Open-access Tradução e interculturalidade: chinês-português

No cenário global contemporâneo, a tradução, uma prática social e cultural, consolida-se como um elemento privilegiado de mediação intercultural, por meio do qual tradutores, ao reconhecerem e enfatizarem o seu papel de intermediários interculturais (Pym, 2012), vêm construindo ativamente pontes para a compreensão e aprendizagem mútua entre diversos povos e sociedades. No contexto específico das relações entre a China e os países de língua portuguesa, a tradução entre chinês e português assume um papel dinamizador de singular relevância, fomentando um intercâmbio cultural multifacetado que acompanha o crescimento das interações políticas, econômicas e socioculturais entre as partes (Guerini et al., 2023). Como bem destaca Schäffner (2018), a tradução transcende a esfera lexical ou sintática, constituindo uma prática complexa de negociação entre culturas, sistemas de sentido e visões de mundo (Eco, 2001). Esse caráter mediador torna-se ainda mais visível quando observamos o notável desenvolvimento, na última década, do ensino e da investigação nas línguas chinesa e portuguesa, bem como da sua tradução, tanto na China como nos países de língua portuguesa, especialmente no Brasil (Zhang & Huang, 2023). Esse crescimento reflete diretamente nos Estudos de Tradução com foco nesse par linguístico/cultural – antes não tinham sido tratados de forma profunda, quando assistimos a uma progressiva diversificação de temas e a uma abertura a abordagens teórico-metodológicas cada vez mais interdisciplinares sob a perspectiva da interface entre tradução e interculturalidade.

Atualmente, observamos que pesquisas neste par linguístico/cultural integram as contribuições mais atualizadas da linguística de corpus, dos estudos culturais, da história e sociologia, das humanidades digitais e até da inteligência artificial (IA), demonstrando como as pesquisas sobre a tradução chinês-português-chinês transcendem fronteiras disciplinares. É de se destacar que o rápido desenvolvimento da IA, por exemplo, tem provocado reflexões profundas sobre a prática, a pesquisa e o ensino da tradução chinês-português.

É neste pano de fundo, de crescente interculturalidade e interdisciplinaridade, que se insere este número especial da Cadernos de Tradução, e que dá continuidade às iniciativas de explorar e reunir estudos sobre diversos aspectos da tradução chinês-português, que iniciou com a publicação do número especial sobre esta temática, sob o título “Relações Luso-Afro-Brasileiras e Chinesas em Tradução” (Guerini et al., 2023). Com este número, propomo-nos reunir contribuições acadêmicas que explorem a complexidade e as especificidades da tradução chinês-português, privilegiando perspectivas que entendam a tradução como lugar de diálogos interculturais e interdisciplinares. Tal como postulado por Gambier e van Doorslaer (2016), Fang e Huang (2018) e Mu e Yang (2020), é através de lentes interdisciplinares que podemos compreender de modo mais abrangente e profundo os fenômenos tradutórios, superando visões reducionistas fundamentadas em comparações formais entre línguas e colocando a tradução numa plateia maior como forma de intercâmbio e aprendizagem mútuos entre diversos povos no mundo.

Os 13 artigos reunidos neste número especial, que abordam a interculturalidade na tradução chinês-português numa perspectiva interdisciplinar, enquadram-se em quatro eixos temáticos, que, embora divididos, se entrelaçam e se complementam de algum modo: a) abordagens sócio-históricas da tradução literária e historiografia da tradução; b) recepção e mediação da tradução literária e tradução audiovisual; c) integração do corpus e da inteligência artificial na tradução e na avaliação da qualidade de tradução; d) tradução poética e a poética do traduzir. Além desses artigos, o número especial traz um artigo traduzido e uma entrevista com o sinólogo e tradutor Giorgio Sinedino.

No primeiro eixo temático “Abordagens sócio-históricas da tradução literária e historiografia da tradução”, temos quatro artigos que constroem um diálogo intercultural chinês-português de cunho interdisciplinar entre a tradução, a literatura, a sociologia, a ideologia e a história. Em “Cem anos de literatura brasileira traduzida na China”, Xuefei Min (2025) traça de forma inédita e sistemática um panorama histórico da tradução e pesquisa da literatura brasileira na China desde a década de 1920 até os dias atuais, mostrando a sua evolução e trajetória geral, colocando em evidência a interação entre a tradução, a literatura e a política, entre outros aspectos, desde a “literatura de nações prejudicadas” até à “literatura do Sul Global”, podendo fornecer referências e inspiração para pesquisas literárias interculturais entre o chinês e o português, bem como para formação de tradutores literários.

Na contribuição “A generatividade do habitus do tradutor: empréstimos e estrangeirismos na tradução chinesa de Terra sonâmbula”, Meng Yu, Lili Han e Lola Geraldes Xavier, partindo da tradução chinesa das literaturas africanas em língua portuguesa, desenvolvem um estudo sobre os empréstimos e estrangeirismos numa tradução chinesa do romance Terra sonâmbula, de Mia Couto, que se fundamenta na abordagem sociológica bourdieusiana, a partir do conceito de “habitus” do tradutor no seu ato tradutório (Yu et al., 2025). Sob o título “Relações de poder e tendências deformadoras na edição portuguesa da novela Se, Jie, de Eileen Chang”, Cesar Augusto Miranda Matiusso e Safa Alfred Chahla Jubran, por meio da análise e comparação das traduções, examinam as “tendências deformadoras” na tradução intermediária para o inglês e sua influência na edição portuguesa da novela Se, Jie, de Eileen Chang, relacionando-as com dinâmicas de poder, contextos de produção e relações interculturais (Matiusso & Jubran, 2025).

Em “Tradução e diplomacia: análise intercultural da carta do imperador chinês Qianlong ao rei português D. José I”, Chunhui Lu (2025), posicionando-se no contexto histórico das relações diplomáticas sino-portuguesas, analisa comparativamente a versão original em chinês da carta do Imperador Qianlong a D. José I (1753) e a sua tradução em português, mostrando como estratégias de atenuação hierárquica adotadas pelo tradutor, missionário jesuíta a serviço da Corte Qing ciente das tensões culturais e ideológicas, permitiram equilibrar relações diplomáticas, destacando o papel do tradutor como agente intercultural e sua atuação como um processo de mediação e equilíbrio de discursos de poder. Esses quatro artigos agrupados neste eixo, além de adotarem abordagens sócio-históricas dos estudos da tradução, concebem a tradução como fenômeno de interação cultural (Bassnett & Lefevere, 1998), enfatizando o papel fundamental do tradutor como mediador intercultural.

No segundo eixo temático, “Recepção e mediação da tradução literária e tradução audiovisual”, reúnem-se três artigos que problematizam a tradução, a circulação e a recepção das literaturas chinesas nos países de língua portuguesa e de um filme brasileiro na China. Em “The reception of Liu Cixin’s Remembrance of Earth’s Past among Portuguese-speaking readers: A corpus-based study”, Xiang Zhang e Xin Huang examinam, com base em corpus, o envolvimento dos leitores de língua portuguesa com a versão portuguesa da trilogia Lembrança do Passado da Terra, de Liu Cixin, escritor chinês de ficção científica, buscando entender a sua popularidade, as tendências interpretativas predominantes e os padrões temáticos e linguísticos que moldam a interpretação dos leitores. Esse artigo contribui para os estudos de tradução e recepção da literatura chinesa no mundo, particularmente no espaço de língua portuguesa, ao oferecer percepções sobre a dinâmica transcultural do engajamento literário (Zhang & Huang, 2025).

Em “Mediating Chinese Yi minority culture: The indirect translation of Jidi Majia's poetry into Portuguese”, Li Li (2025) debruça-se sobre a tradução indireta da poesia de Jidi Majia em português, realizada pelo escritor e poeta português, José Luís Peixoto, com apoio de várias línguas intermediárias, como inglês, e com colaboração de uma tradutora bilíngue chinês-português, sendo o chinês sua língua materna, buscando identificar os limites e os papéis que devem ser negociados em casos de tradução colaborativa e indireta, particularmente quando o resultado é representar uma minoria étnica para um público leitor cosmopolita (Li, 2025).

Por sua vez, Ting Huang, em “Entre traições calculadas e liberdades criativas: a legendagem de Tropa de Elite 2 na China nas plataformas Youku e Bilibili”, estuda a legendagem chinesa do clássico filme brasileiro Tropa de Elite 2, contrastando duas versões – uma tradução indireta via inglês e outra tradução direta a partir do português, disponibilizadas em diferentes plataformas chinesas, revelando o impacto da censura e da mediação algorítmica no âmbito da tradução audiovisual português-chinês, contribuindo, assim, para a compreensão da tradução audiovisual como forma de mediação discursiva altamente situada, marcada por múltiplos elementos de normatividade e agência sociotécnica na era do streaming global (Huang, 2025). Essas contribuições refletem as tendências e desafios enfrentados pelos sujeitos envolvidos na tradução e recepção de produtos culturais entre chinês e português na compreensão das complexidades da interculturalidade, que requerem ainda mais pesquisas sobre estratégias de tradução, engajamento do leitor e mudanças nos sistemas literários e culturais para aprimorar o intercâmbio intercultural (Huang & Zhang, 2025).

Se os textos dos dois primeiros eixos temáticos se alinham principalmente nos arcabouços teórico-metodológicos utilizados nos estudos de humanidades, os artigos que compõem o terceiro eixo temático “Integração do corpus e da inteligência artificial na tradução e na avaliação da qualidade de tradução” refletem sobre o impacto dos avanços tecnológicos mais recentes nos estudos da tradução, especialmente com o surgimento e popularização da inteligência artificial. Em “Bilinguismo jurídico chinês-português em Macau: análise e alinhamento de corpus com IA”, Jean-Claude Miroir (2025) recorre a corpora paralelos e ferramentas computacionais e de IA para estudar o bilinguismo jurídico em Macau, com foco em aspectos específicos da tradução jurídica chinês-português em Macau, uma região administrativa especial da China que tem chinês e português como línguas oficiais, proporcionando recursos metodológicos e analíticos valiosos para pesquisadores e profissionais da tradução jurídica chinês-português.

Focada na internacionalização do conhecimento acadêmico chinês por meio da tradução de obras acadêmicas chinesas para o português, Chengxu Wang (2025), por sua vez, explora, no seu artigo “Large language models in translation quality assessment: The feasibility of human-AI collaboration”, o potencial de aplicação dos grandes modelos de linguagem na avaliação da qualidade da tradução em Projeto de Tradução Acadêmica Chinesa, sob a perspectiva da colaboração humano-IA. A pesquisa de Wang (2025) propõe integrar o método LISA QA e a norma chinesa GB/T 19682-2005 para desenvolver um sistema multidimensional de avaliação da qualidade da tradução, incluindo tipologias e pesos de erros específicos para obras acadêmicas chinesas, de modo a infundir elementos de inovação tecnológica na avaliação tradicional da qualidade da tradução.

Continuando a discussão sobre a avaliação da qualidade de tradução, em “How well can state-of-the-art machine translation systems render a 16th-century Chinese novel?”, Mu You, Derek F. Wong, Jing Zhang e Kaixin Lan avaliam o desempenho de sistemas de tradução automática de última geração na tradução de Journey to the West, um romance clássico chinês do século XVI, do chinês para o português, comparando qualitativamente e quantitativamente as traduções feitas pelos sistemas DeepSeek-V3, GPT-4o, DeepL Pro e NovelTrans-J com uma tradução humana publicada de referência, levando em consideração precisão, fluência, elegância estilística, adequação cultural e qualidade geral das traduções, tanto em termos de frases quanto de blocos. As descobertas desse estudo ressaltam o potencial dos sistemas de tradução automática para lidar com textos literários complexos e culturalmente ricos, apesar de desafios persistentes, oferecendo insights valiosos para o desenvolvimento futuro de sistemas de tradução automática que capturem com precisão as nuances culturais em obras literárias (You et al., 2025). Esses trabalhos apresentados nesse bloco refletem não apenas a influência dos avanços tecnológicos para os Estudos da Tradução, mas também a necessidade de critérios de avaliação da qualidade de tradução que devem ser adaptados à tradução especializada e à tradução para contextos específicos, como as traduções acadêmica, jurídica e literária.

No quarto e último eixo temático “Tradução poética e a poética do traduzir”, temos três artigos cujo interesse comum se encontra na reflexão sobre a poética na tradução literária, uma das questões mais antigas, porém sempre relevante e atualizada em termos da tradução de poesias. Em “Textual shifts e equivalência entre poéticas: Os Cancioneiros e o Clássico dos Poemas comparados”, Giorgio Sinedino destaca a importância do conceito de “equivalência poético-cultural” na tradução literária português-chinês, propondo a utilização de “textual shifts” como estratégia de tradução. Com base em estudos de caso retirados dos Cancioneiros Galego-Portugueses e do Clássico dos Poemas, são exploradas as diferenças culturais e de prática poética que influenciam a composição e performance de poemas traduzidos. Ao aplicar esse conceito aos poemas em português e chinês, Sinedino (2025) demonstra a compatibilidade em termos de conteúdo, forma e teoria, indicando a possibilidade de usar textos equivalentes como modelos na tradução literária.

Partindo da interface entre a poesia clássica chinesa e o cinematismo, Ricardo Primo Portugal, no artigo “Por uma literalidade aplicável à tradução de poesia clássica chinesa”, propõe uma tradução da poesia clássica chinesa que privilegie uma literalidade sensível à sua sintaxe e recursos semióticos originais. Inspirada no modo de apreensão e representação e no cinematismo poético, defendendo que essa abordagem, ancorada em Benjamin (2000, 2011, 2020), Campos (2013, 2015, 2020) e Berman (2012, 2014), não só recupera a experiência estética do original, como dialoga com a renovação formal das vanguardas ocidentais e a estética cinematográfica (Portugal, 2025).

Em “Entre espelhos, paralaxes e afinidades inesperadas: (re)visitando a tradução das poesias chinesa e brasileira”, Júlio Reis Jatobá (2025a), por sua vez, examina como as traduções de poesia chinesa para português, através do diálogo sino-lusófono, constroem uma poética tradutória alternativa às teorias ocidentalizantes, defendendo a inserção de práticas e reflexões não europeias no cânone literário mundial, e propondo uma abordagem tradutória fundada na paralaxe e no pensamento antropofágico, capaz de reconfigurar a relação entre poesia chinesa e brasileira para além de hierarquias culturais. Esses três artigos contribuem para a reflexão mais profunda sobre a tradução poética que deve ser um ato de recriação sensível, seja através de textual shifts, de uma literalidade cinematográfica ou de uma ótica antropofágica, capaz de gerar equivalência poético-cultural e expandir o cânone literário através do diálogo intercultural.

Concluímos este número especial com duas seções específicas. Na seção “Artigos Traduzidos”, Vitor Campos Moura Neves e Siqueira e Yingyi Liang propõem a inédita tradução para o português de um artigo acadêmico publicado originalmente em chinês em 1980, de Tingfu Yang, renomado historiador chinês. Com o título “Uma breve discussão acerca da contribuição de Xuanzang na história da tradução da China”, esse texto em tradução aborda a contribuição de Xuanzang (602-664 d.C.) para a história da tradução na China, com ênfase na transmissão e tradução das escrituras budistas (Yang, 2025). Já na seção “Entrevistas”, em “Tradução como espelho de culturas: uma entrevista com o sinólogo brasileiro Giorgio Sinedino”, Xiang Zhang entrevista o sinólogo e tradutor brasileiro Giorgio Sinedino com o objetivo de apresentar suas experiências e ideias relacionadas às traduções realizadas e aos Estudos da Tradução no âmbito da tradução e disseminação da literatura e cultura chinesa nos países de língua portuguesa (Zhang & Sinedino, 2025).

Observamos que os artigos reunidos neste número especial evidenciam, em geral, o amadurecimento e a solidez da pesquisa no campo da tradução chinês-português. Cada vez mais estudiosos têm se dedicado com maior esforço às tendências e focos emergentes nesse campo, particularmente ao enquadrar a tradução chinês-português no contexto mais amplo do intercâmbio e da aprendizagem mútua entre a China e os países de língua portuguesa, utilizando abordagens interdisciplinares orientadas por problemas de pesquisa específicos. É encorajador notar que esses pesquisadores representam não apenas a China, mas também diversos países e regiões de língua portuguesa, refletindo uma comunidade acadêmica em expansão, cujo trabalho se alinha com os debates internacionais na área dos Estudos da Tradução.

Para finalizar, desejamos que este número especial possa servir de inspiração para pesquisadores na área dos estudos da tradução chinês-português e contribua efetivamente para fortalecer o diálogo intercultural e facilitar o entendimento mútuo entre a China e os países de língua portuguesa. Temos certeza que este número especial irá se somar a outros trabalhos relevantes publicados na revista Cadernos de Tradução sobre este tema ao longo dos últimos dois anos1.

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo(s) autor(es) mediante solicitação.

Referências

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Editado por

  • Editores do número especial
    Xiang Zhang – Li Ye
  • Editores de seção
    Andréia Guerini – Willian Moura
  • Normalização
    Alice S. Rezende – Ingrid Bignardi – João G. P. Silveira – Kamila Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Set 2025
  • Aceito
    14 Set 2025
  • Revisado
    25 Set 2025
  • Publicado
    Set 2025
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