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Psico-USF

Print version ISSN 1413-8271

Psico-USF vol.17 no.1 Itatiba Jan./Apr. 2012

https://doi.org/10.1590/S1413-82712012000100009 

ARTIGOS

Validade incremental do Zulliger e do Pfister no contexto da toxicomania

 

Incremental validity of the Zulliger and Pfister in the contexto of drug addiction

 

Validez incremental del Zulliger y del Pfister en el contexto de la toxicomania

 

 

Renata da Rocha Campos FrancoI; Anna Elisa de Villemor-AmaralII

IUniversité de Picardie Jules Vernes, Amiens, França
IIUniversidade São Francisco, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi verificar a validade incremental de duas técnicas projetivas, a partir da compreensão da personalidade de 20 dependentes químicos. Uma avaliação da personalidade de dez brasileiros adictos do álcool e dez franceses dependentes da heroína, que estavam vivenciando o processo do tratamento da desintoxicação da droga em centros especializados no Brasil ou na França, foi feita pela perspectiva da psicopatologia fenômeno-estrutural, que é uma abordagem teórica de origem francesa que compreende o funcionamento mental do indivíduo a partir do modo de viver o tempo e o espaço. A relação espaço-temporal e a personalidade foram compreendidas pela maneira como as pessoas se expressaram verbalmente e pelo modo como viram e construíram as imagens das técnicas projetivas de Zulliger e Pfister. Os resultados demonstraram coerência entre as informações geradas pelos instrumentos, provando que o Zulliger e o Pfister, quando aplicados de forma associada e interpretados pelo método fenômeno-estrutural, mostraram-se eficientes para conhecer as vivências de espaço e tempo dos sujeitos.

Palavras-chave: Psicopatologia fenômeno-estrutural; Teste de Zulliger; Pirâmides Coloridas de Pfister; Dependência química; Validade incremental; Avaliação psicológica.


ABSTRACT

The aim of this study was to verify the incremental validity of two projective techniques used to assess the personality traits of 20 addict patients. An assessment of the personality of ten Brazilian addict of alcohol and ten French heroin addicts who were experiencing the process of drug detoxification in specialized centers in Brazil or France was performed  by the Phenomenon- structural Psychopathology perspective -  a French theoretical approach that understands the mental functioning of the individual through the way it lives  the space and time dimensions. The spatio-temporal relationship and the personality  were understood by the verbal or pictured expression of the self and through the way images of projective techniques Zulliger and Pfister are built. The analysis showed consistency between the information generated by both instruments, demonstrating that Zulliger and Pfister, when applied in combination and interpreted by the phenomenon-structural method, are efficient to reveal the experiences of space and time of the subjects.

Keywords: Phenomenon-structural psychopathology; Pfister; Zulliger; Pfister's Color Pyramid Test; Addicts patients; Incremental validity; Pychological assessment.


RESUMEN

El objetivo de esta investigación fue verificar la validez incremental de dos técnicas proyectivas, a partir de la comprensión de la personalidad de 20 dependientes químicos. Una evaluación de la personalidad de diez brasileños adictos del alcohol y diez franceses dependientes de heroína, que estaban vivenciando el proceso del tratamiento de la desintoxicación de droga en centros especializados en Brasil o en Francia, fue hecha por la perspectiva de la psicopatología fenómeno-estructural que es un abordaje teórico de origen francesa que comprende el funcionamiento mental del individuo por su modo de vivir el tiempo y el espacio. La relación espacio-temporal y la personalidad fueron comprendidas por el modo como las personas se expresaron verbalmente y como vieron y construyeron los imágenes de las técnicas proyectivas de Zulliger y Pfister. Los resultados demostraron coherencia entre las informaciones generadas por los instrumentos, probando que el Zulliger y el Pfister, cuando aplicados de forma asociada e interpretados por el método fenómeno-estructural, se muestran eficientes para conocer las vivencias de espacio y tiempo de los sujetos.

Palabras-clave: Psicopatología fenómeno-estructural; Test de Zulliger; Pirámides Coloridas de Pfister; Dependencia química; Validez incremental; Evaluación psicológica.


 

 

Toxicomania no Brasil e na França

O presente artigo faz parte de uma pesquisa mais ampla, que visou comparar as diferenças e semelhanças interculturais entre os procedimentos habituais de tratamento da dependência química realizados no Brasil e na França (Franco, 2011). A ideia central da pesquisa foi compreender a toxicomania em sua totalidade, esclarecendo algumas dúvidas sobre os estudos epidemiológicos, os efeitos de medicações e contexto contemporâneo em que a droga está inserida tanto no Brasil quanto na França.

O resultado da análise transcultural entre brasileiros e franceses permitiu identificar características tanto comuns quanto peculiares entre os dois grupos, demonstrando que as técnicas psicológicas, quando empregadas no contexto da dependência química, são sensíveis para identificar a singularidade de cada indivíduo, apesar dos sintomas e comportamentos semelhantes.

As semelhanças e as diferenças entre o funcionamento psicológico dos dependentes químicos foram verificadas por meio de uma detalhada avaliação de personalidade, que utilizou os testes projetivos de Zulliger-SC (Villemor-Amaral & Primi, 2009), Pirâmides Coloridas de Pfister (Villemor-Amaral, 2005), interpretados pela abordagem da psicopatologia fenômeno-estrutural de Minkowski (1995, 1997, 1999), além de observações e entrevistas.

Técnicas projetivas de Zulliger e Pfister

As técnicas projetivas de Zulliger e Pfister estão sendo bastante utilizadas na prática do psicólogo em diferentes contextos, graças às inúmeras pesquisas que estão sendo realizadas nos últimos dez anos (Cardoso & Capitão, 2007; Costa & Villemor-Amaral, 2004; Ferreira & Villemor-Amaral, 2005; Franco 2009; Oliveira, Pasian & Jacquemin, 2001; Primi, Muniz & Villemor-Amaral, 2009; Vaz, 1998; Villemor-Amaral & Franco, 2008; Villemor-Amaral & Machado, 2009; Villemor-Amaral, Machado & Noronha, 2008; Villemor-Amaral & Primi, 2009; Villemor-Amaral, Primi & Farah, 2004; Villemor-Amaral, Primi & Silva, 2002; Villemor-Amaral, Primi & Silva, 2003).

Em relação aos estudos publicados com o Pfister, observa-se que são, em sua maioria, voltados para a área clínica, pois oferece informações importantes sobre a dinâmica afetiva das pessoas (Villemor-Amaral, 2005). A maioria dos trabalhos publicados com o Pfister busca verificar a relação existente entre dinamismos psíquicos, comparando pessoas com determinados sintomas – grupo clínico – e sem sintomas – grupo de não-pacientes (Cardoso & Capitão, 2007; Oliveira & cols., 2001; Villemor-Amaral & cols., 2002; Villemor-Amaral & cols., 2003). Entre os trabalhos citados, destaca-se, para o contexto da dependência, o estudo de Villemor-Amaral e cols. (2003) que investigaram a validade de critério do Pfister para a predição do alcoolismo. Os resultados revelaram que o aumento do vermelho e a constância absoluta da cor violeta associada eventualmente à execução de tapetes pode ser um sinal para o alcoolismo.

Já em relação ao teste de Zulliger, diversas e recentes pesquisas têm trazido evidências de sua validade e utilidade (Villemor-Amaral & cols., 2009; Villemor-Amaral & Primi, 2009), no entanto, no contexto da dependência, poucos estudos foram realizados. Primi e cols. (2009) buscaram evidencias de validade de critério do Zulliger para a predição da dependência alcoólica, mas os resultados psicométricos foram insuficientes para assegurar tal diagnóstico com base nas respostas dadas. Os autores enfatizam a necessidade de mais investimentos nessa área.

Embora as duas técnicas, tanto de Zulliger quanto de Pfister, necessitem de mais e novos estudos sobre a validade de critério preditiva, o objetivo deste estudo não foi o de testar um grupo de indicadores competentes para predizer o perfil do químico-dependente. O estudo buscou testar um tipo de validade, pouco explorado, que é a validade incremental dos testes de Zulliger e Pfister.

Algumas pesquisas já alertam sobre a melhor utilidade das técnicas quando aplicadas de forma associada. De acordo com Franco (2009), a associação do Zulliger com o Pfister alcança maior profundidade nos diagnósticos. Além disso, Villemor-Amaral e Pasqualini-Casado (2006) afirmam que os estudos de validade incremental são fundamentais na prática clínica e na pesquisa, pois valorizam a ideia de que a utilização simultânea de métodos distintos amplia e refina o conhecimento descritivo do fenômeno avaliado. Nessa perspectiva, Husain-Zubair (1992) argumenta que a utilização de uma bateria de testes é uma alternativa bastante eficiente, pois cada teste proporciona modos de expressões específicos e que são, na maioria das vezes, complementares, favorecendo uma compreensão profunda da personalidade.

Nesse contexto, procurar a validade incremental entre o Zulliger e o Pfister é, portanto, verificar a coerência entre as informações geradas sobre a personalidade de uma mesma pessoa e sua complementariedade. Para esse tipo de análise, poucos casos são suficientes, e por isso, o critério de comparação escolhido pelo presente estudo foi o método qualitativo da psicopatologia fenômeno-estrutural. 

A psicopatologia fenômeno-estrutural aplicada ao Zulliger e ao Pfister

A relação do Zulliger com o método fenômeno-estrutural vem da sua origem no método de Rorschach, pois foi por meio do Rorschach que a abordagem ganhou força e visibilidade no mundo científico. Umas das principais autoras desse método, Françoise Minkowska, publicou sua obra, Le Rorschach, la recherche du monde de formes (1956/1978), iniciando uma série de estudos que viriam a seguir. Essa autora observou, através do modo de visão das imagens do Rorschach, a existência de duas tipologias completamente opostas. De uma lado estaria a tipologia epileptossensorial, composta por pessoas que, ao verem as imagens do teste, sentiam, e por isso, estavam mais atentas aos aspectos sensoriais das manchas; tudo o que era visto, ouvido e sentido era mais atraente e reverberava na dinâmica interna da pessoa, produzindo trocas entre o sujeito e o objeto mais próximas da realidade. Já, do outro lado, a tipologia denominada esquizorracional, definida por pessoas que, ao invés de verem a imagem, pensavam sobre ela. Por meio de uma forma específica de ver e perceber as imagens, esse tipo psicológico apresentava muitas respostas simétricas, com tendências ao distanciamento temporal e abstração geométrica, sendo o elemento racional mais autônomo, isto é, o ato de pensar era substituto do sentir, assim como a forma substituía a cor.

Ao desenvolver mais sua descrição sobre as tipologias epileptossensorial e esquizorracional, Minkowska (1956/1978) afirma que a tipologia epileptossensorial agrupava pessoas que eram mais atentas aos estímulos sensoriais, mostrando-se mais próximos da realidade. Já as pessoas da tipologia esquizorracional atravessavam aquilo que viam e substituíam o sentido da imagem por aquilo que sabiam sobre ela. Desse modo, definiu o mecanismo essencial do tipo epileptossensorial como sendo a ligação, reforçando a ideia da necessidade de um contato com o mundo externo mais concreto, ao passo que, para o polo esquizorracional, o mecanismo essencial é o corte, o qual marca a ideia do distanciamento do mundo externo e concreto e maior investimento no universo ideacional. Enquanto o tipo epileptossensorial prioriza o mecanismo que liga, integra, une e associa elementos internos e externos, o esquizorracional prioriza o mecanismo que corta, separa, rompe, fragmenta e isola os elementos internos e externos.

Assim, a partir do Rorschach, Miskowska observou que as diferenças psíquicas entre os dois grupos se davam na percepção da imagem, no comportamento, na relação estabelecida com o examinador e na qualidade expressiva da linguagem. Sob a influência desses trabalhos, diversas pesquisas atuais têm sido realizadas na abordagem fenômeno-estrutural (Amparo, 2002; Antúnez, 2006; Franco, 2009; Villemor-Amaral, 2004; Villemor-Amaral, Franco & Farah, 2008; Villemor-Amaral & Yazigi, 2010), entre elas destaca-se um único estudo com o Zulliger (Franco, 2009) que identificou a presença desses mecanismos em diversos casos clínicos.

No referido estudo, verificou-se que a utilização do Zulliger, segundo os pressupostos da psicopatologia fenômeno-estrutural, tende a ser eficiente para entender as relações estabelecidas entre o indivíduo e o mundo em que ele vive, pois as verbalizações sobre o que as manchas de tinta poderiam ser tornam mais visível o funcionamento mental, permitindo uma maior compreensão dos diferentes modelos de raciocínio e dinamismos psíquicos (Franco, 2009).

O teste de Zulliger apresenta, portanto, uma combinação perfeita, que une a linguagem oral com o reconhecimento de imagens, possibilitando a investigação das noções de espaço e tempo, pois a forma de se comunicar revela a qualidade do processamento mental, e o ato de ver apreende a qualidade da percepção de imagens, evidenciando o sentido comum entre contato vital e a realidade.

Já em relação ao teste das Pirâmides Coloridas de Pfister, as investigações dele associadas com o método fenômeno-estrutural é mais recente. Para Villemor-Amaral e Franco (2010), o Pfister é um instrumento interessante para investigações na perspectiva do método fenômeno-estrutural, pois, permite boas previsões a partir da gestalt das pirâmides. A forma de uma pirâmide é melhor para projeção da vivência espaço-temporal, pois mais do que qualquer outra forma geométrica, permite intuir as noções de construção, organização e estrutura.  Nessa gestalt, o teste combina cores e forma, sendo a maneira como o indivíduo dispõe os quadrículos sobre o esquema da pirâmide um reflexo, em sentido amplo, do modo como contém suas emoções, ali representadas pelas cores.

Motivadas pelo potencial do Pfister quando interpretado pelo método fenômeno-estrutural, Villemor-Amaral e Franco (2010) avaliaram a personalidade de um artista plástico bem-sucedido e que utilizava diversos quadradinhos coloridos como elemento de base criativa de suas obras de arte. A análise do método fenômeno-estrutural foi bastante complexa e rica, mas, de modo resumido, a análise revelou que o artista, de estilo predominantemente racional, não tinha apenas o corte como mecanismo predominante, pois utilizava de forma alternada e bem aplicada o mecanismo de ligação, que na pirâmide pode ser identificado pela continuidade das cores em linhas e sequências. Esse achado corroborou o que no Rorschach já fora sugerido (Villemor-Amaral, 2008), que a oscilação de um mecanismo para o outro é tão importante quanto conhecer as tipologias e os mecanismos de base. "A forma móvel dos mecanismos de corte e ligação é fundamental para o equilíbrio da personalidade, pois há momentos na vida em que é preciso fragmentar para discriminar partes e outros em que é preciso integrar" (Villemor-Amaral & Franco, 2010). Sendo assim, o teste de Pfister tende a ser um instrumento interessante para uma leitura do universo psíquico na abordagem da psicopatologia fenômeno-estrutural.

 

Método

Participantes

Participaram do estudo 20 pessoas que frequentavam centros especializados para a desintoxicação da droga, mais especificamente o álcool e heroína, no Brasil e na França, respectivamente. A faixa etária mínima foi de 21 anos e a máxima de 45 anos. O nível de escolaridade foi de aproximadamente 8 anos, tendo somente um brasileiro analfabeto e um francês com nível universitário. Todos os dez participantes franceses estavam fazendo uso da metadona, medicamento psiquiátrico, como tratamento auxiliar da desintoxicação física da heroína. Já entre os brasileiros todos os participantes eram dependentes de álcool e nunca usaram heroína, mas alguns deles faziam uso de outros medicamentos psiquiátricos, principalmente, para estabilizar o humor.

Instrumentos

A técnica de Zulliger é composta por um jogo de três cartões, que contêm uma mancha de tinta simétrica e diferente para cada um deles. A aplicação do teste consiste em mostrar uma lâmina de cada vez e pedir para que a pessoa diga "o que aquilo poderia ser". Após mostrar os três cartões e anotar as respostas dadas, estes são repassados, realizando-se um inquérito a fim de verificar "onde foi que a pessoa viu" e "o que na mancha fez com que parecesse aquilo" que foi dito. No Zulliger, a percepção é um aspecto importante para apreender e compreender a organização mental das pessoas, pois os indivíduos, ao tentarem estruturar as manchas de tinta, imagens aparentemente sem sentido, estariam, via processos mentais, percebendo a semelhança formal de coisas já vistas e armazenadas em sua memória. Todas as associações verbalizadas seriam criações mentais derivadas de imagens percebidas no passado e que poderiam ser reconstituídas a partir da intensidade, cor, tamanho, forma e textura, entre outras características observadas durante a tarefa do Zulliger.

O teste das Pirâmides Coloridas de Pfister propõe como tarefa a construção de três pirâmides coloridas, utilizando-se do esquema de uma pirâmide e de quadrículos numa variedade de dez cores e 24 matizes. O examinando deve fazer sua pirâmide, uma de cada vez, cobrindo os espaços vagos com os quadradinhos de sua escolha até que fique de seu agrado e lhe pareça bonita.

A personalidade é avaliada pelo Pfister por meio das cores e o modo como elas são dispostas sobre o esquema de três pirâmides. Essa combinação entre cor e forma sugere a maneira como a pessoa se coloca emocionalmente no ambiente, ou seja, como expressa suas emoções na relação com os outros (Villemor-Amaral & Franco, 2008). Quanto mais estruturada for a pirâmide, maior o grau de maturidade emocional; já o inverso, menor estruturação, indica menos maturidade emocional. Entre as pirâmides estruturadas destacam-se as formações que levam em conta uma organização multidimensional e horizontal, e as estruturas, consideradas as mais sofisticadas por levarem em consideração o plano tridimensional da pirâmide. Assim, a combinação de forma e cor é fundamental para as interpretações; quando a forma é falha ou ausente estamos nos referindo ao aspecto formal do tipo tapete. Nesse aspecto formal, a pessoa ignora a forma de pirâmide e preenche o esquema de forma aleatória, sendo levado apenas por sua atração pelas cores (Villemor-Amaral, 2005).

Procedimento

Ambos os estudos, no Brasil e na França, foram autorizados tanto por um comitê de ética quanto pelos responsáveis de cada instituição para o tratamento da dependência química. A cada participante eram esclarecidos os objetivos e procedimentos da pesquisa e ele era convidado, então, a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Logo após, o participante respondia algumas questões básicas sobre a sua história de vida, evolução da dependência química e de seu respectivo tratamento. Depois disso, realizava-se a aplicação individual do Pfister e do Zulliger. O tempo de aplicação durou aproximadamente 1 hora e meia, sendo cerca de trinta minutos para a entrevista pessoal e 1 hora para os testes projetivos de Pfister e Zulliger. A coleta dos dados foi feita primeiramente no Brasil e posteriormente na França, tendo um intervalo de tempo entre os dois momentos de aproximadamente dois anos.

No que se refere ao método da psicopatologia fenômeno-estrutural, ele foi considerado uma abordagem teórica interessante tanto para compreender o sofrimento vivido pelos dependentes químicos, o que é útil para a preparação de ações terapêuticas próximas aos fenômenos tal como aparecem em cada paciente, quanto para demostrar a validade incremental dos testes de Zulliger e Pfister. A expectativa em relação aos resultados é confirmar a coerência entre as características subjetivas encontradas em cada protocolo. Acredita-se que estratégias mais qualitativas e que usam poucos casos clínicos também podem trazer elementos significativos do universal.

 

Resultados

Os 20 protocolos foram analisados caso a caso segundo os pressupostos da psicopatologia fenômeno-estrutural, que buscou, por meio das tipologias de base e dos mecanismos corte e ligação, compreender a relação espaço-temporal de cada pessoa. A partir da forma como a pessoa construiu suas pirâmides no Pfister, assim como o modo como ela viu as imagens no Zulliger, foi possível verificar diferentes maneiras de organização psíquica.

No entanto, antes de apresentar os resultados na perspectiva da psicopatologia fenômeno-estrutural, considerou-se importante expor os principais achados obtidos com a interpretação clássica de ambos os testes (Villemor-Amaral, 2005; Villemor-Amaral & Primi, 2009). Assim sendo, os resultados do teste de Zulliger indicaram que mais da metade dos participantes apresentavam dificuldade para seguir e respeitar as regras sociais. Os indicadores de respostas populares e a porcentagem do determinante de forma (F%) estavam rebaixados em 60% dos protocolos (F=12), sendo sete brasileiros e cinco franceses. A metade dos dependentes químicos também apresentou prejuízo da capacidade de controle e tolerância ao estresse, dispondo de poucos recursos para responder às demandas cotidianas e/ou utilizando seus recursos de modo pouco eficiente. Dez participantes, sendo oito brasileiros apresentaram os indicadores es; Adjes; D; AdjD aumentados em seus protocolos.

Em relação às diferenças encontradas entre os grupos de brasileiros e franceses, o único dado que apareceu mais frequente na técnica de Zulliger refere-se aos indicadores do relacionamento interpessoal. 90% dos usuários brasileiros (F=9) avaliados apresentaram dificuldades nas relações interpessoais e evitam situações afetivas dolorosas, preferindo refugiar-se em fantasias, ideias implausíveis ou em concepções mais infantis, em vez de refletirem para tomar decisões e agirem para efetivamente resolver os problemas. Os indicadores que poderiam indicar interesse nas relações humanas apareceram rebaixados (COP↓; SumH↓; GHR↓), tendo os índices de isolamento e tendência a comportamentos agressivos mais elevados (isolamento↑; AG↑). Os indicadores de ideias delirantes e argumentos implausíveis também representam a dificuldade dos brasileiros para expressarem seus sentimentos e pensamentos (PER↑; M-↑; WSum6↑; MOR↑).

Em relação ao Pfister, 70% dos dependentes químicos (F=14) construíram suas pirâmides de forma rápida, sem muita organização e estratégia. Os mesmos quatorze participantes utilizaram a cor branca em pelo menos duas pirâmides e 4 brasileiros, dependentes do álcool, apresentaram aumento significativo das cores, violeta e vermelho, o que corroborou os achados de Villemor-Amaral e cols. (2003), que investigaram a validade de critério do Pfister para a predição do alcoolismo. 

Já em relação às técnicas de Zulliger e Pfister, quando analisadas de forma associada, observou-se que 60% dos brasileiros (F=6) apresentaram baixa confiança em suas ideias e ações. No Zulliger, o aumento dos determinantes de sombreado (Y, C', T); o código especial de morbidez (MOR) e a maior frequência dos movimentos animal e inanimado (FM + m), em detrimento do movimento humano (M), convergiram ao aumento das cores acromáticas (preto, cinza e branco) e com a fórmula cromática restrita do Pfister, indicando que os brasileiros estavam mais angustiados, desanimados, inseguros e resistentes em relação à eficácia do tratamento, possibilidade de cura e esperança no futuro.

Outras informações mais qualitativas e que foram obtidas durante as entrevistas, ou diante de uma analise singular dos protocolos de cada teste, revelaram que os franceses se comunicavam de forma mais organizada e eficaz. Do ponto de vista psíquico, os franceses demostravam ter mais consciência de seu mundo interno, conseguindo expressar de forma clara e coerente os sentimentos e pensamentos que estavam vivenciando durante o processo de tratamento da dependência química. Tanto na entrevista, quando nas verbalizações do teste de Zulliger, o discurso refletia coerência, começo, meio e fim. Por mais trágico que fosse o conteúdo abordado, estava presente no discurso oral um encadeamento mais detalhado e estruturado das ideias quando comparado com os brasileiros.

Por exemplo, na prancha I um paciente francês diz: "Aqui é uma pessoa que teve as pernas cortadas na guerra e para poder andar teve que pôr pernas de pau. Ele está com duas facas pontudas na mão e procura matar pessoas em nome de sua vingança. Ele usa uma máscara para não ser identificado, mas todo mundo sabe quem ele é. Ele não tem medo de nada e mata quem atrapalha seu objetivo".  

Outro francês, na prancha III diz: "aqui parece um casal fazendo amor e gerando uma família feliz e com crianças. Eu não sei o que é família, pois eu nasci num orfanato e não tenho nenhuma referência dos meus pais. Mas aqui [...] esse desenho me tocou! Para mim, o vermelho representa a paixão. Os braços esticados e que tocam a mancha vermelha me trouxeram a imagem da ligação entre eles. É como se eles estivessem excitados e felizes; mais tarde, depois de alguns meses, nascem as crianças e a família fica completa".

Em relação aos brasileiros, observa-se a presença de um discurso mais esquemático e menos conectado, limitando a coerência das ideias e prejudicando a qualidade da expressão oral. Exemplos (Prancha III): "Aqui o preto simboliza o mal e o vermelho também. Enfim, eles estão em posição de estátua, com um símbolo no meio, que eu não sei o que é. É uma coisa diabólica que usa chapéu".

Outro brasileiro diz na prancha II: "cores, manchas de tinta. Dois búfalos de frente. As patas, a cabeça [...] podem ser vacas, mas faltam os chifres. É, pode ser qualquer animal um de frente para o outro, vão brigar, um vai chifrar o outro".  

Em relação à análise qualitativa do método fenômeno-estrutural, observou-se que entre os vinte dependentes avaliados, quatro participantes se mostraram bem organizados do ponto de vista espaço-temporal. Os protocolos de três franceses e de um brasileiro apresentaram indicadores de boa adaptação psíquica em ambos os testes. No Zulliger, apareceram os indicadores: M, H, XA%, COP, GHR, Qualidade Evolutiva '+' e Qualidade Formal 'o'. No Pfister, os indicadores: aspecto formal do tipo formação apareceu com mais frequência em relação aos tapetes e o modo de execução foi organizado.

Os outros 16 casos, entre eles, dez brasileiros e seis franceses, demonstraram, em seus protocolos, diversos sinais de desadaptação psíquica. No Zulliger, os indicadores de sombreado e movimento inanimado foram bem frequentes, revelando a presença de sofrimento emocional e agitação do pensamento. As verbalizações no Zulliger também revelaram desorganização mental e a linguagem oral, revelou a fusão de algumas alusões do passado com lembranças do presente, como por exemplo: "parece uma pedra antiga do período paleolítico. Lá em Atibaia tem a Pedra Grande, de casa a gente vê com um binóculo". Do mesmo modo, as imagens foram sobrepostas e aglutinadas, desprezando o limite de cada imagem encovada e provocando o aumento de códigos especiais como ALOG (prancha I: (W) isso é uma pessoa porque tem barba); FABCON (prancha II: um peixe (D2) surfando numa lontra (D1)); FABCOM (prancha II: um pulmão (D4) com um feto dentro (DS5)) e INCOM (prancha I: uma pulga com asas (W)).

Outros indicadores como: X-%, índice de isolamento, rebaixamento de respostas de conteúdo humano, o aumento de PHR, M-, MOR e AG também estavam presentes em alguns protocolos, mas não foram encontrados na maioria dos casos (F=13), como aconteceu com o aumento dos indicadores de sombreado; movimento inanimado e códigos especiais. No que se refere ao Pfister, outros indicadores que também são interpretados como sinais de desadaptação psíquica e sofrimento interno foram frequentes. Entre eles estão o aspecto formal tapete desequilibrado e furado, formula cromática restrita instável, síndrome acromática aumentada e modo de execução desordenado. 

Em relação às tipologias propostas pela psicopatologia fenômeno-estrutural, foi observado que em ambos os grupos, tanto os 4 participantes mais organizados quanto os 16 mais desorganizados apresentaram, no Zulliger, uma predominância dos determinantes de movimento, o que revela que a tipologia epileptossensorial pode ser mais frequente entre os químico-dependentes e que confirma os achados de Barthelemy (1992, citados por Villemor-Amaral, 2004).

O fato da tipologia epileptossensorial ter sido mais frequente entre os participantes mais organizados e os menos organizados, sejam eles franceses ou brasileiros, não significou a ausência da tipologia esquizorracional. Pelo contrário, embora menos frequente, a tipologia esquizorracional caracterizou três participantes, todos brasileiros. Entre os brasileiros, o único que foi classificado tanto pelo Pfister quanto pelo Zulliger como organizado do ponto de vista espaço-temporal apresentou a tipologia esquizorracional, com predominância do mecanismo de corte. No Zulliger, observou-se o emprego dos determinantes de forma dimensão (FD), a presença de espaço em branco (S), palavras com maior nível de abstração, poucos artigos, aumento de respostas globais e referência a objetos simétricos. Já no Pfsiter, a mesma pessoa iniciou o teste construindo uma pirâmide com aspecto formal tapete com início de ordem e as duas outras pirâmides do tipo estrutura simétrica, o que demostrou, segundo o método fenômeno-estrutural, uma adequada organização espacial. 

Outro dado interessante, e que foi observado ao longo da pesquisa, refere-se a relação dos resultados dos testes com a aderência dos pacientes ao tratamento que estavam realizando. Os determinados de movimento humano no Zulliger e aspecto formal de estrutura no Pfister são indicadores considerados adaptados e foram mais frequentes no grupo dos pacientes que estavam mais organizados no tempo e no espaço. Já o movimento inanimado no Zulliger e o aspecto formal tapete furado e desequilibrado no Pfister apareceram mais frequentemente nos participantes mais comprometidos na relação espaço-temporal. Assim sendo, tanto os pacientes organizados quanto os desorganizados apresentaram convergência entre os indicadores dos testes e o comportamento que estavam tendo diante do tratamento a que estavam sendo submetidos. Os quatro pacientes mais organizados, três dependentes de heroína e um de álcool, receberam prognósticos positivos em relação ao tratamento a que estavam sendo submetidos, mostrando aderência às regras, bons recursos para suportar a abstinência e mais engajamento no tratamento. Já os 16 pacientes mais desorganizados apresentavam muita dificuldade para aderirem ao tratamento de desintoxicação da droga, revelando, inclusive, crises de abstinência mais severas e consumo da droga. 

De modo mais concreto, observou-se, nos testes de Zulliger e Pfister, que a saúde psíquica de uma pessoa pode ser mensurada pela relação entre a tipologia e os mecanismos de corte ou ligação. Uma pessoa, por mais sensorial e concreta que seja, deve conseguir aplicar o mecanismo de corte de forma exitosa, isto é, mesmo que o mecanismo de ligação seja o mais frequente na tipologia epileptossensorial, a pessoa deve ser capaz de usar o mecanismo de corte de forma eficaz, mantendo o distanciamento no tempo e as abstrações do pensamento, típico do mecanismo de corte. No sentido inverso, deve ocorrer a mesma coisa; a pessoa por mais racional e abstrata que seja, deve conseguir aplicar o mecanismo de ligação de forma exitosa, mostrando, através do material dos testes, que ela reconhece os momentos onde é preciso integrar, unir, juntar e ligar.

Nesse sentido, mais importante do que a predominância de um determinando mecanismo, o emprego adequado e a oscilação dinâmica entre eles foi um elemento de análise bastante significativo para compreender a saúde psíquica de cada participante. Assim sendo, os resultados do presente estudo confirmaram os achados de Franco (2009) e Villemor-Amaral e Franco (2010) que verificaram que o caráter dinâmico entre os mecanismos de corte e ligação é o que possibilita um contato vital adaptado entre os conteúdos internos e a realidade exterior.

Assim, observou-se, no presente estudo, que os dependentes que tinham êxito no emprego dos mecanismos de corte e ligação, empregando-os de forma adaptada, isto é, melhorando a clareza da percepção das imagens ou da construção da pirâmide, denotando mais clareza de compreensão e pensamento, também eram aqueles que mostravam em seus prontuários e nas entrevistas serem mais organizados, controlados e esperançosos em relação ao processo de cura. Por exemplo, uma resposta na prancha III do tipo: "duas pessoas dançando em volta de uma fogueira" foi considerada adequada, pois houve o emprego bem-sucedido do mecanismo de ligação, que atribuiu uma interação positiva entre as manchas e de conteúdo humano. Geralmente, diante do emprego bem-sucedido do mecanismo de ligação, no sentido de conseguir uma imagem com conotações positivas, a tipologia correspondente, epileptossensorial, também ganhava destaque e era mais visível. Nessa mesma resposta, a sensorialidade se manifesta tanto pela cinestesia, dançando, que estava presente na resposta, quanto pela imagem da fogueira, colorida e quente. Outro aspecto que favoreceu a análise sobre o emprego bem-sucedido do mecanismo de ligação foi o fato da prancha III ter como característica intrínseca a distância entre as manchas, o que desafia a capacidade de unir as partes. Em relação ao teste de Pfister, quando o mecanismo de ligação era empregado de forma apropriada, observava-se maior frequência da formação em camadas monocromáticas, que resultava no aspecto dégradé, revelando continuidade na distribuição dos tons, que pode ser considerada, na perspectiva fenômeno-estrutural, como expressão do mecanismo de ligação, pois a pessoa se conectou com a realidade de forma mais sensorial.

No que se refere ao bom uso do mecanismo de corte, observou-se no Zulliger, numa resposta dada à prancha I, que é por natureza compacta, a capacidade para separar de forma exitosa o que estava unido, empregando o mecanismo de corte de forma adaptada. Assim, numa resposta global combinando vários objetos, a pessoa vê: "Um brasão da data de 1600. Aqui na ponta são as espadas e aqui no meio (D1), o símbolo da realeza [...] deve ser o brasão da família de Napoleão ou Luiz IV. Esse brasão representa o poder, a força da França". Embora os objetos estejam combinados em um único conceito, brasão, há o predomínio de um funcionamento esquizorracional, marcado por um estilo de pensar mais racional; também foi visível e coerente com o mecanismo de corte que registrou um contato mais distante com a realidade. Nessa resposta, a presença dos elementos racional e abstrato tornou-se clara a partir do momento em que a pessoa substitui aquilo que ela percebeu da imagem por aquilo que ela sabia sobre o que percebia: [...] "deve ser o brasão da família de Napoleão ou Luiz IV. Esse brasão representa o poder e a força da França". A relação espaço-temporal de caráter mais racional também apareceu na referência feita à data de 1600, que registrou um distanciamento do tempo presente a partir de um dado histórico expresso de forma objetiva e exata.

No teste de Pfister, essa mesma pessoa, fez a sua primeira pirâmide do tipo manto fechado, que denota uma clara fronteira entre dentro e fora; a segunda foi do tipo tapete furado e a terceira do tipo formação simétrica com predominância das cores acromáticas cinza, branco e preto. As pirâmides, cada uma no seu estilo, evidenciaram uma pessoa mais distante da realidade, o que foi interpretado, segundo o método fenômeno-estrutural, como uma expressão bem-sucedida do mecanismo de corte, pois este conseguiu impor o limite desejado pela pessoa, seja pela necessidade do isolamento representado pela primeira pirâmide, defesa contra o sentimento de fragmentação representada pelo furo da segunda pirâmide que provoca a negação dos aspectos sensoriais evidenciada pelo aumento das cores acromáticas da terceira pirâmide.

Em relação aos protocolos que apresentaram desequilíbrio entre a tipologia de base e a alternância dos mecanismos de ligação ou corte, observou-se no Zulliger maior frequência de respostas de ambivalência, o que indicou desestabilização no contato com a realidade. Um dos participantes, na prancha II, deu uma resposta na qual se observa que os substantivos apareceram com sentidos opostos. "O vermelho, uma fonte de vida, e o marrom, uma coisa ruim que não me causa boa impressão" [...] "Se olhar só o marrom eu não gosto, mas se olhar no conjunto eu gosto, pois a terra é uma coisa boa, representa natureza". Prancha III/ resposta 7: "Parecem dois fantasmas brigando por um pedaço de vida, vermelho, como se eles destroçassem uma vida e jogassem pedaços para os lados. Como se o mal lutasse por um pedaço do bem que pudesse nutri-los" [...] "Como se eles arrancassem pedaços de uma borboleta e jogassem fora. Aqui uma borboleta, um símbolo da vida, apesar deles estarem destruindo." [sic]. A mesma ambivalência também foi encontrada nas pirâmides coloridas de Pfister pelo aumento da dupla de cores azul e amarelo, que, segundo Villemor Amaral (1978), indica labilidade na personalidade e dificuldade para controlar ações e pensamentos.

No Pfsiter, o mau uso do mecanismo de ligação podia ser visto por meio do aspecto formal de tapete desequilibrado, caracterizado pela presença exagerada e concentrada de tonalidades mais ou menos escuras, o que revelava aglutinações das cores, perturbando a harmonia da imagem. Outro aspecto formal, que foi frequente em 5 protocolos e que indicou o precário emprego do mecanismo de ligação, foi a camada monotonal, caracterizada pelo uso de uma única tonalidade. Nesse tipo de formação a pessoa perde o controle sobre o limite e a fronteira imposta por cada linha e fusiona tudo em uma única imagem, que adquire um aspecto de monobloco. Já para o mecanismo de corte, os dos tapetes furados e desequilibrados; as execuções desorganizadas e a rigidez psíquica percebida pelo modo de colocação dos quadradinhos foram sinais do mau uso do mecanismo de corte no teste de Pfister.

Observou-se também que quando as imagens percebidas no Zulliger eram vistas em pequenos detalhes e no espaço em branco (Dd e S), o que revela um modo de visão em imagens marcado pela segmentação, no Pfister o aspecto formal tapete aparecia com mais frequência. Em um protocolo em específico, o aumento de respostas Dd e S teve convergência no Pfister com três pirâmides do tipo tapete furado, indicando que, além da percepção do todo (pirâmide) ser negligenciada em detrimento das partes (pequenos quadrículos), os furos, representados pelos quadrículos de cor branca, fragmentaram a imagem, interrompendo a fluidez na distribuição das cores. Ainda no mesmo protocolo, mas do ponto de vista da linguagem, a ideia da fragmentação se repetiu em todas as pranchas do Zulliger, sendo a resposta dada na prancha três a mais ilustrativa do mecanismo de corte. Na localização Dd22, o participante disse: "Parece um resto de uma pessoa" [sic]. A ideia da desintegração, representada pela palavra resto, evoca o mecanismo de corte, assim como a ausência do clichê cinestésico, típico da prancha III, indicou os prximo  que o contato com a realidade é menos sensorial, portanto, menos próximo da realidade.

Em relação aos determinantes do Zulliger, observou-se em outro protocolo a predominância da apreensão formal, com alternância de boas formas (F+) e formas com pouca nitidez (F-), particularmente nas respostas relativas a uma temática corporal e que não estavam integradas em uma organização formal adequada. No material do Pfister, correspondente à mesma pessoa, observou-se a presença do aspecto formal estrutura simétrica nas três pirâmides, o que também sinaliza uma boa percepção da forma. No entanto, as cores que sustentavam as pirâmides e categorizavam o tipo estrutura eram compostos por quadradinhos brancos (5a, 5c, 5e, 3c, 1a), sinalizando certa fragilidade na base e no eixo da pirâmide, uma vez que o branco pode sugerir a ideia de rupturas. A rigidez psíquica, típica do polo esquizorracional, também foi marcada pela repetição idêntica utilizada nas três pirâmides. Por mais sofisticado que fosse o aspecto formal estrutura, a rigidez do pensamento é intensificada pela repetição das pirâmides. Neste estudo de caso em especial, a preocupação com a forma (estrutura no Pfister) também foi presente no Zulliger, que teve a maior parte dos determinantes também de forma, seja (F+) ou (F-), reforçando que as técnicas, por mais diferentes que sejam, registraram a presença da rigidez psíquica, cada uma em seu estilo, onde a pessoa substituiu o sentido da imagem por aquilo que ela sabia sobre ela. Por exemplo, na prancha I, a pessoa disse: "é uma coisa assim sem forma, meio quadrado e ao mesmo tempo parece ser forte. Deve ser um bicho da floresta que come insetos".

Os resultados gerados pelos testes de Pfister e Zulliger, quando interpretados pelo método fenômeno-estrutural, indicaram que, independentemente da tipologia de base e da predominância do mecanismo correspondente, as alternâncias entre os mecanismos de corte e ligação são frequentes e tendem a resultar em imagens mais harmônicas e com qualidades bem adaptadas nos dois protocolos.

Os participantes mais organizados eram também aqueles que tinham um prognóstico mais positivo em relação ao processo de desintoxicação da droga. Eles apresentavam em seus protocolos uma alternância harmônica entre os mecanismos de ligação e corte, independentemente de sua tipologia de base. Já os dependentes menos organizados e com maiores dificuldade para aderirem ao tratamento, apresentaram em seus protocolos uma alternância mal-sucedida dos mecanismos, pois os resultados escapavam aos padrões de equilíbrio e normalidade. Isto é, ao invés de integrar, a ligação aglutinava, fundia e sobrepunha as imagens e/ou as ideias. O contrário também aconteceu, ao invés de distanciar e discriminar, o corte despedaçava, fragmentava e deformava as imagens e/ou as ideias.    

Assim sendo, a análise da alternância dos mecanismos de corte e ligação demonstrou que a oscilação ineficiente dos mecanismos pode ser um indicador de menor saúde psíquica, pois o corte não teria a função de impor a discriminação e delimitar os espaços, assim como a ligação não conseguiria integrar (Villemor-Amaral & Franco, 2010). Os efeitos do precário emprego dos mecanismos de corte e ligação recairiam, respectivamente, em rompimentos ou sobreposições que representam a desintegração ou a confusão.

 

Considerações finais

Observou-se que o bom ou mau desempenho, no Pfister e no Zulliger, teve relação direta com a qualidade do emprego dos mecanismos de corte e ligação, que, por sua vez, indicou correlação direta entre a adaptação ou a desadaptação psíquica com a aderência ou não do tratamento oferecido nos centros em que os dependentes estavam internados.

Os protocolos das pessoas que não reagiram bem ao tratamento da desintoxicação da droga evidenciaram sinais, tanto no Zulliger quanto no Pfister, de uma personalidade mais desconectada com a realidade. A desadaptação apareceu tanto na tipologia epileptossensorial quanto da esquizorracional, sendo o emprego desadaptado do mecanismo de ligação ou corte, os grandes indicadores para mensurar os efeitos do tratamento e o prognóstico do dependente.

Do ponto de vista clínico, a aplicação dos dois testes projetivos, Zulliger e Pfister, analisados em seu modo convencional e sob a perspectiva da psicopatologia fenômeno-estrutural, indicaram ser sensíveis para demonstrar a capacidade dos dependentes químicos para se beneficiarem com o tratamento, o que pode ser um começo para direcionar intervenções mais personalizadas e eficientes.

Os resultados foram considerados positivos e valiosos, pois tanto o Zulliger quanto o Pfister evidenciaram validade incremental através de diversas convergências entre as informações sobre a personalidade de cada dependente químico. Nas duas técnicas, a estrutura e os conteúdos das respostas expressaram necessidades, interesses e preocupações dos dependentes. Tanto para o Zulliger quanto para o Pfister, o modo como a tarefa foi expressa revelou informações sobre a organização psíquica, fazendo da linguagem oral e da visão de imagens uma expressão do mundo interno da pessoa. As duas técnicas, embora diferentes, não foram contraditórias ou incompatíveis; sendo muitas vezes complementares, e a análise qualitativa das respostas terminou por ser o principal ponto de intersecção entre as informações sobre a personalidade de cada pessoa avaliada.

 

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Contato com as autoras:
Universidade São Francisco - Programa de Pós-Graduação em Psicologia.
R. Alexandre Rodrigues Barbosa, 45.
CEP: 13251-040 – Itatiba-SP

Email: fran_re@yahoo.com.br

Recebido em 13/12/2011
Reformulado em 09/02/2012
Aprovado em 27/02/2012

 

 

Sobre as autoras:
Renata da Rocha Campos Franco é psicóloga e doutora em avaliação psicológica pela universidade São Francisco, Itatiba. Atualmente, desenvolve uma pesquisa de pós-doutorado, também na área da avaliação psicológica, na França com financiamento da Fondation Maison des Sciences de l'homme.
Anna Elisa de Villemor-Amaral é psicóloga. Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo e Docente da Graduação e da Pós-Gradução Stricto Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco/ Itatiba. É também Professora Assistente Doutora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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