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Intervalo de tempo para semeadura de milho pós-dessecação da cobertura de aveia-preta com herbicidas

Establishment of corn seeding time interval after desiccation of oats with herbicides

Resumos

Com o objetivo de investigar o intervalo de tempo para semeadura de milho cultivado em sucessão à aveia-preta dessecada com herbicidas não-seletivos, realizou-se experimento fatorial na Estação Experimental Agronômica da UFRGS, em Eldorado do Sul, RS, em 1997/98. Um fator constou de quatro épocas de dessecação da aveia-preta (13, 9, 5 e 1 dia antes da semeadura do milho). O outro fator consistiu de quatro sistemas utilizados em pré-semeadura da cultura (aplicação do herbicida glyphosate "540gha-1 e.a." sobre plantas de aveia-preta ou sobre o solo sem sua presença; aplicação do herbicida paraquat "400gha-1 i.a." + diuron "200gha-1 i.a." sobre plantas de aveia-preta; e testemunha cuja semeadura do milho ocorreu na ausência de aveia-preta e de aplicação de herbicidas). Não se constatou interação entre os fatores testados. Com relação aos sistemas de pré-semeadura do milho, observou-se aumento na estatura acompanhado de decréscimo na massa seca de planta, tanto aos 20 como aos 40 dias após a emergência, quando o milho foi semeado na presença de resteva de aveia-preta em relação aquele semeado na sua ausência. Para intervalos de semeadura do milho pós-dessecação da aveia-preta, não ocorreram diferenças significativas tanto no desenvolvimento inicial das plantas, na estatura final, quanto no rendimento de grãos.

Glyphosate; paraquat; Avena strigosa S.; semeadura direta


With the purpose of evaluating time intervals for corn seeding after forage oats desiccation with non-selective herbicides, it was conducted a factorial trial in Agronomic Experimental Station of UFRGS, in Eldorado do Sul, RS, Brazil, in the 1997/98 growing season. One factor consisted of four times of oats desiccation (13, 9, 5 and 1 day before corn seeding). The other factor was four corn pre-seeding systems (glyphosate "540gha-1 e.a." herbicide applied on oat plants or on soil surface without oats; paraquat "400gha-1 i.a." + diuron "200gha-1 i.a." herbicide applied on oat plants; and a control in which corn seeding occurred in absence of oats and of herbicide use). There were no significant interactions between factors tested. In relation to corn pre-seeding systems, it was observed an increase in plant height, followed by decrease in plant dry matter, as determined 20 and 40 days after emergence, when corn was seeded in the presence of oat straw, in relation to corn seeded in its absence. For corn seeding time intervals after oat desiccation there were no significant differences for initial growth of corn plants and either in corn final height or grain yield.

Glyphosate; paraquat; Avena strigosa S.; no-till


INTERVALO DE TEMPO PARA SEMEADURA DE MILHO PÓS-DESSECAÇÃO DA COBERTURA DE AVEIA-PRETA COM HERBICIDAS

ESTABLISHMENT OF CORN SEEDING TIME INTERVAL AFTER DESICCATION OF OATS WITH HERBICIDES

Rodrigo Neves1 1 Engenheiro Agrônomo, Mestre, Aluno do Programa de Pós-graduação em Agronomia da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Nilson Gilberto Fleck2 1 Engenheiro Agrônomo, Mestre, Aluno do Programa de Pós-graduação em Agronomia da Faculdade de Agronomia da UFRGS. Ribas Antonio Vidal3 1 Engenheiro Agrônomo, Mestre, Aluno do Programa de Pós-graduação em Agronomia da Faculdade de Agronomia da UFRGS.

RESUMO

Com o objetivo de investigar o intervalo de tempo para semeadura de milho cultivado em sucessão à aveia-preta dessecada com herbicidas não-seletivos, realizou-se experimento fatorial na Estação Experimental Agronômica da UFRGS, em Eldorado do Sul, RS, em 1997/98. Um fator constou de quatro épocas de dessecação da aveia-preta (13, 9, 5 e 1 dia antes da semeadura do milho). O outro fator consistiu de quatro sistemas utilizados em pré-semeadura da cultura (aplicação do herbicida glyphosate "540gha-1 e.a." sobre plantas de aveia-preta ou sobre o solo sem sua presença; aplicação do herbicida paraquat "400gha-1 i.a." + diuron "200gha-1 i.a." sobre plantas de aveia-preta; e testemunha cuja semeadura do milho ocorreu na ausência de aveia-preta e de aplicação de herbicidas). Não se constatou interação entre os fatores testados. Com relação aos sistemas de pré-semeadura do milho, observou-se aumento na estatura acompanhado de decréscimo na massa seca de planta, tanto aos 20 como aos 40 dias após a emergência, quando o milho foi semeado na presença de resteva de aveia-preta em relação aquele semeado na sua ausência. Para intervalos de semeadura do milho pós-dessecação da aveia-preta, não ocorreram diferenças significativas tanto no desenvolvimento inicial das plantas, na estatura final, quanto no rendimento de grãos.

Palavras-chave: Glyphosate, paraquat, Avena strigosa S., semeadura direta.

SUMMARY

With the purpose of evaluating time intervals for corn seeding after forage oats desiccation with non-selective herbicides, it was conducted a factorial trial in Agronomic Experimental Station of UFRGS, in Eldorado do Sul, RS, Brazil, in the 1997/98 growing season. One factor consisted of four times of oats desiccation (13, 9, 5 and 1 day before corn seeding). The other factor was four corn pre-seeding systems (glyphosate "540gha-1 e.a." herbicide applied on oat plants or on soil surface without oats; paraquat "400gha-1 i.a." + diuron "200gha-1 i.a." herbicide applied on oat plants; and a control in which corn seeding occurred in absence of oats and of herbicide use). There were no significant interactions between factors tested. In relation to corn pre-seeding systems, it was observed an increase in plant height, followed by decrease in plant dry matter, as determined 20 and 40 days after emergence, when corn was seeded in the presence of oat straw, in relation to corn seeded in its absence. For corn seeding time intervals after oat desiccation there were no significant differences for initial growth of corn plants and either in corn final height or grain yield.

Key words: Glyphosate, paraquat, Avena strigosa S., no-till.

INTRODUÇÃO

Atualmente, no Estado do Rio Grande do Sul, a aveia-preta (Avena strigosaS.) e a aveia-branca (Avena sativa L.) são as principais culturas de inverno utilizadas com os objetivos de cobrir o solo e de fornecer palha ao sistema de semeadura direta. Porém, o acúmulo de resíduos vegetais na superfície do solo acarreta aumentos da atividade biológica e na mineralização do material orgânico e, conseqüentemente, em transformações do N-amoniacal. Deve-se considerar que a relação C/N destes resíduos vegetais influencia diretamente a taxa de mineralização do nitrogênio pelos microorganismos no solo e a relação oferta/demanda desse pelas culturas (SÁ, 1993).

Materiais com alta relação C/N, como a palha de cereais, apresentam menores taxas de decomposição (VELLOSO & ROMAN, 1993), o que resulta em menor produção de nitrogênio (AITA et al., 1994; TEIXEIRA et al., 1994; DA ROS & AITA, 1996) e menor rendimento de grãos de milho em relação ao semeado em sucessão a leguminosas (PÖTTKER & ROMAN, 1994; DA ROS & AITA, 1996).

Por outro lado, o rendimento de grãos do milho pode ser reduzido quando ele é implantado imediatamente sobre resíduos culturais de espécies de inverno, principalmente de gramíneas (RAIMBAULT et al., 1991; RUEDELL, 1995). Estas reduções são atribuídas, principalmente, ao efeito da alta relação C/N. A imobilização líquida de nitrogênio poderá ocorrer nos períodos iniciais da decomposição (JENSEN, 1997). Entretanto, a continuidade do processo de decomposição dos resíduos diminui a relação C/N no solo, uma vez que o carbono é perdido na forma de CO2 e o nitrogênio é conservado pela formação de massa celular microbiana (VICTORIA et al., 1992).

Neste sentido, a determinação do intervalo de tempo para semeadura do milho após a dessecação de culturas de cobertura do solo representa prática de manejo a ser adotada visando-se à implantação da cultura em época mais favorável para reduzir a competição desta com os microorganismos pelo nitrogênio (RAIMBAULT et al., 1991; RUEDELL, 1995). De acordo com RUEDELL (1995) e RECOMENDAÇÕES... (1997), a eliminação mecânica e/ou química das culturas de inverno, antes da implantação do milho, mais especificamente nos casos da aveia-preta e do azevém, deve ser realizada no mínimo 20 dias antes da semeadura do milho. Evita-se, assim, possíveis efeitos alelopáticos, competição por nitrogênio ou mesmo efeito de resíduos dos herbicidas utilizados na dessecação, conforme enfatizam diversos autores.

Quanto à residualidade no solo dos herbicidas utilizados no manejo químico das coberturas, não seria necessário respeitar o intervalo mencionado. Esse fato deve-se à forte adsorção dos herbicidas glyphosate e paraquat às partículas de argila e de matéria orgânica, o que os torna praticamente inativos no solo (SPRANKLE et al., 1975; RODRIGUES & ALMEIDA, 1995). Isto foi confirmado por FLECK et al. (1997), os quais constataram que, na ausência de resteva, não houve diferença no crescimento inicial do milho em relação à testemunha quando os herbicidas glyphosate e 2,4-D foram aspergidos diretamente no solo. No entanto, foi necessário aguardar um intervalo de tempo de pelo menos 10 dias entre a aplicação do herbicida e a semeadura, quando a aspersão foi realizada sobre plantas de aveia-preta ou ervilhaca.

Outro fator que assume importância na prática da semeadura direta relaciona-se aos possíveis efeitos alelopáticos depressivos ocasionados pela liberação de aleloquímicos ao meio, a partir da decomposição de resíduos vegetais no solo (ALMEIDA, 1988). Substâncias com ação alelopática, como escopoletina, foram identificadas entre aquelas exudadas por raízes de aveia, as quais foram capazes de inibir o desenvolvimento de plantas de Brassica kaber, azevém e trigo (FAY & DUKE, 1977; JACOBI, 1997). Da mesma forma, extratos obtidos de plantas de aveia e soja causaram decréscimo de 61% no comprimento da radícula e em raízes secundárias, bem como redução de 74% na germinação do milho (MARTIN et al., 1990).

O presente experimento objetivou definir o intervalo de tempo para semeadura do milho cultivado em sucessão à aveia-preta dessecada com os herbicidas glyphosate ou paraquat em sistema de semeadura direta.

MATERIAL E MÉTODOS

Um experimento foi conduzido a campo, durante o período julho de 1997 a fevereiro de 1998, na Estação Experimental Agronômica (EEA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), localizada no município de Eldorado do Sul, região fisiográfica da Depressão Central do Rio Grande do Sul e caracterizada por apresentar clima subtropical úmido. O solo do local pertence à unidade de mapeamento São Jerônimo, classificado como Podzólico vermelho-escuro, distrófico (Paleudult) (ESPÍRITO SANTO, 1988).

Na etapa inicial do experimento foi implantada a cultura da aveia-preta (Avena strigosa S.), na densidade média de 300 plantas m-2, semeada em linhas espaçadas em 0,20m, em 02 de julho de 1997. Aos 35 dias após a emergência das plantas de aveia-preta, efetuou-se sua eliminação via química onde se desejava manter a área em sistema de pousio (solo descoberto). Para tal, utilizou-se o herbicida glyphosate na dose de 540gha-1 e.a. A adubação nitrogenada em cobertura para esta cultura foi aplicada 45 dias após sua emergência, utilizando-se 54kgha-1 de nitrogênio (equivalentes a 120kgha-1 de uréia).

Para semeadura do milho (Zea maysL.), utilizou-se o híbrido ‘XL-212’, o qual foi estabelecido na densidade de 70.000 plantas ha-1 em espaçamento de 0,7m entre fileiras. A semeadura ocorreu no dia 17 de setembro de 1997 e a colheita das espigas no dia 18 de fevereiro de 1998 (145 dias após a emergência). A adubação do solo foi realizada juntamente com a operação de semeadura e constou da distribuição de 45kgha-1 de N, 120kgha-1 de P2O5 e 100kgha-1 de K2O. Em cobertura, utilizou-se adubação com 100kgha-1 de nitrogênio (210kgha-1 de uréia), que foi parcelada em duas aplicações.

Os tratamentos foram arranjados no delineamento experimental de blocos completamente casualizados, com quatro repetições, dispostos em esquema fatorial. Cada unidade experimental apresentou área de 21m2 (6m x 3,5m), contendo quatro fileiras de plantas. A fim de simular-se diferentes datas de semeadura do milho pós-dessecação da cobertura vegetal de aveia-preta, realizaram-se, inversamente, aplicações herbicidas em várias épocas. As épocas de dessecação da aveia-preta, utilizadas como um dos fatores, ocorreram aos 13, 9, 5 e 1 dia antes da semeadura do milho. O outro fator foi representado por quatro sistemas de pré-semeadura do milho: dessecação com glyphosate [N-(fosfometil) glicina], na forma de sal de isopropilamina, na dose de 540gha-1 e.a., aplicado sobre plantas de aveia-preta e também sobre solo descoberto; paraquat (1,1’-dimetil-4,4’bipiridilio), na forma de íon dicloreto, mais diuron [N’-(3,4-diclorofenil)-N,N-dimetiluréia], nas doses de 400gha-1 e 200gha-1 de i.a., acrescidos de Agral (0,1% v/v); e semeadura do milho na ausência de resteva e de herbicida (testemunha).

Os herbicidas foram aplicados nos dias 4, 8, 12 e 16 de setembro de 1997. Nestas épocas, a aveia-preta produziu média de 6000kgha-1 de matéria seca, variável de 5600 até 6500kgha-1 da primeira para a última aplicação. Para as aspersões utilizou-se pulverizador costal de precisão, operado à pressão constante de 200kPa, empregando-se bicos jato plano, do tipo leque, série 110.03, os quais propiciaram volume de calda equivalente a 200lha-1.

Os efeitos dos tratamentos foram estimados através das avaliações da estatura e da massa seca do milho, realizadas aos 20 e 40 dias após a emergência (DAE), determinadas em 10 plantas por parcela. Também foram determinados estatura na colheita e rendimento de grãos com umidade corrigida para 13%.

Os dados coletados no experimento foram submetidos à análise de variância, através do teste F, e as médias dos tratamentos foram comparadas aplicando-se o teste de Tukey. Em ambas as análises utilizou-se o nível de 5% de probabilidade de erro.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O resultado da análise de variância demonstrou existência de diferenças significativas apenas entre tratamentos relativos ao fator sistemas de pré-semeadura do milho. Para o fator intervalos entre dessecação e semeadura, independente da variável estudada, não ocorreram diferenças estatísticas (tabela 1).

Em relação aos sistemas de pré-semeadura do milho, é possível constatar que as maiores estaturas de planta, tanto na avaliação realizada aos 20 quanto aos 40 DAE, foram obtidas, independente do herbicida utilizado, nas situações de presença de plantas de aveia-preta, em comparação ao solo descoberto (tabela 2). Entretanto, para massa seca, verificou-se comportamento inverso. Para esta variável, os maiores valores foram obtidos na ausência de resteva de aveia-preta, enquanto os menores valores ocorreram na presença de resteva desta espécie, independente do herbicida utilizado (tabela 2).

Esse comportamento pode decorrer do efeito direto causado pela palha da aveia-preta sobre o crescimento inicial das plântulas de milho. Tal fato decorre da redução da incidência de luz sobre as plantas, resultando no desenvolvimento acentuado da sua parte aérea. O fenômeno, conhecido como estiolamento, foi responsável pela maior estatura e menor massa seca das plantas de milho, o que foi observado na presença de palha dessecada de aveia-preta. Isto pode ser explicado pelo maior gasto energético em expansão celular e não pela divisão celular (incorporação de material orgânico) dessas plantas. Também as alterações na qualidade e quantidade de luz, ocorridas na presença da palha, podem ter influído em um desbalanço hormonal, especialmente nos níveis dos ácidos indolacético e giberélico, envolvidos nos processos de expansão e divisão celular, o que resultou em crescimento diferenciado das plântulas envolvidas.

O estabelecimento e a sobrevivência das plântulas foram afetados pela composição e intensidade da cobertura do solo, sendo a qualidade e a quantidade de luz os principais mecanismos envolvidos nas alterações daquelas variáveis. Desse modo, o crescimento de planta em meio aos resíduos vegetais pode afetar suas características morfológicas. Plântulas de Carduus nutanse de carvalho, por exemplo, que cresceram através de camadas de palha apresentaram-se com hipocótilo maior e estioladas quando comparadas às que cresceram sob menor quantidade ou sem presença de palha (HAMRICK & LEE, 1987; FACELLI & PICKETT, 1991). Uma distribuição lateral desigual de luz também pode ter causado o estiolamento de coleóptilos de plantas por promover maior acúmulo de auxinas na região menos iluminada, o que resulta em maior crescimento. De forma semelhante, o ácido giberélico promove elongação de ramos, bem como decréscimo na espessura de ramos e no tamanho de folhas (TAIZ & ZEIGER, 1991).

Ainda, a menor matéria seca obtida nas plantas de milho semeado onde foi aplicado o herbicida glyphosate sobre solo descoberto, não pode ser atribuída ao efeito residual do herbicida, visto que este tratamento não se diferenciou da testemunha (sem herbicida e sem resteva). Sabe-se que este herbicida sofre forte adsorção às partículas de argila e de matéria orgânica, o que o torna praticamente inativo no solo (SPRANKLE et al., 1975; RODRIGUES & ALMEIDA, 1995).

O efeito inicial ocorrido na estatura de planta permaneceu inalterado na avaliação final de estatura, realizada aos 128 DAE. Contudo, o rendimento de grãos da cultura não apresentou diferenças significativas entre os sistemas utilizados em pré-semeadura (tabela 2). Também não houve significância estatística, para todas as variáveis avaliadas, entre tratamentos do fator épocas de dessecação da aveia-preta antes da semeadura do milho (tabela 1).

Relato semelhante foi feito por ARGENTA (1998), o qual não obteve diferença estatística para rendimento de grãos de milho cultivado na região de Passo Fundo (RS), com o atraso na época de semeadura da cultura de um para 20 dias após a dessecação da aveia-preta. O autor atribuiu este fato ao alto teor de matéria orgânica contido naquele solo o que, provavelmente, propiciou o suprimento das necessidades iniciais da cultura por nitrogênio através do processo de mineralização basal. Entretanto, no presente experimento, especula-se que a ausência de diferença estatística entre as épocas de dessecação da aveia-preta, antes da semeadura do milho, deveu-se às temperaturas elevadas e à alta precipitação pluvial ocorridas durante o período de condução do trabalho. Tal fato, seguramente, resultou em alterações relevantes nas condições ambientais, que interferiram decisivamente nos processos biológicos (relação C/N) e químicos (alelopatia) ocorrentes no solo.

ROPER (1985) e STOTT et al. (1986) demonstraram que a água e a temperatura do solo exercem efeitos significativos durante os estágios iniciais da decomposição de resíduos vegetais, quando os componentes solúveis em água estão realmente disponíveis. Assim, quando a população microbiana do solo é submetida a algum estresse ambiental, como secamento rápido, esfriamento acentuado do solo ou alguma perturbação mecânica, uma porção da biomassa é morta, sendo rapidamente decomposta pelos microorganismos, liberando nutrientes para as culturas (MARUMOTO, 1984). Também a água participa na relação água/oxigênio, determinando o tipo de metabolismo energético possível de ser utilizado pela população microbiana e, portanto, relacionando-se à velocidade de decomposição dos resíduos. Em condições de capacidade de campo e altas temperatura, os solos apresentam condições ideais para o crescimento das populações microbianas aeróbicas, acelerando a decomposição dos resíduos (FRIES, 1997).

Outro fator que pode ter contribuído para ausência de diferenças entre as épocas de dessecação é o provável decréscimo na concentração de aleloquímicos no solo, decorrente de condições de altas temperatura e precipitação pluvial. Isso pode ocorrer tanto pelo aumento na população microbiana (biodegradação), quanto por volatilização e/ou lixiviação dos compostos originados do material vegetal ou da sua degradação.

Segundo VELLOSO & ROMAN (1993), a concentração de aleloquímicos no solo depende, além do tipo e da taxa de decomposição do resíduo cultural, de outros fatores, como atividade microbiana, temperatura do solo e precipitação pluvial. VIDAL & BAUMAN (1997) referem que os aleloquímicos interagem no ambiente da mesma forma que os herbicidas e estão sujeitos aos mesmos processos de degradação como decomposição microbiana, fotólise e oxidação, e aos processos de remoção ou transferência, como volatilização e adsorção. Assim, altas temperaturas e chuvas abundantes tendem a acelerar estes processos, ocasionando, conseqüentemente, o rápido desaparecimento dos fatores de estresse do solo e, ao mesmo tempo, favorecendo o crescimento intenso das plantas.

CONCLUSÕES

A semeadura do milho em palha de aveia-preta dessecada por herbicidas não-seletivos promove estiolamento no crescimento inicial das plantas, resultando em maior estatura e menor quantidade de massa seca.

A utilização dos herbicidas glyphosate e paraquat+diuron para dessecação de aveia-preta não afeta o crescimento inicial nem o rendimento de grãos do milho semeado em sucessão.

Intervalos de tempo variáveis entre um e 13 dias, entre dessecação da aveia-preta e semeadura do milho, não afetam o desenvolvimento de planta e nem o rendimento de grãos de milho.

2 Engenheiro Agrônomo, Doutor, Pesquisador Associado, Departamento de Plantas de Lavoura, Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bolsista do CNPq, CP 776, 91501-970, Porto Alegre, RS. Autor para correspondência.

3 Engenheiro Agrônomo, Doutor, Professor Adjunto do Departamento de Plantas de Lavoura, Faculdade de Agronomia da UFRGS. Bolsista do CNPp.

Recebido para publicação em 28.04.98. Aprovado em 09.12.98

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  • 1
    Engenheiro Agrônomo, Mestre, Aluno do Programa de Pós-graduação em Agronomia da Faculdade de Agronomia da UFRGS.
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      08 Dez 2006
    • Data do Fascículo
      Dez 1999

    Histórico

    • Aceito
      09 Dez 1998
    • Recebido
      28 Abr 1998
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