Uma visão possível da natureza do mundo

RESENHAS

Uma visão possível da natureza do mundo

Paulo Margutti Pinto

Professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE/MG). paulomargutti@terra.com.br

LUFT, Eduardo. Sobre a coerência do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

Na linha de investigações do Grupo de Trabalho de Dialética da ANPOF (Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia), o Professor Eduardo Luft, da PUCRS, nos oferece este pequeno livro, em que apresenta algumas das conclusões mais importantes de suas pesquisas nessa área.

No prefácio, Luft promete ao leitor que tentará fazer uma inversão da perspectiva segundo a qual o eu e as coisas constituem dois mundos antagônicos e isolados, para assim oferecer uma nova perspectiva em seu lugar, mostrando que uma forma supreendente de racionalidade rege o universo. Essa tarefa será realizada nos três capítulos em que se divide o livro.

No primeiro, que trata da dizibilidade do mundo, Luft argumenta que a filosofia interroga a totalidade, a partir de uma perspectiva capaz de integrar os múltiplos saberes em um único saber abrangente. Para efetuar essa tarefa, a filosofia investiga o mundo do ponto de vista dos seguintes três aspectos fundamentais: a inteligibilidade, a totalidade e a integridade. Isso significa que a filosofia se subdivide em três disciplinas, que formam o núcleo dos três capítulos do livro de Luft: a metafísica da inteligibilidade, a da totalidade e a da integridade. Assim, para atingir os objetivos do primeiro capítulo, que trata da inteligibilidade do mundo, Luft volta suas armas inicialmente contra os céticos que alegam não ser possível conhecer o mundo em sua totalidade. Segundo o autor, nenhuma das dúvidas céticas conduz de fato à tese da impossibilidade desse conhecimento. O máximo a que elas obrigam é aceitar o seu caráter problemático. Embora não disponhamos de uma razão última para nossas convicções, ao menos temos boas razões, abertas a novos questionamentos. A tese cética, segundo a qual nossas percepções e perspectivas sobre o mundo são todas relativas, tem de enfrentar um dilema intransponível. Por um lado, se ela é consistente, envolve a admissão de que também é afirmada a partir de uma perspectiva e por isso não pode levantar dúvidas a respeito das outras perspectivas. Por outro, se ela pode ser afirmada, envolve a pressuposição de que existe um ponto de convergência entre as diversas perspectivas, ponto este cuja universalidade implica a rejeição do relativismo. Ora, a perspectiva universal efetivamente existe e é pressuposta pela tese cética, que refuta a si mesma. Assim, se é possível um jogo de linguagem universal, para além dos jogos particulares, então deve haver um modo de organização universal, comum a todas as formas possíveis de discurso. Mas as inúmeras lógicas particulares, como as trivalentes, por exemplo, não revelam a natureza universal do discurso. Para descobrirmos a sua estrutura profunda, sua lógica universal, teremos de buscar mais fundo. Embora a variabilidade das formas regionais de discurso ofereça um novo alento ao ceticismo, a refutação deste deve adotar o procedimento de levá-lo às suas últimas conseqüências, até que se converta não em seu contrário, o dogmatismo, mas numa posição mais elevada e rica que ambos, o criticismo. Esse último envolve um padrão de avaliação de seu próprio discurso. Há uma norma universalíssima, que exige a coerência entre o discurso e seu padrão de avaliação. Essa norma, que Luft denomina Princípio de Coerência, se aplica inclusive às lógicas regionais e constitui o princípio de organização pressuposto por toda e qualquer forma de discurso. Contra essas conclusões de Luft, o cético ainda poderia argumentar que, mesmo existindo um discurso universal, a esfera do dizível não abrange o mundo, ou seja, não podemos conhecê-lo em si mesmo. Estamos aqui diante de uma objeção do filósofo kantiano, para o qual existe um limite intransponível que separa a esfera da subjetividade universal da esfera do mundo em si mesmo. Ora, a refutação dessa nova forma de ceticismo funciona de maneira análoga à da refutação do relativismo. Com efeito, se, por um lado, a tese do nosso enclausuramento na sensibilidade é verdadeira, então a realidade exterior deixa de ser um problema e a dúvida sobre sua existência ou sua inteligibilidade não pode ser colocada. Por outro lado, se a afirmação dessa dúvida é possível, então a esfera do discurso foi ampliada para conter também o mundo em si mesmo, e o suposto limite entre as duas esferas acima mencionadas se rompe. Isso significa que a totalidade do dizível inclui não apenas o discurso humano, mas também a totalidade dos eventos atuais e possíveis. Nas palavras de Luft: "a totalidade do dizível é co-extensiva ao próprio mundo, e a seu princípio de organização" (p. 36). Os eventos do mundo podem ser expressos pela linguagem justamente porque participam de um princípio universal de inteligibilidade, o Princípio de Coerência. Isso não significa, contudo, que Luft esteja defendendo a existência de um saber absoluto. A vitória estabelecida contra o ceticismo não cortou pela raiz todas as formas possíveis de ceticismo, inclusive as futuras. A própria dizibilidade universal do mundo o torna opaco a uma investigação sobre sua natureza profunda. Se tudo no universo pode ser dito, a causa de nossos erros não está na carência do dizível, mas em seu excesso. Para sabermos, então, se um avanço no conhecimento exige a substituição da perspectiva atual por uma nova, temos de recorrer ao criticismo, que reconhece o inerente caráter problemático de nosso acesso ao mundo. Desse modo, devemos nos manter em estado de permanente prontidão com respeito à evolução do saber. O que Luft pretende é oferecer ao leitor uma visão possível da natureza do mundo, uma visão da qual ele tem se aproximado pela sua via pessoal, para que o leitor a avalie a partir de sua própria evolução intelectual.

No segundo capítulo, que trata da coerência do mundo, Luft argumenta que, se o filósofo deseja compreender o mundo, deve concentrar sua atenção no cerne do Todo, ou seja, no seu princípio organizador, que é o Princípio da Coerência. Luft procura demonstrar aqui que esse princípio corresponde à dialética do uno e do múltiplo: a coerência é a unidade de uma multiplicidade ou a multiplicidade de uma unidade. Para justificar essa perspectiva, Luft retorna às origens da filosofia e reavalia uma discussão metafísica fundamental, que envolve um confronto entre o Ser de Parmênides, o Nada de Górgias e o Aparecer de Pirro. Parmênides, que antecipa Aristóteles na compreensão forte do princípio de contradição, pensa que o mundo deve ser coerente e que essa coerência não pode ter defeitos. Para ele, a coerência é a unidade, de modo que o mundo tem de ser o Uno indistinto, imutável e eterno, que exclui tudo aquilo que lhe seja estranho, toda a multiplicidade. Se há algum domínio do aparecer, ele deve ser ilusório. O pensamento é idêntico ao ser. Os argumentos de Zenão, discípulo de Parmênides, foram construídos para comprovar as idéias do mestre através do método de redução ao absurdo. Se o ser é uno, então o movimento é uma ilusão. Para demonstrar isso, Zenão aceita como premissa a tese de que o movimento existe e procura extrair dela conseqüências inaceitáveis. Em suas demonstrações, Zenão nos convida a considerar os eventos do ponto de vista do pensamento conceitual rigoroso, deixando de lado a precariedade dos sentidos. Contra essa perspectiva ergue-se Górgias, para quem a crença na ordem e na coerência do mundo é insustentável. Se Zenão consegue provar a impossibilidade da presença da multiplicidade no mundo, então fica também provada a impossibilidade do Uno. Com efeito, se o ser é uno, ele precisa ser algo determinado, o que envolve multiplicidade. Ora, essa última supõe a presença de novas unidades, cada uma delas envolvendo uma nova multiplicidade. Isso acarreta um inaceitável regresso ao infinito. Para evitá-lo, é preciso supor que, em algum ponto do processo, será alcançada uma unidade absolutamente simples. Mas uma unidade desse tipo é inteiramente indeterminada, um verdadeiro nada. Seria absurdo concebê-la. Logo, Zenão, inadvertidamente, refuta a si mesmo, ao refutar o movimento. O fundamento da filosofia de Górgias está na multiplicidade sem unidade subjacente: não há coerência no mundo. Mas o retórico Górgias enfatiza o poder das palavras para persuadir os interlocutores e isso não condiz com a radicalidade de suas teses. Se podemos comunicar algo aos outros, o discurso se revela uno, em oposição à multiplicidade afirmada. Para extirpar esse resíduo de dogmatismo, o cético Pirro declara que não podemos ter opinião verdadeira ou falsa sobre as coisas, uma vez que elas são imensuráveis e indiscrimináveis. Aqui, o real se torna o reino do puro aparecer, um aparecer radical e universal que só se refere a si mesmo. Pirro nada mais é do que um Górgias levado às últimas conseqüências. Para resolver esse dilema, Luft argumenta que a natureza do pensamento é idêntica à natureza do ser e corresponde ao Princípio da Coerência. Em virtude disso, Ser e Aparecer são dois modos de manifestação da razão do mundo. Não é possível tratar o Múltiplo sem o Uno e vice-versa. A metafísica que compreende o mundo a partir da tensão de elementos simultaneamente opostos e complementares é a Filosofia Dialética, perspectiva adotada por Luft em seu livro. Isso envolve a constatação de que o Princípio de Coerência admite a possibilidade de incoerências, desde que inseridas no processo de sua superação. Assim, dota o mundo de uma teleologia imanente, à qual está associada uma teoria objetiva dos valores. Essa leitura do Princípio de Coerência tem implicações sobre a nossa maneira de conceber a eternidade e a historicidade do mundo.

No terceiro capítulo, que trata da integridade do mundo, Luft caminha em direção a um modelo de ética que vai para além do antropocentrismo. Com esse objetivo, o autor estabelece um debate com Fichte, que considera o filósofo da modernidade por excelência. No pensador alemão, encontra-se o pressuposto central da autopercepção do sujeito moderno, segundo o qual toda suposta exterioridade nada mais é do que mero reflexo do processo de autoconhecimento do sujeito. Essa autocompreensão da modernidade precisa ser superada, pois somente modelos não-antropocêntricos da ética podem dar conta da problemática contemporânea. Até as éticas centradas no discurso, como as de Apel e Habermas, apresentam deficiências, pois ainda se baseiam num idealismo intersubjetivo que não supera os limites de uma filosofia centrada no ser humano. Ora, o Princípio da Coerência nos oferece uma saída para esse impasse, pois nos mostra que os sistemas que conseguem se consolidar no universo são autodeterminados, direcionados para a preservação da coerência consigo mesmos. Isso envolve a priorização de um estado por parte desses sistemas, e priorizar é gerar valor. Assim, o estado de integridade priorizado constitui um bem, ou mais exatamente, um bem primeiro, do qual dependem todas as demais prioridades do sistema, que constituem bens segundos. E a preservação da integridade de qualquer sistema pressupõe e é condicionada pela preservação da integridade do sistema do mundo. Desse modo, a integridade do mundo é um bem primeiríssimo, o bem absoluto. Para mostrar que essa nova perspectiva ética não está contaminada pela falácia naturalista, que salta do ser para o dever-ser, Luft argumenta que a Ética não surge como um mero acréscimo às Metafísicas da Natureza e da Lógica, mas que a integridade, a totalidade e a inteligibilidade são três aspectos inseparáveis do próprio mundo, que é perpassado desde sempre por uma ordem de valores. O Princípio de Coerência é uma fonte eterna de uma axiologia objetiva. Podemos derivar desse princípio duas hierarquias de bens primeiros. A primeira decorre do fato de que os sistemas mais íntegros têm prioridade sobre os menos íntegros. Assim, um coelho possui mais valor que uma formiga e esta, mais valor do que uma bactéria. Essa hierarquia por densificação tem uma outra formulação: quanto mais rica a subjetividade inerente a um sistema, tanto maior o seu valor. Isso significa que a subjetividade, ou seja, a razão ou inteligência pervade o universo. Nossa própria presença no mundo só pode ser explicada dessa maneira. A segunda hierarquia decorre da contribuição de cada sistema para a promoção da integridade dos diversos níveis sistêmicos, levando-se em conta a dialética do Uno e do Múltiplo. Um sistema é tanto mais valioso quanto maior for a sua contribuição positiva para a integridade em questão. A hierarquia por densificação se refere ao valor intrínseco dos sistemas, enquanto a hierarquia por contribuição se refere ao seu valor instrumental. Ao lado dos eventos que contribuem para a preservação da integridade do todo, há outros que produzem o efeito contrário e são por isso denominados eventos anti-sistêmicos, como, por exemplo, o roubo. A investigação desses eventos é um bom modo de compreender a inexorabilidade do Princípio de Coerência no universo. Avançando mais em seu raciocínio, Luft argumenta que liberdade é a capacidade de um sistema de variar internamente sem entrar em colapso. Há uma liberdade pré-reflexiva e espontânea na natureza, a partir da qual surge o agente ético em sua liberdade reflexiva. Todavia, ao contemplar o mundo de uma perspectiva universal, ficamos paralisados pelos paradoxos encontrados. Por exemplo, o ponto de vista da presa está em conflito com o ponto de vista do predador. Isso produz no observador universal a sensação dolorosa da incoerência em um mundo que sofre diante de seus olhos. A fim de proporcionar um bálsamo para a dor no mundo, costumamos apelar para aquilo que Luft denomina ilusão do incondicionado e que tem duas formas. De acordo com a primeira, somente o valor absoluto pode ser considerado valor no sentido estrito do termo, o que implica a fuga do mundo. De acordo com a segunda, o conhecimento do absoluto deve corrigir as deficiências éticas do mundo, implicando trazer-lhe "o absoluto". A primeira forma de ilusão do incondicionado ignora o fato de que um bem não absoluto ainda é um bem e que o verdadeiramente absoluto se manifesta apenas no todo e não nas suas partes. A segunda forma de ilusão do incondicionado tenta substituir nossa frágil vida comum por uma ética efetivamente rigorosa a ser imposta aos demais e constitui, por isso, a mais perigosa forma de desvirtuamento da ética. Para Luft, o absoluto não é incondicionado, mas autocondicionado. Absolutidade e relatividade são duas faces da mesma moeda, o mundo em que vivemos. Nessa perspectiva, o sentido último da ação de cada indivíduo está na sua contribuição ao curso universal, o movimento para a coerência cujo cume está na realização da integridade do mundo. A ação do homem ético espelha a integridade do mundo.

Cada capítulo do livro de Luft vem acompanhado de um esclarecimento da terminologia utilizada, bem como de um resumo das principais idéias defendidas. Isso torna o trabalho do leitor muito mais fácil e permite um diálogo mais completo com o autor.

Partilhando outra linha de pensamento, não concordo com muitas das teses de Luft, embora esteja de acordo com o espírito em que apresenta seu resultado final e admire sua coragem em expor idéias próprias num país em que predominam os exegetas. Pessoalmente, vejo o conhecimento humano como um conjunto de conjeturas sobre o mundo, conjeturas estas cujo alcance é limitado pelo avanço tecnológico da época histórica em que são formuladas, o que significa que a totalidade a qual podemos abarcar atualmente é contingente e sujeita a retificações. Assim, embora não seja um dos céticos que alegam enfaticamente não ser possível conhecer o mundo em sua totalidade, penso que o conhecimento presentemente disponível acerca do universo ainda não envolve uma "totalidade" em sentido tão ambicioso como quer Luft. Além disso, aceitar o caráter problemático do conhecimento implica assumir uma postura falibilista que não condiz com a admissão desse tipo de totalidade nos termos metafísicos de Luft. A perspectiva universal pressuposta por Luft em sua refutação da tese cética também poderia não ser universalíssima, mas apenas corresponder ao grau de generalização que conseguimos atingir em nosso momento histórico, tornando a dialética do Uno e do Múltiplo, que o Princípio de Coerência impõe ao universo, uma conjetura entre outras.

Ora, apesar de caminhar numa direção bastante diferente, predominantemente metafísica, esse é o estatuto que Luft termina por estabelecer para seu discurso criticista, ao reconhecer que a causa de nossos erros não está na carência do dizível, mas em seu excesso, e ao oferecer ao leitor uma visão possível da natureza do mundo, através da análise da sua dizibilidade, da sua coerência e da sua integridade. Nessa visão, destaca-se a tentativa muito original de fundamentar, através do Princípio de Coerência, uma ética "cósmica", de caráter não-antropomórfico, sem cair na tradicional falácia naturalista de Moore. Trata-se de uma perspectiva transdisciplinar de inspiração neo-hegeliana, no espírito de seu mestre Carlos Cirne Lima, a qual Luft expõe com coragem e clareza, articulando de maneira sistemática um complexo de conceitos difíceis de manipular, num país em que é raro esse tipo de produção. Aqui, Luft defende uma das teses mais controversas de seu livro, ao afirmar que os seres vivos podem ser escalonados de acordo com uma hierarquia de valores. Com efeito, a abordagem sistêmica parece ser mais compatível com a existência de redes relacionais, baseadas na solidariedade das partes, do que com o estabelecimento de hierarquias. Como pode, por exemplo, uma bactéria ser hierarquicamente inferior a um ser humano, se ela vive em simbiose com ele em seu intestino? Em outras palavras, como pode ela ter menos valor que o ser humano, se este último não pode sobreviver sem ela? A mensagem da ecologia profunda vai em direção contrária à de Luft: na rede de relações entre os seres vivos na biosfera, ninguém tem mais valor do que ninguém, porque todos colaboram para o mesmo fim, que é a preservação do ecossistema. Em que pese o caráter controverso desta e de outras teses apresentadas, o livro merece ser lido, pois constitui um convite à investigação filosófica, uma janela aberta para o leitor penetrar e participar da aventura intelectual vivida por Eduardo Luft.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Fev 2007
  • Data do Fascículo
    Dez 2006
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