Open-access A história oral como ferramenta didática no ensino de história Memórias alimentares e curativas de uso dos cactos e das bromélias em Boqueirão, Paraíba (2008-2023)

Oral history as a didactic tool in the teaching of history Food and healing memories of the use of cacti and bromeliads in Boqueirão, Paraíba (2008-2023)

RESUMO

Este artigo investiga o uso da História Oral como ferramenta didática na pesquisa histórica entre 2008 e 2023, com destaque para uma experiência realizada em 2023 junto a estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da rede pública do município de Boqueirão-PB. O estudo aborda memórias alimentares e curativas relacionadas ao uso de cactos e bromélias, problematizando como a escola pode contribuir para a formação da consciência histórica acerca do Semiárido brasileiro. Argumenta-se que o estudo dessas memórias favorece a segurança alimentar e a diversidade nutricional, valoriza as propriedades curativas das plantas da Caatinga, contribui para o enfrentamento das mudanças climáticas e possibilita reflexões sobre os problemas de saúde associados à alimentação. Para acessar e analisar essas memórias, adotou-se a metodologia da História Oral. Os resultados indicam que a História Oral constitui uma ferramenta política de educação pela pesquisa, relevante no contexto escolar, capaz de enfrentar desafios socioambientais, promover alternativas sustentáveis e dar visibilidade às propriedades curativas das plantas nativas da Caatinga.

PALAVRAS-CHAVE
história oral; cactos; bromélias

ABSTRACT

This article investigates the use of Oral History as a didactic tool in historical research between 2008 and 2023, with emphasis on an experience carried out in 2023 with students in the Early Years of Elementary School in the public school system of the municipality of Boqueirão-PB. The study addresses food and healing memories related to the use of cacti and bromeliads, problematizing how the school can contribute to the formation of historical awareness about the Brazilian semi-arid region. It is argued that the study of these memories favors food security and nutritional diversity, values the healing properties of Caatinga plants, contributes to coping with climate change and enables reflections on the health problems associated with food. To access and analyze these memories, the methodology of Oral History was adopted. The results indicate that Oral History is a political tool for education through research, relevant in the school context, capable of facing socio-environmental challenges, promoting sustainable alternatives and giving visibility to the healing properties of native plants of the Caatinga.

KEYWORDS
oral history; cacti; bromeliads

INTRODUÇÃO

Este artigo1 investiga o uso da História Oral como ferramenta didática na pesquisa histórica entre 2008 e 2023, com destaque para uma experiência realizada em 2023 junto a estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental da rede pública do município de Boqueirão-PB. O texto explora memórias da comunidade escolar de Boqueirão relacionadas às práticas alimentares e curativas derivadas do uso de cactos e bromélias.

O estudo investiga de que maneira as práticas associadas ao uso dos cactos e das bromélias se integraram às experiências dietéticas e curativas dos habitantes de Boqueirão. Analisa, ainda, como a escola, por meio da História Oral, pode contribuir para a formação da Consciência Histórica acerca do Semiárido brasileiro? O trabalho problematiza e desnaturaliza discursos que vinculam essas práticas à fome, à miséria, à pobreza e ao exótico (Castro, 1959, 1984; Cascudo, 1983; Moura, 1970; Revista Veja, 1983; 1998; Programa MasterChef Brasil, 2022; Programa Mais Você, 2023).

Esta pesquisa também argumenta que o estudo e a aprendizagem histórica dessas memórias contribuem para a segurança alimentar e a diversidade nutricional de forma sustentável (ONU, 2015), valoriza os usos das propriedades curativas das plantas da Caatinga2, refletindo sobre questões de saúde relacionadas à alimentação e seus impactos nas mudanças climáticas, e serve como base para futuras pesquisas, especialmente na área das Ciências Humanas, com ênfase no uso da História Oral no ensino de História.

O espaço desta pesquisa é o município de Boqueirão, localizado no Cariri Paraibano, a 170 quilômetros da capital, João Pessoa (IBGE, 2022). Conforme o portal oficial do município, Boqueirão foi fundado por volta de 1664/65, por Antônio de Oliveira Lêdo3 e integra a região do semiárido.4 O recorte temporal, que contempla o período de 2008 a 2023, justifica-se pelo fato de que, em 2008, utilizamos pela primeira vez a História Oral como metodologia de investigação para acessar as memórias dos depoentes de Boqueirão sobre o uso dos cactos e das bromélias na década de 1950. Essa pesquisa foi desenvolvida para a produção do Trabalho de Conclusão de Curso de História da Universidade Estadual da Paraíba.

Adotamos 2023 como parâmetro temporal para analisar a manifestação dessas práticas no cotidiano dos boqueirãoenses. O período corresponde à última coleta de dados do doutorado em História pela Universidade Federal de Pernambuco, realizada com base na História Oral sobre os usos dos cactos e das bromélias no ensino de História. As memórias levantadas foram também empregadas como ferramenta política para refletir e enfrentar os problemas socioambientais contemporâneos. A seguir, apresentam-se imagens das espécies cactáceas e bromeliáceas evocadas nas memórias utilizadas nesta pesquisa.

Segundo Joel Candau (2019), somos a nossa memória e, por meio da retrospecção, reunimos os fragmentos do passado para compreender e encarar o presente. Da mesma forma, os sujeitos desta pesquisa reuniram, dentro e fora do espaço escolar, suas memórias sobre os usos dos cactos e das bromélias. Essa articulação permitiu que, no ensino de História, tais lembranças se transformassem em objeto de problematização, favorecendo a reflexão crítica sobre os desafios socioambientais da contemporaneidade.

Compartilhamos da concepção de que a realidade é o processo contínuo de produção de verdades (Deleuze; Guattari, 1995). Nesse contexto escolar, a partir do campo do ensino de história, adotamos a metodologia da História Oral, em duas dimensões complementares. A primeira, como pesquisa, legitima os relatos orais como fontes históricas, orientando coleta, análise e interpretação. A segunda, como ferramenta didática, aproxima os estudantes da rede municipal de Boqueirão de narrativas e memórias sobre sujeitos e espaços do bioma Caatinga, enriquecendo o aprendizado.

Figura 1
: Cactáceas

Figura 2
: Bromeliácea

As fontes orais da pesquisa foram produzidas em diferentes momentos da trajetória acadêmica. Em 2008, no âmbito do Trabalho de Conclusão de Curso de História da Universidade Estadual da Paraíba, realizaram-se oito entrevistas. Em 2021, durante a Dissertação de Mestrado em História da Universidade Federal de Campina Grande, o número foi ampliado para 31 entrevistas. Já em 2023, no contexto da Tese de Doutorado em Ensino de História da Universidade Federal de Pernambuco, foram conduzidas 68 entrevistas. No total, a pesquisa reuniu 107 entrevistas, das quais 68 em 2023, sendo 11 conduzidas pelos estudantes da rede municipal de Boqueirão.

Todas as entrevistas seguiram um roteiro previamente elaborado e foram transcritas integralmente, preservando a forma como os entrevistados relataram suas experiências. Os participantes tiveram seus nomes substituídos por fictícios e foram informados, manifestando concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. No caso dos estudantes que realizaram entrevistas durante a oficina de uso da História Oral, enfatizou-se o compromisso com a ética de pesquisa, a ser trabalhada desde os Anos Iniciais, assegurando rigor científico e formando pesquisadores comprometidos com a produção responsável do conhecimento histórico.

Entre os municípios que compõem o Semiárido brasileiro, escolhemos Boqueirão pela existência de uma literatura significativa que apresenta “registros sensíveis de uma percepção do mundo” (Pesavento, 2008, p. 17) sobre os usos dos cactos e das bromélias. Autores como Pessoa (2005), Lima Júnior (2006), Machado (2013), Silva (2008, 2021, 2024), Silva e Oliveira (2024), Silva, Oliveira e Bertini (2021), além de moradores locais que participaram desta pesquisa, destacaram a importância dessas plantas para a formação histórica e cultural da região. As atividades escolares envolveram estudantes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que acompanharam todas as etapas de produção e realização das entrevistas com o apoio das professoras responsáveis.

Este artigo organiza-se em quatro partes: a primeira discute conceitos da História Oral e do gênero entrevista, aplicados ao projeto sobre o bioma Caatinga na rede de ensino de Boqueirão; a segunda analisa a História Oral e a entrevista na pesquisa histórica, com base nos livros didáticos da rede municipal; a terceira descreve a produção das entrevistas, incluindo roteiro, escolha do tipo de entrevista e dos entrevistados, o agendamento e condução pelos estudantes; e a última seção aborda transcrição, socialização e análise das experiências e depoimentos.

A HISTÓRIA ORAL NAS TRAMAS DA CAATINGA NA COMUNIDADE ESCOLAR DE BOQUEIRÃO

Para Rüsen (2007, p. 95), a História deve servir aos sujeitos “para fins de orientação de sua própria vida prática, de afirmar-se como instância de legitimação dos modos práticos de viver”. Nessa perspectiva de orientação para a vida prática, o projeto sobre o bioma Caatinga foi amplamente orientado para a vida prática pela oralidade. Como observa Giard (2019, p. 338), “a oralidade está em toda parte, porque a conversação se insinua em todo lugar”.

Inspirados nos conceitos de Encontro de Espinosa (2009), entendido como relação que afeta os sujeitos, aumentando ou diminuindo sua potência de existir, e de Experiência de Larrosa (2019), concebida como aquilo que toca, passa e deixa marcas, a conversação do projeto “Cactos e Bromélias: O Sabor e a Saúde da sustentabilidade do bioma Caatinga” ocorreu entre agosto e dezembro de 2023, em 30 encontros de quatro horas cada.

Os encontros foram realizados em diferentes lugares da comunidade Moita (aula de campo), tendo como ponto de apoio a Escola Francisco Ozias de Normandia. Nessa unidade de ensino, as turmas são organizadas de forma multianuais: Pré-I e Pré-II da Educação Infantil; 1º e 2º anos do Ensino Fundamental; e o 3º e o 4º anos do Ensino Fundamental. No total, participaram 29 estudantes do 1º ao 4º ano (6 do 1º, 6 do 2º, 10 do 3º e 7 do 4º).

Considerando que a educação deve abranger todos os sujeitos presentes na unidade escolar, as atividades de campo, colagem, culinária e produção de remédios caseiros também integraram os 14 estudantes da Educação Infantil. Eles participaram do processo educativo de conversação sobre o uso dos cactos e das bromélias – ver, tocar, cheirar, ouvir, produzir e degustar os alimentos e remédios e explorar os espaços do município de Boqueirão.

De acordo com a BNCC (2018), a oralidade, tanto na Educação Infantil quanto nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, é uma prática essencial para o desenvolvimento da comunicação, da escuta ativa, da interação social e da construção de sentidos. Nesse cenário, vivenciar a oralidade nessas etapas de ensino, orientada para a vida prática no bioma Caatinga e fundamentada na História Oral, mostra-se socialmente relevante para a formação da consciência histórica sobre o Semiárido brasileiro.

No primeiro encontro do projeto, pautado em Lévy Vygotsky (2007), a finalidade consistiu em sondar o nível de conhecimento dos estudantes sobre o bioma Caatinga. Para isso, foram utilizadas a apresentação física das plantas e imagens dos sujeitos envolvidos na pesquisa. A partir dessas estratégias, buscou-se promover aprendizagens por meio de intervenções pedagógicas que possibilitaram ampliar o desenvolvimento dos estudantes.

Figura 3
: Apresentação das plantas da Caatinga, Boqueirão-PB, 2023

Em relação às plantas, adotou-se uma concepção histórica segundo a qual o lugar onde o ser humano habita, o que come e os remédios que utiliza advêm das experiências estabelecidas com a natureza. A História Ambiental produzida nesse estudo “rejeita a premissa convencional de que a experiência humana se desenvolveu sem restrições naturais, de que os humanos são uma espécie distinta e ‘supernatural’, de que as consequências ecológicas dos seus feitos passados podem ser ignoradas” (Worster, 1991, p. 199).

Enfatiza-se que o debate discorrido nesse texto, tratado pelos depoimentos dos sujeitos da rede municipal de ensino de Boqueirão, no campo da História, “começou a surgir na década de 1970, à medida que se sucediam conferências sobre a crise global e cresciam os movimentos ambientalistas entre os cidadãos de vários países” (Worster, 1991, p. 199). Assim, “não era mais possível pensar na sociedade humana sem ancoragem no mundo natural” (Drummond, 1991, p. 180). Da mesma forma, não é mais possível pensar em educação no Semiárido brasileiro sem a ancoragem no bioma Caatinga, como lugar de resistência e de enfrentamento dos problemas socioambientais (Figura 4).

Figura 4
: O estudante João toca no cacto facheiro

Esse repensar a educação passa pelos toques, sons, cheiros, olhares e sabores presentes no campo da ecologia, “que investiga as interações entre os organismos e entre estes e os seus ambientes físicos, quem mais pode ajudar o historiador ambiental” (Worster, 1991, p. 203). Nessa interação entre os organismos, Worster (1991) destaca as plantas como sendo a maior parte de biomassa existente no planeta e que a humanidade, desde o início da sua história, tem “dependido crucialmente das plantas, para alimento, remédio, material de construção, habitat de animais de caça e escudo contra o restante da natureza. As plantas têm sido, quase invariavelmente, aliadas dos humanos na luta para sobreviver e prosperar” (Worster, 1991, p. 203).

No primeiro encontro do projeto, ao observarem as plantas como o xique-xique, facheiro, coroa-de-frade, mandacaru, quipá, caroá e macambira (Figura 5), os discentes rapidamente mencionaram que as reconheciam em seus cotidianos – próximas às residências, no trajeto escolar ou em deslocamento para a cidade – ainda que não soubessem identificar seus nomes, diferenciar família (cactáceas e bromeliáceas) nem os usos alimentares e curativos. Tais elementos ecológicos já haviam, de forma sorrateira, como afirma Certeau (2019), escorrido dentro deles, compondo parte de sua experiência vivida na Caatinga.

Figura 5
: Apresentação das plantas da Caatinga utilizadas no projeto

Quanto aos sujeitos da pesquisa, parte-se de um entendimento da Nova História Cultural que permite “pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo” (Pesavento, 2008, p. 8). Os “zoons” (Certeau, 2019), dados nas pessoas comuns no centro das cenas científicas começaram a germinar em 1929, com a criação da revista Annales, sendo intensificados, sobretudo a partir da década de 1960, quando a crise dos paradigmas trouxe aos historiadores “as noções de estruturas mentais, [...] elementos constitutivos do imaginário [...], formas de pensar e construir representações sobre o mundo” (Pesavento, 2008, p. 26).

Esse movimento ampliou o campo de atuação, os objetos e os sujeitos de análises da historiografia. Nesse sentido, a pesquisa compartilha da concepção de Giard (2019, p. 342), segundo a qual “nos falta ainda compreender dos inúmeros artifícios dos ‘obscuros heróis’ do efêmero, andarilho da cidade, moradores dos bairros e sonhadores, pessoas obscuras das cozinhas” do bioma Caatinga.

Ao considerar os “obscuros heróis”, a pesquisa evidenciou como esses sujeitos comuns do Semiárido foram reconhecidos pelos estudantes ao verem suas fotos (avós, pais, mães, tios, primos e vizinhos) projetadas no datashow. As reações de surpresa e alegria, acompanhadas de risos contidos, eram inevitáveis, revelando a força da memória e da oralidade. Logo, a fala de alguns estudantes ecoou pela sala: “Esse é o meu avô”! Exclamou Paulo Lima. Destacou-se que, assim como Zilda Silva, o avô do estudante esteve entre as pessoas que ensinaram conhecimentos tradicionais sobre a retirada do xique-xique, a escolha do cacto adequado para consumo e a identificação das partes mais apropriadas para alimentação.

Para Giard (2019, p. 336), a “oralidade constitui também o espaço essencial da comunidade”, expressão que se articula com a tradução da experiência humana no mundo descrita por Pesavento (2008). Nesse sentido, destacou-se a oralidade da comunidade Moita, com o intuito de possibilitar aos estudantes a vivência das experiências desses sujeitos (Alberti, 2019). Ao fazer esse movimento, a voz do estudante Luiz Lima soou animada: “Essa é Rosenilda”. Confirmou-se a identificação, lembrando que Rosenilda trabalhou na fábrica de doce de facheiro e serviu merenda preparada com esse cacto para os estudantes entre 2004 e 2006, evidenciando a presença desses saberes na vida cotidiana da comunidade escolar.

No slide seguinte, vários estudantes exclamaram sorrindo: “É Augusto e a mãe dele”. A observação foi validada, destacando-se que Maria do Carmo atuou como merendeira dessa escola e como doceira na fábrica de alimentos de cactos, servindo esses alimentos aos estudantes. Augusto, por sua vez, era aluno na época em que a prefeitura de Boqueirão adquiria alimentos de cactos para serem servidos na merenda entre 2004 e 2005. O próprio Augusto relatou que ficava torcendo para não ter merenda, pois assim poderia comer cocada de facheiro com biscoito. Segundo seu depoimento, nem sabia que aquele alimento fazia parte da merenda.

Após esse momento, realizou-se um debate com o objetivo de favorecer a construção do conceito de História Oral pelos estudantes, recorrendo a duas definições semelhantes. A primeira afirma que a “história oral é uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida ou outros aspectos da história contemporânea” (2017, s/p)5. A segunda, utilizada no projeto de intervenção sobre o bioma Caatinga, é de Verena Alberti (2004), para quem a História Oral é uma “metodologia de pesquisa e de constituição de fontes para o estudo da história [...]. Consiste na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram de, ou testemunharam acontecimentos e conjunturas do passado e do presente” (Alberti, 2004, p. 18). Com base nessas definições, os estudantes foram orientados na condução da pesquisa histórica sobre o bioma Caatinga.

Ressalta-se a existência de outros trabalhos que exploram a utilização da História Oral no Ensino Fundamental, a exemplo de Mengolo, Cardoso e Menegolo (2006), Pontes (2016), Seawright (2023). Optou-se, contudo, pelo estudo disponível no site “Tok de História”, que aborda a História Oral junto a povos quilombolas. Embora não exista comunidade quilombola em Boqueirão6 certificada pela Fundação Cultural Palmares7, os membros da comunidade Moita possuem traços fenotípicos acentuados de pretos e pardos (IBGE, 2022). Nesse sentido, a inclusão dessa atividade mostrou-se pertinente como parte do estudo em sala de aula.

Inspirados em Mattos (2006), compreende-se que a definição de ser quilombola não se restringe ao fenótipo, mas envolve o pertencimento étnico, a cosmopercepção e os valores. Neste trabalho, contudo, o foco esteve em demonstrar como a História Oral pode constituir uma ferramenta didática na formação de sujeitos excluídos da história oficial, a partir das práticas relacionadas sobre o bioma Caatinga, especificamente no ensino de História. O debate sobre a identidade quilombola envolvendo as práticas de uso da Caatinga será aprofundado em pesquisas futuras.

Uma das atividades do projeto, depois da realização de cada aula, consistia no registro no caderno de campo por parte dos estudantes de tudo que ocorreu em sala de aula. Após o debate sobre História Oral, a estudante Luiza Silva (2023) definiu História Oral da seguinte forma: “A História Oral é quando tá entrevistando pessoalmente e a pessoa fazendo perguntas e a pessoa que está sendo entrevistada responde”.

Para orientar Luiza Silva e os demais estudantes de Boqueirão no campo de pesquisa, ensinaram-se o uso de instrumentos e as técnicas de investigação. Na História Oral, destacou-se o conceito de entrevista, definida como “uma técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando assim isolamentos grupais, individuais, sociais; pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação” (Medina, 1990, p. 8), utilizada para acessar as memórias escolares sobre as práticas de uso dos cactos e das bromélias.

Também foram apresentadas aos estudantes diversas formas de entrevistas acadêmicas e escolares, como: entrevista informal, focalizada, em sondagem de opinião, estruturada, semiestruturada, aberta, em profundidade, por telefone, projetiva, face a face, individuais e grupais (Batista; Matos; Nascimento, 2017). Após essa v, buscou-se favorecer a compreensão dos discentes acerca do gênero entrevista e sua função na pesquisa histórica, utilizando livros didáticos como suporte pedagógico.

A HISTÓRIA ORAL E A ENTREVISTA NOS LIVROS DIDÁTICOS DA REDE MUNICIPAL DE BOQUEIRÃO

Segundo Cerri (2011, p. 16-17), “quem acreditamos que somos depende de quem acreditamos que fomos, e não é à toa que o ensino de história – escolar ou extraescolar, formal ou informal – é uma arena de combate em que lutam os diversos agentes sociais da atualidade”. Inserida nessa arena, esta pesquisa enfrenta o desafio de tratar o bioma Caatinga no ensino de História, uma temática frequentemente excluída ou abordada de forma superficial nos livros didáticos. Para verificar essa realidade, foram analisados todos os livros dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (Quadro 1), no componente curricular de História, com o objetivo de mapear atividades relacionadas ao bioma local e identificar propostas que abordassem o gênero entrevista no ensino de História e na História Oral.

Quadro 1
: Livros didáticos do Ensino Fundamental – Anos Iniciais

Na análise dos cinco livros didáticos indicados no quadro 1, foram identificadas apenas duas atividades que empregam a entrevista como ferramenta para a constituição do saber histórico. A primeira atividade encontra-se no livro do 1º ano, da coleção Buriti Mais (2021), das Ciências Humanas, nas páginas 154 e 155.

Figura 6
: Entrevista

Os estudantes foram orientados a observar que a entrevista abordada correspondia ao tipo estruturada, em que o entrevistador apresenta perguntas previamente elaboradas. A atividade buscou possibilitar aos discentes compreender a organização de um questionário (sequência das perguntas, recorte temático e do sujeito, bem como as mudanças e permanências ocasionadas pela temporalidade), oferecendo uma noção inicial sobre estrutura de uma entrevista.

A segunda atividade que utiliza a entrevista como ferramenta de produção do saber encontra-se no livro de Ciências Humanas do 2º ano, da coleção “Aprender Mais” (Silva, 2021a), conforme a figura 7:

Figura 7
: Entrevista

A atividade foi explorada no projeto de intervenção sobre o bioma Caatinga, ressaltando a relevância da entrevista para a constituição da história local. Conforme Silva (2021a), os relatos de pessoas idosas oferecem informações valiosas sobre lugares e pessoas. A prática foi apresentada como “técnica de interação social” (Medina, 1990, p. 8), relacionando “memória” (Candau, 2019) e presente em temas como desvalorização dos idosos, o crescimento urbano e o desmatamento. Contudo, observa-se que o autor restringiu o uso da entrevista ao estudo sobre o bairro, sem contemplar comunidades rurais.

Portanto, a entrevista, entendida como instrumento de “pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação” (Medina, 1990, p. 8), apresenta uso limitado nesse livro didático ao tratar dos saberes que os idosos da zona rural possuem a respeito das “múltiplas territorialidades” (Haesbaert, 2004). Mesmo questões ligadas à natureza restringem-se a perguntas simples: “Havia muitas plantas? E animais?” antes da construção do bairro. Assim, diante da ausência de abordagem sobre o bioma Caatinga no ensino de História e da não utilização da entrevista como recurso de pesquisa, foi necessária uma adaptação, reelaborando-se o trecho referente ao bairro para adequá-lo ao contexto do Semiárido.

Elaboração do roteiro de entrevista e escolha do tipo de entrevista

Segundo Rüsen (2015, p. 37), “sempre e por toda parte, os homens necessitam referir-se ao passado, a fim de poder entender seu presente, de esperar seu futuro e de poder planejá-lo”. Nesse sentido, o estudo da história das práticas alimentares e curativas no bioma Caatinga, por meio da História Oral e do gênero entrevista, constitui uma forma de se referir ao passado para entender os problemas socioambientais da contemporaneidade e planejar um futuro melhor.

Com base nessa perspectiva, o material didático assume papel importante na orientação para a vida prática. Entretanto, a análise da atividade proposta sobre entrevista evidenciou uma crítica ao material por não contemplar a realidade da escola do campo. Diante disso, os estudantes foram orientados a formar duplas, selecionar uma pessoa da comunidade para ser entrevistada e, posteriormente, elaborar coletivamente o questionário que seria utilizado (Figura 8).

Figura 8
: Roteiro de entrevista

Para que os estudantes se sentissem à vontade para formular outras perguntas sobre os usos dos cactos e das bromélias, optou-se pela entrevista semiestruturada. Essa tipologia, ao combinar questões abertas e fechadas, permite ao pesquisador direcionar o tema e intervir para alcançar os objetivos (Boni; Quaresma, 2005). O formato favorece um diálogo rico e flexível, como demonstrou a estudante Gabriela Silva, ao entrevistar seus avós e perguntar, ao final, se “gostaram da entrevista”. Após definir o tipo de entrevista, as questões foram revisadas coletivamente, lidas em voz alta e explicadas pelas professoras. O debate posterior auxiliou na compreensão e na formulação de boas perguntas.

Formação das equipes de estudantes/entrevistadores, escolha dos entrevistados e agendamento das entrevistas

Com base nessa fundamentação sobre História Oral e considerando a função do meio na formação da consciência histórica (Cerri, 2001), a pesquisa avançou para a etapa metodológica de organização das entrevistas, listando o nome das pessoas entrevistadas nos anos de 2008, 2020, e 2023. Com o apoio das professoras, os estudantes organizaram-se em equipes e decidiram se entrevistariam as mesmas pessoas ou escolheriam novos participantes. Cada equipe selecionou sua entrevistada ou entrevistado e agendou a entrevista.

Ainda na perspectiva de Cerri (2001, p. 107), que discute o interesse crescente pelo “papel dos meios de comunicação de massa, da família e do meio imediato em que o aluno vive se quisermos alcançar a formação da consciência histórica”, a professora das turmas do 3º e 4º anos, atenta a esse contexto, criou um grupo no WhatsApp denominado “Projeto na Escola do Moita”. O objetivo foi oferecer aos pais, mães e responsáveis, um espaço para esclarecimento de dúvidas e, ao mesmo tempo, favorecer a compreensão da proposta de estudo e pesquisa.

Assim, além de auxiliarem seus filhos, os familiares passaram a se envolver diretamente no processo educativo, conforme preconizam a Constituição Federal (1988), o Estatuto da Criança e Adolescente (1990), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1996) e a Base Nacional Comum Curricular (2018). Esse engajamento resultou no primeiro concurso de comida de cacto em Boqueirão, em 1º de dezembro de 2023. A proposta consistiu em aproximar família e escola, incentivando cada estudante a elaborar, junto a um familiar, um prato e narrar sua experiência. Entre as receitas, destacaram-se o doce de coroa-de-frade com rapadura, mousse de facheiro, creme de galinha com facheiro, saboroso de facheiro. A participação da família configurou-se como produção de memórias do mundo sensível (Pesavento, 2008), vinculadas ao bioma Caatinga.

Realização das entrevistas pelos estudantes

De acordo com Montenegro (2012, p. 30), “no que tange aos relatos orais de memória individual, o fato desta se apoiar na história possibilita que, ao estudá-la, se tenha também um conhecimento das formas de elaboração do passado de parcelas da população ou do grupo social em que o entrevistado se encontra inserido”. Nesse sentido, os estudantes da rede municipal de Boqueirão, por meio dos depoimentos de familiares, amigos e conhecidos, estabeleceram contato com diferentes narrativas acerca do Semiárido, sendo inseridos e construídos cultural e historicamente nos saberes ligados ao bioma Caatinga.

Nesse contexto, com tudo preparado para a realização das entrevistas, chegou o momento de os estudantes, seus familiares e a comunidade escolar compreenderem que “produzir memórias sobre si é uma ação política ativa” (Krenak, 2020)8. As entrevistas, realizadas com aparelhos celulares, ocorreram em um final de semana, nos dias 30 de setembro e 1º de outubro de 2023, nos turnos manhã, tarde e noite, conforme a disponibilidade dos participantes. A escolha pelo final de semana justificou-se pela maior probabilidade de encontrá-los em casa, livres de compromissos de trabalho. Ao todo, foram feitas onze entrevistas, algumas com mais de um participante, e, em certos casos, a mesma pessoa foi entrevistada por duas equipes distintas. Por ser a primeira experiência dos estudantes, com base em Mauad (2005) e Alberti (2004; 2019), acompanhamos as gravações, orientando-os na organização, disposição dos objetos, enquadramento e iluminação.

Todas as entrevistas realizadas pelos estudantes foram registradas, incluindo momentos em que se documentava a própria dinâmica de filmagem. O percurso seguiu os caminhos cartográficos descritos por Deleuze e Guattari (1995), orientados pelas vozes e presenças dos entrevistados. Destaca-se o caso de Antônio Albuquerque (Figura 9), que conduziu os estudantes até uma pequena área de Caatinga em sua propriedade, enriquecendo a experiência com observações diretas sobre o nome das plantas, suas utilidades ambientais, curativas e alimentares.

Figura 9
: Visita à reserva do depoente Albuquerque, Boqueirão, 2023

TRANSCRIÇÃO, SOCIALIZAÇÃO E ANÁLISE DAS EXPERIÊNCIAS DOS ESTUDANTES COMO ENTREVISTADORES

É importante destacar que a questão abordada nesta pesquisa, relativa às práticas alimentares e de cura, fundamenta-se nos desafios enfrentados pelos historiadores em “pensar e propor que conhecimento histórico ensinar, como ensiná-los, para que e para quem ensinar, em contextos latino-americanos” (Schmidt, 2021, p. 166). Essa perspectiva orienta a reflexão sobre o ensino de História e sua relação com os saberes locais e comunitários (Brasil, 2018). À luz dessa preocupação, a aula “Transcrição e Socialização das Entrevistas” aproximou os estudantes das práticas de escuta e registros da História Oral, solicitando que compartilhassem percepções, dificuldades e aspectos positivos do processo de realização das entrevistas.

Em relação às dificuldades, os estudantes relataram: “Falar o que disseram no vídeo” (Gabriela Lima, 2023), “lembrar o que disse” (Mário Silva, 2023), “ouvir” (Jonas Silva, 2023) e “ouvir a entrevista” (Ricardo Silva, 2023). Esses depoimentos evidenciam que a escuta e a transcrição são parte essencial da metodologia da História Oral, exigindo concentração e conhecimento das narrativas comunitárias. Há consenso entre pesquisadores, assim como para os estudantes de Boqueirão, de que a transcrição apresenta desafios, pois a oralidade é mais rápida que a escrita, requerendo pausas, retrocessos, ajustes de áudio e atenção a fatores como timbre, dicção e escolaridade.

Quanto ao que mais gostaram, os estudantes relataram diferentes aspectos da experiência: “Falar com os meus avós!” (Gabriela Lima, 2023), “Eu gostei de entrevistar porque eu não conhecia” (Soraia Lima, 2023), “a hora que li as perguntas” (Felipe Silva, 2023), “eu gostei de quando eu fiz as perguntas e eles responderam às coisas que eles faziam antigamente” (Laís Silva, 2023), “gostei de ler as perguntas” (Mário Silva, 2023), “de ler” (Jonas Silva, 2023), “de fazer as perguntas” (Ricardo Silva, 2023). Observa-se que termos como “falar”, “entrevistar”, “perguntar”, “ler” e “fazer” colocam o estudante como sujeito ativo, em contraste com práticas escolares que limitam a autonomia e a construção do conhecimento.

Nesse contexto, os estudantes são frequentemente avaliados pelas perguntas e seu papel se restringe a apenas um lado do processo educativo: o de procurar, oferecer, conseguir e construir respostas para questões impostas. A realização das entrevistas, contudo, possibilita que experimentem o outro lado do processo educativo – o de quem formula as perguntas –, vivenciando uma situação ativa de construção do saber histórico. Toda pesquisa nasce das perguntas, pois problematiza, questiona e busca soluções para os desafios do tempo presente (Certeau, 2019; Farge, 2019). Esse processo deve ser incentivado desde os Anos Iniciais da Educação Básica, estimulando a elaboração de hipóteses diante das demandas contemporâneas. A História, conforme a perspectiva Cultural (Pesavento, 2008), torna-se objeto de reflexão, preparando o estudante como pesquisador de si, da vida e do mundo, ampliando sua consciência histórica de interpretar e criar realidades e sua formação humana (Saviani; Duarte, 2010).

Quase três meses se passaram entre as entrevistas, realizadas no final de setembro e início de outubro de 2023, e a conclusão do projeto sobre o bioma Caatinga, em 15 de dezembro do mesmo ano. Nesse período, ocorreram oficinas, aulas de campo, experiências culinárias e a preparação de remédios caseiros com cactos e bromélias, práticas que aproximam os estudantes dos saberes tradicionais da região. No encerramento, compartilharam as partes mais apreciadas no projeto. Embora se esperasse menções às comidas, remédios ou passeios, muitos insistiram que a entrevista foi a atividade de que mais gostaram, como Mário Silva, Jonas Silva e Ricardo Silva.

A estudante Soraia Lima (2023) justificou o motivo de a entrevista ser a atividade mais marcante: “Eu gostei quase de tudo. Mas o melhor foi o roteiro de entrevista porque a gente descobriu coisas que a gente não sabia. Os avós da gente sabem de coisas muito legais que eles podem contar à gente que a gente não sabia”. Gabriela Lima (2023), complementou: “O que eu mais gostei foi falar com os meus avós sobre as frutas de antigamente serem mais saudáveis. Saber que algumas plantas servem de remédio, como o coroa-de-frade, que serve para bronquite e tosse”. Esses relatos mostram que a entrevista aproximou os estudantes dos saberes tradicionais, fortalecendo consciência histórica e conexão com a natureza.

Segundo Pereira et al. (2020, p. 03), “a história recente define-se por não só exclusivamente regras temporais, epistemológicas ou metodológicas, como também por questões que interpelam a sociedade e transformam os fatos do passado em problemas do presente”. Saúde e doença são questões que interpelam a sociedade atual, e as práticas alimentares e de cura, advindas das memórias da comunidade escolar de Boqueirão, problematizam tais temas na contemporaneidade. As lembranças dos avós da estudante Gabriela sobre o uso curativo do cacto coroa-de-frade se articulam aos relatos de Inácio Silva (2008) sobre a tuberculose e de Zilda Silva (2008) sobre a bronquite e a asma, evidenciando saberes tradicionais que supriam a ausência de médicos.

Assim, os estudantes perceberam que, na inexistência de “doutor” e recorrendo aos sabores do cotidiano, as plantas medicinais, especialmente a coroa-de-frade, eram recursos essenciais no combate às doenças respiratórias. Na ausência de médicos, farmácias e medicamentos adequados, os habitantes da comunidade Moita de Boqueirão buscavam no mato a coroa-de-frade. Durante as oficinas, destacou-se a importância de procurar orientação médica antes de qualquer remédio caseiro. É fundamental que os estudantes compreendam como os saberes históricos dialogam em diferentes contextos. Pesquisadores corroboram os depoimentos locais: Andrade et al. (2006, p. 39) mencionam seu uso expectorante, e Maciel (2016) destaca aplicações em afecções respiratórias, inflamações, cólicas e cuidado pós-parto.

Segundo Silva (2014, p. 23), “a composição química das plantas pertencentes à família Cactácea, é de principalmente carboidratos, como açúcares, celulose e mucilagens, flavonoides, proteínas e aminoácidos”. Marcelino et al. (2018), acrescentam que compostos presentes na coroa-de-frade, como os flavonoides e os terpenoides, possuem propriedades relevantes para a saúde, incluindo proteção do colesterol-LDL, prevenção da agregação plaquetária, ações anti-hipertensivo e anti-isquêmico, destruição de células tumorais e alívio de sintomas da menopausa. Brandão (2016) destaca sua atividade citotóxica contra diferentes tipos de cânceres, incluindo o induzido por HPV. O Instituto Nacional do Semiárido (INSA, 2015) ressalta que plantas como a coroa-de-frade, por suas propriedades químicas, abrem novas possibilidades aplicadas à saúde humana.

Observa-se que os cactos e as bromélias, como a coroa-de-frade, já são objetos de pesquisas farmacológicas, destacando os alcaloides bioativos e seu uso tradicional como planta curativa. Apesar dos resultados promissores, é essencial aprofundar estudos clínicos, por meio de ensaios controlados. O trabalho com práticas de cura, na perspectiva da parceria dos saberes, constitui uma oportunidade relevante para enfrentar, no espaço escolar, tanto o “Desconhecimento sobre a campanha de vacinação contra o HPV entre estudantes brasileiros” (Santos et al., 2021), quanto o negacionismo e a desinformação (Silva e Giassi, 2023).

Nesse contexto, ao serem educados pela pesquisa histórica e atuarem como sujeitos ativos da História Oral do bioma Caatinga, os estudantes de Boqueirão contribuem simultaneamente para o combate do negacionismo, para o enfrentamento dos problemas socioambientais e para a promoção da segurança alimentar e diversidade nutricional (ONU, 2015). Um exemplo é o relato de Maria (2023), que, em entrevista às estudantes/netas Severina Silva e Luiza Silva, relembrou: “Eu comi muito os bibizinhos da macambira, chupava os caroazinhos novos, a aguinha do caroá na infância da gente, a gente comeu imbu, quixaba”. Seu esposo, José (2023), avô das entrevistadoras, acrescentou: “Assim, quando você estiver com sede, você pode chegar em qualquer canto e arrancar o caroá e chupar aquela aguinha” (risos dele).

Da mesma forma ocorreu com Alfredo de Lima. Questionado pelos estudantes se já havia comido cactos, ele, assim como Maria e José ao falarem sobre a bromélia caroá, ofereceu uma resposta que revela escolhas, preferências alimentares e as complexas normas culturais que constroem o paladar, conforme analisado por Câmara Cascudo (1983). Alfredo de Lima (2023) relatou: “O xique-xique eu comia muito. O meu pai tirava, descascava o xique-xique nesse cercado e nós comia. Comer o xique-xique é mesmo que comer macaxeira. [...]. É gostoso demais! É quando o povo de nós tinha saúde na vida!” Este estudo corrobora Pedro Demo (2003), que defende que a pesquisa deve estar voltada para a educação a ponto de tornar-se a maneira escolar e acadêmica própria de educar, uma atitude cotidiana.

Assim, os relatos constituídos pelos estudantes tornaram-se uma maneira de educar pela pesquisa histórica, permitindo compreender que as escolhas alimentares cotidianas são influenciadas por múltiplos fatores: pela família (“O meu pai tirava”), pelo contexto sociocultural (“o xique-xique nesse cercado”, “Eu comi muito os bibizinhos da macambira, chupava os caroazinhos novos”), pelo cotidiano (“comer xique-xique é mesmo que comer macaxeira”, “você pode chegar em qualquer canto e arrancar o caroá e chupar aquela aguinha”) e pela relação com a saúde (“é quando o povo de nós tinha saúde na vida”).

Para Giard (2019), o cotidiano é cruzado por hábitos alimentares que, unidos à linguagem, tecem o dia a dia das pessoas, como o de Maria, José e Alfredo e dos estudantes que os entrevistaram. Essa tecitura linguística, muitas vezes inconsciente, também aparece na cozinha da comunidade escolar de Boqueirão, especialmente no uso dos cactos e das bromélias, como revelam as entrevistas. Assim, “a cozinha constitui ‘uma linguagem na qual cada sociedade codifica mensagens que lhe permitem significar pelo menos uma parte do que ela é’, isto é, ‘uma linguagem na qual ela traduz inconscientemente sua estrutura” (Giard, 2019, p. 246). Ao decodificar essa linguagem alimentar no bioma Caatinga, amplia-se o debate escolar sobre Plantas Alimentícias não Convencionais (Santos et al., 2020; Terra; Ferreira, 2020), como recurso para enfrentar os problemas socioambientais contemporâneos.

Segundo Terra e Ferreira (2020, p. 221), PANCs “referem-se a todas as plantas que possuem uma ou mais partes comestíveis para humanos, sendo espontâneas ou cultivadas, nativas ou exóticas, que não estão incluídas em nosso cardápio cotidiano”. Atualmente, cactos como o xique-xique, facheiro e coroa-de-frade, além de bromélias como a macambira e o caroá, são consideradas PANCs. Embora hoje sejam vistas como não convencionais, essas plantas já ocuparam lugar central nas práticas alimentares dos moitenses (Pessoa, 2005, Silva, 2008, Silva, 2021, Silva, 2024).

De acordo com Rüsen (2015, p. 49), “as emoções mediam o pensamento e a vontade. Nessa medida, elas constituem um elemento essencial da efetivação da função de orientação do pensamento histórico’’. Essa mediação do saber histórico pela emoção também aparece na entrevista realizada por Paulo, Maria e Gabrielle com seu avô. Ao perguntarem: “O senhor lembra dos alimentos que comiam quando criança?”. O avô respondeu: “Eu me lembro. Eu comia xique-xique, tanto assado como cozinhado. A gente pegava o xique-xique, descascava [...] fazia um fogo no terreiro e assava para comer assado e cortava que nem se corta macaxeira [...] e botava na panela pra comer também cozinhado” (José Alfredo, 2023).

Ao narrar suas experiências alimentares sobre o uso das plantas da Caatinga – muitas vezes associadas à seca, à fome e à miséria (Cascudo, 1983; Castro, 1959, 1984; Master Chef, 2022; Revista Veja, 1983, 1998) – os avós compartilham saberes ancestrais que orientam a vida prática dos estudantes diante dos desafios socioambientais. Para Rüsen (2012, p. 71), a “consciência histórica significa, nesta perspectiva, em última análise, a aprendizagem histórica no nível fundamental e básico do trabalho de memória necessário para a vida prática”.

Nesse sentido, ao entrevistarem parentes e conhecidos sobre “o que, onde, quando e com quem se come” (Santos, 2005, p. 13), os estudantes de Boqueirão constroem identidades de pertencimento e de ressignificação dos espaços onde vivem. Essa ressignificação amplia o cardápio da comunidade escolar, incorporando práticas alimentares locais. Conforme Maciel (2005), as cozinhas são processos históricos em constante transformação, não podendo ser cristalizadas no tempo e no espaço. Os relatos dos depoentes desta pesquisa mostram essa (re)invenção alimentar.

No início, os cactos e as bromélias eram consumidos assados, cozidos (como o xique-xique, só água e sal), em forma de cuscuz e de beiju (macambira, também com água e sal), os frutos de alguns cactos (palma, xique-xique, facheiro, cumbeba, mandacaru etc.) e os bulbos de algumas bromélias (caroá e macambira) in natura. Logo em seguida, o açúcar foi acrescentado, surgindo o doce e a cocada de facheiro, conforme relataram Pedro Ferraz (2008), Luiza Feliciano (2008, 2020), José Feliciano (2008, 2020), Antônio Albuquerque (2008, 2020) e o professor/diretor Luíz Paulo (2023), da rede municipal de Boqueirão. Segundo alguns narradores, esse acréscimo ocorreu a partir da década de 1960, quando o doce e a cocada eram vendidos na bodega de Luiza e José Feliciano, na comunidade Moita.

Entre 2002 e 2006, o cardápio foi reinventado, com receitas como mousse, sopa, biscoito, papa, canjiquinha de facheiro, xique-xique e coroa-de-frade, segundo Lenilde Silva (2020; 2023) e Ramos Silva (2020). “No contexto da Moita, o fim das irrigações, em 1998/99, e a busca de outras atividades pautadas em suas práticas cotidianas, resultou na (re)educação do olhar sobre o uso das cactáceas, levando à construção de uma agroindústria de derivados de cactos, em 2004” (Pessoa, 2005).

Em 2023, com o projeto “Cactos e Bromélias: o Sabor e a Saúde da Sustentabilidade no Bioma Caatinga”, mães, avós e estudantes criaram receitas, como “Torta Salgada de Facheiro”, “Doce de Coroa-de-frade com Rapadura”, “Saboroso de Facheiro” e “Facheiro com Carne de Boi”, destacadas no primeiro concurso10 municipal, realizado no dia 1º de dezembro de 2023, na Escola Ozias Francisco de Normandia, durante a Mostra Cultural desta unidade de ensino.

Como observa Peter Lee (2016, p. 134), “a história, então, pode transformar a forma como vemos as coisas em escalas e maneiras muito diferentes. Ela pode derrubar explicações ou sugerir outras melhores”. No contexto deste estudo sobre a segurança alimentar, a diversidade nutricional e a valorização das propriedades curativas das plantas da Caatinga, buscamos contribuir para (trans)formar a maneira como os sujeitos da comunidade escolar de Boqueirão, especialmente os estudantes da Escola Francisco Ozias de Normandia, percebem e se relacionam com o bioma. Essa transformação foi possível ao explorarmos a história cultural alimentar ligada ao uso dos cactos e das bromélias por meio da História Oral.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Além de evidenciar a importância do uso da História Oral como ferramenta didática no ensino de História e sua contribuição para construção da consciência histórica sobre o Semiárido brasileiro, este estudo pode servir como modelo para outras práticas educacionais, desde que ajustado às especificidades de cada contexto, ampliando sua aplicação para além do município de Boqueirão e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, como foi o caso neste trabalho.

Ao analisarmos as memórias sobre as práticas relacionadas aos cactos e às bromélias, percebemos que elas possibilitaram (re)pensar histórica e culturalmente, em sala de aula, as relações de dependência entre os seres humanos e a natureza, refletir sobre os impactos de nossas ações na existência da humanidade e promover modelos sustentáveis alinhados à vida no planeta Terra, fundamentados nos saberes ancestrais.

Ressaltamos que as práticas curativas e alimentares tendo a História Oral como veículo de acesso ainda são pouco exploradas na educação básica, particularmente na disciplina de História, apesar de serem de extrema importância para a compreensão e combate aos problemas socioambientais do tempo presente.

A análise das práticas relacionadas ao uso das plantas da Caatinga revela uma lacuna historiográfica que pode ser explorada por novas pesquisas. A literatura científica ainda carece de estudos que utilizem a História Oral como ferramenta didática para aprofundar e dar visibilidade às práticas alimentares e curativas relacionadas aos cactos e bromélias no ensino de História.

Acrescentamos que determinados aspectos, como a origem linguística dos nomes das plantas mencionadas – cactos (facheiro, mandacaru, xique-xique, cumbeba, quipá) e bromélias (caroá e macambira) – assim como os vocábulos culinários relacionados à história da alimentação e da cura advindas do uso das plantas da Caatinga, não foram abordados de maneira satisfatória neste estudo. Do mesmo modo, a relação dessas práticas alimentares e de cura com comunidades quilombolas, indígenas e ciganas permanece em aberto e pode ser aprofundada em pesquisas futuras.

Portanto, ao cartografar e dar significado à existência e às “conexões” das pessoas da comunidade escolar de Boqueirão na escola através da oralidade, reconhecendo sua importância cultural e histórica para o Semiárido, possibilitamos a tessitura das “identidades” (Hall, 2005) do “eu” do estudante com as identidades do “tu” dos seus ancestrais. Nesse processo de construção do ser em relação ao bioma Caatinga, a História Oral (Alberti, 2004; 2019), ancorada no par sentido/experiência (Larrosa, 2019), revela-se como uma ferramenta política essencial no ensino de História para a formação da consciência histórica (Rüsen, 2006; 2007; 2012; 2015) de sujeitos que reconheçam e valorizem sua interdependência ecológica (Drummond, 1991; Worster, 1991), cultural (Certeau, 2019) e cosmológica (Sagan, 1980), integrando-se à natureza e ao Universo.

REFERÊNCIAS

  • ALBERTI, Verena. Manual de história oral. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
  • ALBERTI, Verena. Ouvir Contar: Textos em história oral. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2019.
  • ANDRADE, Cássia Tatiana da Silva. et al. Utilização medicinal de cactáceas por sertanejos baianos. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, Botucatu, v. 8, n. 3, p. 36-42, 2006.
  • BATISTA, Eraldo Carlos; MATOS, Luís Lourenço; NASCIMENTO, Alessandra Bertasi. A entrevista como técnica de investigação na pesquisa qualitativa. Revista Interdisciplinar Científica Aplicada, Blumenau, v. 11, n. 3, p. 23-38, 2017.
  • BONI, Valdeti; QUARESMA, Silvia Jurema. Aprendendo a entrevistar: Como fazer entrevistas em ciências sociais. Em Tese, Florianópolis, v. 2, n. 1, p. 68-80, jan. 2005.
  • BRANDÃO, Gustavo Henrique Azevedo. Alcaloides de Melocactus zehntneri Cactaceae: Extração sustentável e atividade farmacológica. 2016. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2016.
  • BRASIL. BNCC: Base Nacional Comum Curricular. Versão Final. Brasília, 2018.
  • BRASIL. LDBEN: Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996.
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 1988. 496 p.
  • CANDAU, Joel. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2019.
  • CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1983.
  • CASTRO, Josué de. Os alimentos bárbaros do Sertão do Nordeste. In: Documentário do Nordeste. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1959. p. 161-181.
  • CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.
  • CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Arte de fazer. Petrópolis: Vozes, 2019.
  • CERRI, Luís Fernando. Os conceitos de consciência histórica e os desafios da didática da história. Revista de História Regional, v. 6, n. 2, p. 93-112, 2001.
  • CERRI, Luís Fernando. Ensino de história e consciência histórica. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011.
  • DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. v. 1. São Paulo: Editora 34, 1995.
  • DEMO, Pedro. Educar pela pesquisa 6. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.
  • DRUMMOND, José Augusto. A história ambiental: Temas, fontes e linhas de pesquisa. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, p. 171-197, 1991.
  • ESPINOSA, Benedictus de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
  • FARGE, Arlete. Lugares para a história. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 7-39.
  • GIARD, Luce. A arte de nutrir. In: CERTEAU, Michel de. A Invenção do cotidiano: Morar, cozinhar. Petrópolis: Vozes, 2019. v. 2.
  • HAESBAERT, Rogério. O Mito da desterritorialização: Do "fim dos territórios" à multiterritorialidade. Bertand Brasil: Rio de Janeiro, 2004.
  • HALL, Stuarl. A identidade cultura na pós-modernidade 10. ed. Rio de Janeiro: DP &A, 2005.
  • IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Boqueirão-PB. IBGE Cidades. 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/boqueirao/panorama Acesso em: 17 jul. 202.
    » https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pb/boqueirao/panorama
  • INSA - Instituto Nacional do Semiárido. Núcleo de Bioprospecção da Caatinga completa dois anos com avanços científicos na área de saúde humana. Boletim Informativo, Ano III, n. 04, abr. 2015, p. 04.
  • LARROSA, Jorge. Tremores: Escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
  • LEE, Peter. Literacia histórica e história transformativa. Educar em Revista, Curitiba, n. 60, p. 107-146, 2016.
  • LIMA JÚNIOR, Francisco Joelson de Souza. Considerações sobre a Palmatória de pêlo Opuntia inamoena no Cariri Paraibano. 2006. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Agronomia) - Universidade Federal da Paraíba. Areia, 2006.
  • MACHADO, Josenildo dos Santos. Conhecimento local de cactáceas em uma comunidade rural do município de Boqueirão (Paraíba, Nordeste do Brasil). Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Biológicas) - Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Agrárias, Areia, 2013.
  • MACIEL, Jéssica Karina da. Caracterização fitoquímica do extrato de Pilosocereus gounellei A. Weber ex K. Schum. Bly. ex Rowl. (Cactaceae) e avaliação de suas atividades antioxidante e microbiológica. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2016.
  • MACIEL, Maria Eunice. Olhares antropológicos sobre a alimentação: Identidade cultural e alimentação. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. 306 p.
  • MARCELINO, Evanilza Maria et al. Propriedades fitoterapêuticas da melocactus zehntneri (coroa-de-frade): Uma revisão integrativa. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Saúde - CONBRACIS, 2018. Anais [...]. Campina Grande: Editora Realize, 2018.
  • MASTERCHEF BRASIL. Cactos comestíveis e lulas. Episódio 06 - 1/5, Temp 09, Masterchef Brasil. YouTube, 2022. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5aWEhBLow8Q Acesso em: 28 mar 2025.
    » https://www.youtube.com/watch?v=5aWEhBLow8Q
  • MATTOS, Hebe. Terras de quilombo: campesinato, memória do cativeiro e identidade negra no Rio de Janeiro. In: LIBBY, Douglas Cole; FURTADO, Júnia Ferreira (Orgs.). Trabalho livre, trabalho escravo - Brasil e Europa, Séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume, 2006, p. 415-43.
  • MAUAD, Ana Maria. Na mira do olhar: Um exercício de análise da fotografia nas revistas ilustradas cariocas, na primeira metade do século XX. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 133-174, jan./jun. 2005.
  • MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: O diálogo possível. l3. ed. SP: Ática, 1990.
  • MENEGOLO, Elizabeth Dulce Cunha. Werneck; CARDOSO, Cancionila Janzkovski.; MENEGOLO, Leandro Wallace. O uso da história oral como instrumento de pesquisa sobre o ensino da produção textual. Ciências & Cognição, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 2-13, 2006.
  • MONTENEGRO, Antônio Torres. História e memória: Combates pela história. História Oral, v. 10, n. 1, 2012.
  • MENESES, Sônia. Os vendedores de verdades: O dizer verdadeiro e a sedução negacionista na cena pública como problema para o jornalismo e a história (2010-2020). Revista Brasileira de História, v. 41, n. 87, p. 61-87, ago. 2021.
  • MOURA, Francisco; LIMA, H. A. Alimentação e Linguagem Popular. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, n. 17, p. 54-71, 1970.
  • OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Organização das Nações Unidas (ONU). Nações Unidas Brasil, [S.l.], 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs Acesso em: 16 jul. 2025.
    » https://brasil.un.org/pt-br/sdgs
  • PEREIRA, Nilton Mullet. et al. Ensinar história [entre]laçando futuros. Revista Brasileira de Educação, v. 25, p. e250002, 2020.
  • PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
  • PESSOA, Joseane Herculano. O Facheiro Pilosocerussp: Uma doce esperança de uma comunidade caririzeira. Areia - PB: UFPB, 2005.
  • PONTES, C. J. de F. O uso da história oral no ensino de história. Anais do Encontro Nacional de História Oral, Rio Branco, v. 13, n. 1, p. 45-58, 2016.
  • PROGRAMA MAIS VOCÊ. Globo Play. Daniel prepara terceiro jantar do 'Jogo de Panelas' 2023. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/11598929/?s=0s Acesso em: 28 mar. 2025.
    » https://globoplay.globo.com/v/11598929/?s=0s
  • PRADO, Darién E. As Caatingas da América do Sul. In: LEAL, Inara R.; TABARELLI, Marcelo; SILVA, José Maria Cardoso da (Orgs.). Ecologia e conservação da caatinga. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2003.
  • REVISTA VEJA. A tortura da seca. Edição n. 780. Rio de Janeiro, 17 ago. 1983. Disponível em: https://acervo.veja.abril.com.br/#/edition/33769?page=1 §ion=1 Acesso em: 27 nov. 2019.
    » https://acervo.veja.abril.com.br/#/edition/33769?page=1 §ion=1
  • REVISTA VEJA. O fantasma da fome. Edição n. 1545, Rio de Janeiro, 6 maio 1998. Disponível em: https://acervo.veja.abril.com.br/#/edition/32988?page=4 §ion=1 Acesso em: 27 nov. 2019.
    » https://acervo.veja.abril.com.br/#/edition/32988?page=4 §ion=1
  • RÜSEN, Jörn. Didática da História: Passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. Práxis Educativa, v. 1, n. 2, p. 7-16, 2006.
  • RÜSEN, Jörn. História viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2007.
  • RÜSEN, Jörn. Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas. Curitiba: W.A. Editores, 2012.
  • RÜSEN, Jörn. Teoria da história: uma teoria da história como ciência. Curitiba: Editora UFPR, 2015.
  • SAGAN, Carl. Cosmos. São Paulo: Companhia das Letras, 1980.
  • SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. A alimentação e seu lugar na história: os tempos da memória gustativa. História: Questões & Debates, Curitiba, n. 42, p. 11-31, 2005.
  • SANTOS, Gabriela Maria Cota dos et al. Experiências de popularização de plantas alimentícias não convencionais no estado de alagoas, Brasil. Revista Ethnoscientia, v. 5, n. 1, p. 1-7, 2020.
  • SANTOS, Maria Aparecida Paulo dos. et al. Desconhecimento sobre a campanha de vacinação contra o HPV entre estudantes brasileiros: Uma análise multinível. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 12, p. 6223-6234, dez. 2021.
  • SAVIANI, Dermeval; DUARTE, Newton. A formação humana na perspectiva histórico-ontológica. Revista Brasileira de Educação, v. 15, n. 45, p. 174-196, 2010.
  • SEAWRIGHT, Leandro. Ensino de história e história oral aplicada. Anais do Encontro Nacional de História Oral, Rio Branco, v. 13, n. 1, p. 45-58, 2023.
  • SILVA, Géssica Teixeira da. Contribuição para o conhecimento de espécies da família cactaceae: Usos pela medicina popular e potencial terapêutico (TCC). João Pessoa, 2014.
  • SILVA, José Carlos. A didática da história no bioma Caatinga: uma abordagem cultural das práticas ambientais, alimentares e medicinais de uso dos cactos e das bromélias no ensino de história em Boqueirão-PB (2002-2023). Tese (Doutorado em História) - Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2024.
  • SILVA, José Carlos. Banquete e saúde na moita: (re)significação das práticas alimentares e medicinais sobre o uso dos cactos e das bromélias na comunidade moita de Boqueirão-PB (1998-2004). Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Campina Grande. Campina Grande, 2021.
  • SILVA, José Carlos. Um banquete na moita: práticas alimentares com cactos e bromélias em Boqueirão-PB na década de 1950. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) - Universidade Estadual da Paraíba. Campina Grande, 2008.
  • SILVA, José Carlos; OLIVEIRA, Iranilson Buriti de; BERTINI, Fátima Maria Araújo. O sabor da saudade no banquete da moita: uma história do sensível sobre as memórias alimentícias das práticas de uso dos cactos e das bromélias na comunidade Moita de Boqueirão-PB (1998-2004). In: Anais do Congresso Internacional de Estudos das Diferenças & Alteridade. São Paulo (SP) Rede Internacional de Pesquisa em História e Culturas no Mundo Contemporâneo, 2021.
  • SILVA, José Carlos; OLIVEIRA, Iranilson Buriti. O cacto facheiro na alimentação escolar: uma doce experiência em Boqueirão/PB (2002-2023). Tempo, Espaço e Linguagem - TEL, v. 15, n. 2, p. 300-327, jul./dez. 2024.
  • SILVA, Leda Leonardo da. Aprender juntos geografia e história, 2º ano: Ensino Fundamental: anos iniciais. Organizadora SM Educação; obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida por SM Educação. 1. ed. São Paulo: Edições SM, 2021a.
  • SILVA, Leda Leonardo da. Aprender juntos geografia e história, 3º ano: Ensino Fundamental: anos iniciais. Organizadora SM Educação; obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida por SM Educação. 1. ed. São Paulo: Edições SM, 2021b.
  • SILVA, Sonia Maria de Meneses; GIASSI, Reginaldo Paulo. História Pública e o negacionismo no tempo presente: uma entrevista com Sônia Maria de Meneses Silva. Abedos, Porto Alegre, v. 15, n. 34, p. 345-356, jul.-dez., 2023.
  • SCHMIDT, Maria Auxiliadora. Didática reconstrutivista da história e a formação da consciência histórica dialógica. Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, v. 14, n. 2, ago./dez. 2021.
  • TERRA, Simone Braga; FERREIRA, Bruna Pereira. Conhecimento de plantas alimentícias não convencionais em assentamentos rurais. Revista Verde, Pombal, v. 15, n. 2, p. 221-228, 2020.
  • VYGOTSKY, Lev. Semyonovich. A formação social da mente: O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • WORSTER, Donald. Para fazer a história ambiental. Revista Estudos Históricos, v. 4, n. 8, p. 198-215, 1991.
  • FONTES ORAIS: Entrevistas
  • Antônio Albuquerque. Boqueirão/PB (2008/2020). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Gabriela Lima. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Inácio Silva. Boqueirão/PB (2008). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Jonas Silva. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • José Alfredo. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • José Feliciano. Boqueirão/PB (2008/2020). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Lenilde Silva. Boqueirão/PB (2020/2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Luíz Paulo. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Luiza Feliciano. Boqueirão/PB (2008/2020). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Luiza Silva. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Mário Silva. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Pedro Ferraz. Boqueirão/PB (2008). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Ramos Silva. Boqueirão/PB (2020). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Ricardo Silva. Boqueirão/PB (2023). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Zilda Silva. Boqueirão/PB (2008/2020). Entrevistador: José Carlos Silva.
  • Editor responsável:
    Ely Bergo de Carvalho

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Abr 2025
  • Revisado
    03 Abr 2026
  • Aceito
    20 Dez 2025
location_on
Pós-Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais Av. Antônio Carlos, 6627 , Pampulha, Cidade Universitária, Caixa Postal 253 - CEP 31270-901, Tel./Fax: (55 31) 3409-5045, Belo Horizonte - MG, Brasil - Belo Horizonte - MG - Brazil
E-mail: variahis@gmail.com
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro