Resumo
A tradução das literaturas africanas em língua portuguesa para outros idiomas inicia-se por volta dos anos de 1950. À boleia desta tendência, autores como o moçambicano Mia Couto têm conquistado um número crescente de leitores e de estudos a nível mundial através da tradução literária. No entanto, os Estudos de Tradução sobre as obras traduzidas estão ainda na primeira etapa de desenvolvimento, com número reduzido de contribuições, em comparação com os estudos literários e linguísticos sobre as obras originais. Como contributo para essa área, desenvolveu-se um estudo sobre os empréstimos e estrangeirismos na tradução chinesa do romance de Mia Couto, Terra sonâmbula, realizada por Jin Xinyi (Couto, 2018). Diferente dos estudos da perspetiva linguística ou de teorias dos Estudos de Tradução clássicas e amplamente usadas, o nosso trabalho fundamenta-se no habitus (Bourdieu, 1990; Bourdieu & Wacquant, 1992), conceito-chave da abordagem sociológica de Pierre Bourdieu. Estrutura-se, assim, um diálogo interdisciplinar entre a tradução, a literatura e a sociologia. Por meio da análise da tradução chinesa dos empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, procura-se descrever a forma como se reflete a socialidade do tradutor. Confirmou-se que o habitus do tradutor pode ser ressignificado em duas dimensões: a historicidade e a generatividade, bem como um conjunto de subcategorias pormenorizadas. Desta forma, o habitus do tradutor é capaz de libertar alguns conceitos de dualismo (por exemplo: estrangeirização e domesticação, adequação e aceitabilidade), que enfatizam o único polo na tradução. Por outro lado, observou-se que uma solução tradutória pode refletir, ao mesmo tempo, vários habitus do tradutor.
Palavras-chave
Terra sonâmbula
; tradutor literário; Pierre Bourdieu;
habitus
; historicidade e generatividade
Abstract
Translating African literature in Portuguese into other languages began around the 1950s. Following this trend, authors such as the Mozambican Mia Couto have gained many readers and studies worldwide through literary translation. However, Translation Studies on translated works are still in the early stages of development, with fewer contributions compared to literary and linguistic studies on original works. As a contribution to this area, this work develops a study on loanwords and foreignisms in the Chinese translation of Mia Couto’s novel Sleepwalking Land, completed by Jin Xinyi (Couto, 2018). Unlike studies from a linguistic perspective or classical and widely used Translation Studies theories, our study is based on habitus (Bourdieu, 1990; Bourdieu & Wacquant, 1992), a key concept in the sociological approach of Pierre Bourdieu. An interdisciplinary dialogue between translation, literature, and sociology is thus structured. By analyzing the Chinese translation of loanwords and foreignisms in Sleepwalking Land, we seek to describe how the translator’s sociality is reflected. It was confirmed that the translator's habitus can be resignified in two dimensions: historicity and generativity, as well as a set of detailed subcategories. In this way, the translator's habitus is able to liberate some concepts of dualism (e.g. foreignization and domestication, adequacy and acceptability), which emphasize the single pole in translation. On the other hand, it was observed that a translation solution can reflect several of the translator's habitus at the same time.
Keywords
Sleepwalking Land
; literary translator; Pierre Bourdieu;
habitus
; historicity and generativity
1. Introdução
O escritor moçambicano Mia Couto, a par com outros autores africanos da língua portuguesa, por exemplo, José Eduardo Agualusa, Pepetela, tem-se distinguido com os seus trabalhos no palco da literatura mundial desde o século passado (cf. Bucaioni, 2020). Apesar da tradução contínua para uma amplitude de idiomas, pouca atenção tem sido dada aos Estudos de Tradução destas literaturas, sobretudo no que se refere à tradução entre idiomas que se distanciam muito um do outro, como é o caso do português e o chinês. De entre os autores de destaque, até ao presente, o autor africano da língua portuguesa que desperta o maior interesse de tradução e de estudo académico na China é, sem dúvida, Mia Couto, objeto do presente estudo.
Os Estudos de Tradução começaram a dialogar com a ciência desde a introdução da abordagem linguística (cf. Nida, 1964 e outros), cujo conceito emblemático é a equivalência e o uso linguístico em contexto. Segue-se a “virada cultural”, que vê a tradução como uma atividade que ultrapassa a única transformação linguística, pois “what is studied is the text embedded within its network of both source and target cultural signs” (Bassnett & Lefevere, 1990, p. 12). Apesar de continuar a ser polêmico e, a definição e o âmbito a que os contextos culturais se referem, após a “virada cultural”, as posições/preferências de várias origens têm a possibilidade de ser dadas, tanto ao tradutor quanto ao texto-alvo. Isto fez com que “research into ‘literary’ translation has become far less elitist, more comprehensive and more sensitive to broader cultural, social and political contexts” (Delabastita, 2010, p. 201). A aliança entre a tradução literária e a sociologia remonta ao século passado, através da teoria do polissistema (Even-Zohar, [1978]2000), da Teoria do Sistema Social (Tyulenev, 2012) e do sistema mundial de línguas (Casanova, [1999]2004; Heilbron, 1999), etc.
A abordagem sociológica tende a fornecer uma leitura do fenómeno da tradução a partir de perspetiva macroscópica, fazendo com que os Estudos de Tradução entrem no dualismo macroscópico e microscópico. Superada esta dicotomia, admite-se que o tradutor não é indivíduo plenamente subjetivizado nem fantoche à mercê de condições objetivas. Em vez disso, trata-se de uma existência que rompe a dualidade como elo entre quadro macrossociológico e micro textual. Este atributo de “estar no meio” do tradutor literário corresponde à teoria sociológica de Pierre Bourdieu cujo foco é “mainly on the relationship between the subject of the translator as a mediating cultural agent and the context in which she [the translator] functions” (Koster, 2014, p. 153). Sendo o conceito bourdieusiano mais amplamente aplicado a disciplinas adjacentes, o habitus permite a leitura de prática tradutória diacrónica de modo sincrónico, no sentido de se desenvolver a análise a partir do tradutor e da sua tradução no espaço social.
Tendo por base estas perspetivas, com este trabalho visa estudar-se a tradução para chinês do romance moçambicano Terra sonâmbula, publicada na região de Taiwan e realizada por Jin Xinyi (abreviadamente designada por Jin ou a tradutora, a partir de agora). Para isso, será descrito o habitus do tradutor espelhado na tradução de empréstimos e estrangeirismos, um aspeto discursivo que carateriza a criatividade literária de Mia Couto, em Terra sonâmbula.
2. Habitus nos Estudos de Tradução
Os Estudos de Tradução têm estado de mãos dadas com uma variedade de disciplinas, cuja natureza aponta para a interdisciplinaridade. Desde a primeira pedra lançada nos anos 1970, por James Holmes ([1972]2000), que propôs socio-translation studies, que começaram tentativas do estudo da tradução a partir da abordagem sociológica. Neste contexto, destaca-se Pierre Bourdieu, com o seu sistema sociológico, que se carateriza por ser monista no sentido de ser oposto às correntes dualistas na filosofia ocidental (cf. Bourdieu & Wacquant, 1992, p. 19-20). De entre os diversos conceitos bourdieusianos, a “prática” é o ponto de partida em torno do qual se reúnem os conceitos-chave da sociologia bourdieusiana, nomeadamente, “campo”, “capital” e habitus, sendo o último mais amplamente usado nos Estudos de Tradução.
O habitus é uma noção integral que combina a objetividade com a subjetividade, refletido no ato concreto como uma existência relacional. Esta noção percorre uma longa trajetória filosófica e tem-se formado em diálogo entre pensadores. Absorvendo as ideias pioneiras de forma dialética, Bourdieu (1990) define o habitus como:
System of durable, transposable dispositions, structured structures predisposed to function as structuring structures, that is, as principles which generate and organize practices and representations that can be objectively adapted to their outcomes without presupposing a conscious aiming at ends or an express mastery of the operations necessary in order to attain them
(Bourdieu, 1990, p. 53).
De acordo com Bourdieu (1985), o relacionamento entre o indivíduo e as estruturas sociais deve ser visto a partir do modo relacional de pensar, o que corresponde à relação entre as palavras-chave, “estruturas estruturadas” e “estruturas estruturantes”. Aliás, o habitus é entendido como uma “socialized subjectivity” (Bourdieu & Wacquant, 1992, p. 126) e funciona como um intermediário que reúne a estrutura social objetiva e as experiências pessoais subjetivas, ao capturar “dialectic of the internalization of externality and the externalization of internality” (Bourdieu, 1972, p. 72).
Enfatizam-se, ainda, outros dois aspetos do habitus que Bourdieu intenciona explicitar ao distinguir o habitus do habit: “I said habitus so as not to say habit” (Bourdieu & Wacquant, 1992, p. 122). Ambos os conceitos se caraterizam por serem capazes de ser identificados por meio de vestígios históricos que vêm do passado e estão prontos a refletir-se no presente e no futuro. Este ponto comum revela a historicidade inerente do conceito de habitus. Todavia, “The key difference is that Bourdieu’s habitus emphasizes the underlying structures of practices; i.e., acts are underpinned by a generative principle” (Maton, 2008, p. 56). Este princípio generativo que “belongs to a genetic mode of thought, as opposed to existentialist modes of thought” (Bourdieu, 1993, p. 86) é tão fundamental que se realça com frequência em trabalhos de Bourdieu ou críticas acerca do habitus (cf. Maton, 2008; Swartz, 2002), graças à lógica verdadeira de prática desnudada pelo mesmo. Por outras palavras, o princípio generativo nega o papel decisivo do habitus na prática e sugere que o (habitus) considera como “a sort of spring that needs a trigger” (Bourdieu & Wacquant, 1992, p. 135), pois, o mesmo habitus tem a possibilidade de gerar resultados diferentes, até opostos, dependendo dos estímulos e da estrutura do “campo” (cf. Swartz, 2002).
De acordo com Maton (2008, p. 49), o habitus “is becoming part of the lexicon of a range of disciplines, including sociology, anthropology, education, cultural studies, philosophy and literary criticism”. A ampla aplicabilidade desta noção também se reflete nos Estudos de Tradução.
É consensual que a primeira tentativa de introduzir este conceito nos Estudos de Tradução deve-se a Simeoni (1998), de forma parcial e dialética. Partindo da perspetiva de Toury sobre a servidão sujeita às normas que existem na tarefa do tradutor, o autor atribui, por sua vez, o carácter estruturado da prática ao seu poder simultaneamente estruturante. Nega, assim, a forma passiva da subserviência arraigada dos tradutores e afirma que “it takes the shape of servitude volontaire” (Simeoni, 1998, p. 23).
Focalizado no tradutor, como precondição da discussão sobre a relação entre o habitus e as normas de tradução, Sela-Sheffy (2022), continua a questão da suposta subserviência do tradutor. Segundo essa autora, o habitus “compreende que os desempenhos realizados pelos indivíduos são regulados por esquemas compartilhados, que não estão ‘meramente lá’ em suas mentes, mas são internalizados sob condições semelhantes e compartilhadas ao longo da história” (Sela-Sheffy, 2022, p. 4). Esta interpretação, teoricamente, aproxima e fortalece o conceito de habitus do conceito de normas de tradução. Todavia, Sela-Sheffy (2022) identifica a perspetiva determinista de ação humana associada ao “translatorial habitus” estabelecido por Simeoni. Isto significa que ao destacar a subserviência do tradutor como uma componente invariável e universal do habitus, quase não deixa espaço para a compreensão de escolha e variabilidade nesta ação.
Meylaerts (2008), por sua vez, identifica a potencial confluência entre o habitus e as normas de tradução. Sugere-se que o habitus seja entendido como plural e dinâmico (intercultural), pois possibilita revelar como os agentes interculturais “interiorize dynamically and variably (institutional and discursive) normative strutures of the source and target fields, and indeed of their mutual contacts and intersections” (Meylaerts, 2008, p. 94). O efeito é mais evidente nos contextos multilingues, onde as várias línguas, culturas e pessoas de partida e de chegada partilham o mesmo espaço dentro de um quadro institucional específico, como é o caso da tradução.
Por última análise, as normas de tradução diferenciam-se do habitus por fazerem parte de “socio-cultural constraints” (Toury, [1978]2000, p. 199), ou seja, estas servem como critérios segundo os quais os comportamentos reais são avaliados. Resumidamente, trata-se de uma força externa e objetiva que atua sobre o indivíduo. O habitus, por sua vez, ultrapassa a fronteira que as normas podem governar, sendo algo naturalmente internalizado no indivíduo (ou coletivo, fora do âmbito da discussão do presente estudo), graças às interações entre as partes diacrónica e sincrónica em causa. Ainda, o habitus permite a justificação da prática/ação do tradutor de todos os aspetos, desde a escolha de objeto de tradução e de soluções específicas de tradução, até à interação efetivamente ocorrida entre as partes envolvidas na tradução.
3. O habitus do tradutor: historicidade e generatividade
Conforme as contribuições dedicadas à abordagem sociológica da tradução, os termos que combinam a tradução e o habitus incluem principalmente o habitus tradutório (“translatorial habitus”) e o habitus do(s) tradutor(es) (“translator’s/translators’ habitus”).
Proposto pela primeira vez por Simeoni (1998), o ponto-chave para a compreensão do habitus tradutório reside no reconhecimento sobre o mecanismo estruturado e estruturante. Aliás, o habitus é estruturado no sentido de “the nexus of dispositions at any given time is given a structure in the course of individual social lives” e carateriza-se por ser estável e “highly patterned” (Simeoni, 1998, p. 22). Por outro lado, ele é estruturante devido ao facto de que as disposições adquiridas “contribute directly to the elaboration of norms and conventions, thereby reinforcing their scope and power” (Simeoni, 1998, p. 22). Por seu turno, Pasmatzi (2023) considera o habitus tradutório como algo coletivo que contrasta com o habitus individual, para além de ser um conceito centrado no agente (agent) ao invés de no produto de tradução.
Em comparação com o habitus tradutório, o habitus do(s) tradutor(es) é termo usado com mais frequência e percebido de óticas divergentes (Gouanvic, 2002; Liang, 2016; Meylaerts, 2008, 2010; Pasmatzi, 2023; Prunč, 2007; Sela-Sheffy, 2022; Xu & Chu, 2015). Gouanvic (2002) defende que:
The habitus of a translator as producer may be defined as a durable, transposable disposition acquired by the socialized body, which invests in practice the organizing principles that are socially constructed in the course of a situated and dated experience
(Gouanvic, 2002, p. 95).
Neste sentido, o tradutor é, claramente, posicionado como centro na tradução e tudo se desenrola em torno dele. Meylaerts (2008, p. 94) considera o tradutor como ator intercultural que faz desenvolver “perceptions and practices partly through cross-cultural habituses” e que conta com “translators’ intercultural habitus”. Assim, testemunha-se a ampliação da fronteira interna do habitus do(s) tradutor(es), com uma perspetiva posta em “actors’s [tradutor(es)] various and variable internalization of broader social, cultural, political and linguistic structures, of both the institutional and discursive kind” (Meylaerts, 2008, p. 95). Outros termos específicos, derivados do habitus do(s) tradutor(es), que variam mediante o objeto de estudo, incluem, mas não estão limitados a habitus inicial, habitus profissional (Meylaerts, 2010), habitus da profissão de uma disciplina adjacente na qual o tradutor está envolvido (Xu, 2012) e habitus supra-individual (Pasmatzi, 2023).
Dado o panorama sobre o habitus relacionado com a tradução, o presente estudo continua no caminho que a maioria dos estudiosos pavimenta, quer dizer, insistimos no uso do habitus do(s) tradutor(es) e julgamos que isto deve ser lido em duas dimensões: a historicidade e a generatividade.
Tal como afirmado na secção anterior, a historicidade e a generatividade constituem duas dimensões basicamente inerentes do habitus, nos termos de Bourdieu (1990, 1993). Aliás, as disposições representadas pelo habitus são “‘structured structures’ in that they inevitably incorporate the objective social conditions of their inculcation. […] The dispositions of the habitus are ‘structuring structures’ through their ability to generate practices adjusted to specific situations” (Johnson, 1993, p. 5). Recorrendo às teorias bourdieusianas, os estudiosos especificam as dimensões históricas e generativas do habitus para as aplicar aos Estudos de Tradução. Sela-Sheffy (2022) enfatiza os atributos duplos do habitus do tradutor:
O habitus é uma força inercial, porém versátil, que restringe as tendências e preferências de uma pessoa, mas também permite transformação e construção contínua, de acordo com os campos em mudança nos quais atua e com as alternâncias de posição em um espaço cultural específico
(Sela-Sheffy, 2022, p. 7).
Aqui, a força “inercial” corresponde ao aspeto de historicidade enquanto a força “versátil” refere-se à generatividade. A faceta generativa remete-nos para o que é debatido por Wolf (2007, p. 113) quanto ao termo que pode caraterizar a tradução, isto é, o “espaço de mediação”, cuja existência depende do princípio de negociação. De acordo com a autora, a negociação oferece um espaço em que “the various experiences of the agents participating in the production and reception processes of translation who virtually meet here in order to ‘translate each other’” (Wolf, 2007, p. 118).
Somos de parecer que a tradução, por um lado, implica a participação conjunta de vários agentes. Por outro lado, tende-se a chegar ao consenso sobre o papel predominante de certo(s) agente(s) na tradução. No presente estudo, justifica-se que o ato tradutório se manifesta em torno do tradutor, cujo habitus deve ser abordado, teoricamente, em duas dimensões: a historicidade e a generatividade. Aliás, a historicidade refere-se ao conjunto acumulado e estável do habitus do tradutor, trata-se de algo que raramente se altera com o objeto de tradução. A generatividade, pelo contrário, concentra-se na negociação entre os agentes, sejam estes seres humanos ou não, como por exemplo, o texto-fonte, a língua-alvo, a editora, e o tradutor, etc. Carateriza-se por ser sempre variável com a mudança do objeto de tradução. Considerando a extensão que o artigo permite, nas seguintes subsecções exemplificam-se os habitus específicos que se prendem com a generatividade do habitus do tradutor e que correspondem, exclusivamente, à tradução de empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, realizada por Jin Xinyi.
3.1 O habitus da negociação com o texto-fonte e o autor
Não é recente a proposta de tradução que visa aproximar o texto-fonte e o autor, não obstante sem terminologia nem ponto de partida uniformes. Independentemente das perspetivas dos Estudos de Tradução, o respeito pelo texto-fonte é uma prioridade. Os pontos de partida podem, no entanto, variar, como acontece, por exemplo, com a ética de espaço dialógico de Berman (1992, 1995) e a tradução minorizante como resistência, ou seja, a estrangeirização, nos termos de Venuti (1995, 1998). Desde a entrada da perspetiva sociológica nos Estudos de Tradução, inicia-se a tentativa de se relacionar o habitus com o comportamento do tradutor “source-oriented”, com as estratégias tradutórias postas num continuum cuja tendência se dirige ao extremo de “ser fiel ao texto-fonte” (Liang, 2016, tradução nossa). Por seu lado, Xu (2012) propõe a hipótese de que a posição do tradutor possui o poder decisivo na tradução, ou seja, quanto mais forte for a formação académica de um tradutor estudioso, mais fiel ao texto-fonte será a tradução.
Pode constatar-se que ambos os estudos perspetivados da abordagem bourdieusiana partem da dimensão histórica do habitus do tradutor para entender as práticas tradutórias que tentam reproduzir o texto-fonte ao máximo, sem dar atenção devida ao “ingénuo” objeto de tradução. Todavia, não parece ser pertinente desistir da observação a partir da dimensão generativa do habitus do tradutor, sobretudo perante o texto-fonte repleto de dificuldades tradutórias a todos os níveis, desde fonético, morfológico, até lexical e semântico (Iglesias, 2005). Neste sentido, argumenta-se que está na hora de devolver o atributo generativo ao habitus do tradutor para se poder casar com o texto-fonte e o autor, formando, assim, o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor. Trata-se de uma disposição tradutória destinada a reproduzir a língua, a cultura, entre outros aspetos do texto-fonte na tradução, dando prioridade à singularidade do objeto de tradução. É ponto de relevo a diversidade e a disparidade dessa singularidade, tal como alega Warrot (2023) no estudo sobre a tradução para francês de alguns romances lusófonos, em que se acentua o significado construtivo da parceria com o autor:
Alguns jogos com o significado, como o corte de palavras e uma organização sintática inovadora, a criação linguística neológica através de procedimentos diversos como o cruzamento vocabular (amálgamas, blend, mot valise), a existência de explicações, de notas de rodapé ou de glossários são elementos que revelam e que interpelam o tradutor neste processo de transmissão de uma língua para outra, solicitando a participação do tradutor, numa espécie de parceria com o autor
(Warrot, 2023, p. 257).
Dado isto, é previsível que, com a mudança do objeto de tradução, se modifique, eventualmente, a conotação deste habitus. Entendido de outra maneira, o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor não é um conceito invariável nem genérico, mas, sim, algo fluído e específico. Por essa razão, exige-se uma análise caso por caso, conforme o objeto específico da tradução. No que toca à produção literária coutiana, destacam-se aspetos como: criação linguística neológica, polissemia lexical, nome próprio lexicalizado, antropónimo, exotismo, jogo de palavras etc. (Brookshaw, 2008; Brugioni, 2012; Cavacas, 2015; Helgesson, 2016; Iglesias, 2005; Liang, 2023; Warrot, 2023).
3.2 O habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor
Continuando nesta posição sobre a generatividade do habitus do tradutor, refira-se o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor.
Com a estrangeirização de formas linguísticas que se distanciam do português padrão (Nogueira, 2010), a literatura coutiana tem desafiado e atraído o tradutor. Ao mesmo tempo, quando se refere a tradução deste autor moçambicano para outros idiomas, prevalece a atitude estrangeirizada sobre a domesticada. Maia e Branco (2016) desnudam as três condições subordinadas à estratégia de domesticação na tradução de Mia Couto de português para o inglês, a língua hegemónica que obriga normalmente a tal estratégia. É nesse sentido que os tradutores “costumam se ocultar em seu trabalho, negando a própria voz em favor da voz dos autores e/ou dos estilos preponderantes na cultura receptora” (Gentzler, 2009, p. 62). Em última análise, as estratégias domesticadas privilegiam a obediência voluntária ao poder, cuja meta é a fluência e a transparência da tradução e cuja consequência é a invisibilidade do tradutor (Venuti, 1995). Ao estudar a tradução do romance coutiano para chinês, Huang e Sun (2022) e Liang (2023) recorrem à ferramenta teórica mencionada, isto é, à estrangeirização e à domesticação de Venuti (1995). Não nos parece produtivo aplicá-las ao estudo de traduções que decorrem entre idiomas como o português e o chinês, devido à falta de tensão de poder entre estas línguas e entre as culturas subjacentes a elas.
Toury ([1995]2012, [1978]2000) enfoca as “reais relações” construídas entre o texto-fonte e sua “substituição factual” (Toury, 1980, p. 39, tradução nossa), justificando a tradução como uma atividade regida por normas, liberta da prisão mental unilateral e do controlo ideológico. Quando a tradução literária ocupa uma posição marginalizada no polissistema literário (Even-Zohar, [1978]2000), fica mais suscetível a adaptar-se às normas da língua e cultura-alvo que o teórico chama de “acceptability” (Toury, [1978]2000, p. 201). As normas de tradução, sem dúvida, prevalecem na maioria dos casos, contudo, “translators govern norms as much as their behaviour is governed by them” (Simeoni, 1998, p. 24).
Diferentemente do habitus do tradutor que traz à tona o diálogo entre estrutura e agência, a discussão das normas nos Estudos de Tradução implica sempre uma insinuação negativa, “como se fosse uma deficiência que deveria ser superada, ou seja, a ideia de que as normas são ruins e quem as obedece é inepto” (Sela-Sheffy, 2022, p. 10). Superada a dicotomia rígida entre “criatividade pessoal” e “padronização absoluta” (Sela-Sheffy, 2022, p. 10), o habitus do tradutor é a forma para se dar atenção à língua e cultura-alvo, de modo a eliminar a passividade que provocam as normas de tradução. Propõe-se assim, o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor. Essa ideia não é nova, mas é atualizada e entendida por uma disposição tradutória que procura assegurar a fluência, o estilo natural, a legibilidade e a circulação do texto-alvo. Não há um único caminho para chegar lá e é preciso estar atento ao sistema de normas da língua e cultura-alvo.
4. Habitus do tradutor na tradução de empréstimos e estrangeirismos
4.1 Terra sonâmbula e a versão chinesa de Jin Xinyi
Mia Couto é considerado um “autor polifónico” (Xavier, 2017), no sentido de escrever vários géneros literários, abordar diversas temáticas e produzir um discurso híbrido. Até ao presente, o romance é o género literário a que se tem dedicado mais, a partir da sua estreia com Terra sonâmbula, em 1992. Trata-se de uma obra que redirecionou o olhar para as literaturas africanas em Português e permitiu a reconstrução de um cânone romanesco não só coutiano, mas também moçambicano. Amplamente conhecido e apreciado, registam-se mais de quarenta edições reimpressas do original. Numa dualidade entre a história e a literatura, o romance distingue-se pela sua estrutura narrativa intercalada, com a psique moçambicana da guerra nela inscrita, e o estilo influenciado pela oralidade. Destaca-se, em particular, a sua linguagem metaforicamente trabalhada e a língua portuguesa (re)criada, o que carateriza a escrita poética de Mia Couto. A tradução desta obra implica oportunidade, enquanto desafio, para qualquer tradutor. Tal é o caso da tradutora Jin e a sua tradução de Terra sonâmbula em chinês, 夢遊的大地.Na verdade, encontram-se duas versões de Terra sonâmbula em chinês, uma é traduzida por Jin Xinyi, tradutora do presente estudo. Uma outra é concluída por Min Xuefei, publicada pela editora Citic (sediada em Pequim). Como não obtivemos acesso a materiais suficientes que se prendem com a prática tradutória de Min, decidiu-se estudar exclusivamente uma das traduções. Sendo tradutora, professora universitária e investigadora das literaturas em língua portuguesa, Jin assume mais de um papel no campo da tradução. Trata-se de uma tradutora produtiva e estudiosa ativa. Reflete e atualiza sempre o seu ponto de vista acerca da tradução literária e das literaturas em língua portuguesa. Por outro lado, a versão chinesa de Terra sonâmbula que Jin traduziu é a primeira obra coutiana publicada na região de Taiwan, em 2018, pela editora Homeward Publishing. Traduzido em chinês tradicional, o romance foi largamente reconhecido pelos leitores da região de Taiwan. Valoriza-se tanto a própria tradutora como a singularidade desta versão chinesa de Terra sonâmbula, ponto de partida desta pesquisa. Por outras palavras, à luz do habitus do tradutor justificado na parte teórica, pretende-se descrever o habitus da tradutora, a partir da análise da sua tradução de empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula para o chinês.
4.2 Tradução chinesa de empréstimos e estrangeirismos
Em Terra sonâmbula, registam-se traços específicos do português moçambicano. Isto deve-se à preocupação do autor que vê um “discurso escrito de cunho essencialmente oral – como reflexo, aliás, de uma busca de autenticidade, de realismo e de tradição” (Cavacas, 2015, p. 203). Esta preocupação reflete-se no uso de um conjunto de aspetos de linguagem: morfossintáticos, semânticos e lexicais, em particular, do português moçambicano (Cavacas, 2015). A voz moçambicana é traduzida, desta forma, para os que não conhecem este país africano. Também, dada esta caraterística, desafia-se o tradutor a transmitir os traços linguísticos moçambicanos para outros idiomas, o que constrói, portanto, o foco de estudo desta subsecção.
O português moçambicano tem origem numa história complexa da língua. Moçambique é um país africano que tem como língua oficial a língua portuguesa após a independência, em 1975, e que se carateriza por ser uma sociedade multilingue devido ao contacto de línguas de diferentes origens no território, em particular, o contacto da língua portuguesa com muitas línguas autóctones do ramo Bantu, assim como algumas línguas asiáticas e o inglês (cf. Hlibowicka-Węglarz, 2021). Nestes idiomas em contacto, as línguas bantu (LB) constituem a maior parte das línguas maternas de comunicação diária dos moçambicanos, que influenciaram o português moçambicano de hoje. Aliás, de acordo com Gonçalves (2012, p. 401), “a influência das línguas bantu no Português de Moçambique (PM) se manifesta em várias componentes da sua gramática e do seu léxico”. Para além disso, cremos ser pertinente acrescentar que as influências das línguas bantu no PM “são mais percetíveis a nível oral” (Hlibowicka-Węglarz, 2021, p. 17). Um fenómeno que daí advém é o afastamento gradual entre o português escrito oficial e o português falado, fazendo com que tenham surgido textos literários que procuram estabelecer uma ponte possível entre os dois lados (cf. Rosário, 1996, p. 227). Mia Couto enquadra-se nesse panorama:
Mia Couto é o único escritor que se orienta pelas “regras” da gramática do PM a partir das quais constrói o seu discurso literário [...]. O escritor parte assim das inovações lexicais ou sintácticas do discurso corrente para produzir o seu texto. Mia Couto parece sentir-se libertado do jugo das regras da gramática do Português padrão europeu, e o seu processo criador inspira-se no contexto linguístico moçambicano
(Gonçalves, 1996, p. 23).
De entre os esforços praticados pelo autor moçambicano, destaca-se o aspeto lexical, mais especificamente, os empréstimos e estrangeirismos de origem bantu e de outras línguas estrangeiras na produção literária baseada no português. Por consideração da caraterística mais visível na língua e da dificuldade na prática tradutória entre duas línguas bem diferentes, os empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula e a sua tradução para o chinês tornam-se o objeto de estudo desta subsecção. Os empréstimos e os estrangeirismos são alvo de definições polémicas. Timbane (2012, p. 291) defende que se entende por estrangeirismo “uma palavra de uma língua ‘A’ que é usada na língua ‘B’ em que pelo menos uma das suas caraterísticas de origem não foram desvirtuadas, nomeadamente a nível fonológico, semântico ou ortográfico”. Ao mesmo tempo, empréstimo dá-se quando ocorre a solidificação e transformação de uma palavra estrangeira para se adaptar à realidade de uma nova língua (Timbane, 2012). Para Hlibowicka-Węglarz (2021, p. 12), os empréstimos identificam-se “quando uma dada língua A integra as unidades lexicais existentes numa outra língua B que a língua A não possuía”. É preciso acrescentar ainda que Hlibowicka-Węglarz (2021), tal como o que costumam fazer alguns outros analistas, não se esforça na diferenciação entre o empréstimo e o estrangeirismo (Timbane, 2012). No que se refere a esta questão, cremos ser digna de confiança a perceção seguinte:
Em primeiro lugar, temos o estrangeirismo, que vem a ser o emprego de palavras que se originam de outra Língua estrangeira e não possuem uma palavra correspondente a ela na nossa Língua, apontadas em nossas normas gramaticais como um vício de linguagem, e que sua pronúncia e escrita não sofre qualquer alteração [...].
No segundo caso, o empréstimo (galicismo, anglicismo, etc.)[,] a própria nomenclatura[,] deixa clara a função das palavras, que sofre pouca modificação e passa a fazer parte do léxico, sendo que todas elas hoje classificadas como empréstimo[s] foi um dia estrangeirismo[s]
(Gonçalves et al., 2011, n.p.).
Assim, os estrangeirismos caraterizam-se por não sofrerem modificação, ao entrar numa língua alheia, enquanto os empréstimos se identificam pela tendência da “nacionalização” num novo ambiente linguístico, seja a nível fonológico ou ortográfico, como o aportuguesamento e os vocábulos de línguas bantu ao entrarem na língua portuguesa.
No que concerne às funções dos empréstimos/estrangeirismos no PM, Hlibowicka-Węglarz (2021, p. 19) considera duas preocupações: i) serem referência à [da] tradição e à [da] cultura da população e ii) servirem para designar a realidade em que vivem e trabalham os moçambicanos. Sendo tradutor espanhol de textos coutianos, Iglesias (2005, p. 182) acredita que o uso frequente dos termos pertencentes às línguas autóctones tem como objetivo “infuse a colourful spirit into the narration and to produce stories that are totally imbedded in Mozambican culture”. Timbane e Santos (2020), ao estudarem especificamente o uso do PM em Terra sonâmbula, sobretudo relacionado com os empréstimos e estrangeirismos, veem-nos ambos como um modo praticado pelo autor moçambicano, da (re)construção da identidade do ser africano a partir da língua portuguesa. Tal afirmação corresponde à perspetiva de que o PM, por via de empréstimos, “vai ganhando novas feições e vai criar uma identidade própria, carregando marcas de identidade dos seus falantes” (Hlibowicka-Węglarz, 2021, p. 19). Seja qual for a motivação do autor, na escrita literária coutiana constata-se o significado de relevo da convivência entre a língua portuguesa e as línguas alheias, por assim dizer, línguas bantu, sobretudo. Assim, como é que se transmite esta caraterística linguística para o chinês?
Em Terra sonâmbula, testemunha-se o vasto uso dos empréstimos e estrangeirismos, de origem bantu, indiana, inglesa, persa, etc. Tendo como objetivo i) conhecer o panorama do uso do empréstimo e estrangeirismo no texto-fonte e ii) facilitar o estudo do habitus do tradutor na tradução chinesa dos empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, fazemos uma recolha de dados para se construir um corpus com as seguintes componentes: empréstimos ou estrangeirismos, origem etimológica, citação e tradução chinesa. Da nossa recolha, totalizam-se 66 ocorrências: 32 empréstimos e estrangeirismos de línguas autóctones faladas em Moçambique e 14 de línguas alheias, incluindo o concani, o francês, o guzarate, o inglês, o italiano, o persa, o latim científico (AA. VV., 2001; Cavacas, 1999, 2015; Couto, 2017), bem como uma língua não identificada. Para além disso, repare-se, nas 20 ocorrências, de fenómeno da (re)criação lexical levada a cabo pelo próprio autor, recorrendo aos empréstimos1. Com o intuito de esclarecer a forma como se traduzem os empréstimos e estrangeirismos para a língua chinesa, apresenta-se, na tabela seguinte, uma listagem destes vocábulos:
Tal como demonstra a tabela, a maioria dos empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula são nomes e uma pequena parte pertence a outras classes gramaticais. Por isso, a nossa análise da tradução dividir-se-á em duas categorias.
Para a primeira categoria relacionada com os nomes, totalizam-se 54 ocorrências. De acordo com as caraterísticas gerais da tradução, esta categoria pode subdividir-se em duas subcategorias: a transliteração e a tradução livre, contando com 22 e 32 ocorrências, respetivamente. Entre as 22 ocorrências, encontra-se por sete vezes a mera transliteração e outras 15 vezes a transliteração com a nota de rodapé. A transliteração permite a representação do habitus da negociação com o texto-fonte e o autor, enquanto a transliteração com a nota de rodapé espelha tanto este habitus como o da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor. Do mesmo modo, relativamente à subcategoria que se prende com a tradução livre, totalizam-se várias soluções tradutórias. Dez nomes próprios passam pela tradução livre com notas de rodapé acrescentadas. Para as 21 ocorrências compostas, maioritariamente por nomes comuns, constata-se a mera tradução livre. Ambas as soluções se dirigem ao habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor. Ressalta, ainda, a tradução de “monhé”, pois, registam-se duas traduções, “印度人” (yìn dù rén) e “印度佬” (yìn dù lǎo). “印度人” é indiano, indivíduo natural da Índia, enquanto “印度佬” é um tratamento depreciativo para chamar os indianos. Em Terra sonâmbula, usa-se no texto inteiro o vocábulo “monhé”, que se refere a “indiano” (Couto, 2017, p. 334). Na tradução chinesa, a tradutora pretende respeitar, de acordo com a sua leitura, a posição/atitude da personagem que fala. Acaba por optar por duas equivalências ao transmitir o mesmo empréstimo. Esta opção espelha tanto o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor como o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor.
Para a segunda categoria associada a outras classes gramaticais, nomeadamente, adjetivos, advérbios, verbos e interjeições, contámos 12 empréstimos e palavras novas recriadas a partir dos empréstimos-nomes. No caso de dez vocábulos, recorreu-se à tradução livre. Apenas se registam duas palavras novas coutianas (“chambocado”, “timbilar”), cujas traduções preservam parcialmente a transliteração dos empréstimos de origem, com base na tradução livre como um todo. Por isso, percebe-se que nos dez vocábulos de outras classes gramaticais se reflete o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor, enquanto através das outras duas palavras novas se espelha o habitus da negociação tanto com o texto-fonte e o autor quanto com a língua, cultura-alvo e o leitor.
Resumindo, pelas 66 ocorrências relacionadas com a tradução dos empréstimos, estrangeirismos e da recriação lexical a partir dos empréstimos, verificam-se três sub-habitus da generatividade, por ordem decrescente de frequência: i) o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor (41 ocorrências); ii) o habitus da negociação tanto com o texto-fonte e o autor quanto com a língua, cultura-alvo e o leitor (18 ocorrências) e iii) o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor (sete ocorrências). Em seguida, procede-se a uma análise de três exemplos de tradução que correspondem a cada habitus. Para mostrar melhor como é que este fenómeno de tradução acontece, apresentam-se: o capítulo do texto-fonte, o contexto de frase em Terra sonâmbula, o empréstimo e origem, e a tradução chinesa realizada por Jin. Como os leitores podem não ler caracteres chineses, acrescenta-se: i) a versão em Pinyin, ii) a tradução palavra por palavra e iii) a retroversão. Outras informações podem ser acrescentadas, dependendo da tradução em análise. Segue na tabela o exemplo da tradução sobre o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor:
Sendo empréstimo proveniente da língua niúngue nenekar, “nenecar” refere-se “no sentido original, trazer uma criança às costas, usualmente, adormecer; embalar” (Cavacas, 1999, p. 172). Trata-se de um verbo emprestado das línguas autóctones moçambicanas, que, neste caso, conseguiria o sentido completo ao se entender junto com “canção de (nenecar)”, que significa canção de ninar. Substituída por uma palavra só, este “experimentalismo linguístico” (Cavacas, 2015, p. 141) baseia-se na proximidade linguística entre o português europeu e o português moçambicano. Ao transmitir-se para a língua chinesa, perde-se este parentesco linguístico, uma vez que o português pertence ao sistema da escrita fonográfica, enquanto o chinês pertence à escrita essencialmente “pictográfica e ideográfica” (Mai et al., 2022, p. 51). Dessa forma, a conexão criativa entre o português europeu e o português moçambicano é fadada a quebrar-se. Por sua vez, a tradutora abandona a reprodução fonologicamente formal deste empréstimo, dando prioridade à tradução livre desta palavra. Aliás, a tradutora considera “canção de nenecar” como um todo, visto que em chinês há equivalência semântica desta expressão, isto é, “搖籃曲”, constituída por “搖籃” (berço) e “曲” (canção). Neste caso, o verbo “nenecar” é substantivado e transformado em “berço”, correspondendo à expressão habitual da língua-alvo.
Em seguida, apresenta-se um exemplo da tradução que se prende com o habitus da negociação tanto com o texto-fonte e o autor quanto com a língua, cultura-alvo e o leitor:
Exemplo sobre transliteração de empréstimo com nota de rodapé na tradução chinesa de Terra sonâmbula
Empréstimo da origem guzarate, o empréstimo “baniane” refere-se ao indivíduo de ascendência indiana que se dedica ao comércio (Cavacas, 1999). Recorrendo à transliteração, traduz-se este vocábulo como“巴尼阿內人”(bā ní ā nèi rén), o que reflete o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor. Simultaneamente, revela-se o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor pelo facto de se acrescentar uma nota de rodapé a “baniane”. Vista como um processo de três etapas, a transliteração parte de letras da língua-fonte, unidades fonológicas da língua-fonte, unidades fonológicas da língua-alvo e chega até letras da língua-alvo (cf. Catford, 1965). Tal solução tradutória corre o risco de fazer perder o significado do original, pois: “its purpose is the preservation of form” (Shuttleworth & Cowie, 1997, p. 175), sobretudo no que se refere à transformação entre duas escritas alfabética e não alfabética, respetivamente, como é o caso do português e do chinês.
Muitas vezes, esses caracteres chineses aleatoriamente reunidos “não correspondem a nenhuma palavra chinesa com significado semântico” (Liang, 2023, p. 217). No caso de “baniane”, Jin traduz para “巴尼阿內人” (bā ní ā nèi rén), os cinco caracteres chineses, ao se descodificarem de forma separada, não fazem sentido em termos semânticos para os leitores chineses, o que só permite a reprodução fonética do termo original segundo as regras da pronúncia chinesa. Neste sentido, é acrescentada pela tradutora uma nota de rodapé, que serve para esclarecer a conotação de “巴尼阿內人”, isto é, “巴尼阿內人(Baniane), 專指在莫三比克從商的印度裔。” (Couto, 2018, p. 195). É preciso acrescentar que no texto-fonte, o autor moçambicano não explicita, em lugar nenhum, o significado do empréstimo “baniane”. Por outras palavras, não se proporciona uma leitura possível do que se entende exatamente por este vocábulo do português moçambicano. Todavia, ao se transmitir para o chinês, “baniane” acaba por ser esclarecido para um melhor entendimento dos leitores da língua-alvo. Isso reflete precisamente o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor.
Por último, apresenta-se um exemplo da tradução que se prende com o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor:
O empréstimo “mampfana” aparece quatro vezes no texto-fonte e refere-se a uma “espécie de grou, chamado ‘aquele que faz parar os viajantes’” (Cavacas, 1999, p. 155). Tal como o que acontece ao empréstimo “baniane”, não há explicitação, também, no texto-fonte em relação ao significado do empréstimo “mampfana”. No entanto, isto não impede os leitores do texto-fonte de identificar a sua heterogeneidade em relação ao português padrão. Ao traduzir para o chinês, Jin opta por fazer a transliteração sobre o “mampfana”, solução tradutória aplicada a todas as quatro ocorrências. Recorrendo à justificação no exemplo da tradução do empréstimo “baniane”, os leitores chineses não podem ler os caracteres chineses juntos aleatoriamente, no caso de estes não carregarem sentido semântico. Permite, apenas, a reprodução fonética do “mampfana” segundo as regras da pronúncia chinesa. Jin não repete a solução tradutória relacionada com a tradução de “baniane”, isto é, não acrescenta notas de rodapé. Por sua vez, deixa ficar os caracteres transliterados, sem explicação. Isto, porque, em Terra sonâmbula, o “mampfana” já conta com uma explicitação mesmo no texto, “a ave que mata as viagens” (Couto, 2017, p. 70), o que equivale a uma nota de rodapé tanto para o texto-fonte como para o texto-alvo. É verdade que a tradutora poderia mobilizar uma nota de rodapé detalhada como a seguinte:
Algumas aves são objecto de ideias supersticiosas, nomeadamente esta, o mampfana, aquele que faz parar os viajantes. Espécie de grou, é chamada a ave que impede a viagem; se esta ave voa através do caminho com as grandes asas abertas há perigo de morte, previne que o caminho não está puro
(Leite, 2003, p. 51).
Contudo, a tradutora não opta por proporcionar aos leitores uma nota de rodapé. Isto corresponde à perspetiva da tradutora quanto ao acréscimo das notas de rodapé: “o tradutor deve evitar o abuso de notas de rodapé e explicações excessivas, resistindo ao instinto profissional de explicitação” (Yu, 2025, p. 423). Seja qual for a opção da tradutora sobre as notas de rodapé, testemunha-se, a partir da transliteração sobre o “mampfana”, o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor.
Por último, apresentam-se, na seguinte tabela, os dados estatísticos a partir do nosso trabalho de análise da tradução, desenvolvidos em Yu (2025), em relação a: i) os habitus recolhidos na tradução chinesa de empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, ii) as soluções tradutórias de Jin que correspondem a cada habitus; iii) o número de ocorrências que correspondem a determinado habitus e iv) a percentagem3 de cada habitus:
Os habitus sobre a tradução de empréstimos e estrangeirismos na tradução chinesa de Terra sonâmbula
Resumindo, entre as 66 ocorrências que recolhemos, relacionadas com a tradução de empréstimos/estrangeirismos em Terra sonâmbula do português para o chinês, o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor tem o maior peso. Atinge mais de metade da percentagem. Segue-se o habitus da negociação, tanto com o texto-fonte e o autor quanto com a língua, cultura-alvo e o leitor, e o habitus da negociação com o texto-fonte e o autor. Aproximar a estrutura intrínseca da língua-alvo, ou facilitar a compreensão dos leitores implica, de alguma maneira, o abandono parcial ou completo da transliteração dos empréstimos/estrangeirismos, em particular perante os nomes comuns e os vocábulos de outras classes gramaticais que aparecem mais de duas vezes no texto-fonte, como é o caso de “concho” (9 ocorrências) e “machamba” (5 ocorrências). Nota-se que os habitus respeitantes à negociação com o texto-fonte e o autor, no caso da tradução dos empréstimos/estrangeirismos, caraterizam-se pela transliteração dos termos, quer acompanhada por notas de rodapé (por exemplo, “mantakassa”, “maquela”) ou não (por exemplo, “xipoco”, “naparama”).
5. Considerações finais
O presente trabalho teve como objetivo aplicar o habitus bourdieusiano à tradução literária e refletir sobre as ferramentas teórica e metodológica do estudo do tradutor. Simultaneamente, procurou-se contribuir para os Estudos de Tradução das literaturas africanas em língua portuguesa, em particular da moçambicana, para o chinês. Através da análise realizada sobre a tradução chinesa de empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, de Mia Couto, realizada por Jin Xinyi, foi possível chegar às seguintes conclusões.
Em primeiro lugar, confirmou-se a viabilidade da análise do habitus do tradutor a partir de duas dimensões: a historicidade e a generatividade. Observou-se que, por um lado, o habitus do tradutor é um instrumento conceitual que permite a integração dos conceitos isolados (p.e.: agência, “multiple translatorship”, teoria ator-rede). Por outro lado, o habitus do tradutor liberta alguns conceitos de dualismo (p.e.: estrangeirização, domesticação, reescrita como manipulação, etc.), o que enfatiza o único pólo ao interpretar a prática da tradução. Além disso, enfatiza-se que, tanto a historicidade como a generatividade do habitus do tradutor, abrangem, subcategorias, dependendo do objeto específico de estudo, como é o caso do habitus da negociação com o texto-fonte e o autor, e o habitus da negociação com a língua, cultura-alvo e o leitor.
Em segundo lugar, verificou-se que uma solução tradutória pode refletir, ao mesmo tempo, vários habitus do tradutor, tal como demonstram, entre outras soluções tradutórias, a transliteração com notas de rodapé e a transliteração parcialmente preservada com base na tradução livre de empréstimos e estrangeirismos. Na verdade, este fenómeno reflete-se não só na tradução de empréstimos e estrangeirismos em Terra sonâmbula, mas também noutros aspetos linguísticos que caraterizam a escrita criativa coutiana, por exemplo, a (re)criação lexical coutiana e os elementos metaforicamente poéticos que se destacam no texto-fonte.
Em terceiro lugar, ao examinar a tradução chinesa de Terra sonâmbula realizada por Jin, nota-se que os habitus da tradutora vão muito além dos debatidos neste artigo, ou melhor, registam-se o habitus social e o habitus do tradutor estudioso que se prendem com a historicidade, enquanto o habitus da negociação com os agentes (editoriais, por exemplo), pertence ao aspeto generativo. De ressalvar, ainda, que, apesar da nossa análise se ter centrado sobremaneira nos empréstimos e estrangeirismos; em Mia Couto, eles não surgem apenas como recursos linguísticos, mas elementos socioculturais que (re)constroem a moçambicanidade. O desenvolvimento dessa análise não foi, porém, objetivo deste nosso estudo (para outros recursos, ver, por exemplo, Yu, 2025).
Concluindo, numa tentativa de se aplicar a abordagem sociológica bourdieusiana aos Estudos de Tradução da literatura coutiana para o chinês, desenvolveram-se diálogos entre três disciplinas, nomeadamente, a tradução, a literatura e a sociologia. Com o presente trabalho, espera-se que mais reflexões interdisciplinares possam ser desencadeadas, de modo a alargar para outros estudos sobre o tradutor e a tradução das literaturas africanas em língua portuguesa para o chinês.
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Conjunto de dados de pesquisa
Os dados da pesquisa fazem parte da tese de doutoramento intitulada O tradutor como indivíduo socializado: tradução chinesa de Terra sonâmbula como estudo de caso (Yu, 2025), desenvolvida na Universidade Politécnica de Macau (UPM), sob a orientação da Prof.ª Drª. Lola Geraldes Xavier e da Prof.ª Drª. Lili Han.
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Financiamento
Não se aplica.
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Consentimento de uso de imagem
Não se aplica.
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Aprovação de comitê de ética em pesquisa
Não se aplica.
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Normalização
Alice S. Rezende – Ingrid Bignardi – João G. P. Silveira – Kamila Oliveira
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1
Entende-se, aqui, por palavras de (re)criação lexical em Mia Couto os vocábulos que não se encontram dicionarizados.
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2
Retroversão da nota de rodapé: “Baniane refere-se especificamente aos indianos que fazem negócios em Moçambique”.
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3
A percentagem retém apenas dígitos inteiros (unidades), pelo que nos dispensamos de voltar a explicar esta opção.
Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa
Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo(s) autor(es) mediante solicitação.
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Editado por
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Editores do número especial
Xiang Zhang – Li Ye
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Editores de seção
Andréia Guerini – Willian Moura
