DOS ZAPATISTAS AOS INDIGNADOS: MUDANÇAS NA GEOPOLÍTICA DAS SOLIDARIEDADES TRANSNACIONAIS

FROM ZAPATISTAS TO INDIGNADOS: CHANGES IN THE GEOPOLITICS OF TRANSNATIONAL SOLIDARITIES

DE LOS ZAPATISTAS A LOS INDIGNADOS: CAMBIOS EN LA GEOPOLÍTICA DE LAS SOLIDARIDADES TRANSNACIONALES

Lívia Alcântara Breno Bringel Sobre os autores

RESUMO

O artigo analisa as reconfigurações das solidariedades transnacionais contemporâneas, examinando o contexto ativista de Barcelona e suas relações com as lutas e os movimentos sociais mexicanos. Reconstrói-se o processo histórico que se iniciou em 1994 com o “ciclo da solidariedade zapatista” até a emergência, após a crise econômica de 2008, do que definimos como “ciclo da solidariedade indignada”. Ambos os ciclos são comparados a partir de uma análise sobre como operam as solidariedades transnacionais. Metodologicamente, recorreu-se a uma combinação entre o acompanhamento participante de ações e atores e 21 entrevistas realizadas na Catalunha. Os achados são discutidos a partir da análise de cinco variáveis: substrato da solidariedade; composição e estrutura das redes de solidariedade; repertórios de ação; formatos e estratégias comunicativas; e, finalmente, construção das escalas de articulação e conexão.

Palavras-chave
Solidariedades transnacionais; Ciclos de protesto; Neozapatismo; Indignados; Geopolítica crítica

ABSTRACT

The article analyzes the reconfigurations of contemporary transnational solidarities, examining the activist context of Barcelona in relation to Mexican social struggles and movements. The historical process that began in 1994 with the “Zapatista solidarity cycle” is rebuilt until the emergence, after the 2008 crisis, of the “indignados solidarity cycle”. Both cycles are compared, based on an analysis of the changes in transnational solidarities. Methodologically, it was used a combination between participatory research with actions and actors, and 21 interviews carried out in Catalonia. The outcomes are discussed taking into account five variables: substrate of solidarity; composition and structure of solidarity networks; repertoires of action; formats and communication strategies; and, finally, the construction of scales of action and political articulation.

Keywords
Transnational solidarities; Protest cycles; Neozapatismo ; Indignados ; Critical geopolitics

RESUMEN

El artículo analiza las reconfiguraciones de las solidaridades transnacionales contemporáneas, examinando el contexto activista de Barcelona frente a las luchas y movimientos sociales mexicanos. Se reconstruye el proceso histórico que arranca en 1994 con el “ciclo de la solidaridad zapatista” hasta la emergencia, tras la crisis de 2008, del “ciclo de la solidaridad indignada”. Ambos ciclos son comparados a partir de un análisis de cómo operan las solidaridades transnacionales. Metodológicamente, se recurrió a una combinación entre el seguimiento participante de acciones y colectivos y 21 entrevistas realizadas en Cataluña. Los hallazgos son discutidos teniendo en cuenta cinco variables: sustrato de la solidaridad; composición y estructura de las redes de solidaridad; repertorios de acción; formatos y estrategias comunicativas; y, finalmente, construcción de las escalas de articulación y conexión.

Palabras-clave
Solidaridades transnacionales; Ciclos de protesta; Neozapatismo; Indignados; Geopolítica crítica

Introdução

A América Latina e a Europa possuem um profundo nexo histórico na conexão de resistências e na construção de práticas de solidariedade transnacional. Durante a modernidade, foram muitas as imbricações entre ambas as regiões, não somente nos planos colonial, imperial e das representações hegemônicas do espaço e da sociedade, mas também no âmbito das lutas sociais e políticas.

No início do século XIX, não podemos entender a revolução haitiana sem a francesa. Um século depois, a revolução mexicana nos ajuda a localizar melhor a revolução russa. Muitas foram as relações entre esses dois processos revolucionários que marcaram o século XX e que se retroalimentaram mutuamente. O México foi o primeiro país da região a reconhecer a União Soviética. O intercâmbio nos níveis artístico, cultural, educacional e intelectual foi intenso. Para além das perspectivas oficiais e das relações formais, as solidariedades transnacionais e o internacionalismo militante funcionavam como eixo de gravitação de muitas influências, mas também de conflitos e diferenças, especialmente, em um contexto posterior de fortes disputas ideológicas e de grandes instabilidades em nível internacional.

Muitas águas correram desde então. Anarquistas europeus viajaram para a América Latina, contribuindo para a organização política, a agitação de massas e a educação popular em vários países da região. Militantes latino-americanos lutaram na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa e muitos militantes europeus foram recebidos como exilados em vários países da América Latina, fundindo-se em lutas daqueles territórios. A revolução cubana, primeiro, e a luta dos sandinistas, na Nicarágua, posteriormente, geraram ampla onda de solidariedade política na Europa, em um momento no qual os “novos” movimentos sociais deslocaram as centralidades e as identidades previamente estabelecidas, conectando, também, movimentos feministas, ecologistas e de direitos humanos tanto europeus quanto latino-americanos.

Chegados quase ao fim do século XX, a extinção da URSS e a queda do Muro de Berlim marcaram o fim de uma época do internacionalismo militante e de uma forma de pensar a construção de conexões e solidariedades transnacionais. Enquanto alguns viam isso como o “fim da história” ou mesmo o fim do mundo, os gritos globais de reconstrução de um horizonte alternativo vieram, novamente, do México, dessa vez da Selva Lacandona.

Com o levante do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em 1994, emergiu um novo imaginário de resistência, que uniu o século XX ao XXI, conectando de outras maneiras lutas de várias partes do mundo e abrindo novos desafios para o estudo dos movimentos sociais e das solidariedades transnacionais contemporâneas. Nesse contexto, a relação entre os indígenas de Chiapas e o ativismo social da Catalunha foi especialmente importante, já que esse último constituiu um nó central na estruturação da rede de solidariedade zapatista europeia como um todo.

É esse justamente o objetivo deste artigo: analisar as reconfigurações nas formas de solidariedade transnacional vinculadas ao ativismo social que conectam a Catalunha a Chiapas e, de maneira mais ampla, à América Latina e à Europa, desde a emergência do neozapatismo até a atualidade. Ao problematizarmos diversas dinâmicas e práticas transnacionais, não entendemos o ativismo de Chiapas e da Catalunha como unidades de observação estritamente delimitadas, como é habitual nos estudos comparativos ou nos estudos de caso mais tradicionais. Pelo contrário: em sintonia com perspectivas metodológicas dos estudos transnacionais (AMELINA; FAIST, 2012AMELINA, A.; FAIST, T. De-naturalizing the national in research methodologies. Ethnic and Racial Studies, v. 35, n. 10, p. 1707-1724, 2012. https://doi.org/10.1080/01419870.2012.659273
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), ambos os lugares são analisados como espacialidades políticas relacionais transbordadas por conexões, relações e significações mais amplas, regionais e globais.

Isso permite inserir a presente contribuição no bojo de um debate mais amplo sobre “novo internacionalismo” (ANTENTAS, 2015ANTENTAS, J. M. Internationalist challenges: Antiglobalisation, Occupy, and Indignados. Globalizations, n. 100, p. 1-15, 2015. https://doi.org/10.1080/14747731.2015.1041270
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) ou “novo ativismo transnacional” (DELLA PORTA; TARROW, 2005DELLA PORTA, D.; TARROW, S. (orgs.). Transnational protest and global activism. EUA: Rowman & Littlefield, 2005.). A despeito da diversidade de enfoques sobre o tema, há alguns denominadores comuns, como: o descentramento das ações coletivas e das organizações; a desnaturalização do Estado; o deslocamento da escala nacional como container das práticas sociais; e uma ênfase maior em contextos fluídos, sobrepostos e multidimensionais de intercâmbios e solidariedades (ZAJAK, 2014ZAJAK, S. Pathways of transnational activism: A conceptual framework. Max-Planck-Institut für Gesellschaftsforschung, MPIfG Discussion Paper, may 2014.).

Identificamos, neste artigo, dois ciclos de solidariedades transnacionais vinculadas a reconfigurações geopolíticas mais amplas. O primeiro é o ciclo da solidariedade zapatista, que dura aproximadamente uma década e marca profundamente uma geração de militantes na América Latina e na Europa, em um momento de busca de construção de alternativas à globalização neoliberal e ao livre comércio. O esgotamento desse ciclo não quer dizer que o “espírito zapatista” desapareça totalmente, mas sim que o movimento deixou de ser um dos principais conectores inter-regionais das lutas sociais e dos imaginários e práticas alternativas. A maior descentralização das lutas, o crescimento de redes temáticas, um certo cansaço do movimento antiglobalização como ator global e o declínio do “ciclo progressista” na América Latina coincidem, no cenário mais amplo, com a crise financeira de 2008 e uma subsequente reestruturação da geopolítica do poder e das resistências. Emerge, desde então, um ciclo de lutas, mais viral e descentrado, que definiremos como a solidariedade indignada, no qual parece primar o evento em vez do processo e o indivíduo onde antes estava o movimento.

A transição entre esses dois ciclos, e suas vicissitudes, é discutida aqui empiricamente a partir do ativismo que vincula Barcelona à realidade mexicana. Barcelona é conhecida por muitos ativistas europeus e latino-americanos como a “embaixada de Chiapas” na Europa (EL LOKAL, 2012EL LOKAL (org.). El Lokal, desde 1987, un rincón libertario en Barcelona. Barcelona: Imprenta LUNA, 2012.), anedota que surgiu no auge das mobilizações de solidariedade com os zapatistas. Nos últimos anos, embora a cidade tenha experimentado também várias mobilizações associadas à “indignação global”, os princípios zapatistas – principalmente a autonomia, o autogoverno, a autogestão e a horizontalidade (BRANCALEONE, 2015BRANCALEONE, C. Teoria social, democracia e autonomia: Uma interpretação da experiência de autogoverno zapatista. Rio de Janeiro: Azougue, 2015.) – seguem presentes na cultura política ativista da cidade, tendo servido como inspiração, inclusive, para a plataforma Barcelona en Comú1 1 Ada Colau, prefeita de Barcelona, eleita em 2015 pela plataforma Barcelona em Comú e reeleita em 2019, foi militante do Collectiu de Solidaritat amb la Rebellió Zapatista de Barcelona (CSRZ). Seu vice-prefeito, na primeira gestão, foi o argentino Gerardo Pisarello, oriundo dos movimentos de solidariedade internacionalista, principalmente com a América Latina, no âmbito de memória e ditadura. A despeito de todas as críticas iniciais do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZNL) à política institucional e às tensões inerentes às relações entre movimentos e governos, ao assumir a prefeitura, Ada Colau disse: “Estamos aqui para mandar obedecendo”, em alusão explícita a um dos mais conhecidos lemas dos neozapatistas, popularizado pelo então Subcomandante Marcos (atualmente Subcomandante Galeano). , que chegou ao governo da capital catalã em 2015.

Metodologicamente, para além da revisão da literatura sobre o tema, este texto se ancora em uma observação dos autores no terreno em dois momentos diferentes: por um lado, um acompanhamento informal e participante das dinâmicas de solidariedades transnacionais entre a Espanha e o México por parte de um dos autores entre 1999 e 2009; por outro, um trabalho de campo mais sistemático e intenso de uma das autoras pelo período de quase um ano entre meados de 2016 e 2017.

Se, no primeiro caso, foram observadas as construções iniciais da solidariedade zapatista em Barcelona e no restante do Estado espanhol por meio de brigadas internacionalistas, campanhas e diversos tipos de iniciativas (desde ações de protesto até debates e redes de comércio justo), durante esse último período, acompanharam-se, de maneira mais ampla, as atividades de diferentes coletivos e espaços de articulações em Barcelona voltados a diferentes movimentos e lutas mexicanas. Realizamos, também, durante esse período, 21 entrevistas em profundidade com ativistas desse meio (principalmente catalães, mas também mexicanos e de outras nacionalidades), que vivem na cidade há muitos anos ou estão de passagem por um período concreto. Conjuntamente, o material coletado, embora não possa ser mobilizado plenamente por limitações de extensão do texto, permite projetar um olhar longitudinal e histórico sobre a solidariedade entre os zapatistas e os ativistas da Catalunha.

Além dessa introdução, o artigo está dividido em quatro partes. Em primeiro lugar, apresenta-se o contexto ativista de Barcelona e seus vínculos com o neozapatismo. Em seguida, busca-se reconstruir o processo histórico, que se iniciou em 1994, com o “ciclo da solidariedade zapatista”, até a emergência do “ciclo da solidariedade indignada” no pós-crise econômica e financeira de 2008, e que se fortaleceu em 2011 com a eclosão do 15-M, no Estado espanhol, e o Movimento por la Paz, Justicia y Dignidad, no México. Em terceiro lugar, ambos os ciclos são cotejados, a partir de uma análise sobre as mudanças nas solidariedades transnacionais nesses dois momentos. Finalmente, a modo de conclusão, discutimos alguns limites e possibilidades do inter-regionalismo a partir dos movimentos sociais na atual encruzilhada sócio-histórica.

Barcelona Como a Embaixada de Chiapas na europa e o Zapatismo Como “Conector Inter-regional”

Desde sua aparição pública, no dia 1º de janeiro de 1994 (dia da entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio na América do Norte [TLCAN], entre Canadá, Estados Unidos e México), o EZLN promoveu a construção de redes de solidariedade transnacional, a partir de espaços e eventos globais, de estratégias de comunicação lúdicas e de uma apropriação pioneira da Internet (OLESEN, 2004OLESEN, T. International Zapatismo: The construction of solidarity in the age of globalization. London: Zed Books, 2004.). Gestado a partir de uma articulação entre indígenas e setores da esquerda armada na Selva Lacandona, o neozapatismo conjuga inspirações políticas diversas, que vão do zapatismo histórico e do indigenismo ao marxismo libertário e o autonomismo. Como já amplamente assinalado pela literatura (LEYVA SOLANO, 1999LEYVA SOLANO, X. De las cañadas a Europa: Niveles, actores y discursos del nuevo movimento zapatista (1994–1997). Desacatos: Revista de Ciencias Sociales, n. 1, p. 56-87, 1999.; KHASNABISH, 2010KHASNABISH, A. Zapatistas: Rebellion from the grassroots to the global. London: Zed Books, 2010.), a história e a trajetória do movimento são de suma importância para compreender a reconfiguração dos movimentos sociais latino-americanos e europeus no momento de intensificação da globalização. Em contraposição à globalização neoliberal e ao discurso do “There is no alternative”, a luta do neozapatismo inspirou, em termos práticos e discursivos, a construção de “outros mundos possíveis”.

Seu impacto foi global, porém mais intenso na América Latina e na Europa que em outras regiões do mundo. Desde então, é possível encontrar, em várias localidades de ambas as regiões, uma variedade de ações e atores coletivos engajados com os movimentos e as lutas mexicanas. O caso de Barcelona é emblemático. Em um período de 25 anos, compreendido entre 1994 e 2019, identificamos ao menos dezoito coletivos e espaços de solidariedade ao México ativos.

Tabela 1
Coletivos e espaços de solidariedade ao México em Barcelona (1994–2019).

Dos coletivos, dois deles – Col.lectiu de Solidaritat amb la Rebel.lió Zapatista de Barcelona (CSRZ) e Comisión de Solidaridad con los Pueblos Indígenas de la Casa de la Solidaridad – foram fundados ainda em 1994. Durante aproximadamente quinze anos, o CSRZ agregou boa parte dos esforços de solidariedade a Chiapas. Já em 2005 e 2006, começam a surgir outros espaços de articulação com as lutas sociais do México e, com a dissolução do CSRZ, em 2009, esse panorama se diversifica ainda mais. Independentemente dessas mudanças, existe uma “gramática zapatista” que segue funcionando como conector inter-regional entre as realidades catalã e mexicana e, de maneira mais ampla, entre ativistas da América Latina e da Europa.

Desde 1994, os princípios e símbolos do CSRZ, como a autonomia, a autogestão, a horizontalidade e a solidariedade, aparecem como elo importante com o zapatismo, que é mobilizado pelos ativistas de diferentes formas, inclusive estéticas. O coletivo foi, durante sua existência, um dos principais articuladores da solidariedade aos indígenas de Chiapas no continente europeu. Isso significa que Barcelona foi uma das principais portas de entrada do neozapatismo na Europa e, ao mesmo tempo, um dos vetores centrais de saída; ou seja, de mobilidade de militantes europeus para o México, já que centenas de pessoas viajaram para Chiapas para participar de brigadas militantes ou dos “Encontros Intergaláticos” (nome informal pelo qual ficaram conhecidos os Encontros Intercontinentais pela Humanidade e contra o Neoliberalismo organizados pelo EZLN), com “escalas” de formação ou outro tipo de mediações feitas pelo CSRZ ou por ativistas catalães. Um dado relevante é que, após a realização do I “Encontro Intergalático” em Chiapas, em 1996, a segunda edição, no ano seguinte, teve como sede cinco diferentes cidades do Estado espanhol, entre as quais Barcelona. Foi a primeira vez que militantes do EZLN participaram de um evento internacional fora do México, e os delegados lá presentes definiram o encontro na ciudad condal como o “mais acolhedor e alternativo dos eventos zapatistas de ultramar” (BELLINGHAUSEN, 1997BELLINGHAUSEN, H. Zapatistas en Barcelona: “los partidos no nos representan, ni siquiera los conocemos”. La Jornada, Ciudad de México, 29 jul. 1997.).

Nesse processo, floresceu uma série de coletivos zapatistas em toda a Europa, que se organizam ainda hoje na Red EuroZapatista2 2 Disponível em: http://www.europazapatista.org/. Acesso em: 9 dez. 2018. . Assim, a dimensão inter-regional do ativismo vai ganhando forma em várias direções. Por um lado, pela construção de uma articulação entre os diferentes coletivos de solidariedade zapatista, seja em espaços como o Encontro Zapatista Europeu, celebrado periodicamente como forma de intercambio de experiências, seja pelas trocas mais cotidianas. Por meio desses coletivos, o neozapatismo passa a penetrar lutas mais amplas, como a do movimento antiglobalização na Europa, forjando práticas e léxicos na luta de “outra Europa possível”. O atual secretário-geral e um dos fundadores do partido político espanhol Podemos, Pablo IglesiasIGLESIAS, P. Los índios que invadieron Europa: La influencia del EZLN en las formas de acción colectiva de los movimientos globales. X Encuentro de Latinoamericanistas Españoles, Universidad de Salamanca, Salamanca, Espanha, 2004., argumenta, no texto “Los índios que invadieron Europa: La influencia del EZLN en las formas de acción colectiva de los movimientos globales” (2004), que os zapatistas teriam trazido uma nova inspiração para toda uma geração de ativistas no continente, tendo sido a principal referência para a emergência dos Tute Bianchi, na Itália, tema que reaparece em sua tese de doutorado pouco depois.

Em contraposição à Europa do capital, das guerras ou das fronteiras, a solidariedade com o zapatismo acabou contribuindo para fortalecer, também, os laços entre as lutas e os movimentos sociais dentro da Europa, gerando uma cartografia alternativa do continente. Não deixa de ser curioso que, por exemplo, nos primeiros Fóruns Sociais Europeus, especialmente, as edições de Florença (2002), Paris (2003), Londres (2004) e Atenas (2006), um movimento indígena da América Latina fosse um dos maiores protagonistas de um espaço europeu de articulação das resistências. Dessa vez, os indígenas chiapanecos não estavam lá presencialmente, mas suas experiências, práticas e mensagens, levadas e traduzidas por centenas de indivíduos e coletivos europeus que haviam estado no México e seguiam conectados com as lutas daquele país.

Por outro lado, conhecer a experiência zapatista significou, para muitos ativistas europeus, começar um contato mais amplo com outras lutas e movimentos no México e no resto da América Latina, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil e uma diversidade de lutas indígenas na América Central e na região andina (BRINGEL et al., 2008BRINGEL, B.; LANDALUZE, J.; BARRERA, M. Solidaridades para el desarrollo. La política de cooperación activista con el MST brasileño. Revista Española de Desarrollo y Cooperación, v. 22, p. 195-209, 2008.). Além disso, para os ativistas catalães e boa parte dos europeus engajados com o México, o zapatismo aparece como conector inter-regional, tanto no plano pessoal (como uma experiência de vida e militância que marcou cada um deles, formando uma geração política) quanto no plano histórico (como ator que renovou a cena política em um momento de fechamento de lutas e concepções previas).

No campo pessoal, o neozapatismo foi, para os ativistas entrevistados em Barcelona, uma experiência militante que marcou um antes e depois em suas vidas. Isso é ressaltado de diferentes maneiras nas falas: “Especialmente para mim, foi um divisor de águas na vida. O zapatismo me conduziu para muitos lugares, me fez querer explicar muitas coisas, perguntar outras” (B. P., 40, mexicana); “Você ia de viagem aos acampamentos e muita gente quando voltava ficava no coletivo [CSRZ]. Outras não, mas, depois de um tempo, haviam ocupado uma casa, montado alguma coisa” (M. C., 40, catalã); “E comecei a trabalhar transcrevendo as entrevistas de indígenas presos. Com a linguagem, você vai aprendendo muito […]. Essa foi uma experiência muito rica para mim” (T. P., 60, catalão)3 3 Esta e todas as falas seguintes de ativistas entrevistados foram traduzidas pelos autores do espanhol ao português. .

Essa dimensão de impacto na vida social, que inclui o conhecimento de um novo nicho de pessoas, de lugares para frequentar e de relacionamentos (chega-se a falar inclusive, entre os ativistas, nos “filhos do zapatismo”), é mais bem-entendida, contudo, se analisada em conjunto com o contexto de uma militância historicamente muito combativa. Desde fins do século XIX até a Guerra Civil Espanhola, Barcelona foi palco do maior movimento anarquista de toda a Europa, em um período de muitos enfrentamentos com as autoridades centrais espanholas, com as forças nacionalistas independentistas de carácter burguês, com as classes médias urbanas modernizantes e com os setores industriais (EALHAM, 2005EALHAM, C. La lucha por Barcelona: Clase, cultura y conflicto (1898–1937). Madrid: Alianza Editorial, 2005.). Desde então, os bairros operários converteram-se em espaços de resistência, difundindo, também, para fora, via associações e ateneus populares, uma cultura política libertária e internacionalista aberta ao mundo. As ocupações de fábricas e prédios, as ações diretas e a desobediência civil tornaram-se parte do repertório habitual de protestos da cidade ao longo do século XX. O desenlace trágico da Guerra Civil Espanhola é conhecido, mas Barcelona foi novamente ponte importante para a resistência no exilio e na renovação da resistência antifranquista, a partir dos anos 1960, principalmente com os movimentos estudantis e operários. Na transição democrática, o fervor cultural, o movimento punk e a emergência dos “novos movimentos sociais” recuperaram e reatualizaram as experiências autônomas e de confronto (RIECHMAN; BUEY, 1995RIECHMAN, J.; BUEY, F. Redes que dan libertad. Barcelona: Paidós, 1995.).

Diante desse legado histórico, para boa parte dos militantes ativos nas últimas duas décadas, a emergência do ciclo zapatista é entendida como a possibilidade de uma nova atualização das energias políticas autonomistas de Barcelona.

O zapatismo veio para preencher uma grande lacuna de pessoas que não queríamos estar em partidos políticos, que não queríamos estar em sindicatos e que não estávamos mais no antimilitarismo4 4 Movimento social presente em vários lugares do Estado espanhol na transição à democracia, vinculado à objeção de consciência contra o serviço militar obrigatório. . Então, o zapatismo se tornou um espaço onde nos juntamos. Foi um ar fresco, um novo ar. Eu diria que, mais do que projetos concretos, foram as ideias, as palavras que começaram a ser nomeadas

(H.T, 38, catalão).

Em um plano mais global, um militante de outra geração, engajado em ondas prévias de solidariedade transnacional, também explica a emergência do neozapatismo em Barcelona como essa nova possibilidade num momento em que as velhas práticas morriam. Para ele, em um período em que o neoliberalismo avançava e uma geração de movimentos sociais prévia deixava de ser uma alternativa, o neozapatismo surgia como essa injeção de ânimo na política:

Em 1973, veio o golpe de Salvador Allende e muitos de nós entendemos que o caminho para o socialismo foi cortado diretamente pelos Estados Unidos, pelo capitalismo que organiza um golpe de Estado. Nós nos colocamos na luta violenta. Então vem a transição na Espanha e entendemos que não, que o plano violento, semi-militar.... Também não tivemos uma solução por aí. A transição chega na Espanha, o partido socialista vence, por maioria absoluta, depois vem o momento do desencantamento, como se chamou aqui. Não apenas as coisas não mudaram, mas nós retrocedemos. O Muro de Berlim cai, quase não há utopia. A grande conquista do zapatismo para mim é nos dar um novo corpo ideológico, mas ao contrário dos que tivemos antes, é um corpo que, com o discurso e a palavra, coloca o coração. Não é mais a análise rigorosa, fria, marxista, mas que coloca toda essa carga de coração e a verdadeira palavra

(T. P., 60, catalão).

A articulação zapatista entre prática e discurso aparece como algo central para boa parte dos ativistas catalães. Além disso, os princípios zapatistas não eram somente configurações abstratas. Passaram a ser identificados em experiências locais em Barcelona, nos movimentos libertários, nos movimentos “ocupas” (movimentos de ocupação), nas assembleias e nos bairros. Outra militante narra que a linguagem zapatista passa a estar tão incorporada na cultura política de Barcelona que as frases do movimento são normalizadas no dia a dia:

O zapatismo faz parte da história, da cultura alternativa desta cidade. As pessoas dizem frases que não sabem que são dos zapatistas. Nós vimos como [o zapatismo] criou uma nova linguagem nesta cidade

(M. C., 40, catalã).

Nos movimentos anarquistas e nas experiências libertárias de carácter autônomo, essa proximidade também é reivindicada. Em sintonia com a entrevistada M. C., o entrevistado T. P comenta: “é possível escutar a linguagem zapatista em Can Batlló, em Can Vies5 5 Can Batlló e Can Vies são ocupações que funcionam como centros culturais e sociais autogeridos em Barcelona. , no bairro” (T. P., 60, catalão). Na mesma direção, um morador de uma conhecida ocupação chamada Can Masdeu, nascida no bojo do movimento antiglobalização, compara as ocupações urbanas de Barcelona com a forma de organização da autonomia zapatista, dando a tônica de um “zapatismo catalão”:

Ou seja, para nós, a ocupação era o caminho para construir nossos municípios autônomos em rebelião. Embora não disséssemos isso, as ideias deles são as ideias que nos inspiraram em Can Masdeu, que nos inspiraram a muitos outros projetos. A ideia de autonomia, de autogoverno, de contato com a terra em nosso caso

(K. T., 38, catalão).

Esse mesmo militante narra que a influência zapatista também esteve presente na estratégia de comunicação da ocupação para o bairro e com a mídia local. Para ele, até então, os movimentos de ocupação tinham a tradição de ser mais fechados e endógenos, com muita dificuldade para se conectar com a sociedade (CATTANEO; TUDELA, 2014CATTANEO, C.; TUDELA, E. El carrer és nostre! The autonomous movement in Barcelona, 1980-2012. In: VAN DER STEEN, B.; KATZEFF, A.; VAN HOOGENHUIJZE, L. (orgs.). The city is ours: Squatting and autonomous movements in europe from the 1970s to the present. Oakland: PM Press, 2014, p. 95-130.), inclusive com os moradores dos próprios bairros que ocupavam. Entretanto, Can Masdeu, inspirada no zapatismo, abriu-se ao território e à sociedade, repartindo terras com os vizinhos, recebendo escolas para mostrar as experimentações com a permacultura e dialogando com os meios de comunicação.

Em suma, esses depoimentos ilustram uma tendência mais ampla: a percepção coletiva de que as práticas e os princípios do zapatismo passaram a ser parte da cultura política ativista de Barcelona. Tais princípios, por sua vez, fundiram-se em uma tradição autonomista preexistente, derivada da tradição libertária presente na cidade. Nessa mescla, o local e o global passaram a se imbricar profundamente, levando a uma ressignificação, em Barcelona, da própria concepção de autonomia na política, que passou a adquirir sentido mais popular e menos segmentado, como era o caso do movimento “ocupa” dos anos 1980 e 1990 na cidade.

Da Solidariedade Zapatista à Solidariedade Indignada

O histórico recente de solidariedade ao México pode ser lido a partir de dois momentos principais: o primeiro, fortemente impulsionado e ligado ao EZLN (1994–2006), será denominado solidariedade zapatista. Já o segundo momento, de pluralização da solidariedade e diluição da influência do EZLN, coincide com um novo ciclo de protestos no Estado espanhol e no mundo, a partir de 2010. Definimos esse momento como solidariedade indignada. Apresentaremos, brevemente, cada um deles para, posteriormente, analisarmos suas características e especificidades.

O primeiro momento compreende o período que vai do levante armado do EZLN, no inicio de 1994, à realização da Otra Campaña6 6 A Otra Campaña foi lançada no inicio de janeiro de 2006, de forma paralela ao começo oficial da pré-campanha dos candidatos à Presidência da República do México. Em um contexto de grande desprestigio dos partidos políticos, buscava a articulação do EZLN com outros coletivos e lutas, com o objetivo de expandir e fortalecer o zapatismo civil nacionalmente. A Otra Campaña organizou reuniões e diálogos com grupos diversos, além de caravanas no México e ações de solidariedade do movimento com outras lutas, como as de Atenco e a luta dos professores de Oaxaca. Ao mesmo tempo, condenava o regime político como um todo e advogava pela abstenção eleitoral, inclusive com tensões e ataques ao candidato progressista naquele momento, o atual presidente Andrés Manuel López Obrador. O balanço da Otra Campaña dividiu a esquerda mexicana, tendo em vista as diferenças de estratégia e o apertado resultado das eleições de julho de 2006, nas quais Obrador perdeu por somente 0,56% de diferença e com indícios de fraude (LÓPEZ, 2011; MODONESI, 2016). . Durante esse período, o zapatismo se projetou globalmente como a principal via de articulação da solidariedade do resto do mundo ao México. Gestou-se uma sólida “rede transnacional de solidariedade com o zapatismo” (ROVIRA, 2009ROVIRA, G. Zapatistas sin Fronteras. México: Era, 2009.), a partir de um padrão de “internacionalização territorializada” (BRINGEL, 2015BRINGEL, B. Social movements and contemporary modernity: Internationalism and patterns of global contestation. In: BRINGEL, B.; DOMINGUES, J. M. (eds). Global Modernity and Social Contestation. London/California/New Delhi: SAGE, 2015, p.122-138.). Em torno do lema “contra o neoliberalismo e pela humanidade”, o movimento indígena de Chiapas conseguiu unir uma diversidade de atores com perspectivas políticas distintas, aglutinados em uma luta bastante articulada e globalizada. As listas de e-mails e as páginas de Internet foram ferramentas essenciais para a difusão dessa luta, bem como para a organização dessa rede (CLEAVER, 1998CLEAVER, H. The Zapatista effect: The internet and the rise of an alternative political fabric. Journal of International Affairs, v. 51, n. 2, p. 621-640, 1998.; WOLFSON, 2012WOLFSON, T. From the Zapatistas to Indymedia. Dialectics and Orthodoxy in Contemporary Social Movements. Communication, Culture & Critique, v. 5, p. 149-170, 2012. https://doi.org.10.1111/j.1753-9137.2012.01131.x
https://doi.org/10.1111/j.1753-9137.2012...
), tornando-se o primeiro exemplo expressivo do que viria a ser, posteriormente, conhecido como ciberativismo (ALCANTARA, 2015ALCANTARA, L. Ciberativismo e movimentos sociais: Mapeando discussões. Aurora: Revista de arte, mídia e política, v. 8, p. 73-97, 2015. https://doi.org/10.23925/1982-6672
https://doi.org/10.23925/1982-6672...
).

O ano de 2006, no entanto, marca um antes e depois por dois motivos principais: por um lado, a emergência de outras mobilizações importantes no México (o massacre de Atenco e a luta dos professores de Oaxaca), que pautam uma solidariedade para além do movimento neozapatista; e, por outro, as tensões suscitadas pelo projeto da Outra Campanha. Com esses episódios, a solidariedade dos coletivos zapatistas e simpatizantes do movimento se abre progressivamente a outras realidades do México, ainda que respondendo, muitas vezes, ao chamado do EZLN. Apoios a ambos os acontecimentos são realizados em várias partes do mundo, com atos em frente aos consulados, divulgação das denúncias na mídia, idas de comissões pelos direitos humanos ao México, entre outras ações. Soma-se a esse quadro a derrota da esquerda política mexicana, que levou não somente a uma “desarticulação” dos principais projetos de mudança no país, mas também ao inicio do governo de Felipe Calderón, do Partido da Ação Nacional (PAN), que assumiu a presidência do México (2006–2012) e iniciou a Guerra às Drogas, com um enfretamento militarizado ao narcotráfico.

Essa política leva a um aumento exponencial do número de mortos e desaparecidos e dos índices de violência, colocando novos desafios para os movimentos sociais mexicanos (GOMES, 2016GOMES, S. Oportunidades políticas e estratégias militantes em contextos de violência rotinizada: Uma comparação entre a Zona Oeste do Rio de Janeiro (Brasil) e Guerrero (México). 2016. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.; MODONESI, 2013MODONESI, M. De la generación zapatista al #YoSoy132. Identidades y culturas políticas juveniles en México. OSAL, n. 33, p. 155-170, 2013.; PLEYERS; GARZA ZEPEDA, 2017PLEYERS, G.; GARZA ZEPEDA, M. (eds.). México en movimientos: Resistencias y alternativas. México: Universidad Autónoma Benito Juárez de Oaxaca/MAPorrúa, 2017.). O cenário ativista começou a se recompor diante dessa nova conjuntura, mas essa reestruturação não se restringiu ao México. No plano global, o movimento antiglobalização passou aos poucos a se reconfigurar, em função da criação de redes e espaços mais temáticos e da perda de centralidade das convergências e dos protestos propriamente globais, diante dos principais símbolos do capitalismo e de instituições internacionais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BRINGEL; ECHART, 2010BRINGEL, B.; ECHART, E. Dez anos de Seattle, o movimento antiglobalização e a ação coletiva transnacional. Ciências Sociais Unisinos, v. 46, p. 28-36, 2010.). Dessa maneira, o declínio de um ciclo global das lutas antiglobalização, que havia sido estimulado, em grande, parte pelo zapatismo, também implicou a transformação de uma forma de solidariedade ao México. Essa passou a ser articulada mais a partir de causas específicas, episódios políticos e de violência do que em torno da bandeira zapatista ou da antiglobalização neoliberal e, consequentemente, passou a buscar “outras globalizações” (PLEYERS, 2010PLEYERS, G. Alter-globalization. Becoming actors in the global age. Cambridge: Polity Press, 2010.).

Une-se a esse cenário a crise econômica mundial iniciada em 2008, que teve consequências importantes tanto no México quanto em Barcelona, conquanto de maneiras diversas. No caso mexicano, alguns autores se referem ao país como o “centro da tormenta” da crise do capital na América Latina (HOLLOWAY, 2017HOLLOWAY, J. Prefácio. In: PLEYERS, G.; ZEPEDA, M. G. (orgs.). Méxicos en movimientos. México: Universidad Autónoma Benito Juárez de Oaxaca/Universidad Autónoma de Ciudad Juárez, 2017.), diagnóstico compartilhado por outros atores: “México foi o país latino-americano mais afetado pela crise, com um descenso superior a 7% do PIB em 2009 e com uma queda aproximada de 10% no PIB per capta” (TRUJILLO, 2010TRUJILLO, C. M. Los impactos sociales de la crisis económica en México. Ciudad de México: Friedrich-Ebert-Stiftung, 2010., p. 6). Segundo esse autor, as consequências da crise no México foram agravadas pela dependência da economia mexicana aos Estados Unidos (80% das exportações mexicanas se destinam a esse país), agravada desde a assinatura do TLCAN.

Cruzando o Golfo do México, do outro lado do Atlântico, os impactos da crise global foram especialmente duros no sul da Europa. No caso do Estado espanhol, a implosão de uma bolha imobiliária, de uma crise bancária e do aumento vertiginoso do desemprego e da precariedade (principalmente juvenil) produziu uma forte crise social e política. É diante desse contexto que emerge, em maio de 2011, o Movimento 15-M, que atua como detonante de um ciclo de protestos de alta intensidade, iniciado em Madri e difundido rapidamente para outros lugares (CALLE COLLADO, 2013CALLE COLLADO, A. La transición inaplazable. Salir de la crisis desde los nuevos sujetos políticos. Barcelona: Icaria, 2013.). Os coletivos iniciadores (como Juventud Sin Futuro, a plataforma Democracia Real Ya e “Plataforma de los Afectados por las Hipotecas) também vão sendo, progressivamente, transbordados por uma ampliação das mobilizações a setores amplos e heterogêneos da sociedade, incluindo muitos indivíduos que se mobilizavam pela primeira vez (NIN; SHMITE, 2015NIN, M. C.; SHMITE, S. M. Manifestaciones sociales en ciudades españolas. El 15M y la resignificación del paisaje urbano. Geograficando, v. 11, n. 2, 2015.). Se, em Madri, o principal lugar ocupado pelos ativistas foi a Puerta del Sol, em Barcelona, o epicentro da convergência pública foi a ocupação por 45 dias da Plaça Catalunya. A saída da praça, com suas comissões, debates e demandas, não significou o fim do movimento, mas sua ida aos bairros e aos territórios. Diversos coletivos surgiram nesse processo, vinculados ao direito à moradia, à educação e à saúde pública, ao meio ambiente e a causas mais específicas.

Desse modo, emerge, nesse contexto, uma nova “geopolítica da indignação global” (BRINGEL, 2017BRINGEL, B. Movimientos sociales y la nueva geopolítica de la indignación global. In: BRINGEL, B.; PLEYERS, G. (eds.), Protesta e indignación global: Los movimientos sociales en el nuevo orden mundial. Buenos Aires: CLACSO, 2017, p. 23-30.), marcada por um ciclo que se expande globalmente (com a Primavera Árabe, no norte da África, a Geração à Rasca, em Portugal, o 15-M, no Estado espanhol, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, a revolta da praça Taksim, na Turquia, as Jornadas de Junho, no Brasil, entre outros), mas cujos protestos se dirigem muito menos aos símbolos globais e mais aos governos nacionais, em geral com interpelações às consequências diretas da crise nos respectivos países (BRINGEL; PLEYERS, 2015BRINGEL, B.; PLEYERS, P. Junho de 2013... dois anos depois: Polarização, impactos e reconfiguração do ativismo no Brasil. Nueva Sociedad, v. 259, p. 4-17, 2015.; GERBAUDO, 2012GERBAUDO, P. Tweets and the streets. London: Pluto Press, 2012.; GLASIUS; PLEYERS, 2013GLASIUS, M.; PLEYERS, G. The global moment of 2011: Democracy, social justice and dignity. Development and change, v. 3, n. 44, p. 547-567, 2013.).

No bojo desse processo, reconfiguram-se as solidariedades transnacionais e, concretamente, também a solidariedade ao México. Essa onda de solidariedade indignada é caracterizada por um descentramento maior da solidariedade internacionalista, mobilizada de maneira viral. Trata-se de um processo que desafia os movimentos sociais preexistentes e ocorre com certa independência do zapatismo, ainda que sem romper totalmente com sua influência. Além da Campaña por la Paz, Justicia y Dignidad (2011)LÓPEZ, R. A. Cometer fraude electoral en 2006, principal acuerdo entre Calderón y Gordillo: AMLO. La Jornada, Ciudad de México, 8 jul. 2011. Disponível em: https://www.jornada.com.mx/2011/07/08/politica/009n1pol. Acesso em: 7 mar. 2017.
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, convocada pelo poeta Javier Sicilia após o assassinato de seu filho, crime que acabou por visibilizar as várias redes e atores contra a violência de Estado e a Guerra às Drogas, também ganharam destaque nesse ciclo outros dois acontecimentos: o movimento universitário #Yosoy132 (2012) e as ações contra o desaparecimento de 43 estudantes de uma escola normal rural em Ayotzinapa (2014). O #Yosoy132 iniciou-se como uma revolta de estudantes graças à presença do então candidato à presidência Enrique Peña Nieto na Universidade Iberoamericana, mas tomou proporções maiores, em virtude de outros desconfortos políticos e sociais, como a concentração midiática. Já a campanha de Ayotzinapa ocorreu para pressionar o Estado mexicano quanto ao desaparecimento dos 43 estudantes. Os parentes e amigos dos desaparecidos viajaram por inúmeros países em caravana para denunciar a culpa do Estado no caso.

Diferentemente da solidariedade zapatista, a solidariedade que se globaliza nesse segundo momento é mais conjuntural e efêmera e utiliza outros formatos de comunicação interpessoal e coletiva. Responde a eventos ou mobilizações de maneira mais reativa, em vez de surgir a partir da afinidade com um projeto político (seja o projeto zapatista, seja algum outro). O impulso inicial é a indignação evocada por um acontecimento – habitualmente a repressão, a violência do Estado ou o assassinato de militantes –, sem que isso signifique, necessariamente, uma articulação direta com a causa ou com a população afetada por essas múltiplas formas de violência.

Mudanças nas Solidariedades Transnacionais: Comparando os Dois Ciclos

Se seguirmos analisando o ciclo da solidariedade zapatista em contraste com a solidariedade dos indignados mexicanos em perspectiva comparada, poderemos observar certas dinâmicas de reconfiguração do ativismo ao longo do tempo, bem como algumas das principais mudanças na forma de construção das solidariedades transnacionais. Delimitamos, para tal fim, cinco variáveis principais de observação: substrato da solidariedade; composição e estrutura das redes de solidariedade; repertórios de ação; formatos e estratégias comunicativas; e, finalmente, construção das escalas de articulação e conexão.

O primeiro elemento, substrato das solidariedades, inclui os temas centrais das ações e permite localizar o contexto social e geopolítico do qual deriva a geração de slogans e a construção de enquadramentos euro-latino-americanos de mobilização ou, mais especificamente, catalão-mexicanos. No primeiro caso, o pano de fundo central era a luta contra a globalização e pela humanidade, em um momento de hegemonia total do neoliberalismo. De fato, a irrupção do EZLN, em pleno dia 1o de janeiro de 1994, foi muito simbólica e, conforme já discutido, irradiou esperança para uma nova geração de ativistas. Em um momento de crise dos referenciais tradicionais da esquerda após a Guerra Fria, os ecos da autonomia territorial, do autogoverno, do contra-poder e de uma proposta de “mudar o mundo sem tomar o poder” contribuíram para revitalizar o autonomismo e a ideia de “outro mundo possível”, que convergiram com o movimento antiglobalização e o Fórum Social Mundial.

Em contraste com esse horizonte propositivo e de esperança da era zapatista, no ciclo da indignação, o que está em xeque é o sistema político como um todo, em um cenário de aprofundamento das desigualdades e da violência no México e no mundo. Nesse novo momento, as solidariedades transnacionais construídas com os territórios mexicanos motivaram-se menos pelo compartilhamento de concepções convergentes de mudança social e mais pela urgência de reagir diante de um cenário insuportável e inaceitável. “No más sangre”, slogan da Campaña por la Paz, Justicia y Dignidad, e “Fue el Estado”, de Ayotzinapa, são alguns dos principais lemas que remetem ao protagonismo de uma dimensão de denúncia e reação a um contexto de extrema violência.

Em termos de composição e estrutura das redes de solidariedade, a solidariedade se construía, na era zapatista, principalmente em uma relação direta com os territórios com diferentes níveis de engajamento e a mediação de atores (as próprias comunidades zapatistas, ONGs, organizações civis, movimentos populares, etc.) e dispositivos diversos (jornais, páginas web, rádios comunitárias e receptores/difusores de mensagens). Os comitês e coletivos de apoio à luta zapatista existentes em Barcelona, e em várias partes da Europa, conectavam-se com o movimento de maneiras diversas, mas sempre tentando construir uma relação direta e de encontros presenciais e interpessoais, por mais que existissem também outras formas mais gerais de mediação, como a página web Enlace Zapatista. Embora flexível e aberta, a rede zapatista tinha o neozapatismo como nódulo central e articulador. O envolvimento pessoal e a liberdade para apoiar o movimento individualmente existia, mas isso de dava a partir de uma relação com o movimento de base indígena.

Já na “era da indignação”, a solidariedade se produz, mormente, a partir de acontecimentos que impactam a sociedade ou de eventos que mobilizam tematicamente ou pontualmente indivíduos e coletivos. Muitas coletividades se formam temporariamente ao redor desses eventos, mas não existe um movimento ou uma luta concreta que sirva como ator ou espaço de agregação central. Embora existam coletivos, a solidariedade é forjada, majoritariamente, pela vinculação individual momentânea ou pontual em torno de uma causa. Uma repercussão disso tem a ver com a longevidade das bases de apoio. Por exemplo: o CSRZ, principal coletivo representativo do primeiro ciclo, em Barcelona, existiu durante quinze anos, enquanto boa parte dos coletivos que emergiram na era da indignação duram, muitas vezes, somente um ou dois anos. Com frequência, duram enquanto segue vigente a causa específica pela qual se articularam.

No tocante aos repertórios de ação, notam-se algumas continuidades. Em ambos os ciclos, as campanhas de pressão política às autoridades locais são uma constante. A manutenção de um mesmo repertório ao longo do tempo parece reforçar a hipótese de Tilly (1978)TILLY, C. From Mobilization to Revolution. Reading: Addison-Wesley, 1978. de que os repertórios mudam muito lentamente. No entanto, o uso de um mesmo repertório em diferentes lugares e momentos não significa que ele seja apropriado exatamente da mesma maneira (BRINGEL, 2012BRINGEL, B. Com, contra e para além de Charles Tilly: Mudanças teóricas no estudo das ações coletivas e dos movimentos sociais. Sociologia & Antropologia, v. 2, p. 43-67, 2012. https://doi.org/10.1590/2238-38752012v233
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). No caso das campanhas de pressão, há, por exemplo, um protagonismo maior do papel das mídias internacionais no ciclo recente, enquanto, no ciclo zapatista, havia maior rejeição às mídias convencionais e uma busca constante pela construção de contrainformação a partir de meios próprios. Na mesma linha de continuidades gerais, encontram-se os protestos descentralizados e os atos informativos, levados a cabo pelos coletivos locais com estratégias plurais, que variam de ações em frente às embaixadas do México aos concertos de música.

No entanto, várias inovações também podem ser identificadas. O primeiro ciclo esteve marcado por um teor mais radical de desobediência civil eletrônica na Internet e de comunicação alternativa, enquanto, no ciclo da indignação, percebe-se um uso massivo de mídias digitais corporativas, amplamente acessadas pela população não ativista, embora existam “bolhas” de recepção criadas pelos algoritmos dessas plataformas. Para além da solidariedade política, existia também uma importante solidariedade econômica e material, vinculada ao desenvolvimento de projetos produtivos nas comunidades indígenas, entre outros temas. Isso se mantem, muitas vezes, com campanhas digitais de arrecadação de fundos solidários pela Internet, mas sem o protagonismo da dimensão de engajamento pessoal e territorial, que envolvia, em geral, deslocamento físico e participação na construção dos processos de maneira mais permanente. Se esse envolvimento tête-à-tête permitia a construção de laços mais densos e pessoalizados, também restringia o foco às fronteiras do campo militante. Isso se abriu mais na solidariedade indignada, tendo em vista, por exemplo, as campanhas de pressão digital, com a utilização de hashtags para conseguir visibilidade.

Dessa maneira, os formatos e estratégias comunicativas das solidariedades transnacionais mudaram bastante entre esses dois momentos. No ciclo zapatista, as redes transnacionais se estruturaram com o apoio de páginas de Internet, listas de e-mail e plataformas de comunicação alternativas (como a RICA e o Indymedia). As dimensões relacional e presencial sempre foram centrais e isso pode ser exemplificado pelos “Encontros Intergalácticos”, pelas visitas de observação de direitos humanos a Chiapas e, inclusive, pelo encontro entre os coletivos que são parte das redes de solidariedade. Em contraste, as solidariedades transnacionais do ciclo da indignação operam, fundamentalmente, a partir a convocação de ações globais por redes socais digitais corporativas, como Facebook, Twitter, Youtube, e plataformas de conversação, como WhatsApp. Há menor contato presencial entre os coletivos de solidariedade, cujas ações se estendem por mais lugares, mas com menor duração no tempo. Uma hashtag ou um trending topic, muitas vezes, acaba se convertendo em um fim em si mesmo.

Isso nos leva, por fim, à construção das escalas de articulação e conexão. No primeiro caso, a solidariedade tem uma raiz territorial nas comunidades indígenas e se forja na vinculação dessas comunidades com as redes internacionais de apoio aos zapatistas, que, por sua vez, apropriam-se, adaptam e traduzem o zapatismo para suas próprias realidades locais. Essa retroalimentação é constante e faz com que a política de escalas seja profundamente relacional, articulando constantemente o local, o nacional, o regional e o global. Já na solidariedade indignada, há menor vinculação com as comunidades e os territórios do México. A produção de escalas está menos vinculada a uma “escala de ação” voltada para onde se atua e quem/como atua, mas, sobretudo, a uma escala de significação que tenta conectar, muitas vezes simbolicamente, as pessoas com outras realidades, a partir da produção de sentido sobre os processos de imbricação de escalas, lugares e realidades.

Considerações Finais: Uma Nova Era das Solidariedades Transnacionais

Diante da falta de resposta das autoridades mexicanas ao Massacre de Iguala, diversos coletivos se engajaram na organização da Caravana 43. Nos meses de abril e maio de 2015, um estudante sobrevivente ao massacre, o pai de um dos estudantes desaparecidos e um advogado local defensor de direitos humanos viajaram por treze países europeus, denunciando e visibilizando o acontecido em Ayotzinapa. Em cada localidade onde paravam, ocorreram encontros emotivos com grupos locais. Em sua passagem por Madri, um estudante normalista de Ayotzinapa, dizia:

Não viemos à grande Europa, “civilizada e com reis”, para dar pena. Não queremos uma solidariedade de vítimas. Não viemos pedir esmolas. Mas também não queremos transmitir que nossa luta é mais importante que a de vocês. Queremos formar parte de uma rede internacional entre iguais

(depoimento de Omar García, estudante normalista de Ayotzinapa. Madri, 7 de maio de 2015).

Em maio e junho do mesmo ano, outros familiares de desaparecidos e estudantes sobreviventes compuseram a Caravana Sudamericana, que transitou por Argentina, Uruguai e Brasil. Para além do ativismo on-line e de forma complementar a ele, as caravanas permitiram construir uma aproximação entre diferentes realidades baseadas no intercâmbio pessoal e de experiências. Nesse processo, a identificação de problemas convergentes – mas também de inimigos comuns – reativava um imaginário regional, latino-americano, quando ativistas do Rio de Janeiro, de Rosario ou de Guerrero percebem viver situações similares de violência do Estado.

Obviamente, o mero diagnóstico não é suficiente para forjar novas solidariedades transnacionais, mas pode indicar o início de uma articulação internacionalista. Em um dos trabalhos mais estimulantes sobre a dimensão geopolítica das solidariedades transnacionais, Featherstone (2012)FEATHERSTONE, D. Solidarity. Hidden histories and geographies of internationalism. London: Zed Books, 2012. argumenta que a construção dessas práticas envolve dois processos: conexão de imaginários políticos de diferentes partes do mundo e agregação de arranjos sociais e materiais. No primeiro caso, o autor se refere às conexões de sentidos, símbolos e discursos entre os atores sociais e políticos. Já no segundo, à parte mais visível da solidariedade, qual seja: a construção de esforços como viagens e encontros que viabilizam sua construção. Ambas as dimensões são forjadas a partir de contextos particulares, localizados, em dinâmicas de trocas translocais de afetos, ideias, políticas e materiais.

Neste artigo, sugerimos que vivenciamos, na última década, desde a crise financeira de 2008 e da emergência dos protestos da indignação, um deslocamento nas formas prévias de conectar os imaginários políticos e de agregar arranjos sociais e materiais. As resistências localizadas hoje não são necessariamente localistas, articulando a luta pelo território com ações, escalas e significados mais amplos (BRINGEL; CABEZAS, 2014BRINGEL, B.; CABEZAS, A. Geopolítica de los movimientos sociales latinoamericanos: Espacialidades, ciclos de contestación y horizontes de posibilidades. In: CORONADO, J. P. (org.), Anuario de Integración latinoamericana y caribeña. New Orleans/Guadalajara: University Press of the South/Ediciones la Noche, 2014, p. 323-342.; CONWAY, 2012CONWAY, J. Transnational feminisms building anti-globalization solidarities. Globalizations, v. 9, n. 3, p. 379-393, 2012. https://doi.org/10.1080/14747731.2012.680731
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; ROUTLEDGE, 2000ROUTLEDGE, P. ‘Our resistance will be as transnational as capital’: Convergence space and strategy in globalising resistance. GeoJournal, v. 52, p. 25-33, 2000. https://doi.org/10.1023/A:1013188131666
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). Entendendo a dimensão relacional dos lugares e o entrelaçamento das escalas, a análise realizada nos permitiu identificar trocas políticas intensas entre os ativistas de Barcelona e as lutas mexicanas. Se, por um lado, a própria cultura política recente de Barcelona não pode ser compreendida sem considerar as contribuições do zapatismo; por outro, a estrutura de solidariedade impulsionada pelo movimento chiapaneco não existiu sem contribuições profundas do CSRZ e de outros espaços ainda existentes.

As redes sociais digitais ganharam papel de destaque nesse processo. No entanto, tentar captar os deslocamentos atuais nas solidariedades transnacionais somente por meio de análise de redes sociais digitais, como muitas vezes se faz hoje, sem considerar como tais solidariedades são construídas no dia a dia dos atores, pode nos levar a gráficos bonitos, mas pouco explicativos do ativismo contemporâneo em si. O “ativismo digital” é parte importante das solidariedades transnacionais, mas não podemos nos restringir a essa dimensão. Alguns exemplos disso são que, por trás de algumas páginas de Facebook de coletivos de solidariedade ao México, existe uma só pessoa, o que jamais seria captado pelos softwares de análise de dados. Por outro lado, há uma serie de redes formais que conectam a Europa ao México, com recursos financeiros e páginas de Internet muito modernas, as quais, em termos práticos, possuem pouca adesão entre os ativistas, enquanto outras redes informais – mais invisíveis para um observador externo – são referências muito mais relevantes para conectar realidades transatlânticas.

Portanto, ainda que o contexto de digitalização da sociedade e o uso generalizado das redes sociais digitais no ativismo contemporâneo sejam cada vez mais importantes, continua sendo fundamental entender as solidariedades de maneira multissituada e a partir do contato direto com os militantes e os territórios. Em sintonia com tendências mais amplas do ativismo contemporâneo, observamos a multiplicação de uma série de coletividades menores, que passam a compor uma polifonia de mensagens onde antes haviam movimentos já descentrados, porém com maior capacidade de agregação (ARAUJO; MARTUCCELLI, 2012ARAUJO, K.; MARTUCCELLI, D. Desafios comunes. Santiago: LOM Ediciones, 2012.).

Isso não significa que o internacionalismo militante não seja mais relevante hoje, mas que adquiriu novas bases. Esse internacionalismo já não passa pelas “Internacionais” ou necessariamente por solidariedades entre projetos nacionais ou com um Estado, mas entre lutas e experiências concretas (ANGELIS, 2005ANGELIS, M. Globalização, novo internacionalismo e os zapatistas. Novos Rumos, v. 20, n. 44, p. 15–29, 2005.; SANTOS; COSTA, 2005SANTOS, B. S.; COSTA, H. A. Introdução: Para ampliar os cânones do internacionalismo operário. In: SANTOS, B. S. (org.). Trabalhar o mundo: Os caminhos do novo internacionalismo operário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.; VIEIRA, 2011VIEIRA, F. B. Dos proletários unidos à globalização da esperança. São Paulo: Alameda, 2011.). Nesse sentido, a pulverização de coletivos em solidariedade ao México, na atualidade, em consonância com outras experiências ativistas, vinculam diferentes realidades de forma mais efêmera.

Os novos sentidos dados aos intercâmbios entre diferentes lugares mudam, inclusive, a concepção do que entendemos como “global” hoje. No ciclo da solidariedade zapatista, o global aparecia como enquadramento dos inimigos políticos (empresas transnacionais, instituições multinacionais e vários símbolos do capitalismo), como escala dos protestos (ações contra esses mesmos símbolos em eventos com participação presencial de ativistas de dezenas de países) e como horizonte de mudança social (“outra globalização é necessária”). Já no ciclo da solidariedade indignada, o global tende a aparecer principalmente como abrangência geográfica (a partir de ações que acontecem simultaneamente em diferentes lugares) e como mecanismo de ressonância (os dispositivos que sintonizam simbolicamente as ações em diferentes lugares). Explorar esas inflexões, bem como as continuidades e mudanças, é fundamental para seguir alimentando uma leitura dinâmica dos movimentos sociais contemporâneos e suas articulações transnacionais.

Notas

  • 1
    Ada Colau, prefeita de Barcelona, eleita em 2015 pela plataforma Barcelona em Comú e reeleita em 2019, foi militante do Collectiu de Solidaritat amb la Rebellió Zapatista de Barcelona (CSRZ). Seu vice-prefeito, na primeira gestão, foi o argentino Gerardo Pisarello, oriundo dos movimentos de solidariedade internacionalista, principalmente com a América Latina, no âmbito de memória e ditadura. A despeito de todas as críticas iniciais do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZNL) à política institucional e às tensões inerentes às relações entre movimentos e governos, ao assumir a prefeitura, Ada Colau disse: “Estamos aqui para mandar obedecendo”, em alusão explícita a um dos mais conhecidos lemas dos neozapatistas, popularizado pelo então Subcomandante Marcos (atualmente Subcomandante Galeano).
  • 2
    Disponível em: http://www.europazapatista.org/. Acesso em: 9 dez. 2018.
  • 3
    Esta e todas as falas seguintes de ativistas entrevistados foram traduzidas pelos autores do espanhol ao português.
  • 4
    Movimento social presente em vários lugares do Estado espanhol na transição à democracia, vinculado à objeção de consciência contra o serviço militar obrigatório.
  • 5
    Can Batlló e Can Vies são ocupações que funcionam como centros culturais e sociais autogeridos em Barcelona.
  • 6
    A Otra Campaña foi lançada no inicio de janeiro de 2006, de forma paralela ao começo oficial da pré-campanha dos candidatos à Presidência da República do México. Em um contexto de grande desprestigio dos partidos políticos, buscava a articulação do EZLN com outros coletivos e lutas, com o objetivo de expandir e fortalecer o zapatismo civil nacionalmente. A Otra Campaña organizou reuniões e diálogos com grupos diversos, além de caravanas no México e ações de solidariedade do movimento com outras lutas, como as de Atenco e a luta dos professores de Oaxaca. Ao mesmo tempo, condenava o regime político como um todo e advogava pela abstenção eleitoral, inclusive com tensões e ataques ao candidato progressista naquele momento, o atual presidente Andrés Manuel López Obrador. O balanço da Otra Campaña dividiu a esquerda mexicana, tendo em vista as diferenças de estratégia e o apertado resultado das eleições de julho de 2006, nas quais Obrador perdeu por somente 0,56% de diferença e com indícios de fraude (LÓPEZ, 2011LÓPEZ, R. A. Cometer fraude electoral en 2006, principal acuerdo entre Calderón y Gordillo: AMLO. La Jornada, Ciudad de México, 8 jul. 2011. Disponível em: https://www.jornada.com.mx/2011/07/08/politica/009n1pol. Acesso em: 7 mar. 2017.
    https://www.jornada.com.mx/2011/07/08/po...
    ; MODONESI, 2016MODONESI, M. La propuesta electoral del EZLN: Interrogantes y dilemas. Revista Nueva Sociedad, nov. 2016. Disponível em: https://nuso.org/articulo/la-propuesta-electoral-del-ezln-interrogantes-y-dilemas/. Acesso em: 7 mar. 2017.
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    ).

  • Este artigo resulta da tese de doutorado Indignad@s do mundo, uni-vos!: Provas ativistas e os desafios da solidariedade internacionalista com o México na era da individualização (IESP-Uerj, 2018, apoio do CNPq) e do trabalho de campo na Catalunha (FAPERJ -E-26/201.939/2016) de Lívia Alcântara. Também deriva dos projetos: Movimentos Sociais, Campos de Ação Política e a Geopolítica das Ações Coletivas Contemporâneas (CNPq - 312519/2019-2); Movimentos Sociais e o Confronto Político Contemporâneo (Faperj E-26/203.190/2017) e Memórias Brasileiras/Conflitos Sociais, Transformações do Ativismo Contemporâneo (CAPES - 88881.130844/2016-01) de Breno Bringel.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jul 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    21 Nov 2019
  • Aceito
    12 Maio 2020
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