Open-access Apresentação (Re)Pensar a cultura e a história cultural: as contribuições de Natalie Zemon Davis à historiografia

Presentation (Re)thinking Cultural History: Natalie Zemon Davis’s contributions to historiography

Em seus quase cinquenta anos de produção historiográfica, Natalie Zemon Davis (1928-2023) combinou, de modo engenhoso e inovador, a imaginação histórica e o rigor da pesquisa acadêmica. O presente dossiê busca repensar os caminhos da História Cultural na atualidade, a partir de uma retomada e reavaliação do importante trabalho desenvolvido pela historiadora norte-americana. Suas pesquisas, marcadas pela tentativa de trazer luz às experiências e trajetórias de sujeitos marginalizados — como os trabalhadores, as mulheres, e toda a “gente modesta” do passado — revelam uma profunda preocupação com o diálogo entre o passado e o presente, bem como os aspectos lúdicos e trágicos da História. A historiadora seguiu essa perspectiva desde o início de sua carreira. Culturas do Povo, seu primeiro livro, lançado em 1975, é significativo do seu olhar para a História. A obra atravessa a discussão sobre a cultura popular na Época Moderna, com ensaios sobre os ritos de violência, as greves, a religiosidade e as atividades desenvolvidas por mulheres no espaço urbano. Seu trabalho mais famoso, O retorno de Martin Guerre (1983), consolidou Zemon Davis como referência na abordagem da História Cultural e nos estudos de micro-história. Nele, a historiadora retratou as práticas cotidianas de uma vila do Languedoc ao narrar a história da usurpação da identidade do camponês Martin Guerre por um falsário, chamado Arnaud du Tilh.

O rigor e a imaginação, assim como o enfoque nos “excluídos da História”, continuaram a ser elementos centrais de suas reflexões ao longo de toda a sua carreira. Exemplo disso pode ser encontrado no livro Nas margens (1995), no qual Natalie Zemon Davis acompanhou a trajetória de três mulheres do século XVII: a judia Glikl bas Judah Leib, a católica Marie Guyart de l’Incarnation e a protestante Maria Sibylla Merian. Ainda no prólogo da obra, a historiadora elaborou um diálogo ficcional, brindando-nos com sua criatividade e sagacidade. Nele, Zemon Davis colocava as três mulheres para conversar. Elas, que nunca se conheceram na realidade, expressavam seu descontentamento por estarem juntas no mesmo livro. Inserindo-se na conversa imaginada, Zemon Davis justificava-se da seguinte maneira: “em minha época se diz às vezes que as mulheres do passado se parecem entre si, principalmente quando vivem no mesmo tipo de ambiente. Eu quis mostrar seus pontos em comum e suas disparidades” (Davis, 1997[1995], p. 12). Embora pudesse parecer um disparate às perspectivas teológico-políticas de suas fontes, Zemon Davis via nexo em elaborar uma espécie de biografia das três mulheres, demonstrando as possibilidades de atuação que essas personagens marginais aos centros de poder possuíam, mesmo naquela época. Para a historiadora, a margem não era simplesmente um espaço de exclusão, mas “uma região limítrofe entre depósitos culturais que permitiam novos cultivos híbridos surpreendentes. Cada qual à sua maneira, essas mulheres apreciaram ou adotaram uma posição marginal, reconstruindo-a como um centro localmente definido” (Davis, 1997[1995], p. 195-196).

O diálogo fictício desse prólogo evidencia uma das principais estratégias historiográficas de Zemon Davis. Em seus trabalhos, a historiadora sempre buscou estabelecer conversas em dois níveis temporais. Por um lado, voltava-se ao passado, dialogando com as fontes e os objetos de pesquisa. Por outro, colocava-se no presente, em um constante contato com seus leitores que, eventualmente, tomariam diferentes posições frente à sua obra. Para Zemon Davis, era esse diálogo entre passado e presente que constituía o movimento do “fazer histórico”. Somava-se a essa concepção sobre o tempo histórico, o interesse de Zemon Davis em examinar a história a partir de uma perspectiva vinda desde baixo. Articulando premissas do marxismo com a teoria interpretativa da cultura advinda da Antropologia, a autora se preocupou em recuperar as trajetórias populares da França do Antigo Regime, retratando camponeses, trabalhadores e grupos desprivilegiados. Para isso, deu especial atenção ao campo do simbólico, tornando-se uma pesquisadora expoente da História Social dos anos 1970. Tal vinculação se prestava a uma tentativa de reconectar a cultura e a sociedade, sem que a primeira fosse vista como mero reflexo da segunda. Ampliava-se, assim, o conceito de cultura, a partir das concepções de antropólogos como Clifford Geertz e Mary Douglas. Com isso, o arcabouço teórico dos Estudos Culturais se expandiu, possibilitando também a incorporação de novos objetos de pesquisa. Na esteira desse alargamento, tanto para baixo como para os lados, a vida cotidiana passou a ser o foco do renovado interesse dos historiadores pelo campo do simbólico, incluindo tanto os artefatos como as práticas (Burke, 2005, p. 43-56).

No âmago dessa articulação, Natalie Zemon Davis mobilizou, em diversas ocasiões, a noção de performance, por meio da qual entrelaçou várias dimensões da História Cultural em um eixo interpretativo comum. Embora a autora nunca tenha se preocupado em delimitar e defender uma determinada noção de cultura, ela ofereceu algumas nuances sobre as quais centrou o seu olhar. Em primeiro lugar, considerou a questão da materialidade da cultura, mais do que o conteúdo em si. Nesse ponto, a ideia de agência emergiu como categoria para compreender a história oral e da expressão, enfatizando a necessidade de ultrapassar as análises focadas apenas na identificação do que se dizia para compreender o contexto no qual as coisas foram ditas. Dessa maneira, a autora entendia o simbólico também como performance, ressignificando o estudo das festividades e dos rituais na Época Moderna, chamando atenção para a forma antes que para o conteúdo, para a prática antes que para a teoria (Davis, 2010, p. 26).

Paralelamente, outra categoria fundamental presente na análise cultural de Zemon Davis é a do conflito, da qual a historiadora nunca abriu mão. Ainda que o pressuposto do conflito de classes marxista tenha cedido cada vez mais espaço à análise de trajetórias individuais em seus trabalhos, a dimensão conflitiva das experiências humanas permaneceu. E a cultura, nesse ponto, aparecia como expressão fundamental dessa conflitividade. Com efeito, Natalie Zemon Davis afirmava que somente podemos entender verdadeiramente uma sociedade se conhecemos os seus conflitos em detalhe (Davis, 2000, p. 92).

Por essa razão, Zemon Davis centrou sua análise em fenômenos classificados como rituais de violência, ocorridos na França do século XVI, no auge das guerras de religião. Inspirada na obra Pureza e Perigo (1966), de Mary Douglas, a autora reinterpretou os tumultos entre católicos e protestantes ao designá-los como rituais de purificação, nos quais o espetáculo encenado pelos amotinados tinha como objetivo a limpeza da sociedade. Tal performance dramatizava a recomposição do tecido social no ato mesmo de expurgo dos perversos. Mais do que propor uma abordagem dramática do seu objeto de estudo, Natalie Zemon Davis concebia a história como um drama em si mesma. Em entrevista a Dennis Crouzet, explicou que percebia a História de forma “trágica e lúdica ao mesmo tempo [...]. Minha posição é metade do caminho entre Rabelais e Montaigne. Rabelais pelo espírito do jogo, e Montaigne pelo espírito da tragédia” (Davis, 2010, p. 10).

Suas perspectivas historiográficas e estratégias analíticas chamaram atenção. Seus trabalhos foram vastamente lidos e traduzidos, mas também criticados. Por um lado, seu recurso à imaginação histórica foi, muitas vezes, visto como uma falsificação, da qual sempre precisou se defender. Por outro, os próprios Estudos Culturais passaram por diversas revisões e a antiga dicotomia entre cultura erudita e cultura popular, que permitia acessar os marginalizados (em oposição aos privilegiados), foi combatida, dando vazão a novos e mais intricados conceitos de cultura. Ainda assim, observamos que as publicações de Natalie Zemon Davis não perderam a importância entre os estudos históricos. A autora continuou a ser lembrada como uma das grandes historiadoras do século XX por seu cuidado com o simbólico, as performances e as agências dos sujeitos históricos. Tendo isso em vista, o presente dossiê visa homenagear seu legado frente ao seu recente falecimento, oferecendo um espaço de reflexão sobre o estado da questão da História Cultural nos dias atuais. Nas reflexões aqui apresentadas, procura-se reavaliar a produção de Natalie Zemon Davis, que ajudou a consolidar a História Cultural como campo de conhecimento próprio e autônomo, e, ao mesmo tempo, atrativo e imaginativo a gerações de historiadores e historiadoras. Os quatro artigos e a entrevista que compõem este dossiê respondem, cada um à sua maneira, a essa proposta.

O artigo escrito por Laura de Mello e Souza esmiuça a humanidade de Natalie Zemon Davis, traçando um caminho para pensar os vários estratos que fazem uma historiadora. Há um amplo consenso em torno de Zemon Davis que diz respeito à sua profunda dimensão humana, como pessoa, mulher e mãe. A historiadora, em seu estar no mundo, foi sensível às questões e conflitos do seu próprio tempo. Paralelamente, não deixou de corresponder aos pressupostos metodológicos que definem o seu próprio métier. Dessa tensão, emergem as diversas camadas subjacentes à escrita: a da pesquisadora-científica, ancorada nas fontes, e a da pesquisadora-narradora, que depende muitas vezes da imaginação para preencher lacunas. E essas lacunas eram particularmente evidentes no caso das pessoas comuns e das minorias, que deixavam poucos vestígios. Daí surge a pergunta: O que é o historiador sem as suas estratégias narrativas? A partir dessa reflexão, revela-se a grande originalidade da interpretação de Laura de Mello e Souza sobre a metodologia praticada por Zemon Davis, desenvolvida na própria prática do fazer História, a partir de uma “fundamentação empírica transversal”, na expressão usada por Laura de Mello e Souza. Como já se sabe, o diálogo interdisciplinar foi um fator-chave na definição da História Cultural como campo. Mas aqui o foco se volta para a aproximação da historiadora norte-americana com a Literatura e a Teoria Literária. O estudo da criação de um novo gênero literário, as cartas de perdão, em Fiction in the Archives (de 1987, traduzido como Histórias de Perdão), serviu como insight para a construção da própria narrativa histórica. Isso porque nos levou a compreender as estratégias narrativas nas quais os indivíduos reconstruíam e recontavam os seus crimes, lançando mão de um modelo de escrita notarial e de artifícios retóricos próprios. A digressão léxica do vocábulo “ficção” feita por Laura de Mello e Souza esclarece como essas “qualidades ficcionais” foram lidas na linguagem jurídica da época, sendo parte do mecanismo avaliador que confere – e admite – a plausibilidade e verossimilhança da narração. A ficção, aqui, não se reduz à mera invenção ou falsidade, mas diz respeito a um conjunto de hipóteses e possibilidades abertas pela própria história: “a ‘matéria da invenção’ achar-se-ia ‘largamente distribuída pela sociedade’, as informações, valores e hábitos de linguagem fluiriam através das divisões referentes a classes e culturas distintas”. Sem perder de vista a identidade de texto historiográfico, Zemon Davis habilmente construiu e mobilizou um conjunto de recursos narrativos capazes de nos aproximar de outros mundos. Como bem concluiu Laura de Mello e Souza, esse “é um dos mais belos legados da historiografia de Natalie Zemon Davis”.

O artigo proposto pelos historiadores Ana Paula Megiani e Julian Abascal se insere em um dos campos mais vibrantes da História Cultural atualmente: o da Cultura Escrita. O campo é devedor das contribuições de Natalie Zemon Davis sobre os usos dos impressos não apenas como instrumentos de propagação das verdades confessionais nos tempos das guerras de religião, mas também como objetos carregados de valor simbólico, alvos da violência como parte dos rituais de purificação. Assim, a reconstrução do processo de publicação da primeira edição impressa na Espanha das Etimologias de Isidoro de Sevilha, redigidas no século VII, parte dessa dupla dimensão do livro no século XVI. Por um lado, temos o objeto. A produção material da obra, ao longo dos últimos decênios do reinado de Felipe II, estava inserida em um projeto contrarreformista pós-tridentino. Faz parte de um esforço de compilação de manuscritos para publicação de edições impressas, que os autores destacam ser um fenômeno central na Idade Moderna. A serviço do rei e do catolicismo, o livro-objeto assume um papel fundamental na tentativa de estabelecer a ortodoxia religiosa e fixar os textos cânones da Igreja Católica. A recuperação da figura de Isidoro de Sevilha nesse contexto não é fortuita, já que o autor das Etimologias estava em processo de canonização, que viria a ser concluído em 1598. O caráter erudito do bispo é atestado pelo estudo e pelo livro, no qual desenvolveu o método etimológico – o estudo do léxico - como instrumento para alcançar a verdade, o conhecimento – divino e humano. O simbolismo do objeto se revela na santidade do bispo de Sevilha e da tarefa que lhe cabe, unindo em si uma dimensão física e espiritual, tal como uma relíquia. Por outro lado, temos o projeto. O aumento da devoção a Isidoro de Sevilha ocorre em um contexto de consolidação da monarquia católica de Felipe II. O passado visigótico foi recuperado enquanto momento fundacional da monarquia católica como parte de uma narrativa que projetava Felipe II como defensor da fé. O Rei Católico dedicou especial atenção aos livros, reforçando a censura régia ao criar o seu próprio Index e definindo os textos básicos da ortodoxia católica. Um projeto que, como o da Bíblia Poliglota, combinava erudição e sacralidade na projeção de um modelo político-religioso em vias de contestação. Assim, a primeira edição hispânica impressa das Etimologias de Isidoro de Sevilha, interpretada pelo viés da Cultura Escrita, emerge como produto dessa fratura confessional que, em última instância, põe em disputa a própria verdade do conhecimento.

A contribuição de Francisco das Chagas Fernandes Santiago Júnior examina a relação entre Cinema e História, a partir das experiências e publicações de Natalie Zemon Davis. A primeira incursão da historiadora nas produções fílmicas foi em 1982, quando ofereceu consultoria à elaboração do roteiro de O Retorno de Martin Guerre, de Daniel Vigne. A pesquisa, no ano seguinte, desembocaria na publicação do livro homônimo, que consagrou sua produção historiográfica. Embora a maioria de seus trabalhos tivesse a França da Época Moderna como preocupação central, sua relação com a ficção e o cinema continuou forte durante toda a sua trajetória acadêmica. Como defendeu em Histórias de Perdão, a imaginação histórica era uma ferramenta fundamental para reconstruir lacunas deixadas pelas fontes do passado. Longe de propor que o historiador inventasse ou fraudasse o passado, Davis admitia a possibilidade de especular a partir de indícios historicamente justificados. O cinema, de modo análogo, tinha o potencial de realizar um trabalho semelhante: poderia reproduzir, por meio de recursos visuais, um passado possível. Sua concepção dialogava com a historiografia sobre o cinema, que se desenvolvia amplamente nos Estados Unidos, nos anos 1980. No entanto, como observado por Santiago Júnior, “Davis tratou filmes como concorrentes narrativos da historiografia, e não como parte de um sistema cultural que produzia usos do passado”. Focado nas representações fílmicas da escravidão, Slaves on Screen (2000) é seu trabalho de maior fôlego sobre o assunto. Nele, a historiadora revelava que suas principais preocupações com o cinema estavam nas questões do anacronismo e da autenticidade. Escolhas dramáticas, para ela, não deviam se sobrepor às evidências históricas, respeitando as diferenças temporais entre o passado e o presente. Por meio de um trabalho ético e estético, o cinema, assim, teria a potencialidade de “ampliar o pensar sobre o passado”.

O texto proposto pela historiadora Cristiana Schettini procura analisar a perspectiva de gênero no trabalho de Natalie Zemon Davis a partir de três de suas obras mais conhecidas no Brasil: os artigos publicados em Culturas do Povo, e os livros O Retorno de Martin Guerre e Nas Margens. Schettini constrói, assim, uma análise que perpassa a importância das publicações de Natalie Zemon Davis no Brasil e seu impacto e relação com as obras que eram lançadas no mesmo período no país, e segue examinando as grandes personagens femininas de Davis: da esposa de Martin Guerre e seu protagonismo às mulheres que são tema de dois dos oito ensaios presentes em Culturas do Povo. Por fim, chega a Glikl bas Judah Leib, Marie de L´Incarnation e Maria Sybilla Meriam, protagonistas de Nas Margens. Utilizando vasta bibliografia que trata não só da biografia de Davis, entrevistas, relatos e críticas recebidas, Schettini relaciona o trabalho de Davis com a vida pessoal da autora, discorrendo sobre como essas questões influenciaram seus próprios interesses de pesquisa. Cristiana Schettini propõe-se, ainda, a “examinar a própria historicidade do estilo historiográfico feminista” da autora norte-americana, discorrendo sobre as críticas recebidas por Davis de que o feminismo tornaria as pesquisadoras “cegas para o rigor da pesquisa”, o que a autora de Nas Margens rebate ao demonstrar que rigor e imaginação não se contrapõem, mas que são duas dimensões conectadas na prática histórica. Natalie Zemon Davis explica, ainda, a necessidade de se incorporar na narrativa histórica “as ambiguidades, as incertezas e os dilemas das pessoas que estudamos”, dilemas estes que se confundem, para Schettini, com os da própria historiadora. Por fim, o artigo demonstra, ainda, a importância das “mulheres nas margens” e como elas podem revelar o que estava em questão para outros grupos coevos – enfatizando zonas de interação a partir da perspectiva de gênero que são desconhecidas antes da pesquisa.

“Uma força da natureza” foi o título escolhido para a entrevista concedida pela historiadora Lynn Hunt a Verônica Calsoni Lima e Jonathan Dias Portela — expressão que define bem o tom da conversa, centrada na pessoa de Natalie Zemon Davis em todas as suas facetas. Hunt relembra a amizade com Natalie desde o primeiro encontro em Berkeley, passando pelo distanciamento geográfico imposto pelas circunstâncias da vida, até os últimos trabalhos realizados por ela. Ao rememorar essa trajetória, Hunt deixou claro seu profundo reconhecimento do papel central de Zemon Davis na consolidação do campo da História Cultural, do qual a própria Hunt se reconhece herdeira, especialmente por meio da interdisciplinaridade com a Antropologia, a Literatura e a Psicanálise. Destacou, ainda, o pioneirismo de Natalie nos Estudos de Gênero, tendo sido responsável por um dos primeiros cursos sobre o tema na América. Ao longo da entrevista, Hunt chamou atenção para dois aspectos que, na sua visão, tornam único o método historiográfico de Zemon Davis. Em primeiro lugar, sua habilidade em tomar emprestadas categorias analíticas de outros campos do conhecimento e incorporá-las à análise histórica. Longe de uma mera reprodução, essas categorias eram reelaboradas como ferramentas para pensar os objetos de estudo para além das fontes tradicionais — frequentemente limitadas quando se trata das minorias. Assim, novas dimensões eram abertas à investigação: o simbólico, o ritualístico, o não-dito, a oralidade, os sentimentos, entre outros. Em segundo lugar, Hunt ressaltou a inquietação que marcou a trajetória de Zemon Davis, fruto de uma curiosidade inesgotável que a levava a se reinventar continuamente, resultando numa ampla variedade de objetos e temas de pesquisa ao longo de sua carreira.

Zemon Davis também era, como não poderia deixar de ser, uma força da natureza em sua humanidade — tema quase onipresente neste dossiê. Em um dos primeiros encontros, um jantar informal, o que mais impressionou Hunt foi a receptividade e a generosidade de Zemon Davis em um ambiente acadêmico completamente dominado por homens. Mesmo à distância, ela se dispôs a ajudar a jovem colega como podia, recomendando-a para cargos e posições acadêmicas. Com seus alunos e orientandos, manteve sempre a mesma postura acolhedora e estimulante, interessada nas novidades das pesquisas e em como contribuir para que cada um encontrasse o seu próprio caminho. Essa dedicação ao outro remontava à própria experiência da historiadora, que enfrentou um percurso difícil - como acadêmica, como mulher e como mãe - em meio às incertezas da perseguição política e do exílio. Ela o enfrentou com energia inesgotável, com a vontade de desbravar tudo o que o mundo ainda podia oferecer e com a crença inabalável em um futuro melhor. Uma lição que permanece como inspiração para todos nós — alento e fio de esperança nestes tempos sombrios em que vivemos.

REFERÊNCIAS

  • BURKE, Peter. O que é História Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
  • DAVIS, Natalie Zemon. Nas Margens: Três mulheres do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 [1995].
  • DAVIS, Natalie Zemon. Culturas do Povo: Sociedade e cultura no início da França moderna. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990 [1975].
  • DAVIS, Natalie Zemon. A passion for History. Conversations with Denis Crouzet. Kirksville: Truman State University Press, 2010.
  • DAVIS, Natalie Zemon. Entrevista. In: PALLARES-BURKE, Maria Lúcia. As muitas faces da história: Nove entrevistas. São Paulo: Editora UNESP, 2000. p. 81-118.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Out 2025
  • Revisado
    21 Out 2025
  • Aceito
    03 Out 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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