Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil

Representing and intervening in public health: viruses, mosquitoes and Rockefeller Foundation experts in Brazil

Resumos

As tentativas feitas pelos especialistas da Fundação Rockefeller de erradicar a febre amarela no Brasil foram prejudicadas pela baixa visibilidade desta patologia. Os casos eram, em sua maioria, atípicos e se confundiam facilmente com outras febres. Na década de 1920, os especialistas dependiam de observações clínicas para avaliar a incidência da febre amarela. Na década seguinte, porém, conceberam métodos indiretos para visualizar a presença de seu agente. A viscerotomia revelava a presença de casos agudos e o teste de proteção em camundongos, contatos passados com o vírus da doença. Conjuntamente, estes testes permitiram aos especialistas da Rockefeller confeccionar mapas indicando a presença de zonas de endemicidade da doença. Puderam, então, direcionar campanhas específicas contra a febre amarela baseadas na eliminação seletiva de seu vetor, o mosquito Aedes aegypti. Na saúde pública, tal como nas ciências, as práticas de representação modelam a intervenção.

febre amarela; Fundação Rockefeller; saúde pública


The attempts by experts from the of the Rockefeller Foundation (RF) to eliminate yellow fever in Brazil were hampered by the pathology’s low visibility. Most cases of yellow fever were atypical and easily confused with other fevers. In the 1920s, the RF experts who tried to assess the presence of yellow fever relied mainly on clinical observations. In the 1930s, however, they devised indirect methods of visualizing the presence of the disease agent. Visceroctomy revealed the presence of acute cases of the disease. Mouse protection tests revealed past contacts with the agent. Taken together, these tests enabled the RF specialists to construct maps which indicated zones where the disease was endemic and to target specific anti-yellow fever campaigns based on selective elimination of the yellow fever vector, that is, the mosquito Aedes aegypti. In public health, like in the sciences, representation practices shape intervention.

yellow fever; Rockefeller Foundation; public health


Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil

Representing and intervening in public health: viruses, mosquitoes and Rockefeller Foundation experts in Brazil

Ilana Löwy

Diretora de pesquisa da unidade 158 do Institute Supérieur d’ Études et Recherches Médicales (INSERM).

Tradução: Jaime Benchimol

LÖWY, I.: ‘Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(3): 647-77, nov. 1998-fev. 1999.

As tentativas feitas pelos especialistas da Fundação Rockefeller de erradicar a febre amarela no Brasil foram prejudicadas pela baixa visibilidade desta patologia. Os casos eram, em sua maioria, atípicos e se confundiam facilmente com outras febres. Na década de 1920, os especialistas dependiam de observações clínicas para avaliar a incidência da febre amarela. Na década seguinte, porém, conceberam métodos indiretos para visualizar a presença de seu agente. A viscerotomia revelava a presença de casos agudos e o teste de proteção em camundongos, contatos passados com o vírus da doença. Conjuntamente, estes testes permitiram aos especialistas da Rockefeller confeccionar mapas indicando a presença de zonas de endemicidade da doença. Puderam, então, direcionar campanhas específicas contra a febre amarela baseadas na eliminação seletiva de seu vetor, o mosquito Aedes aegypti. Na saúde pública, tal como nas ciências, as práticas de representação modelam a intervenção.

PALAVRAS-CHAVE: febre amarela, Fundação Rockefeller, saúde pública.

LÖWY, I.: ‘Representing and intervening in public health: viruses, mosquitoes and Rockefeller Foundation experts in Brazil’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(3): 647-77, Nov. 1998-Feb. 1999.

The attempts by experts from the of the Rockefeller Foundation (RF) to eliminate yellow fever in Brazil were hampered by the pathology’s low visibility. Most cases of yellow fever were atypical and easily confused with other fevers. In the 1920s, the RF experts who tried to assess the presence of yellow fever relied mainly on clinical observations. In the 1930s, however, they devised indirect methods of visualizing the presence of the disease agent. Visceroctomy revealed the presence of acute cases of the disease. Mouse protection tests revealed past contacts with the agent. Taken together, these tests enabled the RF specialists to construct maps which indicated zones where the disease was endemic and to target specific anti-yellow fever campaigns based on selective elimination of the yellow fever vector, that is, the mosquito Aedes aegypti. In public health, like in the sciences, representation practices shape intervention.

KEYWORDS: yellow fever, Rockefeller Foundation, public health.

Com relação a muitíssimas doenças comunicáveis e a bom número de outras desordens, um largo fosso separa o estabelecimento de princípios básicos para o controle e a efetiva aplicação de medidas eficazes de controle. Trata-se de um tipo de fosso que não é possível transpor pela extensão dos estudos experimentais. Só pode ser transposto por meio de estudos de campo bastante intensivos.

W. H. Frost1 1 W. H. Frost, da Johns Hopkins School of Public Health; memorando enviado em 19 de junho de 1929 a Frederick F. Russel (diretor da Divisão Sanitária Internacional da Fundação Rockefeller, 1923-35). Rockefeller Archive Center (RAC), Record Group (RG) 1.1., série 908, caixa 11, pasta 124.

"Perdemos ou ganhamos no campo."

Fred L. Soper 2 2 Fred Lowe Soper, diretor do programa desenvolvido pela Rockefeller no Brasil, 1930-42 (entrevista a Lewis Hackett), 14 de outubro de 1963. RAC, RG 3.1, série 908, caixa 7H, pasta 86.102, p. 10. Hackett planejava escrever a história da Junta, depois Divisão Sanitária Internacional, de que foi um dos fundadores; na década de 1950 e no começo da década seguinte fez entrevistas e manteve correspondência com vários integrantes da agência internacional. Morreu antes de concluir o projeto.

Com freqüência, foram cientistas de países desenvolvidos que viajavam para os trópicos os autores das tentativas de se eliminar as doenças tropicais, importantes obstáculos à colonização, imigração, exploração de recursos locais e comércio internacional. Moldavam suas ações de acordo com a maneira como compreendiam as patologias tropicais e o ambiente em que apareciam. Seus estudos de campo, focalizando muitas vezes os meios de propagação dessas patologias, resultaram em descrições da doença tropical em seu ‘contexto’ que nortearam campanhas sanitárias contra elas. No final do século XIX e começo do XX, os especialistas verificaram que muitas doenças tropicais possuíam hospedeiros intermediários, em geral insetos sugadores de sangue. Os estudos epidemiológicos foram, então, ampliados, de modo a abarcar a ecologia e o ciclo de vida desses vetores invertebrados de doenças, o ambiente natural em que viviam e suas interações com os humanos. Uma abordagem holística da epidemiologia das doenças tropicais procurou compreender todo o ecossistema em que a doença ocorria, e se mostrou interessada nas multidimensionais interações entre humanos, patógenos e insetos. Em contraste, uma abordagem reducionista encarava o ambiente principalmente como suporte para a multiplicação de causas necessárias de doença, isto é, microrganismos e seus hospedeiros invertebrados. A campanha da Fundação Rockefeller contra a febre amarela no Brasil (1923-40) é um exemplo desta última abordagem, que não negava que as doenças tropicais fossem complexos fenômenos multifatoriais, mas dissociava a complexidade do objetivo prático de se lutar contra a doença. A eliminação de determinada patologia — sustentavam os especialistas da Fundação Rockefeller — dependia unicamente da eficiente interrupção de sua cadeia de transmissão. Os estudos de campo foram, assim, direcionados para a descoberta dos elos mais fracos desta cadeia — eram com freqüência vetores invertebrados — e, em seguida, para os meios de rompê-la — muitas vezes seria através da eliminação desses vetores.

Iniciativa filantrópica pioneira em saúde pública, a intervenção da Fundação Rockefeller na América Latina começou em 1913, quando ela criou a International Health Commission — Comissão, depois chamada Junta e, em seguida, Divisão Sanitária Internacional — com a finalidade de estender às regiões Central e Sul do continente a campanha contra a ancilostomíase que a Comissão Sanitária da Rockefeller conduzia nos Estados Unidos. A meta prioritária de seus especialistas na América Latina era eliminar o ancilóstomo. Julgou-se que uma campanha contra a doença causada por ele seria uma maneira particularmente eficaz de se promover medidas sanitárias em áreas rurais. Contudo, os especialistas da Rockefeller logo perceberam que a erradicação do ancilóstomo na América Latina era uma meta ilusória. Métodos que funcionavam nos Estados Unidos não podiam ser transferidos facilmente para regiões subdesenvolvidas. Na década de 1920, a Fundação Rockefeller ampliou suas atividades nesta parte do continente, passando a combater outras doenças, entre elas a febre amarela. Este era um alvo particularmente importante para a organização norte-americana. A presença endêmica da doença na América do Sul e Central prejudicava o comércio e as viagens internacionais, ao passo que sua persistência no hemisfério ocidental constituía permanente ameaça ao Sul dos Estados Unidos, que, no século XIX, sofrera com as epidemias de febre amarela.3 3 Estudos detalhados sobre a intervenção da Rockefeller na América Latina constam em Cueto (1994). Ver especialmente a introdução, pp. ix-xx. Além disso, acreditava-se que a doença se prestava à ‘demonstração’ da superioridade como os norte-americanos abordavam a saúde pública, por ser fácil eliminá-la através de métodos universalmente válidos e cientificamente fundamentados.4 4 A descrição do modo de transmissão da febre amarela pelo Aedes aegypti (à época denominado Stegomyia fasciata) e o desenvolvimento de métodos para eliminar a doença através do combate ao mosquito tinham relação com os empreendimentos políticos e militares dos Estados Unidos na América Latina: a expedição militar a Cuba em 1898-1900 e, em seguida, a construção do canal do Panamá (Ver Warren, 1951). Sobre as origens da teoria do mosquito, ver Stepan (1978); Delaporte (1992). Ademais, o Brasil era considerado como lugar adequado para essa demonstração, já que os esforços feitos pelos nativos para eliminar a febre amarela não tinham sido bem-sucedidos. Neste país, o papel dos mosquitos na transmissão da febre amarela foi estudado primeiro por cientistas da Fundação Rockefeller que integraram uma missão do Instituto Pasteur (1910-1905), e uma primeira campanha pública contra a doença foi deslanchada no Rio de Janeiro (1902-07) por Oswaldo Cruz, um médico brasileiro treinado pelos franceses (Löwy, 1990). Personagem influente na saúde pública brasileira, Oswaldo Cruz criou, então, o Serviço de Febre Amarela vinculado à Diretoria Geral de Saúde Pública. A função desse serviço era detectar casos de febre amarela e eliminar os mosquitos Aedes aegypti. A partir de 1905 nenhuma epidemia importante ocorreu, mas, a despeito das atividades do Serviço de Febre Amarela, a doença permaneceu endêmica no Norte e Nordeste do Brasil. Sua persistência foi o principal argumento usado pelos especialistas da Fundação Rockefeler para convencer a delegar-lhe a responsabilidade exclusiva pela campanha contra a febre amarela naquelas partes do país.

Em 1923, um acordo entre o governo brasileiro e a Junta Sanitária Internacional (International Health Board) deu à Fundação Rockefellercontrole e total responsabilidade financeira pela luta contra a febre amarela no Norte do Brasil. Campanhas similares foram conduzidas em outros países latino-americanos — Equador, Guatemala, Peru, México —, mas a campanha brasileira foi a mais longa e a mais intensiva. Seu objetivo era erradicar completamente a febre amarela no país. O Serviço da Febre Amarela brasileiro era diferente. Tratava de prevenir epidemias em áreas densamente povoadas e de limitar a visibilidade da patologia, entre outras razões por ela reforçar a imagem de atraso do país e dificultar o comércio e as viagens internacionais. Os brasileiros não acreditavam, contudo, que ela pudesse ser eliminada completamente em áreas endêmicas do interior. Estavam dispostos a tolerar casos esporádicos de febre amarela, desde que não representassem ameaça à saúde pública. Os especialistas da Fundação Rockefeller queriam, ao contrário, transformar rapidamente o Brasil numa área livre de febre amarela. Estavam conscientes do fato de que doenças como a tuberculose, febre tifóide ou gastrenterite ocasionavam muito mais vítimas (Adamo, 1986), mas eram percebidas como doenças diretamente ligadas às condições de vida das populações, o que as tornava inadequadas para ações com fins exemplares. Acreditavam, em contrapartida, que a febre amarela podia ser eliminada erradicando-se o vetor específico, um empreendimento que não requeria mudanças sociais significativas.

Uma das principais dificuldades da campanha concebida pela Fundação Rockefeller era a baixa visibilidade de seus alvos: o agente da febre amarela (de 1929 em diante, o vírus) e o mosquito Aedes aegypti.5 5 Até o fim da década de 1920, não havia consenso a respeito da natureza do agente causal da febre amarela. Enquanto a maioria dos especialistas acreditava que a doença era provocada por um vírus, um bacteriologista do Instituto Rockefeller, Hideyo Noguchi, afirmava que era causada por uma bactéria, Spirocheta icteroides (Ver Nogueira et alii., 1924). A teoria de Noguchi foi invalidada em 1928 por pesquisadores da Fundação Rockefeller que trabalhavam na África (Ver Stokes et alii., 1928). O agente só era visível em casos típicos. Ora, excetuando-se a epidemia de 1928-29 no Rio de Janeiro, estes foram relativamente raros nas décadas de 1920 e 1930. Os Aedes aegypti adultos eram invisíveis, sobretudo nos derradeiros estágios de uma campanha anticulicideana, quando os mosquitos adultos se tornavam muito raros para serem notados, ao passo que os locais de reprodução de suas larvas — o principal alvo de uma campanha de erradicação — eram difíceis de rastrear. A visualização tanto dos vírus como dos mosquitos era precondição de uma campanha bem-sucedida. Na década de 1920, para atestar a presença do vírus da febre amarela, os especialistas da Fundação Rockefeller baseavam-se exclusivamente em observações clínicas. Estas eram feitas por médicos locais e, ocasionalmente, confirmadas por funcionários da instituição norte-americana. Por volta de 1930, seus especialistas concluíram que a observação direta do doente resultava em ampla subestimação do número de casos de febre amarela. Introduziram, então, dois métodos laboratoriais para constatar a presença do vírus: a viscerotomia, coleta sistemática de amostras de tecido do fígado de cadáver que revelava a existência de casos atípicos e fatais de febre amarela, e a ‘prova de proteção’ em camundongos, que detectava anticorpos ao vírus da febre amarela, revelando, assim, casos passados não fatais. As observações concernentes à presença do vírus eram complementadas por dados sobre a presença de mosquitos Aedes aegypti. O Serviço de Febre Amarela desenvolveu estruturas específicas, turmas para a captura de mosquitos adultos e turmas para a localização de focos ocultos, adestradas na descoberta de mosquitos raros, logo invisíveis, e suas larvas. Os especialistas da Fundação Rockefeller transformavam os dados sobre a presença de vírus e mosquitos em diretrizes para a ação sanitária. Em campanhas contra a febre amarela, também, representação e intervenção estavam entrelaçadas, como diz o filósofo da ciência Ian Hacking (1983).

Este estudo examina o papel que os métodos de visualização desempenharam na saúde pública. Embora a intervenção da Fundação Rockefeller no Brasil tenha sido analisada por diversos estudos bem detalhados e documentados, eles focalizaram principalmente as interações em múltiplos níveis entre especialistas norte-americanos e brasileiros, os administradores da saúde e os políticos médicos. Não estudaram o papel específico que a visualização dos agentes e vetores de doenças transmissíveis teve na modelagem de políticas de saúde pública.6 6 Sobre as atividades da Fundação Rockefeller no Brasil; ver Labra (1985); Castro Santos (1989); Williams (1994); Faria (1995); Gadelha (no prelo). Analisei outros aspectos dos esforços envidados pela Rockefeller para controlar a febre amarela no Brasil (Löwy, 1997a; 1997b). Os mapas desempenharam papel central ao traduzir em políticas as observações e os dados brutos coletados em campo. Foram importantes mediadores na articulação das descrições com as ações sanitárias, fosse qual fosse sua escala: desde desenhos indicando a difusão de uma epidemia em dada localidade, passando por mapas detalhados de sítios de intervenção do Serviço de Febre Amarela, para orientar os esforços de erradicação dos mosquitos, até mapas em grande escala que indicavam os contornos das áreas livres do Aedes aegypti. O desfecho da "guerra contra os mosquitos Aedes aegypti", movida pela Fundação Rockefeller, tal como numa guerra convencional, dependia da confiabilidade das informações sobre os movimentos do adversário e da precisão dos mapas usados para planejar operações e acompanhar seus resultados.

Os especialistas da Fundação Rockefeller que trabalharam no Brasil deixaram atrás de si um espesso rastro de papel. Os funcionários da instituição escreveram uma quantidade impressionante de cartas — às vezes, enviavam diversas cartas em um único dia para uma única pessoa — e redigiram relatórios semanais, mensais, trimestrais e anuais sobre o progresso de seu trabalho. Produziram também, sistematicamente, relatos detalhados de suas viagens. Além disso, na década de 1930, todos os funcionários da Rockefeller no Brasil mantiveram diários pormenorizados. Uma cópia era enviada ao chefe do escritório brasileiro, outra ia para o quartel-general em Nova York. Estes documentos, em particular os relatos de viagens e os diários, mostram como os especialistas da Fundação Rockefeller viam o Brasil. Estes cidadãos norte-americanos, brancos, do sexo masculino, protestantes, a maioria doutores em medicina, alguns emzoologia e entomologia enxergavam o país através de uma única lente: a da luta contra o vírus da febre amarela e o Aedes aegypti.

A era otimista: a teoria do ‘foco-chave’ e a campanha da Fundação Rockefeller contra a febre amarela (1923-28)

O acordo de 1923 entre a Junta Sanitária Internacional (passou a chamar-se Divisão Sanitária Internacional após a reorganização da Fundação Rockefeller, em 1928) e o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) deu à organização norte-americana a responsabilidade pela eliminação do Aedes aegypti nas cidades litorâneas do Norte do Brasil. Formalmente, era responsabilidade conjunta da Fundação Rockefeller e do DNSP, cabendo a supervisão dos trabalhos a uma Comissão da Febre Amarela composta por dois representantes da primeira e dois do DNSP, e chefiada por um membro deste.7 7 O acordo com a Fundação Rockefeller foi oficializado através do decreto n o 16.000 em 31 de dezembro de 1923. Na prática, porém, a Fundação Rockefeller controlava todas as operações de erradicação, o que às vezes ocasionava conflitos com os funcionários brasileiros.8 8 Um exemplo: em 1923, demitiu-se o diretor do Serviço de Profilaxia Rural na Bahia, órgão vinculado ao Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), que cuidava das medidas sanitárias nas zonas rurais. Tomou a decisão em protesto contra a transformação de seu cargo num posto meramente decorativo, em virtude da intervenção da Rockefeller (Brett, s. d.). A eliminação dos mosquitos, ou melhor, das larvas do Aedes aegypti, era encarada como tarefa factível já que eles se reproduzem exclusivamente em lugares bem próximos das habitações humanas. Além disso, os especialistas da Rockefeller julgavam que não era necessário eliminar o Aedes aegypti em todo o Brasil. A campanha contra a febre amarela era guiada pela teoria do ‘foco-chave’, segundo a qual uma elevada densidade de mosquitos só era perigosa nas cidades, que constituíam o reservatório permanente do vírus da doença.9 9 Carta do dr. Henry Carter ao dr. Joseph White, em 14 de fevereiro de 1923. RAC, RG 5, série 1, caixa 73, pasta 1035. Conhecido especialista em febre amarela, o norte-americano Henry Carter foi o primeiro a propor a teoria do foco-chave (Carter, 1931, pp. 18-23). Quando a densidade de Aedes aegypti nas cidades maiores atingisse um nível capaz de impossibilitar a transmissão da febre amarela (considerava-se que isso acontecia quando se obtinha índice abaixo de cinco, isto é, as larvas do Aedes aegypti eram encontradas em, no máximo, 5% das casas visitadas), o vírus desapareceria nessas cidade e a febre amarela se extinguiria espontaneamente nas áreas menos povoadas e no interior do Brasil. Este último ponto era importante porque os especialistas da Rockefeller acreditavam que não era possível realizar trabalhos sanitários no interior devido à pobreza, à ignorância e ao estado lastimoso de seus habitantes. O meio que consideravam mais eficaz para impedir a reprodução das larvas nas cidades consistia na substituição dos reservatórios de água existentes em cada casa por uma canalização unificada. Esta solução, que combinava a eliminação científica do ‘flagelo dos trópicos’ com o assentamento de instalações hidráulicas modernas, adequava-se muito bem ao objetivo da Fundação Rockefeller, de lutar contra a doença e o atraso, tornando ‘eles’— os nativos sujos e subdesenvolvidos — mais parecidos ‘conosco’, os limpos e eficientes norte-americanos. Este desejo de ‘civilizar’ os brasileiros não deve ser entendido como mera expressão de uma ideologia racista ou imperialista. Os funcionários daRockefeller realmente tentaram promover interesses específicos de firmas americanas de construção, assegurando-lhes contratos em projetos de saneamento urbano, mas, ao mesmo tempo, estavam sinceramente convencidos de que os brasileiros se beneficiariam com a modernização de suas cidades (Williams, 1994, pp. 35-6). Com freqüência, comparavam o Brasil ao Sul dos Estados Unidos, que já fora uma região desesperadoramente atrasada, infestada de febre amarela, mas que, aos poucos, se tornara mais parecida com o Norte industrializado.10 10 Wickliffe Rose (primeiro diretor da Junta Sanitária Internacional, 1916-23), notas de uma viagem ao Brasil, 25 de outubro de 1925. RAC, RG 5, série 2, caixa 25, pasta 123. Contudo, a modernização do sistema de abastecimento de água não se mostrou factível na maioria das cidades costeiras do Brasil. A principal atividade desenvolvida pelos especialistas da Rockefeller foi a implementação de simples métodos antilarvários, tais como a eliminação de recipientes com água abertos, a petrolização de pequenos reservatórios de água que não pudessem ser esvaziados ou cobertos e, nos maiores, a colocação de peixes que se alimentavam de larvas. Os especialistas da Rockefeller supunham que estas medidas seriam suficientes para reduzir a densidade de Aedes aegypti a um ponto que assegurasse a erradicação da febre amarela no Brasil.

A teoria do foco-chave e suas conseqüências, sobretudo a ênfase na ‘limpeza’ e modernização das cidades, condicionavam a percepção que os funcionários da Rockefeller tinham do interior do Brasil. Esta hinterlândia era descrita quase sempre como desolada e miserável, tendo-se vislumbres ocasionais de paraíso terreno e das potencialidades da terra. Contudo, a irremediável situação do interior não importava muito para o futuro da campanha contra a febre amarela, pois se esperava que a salvação viesse exclusivamente das atividades antilarvárias realizadas nas cidades. Os especialistas da Rockefeller só visitavam aglomerações cujo tamanho eles acreditavam ser suficiente para garantir a sobrevivência do vírus. O único parâmetro que levavam em conta nas expedições ao campo era a presença do vírus, e a única maneira de se atestar a presença dele era encontrando-se vestígios de casos clínicos típicos de febre amarela ou, melhor ainda, observando-se esses casos diretamente. A doença era o alvo exclusivo de interesse dos especialistas da Rockefeller. Outras patologias constituíam mero pano de fundo e só eram mencionadas na medida em que precisassem ser diferenciadas da febre amarela. Por outro lado, numerosas observações ‘pitorescas’, refletindo as impressões gerais do autor figuravam ocasionalmente na descrição de um sítio que não fosse classificado como potencial foco-chave, alvo, portanto, da campanha sanitária, por não se constatar nele aquela combinação de elevada densidade de população com presença de mosquitos e persistência da febre amarela.

A expedição do dr. Lucian Smith, chefe do escritório da Fundação Rockefeller em Fortaleza, a Juazeiro do Norte, cidade cearense onde se cultuava o padre Cícero, famoso ‘santo’ local, tinha umúnico objetivo: verificar se a mortalidade infantil, extremamente elevada, estava relacionada com a febre amarela. Com a ajuda de médicos locais, Smith (1927) examinou os prontuários relativos a 23 crianças recém-falecidas, e atribuiu todas as mortes à gastrenterite. Observou que, "embora Juazeiro tenha um Posto de Profilaxia Rural chefiado por um funcionário médico, e embora existam agora dois médicos exercendo a clínica privada na cidade, apenas algumas das gastrenterites em crianças recebem mínima atenção médica. ... A cidade não possui hospital nem dispensário público nem tampouco uma clínica onde tais doenças da infância possam ser diagnosticadas e tratadas." O dr. Smith explicou que os médicos locais atribuíam a alta incidência de mortalidade por gastrenterite à "miséria e ignorância desesperadoras da população. As pessoas eram muito pobres para comprar remédios ou para consultar um médico, e muito ignorantes para saber como alimentar seus bebês." Contudo, fiel à ideologia da Fundação Rockefeller, que atribuía a causa da pobreza à saúde precária (e não o contrário), o dr. Smith encarava a miséria reinante em Juazeiro como conseqüência da hereditariedade mórbida de seus habitantes:

A história mostra que Juazeiro é território livre onde se refugiam os fugitivos da justiça de todas as partes do Nordeste. ... A fama do padre de curandeiro miraculoso espalhou-se por todos os quadrantes. Os aleijados, os coxos, os cegos rumavam em bandos para ele, como se fosse um santuário. Alguns retornavam a seus lares, se tivessem um, mas muitos permaneciam na cidade, contribuindo com sua quota de ignorância, criminalidade e fanatismo, pobreza, doença e depauperação física e moral generalizada para a constituição social e econômica de Juazeiro no período de sua formação. Eles, os seus filhos e netos e outros da mesma laia compuseram a comunidade social hoje existente em Juazeiro. Não surpreende que o tipo de cidadão numericamente predominante no lugar exiba deficiências mentais tão marcadas, tamanho insucesso na adaptação ao ambiente, tão notáveis estigmas de degeneração física, resistência tão diminuída e tal suscetibilidade a doenças. O processo de eliminação em curso lá é, a um só tempo, o remédio e a punição da natureza para a assustadora aberração. Pensando nessa combinação de elementos hereditários de degeneração e doença, creio que seria difícil duplicar Juazeiro em qualquer outro lugar da terra.

A campanha da Fundação Rockefeller produziu resultados rápidos. Em 1925, o número de casos de febre amarela diminuiu consideravelmente. No ano seguinte, os deslocamentos de tropas não imunizadas disseminou a doença pelo Nordeste do Brasil, mas este surto foi controlado em 1927 (Franco, 1969). Em 1928, os especialistas da Rockefeller estavam convencidos de que a campanha fora bem-sucedida. Nenhum caso novo havia sido notificado noNorte. Os norte-americanos estavam prontos a declarar, publicamente, que a febre amarela fora erradicada do Brasil. Na primavera de 1928, o dr. Michael Connor, chefe do escritório brasileiro, embarcou num navio no rio São Francisco com a intenção de conferir, pessoalmente, o progresso do trabalho antilarvário. Seu diário fornece vívidas descrições dos lugares visitados às margens daquele rio e dos aspectos mais pitorescos da viagem pelo vapor. O interesse profissional do dr. Connor (1928) limitava-se, contudo, ao rastreamento de casos supeitos de febre amarela e à observação da presença de Aedes aegypti. Para localizar casos da doença, dependia dos testemunhos de médicos locais, de pacientes e suas famílias. Vez por outra, ele próprio conseguia examinar um caso suspeito:

O dr. Araújo, afirma que o vômito preto (composto de sangue, era sinal típico de febre amarela) nunca apareceu em Casa Nova desde que está lá, e ele tem cerca de trinta anos e nasceu em Casa Nova. ... Aluguei um cavalo e contratei um guia para ir ao povoado vizinho, onde o hoteleiro disse que fora notificado um caso de vômito preto. Encontrei-o e verifiquei que se tratava claramente de infecção de malária terçã. O paciente tinha vomitado quantidade considerável de bile, que examinei espalhando-a sobre uma lâmina sem encontrar o matiz vermelho, só o verde. ... O dr. Rodriguez veio a Barra outubro passado para dirigir operações contra a varíola, então prevalecente, e após concluir esta campanha foi nomeado chefe da Profilaxia Rural, que estava sendo inaugurada. Diz que nenhum caso de vômito preto chegou a seu conhecimento nesta área.

As descrições de Connor relativas aos lugares que visitou dão ênfase à possível presença de febre amarela e às condições que pudessem favorecer a reprodução do Aedes aegypti:

Pilão Arcado tem uma altitude de 349 metros acima do nível do mar. ... Ontem vistoriei cuidadosamente todos os depósitos de água, sem encontrar uma única larva, tampouco observei Aedes aegypti voando, nem reclamaram os passageiros de mosquitos que os molestassem durante as horas diurnas. Os Culex fatigans (outra variedade de mosquito) acham-se por toda parte. ... Gameleiro é uma povoação incorporada, constituída por cinqüenta casas de adobe um tanto ou quanto mal construídas. A principal indústria é a de venda de madeira para os vapores que passam. Pude inspecionar seis casas e não encontrei uma única larva. ... Cheguei a Manga, povoado de cerca de duzentos habitantes. Desembarquei aí duas caixas com carregamentos. Em cinco casas que visitei, selecionadas porque pareciam ser de melhor categoria, observei apenas pequenos depósitos para armazenar água e não encontrei larvas. Não há médicos e a botica está fechada há vários dias. As pessoas que vi nas casas e ruas apresentavam todos os sinais de malária e ancilostomíase; considero pois que estas são asprincipais doenças do lugar. ... Atraquei defronte a Januária às 6:30 p.m. ... Januária tem aproximadamente mil e quinhentos lares, sem incluir os barracos na orla da cidade; algumas de suas ruas são pavimentadas, e possui usina elétrica. ... Os mosquitos infestam todos os seus distritos. Vi anofelinos, culicídeos e Aedes aegypti muitas vezes na mesma casa. Pude inspecionar 42, em quatro distritos da cidade, e encontrei mosquitos reproduzindo-se em todos, e Aedes aegyti em 60%.

Outro alvo de interesse eram as vias de disseminação do vírus da febre amarela. Este podia viajar somente nos corpos dos hospedeiros humanos e dos insetos vetores. O dr. Connor tentou, então, esclarecer as origens da epidemia ocorrida entre soldados estacionados em Pirapora, em 1926:

Para alcançar Pirapora ... a infecção de febre amarela teria de ser transportada em vapores mais rápidos do que os atuais, que há anos estão em serviço no rio. ... É possível que a infecção tivesse sido mantida viva entre os passageiros que faziam a viagem, especialmente se os passageiros eram soldados que iam para Pirapora. A outra maneira pela qual a infecção pode ter alcançado Pirapora, indiscutivelmente a mais provável, é por viajantes que a transportam de cidade em cidade ao longo do rio, até finalmente a doença alcançar Pirapora. Peryassu afirma que a primeira inspeção que fez nos vapores que singram o rio revelou Aedes aegypti reproduzindo-se a bordo. Ainda não encontrei larvas de qualquer espécie neste vapor.

O dr. Connor chegou, então, à conclusão de que "nenhum dos lugares visitados possui suficiente população, e a imigração não seria um fator importante para a manutenção da infecção caso se instalasse a doença". Em resumo, a febre amarela desapareceria espontaneamente das cidades mencionadas em virtude do deperecimento do ‘custo humano’. Esta declaração otimista, que refletia a firme crença na eficácia científica da campanha da Fundação Rockefeller contra a febre amarela parecia, a princípio, justificada. Em 1927, durante 11 meses, nenhum caso confirmado foi encontrado no Brasil. A Fundação Rockefeller fechou 61 postos de erradicação de mosquitos, deixando apenas quatro em funcionamento.11 11 Relatório da Junta Sanitária Internacional sobre as suas atividades no Brasil, segundo semestre de 1927, RAC. Contudo, na primavera de 1928, foi diagnosticado um caso de febre amarela em Sergipe a partir de observações patológicas post-mortem feitas no corpo de uma menina pelo principal especialista brasileiro na doença, o dr. Rocha Lima, do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. O diagnóstico foi considerado improvável pelo dr. Connor, já que a presença de um caso isolado numa região tida como não endêmica contradizia suposições básicas da teoria do foco-chave.12 12 Carta de Connor a Russel, 28 de abril de 1928. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 20, pasta 158; entrevista de Soper a Hackett, op. cit., p. 7. Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 4, pasta 20, pp. 1.170-1. Ele foi obrigado a reconhecer seu erro quando, em maio de 1928, apareceram diversos casos típicos de febre amarela no Rio de Janeiro. Os especialistas brasileiros nunca aceitaram a teoria do foco-chave. A febre amarela, propuseram eles, não era de modo algum uma doença da cidade. Era endêmica nas zonas rurais, e continuava presente em numerosas localidades do interior do Brasil. Os médicos norte-americanos registravam apenas casos ‘típicos’, via de regra observados em imigrantes que haviam fixado residência há pouco tempo nas cidades litorâneas. Em brasileiros nativos, porém, a febre amarela manifestava-se, com freqüência, como febre atípica, às vezes branda, contraída por crianças que, se sobrevivessem (e a maioria sobrevivia), ficavam imunizadas contra a doença.13 13 Esse ponto de vista foi externado, por exemplo, pelo dr. Sebastião Barroso numa conferência na Bahia (Franco, 1969, pp. 96-7). Ver, também, Guimarães (1974)

Os casos isolados no Rio de Janeiro evoluíram para uma epidemia de grande envergadura que durou dois anos, provocou mais de setecentas mortes e manchou a imagem do Brasil no exterior (Fraga, 1930). Ela também desferiu o golpe de misericórdia na teoria do foco-chave, e na crença de que a erradicação ‘científica’ da febre amarela era tarefa fácil.14 14 Fred Soper admitiu em 1960 que o programa de erradicação da febre amarela fora "o mais grandioso fracasso na história da saúde pública" (Cueto, 1995). Contudo, paradoxalmente, a epidemia fortaleceu a posição da Fundação Rockefeller no Brasil. As teorias dos norte-americanos foram invalidadas, mas não as suas práticas sanitárias e habilidades organizacionais.15 15 Os métodos empregados pelos especialistas norte-americanos para eliminar o Aedes aegypti nas cidades, incluindo visitas compulsórias às moradias, inspiravam-se naqueles implementados durante a campanha de Oswaldo Cruz (Ver Cruz, 1972). O general William Gorgas, que chefiou a campanha em Havana (1901), descreveu em 1909 um modelo ideal de campanha altamente repressiva contra o mosquito da febre amarela. Ver Gorgas (1909). A campanha da Rockefeller contra o Aedes aegypti manteve as cidades do Nordeste relativamente imunes à epidemia, o que contrastava com a falta de eficácia das medidas anticulicideanas executadas no Rio de Janeiro. Os elevados custos humano, financeiro e político da epidemia eram poderosos incentivos para que se desenvolvesse uma eficiente campanha contra o Aedes aegypti. Em 1929 e, de novo, em 1930, os diretores da Fundação Rockefeller foram capazes de negociar condições mais favoráveis para esta campanha, como a transferência dos custos para o governo brasileiro (primeiro 50%, depois 80%), maior área de intervenção (a partir de 1930, o Brasil todo, com exceção do estado do Rio de Janeiro) e completa liberdade aos especialistas norte-americanos para que organizassem as rotinas do Serviço de Febre Amarela, contratassem e demitissem empregados e fixassem salários e condições de trabalho. O último ponto era importante. Sendo o Serviço de Febre Amarela um órgão do governo, era necessário uma autorização específica para que fosse ajustado ao estilo gerencial dos norte-americanos. Em virtude desta autorização especial, os trabalhadores do Serviço de Febre Amarela passaram a receber salários mais elevados do que os de outros funcionários públicos. Contudo, tiveram de cumprir jornadas mais longas e de obedecer a uma disciplina rigorosa. Foi-lhes negado o direito de se organizarem ou de promoverem greves, e ao diretor regional do serviço concedeu-se plena autonomia para demiti-los. Após o acordo de 1930 entre o governo brasileiro e a Fundação Rockefeller, os funcionários desta assumiram os cargos de direção de uma agência governamental que era custeada principalmente pelos contribuintes do Brasil, mas que não devia satisfações a nenhuma instituição do país.16 16 Entrevista de Fred Soper a Lewis Hackett, 17-18 de fevereiro de 1951. RAC, RG 3.1., série 908, caixa 20, pasta 21

A era organizacional: Fred Soper e a campanha contra a febre amarela, 1930-39

Os especialistas da Rockefeller emergiram da epidemia no Rio de Janeiro com a forte suspeita de que tinham subestimado a prevalência da febre amarela. Em 1929, um deles, o dr. Muench, ouviu falar de um caso em Manaus e anotou em seu diário:

Eu disse ao dr. Crawford para não ficar muito excitado. Se havia um caso positivo, provavelmente existiam muitos mais desconhecidos, e o mais provável é que tenha havido febre amarela por algum tempo já. Portanto, ele poderia esperar mais um ou dois casos positivos, a intervalos, só isso. Acredito que podemos enunciar agora a seguinte constatação como verdadeira para esta população: o caso clínico de febre amarela é uma exceção, apenas uma pequena fração dos casos totais. A ocorrência de casos clínicos e de intervalos indica permanência de uma infecção ao menos por certo período de tempo.

Casos visíveis de febre amarela, antes considerados como indicadores fiéis da situação de determinada área no tocante à doença passaram a ser percebidos, cada vez mais, como indicadores da presença do vírus: "houve três casos confirmados, todos fatais. ... Isso parece indicar que a febre amarela provavelmente estivera na cidade já há algum tempo sem ser reconhecida." Em 1929, os sinais clínicos da doença eram o único meio de se determinar a presença do vírus. O dr. Muench explicava, então, que "o paciente parecia ser um típico amarelento: alguma icterícia, olhos e ouvidos injetados, língua com as bordas vermelhas, olhar ansioso, febre e pulso um tanto rápido (mau sinal). A urina, que acabara de fluir pela primeira vez, apresentava muita albumina. Dei a opinião de que o caso, muito provavelmente, era de febre amarela, e de que haveria boas chances de prová-lo na autópsia." Mais tarde, soube o dr. Muench que "o caso tinha falecido à 1:45, e começamos uma autópsia às 4:15, executando-a o dr. Athar. O cadáver apresentava cor amarelo-limão normal, e havia sangue seco nos lábios. Os lóbulos do fígado estavam bem marcados, os rins exibiam lesão aguda e o estômago estava repleto de sangue alterado (o vômito negro começara meia hora antes da morte)." No telegrama enviado ao escritório da Fundação Rockefeller, o dr. Muench declarou: "Homem português vinte um anos morreu hoje cinco dias doente macroscopicamente típico (stop) Mesma zona que terceiro caso (stop) Fundo Rockefeller registrado nacional e ocidental nenhuma Caixa Postal ainda (stop) Indo bem (stop) Muench."17 17 Diário de Muench referente a janeiro de 1929. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 44, pasta 253.

Em junho de 1930, o dr. Soper assumiu a chefia do escritório da Rockefeller no Brasil. Promoveu completa reorganização administrativa do Serviço de Febre Amarela e assim aumentou consideravelmente a sua eficácia. As inovações de Soper foram favorecidas por duas circunstâncias que se apresentaram indepen-dentemente. Duas técnicas laboratoriais adotadas em 1930 — aviscerotomia e os testes de proteção em camundongos — ampliaram as possibilidades de visualização do vírus da febre amarela. Ao mesmo tempo, um contexto político favorável — a ‘revolução’, ou melhor, o golpe de Estado de Getúlio Vargas, em outubro de 1930 — aumentou as oportunidades de se controlar os mosquitos e as populações nativas. O regime autoritário e populista de Vargas agiu com firmeza em favor da modernização do Brasil, de estreita colaboração com os Estados Unidos e de uma abordagem controladora da saúde pública, política esta refletida no acordo celebrado em 1930 entre a Fundação Rockefeller e o governo brasileiro e, depois, no decreto de 23 de maio de 1932 (no 21.434), que definiu o arcabouço legal do Serviço Nacional de Febre Amarela.18 18 Soper afirmou depois que "o dr. Getúlio Vargas foi um pai e uma mãe para o atual serviço de febre amarela" (Diário de Soper, 24 de setembro de 1943. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209; Löwy, 1997b.

As atitudes de Soper face à saúde pública foram fortemente influenciadas pela convicção de que as intervenções nessa área deviam apoiar-se em trabalhos de campo, cabendo ao laboratório a tarefa de completar as observações feitas em campo.19 19 Entrevista de Soper a Hackett, op. cit., 15-6. Para alguns de seus colegas, este devia ser encarado como o verdadeiro ‘laboratório’ do especialista em saúde pública. O professor W. H. Frost, por exemplo, da Johns Hopkins School of Hygiene and Public Health, onde Soper se graduou em 1923 e se doutourou em 1925, lamentou que as investigações de campo, indispensáveis ao desenvolvimento de um controle eficiente, claudicassem atrás dos estudos de laboratório. Nesse memorando sobre as perspectivas da Divisão Sanitária Internacional, chamava a atenção para o fato de que, ao se lidar com questões de saúde pública, "o laboratório natural, praticamente o único disponível para estudos deste tipo, é a unidade de saúde local. Isso acontece porque são requisitos para estes estudos um sistema de notificação de doenças, facilidades para visitar os casos e maquinaria para o estudo sistemático da população e do ambiente em seu conjunto."

se um mapa da área a ser controlada não estiver disponível, deve-se então confeccionar um. Se houver muitas municipalidades, convém treinar um cartógrafo e incorporá-lo ao serviço. Os mapas devem ser confeccionados numa escala que permita marcar os focos com relativa precisão. Para cada quarteirão da cidade, deve ser feito um censo detodos os prédios, classificando-os conforme os tipos. ... A área a ser controlada será dividida em zonas, entendendo-se por zona aquela seção da cidade em que um inspetor seja capaz de examinar todos os depósitos de água em uma semana de trabalho. ... Se for conveniente, o número do quarteirão e o da zona serão gravados na esquina de cada quarteirão. Muitas vezes, os dois números são separados por uma seta que aponta a direção que o inspetor deve tomar ao visitar o quarteirão ... Para facilitar a verificação do trabalho, é necessário que todos os prédios sejam numerados. Quando os funcionários da cidade se recusarem ou tardarem muito a atender a esta exigência, o estêncil e a tinta preta à prova d’água parecem constituir o melhor método para levar a cabo a tarefa. O empregado mediano numerará duzentos prédios por dia.21 21 Bruce Wilson, memorando (endereçado a F. F. Russel) de 21 de julho de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 21, pasta 167. O texto aprovado pelo governo brasileiro (decreto n o 21.434 de 23 de maio de 1932) segue a maioria das recomendações de Wilson, mas não menciona mapas ou censos. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 21, pasta 167.

Mais tarde, seriam adaptadas às campanhas de erradicação em áreas rurais os métodos desenvolvidos para as campanhas urbanas, tais como a numeração das casas e a definição de trajetórias padronizadas para os inspetores do Serviço de Febre Amarela.22 22 Diário de Soper, anotações feitas em 17 de julho de 1934. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209. Os esforços locais eram concatenados por atividades centralizadas. Uma seção de mapeamento central, sediada no Rio de Janeiro, colaborava com os ramos locais do Serviço de Febre Amarela.23 23 Diário de W. J. Doyle, anotações feitas em 22-23 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 42, pasta 243. Em 1936, esta seção contratou e supervisionou a confecção dos primeiros mapas aéreos do interior do Brasil.24 24 Diário de Soper, anotações em 19 de maio de 1936. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 212.

Uma das principais inovações introduzidas por Soper e seus auxiliares foi a transferência da responsabilidade pela eliminação do mosquito Aedes aegypti aos moradores das áreas endêmicas.25 25 Embora tal responsabilidade houvesse sido delegada formalmente antes, nunca fora cobrada de maneira eficiente. O decreto n o 21.434, de 23 de maio de 1932, diz respeito integralmente a proibições e punições, ao contrário de decretos posteriores e anteriores (decreto n o 5.157, de 8 de março de 1904, que estabeleceu os serviços de profilaxia da febre amarela; decreto n o 1.975, de 23 de janeiro de 1940, que regulamentou o Serviço Nacional de Febre Amarela; decreto n o 56.750, de 20 de agosto de 1965, que estabeleceu as normas técnicas da profilaxia da febre amarela). Os textos dos decretos são reproduzidos em Franco (1969). Os empregados do Serviço de Febre Amarela os fiscalizavam e puniam com multas e, em casos extremos de repetidas transgressões, com prisão, se larvas do mosquito fossem encontradas nos prédios. A campanha de erradicação do Aedes aegypti estava, portanto, assentada em cuidadosa divisão de trabalho e num bem organizado sistema de supervisão da população local pelo Serviço de Febre Amarela, e dos empregados deste serviço por seus superiores hierárquicos. Rigorosa organização piramidal assegurava permanente fiscalização desses trabalhadores. Os inspetores de zona eram controlados por inspetores de distrito; estes estavam sob a mira de um inspetor geral que, por sua vez, era controlado pelo diretor regional, via de regra um norte-americano. Era possível localizar e seguir, com facilidade, cada inspetor já que os empregados do Serviço de Febre Amarela tinham a obrigação de hastear uma bandeira com a indicação de seu posto na casa que estivessem visitando. Foi estabelecido um sistema complicado de registro e recolhimento de dados para se verificar o trabalho dos inspetores. Os de zona e de distrito preenchiam formulários que indicavam os progressos da erradicação efetuada a cada semana. O inspetor geral verificava se estavam de acordo os dados fornecidos (separadamente) pelos inspetores de zona e de distrito, e produzia dados estatísticosconcernentes à área sob sua jurisdição. O diretor regional centralizava a papelada e conferia de novo todos os dados quantitativos. O empregado que falsificasse um documento — se, por exemplo, incluísse em seu relatório diário ou semanal casas que não tinha visitado — era demitido imediatamente. Soper (1943) argumentava que, "sendo a natureza humana como é", não era demais gastar de 25% a 30% do orçamento do Serviço de Febre Amarela no controle de seus empregados. Podemos encarar a organização deste serviço na década de 1930 como uma versão sertaneja do taylorismo. Impressionado com sua eficácia, um visitante do Ministério da Saúde britânico anotou:

o pessoal destas turmas é constituído por rapazes ativos e inteligentes; todos usam uniforme do serviço que compreende túnica e calça de brim cáqui, lavável, um quepe pontudo com fita verde e o emblema do serviço e braçadeira verde. O uso deste uniforme é restrito e está sujeito a regulamentos federais que proíbem sua imitação ou uso por quaisquer corpos ou pessoas não filiados ao serviço. Por conseqüência, os homens são conhecidos, o público os reconhece, e eles podem ser rastreados com facilidade pelos funcionários graduados do serviço no curso de suas tarefas de supervisão. ... O sistema foi arquitetado nos mínimos detalhes, fazendo-se inclusive um turno de serviço experimental, com cronômetro na mão, de modo a se determinar o tempo exato que leva o inspetor para completar a inspeção, para que se possa saber, a qualquer hora de qualquer dia da semana, exatamente onde se espera encontrá-lo durante a sua ronda. Os inspetores realizam a sua inspeção exatamente da mesma maneira semana após semana, deslocando-se sempre na mesma direção e no mesmo passo, e assim o trabalho se torna tão automático e segue rotina tão exata que é reduzida ao mínimo a possibilidade de se deixar escapulir possíveis lugares de reprodução e depósitos de larvas ou de falhar a detecção de mosquitos adultos.26 26 Relatório do dr. Morgan, do Ministério da Saúde britânico, RAC, RG 1.1., série 305, caixa 44, pasta 251.

A meta original do Serviço de Febre Amarela — reduzir a população de Aedes aegypti a um mínimo que prevenisse a transmissão da febre amarela — mudou em 1933, quando Soper e seus colegas (1977) observaram um efeito inesperado da campanha: o desaparecimento total destes mosquitos em áreas selecionadas. A meta da campanha da Fundação Rockefeller passou então a ser a erradicação do Aedes aegypti no Brasil e, em seguida, em toda a América Latina.27 27 Lewis Wendall Hackett entrevista Fred Lowe Soper, 14 de outubro de 1963, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 7H, pasta 86. 102. A meta passou então a ser a obtenção de índice zero de mosquitos (zero focos a cada cem casas inspecionadas). "Turmas de captura de adultos", à semelhança das que usavam os malariologistas, tinham sido criadas a princípio para verificar, com independência, a eficácia das rotinas de erradicação. Estas turmas iam aos sítios que o Serviço de Febre Amarela declarava ‘limpos’ e lá, com o auxílio de tubos especiais para captura de mosquitos, coletavam e identificavam exemplares adultos. Os especialis-tas da Rockefeller verificaram que a captura de exemplares adultosera um método bastante sensível de visualização de mosquitos residuais. A tarefa original das turmas encarregadas desse trabalho — verificação da eficácia e confiabilidade dos empregados do Serviço de Febre Amarela — foi então redefinida: passaram a verificar se o Aedes aegypti fora erradicado em determinadas áreas. Suas atividades articulavam-se com as das "turmas de focos ocultos", que se especializaram em descobrir lugares incomuns de reprodução de mosquitos. A ação conjunta dessas turmas possibilitou a completa eliminação do Aedes aegypti em extensas áreas do Brasil (Soper et alii., 1943).

As campanhas de erradicação eram informadas por dados sobre a presença do vírus da febre amarela em determinada área, dados proporcionados por inquéritos imunológicos feitos com o auxílio do teste de proteção em camundongos e da prática generalizada da viscerotomia.28 28 Sayer e Lloyd (1931); Soper et alii. (1934); Rickard (1937). O diagnóstico histológico de febre amarela fora desenvolvido por patologistas brasileiros, mas quando os especialistas da Rockefeller se convenceram de que estavam em vias de erradicar a febre amarela unicamente pela supressão dos focos-chave, perderam o interesse pelos exames patológicos (Lima, 1921). Análises de rotina de fragmentos do fígado de amarelentos mortos após menos de oito dias de doença foram feitas inicialmente pelas autoridades sanitárias brasileiras no estado do Rio de Janeiro; os especialistas da Rockefeller adotaram-nas no Pará (Diário de Soper referente a junho de 1930. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 207). Visualizava-se indiretamente o vírus da febre amarela pela presença de anticorpos específicos a ele e de alterações patológicas do tecido no fígado causadas pelo patógeno.29 29 É preciso lembrar que a visualização direta do vírus através da microscopia eletrônica só se tornou possível no final da década de 1930, e mesmo então só era viável em centros de pesquisa mais avançados. A partir de 1928, tornou-se possível demonstrar a presença do vírus da febre amarela pela indução de uma doença experimental, mas o único animal suscetível à infecção em laboratório por meio do sangue humano infectado era o Macacus rhesus, muito caro para ser usado em diagnósticos de rotina. A detecção do vírus passou a depender intimamente dos testes de laboratório e da eficiência dos intercâmbios entre este e o campo. Os testes tornaram-se a única prova confiável da presença de febre amarela. Num rascunho do programa de controle da doença na América do Sul, Soper afirmava que "a ocorrência de surtos reconhecidos de febre amarela não constitui critério seguro para se aferir a presença ou ausência dela em possíveis áreas endêmicas. Tais áreas devem ser estudadas do ponto de vista da imunidade adquirida (teste de proteção) e da efetiva ocorrência de casos fatais não reconhecidos (viscerotomia)."30 30 Diário de Soper, anotações em 20 de julho de 1934. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209. Uma rede de postos de viscerotomia fornecia amostras de fígado aos laboratórios de patologia centrais, situados em cidades maiores, ao passo que durante as expedições sanitárias os especialistas da Rockefeller coletavam amostras de sangue e as enviavam ao laboratório de febre amarela instalado na Bahia para que fossem testadas. Ambos os procedimentos — viscerotomia e coleta de sangue — esbarravam na oposição das populações locais. O decreto no 21.434 tornou obrigatório o primeiro e proibiu sepultamentos sem a permissão de um representante do serviço local de viscerotomia. O dispositivo legal não foi suficiente para neutralizar toda a resistência. Parentes dos mortos por vezes se opunham à punção no fígado, e diversos funcionários da viscerotomia foram mortos em conflitos locais.31 31 A lista de empregados do serviço de viscerotomia mortos em serviço e as circunstâncias foram registradas no diário de Bruce Wilson, em 8 de janeiro de 1937. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 213.

A obtenção de amostras de sangue não resultou em danos físicos aos coletores, mas eles também enfrentaram resistência à prática e a explicaram como produto de "superstição" ou "atraso" das populações locais.32 32 Entrevista de Smilie a Hackett, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 1, pasta 7; entrevista de Rickards e Kumm a Hackett, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 1, pasta 9. Medidas coercitivas, como a prisão de pessoas que lideravam a oposição à coleta de sangue às vezes se faziam necessárias para garantir a execução do serviço.33 33 Diário de Soper, anotações em 19 de maio de 1936. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 212. Não obstante isso, ambas as técnicas se tornaram parte constitutiva dos trabalhosde campo dos especialistas da Rockefeller. Por volta de 1931, a hierarquia dos índices de presença da febre amarela conferia prioridade ao laboratório. Os dados epidemiológicos e clínicos eram considerados importantes, mas só os resultados dos exames histológicos do fígado davam autoridade indiscutível ao diagnóstico de um caso fatal de febre amarela, e só o isolamento do vírus no sangue confirmava a presença de um caso não fatal.

Em fins de 1931, Soper inspecionou o estado do Ceará. Visitou Juazeiro e o padre Cícero, mas com a única preocupação de verificar a possibilidade de transmissão da febre amarela por romeiros.34 34 A descrição de Juazeiro feita em 1931 pelo dr. W. J. Doyle, representante da Fundação Rockefeller em Fortaleza, também contrasta notavelmente com o dramático relato feito pelo dr. Smith em 1927. Ambos registraram a elevada taxa de mortalidade infantil por gastrenterite, mas, ao contrário de Smith, Doyle elaborou uma descrição desapaixonada e trivial da cidade, e descreveu o padre Cícero como grande amigo e partidário da Fundação Rockefeller e como admirador de J. D. Rockefeller (Diário de Doyle, anotações em 6 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 41, pasta 242). Assim, em 8 de novembro, registrou que a morte de uma mulher por uma ‘febre’ súbita provavelmente não se devera à doença pois "a casa onde vivia é uma típica habitação do tipo mocambo, tão comum nestas partes, e ergue-se bem isolada das outras quatro ou cinco que formam este aglomerado rural". Outras mortes foram atribuídas à peste já que, observa Soper, "não posso deixar de sentir que a ocorrência de casos esporádicos de peste são muito mais prováveis do que casos esporádicos de febre amarela neste grupo isolado de três casas". Contudo, em todos aqueles casos, Soper aguardou os resultados das análises histológicas para confirmar suas impressões.35 35 Diário de Soper referente a novembro de 1931 (viagem ao Ceará). RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 207b. Analogamente, o dr. Doyle apoiou-se só no laboratório para confirmar um diagnóstico. Em fevereiro de 1931, forneceu descrição bem detalhada de todos os sinais clínicos ‘clássicos’ de febre amarela num paciente, mas ainda assim não quis atestar a doença antes de receber os resultados da análise do sangue do menino enfermo e dos membros de sua família.36 36 Diário de Doyle, anotações em 3 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 41, pasta 242.

Via de regra, as descrições de cidades e povoados brasileiros feitas pelos funcionários da Rockefeller na década de 1930 davam ênfase a questões práticas. O diário do dr. Crawford, relativo a 1932, descreve localidades do Mato Grosso onde a presença da febre amarela foi investigada. Menciona o número e o tipo de casas de cada localidade, as estradas de acesso, informações sobre o clima, sobre fontes de água, pouco mais que isso. Descrição típica (de Guajará Mirim) registra que "a cidade foi elevada a ‘município’ em 1929. Há quatrocentos prédios, mas só estão ocupados cerca de 70%. Com exceção de 25, todos são de barro e sapé. Há esgotos, água canalizada e luz elétrica. O clima aqui é seco, calor escaldante durante o dia e frio à noite. Chamam o lugar de faroeste de sertão." Outra cidade, Manicore, foi "construída a sessenta passos da margem do rio. Não tem luz elétrica nem suprimento de água. A cidade possui cerca de quatrocentos prédios, bem espalhados."37 37 Diário de Crawford, anotações feitas em 26-7 de julho de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208d. Os elementos pitorescos da narrativa, quando existem, limitam-se a descrições de personagens "impossíveis", como empregados da viscerotomia que adulteravam dados, guardas e inspetores do Serviço de Febre Amarela que bebiam e especialmente moradores "atrasados".

A coleta de amostras de sangue para testes de proteção em camundongos tornou-se atividade de rotina nas viagens de reconhecimento. A extração de sangue de crianças pequenas era de particular importância, pois permitia documentar contatos recentes com o vírus da febre amarela. Vejamos um exemplo. Em março de 1932, durante uma viagem ao Espírito Santo, onde houvera um surto de febre amarela, Soper anotou:

Doyle diz ter enviado 28 amostras de sangue de Tamboril e Leopoldina, 25 de pessoas abaixo de cinco anos; 25, de cinco a dez; e cinqüenta acima de dez, todos nativos, não mais que dois por família. Caso Leopoldina se revele muito pequena para se obter os espécimes desejados, pode-se coletar os que faltam em Salgueiro. Doyle relata que enviou 28 amostras de sangue da zona de Tamboril e Curral Velho semana passada. Telegrafe a NCD (Nelson C. Davis) que faça testes de proteção em camundongos, mas que retenha uma porção do soro, em cada caso, para o teste de Rift Valley, caso isso possa ser providenciado.38 38 Diário de Soper relativo a abril de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208.

A epidemia de febre amarela ocorrida no Espírito Santo em 1932, que Soper descreve, esteve na origem de um ‘deslocamento cognitivo’ na percepção da epidemiologia da febre amarela, a saber, a descrição da "febre amarela silvestre". De 1932 em diante, os especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil suspeitaram que a febre amarela podia existir na ausência do mosquito Aedes aegypti (Soper et alii., 1933). Em 23 de março, Soper anotou o seguinte: "os primeiros casos a serem notificados foram diagnosticados clinicamente e confirmados por autópsias. Acredita-se que houve pelo menos dez mortes. Nenhum Stegomyia foi encontrado na zona invadida, embora aparentemente tenham ocorrido casos em praticamente todas as casas do Vale do Canaã."39 39 Diário de Soper relativo a março de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208. A refutação do dogma estabelecido por Carlos Finlay e confirmado por Ross e Carter, de que o Aedes aegypti (Stegomyia) é o único inseto vetor da febre amarela, e os humanos, os únicos hospedeiros do vírus da doença provavelmente não teria ocorrido se não houvessem ferramentas que magnificassem a presença do vírus. A existência da epidemia foi confirmada por análises histológicas de seções do fígado de indivíduos falecidos. Soper e colaboradores adquiriram confiança suficiente para afirmar que a febre amarela podia ocorrer sem o Aedes aegypti quando a antiguidade do vírus no Vale do Canaã foi confirmada por testes de proteção em camundongos, e sua presença foi demonstrada em macacos injetados com o sangue de doentes do lugar.

A convicção de que insetos da floresta podiam transmitir a febre amarela mudou a definição dos lugares em que os especialistas da Rockefeller suspeitavam a presença do vírus. A coleta de sanguefoi estendida a novas regiões do interior. Antes de a nova forma da doença ser descrita, supunham os especialistas da Rockefeller que achados negativos numa cidade indicavam achados negativos na zona rural circundante. Posteriormente, dissociaram as duas, e explicaram que "a febre amarela podia existir na floresta sem necessariamente ter reflexos no índice de imunidade dos habitantes da cidade".40 40 Diário de Soper, 11 de junho de 1935. RAC RG 1.1., série 305, caixa 29, pasta 210. As descrições anteriores focalizavam a presença de um hospedeiro obrigatório — os humanos — e um vetor obrigatório — o Aedes aegypti. Enfatizavam, portanto, a ocorrência de reservatórios de água que tornavam possível a reprodução dos mosquitos, a distância entre as casas, já que Aedes aegypti não pode voar longas distâncias e está sempre ligado à casa, e, por último, a presença de estradas, ferrovias e rios navegáveis pois o vírus viaja nos corpos de humanos infectados e de mosquitos escondidos em carroças, automóveis ou embarcações. A partir de 1934, as descrições de localidades rurais passaram a incluir também informações sobre a proximidade entre as casas e a floresta, os contatos que os habitantes mantinham com esta, por razões de viagem ou trabalho. Naquele ano, Wilbur Sawyer, do laboratório de febre amarela de Nova York (e diretor da Divisão Sanitária Internacional da Fundação Rockefeller de 1935 a 1944), viajou com Soper para o Espírito Santo para visitar os lugares em que fora descrita pela primeira vez a febre amarela silvestre. Segundo consta em seu diário, conversou com o telegrafista de Rio Manso, que lhe disse que

um dos casos fatais foi o irmão de sua esposa. Afirma, como ouvimos por toda parte, que a infecção estava relacionada às roças, isto é, às clareiras na selva onde são cultivadas hortaliças, frutas e arroz das montanhas, e que só homens jovens e fortes eram atacados. As mulheres e os meninos que também foram atacados estavam trabalhando nas roças. ... As fazendas ou aldeolas em geral possuem de uma a quatro pequenas casas térreas de tijolo ou barro com vários anexos e abrigos. Estão localizadas na serra. À distância de meia a duas léguas das casas há sempre uma roça ou uma clareira na densa mata que margeia os rios, e que ascende por algumas das encostas. Boa parte dos alimentos provêm das roças, sendo cada fazenda bastante auto-suficiente. Na roça há um abrigo que contém uma espécie de bancada feita de varas sobre a qual o arroz é batido. Os homens dormem com freqüência neste abrigo quando o trabalho é pesado, como acontece na época da colheita do arroz, e só vão para casa aos domingos se a distância for maior. A floresta tropical situada nessas altitudes, com suas densas matas e trepadeiras, está infestada por bandos de macacos que pesam quatro ou cinco quilos, e caititus selvagens extremamente móveis. Eles saqueiam as roças. Os macacos têm particular predileção pelo milho. Grandes ratos do campo, em grande número, comem o arroz. Não foi observada nenhuma epidemia entre estes animais, ainda que um rato do campo morto tenha sidovisto na roça, em Burity de Conceição, à época em que grassava a febre amarela lá. ... Em Boa Esperança ... a colheita do arroz acabara de começar quando ocorreu o primeiro caso. Algum tempo foi perdido por causa da doença e morte; então as pessoas retornaram à roça e trabalharam mais oito dias quando caiu doente o segundo irmão, de 15 anos de idade. Àquela altura, estavam todos convencidos de que a doença tinha relação com a roça, e as culturas foram abandonadas. A sincronia foi tamanha que o segundo caso facilmente poderia ter sido uma infecção domiciliar secundária à primeira, se existissem ali vetores adequados. O intervalo entre a morte e o segundo caso foi de 13 dias. Há macacos e ratos do campo na roça. O rio que corre por ela, em Boa Esperança, é o Piraputango, que deságua no São Lourenço abaixo de Coronel Ponce, mas dois tributários desses rios correm próximos um do outro perto de Burity, e a selva atravessa-os, formando uma passagem acessível para os macacos.41 41 Diário de Sawyer (excertos), 15 de junho de 1934. RAC, RG 3.1., série 908, caixa 4, pasta 27.

Na primavera de 1936, Soper viajou para Jacarezinho, descrito como típico território de febre amarela silvestre. "A estrada de rodagem atravessa uma floresta alta ou senão mata densa durante grande parte da viagem." A fazenda Costa Júnior, onde ocorreu o caso suspeito, explica Soper, era

um dos lugares mais adequados para a febre amarela avistados ontem na estrada entre Ourinho e Jacarezinho. ... Encontram-se muitos macacos do tipo bugio ou guariba nas florestas daqui, e pelo menos um destes animais foi encontrado por trabalhadores no chão, doente e incapaz de cuidar de si antes do aparecimento dos primeiros casos humanos. ... A situação da fazenda Anicus é bem típica do que se espera encontrar em áreas sujeitas à febre amarela silvestre. Mata ou floresta densa e alta chegando até a borda das pequenas clareiras onde foram plantados o milho, o arroz e a cana-de-açúcar. Foram fotografadas as armadilhas e as interfaces dos campos com a mata.42 42 Diário de Soper, 15, 19 e 20 de maio de 1936. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 30, pasta 212.

Um ano depois, em viagem a Belém, Soper mais uma vez depara com "a mesma velha cena responsável pela infecção, um trecho de floresta virgem próximo a uma clareira cultivada. Em certas regiões, a febre amarela parece ser quase uma doença ocupacional restrita aos madeireiros."43 43 Diário de Soper, 21 de junho de 1937. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 213.

Em 1937, a paisagem em que podia aparecer a doença foi descrita como "velha cena" familiar na qual era possível "ver" de imediato onde era provável aparecer a febre amarela silvestre e onde não era plausível sua ocorrência. Assim, Vitória, no Espírito Santo, foi descrita como cidade possuidora de "condições aparentemente perfeitas para a febre amarela silvestre bem atrás e acima do centro da parte comercial", e o monte Argolas, logo acima da estação ferroviária, foi classificado como sítio muito improvável para a doença, uma vez que "as matas no alto do morro estão completamenteisoladas de outras matas por baixios sujeitos a marés, em três lados, e por rodovia e terra desbravada até larga distância no quarto lado, não havendo com certeza número significativo de macacos aí".44 44 Diário de Soper, 26 de fevereiro de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216. Quando Soper tornou a visitar o Vale do Canaã, em 1940, anotou:

Não pude deixar de pensar como fomos cegos em 1932, quando nos mostramos inteiramente incapazes de enxergar a íntima relação entre os campos e as florestas, mesmo depois de termos chegado à conclusão de que a maioria dos casos ocorridos naquele surto tinham sido infectados nos campos. Hoje há muito menos floresta do que há oito anos atrás, mas assim mesmo o olho adestrado para localizar condições adequadas à febre amarela silvestre as vê por toda parte.45 45 Diário de Soper, 25 de fevereiro de 1940. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 32, pasta 216.

A febre amarela silvestre impôs uma nova tarefa aos especialistas da Fundação Rockefeller que atuavam no campo: a caça. Antes de 1932, caçavam apenas mosquitos, mas a suspeita de que o vírus da febre amarela possuía um reservatório animal levou à caça de animais de sangue quente também. Em 1936, Soper anotou:

Gilmore informa que agora está encontrando muito mais animais do que há pouco tempo atrás, devido simplesmente à mudança no método de colocação das armadilhas. Damasceno também tem se mostrado mais hábil na captura de macacos, e um bom número foi apreendido em dois ou três lugares diferentes. ... número considerável de pássaros foi também abatido a tiros ou capturado em armadilhas.46 46 Diário de Soper, 20 de maio de 1936. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 30, pasta 212.

A partir de 1940, a responsabilidade pela campanha contra o mosquito do Serviço de Febre Amarela passou para a alçada do governo brasileiro. A Fundação Rockefeller conservou responsabilidade parcial pelas campanhas de vacinação contra a febre amarela, que tinham começado em 1937, mas redefiniu seu principal objetivo no Brasil, que se tornou a pesquisa, especialmente sobre a etiologia e os padrões de transmissão da febre amarela silvestre. Caçar, então, passou a ser uma importante atividade de seus especialistas. O zoólogo Ernest G. Holt, junto com o dr. Leoberto Ferreira e vários assistentes locais, fez em julho-agosto de 1940 uma viagem de campo ao Espírito Santo para coletar sangue de macacos e aves. Naquele ano, a coleta de sangue tornou-se rotina nos testes a que eram submetidas as populações humanas. O dr. John P. Fox, por exemplo, do laboratório de febre amarela do Rio de Janeiro, coletou centenas de amostras de sangue humano durante a sua viagem a Vitória.47 47 A expedição de Fox a Vitória é descrita em seu diário, anotações feitas em 14-20 de junho de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216. A coleta de sangue animal era um empreendimento mais complicado. O diário de Holt conta-nos a história de sua educação como caçador e coletor de sangue:

14 de agosto: o dr. Leoberto levantou-se às 5:30 para caçar com Musso. Lako e Rosa saíram depois do café da manhã para colocar armadilhas, com a intenção de obter pássaros vivos. Gentil foi para a floresta sozinho com espingarda de um cano. Levantei tarde, depois de dar retoques finais em diversas coisas, e caminhei por 45 minutos ao longo da estrada de ferro em direção a João Neiva até o primeiro trecho de mata que margeia a servidão de trânsito, à esquerda. ... O dr. Leoberto tinha retornado com cinco pássaros e cinco amostras de sangue; Lako e Gentil, de mãos vazias. Margaret, Lako e Gentil prepararam peles de pássaros à tarde, enquanto o dr. Leoberto observava. Preenchi minhas próprias fichas e verifiquei as dos outros. ... 17 de agosto: Pau Gigante. ... Nosso balanço para a semana encerrada hoje é: 79 fichas de pássaros abarcando 39 espécies, 68 peles para museus e 48 espécimes de sangue — contabilidade contristadora para um grupo de seis pessoas. Há algumas circunstâncias atenuantes, contudo. Leoberto não é um mateiro, enquanto que eu, que possuo as únicas arma e munição apropriadas para a captura de animais na expedição, estou apenas aprendendo a tirar proveito de cada circunstância favorável à obtenção de uma amostra de sangue adequada a partir de um pássaro abatido. Por exemplo, só hoje me dei conta da inutilidade de atirar em pássaros ladeira abaixo se a intenção é sangrá-los. ... 4 de setembro: ... Graças à ajuda do sr. Cutini, que me acompanhou a manhã toda e que carregou meu saco de viagem, regressei a esta casa pouco depois do meio-dia com 17 pássaros e 13 amostras de sangue após a mais tranqüila manhã de coleta que tive desde que comecei a trabalhar nesta região. Devo dizer, a única coleta tranqüila que tive! Perdi apenas quatro tiros e seis vênulas esta manhã, mas o que me deu maior satisfação foi o fato de sangrar com sucesso pássaros de apenas 14 e até dez gramas de peso.48 48 Diário de Holt, 14 de agosto a 4 de setembro de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216.

As expedições de caça dos especialistas da Fundação Rockefeller na América Latina prosseguiram por toda a década de 1940. A campanha da organização norte-americana contra a febre amarela no Brasil começou com homens brancos tentando converter segmentos selecionados das populações locais ao evangelho do progresso através da exibição da superioridade do conhecimento científico norte-americano. Depois ingressou num estágio em que os homens brancos instituíram — "para o próprio bem delas" — rigoroso controle sobre essas populações. Terminou com homens brancos caçando, com a ajuda de seus auxiliares brasileiros, pássaros, macacos e um novo e esquivo conhecimento científico.49 49 Os especialistas da Rockefeller admitiram no final da década de 1940 que era plausível um ciclo de transmissão da febre amarela silvestre no Brasil envolvendo macaco-mosquito Haemagogus-macaco. Outros mamíferos (caititu, tatu, tamanduá, marsupiais) e outros insetos sugadores de sangue foram mencionados como candidatos a hospedeiros e vetores da doença. A ocorrência em pássaros não foi provada (Stroder, 1951; Kiple, 1993).

Visibilidade, erradicação e política

A campanha da Fundação Rockefeller contra o Aedes aegypti no Brasil resultou numa importante inovação conceitual em saúde pública: transitou-se da ‘erradicação de doença’ para a ‘erradicação do vetor da doença’.50 50 Sobre a política de erradicação, ver Cueto (1995). Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 748-9. A primeira meta foi estabelecida por Wicliffe Ross, primeiro diretor da Junta Sanitária Internacional. De acordo com seu colega Lewis Hackett, "foi o primeiro a conceber umataque global contra doenças. Ele realmente pretendia ‘erradicar’ a febre amarela e a ancilostomíase."51 51 Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 748-9. Na década de 1920, a meta da campanha contra a febre amarela foi definida como a completa eliminação da doença no continente americano através da redução da densidade de mosquitos Aedes aegypti em cidades em que a densidade de população permitisse a manutenção de um reservatório de vírus da febre amarela. Acreditavam os especialistas que a redução da densidade de mosquitos em focos-chave fosse suficiente para erradicar a doença. Este enforque virou de cabeça para baixo em meados da década seguinte. A descrição da febre amarela silvestre em 1932, e a nova maneira de ver a doença agora associada a animais selvagens e apenas acidentalmente transmitida a humanos, pôs fim ao objetivo de eliminá-la totalmente no Brasil. Em contrapartida, o aumento da eficácia das campanhas contra os mosquitos levou à erradicação não planejada, realmente imprevista, do Aedes aegypti em áreas selecionadas.52 52 Entrevista de Soper a Hackett, op. cit., p. 12. O alvo das campanhas contra a febre amarela foi, então, redefinido: passou a ser a erradicação plena do vetor das formas epidêmicas — o mosquito Aedes aegypti — e, por outro lado, a identificação das áreas onde a febre amarela silvestre persistia endemicamente, acrescentando-se, a partir de 1936, o controle do vírus através da vacinação.

As descrições do Brasil feitas pelos especialistas da Fundação Rockefeller refletiam seu entendimento da epidemiologia da febre amarela. Assim, na década de 1920, direcionaram a atenção especialmente para o abastecimento de água nas cidades e, de 1933 em diante, para a distância entre casas e floresta. As descrições conservaram, no entanto, um traço constante. Acentuavam as dimensões dos elementos selecionados — o vírus da febre amarela e o Aedes aegypti — ao eliminarem quase tudo o mais, em particular os habitantes da terra. Observa-se esta tendência a direcionar o foco para os agentes patogênicos e seus vetores em especial de 1931 a 1939, quando a eficácia da campanha contra a febre amarela foi encarada como diretamente dependente da habilidade dos especialistas da Fundação Rockefeller de detectar vírus e mosquitos. "O problema", explicou Soper, "era que tanto a febre amarela como o mosquito transmissor podiam existir abaixo do limiar de nossa visibilidade."53 53 Entrevista de Soper a Hackett, op. cit., p. 9. A solução foi expandir este limiar de visibilidade de entidades escondidas através do desenvolvimento de dispositivos de amplificação — viscerotomia e teste de proteção em camundongos para o vírus, turmas de captura de adultos para os mosquitos — e também através de descrições que focalizassem os vírus e mosquitos. A compreensão que tinham os especialistas da Fundação Rockefeller da história natural e da epidemiologia da febre amarela estava reduzida ao estudo dos meios pelos quais o vírus circulava entre corpos vertebrados e invertebrados. Os habitantes de áreas endêmicas eram apresentados basicamente como veículos que o transportavam deum lugar a outro — daí o interesse por estradas, ferrovias e navios, comércio, migrações e movimentos de tropas — e como criadores de sítios adequados à multiplicação do Aedes aegypti. A descrição da febre amarela silvestre acrescentou novos receptáculos à multiplicação e transmissão do vírus — insetos e animais da floresta — e insuflou o interesse por elementos da paisagem — sobretudo a proximidade entre casas e floresta tropical — que favoreciam a transmissão do vírus de insetos para humanos. Faltava quase tudo o mais: a estrutura econômica das regiões em que atuava o Serviço de Febre Amarela, a organização política dessas regiões (contemplavam-se apenas as relações entre as administrações locais e o serviço nacional), vida familiar, cultura, religião, condições de saúde da população, outras doenças reinantes além da febre amarela. A compreensão das condições de vida das populações locais não era vista como condição necessária para uma campanha bem-sucedida. Recapitulando as lições daquela que se havia feito para erradicar o Aedes aegypti no Brasil, um manual de virologia de 1948 ensinava que, para organizar a eficiente erradicação de vetores de doença, "regras devem ser estabelecidas por especialistas que possuam íntimo conhecimento dos hábitos e sítios de procriação (breeding sirtes) dos mosquitos; também o pessoal da organização de saúde deve ser investido de suficiente autoridade legal" (Royem e Rhodes, 1948). Não é fácil persuadir e disciplinar os insetos, e forçá-los a mudar. Os especialistas que lidam com eles são, portanto, obrigados a adquirir "um conhecimento íntimo" de numerosos aspectos de suas vidas. Os humanos, em compensação, são mais flexíveis. A familiaridade com o estilo de vida, a cultura, as crenças e os padrões de comportamento das populações locais não era vista como precondição para um trabalho eficiente contra os mosquitos. Bastava saber como elas deviam comportar-se e então obter as prerrogativas legais adequadas para impor-lhes tal comportamento.

O destino da campanha em larga escala para erradicar o Aedes aegypti das Américas ilustra a importância que tem um arcabouço legal adequado — e que têm também os fatores políticos e sócio-culturais que modelam este arcabouço legal — para tornar visíveis os mosquitos e convertê-los em alvos a eliminar. Após a Segunda Guerra Mundial, Fred Soper (1977) desempenhou importante papel na promoção e disseminação de políticas de erradicação de vetores. Começou a advogar a total erradicação do vetor em 1934. Dois anos depois, proferiu um discurso sobre o assunto na Conferência Pan-Africana de Saúde, em Johannesburgo, e em 1942 elaborou os princípios teóricos de uma política de "erradicação de espécie".54 54 Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 750; Soper e Wilson (1942). Entrementes, Soper conseguiu demonstrar a eficácia dessa política quando os especialistas da Fundação Rockefeller puseram fim a uma perigosa epidemia de malária no Ceará, no Nordeste do Brasil (1938-40), erradicando por completo o portador da doença, omosquito Anopheles gambiae.55 55 Ver memorando ‘Brazil Anopheles gambiae control’. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 16, pasta 14; Packard e Gadelha (1993); Cueto (1995); Soper (1977). Soper atribuiu o rápido sucesso da campanha de erradicação do A. gambiae principalmente ao cuidadoso mapeamento e zoneamento das áreas levantadas, à eficiente distribuição de responsabilidades administrativas e ao meticuloso registro dos resultados. Mais tarde, o sucesso da campanha foi associado também ao fato de visar um mosquito africano importado para o Brasil no final da década de 1920, portanto precariamente adaptado a seu novo nicho ecológico. Durante a guerra, Soper desenvolveu um método para a rápida eliminação de piolhos, com o uso de DDT, e organizou uma maciça campanha contra piolhos no Egito, jugulando em pouco tempo uma epidemia de tifo. Promoveu então o uso do DDT para eliminar mosquitos transmissores de malária naquele país (1943-45) e na Sardenha (1945-50). Após a guerra, Soper ocupou posições-chave em organizações sanitárias internacionais. Chefiou o birô sanitário da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) (1949-59) e foi diretor regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS) (1949-59), cargos que lhe permitiram promover sua "doutrina de erradicação" entusiástica e eficientemente, sobretudo a do Aedes aegypti.56 56 Ver Soper (1965). Soper foi um dos arquitetos da campanha da Organização Mundial de Saúde (OMS) visando a erradicação da malária em escala mundial pela aplicação do DDT no interior das casas. Sobre esta campanha e o papel que teve o seu fracasso na reorientação da política da OMS a partir da década de 1970, ver, por exemplo, Siddiqui (1995).

Em 1947, sob a sua liderança, a OPAS (filiada à OMS) decidiu levar a cabo este desiderato nas Américas. Eficientes programas contra o Aedes aegypti foram implementados por todos os países latino-americanos no final da década de 1940 e na década de 1950. Graças a estes programas, quase toda a América do Sul e Central ficou livre do mosquito na década de 1960. A campanha de erradicação avançou, sem problemas, até alcançar a fronteira norte-americana. Soper e seus colegas não viam razão para interrompê-la ali. Continuavam disponíveis os métodos para visualizar e em seguida eliminar os mosquitos no Sul dos Estados Unidos. Os líderes da OPAS supunham que o custo — uma certa violação da privacidade dos cidadãos norte-americanos nas áreas infectadas no decurso da campanha — fosse baixo em comparação com os ganhos esperados: a definitiva eliminação da ameaça de febre amarela nas Américas e a abolição das dispendiosas medidas anticulicideanas. O governo dos Estados Unidos pensava de outro modo. O país subscreveu a resolução de 1947 da OPAS e deu início à erradicação do Aedes aegypti dez anos depois. Contudo, o grau de compromisso do governo com o programa permaneceu baixo em virtude da ausência da febre amarela e de outras doenças veiculadas por aquele mosquito nos Estados Unidos e, portanto, da inexistência de pressão pública pela eliminação do inseto. A campanha conduzida pelo Center for Disease Control (CDC) teve orçamento limitado e baseou-se exclusivamente em spray aplicado externamente às casas e no tratamento de reservatórios de água com DDT. Não se empreenderam buscas de mosquitos e larvas escondidos. Na verdade, o CDC nunca foi capaz de atestar quão eficiente foi sua campanha e de estimar o tamanho da população residual de mosquitos. Além disso, os proprietários de imóveis resistiram às inspeções e ameaçaram recorrer à Justiça caso produtos químicos fossem borrifados em seus jardins ou casas. Em 1969, o governo federal cancelou os fundos para a campanha contra o Aedes aegypti, encerrando aquele programa limitado. Segundo David S. Spencer, diretor do CDC, a atitude governamental foi motivada pela convicção de que o Aedes aegyptinão era erradicável nos Estados Unidos, e de que, de qualquer maneira, a febre amarela só devia ser atacada quando surgisse uma ameaça concreta, e não pelo desejo de se erradicar o vetor (Soper, 1977).

Com o fim da campanha nos Estados Unidos, o mosquito tornou-se invisível naquele país. Em compensação, tornou-se de novo visível na América Latina, onde os serviços sanitários eram e ainda são treinados para identificá-lo, e onde o Aedes aegypti é vetor da dengue, outra doença tropical induzida por arbovírus. O mosquito reapareceu nos países latino-americanos no final da década de 1960. O Brasil, que a OPAS oficialmente declarou livre dele em 1958, foi reinfestado em 1967 e, de novo, em 1973-74.57 57 Franco (1969, pp. 152-6); entrevista com o dr. José Fonseca da Cunha no âmbito do projeto Memória de Manguinhos, dirigido por Nara Brito e Wanda Hamilton (Arquivos da Casa de Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro). Segundo os especialistas em saúde brasileiros, a densidade de Aedes aegypti não é muito elevada e não é suficiente para provocar uma epidemia urbana de febre amarela. No começo da década de 1990, o Aedes aegypti estava presente em largas extensões do país, e seu papel na transmissão da dengue era considerado sério problema de saúde pública. Soper atribuiu seu retorno à América Latina à infiltração de mosquitos oriundos do Sul dos Estados Unidos, responsabilizando assim a incapacidade revelada por aquele país para erradicá-lo — hipótese plausível, mas difícil de provar. Soper atribuiu este fracasso à falta de jurisdição do governo federal sobre a saúde pública e ao fato de os funcionários do CDC não terem sido capazes de, na busca dos mosquitos, "ingressar em todas as partes de todos os prédios, inclusive residências privadas, ocupadas ou não, fosse qual fosse os desejos dos moradores ou proprietários".58 58 Soper (1997, pp. 353-5). Cabe registrar que em 1905 a suprema corte brasileira legislou contra o direito dos agentes sanitários de inspecionar o interior das residências privadas em busca de mosquitos Aedes aegypti. Carta de Émile Roux (diretor do Instituto Pasteur de Paris) a Paul Simond (chefe da missão do Instituto Pasteur ao Rio de Janeiro), 20 de março de 1905. Papéis de Simond, caixa Sim-4, Arquivo do Instituto Pasteur. Esta decisão foi revogada posteriormente. A meta da eliminação total do Aedes aegypti não poderia ser alcançada se não houvesse a possibilidade de rastrear, localizar e destruir todos os insetos residuais. Na opinião de Soper, "a trama inteira da erradicação continental", pacientemente tecida por ele e seus colegas da OPAS, esgarçou-se no final da década de 1960 por causa da debilidade de um único fio. Referia-se aos limites intrínsecos a um governo democraticamente eleito de um país desenvolvido impostos à sua capacidade de se imiscuir na vida privada de seus cidadãos.59 59 Soper (1977, p. 357) protestou contra a atitude do governo norte-americano, já que transferia o ônus do dispendioso controle do Aedes aegypti aos países pobres.

Notas

Recebido para publicação em julho de 1996.

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  • Williams, Steven C. Nationalism and public health: the convergence of the Rockefeller Foundation technique and Brazilian federal authority during the time of yellow fever. Em Marcos Cueto (org.), Missionaries of science, op. cit, pp. 23-51.

  • 20
    20 W. H. Frost, memorando (endereçado a Frederick F. Russel, diretor da Divisão Sanitária Internacional) de 19 de junho de 1929. RAC, RG 1.1., série 908, caixa 11, pasta 124. De fato, o Serviço Nacional de Febre Amarela, reorganizado por Soper, pode ser visto, entre outras coisas, como essa "maquinaria para o estudo sistemático da população e do ambiente em seu conjunto". Tal estudo foi conduzido num ‘laboratório natural’, o Brasil, e seu objetivo explícito era a efetiva implementação de medidas de controle eficientes. Importantes componentes da ‘maquinaria’ eram descrições muito seletivas de lugares e seus habitantes bem como mapas das áreas controladas.
    Num esboço das prerrogativas legais do Serviço Nacional de Febre Amarela (decreto n
    o 21.434) preparado pelos especialistas da Rockefeller, lê-se que:
  • 1
    W. H. Frost, da Johns Hopkins School of Public Health; memorando enviado em 19 de junho de 1929 a Frederick F. Russel (diretor da Divisão Sanitária Internacional da Fundação Rockefeller, 1923-35). Rockefeller Archive Center (RAC), Record Group (RG) 1.1., série 908, caixa 11, pasta 124.
  • 2
    Fred Lowe Soper, diretor do programa desenvolvido pela Rockefeller no Brasil, 1930-42 (entrevista a Lewis Hackett), 14 de outubro de 1963. RAC, RG 3.1, série 908, caixa 7H, pasta 86.102, p. 10. Hackett planejava escrever a história da Junta, depois Divisão Sanitária Internacional, de que foi um dos fundadores; na década de 1950 e no começo da década seguinte fez entrevistas e manteve correspondência com vários integrantes da agência internacional. Morreu antes de concluir o projeto.
  • 3
    Estudos detalhados sobre a intervenção da Rockefeller na América Latina constam em Cueto (1994). Ver especialmente a introdução, pp. ix-xx.
  • 4
    A descrição do modo de transmissão da febre amarela pelo
    Aedes aegypti (à época denominado
    Stegomyia fasciata) e o desenvolvimento de métodos para eliminar a doença através do combate ao mosquito tinham relação com os empreendimentos políticos e militares dos Estados Unidos na América Latina: a expedição militar a Cuba em 1898-1900 e, em seguida, a construção do canal do Panamá (Ver Warren, 1951). Sobre as origens da teoria do mosquito, ver Stepan (1978); Delaporte (1992).
  • 5
    Até o fim da década de 1920, não havia consenso a respeito da natureza do agente causal da febre amarela. Enquanto a maioria dos especialistas acreditava que a doença era provocada por um vírus, um bacteriologista do Instituto Rockefeller, Hideyo Noguchi, afirmava que era causada por uma bactéria,
    Spirocheta icteroides (Ver Nogueira
    et alii., 1924). A teoria de Noguchi foi invalidada em 1928 por pesquisadores da Fundação Rockefeller que trabalhavam na África (Ver Stokes
    et alii., 1928).
  • 6
    Sobre as atividades da Fundação Rockefeller no Brasil; ver Labra (1985); Castro Santos (1989); Williams (1994); Faria (1995); Gadelha (no prelo). Analisei outros aspectos dos esforços envidados pela Rockefeller para controlar a febre amarela no Brasil (Löwy, 1997a; 1997b).
  • 7
    O acordo com a Fundação Rockefeller foi oficializado através do decreto n
    o 16.000 em 31 de dezembro de 1923.
  • 8
    Um exemplo: em 1923, demitiu-se o diretor do Serviço de Profilaxia Rural na Bahia, órgão vinculado ao Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), que cuidava das medidas sanitárias nas zonas rurais. Tomou a decisão em protesto contra a transformação de seu cargo num posto meramente decorativo, em virtude da intervenção da Rockefeller (Brett, s. d.).
  • 9
    Carta do dr. Henry Carter ao dr. Joseph White, em 14 de fevereiro de 1923. RAC, RG 5, série 1, caixa 73, pasta 1035. Conhecido especialista em febre amarela, o norte-americano Henry Carter foi o primeiro a propor a teoria do foco-chave (Carter, 1931, pp. 18-23).
  • 10
    Wickliffe Rose (primeiro diretor da Junta Sanitária Internacional, 1916-23), notas de uma viagem ao Brasil, 25 de outubro de 1925. RAC, RG 5, série 2, caixa 25, pasta 123.
  • 11
    Relatório da Junta Sanitária Internacional sobre as suas atividades no Brasil, segundo semestre de 1927, RAC.
  • 12
    Carta de Connor a Russel, 28 de abril de 1928. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 20, pasta 158; entrevista de Soper a Hackett,
    op. cit., p. 7. Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 4, pasta 20, pp. 1.170-1.
  • 13
    Esse ponto de vista foi externado, por exemplo, pelo dr. Sebastião Barroso numa conferência na Bahia (Franco, 1969, pp. 96-7). Ver, também, Guimarães (1974)
  • 14
    Fred Soper admitiu em 1960 que o programa de erradicação da febre amarela fora "o mais grandioso fracasso na história da saúde pública" (Cueto, 1995).
  • 15
    Os métodos empregados pelos especialistas norte-americanos para eliminar o
    Aedes aegypti nas cidades, incluindo visitas compulsórias às moradias, inspiravam-se naqueles implementados durante a campanha de Oswaldo Cruz (Ver Cruz, 1972). O general William Gorgas, que chefiou a campanha em Havana (1901), descreveu em 1909 um modelo ideal de campanha altamente repressiva contra o mosquito da febre amarela. Ver Gorgas (1909).
  • 16
    Entrevista de Fred Soper a Lewis Hackett, 17-18 de fevereiro de 1951. RAC, RG 3.1., série 908, caixa 20, pasta 21
  • 17
    Diário de Muench referente a janeiro de 1929. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 44, pasta 253.
  • 18
    Soper afirmou depois que "o dr. Getúlio Vargas foi um pai e uma mãe para o atual serviço de febre amarela" (Diário de Soper, 24 de setembro de 1943. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209; Löwy, 1997b.
  • 19
    Entrevista de Soper a Hackett,
    op. cit., 15-6.
  • 20
    W. H. Frost, memorando (endereçado a Frederick F. Russel, diretor da Divisão Sanitária Internacional) de 19 de junho de 1929. RAC, RG 1.1., série 908, caixa 11, pasta 124.
  • 21
    Bruce Wilson, memorando (endereçado a F. F. Russel) de 21 de julho de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 21, pasta 167. O texto aprovado pelo governo brasileiro (decreto n
    o 21.434 de 23 de maio de 1932) segue a maioria das recomendações de Wilson, mas não menciona mapas ou censos. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 21, pasta 167.
  • 22
    Diário de Soper, anotações feitas em 17 de julho de 1934. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209.
  • 23
    Diário de W. J. Doyle, anotações feitas em 22-23 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 42, pasta 243.
  • 24
    Diário de Soper, anotações em 19 de maio de 1936. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 212.
  • 25
    Embora tal responsabilidade houvesse sido delegada formalmente antes, nunca fora cobrada de maneira eficiente. O decreto n
    o 21.434, de 23 de maio de 1932, diz respeito integralmente a proibições e punições, ao contrário de decretos posteriores e anteriores (decreto n
    o 5.157, de 8 de março de 1904, que estabeleceu os serviços de profilaxia da febre amarela; decreto n
    o 1.975, de 23 de janeiro de 1940, que regulamentou o Serviço Nacional de Febre Amarela; decreto n
    o 56.750, de 20 de agosto de 1965, que estabeleceu as normas técnicas da profilaxia da febre amarela). Os textos dos decretos são reproduzidos em Franco (1969).
  • 26
    Relatório do dr. Morgan, do Ministério da Saúde britânico, RAC, RG 1.1., série 305, caixa 44, pasta 251.
  • 27
    Lewis Wendall Hackett entrevista Fred Lowe Soper, 14 de outubro de 1963, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 7H, pasta 86. 102. A meta passou então a ser a obtenção de índice zero de mosquitos (zero focos a cada cem casas inspecionadas).
  • 28
    Sayer e Lloyd (1931); Soper
    et alii. (1934); Rickard (1937). O diagnóstico histológico de febre amarela fora desenvolvido por patologistas brasileiros, mas quando os especialistas da Rockefeller se convenceram de que estavam em vias de erradicar a febre amarela unicamente pela supressão dos focos-chave, perderam o interesse pelos exames patológicos (Lima, 1921). Análises de rotina de fragmentos do fígado de amarelentos mortos após menos de oito dias de doença foram feitas inicialmente pelas autoridades sanitárias brasileiras no estado do Rio de Janeiro; os especialistas da Rockefeller adotaram-nas no Pará (Diário de Soper referente a junho de 1930. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 207).
  • 29
    É preciso lembrar que a visualização direta do vírus através da microscopia eletrônica só se tornou possível no final da década de 1930, e mesmo então só era viável em centros de pesquisa mais avançados. A partir de 1928, tornou-se possível demonstrar a presença do vírus da febre amarela pela indução de uma doença experimental, mas o único animal suscetível à infecção em laboratório por meio do sangue humano infectado era o
    Macacus rhesus, muito caro para ser usado em diagnósticos de rotina.
  • 30
    Diário de Soper, anotações em 20 de julho de 1934. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 28, pasta 209.
  • 31
    A lista de empregados do serviço de viscerotomia mortos em serviço e as circunstâncias foram registradas no diário de Bruce Wilson, em 8 de janeiro de 1937. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 213.
  • 32
    Entrevista de Smilie a Hackett, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 1, pasta 7; entrevista de Rickards e Kumm a Hackett, RAC, RG 3.1., série 908, caixa 1, pasta 9.
  • 33
    Diário de Soper, anotações em 19 de maio de 1936. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 212.
  • 34
    A descrição de Juazeiro feita em 1931 pelo dr. W. J. Doyle, representante da Fundação Rockefeller em Fortaleza, também contrasta notavelmente com o dramático relato feito pelo dr. Smith em 1927. Ambos registraram a elevada taxa de mortalidade infantil por gastrenterite, mas, ao contrário de Smith, Doyle elaborou uma descrição desapaixonada e trivial da cidade, e descreveu o padre Cícero como grande amigo e partidário da Fundação Rockefeller e como admirador de J. D. Rockefeller (Diário de Doyle, anotações em 6 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 41, pasta 242).
  • 35
    Diário de Soper referente a novembro de 1931 (viagem ao Ceará). RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 207b.
  • 36
    Diário de Doyle, anotações em 3 de fevereiro de 1931. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 41, pasta 242.
  • 37
    Diário de Crawford, anotações feitas em 26-7 de julho de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208d.
  • 38
    Diário de Soper relativo a abril de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208.
  • 39
    Diário de Soper relativo a março de 1932. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 27, pasta 208.
  • 40
    Diário de Soper, 11 de junho de 1935. RAC RG 1.1., série 305, caixa 29, pasta 210.
  • 41
    Diário de Sawyer (excertos), 15 de junho de 1934. RAC, RG 3.1., série 908, caixa 4, pasta 27.
  • 42
    Diário de Soper, 15, 19 e 20 de maio de 1936. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 30, pasta 212.
  • 43
    Diário de Soper, 21 de junho de 1937. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 30, pasta 213.
  • 44
    Diário de Soper, 26 de fevereiro de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216.
  • 45
    Diário de Soper, 25 de fevereiro de 1940. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 32, pasta 216.
  • 46
    Diário de Soper, 20 de maio de 1936. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 30, pasta 212.
  • 47
    A expedição de Fox a Vitória é descrita em seu diário, anotações feitas em 14-20 de junho de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216.
  • 48
    Diário de Holt, 14 de agosto a 4 de setembro de 1940. RAC, RG 3.1., série 305, caixa 32, pasta 216.
  • 49
    Os especialistas da Rockefeller admitiram no final da década de 1940 que era plausível um ciclo de transmissão da febre amarela silvestre no Brasil envolvendo macaco-mosquito
    Haemagogus-macaco. Outros mamíferos (caititu, tatu, tamanduá, marsupiais) e outros insetos sugadores de sangue foram mencionados como candidatos a hospedeiros e vetores da doença. A ocorrência em pássaros não foi provada (Stroder, 1951; Kiple, 1993).
  • 50
    Sobre a política de erradicação, ver Cueto (1995). Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 748-9.
  • 51
    Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 748-9.
  • 52
    Entrevista de Soper a Hackett,
    op. cit., p. 12.
  • 53
    Entrevista de Soper a Hackett,
    op. cit., p. 9.
  • 54
    Notas de Hackett, RAC, RG 3, série 908, caixa 3, pasta 19.1, pp. 750; Soper e Wilson (1942).
  • 55
    Ver memorando ‘Brazil
    Anopheles gambiae control’. RAC, RG 1.1., série 305, caixa 16, pasta 14; Packard e Gadelha (1993); Cueto (1995); Soper (1977). Soper atribuiu o rápido sucesso da campanha de erradicação do
    A. gambiae principalmente ao cuidadoso mapeamento e zoneamento das áreas levantadas, à eficiente distribuição de responsabilidades administrativas e ao meticuloso registro dos resultados. Mais tarde, o sucesso da campanha foi associado também ao fato de visar um mosquito africano importado para o Brasil no final da década de 1920, portanto precariamente adaptado a seu novo nicho ecológico.
  • 56
    Ver Soper (1965). Soper foi um dos arquitetos da campanha da Organização Mundial de Saúde (OMS) visando a erradicação da malária em escala mundial pela aplicação do DDT no interior das casas. Sobre esta campanha e o papel que teve o seu fracasso na reorientação da política da OMS a partir da década de 1970, ver, por exemplo, Siddiqui (1995).
  • 57
    Franco (1969, pp. 152-6); entrevista com o dr. José Fonseca da Cunha no âmbito do projeto
    Memória de Manguinhos, dirigido por Nara Brito e Wanda Hamilton (Arquivos da Casa de Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro). Segundo os especialistas em saúde brasileiros, a densidade de
    Aedes aegypti não é muito elevada e não é suficiente para provocar uma epidemia urbana de febre amarela.
  • 58
    Soper (1997, pp. 353-5). Cabe registrar que em 1905 a suprema corte brasileira legislou contra o direito dos agentes sanitários de inspecionar o interior das residências privadas em busca de mosquitos
    Aedes aegypti. Carta de Émile Roux (diretor do Instituto Pasteur de Paris) a Paul Simond (chefe da missão do Instituto Pasteur ao Rio de Janeiro), 20 de março de 1905. Papéis de Simond, caixa Sim-4, Arquivo do Instituto Pasteur. Esta decisão foi revogada posteriormente.
  • 59
    Soper (1977, p. 357) protestou contra a atitude do governo norte-americano, já que transferia o ônus do dispendioso controle do
    Aedes aegypti aos países pobres.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jan 2004
  • Data do Fascículo
    Fev 1999

Histórico

  • Recebido
    Jul 1996
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