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Pro-Posições

versão On-line ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.24 no.2 Campinas maio/ago. 2013

https://doi.org/10.1590/S0103-73072013000200017 

LEITURAS E RESENHAS

 

De longe e de perto: crítica ao discurso acadêmico territorializado

 

 

Marco Antonio Coelho BortoletoI; Maria Luisa BellottoII

IProfessor da Faculdade de Educação Física (FEF), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), SP, Brasil. bortoleto@fef.unicamp.br
IIProfessora dos cursos de Nutrição e Educação Física da Veris - Metrocamp e Pesquisadora do Laboratório de Fisiologia do Exercício (FISEX), no Programa de Pós-Graduaçao da FEF - Unicamp, Campinas, SP, Brasil. malubs@hotmail.com

 

 

DIVERSI, Marcelo; MOREIRA, Claudio. Betweener talk: decolonizing knowledge production, pedagogy and praxis. Walnut Creek: Left Coast Press, 2009. 236p.

Deparamo-nos com uma obra na qual as experiências de pesquisa, o itinerário pessoal e a atuação acadêmica em instituições norte- americanas tecem um diálogo entre dois colegas acerca da justiça social, da opressão, da colonização e, principalmente, da descolonização na produção do conhecimento. Um diálogo que discute ainda as metodologias e as ideologias que envolvem a pesquisa em ciências humanas.

A primeira conversa, disparada pela questão: por que você foi para uma universidade americana para estudar crianças de rua brasileiras?, mostra, de saída, uma preocupação ideológica com o impacto da produção do conhecimento, na realidade, daqueles que se tornam objeto de estudo. Uma produção que, como todos sabemos, pode muito bem reproduzir distorções ou preconceitos já cristalizados nas narrativas sociais dominantes. O diálogo prossegue por todo o primeiro capítulo, denominado "The Beginnings of a critical postcolonial duo"1, interpelando sobre as metodologias utilizadas no campo etnográfico, sobre o papel político da pesquisa e sobre o sentimento de outsiders tanto durante o trabalho de campo (nas ruas, por exemplo), quanto como brasileiros atuando no cenário acadêmico americano. Todo um conjunto de uma justiça social, sob o auspício de um conceito dinâmico de identidade para além dos próprios sujeitos, modelada pereflexões fortemente marcadas pela busca los espaços sociais e simbólicos onde eles vivem e atuam. Um debate que nos fez recordar os dilemas enfrentados pelo antropólogo espanhol Carles Feixa Pampols, na emblemática obra Jóvenes, bandas y tribus (Feixa 2008), em suas investigações sobre jovens latino-americanos. Ao final dessa primeira parte, os pesquisadores abordam o sentimento de opressão e o poder da autoridade (de perguntar, de pesquisar, de ir a campo estudar problemas sociais...), recordando, constantemente, que o constructo teórico que produzem segue influenciado por suas memórias corporais, suas histórias pessoais e suas identidades.

No breve segundo capítulo, os autores versam sobre suas referências "ontoepistemológicas", como eles próprios denominam, em particular, as obras de Maurice Merleau-Ponty, de Gloria Anzaldúa e, mais sutilmente, de Michel Foucault. Suas aproximações revelam a importância da sensibilidade, da percepção, do corpo e do diálogo próximo com seus sujeitos, buscando ouvi-los sem que o discurso dominante crie certas insensibilidades. Enfatizam, ademais, que seus trabalhos tratam de narrativas político-ideológicas, de resistência e de reivindicação em busca de uma maior justiça social.

O capítulo terceiro relata uma série de histórias, recortes dos estudos realizados pelos autores, ressaltando a voz dos protagonistas dessas pesquisas sobre os moradores de rua (crianças) e cortadores de cana de açúcar. Uma verdadeira janela que se abre para que possamos observar a dura realidade de um país, conhecido como "the famous mestiço country of samba and soccer and injustice" (p.57 - grifo dos autores do livro).

A seguir, o capítulo quarto relata outras histórias, que destacam uma interessantíssima carta dirigida ao Prof. Norman Denzin, contestando o duro parecer negativo recebido após a submissão de um paper, assinado pelos autores. Na carta, há um original ponto de vista sobre o livro de Soyini Madison, Critical Ethnography: method, ethics, and performance, de 2005 e, mais precisamente, sobre a perspectiva preconceituosa que a academia possa ter sobre a própria produção do conhecimento quando ela não é próxima ou quando é diferente. É um problema, já experimentado por muitos pesquisadores brasileiros, quando tentaram publicar em revistas estrangeiras, como chama a atenção o artigo de Victora e Moreira (2006).

As histórias que compõem o capítulo quinto, denominado "Betweenness in Race", apresentam extratos de pesquisas sobre moradores de rua e torcidas organizadas2. Narrativas que mesclam depoimentos dos sujeitos e questionamentos teóricos (sobre o racismo, por exemplo), às vezes em forma de prosa e outras de diálogo. Com elas, os autores chamam a atenção para distintas peculiaridades do trabalho de campo, ouvindo a voz dos protagonistas das duras realidades estudadas e, assim, buscando uma percepção mais próxima dos múltiplos sujeitos envolvidos e de suas distintas perspectivas sobre os problemas em questão. Vejamos dois bons exemplos:"The only way out of this mess is to kill all these kids" (p.96) - palavras do dono de uma loja na região central do Rio de Janeiro sobre as crianças de rua que vivem diante de seu estabelecimento; ou "There, in the bar, they drink pinga and a few beers. Just warming up for the game" - relato de um torcedor sobre sua rotina antes de ir ao estádio para partidas de futebol. Os referidos extratos revelam, ainda, a descoberta da autoetnografia - a partir dos estudos de Norman Denzin-, além das dificuldades que os pesquisadores enfrentam durante seu trabalho de campo, em especial, os preconceitos que podem sofrer por não pertencer àquela realidade/àquele grupo, ou mesmo por suas características físicas. Paradoxalmente, mostram o poder que o pesquisador pode ter ou pensar ter sobre seu objeto de estudo e sobre seus protagonistas.

O sexo, ou melhor, a violência sexual, aparece como temática geral do capítulo sexto, revelando umas das facetas mais cruéis do cotidiano vivido pelas crianças e pelos jovens em situação de rua. A maraparece como temática geral do capítulo. A marginalidade que conforma a vida dessas pessoas é vivida de modo íntimo pelos autores, que demonstram, recorrentemente, manter um profundo envolvimento com os sujeitos de seus trabalhos. A realidade é descrita de modo quase literal, aliás, essa é uma característica da obra, como podemos observar nesta passagem: "Rosa and Celina were 'easy Black girls'. They were 'good for sex'. And I, I was learning life in the streets". "[...] They are made for this" (p.130).

A busca pelo entendimento do processo de colonização e, mais precisamente, por como estudar as implicações ainda remanescentes (na carne, no simbólico...) desse processo, leva os autores a uma truncada, porém relevante, discussão sobre o sentimento de colonizador e de colonizado, que o pesquisador enfrenta, ao refletir sobre seu ofício. Os argumentos refletem a experiência de viver, na pele, a condição de não americanos ("latinos") e permitem traçar alguns paralelismos com a realidade brasileira (preconceitos vividos pelos migrantes nordestinos, ou mesmo por negros, por índios... pelos latinos do Brasil). A colonização dos sentidos, das memórias e, portanto, do espírito, emerge em passagens como:

But who was Geraldo? He was - ethically and racially - something. What he was, comparing to Wolf's European peasants, part of the people "without history" (Scheper-Hughes, 1992, p. 90). I can trace the white arm of my heritage but not the dark one. I do not know the names of Geraldo's parents. This is a good example of the mithy of "Brazilian Racial democracy" (Freyre, 1936). Geraldo was the caboclo and/or the matuto, the product of colonial rape and also my grandfather (Scheper-Hughes, 1992, p. 90). (p.143)

O capítulo sétimo expõe, ainda, algumas imagens que ajudam a ressaltar a crueldade da condição social vivida pelos sujeitos de suas investigações, contada sem restrições pelos autores em suas histórias, prosas e narrativas.

Outra história, já no capítulo oitavo, expõe, novamente, as diversas ocasiões em que os pesquisadores são levados a contatar com outros interlocutores desta realidade (casas de acolhida, polícia...). Nesses encontros, é possível observar que a violência não só é experimentada na rua, mas também nas próprias instituições de acolhida/abrigos (shelters). Por vezes, os pesquisadores se enfurecem com atos e discursos de alguns dos personagens com quem eles "trombam" nessas incursões de campo, a ponto de abandonarem uma conversa ou um cenário. Em outras, favores são solicitados aos pesquisadores, como por exemplo, mencionar a instituição que realiza "projetos sociais" em seus informes acadêmicos - publicações. Eis que os fatos mostram que a ideologia e a política não deixam de tencionar a atuação do pesquisador, como eles mesmos atentaram no início desta obra. A força e a fragilidade do pesquisador voltam a ser foco dos autores em relatos de experiências vividas no Brasil (ser assaltado) e nos Estados Unidos (pensar que seria assaltado). Novamente, a insegurança e as angústias de estarem em outro país, buscando estabelecerem-se como pesquisadores, são retratadas nas narrativas. Assim, sentir-se um "betweener" (Anzaldúa3), ou um "the outsider within" (Collins), ou ainda, como um "colonizador/colonizado", como defendem os autores, permeia todo o discurso aqui apresentado, isto é, o entendimento que tecem sobre a produção do conhecimento (em seguidos debates com as ideias de Butler, 2004, Denzin, 2003; Schechner, 1998).

Durante grande parte do capítulo nono, os autores versam, por meio de um interessantíssimo diálogo entre eles, sobre o conceito de "autoetnografia" (termo, "aprendido de Norman Denzin", nas palavras de Marcelo Diversi, p.187). A conversa evidencia o entendimento de que a etnografia é, de fato, um tipo de pesquisa na qual o "auto" condiciona a interpretação da realidade e, portanto, está sempre presente. A seguir, eles sustentam que suas inquietudes e posicionamentos político-ideológicos es-tão pautados pela influência da teoria crí tica, do Marxismo e também da fenomenologia, o que lhes conduziu a uma "autoetnografia crítica", mencionando como referência o trabalho de Carolyn Elli, The ethnographic I: a methodological novel about Autoethnography (2004), entre outros. Uma leitura que incorpora, de modo direto e unívoco, os elementos essenciais da obra Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Um diálogo que merece uma atenta leitura de todo interessado na etnografia.

Encerrando o texto, no capítulo décimo, os autores oferecem suas últimas reflexões sobre os diversos assuntos tratados ao longo do livro, reforçando as dificuldades de trabalhar e de divulgar sua produção noutro país, cujo sistema acadêmico também revela preconceitos e distorções sociais. Enfatizam seus esforços de, por meio de sua "práxis pedagógica" e da atuação nas distintas atividades acadêmicas, elaborar com seus alunos e companheiros as reflexões expostas nesta obra, bem como algumas de suas dificuldades (escrever e comunicar-se em inglês, por exemplo), "decolonizando" (descolonizando) suas aulas. Por conseguinte, sua atuação acadêmica acontece, de certa forma, num "battleground" (campo de batalha), repleto de tensões. Em síntese, eles expressam a preocupação com a utilidade de seus trabalhos, deixando-nos uma brilhante passagem (p.207), que merece leitura na íntegra, mas que, por motivos óbvios, não foi transcrita aqui:

We are not postcolonial scholars, because we don't make sense of the orderly implication that the world was once precolonial, or the implication that one can ever claim the higher moral ground of having achieved a postcolonial state of being. Instead, we are betweeners aiming for decolonizing performances, reflections, práxis, and narratives of the Other" [...].

De um modo geral, o discurso exposto, neste livro, revela um tenso diálogo entre as teorias socioantropológicas, a potente obra de Paulo Freire e a experiência acadêmica de dois pesquisadores brasileiros em instituições americanas. A aproximação e o distanciamento permitiram-lhes novos entendimentos sobre os distintos objetos de estudo expostos, considerando a diversidade contextual de quem e onde esses conhecimentos são produzidos. Como relatamos anteriormente, o debate teórico acontece principalmente com as obras de Anzaldúa, Bakhtin, Denzin, Foucault, Freire e tantos outros, sempre a partir de experiências de campo (etnográficas), revelando um peculiar cenário intelectual. De fato, parece-nos que foi precisamente a condição de "betweeners" que motivou as novas e interessantíssimas contribuições sobre como olhar o outro e sobre como compreender as diferenças culturais, o preconceito, a ignorância, a justiça social e a produção do conhecimento acadêmico.

Enfim, Marcelo e Claudio, autores desta obra, oferecem fragmentos de suas pesquisas no campo das humanidades, elaboradas sob a tensão de múltiplas realidades (Brasil, USA, favelas, ruas, canaviais...4) que lhes colocaram numa condição peculiar, a de "BETWEENERS". Aliás, como eles mesmos ressaltam, a escrita em duo lhes permitiu compreender melhor esta condição de "betweeners". Estamos diante de um livro de "estrangeiros", premiado nos Estados Unidos5, cuja leitura certamente inspirará estudiosos de diversas áreas, dentre elas a educação, assim como nos inspirou.

Para nós, resenhar esta produção apresentou algumas dificuldades, desde a complexidade conceitual e teórica disposta até a compreensão da linguagem empregada. Contudo, tomamos o desafio como um privilégio, pois ambos os autores desta resenha foram e, de certa forma, continuam percebendo-se como "betweeners", tanto durante seus 5 anos pesquisando no estrangeiro como nos anos posteriores após seu retorno ao Brasil.

Permitam-nos os autores, mas, assim como eles, parece-nos pertinente usar a música, ou melhor, os versos do rap nacional, para ilustrar a dureza do assunto e a força da ideologia que recobre este trabalho de pesquisa:

Olha no meu olho, veja o brilho da alma de um louco;

Tensão, em meio ao lodo encontrei minha missão;

Candidato à morte, por sorte o destino me disse que não;

Refrão

Pra cima Revolução a Nova Ordem de guerreiros na missão;

Você pode tenta se quiser derrubar;

Você pode tenta, mais só pode tentar;

(Projota; Rashid; Emicida, 2012.)

 

Referências bibliográficas

FEIXA, C. P. Jóvenes, bandas y tribus. Barcelona: Ariel, 2008.         [ Links ]

MURPHY, P.; WILLIAMS, J.; DUNNING, E. O futebol no banco dos réus: violência dos espectadores num desporto em mudança. Oeiras: Celta, 1994.         [ Links ]

PROJOTA; RASHID; EMICIDA. Três temores. 2012        [ Links ]

REIS, H. H. B. dos. Futebol e violência. Campinas: Autores Associados, 2006.         [ Links ]

VICTORA, C. G.; MOREIRA, C. B. Publicações científicas e as relações Norte-Sul: racismo editorial? Revista de Saúde Pública, v.40, p.36-42, 2006. Edição especial. Disponível em: <http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v40nspe/30620.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2013.         [ Links ]

 

 

1. Tanto o título deste capítulo como outros trechos reproduzidos ao longo desta resenha não foram traduzidos ao português por opção dos resenhadores, visando preservar a particularidade destas passagens em inglês. De fato, como se ressalta no prólogo da obra, a redação original não foi modificada respeitando a forma peculiar de os autores fazerem uso do inglês para exprimir suas ideias.
2. As narrativas sobre torcidas organizadas nos aproximam de algumas reflexões contidas no livro: MURPHY, P.; WILLIAMS, J.; DUNNING, E.. O futebol no banco dos réus: violência dos espectadores num desporto em mudança. Oeiras: Celta, 1994. Um campo de estudos que ganhou bastante atenção da academia nas últimas décadas, como revela o livro: REIS, H. H. B. dos. Futebol e violência. Campinas: Autores Associados, 2006.
3. Algumas das referências mencionadas pelos autores do livro foram incluídas nesta resenha buscando localizar o leitor no contexto conceitual e teórico construído ao longo da obra. Vale ressaltar que optamos em não incluí-las formalmente nas "Referências Bibliográficas" uma vez que não foram discutidas aqui.
4. Pesquisas publicadas em distintas revistas, especialmente na Qualitative Inquiry
5. Winner of the National Communication Association, Division of Ethnography, 2010 - Best Book Award (Prêmio de Melhor Livro).

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