
Em estudo anterior, analisei a produção intelectual de José Eutrópio nesse ramo da indústria cultural, no qual escreveu peças cujos repertórios abordavam, de forma frontal, temáticas relacionadas ao racismo que, por sua vez, constituíam o cerne dos enredos (Ribeiro; Gonçalves, 2024). Por meio da montagem e exibição dessas peças, cujos protagonistas eram personagens negros, interpretados por atores e atrizes negras, ele interpelou a forma hegemônica de produção estética da cultura revisteira, marcada por narrativas em que predominavam imagens, estereótipos e representações racistas, costumeiramente associadas às populações e à cultura negra.
De fato, os registros sobre a vida de José Eutrópio, a exemplo do seu inventário post-mortem, revelam um indivíduo que, em diferentes momentos, esteve profundamente comprometido com distintas formas de diálogo com obras de intelectuais negros. Em sua diversificada produção intelectual, interpretou certas correntes, bem como diversas expressões de ideologias das teorias raciais que circulavam nos debates científicos e intelectuais do pós-abolição, utilizando-as como recurso político para difundir projetos de contestação às hierarquias e desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira. Nesse contexto, sua biblioteca oferece elementos para refletir sobre a construção de uma gramática própria e uma visão de mundo particular, além de possibilitar a observação de práticas plurais de leitura, tradução e interpretação de ideias que circulavam nas primeiras décadas do século XX. Mais do que um simples catálogo de obras, a Eutropiana pode ser compreendida como parte de um projeto de distinção e mobilidade social, no qual os livros operavam como instrumentos de trabalho, de consumo cultural e de reconhecimento político.
Ao longo deste artigo, argumentei que o conceito de intelectual negro oferece uma chave interpretativa útil para a compreensão da trajetória de José Eutrópio. Suas práticas de leitura, as obras reunidas em sua biblioteca e sua atuação na imprensa, no magistério e no teatro de revista evidenciam um projeto de mediação cultural e de construção de uma gramática intelectual inscrita no campo do pensamento negro moderno. A Eutropiana, nesse sentido, refletia não apenas um acervo, mas também uma tomada de posição política em uma conjuntura marcada por intensos debates sobre os significados de povo, sociedade, nação, direitos, cidadania, cor e raça, disputados por diferentes parcelas e grupos das populações negras no pós-abolição.
Quais foram os significados incutidos no hábito político de estabelecer diálogos intelectuais com diferentes formas de pensamento negro? A atenção à complexidade desse comportamento político oferece elementos para problematizar a trajetória intelectual de José Eutrópio, bem como os múltiplos sentidos que podem ser atribuídos à composição de sua biblioteca e às suas práticas de leitura. Esse aspecto pode indicar pistas para refletir sobre suas possíveis relações com o realismo irônico e a crítica social presentes em obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Esaú e Jacó, de Machado de Assis; na literatura de cunho abolicionista e combativo, como Primeiras Trovas Burlescas, de Luiz Gama; ou em Missal, de Cruz e Souza. Esse aspecto também permite refletir sobre como a ácida crítica ao racismo e às desigualdades raciais que estruturavam a sociedade brasileira pós-abolição, presente em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, dialogou com os sentidos atribuídos às práticas de leitura de José Eutrópio.
Reconheço que, entre possuir e ler um livro, pode haver uma distância significativa, assim como é possível que um leitor não leia todos os livros que possui, bem como leia muitos que não estão em sua posse privada (Darnton, 1990). Entretanto, no caso de José Eutrópio, ainda que não tenha lido todos os livros de autores negros presentes em sua biblioteca, o fato de tais obras figurarem entre seus exemplares é elucidativo do perfil político e do projeto intelectual que ele buscou construir ao longo de boa parte de sua vida. Entre o planejado, o adquirido, o guardado, o lido, o anotado e o que ficou para uma leitura futura, o registro dos livros da Eutropiana apresenta possibilidades historiográficas instigantes para investigações sobre a diversidade de experiências negras que marcaram a sociedade brasileira no pós-abolição.
Explorando essas possibilidades, a análise da biblioteca de José Eutrópio permitiu problematizar a constituição material e simbólica de um acervo singular, articulando práticas de leitura, consumo cultural e trajetórias de mobilidade social. Mais do que um simples catálogo de bens, a Eutropiana revela as formas pelas quais um intelectual negro no pós-abolição construiu formas de comportamento político e hábitos sociais. Por este viés, o estudo de experiências semelhantes a de José Eutrópio pode contribuir para iluminar uma dimensão ainda pouco explorada da história de experiências negras nas emancipações e no pós-abolição no Brasil, ao evidenciar que a posse e o uso de livros também foram instrumentos que poderiam ser utilizados como canais para definir ou exteriorizar concepções de participação social e de direitos forjadas por pessoas negras, produzindo expectativas atravessadas por distinções de raça, classe e gênero. Futuras pesquisas que explorem outros inventários post-mortem e a posse de bibliotecas privadas poderão ampliar essa reflexão, permitindo compreender, de maneira comparada, como diferentes sujeitos negros construíram patrimônios materiais significativos e os modos pelos quais vivenciaram experiências moldadas verticalmente em relações de riqueza, poder e influência social e política, mas também as formas de desigualdade e as tensões sociais geradas em torno dessas outras possibilidades de vivência.
AGRADECIMENTOS
Este artigo é resultado parcial de pesquisa apoiada pela FAPESP (2022/15052-5) e está inserido no projeto temático “Saberes e práticas em fronteiras: por uma história transnacional da educação” (FAPESP 2018/26699-4), desenvolvido na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Uma versão preliminar foi apresentada no 33° Simpósio Nacional de História (Belo Horizonte, de 13 a 18 de julho de 2025), a cujos participantes agradeço pelos comentários feitos na ocasião.
REFERÊNCIAS
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- YAZBECK, Dalva. As origens da Universidade de Juiz de Fora. Juiz de Fora: Editora UFJF, 1999.
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
HOMENAGEM, Jornal do Comércio, Juiz de Fora, 10 abr., 1930, p. 2.
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2
Maraliz de Castro Vieira Christo (1994) elaborou um argumento instigante sobre o comportamento político dos intelectuais juiz-foranos da geração de José Eutrópio. Para ela, tratava-se de indivíduos empobrecidos, oriundos das camadas médias urbanas, que, para ingressar e participar do mercado de trabalho da produção cultural, recorreram à condição de homens escolarizados, letrados e detentores de cabedal intelectual como estratégia de mobilidade social. Seu estudo, todavia, limitou-se à análise das trajetórias de homens brancos. Assim, marcadores de raça não apareceram como elementos capazes de influenciar a elaboração de hierarquias e desigualdades sociais e políticas vivenciadas entre o establishment intelectual juiz-forano no início do século XX.
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3
Essa e as demais descrições que se seguem dos itens do espólio de José Eutrópio estão em ARQUIVO HISTÓRICO DE JUIZ DE FORA (AHJF), Juiz de Fora. Inventário de José Eutrópio, 29 jun. 1929. Caixa 1, pasta 6, 51 fls., não paginado (n. p.).
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4
São ainda escassos, na historiografia brasileira, os estudos sobre indivíduos e famílias negras com patrimônio financeiro no pós-abolição, especialmente aqueles voltados à análise dos processos de acumulação e distribuição de riqueza e dos significados atribuídos a esse tipo de acervo material em uma sociedade estruturada por desigualdades de classe e de raça. Algumas exceções podem ser identificadas em pesquisas dedicadas a figuras negras abastadas no século XIX, como Grinberg (2002), Parés (2024), Reis (2016). Para o período específico do pós-abolição, destacam-se, entre outros, os trabalhos de Gonçalves (2023), Moreira (2014), Perussatto (2018), Woodard (2014). De modo complementar, o conjunto de cartas e diários do engenheiro e abolicionista André Rebouças (1838-1898), recentemente organizado por Mattos (2022, 2024, 2025), oferece possibilidades úteis para compreender a experiência de um homem negro abastado (e de sua família) ao longo de grande parte do século XIX. No campo da sociologia das relações raciais, vale ainda mencionar o estudo clássico de Azevedo (1955) sobre a ascensão social de famílias negras baianas na primeira metade do século XX, bem como, em período mais recente, os trabalhos de Figueiredo (2002) e Rios (2014).
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5
AHJF. Inventário de José Eutrópio, 1929, n.p.
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6
O inventário post-mortem foi juridicamente organizado pelo escrivão Ormindo Maia, com base no parecer de Sebastião Augusto Gomes, avaliador judicial. Embora os irmãos de José Eutrópio, Themístocles e Júlio, fossem herdeiros diretos, não há indícios de que tenham redigido ou interferido na elaboração do documento.
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7
Para se ter uma ideia do que essa quantia representava em 1929, em termos da realidade econômica local, em dezembro de 1928 o Correio de Minas noticiou, na seção “Adquiriram Propriedades”, que “o sr. José Gomes da Silva comprou por 600$000 do sr. Sebastião Hermógenes de Carvalho um terreno com 10 metros de frente por 40 de fundo, à rua Maria Perpétua”, no bairro Botanágua, então uma região periférica de Juiz de Fora. ADQUIRIRAM PROPRIEDADES, Correio de Minas, Juiz de Fora, 10 dez. 1928, p. 1. O Jornal do Comércio, por sua vez, anotou que, em janeiro de 1929, um “escriturário da 4ª Região Militar [com sede em Juiz de Fora] recebia o salário mensal de 600$000”. ATOS OFICIAIS, Jornal do Comércio, Juiz de Fora, 25 jan. 1929, p. 1.
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8
Além de dinheiro em conta corrente no Banco de Crédito Real de Minas Gerais, de objetos preciosos, como “um anel de grau com aro de ouro”, e de um piano da marca Schiedmayer & Soehne, os demais bens de maior valor no espólio foram a vitrola ortofônica e o gramofone, ambos da marca Victor. Até aqui tudo em: AHJF. Inventário de José Eutrópio, 1929, n. p.
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9
EUTRÓPIO, José. Uma lição de História Pátria, Correio de Minas, Juiz de Fora, 15 mar. 1925, p. 2; 17 mar. 1925, p. 2.
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10
Fundada em 1914, a Escola de Engenharia de Juiz de Fora integrava o complexo educacional da Academia de Comércio (1884), mantida, por sua vez, pela Congregação do Verbo Divino. Além dos cursos superiores de Engenharia e Ciências Comerciais, a instituição oferecia o curso comercial (profissional) de Guarda-Livros. Sobre a trajetória desses estabelecimentos de ensino, ver: Wilson de Lima Bastos (1982), José Vicente César (1991), Maraliz de Castro Vieira Christo (1994, p, p. 69-100) e Dalva Yazbeck (1999, p, p. 42-54; p. 67-73).
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11
AHJF. Inventário de José Eutrópio, 1929, n. p. Conforme mencionado anteriormente, as referências aos livros no inventário post-mortem estão fragmentadas e incompletas. Para essas obras, não há informações sobre as datas de publicação, razão pela qual indiquei o ano da primeira edição. No caso do livro de James Mill, consta apenas o título, sem outras especificações.
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12
SECRETARIA DO INTERIOR. Minas Geraes, Belo Horizonte, 16 out. 1919, p. 1.
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13
MINAS GERAIS. Coleção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais em 1911. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, 1911, p. 175-176.
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14
PUBLICAÇÕES, Minas Geraes, Belo Horizonte, 18 dez. 1922, p. 4.
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15
IMPRESSOS, Correio de Minas, Juiz de Fora, 25 nov. 1925, p. 1.
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16
LIVRARIA BULCÃO, O Pharol, Juiz de Fora, 23 dez. 1922, p. 2.
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17
LIVRARIA SAMPAIO, O Pharol, Juiz de Fora 9 jan. 1924, p. 2. A Livraria Sampaio atuou como uma espécie de alfarrábio por longo tempo. Em 1916, por exemplo, a imprensa noticiou que seus proprietários haviam adquirido a biblioteca do professor Belmiro Braga, composta por “mil e muitos volumes dos melhores autores das literaturas portuguesa, francesa, inglesa e brasileira”, e que estavam “vendendo-os a preços excepcionais”. LIVRARIA SAMPAIO, O Pharol, Juiz de Fora, 14 abr. 1916, p. 1. Márcia Delgado (1999) realizou um estudo útil sobre a história dos alfarrábios (sebos) em Belo Horizonte ao longo do século XX.
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18
SOCIEDADE PROPAGADORA DE LETRAS E ARTES, O Pharol, Juiz de Fora, 15 jan. 1924, p. 2.
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19
ENCICLOPÉDIA TESOURO DA JUVENTUDE, O Pharol, Juiz de Fora, 8 fev. 1926, p. 2.
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20
A Biblioteca Pública Municipal de Juiz de Fora, fundada em 1897 e instalada na década de 1920 no Parque Halfeld, pode ser compreendida como parte de um circuito diversificado de circulação do livro e das práticas de leitura na cidade.
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21
Sobre os livreiros ambulantes do Rio de Janeiro de fins do século XIX e início do XX, ver o estudo de Alessandra El Far (2005).
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22
FESTA DE SANTO ANTÔNIO, Correio de Minas, Juiz de Fora, 13 jun. 1924, p. 2.
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23
FESTA DE N. S. DAS GRAÇAS, O Pharol, Juiz de Fora, 7 jun. 1925, p. 2.
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24
AHJF. Inventário de José Eutrópio, 1929, n. p.
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Editor responsável:
Ely Bergo de Carvalho
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.


Fonte: AHJF. Inventário de José Eutrópio, 1929, n.p.