“Carta de uma orientadora”, escrita por Débora Diniz (2024): um livro necessário, quiçá urgente. Uma obra que faz nascer flores em um solo, não raras vezes, tão pedregoso e ressecado, como é o da academia. Devo começar por dizer que evitei advérbios e adjetivos totalizantes ao falar do solo acadêmico, porque Débora, delicadamente, assim me ensinou em seus escritos. Ela delineia bem esse solo, reconhece a existência do que chama de “desencontros” na trajetória acadêmica, mas faz com que a gente adquira ferramentas paras superá-los profissional e emocionalmente.
A autora é uma “indisciplinada acadêmica,” como ela mesma se intitula, uma vez que afirma não acreditar nas fronteiras entre os campos. Tem formação em Ciências Sociais e verdadeira paixão pela etnografia. É antropóloga, doutora e professora, dessas que exercem a docência com base no conceito freiriano de amor pelo ofício e de realizá-lo com compromisso e sensibilidade (Freire, 2020). Tem predileção por orientar e é sempre absorvida pelo entusiasmo das pesquisadoras neófitas e pelo novo mundo de possibilidades e aprendizado mútuo que sempre desponta no começo de um novo projeto. Certamente, isso a inspirou a escrever o livro em comento.
Ao escrever, dirige-se às pretensas orientandas de forma epistolar, desfazendo-se de qualquer toga que lhe confira poder ou arbitragem na posição que ocupa, muito pelo contrário, ela nos exorta a sermos autônomas, pensantes, autoras, parceiras. Desmistifica, portanto, as relações verticais de poder e nos convida a, juntas, percorrermos os caminhos das descobertas, do aprendizado, da criação e dos novos dizeres. No entanto, recomenda que o façamos com muita responsabilidade e compromisso com a ciência. Por isso, Débora é afetuosa e doce em suas palavras, mas, ao mesmo tempo, criteriosa e responsável com cada tema que aborda.
A obra traz um estilo de escrita próprio da autora - ela escreve no feminino - e nele, você, mulher, é convidada a insurgir-se com muita solidez, sem temer regras patriarcais ou do senso comum. O texto é feminista e corajoso! Questiona um formato de fazer ciência imposto pelo patriarcado, que silencia e obstaculiza a produção científica conduzida por mulheres, e se dirige às orientandas, escritoras e autoras de uma forma tão humana e inclusiva que nenhum pesquisador deveria se sentir excluído, ainda que fizesse parte do sexo masculino. Caso isso acontecesse, tal pesquisador teria uma reflexão a fazer.
O livro percorre várias situações que podemos vivenciar no campo da pesquisa e aborda temas melindrosos com tamanha propriedade que é capaz de desfazer amarras, travas e bloqueios. Certamente, as autoras que o leram se sentiram acolhidas quando se trouxe à baila temas como procrastinação, idealismo inatingível, genialidade, síndrome da impostora, arrogância acadêmica, assédios, arbitrariedades etc. O que chamou minha atenção é que a autora menciona os desencontros, mas sempre mostrando caminhos alternativos e formas de superarmos esses eventuais dissabores.
Durante a leitura, foi impossível não lembrar de Angela Davis (2019) aludindo ao poder de emancipação por meio da coletividade e de bell hooks (2021) falando do amor ativo em comunidade. Débora nos aconselha a trabalhar em grupo, a desenvolver o senso de coletividade, a fugir da individualidade, da solidão, da busca pela genialidade e pela exclusividade, tão perseguidas por alguns acadêmicos. Ela desfaz o bloqueio paralisante do anseio pelo ideal inatingível, aconselhando-nos a adquirir autoconhecimento: do próprio ritmo, do próprio tempo e das próprias capacidades. Ou seja, você pode escrever o seu melhor texto, dando o seu melhor e usando suas melhores faculdades a seu favor.
Débora inclui, em uma área predominantemente excludente, pesquisadoras que não tiveram todos os aparatos necessários para desenvolver uma pesquisa que exige tempo e conhecimento de vários idiomas e métodos. Ela reconhece o quanto o patriarcado controlou por muito tempo as oportunidades e as possibilidades no campo acadêmico. Diante dessa realidade, ela encoraja, mostrando caminhos possíveis e percorríveis, porque sabe que existem mulheres, mães, negras, periféricas, cuidadoras e trabalhadoras que, desde a infância, não puderam se dedicar com total esmero à ciência, mas que anseiam ocupar espaços que lhes são de direito na comunidade científica do Brasil e do mundo. Débora acolhe, convida e empodera essas mulheres que um dia podem não ter tido vez e voz em uma área predominantemente misógina, racista, transfóbica, capacitista, regionalista e elitista.
Considerando a era digital na qual estamos inseridos, com muita cautela e senso crítico, a obra em comento facilita algumas plataformas de inteligência artificial, mas sempre evidenciando o cuidado que se deve ter ao usar essas ferramentas, as quais devem ser utilizadas de forma ponderada, sem esquecer nossa responsabilidade como autoras com critério, senso crítico e originalidade.
Por falar em originalidade, é imprescindível a leitura da obra para entender sobre “rabiscos, fichamentos e memorandos”, sobre evitar os plágios pastiches e as réplicas mal reproduzidas em nossos textos originais. Débora é didática e criteriosa nesse sentido, praticamente pegando em nossas mãos e nos ensinando sobre como fazer uma paráfrase original e trazer para os nossos trabalhos as ideias dos autores que dialogam com eles, mas sem copiá-los, ainda que despretensiosamente. Ela nos ensina a fazer o que chama de “resumo analítico da fonte”. Isso pode ser um divisor de águas para muitos no saber fazer pesquisa e no construir novas rotas de conhecimento.
O livro fornece o que seriam as “regras do jogo” na seara acadêmica, como também a importância da ética nesse meio. Para além de um manual ou guia metodológico, as orientações abordam temas práticos, como a livre escolha do tema, contanto que sejam observadas a especificidade e a clareza no problema de pesquisa. E, o mais importante: a autora suscita reflexões concernentes à esfera política, à razão de ser do objeto de pesquisa e ao comprometimento das produções intelectuais.
Mas o livro é, sobretudo, um abraço e um encorajamento! Um “comece do seu jeito, seja criativa, não se renda ao medo e não procrastine em função deste”. “Seja simples, e veja sentido nessa simplicidade; defenda suas ideias com argumentações bem fundamentadas, mas não necessariamente rebuscadas e cheias de, me atrevo a dizer, pseudointelectualismo. Leia! Leia bastante, crie, explore, descubra, renda-se aos encantos do mundo da pesquisa e das descobertas! Questione-se! Inquiete-se! Faça o novo!”
Por fim, é um livro que te acompanha e te reconfigura por dentro, desde os seus primeiros passos na pesquisa, na escolha do problema, do método, no contato inteligente com as fontes, nos caminhos percorridos para construir um texto científico, até o dia da sua apresentação, seja de um trabalho de graduação, mestrado ou doutorado. Eu diria que, para além desses títulos, é um livro atemporal sobre como escrever ciência, que faz com que nos reconheçamos como “aprendizes que se emocionam com a pesquisa, que se encantam com a escrita e se conectam com a coletividade” (Diniz, 2024, p. 24).
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Como citar este artigo:
BENTES, Marilize da Silva. Carta-resposta de uma orientanda: sobre encantamento e revolução. Revista Brasileira de Educação, v. 31, e310034, 2026. https://doi.org/10.1590/S1413-24782026310034
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Financiamento:
O estudo não recebeu financiamento.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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Editor/a responsável:
Edla Eggert https://orcid.org/0000-0002-1980-7053
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
