Open-access Uma historiadora para todas as circunstâncias Natalie Zemon Davis (1928-2023)

RESUMO

O artigo sustenta que Natalie Zemon Davis (1939-2023) desempenhou um papel crucial na historiografia modernista dos últimos cinquenta anos, renovando a abordagem das relações entre cultura e sociedade, e legitimando o recurso à imaginação na narrativa histórica. Por meio do exame da trajetória da historiadora como profissional e militante, marcada pela pesquisa empírica exaustiva, docência generosa e a introdução dos estudos de gênero no meio universitário norte-americano, sugere o quanto tais aspectos influíram na temática que escolheu. A curiosidade foi uma de suas marcas, levando-a a se interessar por diversas correntes teóricas, sem, contudo, perder a identidade de historiadora. Deixou uma obra variada e heterodoxa, marcada pela coerência e originalidade, o que impõe que se dê à sua produção o cuidado devido aos clássicos.

PALAVRAS-CHAVE
imaginação histórica; história cultural; militância

ABSTRACT

This article contends that Natalie Zemon Davis (1928–2023) was instrumental in shaping early modern historiography over the past fifty years. She redefined how historians approach the relationship between culture and society and contributed to legitimizing the role of imagination in historical writing. By tracing her journey as both a scholar and an activist—highlighted by rigorous empirical research, dedicated teaching, and her pioneering role in introducing gender studies to North American academia—the article demonstrates how these elements influenced the subjects she chose to explore. Davis’ defining trait was her curiosity, which led her to draw from a broad array of theoretical approaches while maintaining her grounding as a historian. Her body of work, both diverse and unorthodox, is distinguished by its coherence and originality, inviting the attentive reading we reserve for the classics.

KEYWORDS
historical imagination; cultural studies; activism

Je veux faire mes sauts de spéculation à partir d’un tremplin de données

Natalie Zemon Davis, L’histoire tout feu tout flamme (In:Crouzet, 2004).

1. POR QUE NATALIE ZEMON DAVIS

Ao terminar de ler O vermelho e o negro pela primeira vez, comentei com um amigo, grande crítico literário, que não me conformava de ter vivido tanto tempo sem aquela obra-prima. Após fazer algumas observações sobre Stendhal, ele me disse: “O desafiador, com ele, é que sentimos, sempre, o quanto ele é mais inteligente do que nós”.

Natalie Zemon Davis me inspira este sentimento: ela é sempre mais inteligente do que eu. Às vezes fico intrigada, perguntando onde irá com sua descrição densa, inspirada na obra do antropólogo norte-americano Clifford Geertz, com digressões, divagações e até com invenções, nem sempre fáceis de discernir. Mas ela nunca falha, e no final, amarra todos os fios desenrolados ao longo da floresta erudita que atravessou, página após página. Este sentimento é partilhado por gerações de historiadores dedicados, como eu, à pesquisa e docência em História Moderna: “Ela não foi pioneira apenas em sua obra: esteve sempre vários passos à nossa frente, até mesmo em nossas próprias investigações,” considerou Paul Cohen no emocionado obituário que, por ocasião de sua morte, escreveu para o site da Universidade de Toronto, onde é professor e onde ela também atuou em várias ocasiões (Cohen, 2023, p. 10).

Sempre a vi como uma historiadora mulher, e mulher antes de historiadora, o que para nós, historiadoras mulheres, e para mim, pertencente a uma geração em que ser mulher ainda era mais difícil do que é hoje, soava como um alento. Minuciosa, detalhista, certeira, concisa, zelosa da construção equilibrada do texto, não esconde o talento literário, ao mesmo tempo em que o aparato teórico e metodológico, escolhido com esmero, fica circunscrito às notas. Elas são quase sempre caudalosas, quase um outro texto, um outro livro, repleto de pistas e possibilidades.

Seu conhecimento chegou-me por meio de artigos surgidos na revista Past & Present, muito citados desde a publicação. Pela influência que exerceram sobre minha formação, destaco dois: “Razões do desgoverno”, de 1971, e “Ritos de violência”, de 1973, ambos publicados em 1975, no seu livro de estreia, Society and Culture in Early Modern France: Eight Essays, que no Brasil recebeu o título de Culturas do Povo e foi traduzido pela antropóloga Mariza Correia apenas em 1990. Àquela altura, eu já tinha a tradução francesa, feita pela historiadora Marie-Noële Bourguet, e não me parece aleatório o fato de duas importantes intelectuais, no Brasil e na França, traduzirem Natalie Zemon Davis em seus países: ela ia se tornando um expoente no âmbito das ciências humanas, transitando com criatividade entre diferentes disciplinas. Recém-doutora e recém-habilitada a atuar em cursos de pós-graduação, li com entusiasmo o conjunto de ensaios reunidos em Culturas do Povo, discutindo com os alunos, que igualmente se entusiasmavam. Imaginava como seria a pessoa, vendo a fotografia na orelha da edição brasileira, e com o saudoso Edgard De Decca, da Unicamp, veio a ideia de trazê-la para o Brasil, ambos nos empenhando junto à Fapesp para concretizar tal projeto no âmbito de nossas universidades.

Teve então início uma correspondência entre nós. Após as primeiras trocas protocolares, fiquei surpresa com seu calor humano e com o fato de as afinidades de gênero deixarem para trás questões meramente acadêmicas. Trocamos informações sobre nossas famílias, número de filhos, gostos. Já escolhíamos as datas para sua vinda ao Brasil quando escreveu dizendo que questões familiares impediam a viagem. Combinamos que viria mais adiante, quando a situação serenasse.

Pouco tempo depois, no primeiro semestre de 1990, com viagem marcada para um colóquio em Nova York, propus-lhe um encontro em Princeton, onde ensinava e para onde me deslocaria a fim de encontrá-la. A essa altura, ela já tomara conhecimento do conteúdo de meu livro sobre feitiçaria e religiosidade popular, que lhe enviara após ela ter manifestado interesse pelo conteúdo e alegado que seu sogro, Horace Bancroft Davis, professor por um curto período junto à Escola Livre de Sociologia e Política, poderia lhe traduzir o índice e uma ou outra passagem, a fim de saciar um pouco da sua curiosidade. Além disso, como a família toda acompanhara Horace Davis ao Brasil, Chandler Davis, marido de Natalie e matemático notável, guardara certa familiaridade com a língua apreendida quando menino. Três dias antes de embarcar, tive um impedimento relativo à minha terceira gravidez, então em estágio inicial, e a comuniquei do imprevisto. Sua resposta afetuosa aconselhou que cuidasse do bebê e deixasse o resto de lado.1 Ainda nos comunicamos algumas vezes, e certa feita ela me telefonou para esclarecer uma questão de seu interesse pessoal.

Por todo esse tempo, acalentei o desejo de encontrá-la pessoalmente. Ela se foi em 21 de outubro de 2023. Nunca nos vimos, mas meu afeto e gratidão aumentam a cada leitura. Historiadora notável, mulher plena e solar, professora lembrada pelos estudantes como a melhor que tiveram na vida, militante das causas sociais e de gênero, foi ainda vítima, como seu marido e maior amigo, da perseguição macarthista que se abateu sobre os Estados Unidos num dos períodos mais tenebrosos de sua história e que infelizmente, no momento em que vivemos, não é triste apenas na memória.

Pensei que o tom pessoal com que começo agradaria a essa mulher e historiadora tão peculiar, tão pouco convencional, tão cheia de energia, como registraram todos aqueles que a entrevistaram ou que escreveram sobre ela, não poupando elogios também à sua generosidade e esperança num mundo melhor. Rememorei o impacto que teve sobre mim e minha geração porque, conforme tive a tristeza de constatar nos meus últimos anos de docência, ela é hoje pouco conhecida no Brasil. Fica aqui meu apelo, então, para que se volte a sua obra, admirada no mundo todo, e não se deixe com que caia no esquecimento a que tantos outros autores brilhantes e inovadores acabaram relegados por modismos, na maior parte das vezes, duvidosos ou injustos.

Natalie Zemon Davis ocupa um lugar importante no meu panteão particular, em que continua a pontificar e abrir caminhos. Isto poderia ser questão de gosto, afinidade ou temperamento. Portanto, começo agora a justificar a razão pela qual, independente do meu apreço, ela deva continuar a ser lida como são lidos todos os grandes clássicos.

2. QUEM FOI NATALIE ZEMON DAVIS

No Brasil, nos meios em que circulei, ela sempre foi conhecida como Natalie Davis. Após ouvir depoimentos a seu respeito e muitas das entrevistas que concedeu, percebi que fazia questão do sobrenome de nascimento, Zemon, e penso saber qual o motivo. Ela nasceu na terceira geração de famílias judias vindas da Europa central e cresceu ao mesmo tempo em que o antissemitismo e o nazismo se configuravam no horizonte. Quis, a certa altura, saber quem eram seus parentes, de que região da Europa tinham vindo, se alguns deles contavam entre as vítimas da Shoah. “Por que você quer saber essas coisas?”, reagiram os pais. “Isso não é importante. Somos judeus americanos”. Se de um lado havia mascates e, do outro, profissionais liberais, todos, ao que parece, voltaram-se para o comércio, obtendo sucesso e vivendo entre o conforto e a riqueza, apesar de não contar entre eles nenhum milionário, como com certo orgulho afirmou num depoimento. Sua adolescência foi de insegurança, e mesmo antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, era grande o temor de que a perseguição anti-judaica atravessasse o Atlântico. Nascida e criada em Detroit, numa família laica mas que tinha na mãe uma guardiã zelosa das tradições judaicas, ela estudou num dos colleges frequentados pelas famílias ricas da região e no qual era uma das pouquíssimas alunas judias. Ali tornou-se comunista e militante, e foi na militância que conheceu seu marido WASP – ou seja, pertencente ao grupo das famílias brancas, anglo-saxônicas e protestantes que chegaram nos primeiros tempos da colonização -, casando-se secretamente com ele aos 19 anos, seis semanas após o primeiro encontro. A mãe desesperou-se ante a união, e só voltou a procurá-la quando, cerca de cinco anos depois, nasceu o primeiro filho do casal. Natalie Zemon Davis viveu com o companheiro escolhido durante 74 anos, falecendo no ano seguinte ao do marido, aos 94 anos. E nunca deixou de usar o sobrenome trazido pelos judeus imigrantes.

Não vou me demorar sobre sua vida pessoal, mas cabe ressaltar que poderia ser enredo de romance, e creio valer a pena relatar que o casal, já com três filhos pequenos, sofreu por mais de uma década os rigores do macarthismo. Intimado, em 1953, a depor ante o Comitê de Atividades Antiamericanas (House of Un-American Activities Committee), Chandler Davis recusou-se a responder às questões que lhe puseram e recorreu à Suprema Corte Americana. No tempo transcorrido até a sentença que o condenou, em 1959, esse matemático brilhante e renomado perdeu o emprego de professor junto à Universidade de Michigan, viu fecharem-se lhe as portas de todas as universidades americanas para onde enviou currículo, passando a buscar trabalho em jornais, agências de publicidade e escrevendo romances policiais, gênero aliás no qual se tornou um sucesso. Não era possível tentar empregos fora do país, porque os passaportes de Chandler e também de Natalie ficaram apreendidos durante dez anos. Em janeiro de 1960, teve de cumprir a pena que lhe deram, permanecendo preso por seis meses, enquanto Natalie se equilibrava entre uma carreira acadêmica incerta e os cuidados com três crianças pequenas. Em 1962, Chandler Davis afinal obteve um convite para ensinar na Universidade de Toronto, fixando-se nesta cidade com a família e ali permanecendo até sua morte, em 2022. É hoje considerado um herói da resistência anti-macartista e um ícone da esquerda norte-americana (Batterson, 2003).

Enquanto os filhos cresciam, Natalie Zemon Davis se ajeitou como pôde a uma vida um tanto errante. Voltando-se para a história da França no século XVI, inscreveu-se num doutorado na Universidade de Michigan por ser ali que o marido se empregara. Antes de se intensificarem as perseguições anticomunistas que levaram à prisão de Chandler Davis, conseguira iniciar uma pesquisa sobre os operários e impressores de Lyon, viajando para a França e se apaixonando pela cidade e pelo país. Uma vez defendido o doutorado, em 1959 (Wolf, 2011, p. 188-202), frequentou seminários, colóquios, publicou artigos e reorientou seus interesses em função dos limites impostos pela impossibilidade de viajar, dada a vigência, por toda aquela década, da apreensão dos passaportes. Se durante a pesquisa realizada na França se valera de documentação manuscrita depositada em arquivos, passou então, a se dedicar às importantes coleções de documentos impressos sobre a história francesa existentes em bibliotecas públicas e universitárias dos Estados Unidos.

Sua carreira docente começou incerta, sem empregos duradouros, mas com atuações temporárias nas Universidades de Toronto, Brown e Berkeley. Se nesta última conseguiu afinal o primeiro posto estável, lá permanecendo de 1971 a 1978, em Toronto, ofereceu um curso pioneiro sobre história das mulheres e de gênero, juntamente com a historiadora australiana Jill Ker Conway2. Dessa época, datam alguns de seus ensaios mais luminosos, por meio dos quais elaborou a passagem de uma análise assentada na história social clássica para aquela que se tornaria sua marca registrada: a análise da relação imbrincada entre sociedade, cultura, política e religião, transitando, conforme a necessidade do objeto escolhido, entre a História, a Antropologia e a Literatura. Em 1975, tornou-se conhecida com a coletânea de ensaios Society and Culture in Early Modern France, que, como se viu, demorou quinze anos para ser traduzida entre nós como Culturas do Povo (Davis, 1975, 1979, 1990). Em 1978, transferiu-se para a Universidade de Princeton e ocupou a cátedra Henry Charles Lea até se aposentar, em 1996. Ali, participou ativamente do Shelby Cullom Davis Center for Historical Studies, ao lado de expoentes das ciências humanas, como o antropólogo Clifford Geertz e os historiadores Lawrence Stone, Carlo Ginzburg e Robert Darnton3. De 1996 em diante, atuou na Universidade de Toronto como Professor Adjunto de História e Antropologia e como Professor de Estudos Medievais.

As lembranças dos colegas e antigos estudantes ressaltam a importância de Natalie Zemon Davis tanto no âmbito da obra quanto no da docência, contagiando com seu entusiasmo, erudição e originalidade tanto alunos como colegas. Na ocasião em que a Universidade de Princeton festejou os 90 anos da historiadora, então ainda em plena atividade, Anthony Grafton, um de seus mais célebres ex-alunos e posteriormente colega em Princeton, invocou as vezes sem conta em que sua exclamação “Como isso é interessante!” ecoava pela sala, ensinando “que a curiosidade e a paciência são as maiores virtudes epistêmicas que um historiador pode ter”. Nas aulas, recorda, em vez de ler linha por linha textos muitas vezes prosaicos, ela falava:

Enquanto outros se concentravam nas manobras das elites cortesãs, ela nos levava às ruas e praças onde os assassinatos aconteciam. E enquanto outros descreviam o massacre como uma catástrofe contingente, talvez fruto de erros de cálculo, ela examinava as maneiras pelas quais infligir violência podia parecer um modo de viver a própria religião. Não sei como os Ilustres e os Eminentes na sala se sentiam. Mas os estudantes de pós-graduação prendiam a respiração e se esqueciam de piscar. Ao recriar os “Ritos de Violência”, Natalie Davis havia transformado nossas vidas: ela nos ofereceu uma nova e fulgurante ideia do que um historiador pode ser — e do que deveria ser (Grafton, 2019, p. 1-2).

Festejos e homenagens são pródigos em elogios, ressaltam as qualidades e contribuições dos homenageados. O que chama a atenção tanto no caso das comemorações em torno de Natalie Zemon Davis quanto por ocasião de sua morte é a convergência dos juízos, das opiniões e a emoção que perpassa os depoimentos, nos quais a referência à sua profunda dimensão humana acompanha a ênfase posta nos atributos intelectuais e científicos. Estava sempre à disposição das jovens colegas, orientando-as num meio universitário ainda bastante fechado à participação das mulheres e valendo-se de uma longa experiência de militante feminista, que trilhava de modo muito próprio. As referências sobre seu pioneirismo no meio universitário norte-americano constam de todos os discursos feitos para saudá-la na ocasião dos vários prêmios que recebeu ao longo da vida – e foram vários, como o Aby Warburg Prize de Ciências Humanas, dado pela cidade de Hamburgo em 2000, o Holberg Prize, concedido pelo Parlamento da Noruega em 2010, e a National Humanities Medal, entregue pelo presidente Obama em 2013. Talvez nada, contudo, seja mais eloquente de o quanto esteve na vanguarda da jornada rumo a uma igualdade entre os gêneros do que a fotografia do corpo docente do Departamento de História da Universidade Brown em 1960. Doutora havia um ano, seu contrato de docente era ainda provisório. A imagem mostra uma massa composta por treze homens em meio a qual está uma jovem mulher. Pequena, frágil, sorridente e com certeza destemida, como seria vida afora.

Reconhecida como uma das grandes estrelas da historiografia de seu tempo, Natalie Zemon Davis foi também uma cidadã generosa e solidária, uma humanista no sentido pleno. Lendo as entrevistas que deu e o que sobre ela se escreveu quando de seu desaparecimento, ocorreu-me a célebre referência feita por Erasmo de Roterdã a seu amigo Tomás Morus em carta ao humanista francônio Ulrich von Hutten: “um homem para todas as circunstâncias, nascido e talhado para a amizade, da qual ele é o mais sincero e constante devoto” (Ropper, 1986, p. 54). Natalie Zemon Davis foi uma mulher para todas as circunstâncias, daí o profundo estranhamento quando de sua morte. As historiadoras Joan W. Scott e Francesca Trivellato confessaram que seus discípulos e ex-alunos nutriam o sentimento de que ela viveria para sempre, como se encarnasse a energia imortal4. Paul Cohen, que seguiu seus cursos na Universidade Brown e foi o último doutor formado por ela, escreveu um belo Obituário no qual reiterou o sentimento de que ela talvez estivesse destinada à imortalidade:

Para aqueles que a conheceram, foi difícil, nos últimos anos, não alimentar uma espécie de esperança secreta e impossível de que, talvez, sua energia, seu sorriso, suas ideias, seus escritos pudessem continuar por mais um pouco. Que pudéssemos experimentar mais uma vez o milagre social que acontecia em cada conversa que ela conduzia. Que, talvez, ela pudesse viver para sempre (Cohen, 2023, p. 10).

3. A HISTORIOGRAFIA DE NATALIE ZEMON DAVIS

3.1. Unidade metodológica e variedade temática

Na longa entrevista concedida a Denis Crouzet em 2004, e publicada sob o título de Natalie Zemon Davis – l’histoire tout feu tout flamme (que se poderia traduzir para o português como A história ardente, ou A história cheia de paixão), essencial para compreender a trajetória da historiadora, há várias passagens que revelam a relação visceral e apaixonada que manteve com a História ao longo da vida. Fatos, nomes, acontecimentos fascinaram-na desde cedo, e ao contrário de muitos colegas, nunca os considerou tediosos, atenta à sua dimensão inesperada e fortuita. Mais tarde, quando posta diante das fontes, viu-as como um fio mágico a ligá-la a pessoas mortas muito tempo antes, em situações que o pó dissolvera sem, contudo, impedir que refletisse e dialogasse com elas, não raro movida pela imaginação (Crouzet, 2004, p. 38-39; p. 7-8).

Paixão, especulação, imaginação parecem lhe definir uma personalidade impaciente e, sempre segundo suas palavras, “que às vezes recusa o repouso”. Os assuntos não a prenderiam por muito tempo, e uma vez saciada a curiosidade, deixar-se-ia empolgar por temas novos. Confessava admirar os historiadores capazes de se concentrar sobre um só assunto, mas ponderava não ser esse o seu feitio, mais afeito a “escolher e abordar um assunto, passando a seguir para outro” (Crouzet, 2004, p. 17).

Apesar da variação dos temas e da disposição em se transferir de um para outro, há grande coerência na teoria e no método que subjaz a todos eles, afinados com as grandes discussões historiográficas da segunda metade do século XX e dos primeiros anos do século XXI. Arredia a dogmatismos e a afirmações taxativas, optou sempre pela complexidade, parecendo convencida de que o conhecimento é passível de correções e ajustes, e de que o passado conservará sempre uma considerável margem de ininteligibilidade aos olhos dos que dele se encontram separados por uma temporalidade mais ou menos espessa.

Para Paul Cohen, Natalie Zemon Davis valia-se de elementos emprestados de um amplo leque metodológico, na busca de lentes que, uma vez ajustadas, lhe permitissem analisar realidades históricas cuja complexidade ultrapassasse a capacidade analítica de um único sistema teórico (Cohen, 2023, p. 2). Quanto às relações entre História e Antropologia, muito presentes em suas obras, a própria historiadora expusera, em 1983, aspectos importantes de seu procedimento metodológico, distinguindo historiadores de antropólogos e enfatizando como aqueles faziam escolhas ecléticas sem que isso lhes parecesse problemático, e que o recurso aos escritos antropológicos por parte do historiador “não tinha fim prescritivo, mas sugestivo”; não visava a “regras universais do comportamento humano, mas a comparações relevantes” (Davis, 1983, p. 273). Em 2000, Natalie Zemon Davis traria maior densidade à utilização transdisciplinar dos conceitos em The gift in sixteenth century France, ainda sem tradução portuguesa (Davis, 2000). Como indicado no título, o livro explorava, em chave histórica, um dos grandes temas da teoria antropológica clássica, valendo-se sobretudo de Marcel Mauss e, com menor ênfase, de Marshall Sahlins. (Mauss, 1923-1924, 1980; Sahlins, 1972). Dialogando criticamente com a Antropologia, sustentava a mutabilidade do gift system e mostrava, ao mesmo tempo, que os antropólogos tendiam a se fixar em invariantes, enquanto os historiadores evidenciavam o quanto o contexto e a sociedade conferiam variedade a esse modo. O recurso a métodos e procedimentos de outras disciplinas nunca obscureceu as convicções profundas que manteve ao longo de sua prática historiográfica: para ela, não existia “substituto para o trabalho extensivo com evidências históricas” (Davis, 1983, p. 273).

Penso ser possível acrescentar que tal heterodoxia metodológica tinha caráter de experimentação análogo ao encontrado nas modalidades de escrita histórica praticada por Natalie Zemon Davis: no início da carreira, foi uma historiadora de artigos, ali articulando com maestria crescente a fundamentação empírica e a análise mais teórica; com o passar dos anos, contudo, preferiu escrever livros, e neles, a meu ver, alcançou a maturidade historiográfica.

Não é esse, contudo, o juízo de Paul Cohen, autor de uma das mais consistentes análises do perfil intelectual da antiga mestra. Para ele, foi no artigo acadêmico que Natalie Zemon Davis atingiu o ponto mais alto como historiadora: seriam verdadeiras joias, nas quais lapidava os temas a partir da matéria-prima extraída das fontes arquivísticas, “com uma clareza que transformava o improvável e o inusitado em temas evidentes de investigação histórica”, formulando perguntas “com precisão cirúrgica” e desenvolvendo os argumentos com base numa erudição extraordinária, “sempre usada com leveza” e capaz de revelar novos horizontes de compreensão histórica por meio de uma “prosa cintilante, pontuada por momentos de humor brilhante, e marcada sempre pela empatia genuína que ela demonstrava por seus sujeitos”. Por tais qualidades, ela desempenhou um papel crucial na definição da história cultural como campo, colocando-a “na linha de frente da produção historiográfica nas décadas de 1980 e 1990” (Cohen, 2023, p. 2-3).

Após a série de artigos que dominou a produção inicial de Natalie Zemon Davis, o foco e o esforço historiográfico voltaram-se para a redação de monografias quase sempre pouco extensas, que só excepcionalmente ultrapassariam as duzentas páginas: mais uma peculiaridade a contrastar com os volumes caudalosos de boa parte de seus contemporâneos (como, por exemplo, o Montaillou de Emmanuel Le Roy Ladurie ou Religião e o declínio da magia de Keith Thomas). Nos trabalhos concisos, elegantes, admiravelmente documentados e pródigos em imaginação histórica reside, a meu ver, a contribuição mais impressionante da historiadora.

A jovem feminista de esquerda tornar-se-ia pioneira no estudo das mulheres, ensaiando as primeiras análises em artigos antes de dedicar um volume a três personagens pertencentes a universos culturais distintos, num exercício de história conectada avant la lettre. O interesse pelos estudos de gênero entrou com força em suas cogitações a partir dos anos 1970. As primeiras incursões no assunto ensaiaram-se na docência, em 1971, ganhando logo a seguir artigos como “Mulheres por cima”, incluído na coletânea Culturas do Povo, de 1975. Consagrou-se internacionalmente como especialista no assunto quando, ao lado de Arlette Farge, coordenou o terceiro volume de História das Mulheres, dirigido por Michelle Perrot e Georges Duby, publicado em 1990. Dois anos depois, voltaria à análise do protagonismo feminino num texto corajoso e desmistificador: “Women and the world of the Annales”, recentemente traduzido em francês. Nele, esmiuçou o papel de mulheres que, permanecendo até então na obscuridade, tiveram participação decisiva na célebre revista francesa, veículo de uma das mais importantes inovações historiográficas do século XX. Amantes ou esposas, elas foram responsáveis por parte significativa da pesquisa ou mesmo da reflexão levada a cabo por companheiros ilustres como Lucien Febvre – caso de Lucie Varga, hoje reconhecida como historiadora talentosa e original – e Marc Bloch, de quem a esposa, Simone Bloch, foi colaboradora permanente até sua execução pelos nazistas (Davis, 1992, p. 121-137). Em 1995, o engajamento feminista e a persistência do interesse pelos menos favorecidos confluiu para Nas Margens, livro publicado em 1995 e responsável, segundo a própria autora, por uma inflexão em sua trajetória. Ali, traçou o perfil de três mulheres muito diferentes que, tendo vivido no século XVII e pertencido a ambientes e religiões distintas, tiveram em comum o desígnio de abrirem caminho num mundo dominado por homens: a protestante alemã Glikl bas Judah Leib, a católica francesa Marie de l’Incarnation e a germano-holandesa Maria Sybila Merian. Às voltas com infortúnios e revezes variados, empenharam-se em mudar radicalmente de vida e de ambiente, construindo novos destinos sem, contudo, conseguirem vencer os obstáculos que, num mundo dominado por homens, condenavam-nas a permanecer sempre nas margens (Davis, 2005). Ao longo da vida, Natalie Zemon Davis voltaria à temática da história das mulheres, fazendo-o de modo muito pessoal e sempre incluindo comparações entre os gêneros, como em “Men, Women and Violence: Some Reflections on Equality”, artigo no qual desconstrói a ideia, ou formulação bastante estereotipada, de “machos agressivos versus mulheres não violentas” (Davis, 1977). Abraçou, portanto, um feminismo que evitou generalizações e afirmações usuais em correntes mais programáticas, aproximando-se do feminismo mais nuançado de certas posições francesas (Davis; Farge, 2002).

3.2. CONJETURAR, IMAGINAR, NARRAR.

A produção de Natalie Zemon Davis se desenvolveu numa época em que a história narrativa conhecia voga renovada, e a autora tornou-se um dos expoentes da tendência, adaptando-a aos novos tempos. Adotava procedimentos que simulassem as discrepâncias das personagens estudadas ante as considerações que ela, a historiadora, tecia e amarrava ao encaminhar uma conclusão, como no desfecho do artigo “A sabedoria proverbial e os erros populares” ou no Prólogo a Nas margens. No primeiro caso, imaginou um diálogo entre si e um dos eruditos ali estudados, acusando a desconsideração em que tinha as parteiras de sua aldeia, detentoras de um saber popular, e registrando a contestação do oponente, um médico que afirmava ter admitido essas mulheres às dissecções praticadas em Montpellier, acusando, por sua vez, Natalie Zemon Davis de “ingênua”. No segundo caso, deu voz às suas três personagens femininas para que protestassem contra o modo como as representara e as reunira, sem considerar diferenças religiosas e culturais, deformando-as e falseando-lhes os propósitos. A historiadora se defendeu, imaginou que as personagens hesitassem e terminou pedindo: “Deem-me mais uma chance. Leiam de novo” (Davis, 1990, p. 217; Davis, 2005, p. 11-14).

Refratária, como se viu, a afirmações taxativas, preferia deixar possibilidades em aberto, escolhia os verbos com o cuidado necessário para que incertezas e dúvidas ficassem evidentes aos olhos do leitor, pontuando o texto com evasivas: “inclino-me a pensar que...”, “pode ser que...”. Se tal opção era em parte norteada por temperamento, parece-me tê-lo sido também pela afinidade com o pensamento de Michel de Montaigne, uma das grandes influências que recebeu e um dos principais vultos do período que mais estudou, o século XVI francês. No ensaio “Dos coxos”, por exemplo, ele se insurgira contra os argumentos de autoridade:

Fazem-me detestar as coisas verossímeis quando as expõem como infalíveis. Gosto destas palavras, que abrandam e moderam a temeridade de nossas asserções: “talvez”, “de certo modo”, “algum”, “dizem”, “acho”, e outras semelhantes (Montaigne, v. III, 2009, p. 369).

Como perscrutava ideias, sentimentos, conflitos e sonhos íntimos de indivíduos, Natalie Zemon Davis admitiu ter amiúde encontrado problemas na fundamentação empírica de suas pesquisas, preferindo antes “proceder de modo hipotético-dedutivo” a esmorecer ante a falta de provas (usada aqui no sentido que lhe atribuiu Carlo Ginzburg) (Crouzet, 2004, p. 14; Ginzburg, 2002, 2007). Por isso, lançava mão de evidências transversais, (a expressão é minha), ocorridas no mesmo contexto dos acontecimentos para os quais não encontrara provas, recorrendo se necessário à imaginação, auxiliar importante do historiador, desde que adequadamente validada.

Procedimentos análogos já se encontravam nos artigos reunidos em Culturas do Povo, mas foi em O retorno de Martin Guerre, sua primeira monografia, que eles ganharam maior densidade, conforme se vê na passagem seguinte: “O contrato de casamento entre Bertrande e Martin não chegou até nós, mas podemos imaginar seu conteúdo a partir de muitos outros que lhe sobreviveram (Davis, 1983, p. 34).

Ou ainda esta outra:

E quanto a Bertrande de Rols? Saberia ela que o novo Martin não era o homem que a abandonara cerca de oito anos antes? Talvez não de imediato, quando ele se apresentou com todos os seus indícios e provas. Mas a obstinada e honrada Bertrande não parece ser uma mulher que se deixe enganar facilmente, mesmo por um sedutor como Pansette [o falso Martin Guerre]. Uma vez acolhido ao leito, ela deve ter notado a diferença; todas as mulheres de Artigat estariam de acordo sobre esse ponto: o toque do homem não pode enganar a mulher (Davis, 1983, p. 69; p. 61-69) (grifo nosso).

O capítulo 5 do livro, donde tirei a segunda citação, é um bom exemplo do uso que Natalie Zemon Davis fez daquilo que concebia como imaginação, e não por acaso, intitulou-o “O casamento inventado” (Davis, 1983, p. 61-69). É também um dos momentos em que melhor utiliza o conceito de self-fashioning (automodelagem), tomado de empréstimo do historiador norte-americano Stephen Greenblat, mas, antes dele, formulado por Montaigne, que nos Ensaios definiu o façonnement de soi. (Greenblatt, 2005; Montaigne, 2000, p. II495-502). Juntos, Bertrande du Rols e o falso Martin Guerre tornaram verdadeiro o que era falso: Entre outras coisas, pode-se conjeturar que decidiram tornar permanente o casamento inventado” (Davis, 1983, 75). Imaginação, automodelagem, verdade e mentira poderiam, contudo, se embaralhar, como a autora sugeriria mais adiante, ao tratar, no capítulo 9, da volta à casa do verdadeiro personagem: “Onde se detinha a modelagem e onde começava a mentira? A inventividade de Pansette [o apelido do falso Martin Guerre] colocava o problema de modo agudo aos seus juízes...” (Davis, 1983, 126).

Naquela altura, delineavam-se portanto as linhas de força que norteariam as preocupações da autora e o modo de narrá-las em praticamente todos os escritos posteriores. É possível fazer pelo menos duas leituras da obra: a que é feita por um público amplo medianamente culto e interessado por História, e a dos especialistas, dos historiadores profissionais. Dei-me conta de ter feito a primeira ainda jovem, eletrizada pela narrativa detetivesca, fazendo-a agora com os olhos mais experientes, capazes de identificar o sofisticado artesanato sobre o qual repousa a narrativa. As múltiplas camadas subjacentes à escrita enfeixam questões fundamentais para o historiador: como enfrentar a falta de evidências empíricas, como transformar os silêncios das fontes em vantagens capazes de alimentar a imaginação histórica, como valorizar a narrativa sem deixar de diferenciá-la da ficção.

Martin Guerre foi filme antes de ser livro, e Natalie Zemon Davis ponderou que ver os atores criando seus papéis foi essencial para que pudesse perceber melhor as lacunas que a documentação oferecia e traçar com mais precisão as escolhas narrativas. A publicação alcançou um sucesso estrondoso, traduziu-se em várias línguas mas recebeu uma dura crítica do historiador norte-americano Robert Finlay, que, sob perspectiva bastante conservadora e diametralmente oposta à da autora, acusou-a de falsear e distorcer evidências, atirando simultaneamente em dois sentidos opostos. Por um lado, considerou haver no livro afirmações carentes de base documental – e, a seu ver, Natalie Zemon Davis preencheria as lacunas existentes com elucubrações destituídas de veracidade; por outro, ela acreditaria em documentos problemáticos, como o processo judiciário movido contra o falso Martin Guerre, sem se dar conta das intermediações existentes entre os fatos em si e os registrados no texto jurídico. Natalie Zemon Davis respondeu com elegância e, a meu ver, destruiu os argumentos de Finlay num texto de mais de vinte páginas, “On the Lame”, ou seja, “Sobre o Coxo”, numa referência ao célebre ensaio de Montaigne, mas também ao verdadeiro Martin Guerre, que retornou à casa oito anos depois, manco por ter amputado uma perna na batalha de São Quintino (Davis, 1988b, p. 572-603; Finlay, 1988, p. 553-571). Foi contudo Carlo Ginzburg quem, a meu ver, colocou a pá de cal na polêmica, escrevendo o posfácio à tradução italiana em 1984, um ano após a publicação da obra nos Estados Unidos (Ginzburg, 1984, p. 129-154; Ginzburg, 2007, p. 311-338).

Ginzburg desenrola um repertório vasto para identificar a tradição intelectual a que Natalie Zemon Davis pertenceria. Considera que, ao explicar seu método de fundamentação empírica transversal (mais uma vez, sou eu quem cunha tal expressão), a autora terminara o prefácio ao livro de modo provocativo: “O que aqui ofereço ao leitor é, em parte, uma invenção minha, mas uma invenção construída pela atenta escuta das vozes do passado” (Davis, 1983, p. 21). Ginzburg pondera que, em que pese o intuito de provocar, o termo “invenção” teria um tom “desviante”. Segundo ele, tanto a pesquisa quanto a narração de Natalie Zemon Davis não contraporiam “verdadeiro” a “inventado”, mas integrariam, de modo escrupuloso, “realidades” e “possibilidades”. Por isso, a historiadora recorria amiúde a expressões como as que aludi acima - “talvez”, “deviam”, “pode ser” -, evidenciando a divergência entre a ótica do juiz e a do historiador. Se, para o primeiro, a margem de incerteza tinha significado “puramente negativo” e poderia acarretar uma “absolvição por falta de provas”, ela deflagrava, para o segundo, “um aprofundamento da investigação”, ligando caso específico e contexto, “entendido aqui como lugar de possibilidades historicamente determinadas”, fazendo com que a biografia dos personagens retratados por Natalie Zemon Davis pudesse se tornar a biografia de “outros homens e mulheres do mesmo tempo e do mesmo lugar” (e estas palavras são da historiadora). Isso seria possível graças à reconstrução sagaz e paciente de “fontes cartoriais, judiciárias, literárias”. Assim, ““[V]erdadeiro” e “verossímil”, “provas” e “possibilidades” se misturariam, “permanecendo embora rigorosamente distintos”” (Ginzburg, 1984, p. 315-316).

Semeada de dúvidas e refratária a afirmações taxativas, a escrita de Martin Guerre... inspirou-se nos Ensaios de Montaigne, mas foi também o recurso encontrado para resolver os impasses postos por uma questão mais funda: a opção pelo estudo de um determinado tipo de protagonista, do qual a historiadora nunca abriu mão. Em mais de uma entrevista, discorreu sobre as razões que, ao longo da vida, levaram-na a estar sempre ao lado dos menos favorecidos, desde a tese sobre os operários tipógrafos de Lyon, o menu peuple, ou povo miúdo. Ponderou que talvez tenha pesado o fato de ser judia, descendente de imigrantes da Europa Central que fizeram a América sem nunca deixarem de se sentir nas margens, ou que tal escolha decorrera da militância política, das leituras marxistas e da marca da sociologia, disciplina que, na época de sua juventude, seria a que mais se voltava para os destituídos (Crouzet, 2004, p. 61). Ante a dificuldade de colocar pessoas comuns dentro da História – pois elas não deixavam traços, ou os deixavam em número reduzido – teve de dar tratos à imaginação, de estar atenta aos perigos apresentados pela defesa cega dos protagonistas pobres, pois, a seu ver, “o historiador deve sempre considerar a possibilidade de estar próximo e distante” (Loyer, 2007). Poderia ter escrito sobre grandes personagens, rainhas ou reis, mas não foi essa a sua opção: “Não me sinto de fato uma historiadora para eles, que tiveram seus próprios historiadores. São os outros que precisam de mim”, considerou (Crouzet, 2004, 53).

Se a primeira historiografia de Natalie Zemon Davis incidira sobre fenômenos coletivos cujos protagonistas eram grupos sociais - operários, rituais de violência, mulheres rebeldes que tomavam as rédeas de seus destinos, assassinos de ambos os sexos que buscavam o perdão real –, aos poucos o foco deslocou-se, a partir de Martin Guerre, para experiências mais restritas de liminaridade – como em Nas Margens, em que confronta três mulheres –, e culminou, no fim da vida, na análise de dois perfis individuais de marginais.

O primeiro deles seria o de Hassan Al-Wazzân, personagem de Trickster travels, livro publicado em inglês no ano de 2006 e ainda sem edição brasileira (Davis, 2014). Tratava-se de um muçulmano nascido em Granada, numa família que ali se refugiara em decorrência das lutas intestinas que dividiam sua terra de origem, Fez, no nordeste do atual Marrocos. Em 1492, a política homogeneizadora levada a cabo pelos Reis Católicos aniquilou o último reino moçárabe que ainda sobrevivia na península e obrigou a família a exilar-se, retornando ao norte da África. Ali, Hassan Al-Wazzân aproximou-se do poder e desempenhou funções diplomáticas, deslocando-se entre diferentes localidades ao longo das duas margens do Mediterrâneo. Feito cativo por piratas árabes que interceptaram o navio no qual retornava a Fez após uma viagem ao Egito, venderam-no ao papa Leão X. Foi assim que se fixou em Roma, converteu-se ao cristianismo e trabalhou junto à cúria papal, até que infortúnios o obrigassem novamente a deixar a Europa e, mais uma vez, ganhar o norte da África, onde voltaria à religião de origem para, por fim, desaparecer de vez dos documentos.

Um dos aspectos mais peculiares da narrativa desta obra é a adoção de um estratagema já esboçado em Martin Guerre...: conforme os episódios se sucedem e a identidade da personagem se modifica, Natalie Zemons Davis muda a forma como a nomeia. Ali, o impostor era chamado ora de “o novo Martin Guerre”, ora de Pansette, alcunha usada antes de aparecer no povoado e unir-se a Bertrande de Rols. Em Trickster Travels, a autora utiliza o mesmo artifício: quando ainda muçulmano, designa-o pelo nome de nascimento, al-Hassan ibn Muhammad al Wazzân al-Fasi, ou simplesmente Hassan al-Wazzâm5; uma vez convertido, pelo nome escolhido em homenagem ao papa seu patrão (que, nascido João de Médicis, torna- se papa como Leão X): Giovanni Leone, ou mesmo Yuhanna Al Assad, uma espécie de tradução árabe – Yuhanna - do nome cristão - João; por fim, quando relata o regresso da personagem ao Islão, retoma a designação árabe inicial de Hassan al-Wazzâm. O procedimento adotado pela historiadora exige considerável esforço do leitor, que de início se confunde, até perceber que o convidam para um jogo sobre as identidades flutuantes e manipuladas, adotando recurso aceitável na ficção literária mas inusitado na narrativa histórica. O intuito principal da narrativa não é, contudo, aproximar-se da literatura, mas se valer dela a fim de ser o mais fiel possível ao contexto histórico tratado e àqueles aos quais se procurou dar voz.

O artifício com relação aos nomes foi aperfeiçoado por Natalie Zemon Davis no último livro que publicou, dois anos antes de morrer, uma de suas poucas incursões fora dos séculos XVI e XVII: Listening to the Languages of the People, biografia de uma personagem bastante peculiar, um linguista romeno nascido em 1859 e falecido em 1934, cuja vida se desenrolou no cruzamento de mundos distintos, as diferentes Europas esfaceladas pelo ocaso do império otomano e pela eclosão da Primeira Guerra. Trata-se de Lazaire Sainéan, falante de várias línguas, dividido entre o judaísmo e o cristianismo, obrigado a deixar a Romênia natal e a emigrar para a França, esta sendo para ele uma espécie de segunda pátria cultural. Homem refinado, dono de imensa erudição, que grandes intelectuais romenos, alemães e franceses reverenciaram, sucumbiu à feroz perseguição antissemita da jovem monarquia da Romênia e, uma vez exilado na França, não conseguiu a acolhida que merecia entre os acadêmicos franceses do tempo do affaire Dreyfus.

Lazaire Sainéan é mais um exemplo privilegiado do self-fashioning, ou façonnement de soi, tão caro à autora. Já nas primeiras linhas da “Introdução” de Listening to the Languages of the People, ela introduz o assunto invocando a oscilação onomástica da personagem:

Ele fora Lazăr Șăin nos seus primeiros artigos em periódicos judaicos de Bucareste, e depois, em 1883, tornou-se Lazăr Șăineanu nas suas numerosas publicações filológicas e linguísticas, até tornar-se Lazaire Sainéan como emigrado da Romênia na Paris de 1901. Assim, Șăin/Șăineanu/Sainéan foi uma aquisição fascinante ao meu estudo de figuras que atravessam fronteiras culturais e geográficas, e das confusões, das dificuldades bem como da criatividade que daí decorrem (Davis, 2022, p. 1).

Como é evidente, a adoção por Lazaire Sainéan de nomes sucessivos não se reduzia à questão onomástica: refletia, parece-me, a variedade dos interesses intelectuais. Inicialmente, ele se voltara para os estudos acadêmicos de filologia e linguística, cada vez mais importantes naquela época. A eles, Lazaire acrescentaria a imensa curiosidade pelas culturas populares, debruçando-se sobre as manifestações folclóricas e as variações idiomáticas tão comuns na região em que nascera, e que o conduziriam ao estudo do ídiche, do qual sua mãe era uma falante qualificada. Foi o empenho em ultrapassar os muros do saber erudito e buscar o quanto este se relacionava com os falares do povo que lhe traria notoriedade entre os especialistas europeus, notadamente alemães e franceses, e que atraiu a atenção de Natalie Zemon Davis, convergindo com sua determinação em escrever sobre os que, no passado, não tiveram voz. Uma vez especializado em ídiche, Șăin/Șăineanu/Sainéan acreditou que o respeito dos meios intelectuais só lhe seria conferido na França caso se debruçasse sobre um grande autor da literatura deste país: decidiu-se por François Rabelais, um dos fundadores da moderna literatura francesa, mas a especialidade não o impediu de continuar a ser visto como estrangeiro e, apesar de convertido, ser discriminado como judeu. A luta desesperada desse intelectual talentoso não resultou na reconstrução da identidade, tão empenhadamente perseguida: sem obter cidadania numa Romênia que também buscava firmar a nova identidade de nação, tampouco conseguiu se tornar cidadão francês num contexto de nacionalismos crescentes que culminaram na tragédia da Grande Guerra. Lazaire Sainéan talvez tenha sido a personagem mais marginal dentre as estudadas por essa historiadora das margens, e é significativo ter sido o último dentre os desfavorecidos sobre os quais ela se debruçou.

O interesse pela automodelagem e pela oscilação dos nomes levou Natalie Zemon Davis a lançar mão da teoria literária e da literatura em proveito de um estilo narrativo bastante pessoal, que se aproxima em certos momentos da ficção, sem contudo perder a identidade de texto historiográfico6. Enfatizando na pesquisa histórica a ambiguidade e o leque de possibilidades que muitas vezes permanecem abertas, ela recorreu à imaginação. Permitida ao ficcionista, mas olhada de soslaio quando praticada pelo historiador, valeu-se dela a fim de contornar dados empíricos lacunares e mobilizar inferências assentadas em fatos e informações transversais, presentes na documentação referente a contemporâneos e a pessoas que tinham relações com sua personagem, conforme se vê na citação seguinte, extraída da biografia sobre Leão Africano:

Al-Wazzân (o nome árabe de Leão) decidiu então observar pessoalmente a transformação do Egito, e partiu em navio para o Cairo. É possível que não tenha chegado a tempo de assistir ao massacre dos habitantes e dos mamelucos, que começou a 31 de janeiro de 1517 [...]. Mas testemunhou a pilhagem dos tesouros dos santuários populares, como o túmulo de Santa Nafisa, e do saque de muitas casas privadas [...]. Deve ter tido conhecimento do processo sumário de prisão e execução de funcionários mamelucos. Nas mesquitas, deve ter escutado as mulheres ulularem das janelas quando Selim desfilou pela cidade. Deve ter reparado que se retiravam os mármores dos palácios e da cidadela para que Selim pudesse leva-los para Istambul e utilizá-los para construir uma madrasa idêntica à de Qânsûh, que al-Wazzân tinha admirado tanto na ocasião de sua primeira visita. Ele deve ter sabido que muitas personalidades importantes [...] seriam deportadas para Istambul. [...] O diplomata de Fès (ou seja, Leão) parece ter considerado tais acontecimentos com sentimentos mistos (Davis, 2014, p. 58-59) (grifo nosso).

Recorrer à imaginação para enfrentar a incerteza e a ambiguidade dos fatos e dos atos poderia, deste modo, conduzir à compreensão, evidenciar os matizes e as diferenças insinuadas entre verossimilhança e verdade, fazer parte, em suma, da tessitura e da estratégia da narrativa histórica. A este respeito, penso que vale a pena examinar Fiction in the Archives, publicado em 1987. Tanto a tradução francesa, de 1988, quanto a brasileira, de 2001, evitaram o título inglês: Pour sauver sa vie, no primeiro caso, Histórias de Perdão, no segundo: opção equivocada, a meu ver, pois oculta o substrato teórico que sustenta a argumentação do livro.

Num artigo publicado em 2003, a autora expôs as razões que a tinham levado a escolher tal título, pois acarretara certa estranheza entre os historiadores. Explicou que a palavra ficção fora ali empregada em virtude da construção cuidadosa das lettres de rémission, as cartas nas quais os condenados tentavam obter o perdão pelos crimes cometidos por meio da graça real, concedida em ocasiões especiais, como o aniversário do monarca, a sua entrada ritual em cidades, a celebração do nascimento de um herdeiro, certas festas religiosas.

Apesar de o texto das cartas trazer a marca de escrivães e observar as normas subjacentes às fórmulas legais, Natalie Zemon Davis argumentava ser possível “seguir a voz do acusado, pois precisavam construir uma história crível” (Davis, 2003, p. 24). Assim sendo, a palavra ficção, tal como empregada no livro, remeteria ao caráter “constitutivo, estrutural e modelador” do texto, e não a qualquer conotação artificiosa ou fictícia, trazendo ainda a possibilidade de “celebrar os contos de perdão antes como uma nova fonte de provas do que como elementos capazes de enfraquecê-las” (Davis, 2003, p. 25).

A explicação é mais do que satisfatória, mas tentarei adensar a justificativa por meio de uma digressão léxica. Na sua origem, a palavra ficção é francesa, e o Oxford English Dictionary localiza sua primeira ocorrência por volta de 14837. O Dictionnaire de l’Académie Française fornece os significados de ficção a partir de 1694 e até os dias de hoje, num total de nove ocorrências muito semelhantes, cabendo ressaltar que, na segunda delas, datada de 1718, começa a aparecer a acepção jurídica do termo: primeiramente, registra-se que ficção de direito é “uma ficção introduzida ou autorizada pela lei em favor de alguém”, havendo disso muitos exemplos no Direito romano. Em 1935, ocorre uma ligeira mudança na definição: explica-se que “ficção de direito” ou “ficção legal” é uma “suposição introduzida ou autorizada pela lei em favor de alguém”, desaparecendo a necessidade de justificá-la por meio do Direito romano. Por fim, nos dias atuais, sintetizam-se formas anteriores: “técnica jurídica pela qual supõe-se reais um fato, ou uma situação que não o são, com vistas a produzir um efeito de Direito”8. No Le Petit Robert, além de se remeter ao verbo feindre, ou seja, fingir, invoca-se a “criação da imaginação em literatura” e a acepção utilizada no Direito: ficção seria “procedimento que consiste em supor um fato ou uma situação diferente da realidade para dela deduzir consequências jurídicas”9.

Nota-se, portanto, uma diferença importante entre os dicionários ingleses e franceses consultados: se, nos primeiros, a palavra se encontra sempre relacionada à imaginação e à invenção - a relatos de episódios ou pessoas inexistentes –, em pelo menos dois dos franceses a definição se torna mais complexa.10. Parece aceitável sugerir que Natalie Zemon Davis procurou conservar o duplo significado da palavra ficção: tanto o da imaginação sem compromisso com a realidade, consagrado pela Literatura, quanto o da imaginação autorizada pela ficção do Direito, abrindo espaço para que fatos não acontecidos da forma relatada sejam utilizados pela lei como se o tivessem sido, no objetivo de atingir um determinado propósito. Tal argumento adquiriria força porque a maioria das fontes documentais sobre as quais o livro repousa tem substância jurídica: as referidas lettres de rémission, ou cartas de perdão.

Ao recorrer à leitura a contrapelo e buscar os modelos subjacentes à narrativa dos réus, Natalie Zemon Davis encontrou afinidades entre as cartas dos réus e outras práticas correntes na mesma época: o hábito da confissão, tornado cada vez mais corriqueiro num tempo marcado pelas reformas religiosas; os serões em que se contavam histórias, as diversas formas da literatura oral, muito comum entre populações ainda bastante iletradas. Sempre em busca do excepcional e do qualitativo, daquilo que não era possível quantificar, percebeu que cartas escritas por homens eram mais curtas e lacônicas do que as das mulheres, nas quais os detalhes e a exemplificação abundavam, adensando os elementos persuasivos ante o descrédito quase sempre dirigido a tudo quanto vinha do sexo feminino11. Claude Gauvard vê nesta constatação a tese do livro: “uma narrativa de dois rostos” (Gauvard, 1989, p. 1548). Por mais importante que seja a introdução de um viés de gênero à análise do objeto, penso que o nervo da obra é o nexo estabelecido entre a ficção dos arquivos e aquela que ia nascendo na França da época, assim como a relação dialética estabelecida entre as duas.

Antes de refletir sobre as cartas de perdão, Natalie Zemon Davis leu-as durante décadas, maravilhando-se ante suas “qualidades ficcionais”, “a capacidade com que seus autores modelavam os acontecimentos de um crime para transformá-los numa narrativa” (Davis, 1987, p. 2). Em sentido oposto ao da “história científica”, que sustentava ser necessário “desbastar os elementos ficcionais dos documentos”, propôs-se a transformar o aspecto ficcional no fulcro da sua análise, aproximando-se da crítica literária sem, contudo, como se disse acima, se identificar com ela.

As teorias em voga nos anos 1980 não foram todavia o único apoio à incursão de Natalie Zemon Davis pelo mundo da ficção nos arquivos, nem tampouco o mais importante: o que a guiou na leitura das lettres de rémission foi antes o olhar histórico, atento aos retóricos do século XVI, segundo os quais o discurso jurídico necessitava do recurso ao artifício ficcional e não implicava necessariamente em falsidade. Fica, portanto mais evidente a importância há pouco mencionada da ficção de direito, expressão presente no léxico francês seiscentista. Para o pensamento vigente no Direito de então, o artifício ficcional trazia verossimilhança e beleza ao texto, o que não implicava em fraude.12. Além disso, a visada histórica possibilitava captar os modos e estratégias tecidas pelos contadores de histórias do passado, reforçando a perspectiva democratizadora onipresente nas preocupações de Natalie Zemon Davis: ajudava a decifrar como aquelas pessoas contavam histórias, como estas variavam conforme mudavam os contadores e seu público, “como as regras referentes ao enredo desses contos judiciais de violência e de graça real interagiam com hábitos contemporâneos mais alargados de explicação, descrição e avaliação”... Assim, ao perscrutar linhas comuns a estruturas narrativas variadas, tanto populares quanto eruditas, a historiadora as confrontava simultaneamente a relatos alusivos a “eventos reais”, inquirindo qual a relação entre tais registros verdadeiros e as histórias de perdão (Davis, 1987, p. 4). O passo seguinte, ousado e inovador, consistiria em comparar estas últimas às histórias narradas por escritores franceses daquele século, como Noel du Fail, autor dos Propos rustiques, e a rainha Margarida de Navarra, conhecida sobretudo por uma de suas obras, o Heptaméron13. Já que contos e novelas utilizavam na época “vários detalhes concretos a fim de lhes atribuir marcas de realidade e frequentemente reivindicavam estar recontando acontecimentos reais”, considera Natalie Zemon Davis, “qual semelhança teriam com a ficção dos arquivos”? (Davis, 1987, p. 5).

Numa das confrontações realizadas ao longo do livro entre a literatura e as fontes documentais – as cartas –, a autora examinou os contos de Margarida de Navarra e as histórias narradas por mulheres criminosas em busca de perdão. Quanto ao enredo ficcional, ou trama, considerou que os escritos da rainha diziam menos do que os das mulheres comuns, dizendo muito mais, contudo, quanto aos sentimentos e à interpretação crítica dos fatos, além de também suplantarem, neste aspecto, a maioria dos escritos quinhentistas voltados para a discussão sobre o ódio e a violência entre os gêneros (Davis, 1987, p. 108-109). Postas frente a frente, Margarida de Navarra e as autoras de cartas de perdão revelam, assim, as confluências e as diferenças entre os textos que escreveram ou, no caso das iletradas, ditaram a terceiros, fornecendo-lhes trama e argumentos: No domínio da investigação, da ameaça e da fantasia, a Rainha-autora permite que suas mulheres vivenciem uma gama mais ampla de sentimentos do que as mulheres permitem a si mesmas nas cartas de perdão, e ainda as perdoa pelo que fizeram” (Davis, 1987, p. 110).

A imaginação ficcional daria margem à recriação dos destinos pessoais porque, não precisando se justificar, não precisaria ser fiel à realidade, nem sobre ela pesaria a punição imposta pela sociedade. Já as cartas de remissão, femininas ou masculinas, “têm um cadáver a explicar, seus textos são portadores de feridas e sua argumentação traz buracos e cortes abertos” (Davis, 1987, p. 47). A ficção poderia, muito mais do que as cartas, ir além da realidade, superando uma vida cotidiana à qual não estaria presa senão pelo que o autor imaginava. Bebendo nas cartas de perdão – e Natalie Zemon Davis acredita que tal fato aconteceu -, a ficção acabaria por as superar enquanto espaço de criação de possibilidades.

Quando consideradas num contexto histórico comum, no entanto, as estratégias narrativas aproximariam ficção e realidade, literatura e documentos depositados em arquivos: a “matéria da invenção” achar-se-ia “largamente distribuída pela sociedade”, as informações, valores e hábitos de linguagem fluiriam através das divisões referentes a classes e culturas distintas (Davis, 1987, p. 112). No meado do século XVI, boas razões morais deveriam ser verossímeis: “quanto mais provável fosse uma história, mais instrutiva se mostraria, em contraste com o caráter fantasioso dos romances de cavalaria” (Davis, 1987, p. 112-113). A verossimilhança, fundamental à argumentação tecida pelos condenados nas cartas, assentava-se sobre o princípio de realidade, e são porquanto visíveis os elos que articulam os contos de perdão dos condenados ao surgimento de uma nova forma literária, cada vez menos confortável no mundo da fabulação e da fantasia. Não foi esta, afinal, uma das principais inovações trazidas pelo Quixote de Cervantes alguns anos depois?

Estariam assim postos os fundamentos para que se vejam ambas as estratégias narrativas examinadas como constitutivas de um novo tempo, no qual o perdão assumia estatura até então inédita: autores como Rabelais pediam perdão nos epílogos de seus livros, outros, como Shakespeare, o pediam à plateia que assistia suas peças repletas de “ofensas”, e nesses pedidos a historiadora vislumbrou a evidência de que tais autores reconheciam em seus trabalhos tanto o poder de ferir quanto o de ser fonte de um novo poder (Davis, 1987, p. 113).

No último parágrafo do livro, Natalie Zemon Davis confessa ter se perguntado se deveria pedir perdão a seus personagens mortos depois de tanto tempo, já que seus escritos a fizeram rir com frequência. Tal confissão a aproxima, por um lado, das mulheres e dos homens do século XVI: de Margarida de Navarra, que perdoara as criminosas às quais dera vida no Heptaméron; de Montaigne, que confessava rir e chorar das mesmas coisas, mas também de Calvino, que acusava padres de transformarem as confissões de seus penitentes em histórias engraçadas. Por outro lado, porém, Natalie Zemon Davis afasta-se deles, bem como das criaturas que lutaram para obter perdão, pois a distância é condição para que narre e cumpra a obrigação ética que se impôs ao longo da prática historiográfica: dar-lhes voz sem para tanto expressar a certeza de ter compreendido exatamente quais foram seus desígnios, nem de que reproduziu os fatos tais como se passaram. Partilhar a dúvida por meio de uma narrativa empenhada em se aproximar o máximo possível de um mundo distante, para tal lançando mão de recursos cuidadosamente construídos: este é um dos mais belos legados da historiografia de Natalie Zemon Davis, uma das principais razões pelas quais devemos cultuar sua autora como divindade tutelar dos estudos sobre a época moderna.

Figura 1
: Natalie Zemon Davis e seus colegas do Departamento de História da Brown University

REFERÊNCIAS

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  • GAUVARD, Claude. Compte-rendu de Natalie Zemon Davis. Pour sauver sa vie. Annales - E.S.C ., 44e. année, n. 6, nov./déc. 1989.
  • GINZBURG, Carlo. Prove e possibilità. In: DAVIS, Natalie Zemon. Il ritorno di Martin Guerre: Un caso di doppia identità nella Francia del Cinquecento. Turim, 1984. p. 129-154.
  • GINZBURG, Carlo. Relações de força: História, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  • GINZBURG, Carlo. Provas e possibilidades. In: GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: Verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 311-338.
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  • LUKÁCS, György. A Teoria do Romance São Paulo: Livraria Duas Cidades; Editora 34, 2000.
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  • MAUSS, Marcel. Essai sur le don: Forme et raison de l'échange dans les sociétés archaïques. L'Année Sociologique, v. I, 1923-1924.
  • MAUSS, Marcel. Sociologie et Anthropologie, Paris: Presses Universitaires de France, 1980.
  • MELETÍNSKI, E. M. Do mito à literatura. Cotia: Ateliê Editorial, 2024.
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  • MONTAIGNE, Michel de. Dos coxos. In :MONTAIGNE, Michel de. Ensaios, v. 3. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 169-195.
  • SAHLINS, Marshall. Stone Age Economics Chicago: Aldine Publishing Company, 1972.
  • ROPPER, Hugh Trevor. Renaissance Essais Glasgow: Fontana Press, 1986.
  • WOLF, Ismael. Resenha sobre: DAVIS, Natalie Zemon. Decentering History: Local Stories and Cultural Crossings in a Global World. History and Theory, v. 50 p. 188-202, maio 2011.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 1
    “Uma das lembranças mais marcantes que tenho de Natalie é a alegria incontida que ela demonstrou ao saber que minha esposa e eu havíamos tido um filho.” (Cohen, 2023, p. 10).
  • 2
    A universidade de Toronto se orgulha de ter um dos mais antigos programas sobre o assunto, conforme consta do site do Women and Gender Studies Institute da Universidade, que cita o curso oferecido em 1971 por Natalie Zemon Davis e Jill Ker Conway. Disponível em: https://wgsi.utoronto.ca/about/history/. Acesso em: 2 jan. 2025.
  • 3
    O Davis Center financia seminários semanais em torno de assuntos variados, escolhidos pelo perído de dois anos e contando com a participação de especialistas de diferentes partes do mundo. Disponível em: https://history.princeton.edu/centers-programs/shelby-cullom-davis- center. Acesso em: 2 jan. 2025.
  • 4
    Esta consideração foi atribuída a David Nirenberg. Disponível em: https://ww.ias.edu/ideas/natalie-z-davis-1928-2023. Acesso em: 3 fev. 2025.
  • 5
    A autora abre o primeiro capítulo com a explicação dos nomes árabes de sua personagem, continuando-a nas páginas seguintes. Ver : Davis (2014, p. 11-13).
  • 6
    “Acho que podemos concordar com Hayden White quando considera que o mundo não se ‘apresenta à percepção na forma de histórias bem construídas, com sujeitos centrais, começos, meios e fins adequados’. E, nos diversos esforços para definir o caráter da narrativa histórica, creio que podemos concordar com Roland Barthes, Paul Ricoeur e Lionel Gossman quando dizem ser necessárias escolhas de linguagem, de detalhes e de ordem para apresentar um relato que pareça, tanto para o autor quanto para o leitor, verdadeiro, real, significativo e/ou explicativo”. Ver: Davis (1987, p. 3).
  • 7
    Disponível em: https://www.oed.com/dictionary/fiction_n?tl=true. Acesso em: 31 mar. 2025. A referência constaria de uma tradução realizada pelo pintor, impressor, comerciante e diplomata William Caxton. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/William_Caxton. Acesso em: 31 mar. 2025.
  • 8
    Disponível em: https://www.dictionnaire-academie.fr/article/A9F0680. Acesso em: 31 mar. 2025.
  • 9
    Davis (2003, p. 702).
  • 10
    Foram consultados, para o inglês : Oxford English Dictionary (Disponível em: https://www.oed.com/dictionary/fiction_n?tl=true. Acesso em: 26 mar. 2025); Cambridge Dictionary (Disponível em: https://dictionary.cambridge.org/us/dictionary/english/fiction. Acesso em: 26 mar. 2025); Longman Dictionary of Contemporary English. New Edition, Longman, 1987; Webster New World Dicitonary on the American Language. Second College Edition. NY, The World Publishing Company, 1972. NTC’s American English Learner’s Dictionary. NTC Publishing Group, 1975. Para o francês: Le Petit Robert. Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française. Par Paul Robert. Société du Nouveau Littré – SNL, 1976. Dictionnaire Larrousse (Disponível em: https://www.larousse.fr/dictionnaires/synonymes/fiction/9434#:~:text=Cr%C3%A9ation%20de%20l’imagination.,%E2%80%93%20Litt%C3%A9raire%20%3A%20songe. Acesso em: 26 mar. 2025); Dictionnaire Le Robert (Disponívem em: https://dictionnaire.lerobert.com/definition/fiction. Acesso em: 26 mar. 2025. Disponível em: https://www.dictionnaire-academie.fr/article/A9F0680. Acesso em 31: mar. 2025).
  • 11
    As peculiaridades das lettres de rémission apresentadas pelas mulheres são examinadas no capítulo 3 do livro, “Bloodshed and the Woman’s voice”, (Davis, 1987, p. 77-110).
  • 12
    “Procurar os aspectos ‘ficcionais’ de uma carta de remissão não significava, à luz das concepções do século XVI, levantar necessariamente a hipótese de uma fraude” (Davis, 1987, p. 4).
  • 13
    Margarida de Navarra (1492-1549), nascida de Angoulême, era irmã de Francisco I rei de França e foi rainha por casamento com Henrique II de Navarra. Inspirada no Deccamerone, de Boccaccio, escreveu 72 contos que permaneceram inéditos até 1558, sendo então publicados postumamente, sob o título de Heptaméron. Noel du Faïl (1520-1591) foi um jurista egresso da nobreza rural da França, e conhecido sobretudo por seus Propos Rustiques (1547), coletânea de contos que tratam da vida rural francesa, e constituem um dos únicos textos literários da época voltados para a vida camponesa. Parece-me oportuno lembrar que uma das obras constantemente invocadas como fundadora da ficção moderna – e até do romance, segundo certos autores – surge pouco depois: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), publicado de 1605 a 1615. A respeito do papel desempenhado por Cervantes no surgimento do romance, ver: Lukács (2000, p. 106-108); Meletínski (2000, p. 106-108; p. 143-148).
  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Revisado
    20 Ago 2025
  • Aceito
    30 Jul 2025
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Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
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