A EMERGÊNCIA DA UNIVERSIDADE OPERACIONAL: REDES, LIQUIDEZ E CAPITALISMO ACADÊMICO* * Este artigo está vinculado ao projeto de pesquisa que originou a dissertação intitulada A ascensão da lógica financeira sob a perspectiva da teoria do capitalismo acadêmico: consequências para a formação do engenheiro de produção, realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, e foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) (processo nº 1601669).

The emergence of the operational university: networks, liquidity and academic capitalism

L’émergence de l’université opérationnelle: réseaux, liquidité et capitalisme académique

Tiago Fonseca Albuquerque Cavalcanti Sigahi Patrícia Saltorato Sobre os autores

RESUMO:

Este artigo explora como novas formas de capital e de organização da vida humana têm contribuído para a construção de um cenário fértil para a consolidação de uma universidade operacional, competitiva e heterônoma dentro do contexto do capitalismo acadêmico. Para isso, realizou-se, inicialmente, um paralelo entre o “novo espírito do capitalismo” de Boltanski e Chiapello, a “sociedade em rede” de Castells e a “modernidade líquida” de Bauman, explorando questões relacionadas ao esfacelamento das relações humanas e de trabalho. Tendo como pano de fundo as questões levantadas por esses autores, buscou-se entender as consequências dessas transformações para a universidade, retratando a Universidade Operacional como uma expressão de uma sociedade líquida-reticular. Por fim, buscou-se analisar tais mudanças sob a perspectiva da teoria do capitalismo acadêmico, explorando suas origens e expressões contemporâneas no Brasil; assim como as maneiras pelas quais uma rede de atores internos e externos à universidade têm se engajado no processo de redefinição das fronteiras entre o público e o privado. Espera-se que este estudo possa contribuir para o avanço acerca do entendimento da situação atual da educação superior brasileira subsidiando o de(com)bate sobre a desconfiguração da universidade aprofundada no contexto do capitalismo acadêmico.

Palavras-chave:
Capitalismo acadêmico; Universidade Operacional; Novo espírito do capitalismo; Sociedade em rede; Modernidade líquida

ABSTRACT:

This article aimed to explore how new forms of capital and organization of human life have contributed to the construction of a fertile scenario for the consolidation of an operational, competitive and heteronomous university within the context of academic capitalism. First, we draw a parallel between Boltanski and Chiapello’s “new spirit of capitalism”, Castells’s “network society” and Bauman’s “liquid modernity”, exploring issues related to the breakdown of human and labor relations. Building on the contributions of these authors, we discussed the consequences of such transformations for the university by portraying the Operational University as an expression of the net-reticular society. Finally, we analyzed such changes from the perspective of the theory of academic capitalism, exploring their origins and contemporary expressions in Brazil; as well as the ways through which a network of actors inside and outside university have been engaged in the process of redefining the boundaries between public and private. We hope this study may contribute to advance in the understanding of the current situation of Brazilian higher education by subsidizing the debate/combat concerning the university’s deconfiguration deepened in the academic capitalist context.

Keywords:
Academic capitalism; Operational University; The New Spirit of Capitalism; Network society; Liquid modernity

RESUME:

Cet article vise à explorer comment les nouvelles formes de capital et de l’organisation de la vie humaine ont contribué à la construction de milieu fertile pour la consolidation d’une université d’exploitation, compétitive et hétéronome dans le contexte du capitalisme académique. Pour cela, au départ, il y aura un parallèle entre le « nouvel esprit du capitalisme » de Boltanski et Chiapello, « société en réseau » de Castells et « modernité nette » de Bauman, explorant des questions liées à la rupture des relations humaines et professionnelles. Dans le contexte des questions soulevées par ces auteurs, nous cherchons à comprendre les conséquences de ces changements pour l’université, représentant l’Université Opérationnelle comme une expression du monde liquide réticulaire. Enfin, on essaye d’analyser ces changements du point de vue du capitalisme académique, en explorant ses origines et expressions contemporaines au Brésil; ainsi que la façon dont un réseau d’acteurs internes et externes à l’université se sont engagés dans la remise à zéro frontière entre les secteurs public et privé. On s’attend à ceque cette étude contribuera à l’avancement de la compréhension de la situation actuelle de l’enseignement supérieur du Brésil en subventionnant le (avec) frappe sur le mutiler de l’université.

Mots-clés:
Capitalisme académique; Université Opérationnelle; Nouvel esprit du capitalisme; Société en réseau; Modernité nette

Introdução

À emergência da sociedade do conhecimento, o debate da educação foi transformado em assunto de homens de negócios, banqueiros e estrategistas políticos (LEHER, 1999LEHER, R. O BIRD e as reformas neoliberais na educação. PUC Viva, São Paulo, v. 1, n. 5, p. 16-22, 1999.). Juntamente com governos, corporações e instituições educacionais, e balizados pelas ideias de eficiência, produtividade e competitividade, tais atores têm trabalhado ativamente na construção de um mercado da educação superior.

A introdução de uma lógica empresarial no campo educacional pode ser percebida por meio de diferentes vias: publicação de relatórios por influentes órgãos multilaterais (e.g., Banco Mundial, Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO) contendo orientações de cunho neoliberal1 1 . Por neoliberal os autores entendem o conjunto de convenções cognitivas que a partir de meados da década de 1980 passaram a argumentar a favor da redução da atuação do Estado na economia (inclusive nas áreas da Previdência Social, da Saúde e da Educação) e a favor da disciplina de mercado (inclusive, e principalmente, o de capitais); da desregulamentação econômica/financeira/trabalhista decorrente de tal afastamento estatal; da privatização de bens públicos (inclusive recursos naturais); da ascensão da lógica de livre mercado para conduzir os espaços públicos e privados. ; utilização de linguagem gerencial no meio acadêmico; expansão desenfreada de faculdades privadas; criação de artefatos legais; atuação de fundos de investimento nacionais e internacionais; atuação de fundações privadas junto a entidades estudantis; entre outras.

De acordo com Chauí (2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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), é nesse cenário que ocorre a passagem da universidade pública da condição de instituição à de organização. Tal transformação, segundo a autora, está relacionada à fragmentação de todas as esferas da vida social. Nesse sentido, este artigo pretendeu explorar como novas formas de capital e de organização da vida humana contribuem para a construção de um cenário fértil para o surgimento de uma universidade operacional, competitiva e heterônoma (SGUISSARDI, 2008bSGUISSARDI, V. Regulação estatal versus cultura de avaliação institucional? Avaliação, Campinas, v. 13, n. 3, 2008b. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772008000300016
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; 2013SGUISSARDI, V. Regulação estatal e desafios da expansão mercantil da educação superior. Educação & Sociedade, Campinas, v. 34, n. 124, p. 943-960, 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302013000300015
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; DIAS SOBRINHO, 2014DIAS SOBRINHO, J. Universidade e novos modos de produção, circulação e aplicação do conhecimento. Avaliação, Campinas, v. 19, n. 3, 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772014000300007
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772014...
; 2015DIAS SOBRINHO, J. Universidade fraturada: reflexões sobre conhecimento e responsabilidade social. Avaliação, Campinas, v. 20, n. 3, 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015...
; CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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) dentro de um contexto de capitalismo acadêmico (SLAUGHTER; LESLIE, 1997SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997.; SLAUGHTER; RHOADES, 2004SLAUGHTER, S.; RHOADES, G. Academic Capitalism and the New Economy: Markets, State, and Higher Education. Baltimore: John Hopkins University Press , 2004.).

Para isso, realizou-se, inicialmente, um paralelo entre o “novo espírito do capitalismo” de Boltanski e Chiapello (2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.), a “sociedade em rede” de Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.) e a “modernidade líquida” de Bauman (2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001.), explorando-se questões relacionadas ao esfacelamento das relações humanas e de trabalho. Buscou-se, com isso, revelar as condições que propiciaram a emergência do capitalismo acadêmico no Brasil.

Em seguida, tendo como pano de fundo as contribuições desses autores, buscou-se melhor entender as consequências dessas transformações para a universidade brasileira, retratando-se a Universidade Operacional (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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) como a expressão de um mundo líquido-reticular.

Por fim, buscou-se analisar tais mudanças na perspectiva da teoria do capitalismo acadêmico (SLAUGHTER; RHOADES, 2004SLAUGHTER, S.; RHOADES, G. Academic Capitalism and the New Economy: Markets, State, and Higher Education. Baltimore: John Hopkins University Press , 2004.), explorando desde suas origens até as expressões contemporâneas no Brasil; assim como as maneiras pelas quais uma rede de atores - universidades, professores, alunos, policy makers, órgãos multilaterais, fundações privadas, CEOs-celebridade (CEO - Chief Executive Officer, Diretor Executivo), fundos de investimento, grupos educacionais - engaja-se no processo de redefinição das fronteiras entre o público e o privado.

O espírito do capitalismo: o novo “grande” só pode enraizar-se em si mesmo

Em livro que se tornou um marco no estudo das transformações do capital, os sociólogos Boltanski e Chiapello (2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.) desenvolveram a noção de “espírito do capitalismo”, conceito que simboliza a ideologia que “justifica” o engajamento no capitalismo. Em outras palavras, é o conjunto de crenças associadas à ordem capitalista que contribui para justificar, sustentar e conferir sentido a essa ordem, legitimando seus modos de ação e dando respaldo à adesão ao estilo de vida coerente com ela (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 42).

Esses autores identificam três diferentes configurações ideológicas (“espíritos do capitalismo”) que emergem em períodos distintos. Tais configurações, reveladas pela homogeneidade dos discursos de cada período, não são temporalmente estanques, uma vez que os espíritos antecessor e sucessor se interseccionam em grande parte. Ainda assim, traços característicos de cada período podem ser identificados, como mostra o Quadro 1.

Quadro 1:
Configurações ideológicas dos espíritos do capitalismo.

O primeiro espírito do capitalismo estaria sintonizado com as formas do capitalismo essencialmente familiar: o destino e a vida da empresa eram fortemente associados aos destinos de uma família e os proprietários eram conhecidos pessoalmente por seus empregados. Em busca de legitimação, seus defensores justificavam-se com base em constructos do bem comum, como a “crença no progresso, no futuro, na ciência, na técnica, nos benefícios da indústria”, havendo pouca referência “ao liberalismo econômico, ao mercado ou à economia acadêmica”. Ainda nesse período, o advento de novos meios de comunicação e do trabalho assalariado possibilitou a “libertação”, sobretudo geográfica, dos mais jovens (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 49-51).

O segundo espírito do capitalismo passar a ter como figura central o diretor, dirigente assalariado ou executivo, habitado pela vontade de aumentar ilimitadamente o tamanho da empresa. Pode ser associado ao que Bauman (2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 72-77) chama de capitalismo “pesado”, em sua fase “volumosa”, “imóvel” ou “enraizada”. Persegue-se a ideia da grande empresa centralizada e burocratizada, fascinada pelo gigantismo, pela produção em massa, baseada em economias de escala, padronização de produtos e organização racional do trabalho (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 50). O fordismo era a autoconsciência da sociedade (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 75).

O ideal de ordem industrial era encarnado pelos engenheiros pelas crenças no progresso, na ciência e na técnica, na produtividade e na eficácia. Os quadros profissionais das empresas passaram a ter a presença crescente de supervisores qualificados por diplomas universitários. A empresa ideal do segundo espírito possuía alta atratividade e estímulo junto a jovens recém-formados que vislumbravam a oportunidade de atingir posições de poder, “a partir das quais se pudesse mudar o mundo” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 50-52). Ocorrem nessa fase a atenuação da luta de classes e a dissociação entre propriedade do capital e controle empresarial.

Para atender à demanda dos executivos por “garantias”, surgem dispositivos, tais como: gerenciamento das carreiras nas grandes empresas; instauração da aposentadoria; ampliação do número de formas jurídicas do contrato de trabalho assalariado; além do próprio gigantismo das organizações que constituíam “ambientes protetores capazes de oferecer não só perspectivas de carreira, mas também infraestrutura para a vida cotidiana” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 59).

Por sua vez, o terceiro espírito do capitalismo - cuja consolidação está em curso - traz consigo um modelo de empresa totalmente novo, que tem se reinventado em torno de atributos como “enxuto”, “leve”, “sem adiposidades”. Para os autores:

A imagem típica da empresa moderna hoje em dia é de um núcleo enxuto rodeado por uma miríade de fornecedores, serviços terceirizados, prestadores de serviços e trabalhadores temporários que possibilitam variar os efetivos segundo a atividade, empresas coligadas. Fala-se então em rede de empresas (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 102).

Nesse novo cenário, o capital se torna exterritorial, leve, desembaraçado e solto numa medida sem precedentes (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 188). Ganham elevada amplitude os temas da concorrência e da mudança permanente e cada vez mais rápida das tecnologias e dos formatos organizacionais, e em praticamente todos os textos da imprensa de negócios da época são encontrados “conselhos” para a implantação de uma organização flexível capaz de “surfar sobre todas as ondas” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 100).

O terceiro espírito traz a apologia à mudança e ao risco. A mobilidade e a flexibilidade substituem a valorização da ideia de garantia da época anterior (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 121). Esse é o tempo do capitalismo de software e da modernidade leve (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 148). A empresa industrial centralizada e burocratizada, agora percebida como um acúmulo de vínculos contratuais, perde sua forma, pois suas fronteiras se tornam indistintas, liquefeitas (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 103).

O trabalho também sofre profundas transformações. Os membros de uma mesma equipe não funcionam obrigatoriamente juntos do ponto de vista físico - trabalham em rede. A questão do controle torna-se a preocupação central dos empresários, que chegam à conclusão de que a solução é que as pessoas se autocontrolem, deslocando assim “a coerção externa dos dispositivos organizacionais para a interioridade das pessoas” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 110).

Nesse novo universo, percebido como “múltiplo, complexo e rápido e, portanto, como ambíguo, vago e plástico” (THRIFT, 1997 apudBAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 148), as novas palavras de ordem são criatividade, reatividade e flexibilidade. O novo “grande” - aquele que tem sucesso e/ou é admirado - deve ser capaz de trabalhar com os mais variados perfis de pessoas; mostra-se aberto e flexível sempre que necessário; e está permanentemente disposto a mudar de projeto e a adaptar-se a novas circunstâncias (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 121-124).

No mundo reticular, as pessoas precisam aprender a gerir um novo tipo de capital pessoal. A noção fundamental da concepção da vida laboral é a de “empregabilidade”, que designa a capacidade de que as pessoas precisam ser dotadas para que se recorra a elas nos projetos. A segurança da carreira - proporcionada pelos dispositivos do segundo espírito - é substituída pela sucessão de projetos. “As pessoas não farão carreira, mas passarão de um projeto a outro, pois o sucesso em dado projeto lhes possibilitará acesso a outros projetos mais interessantes”, e assim sucessiva e ilimitadamente. Por definição, cada projeto é diferente, novo e inovador e, desse modo, esta é a oportunidade de ser apreciado pelos outros e poder ser chamado para outro negócio (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 125).

A vida social não é mais apresentada na forma de uma série de direitos e deveres nem na forma de assalariados inseridos num conjunto hierárquico cujos degraus são possíveis de galgar, e sim de “uma multiplicidade de encontros e conexões temporárias, mas reativáveis; em grupos diversos, realizados em distâncias sociais, profissionais, geográficas e culturais eventualmente muito grandes” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 135).

O “grande” é leve porque está liberto do peso de suas próprias paixões e de seus valores e, por assim ser, ele não é crítico (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 157), é dócil, incapaz ou “não desejoso de oferecer resistência organizada a qualquer decisão que o capital venha a tomar” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 189); sacrifica certa interioridade e fidelidade a si mesmo, para ajustar-se melhor às pessoas com as quais entra em contato e às situações; só pode enraizar-se em si mesmo - “única instância dotada de certa permanência num mundo complexo, incerto e móvel” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 158).

O mundo líquido-reticular2 2 . Expressão criada pelos autores visando consubstanciar, em sentido amplo, as concepções sobre a sociedade de Bauman (2001; 2007; 2009; 2011) e Castells (1999), i.e., a liquidez e a organização em rede, respectivamente. : a existência como atributo relacional e os contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”

A vida, portanto, nesta que podemos chamar de “sociedade em rede” (CASTELLS, 1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.), é concebida como uma sucessão de projetos, não importando o seu tipo - familiar, afetivo, educativo, religioso etc. O importante é “nunca estar sem projetos, sem ideias, ter sempre algo em vista, em preparação”; a sucessão de projetos multiplica as conexões e provoca a proliferação de seus elos, ampliando as redes - e “a ampliação da rede é a própria vida” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 142-143).

Em um “planeta atravessado por autoestradas da informação” (BAUMAN, 2007BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar , 2007., p. 11), a infraestrutura tecnológica que constrói a rede define o novo espaço assim como as ferrovias definiam os mercados na economia industrial (CASTELLS, 1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999., p. 502). Na lógica desse mundo, a própria existência é um atributo relacional: cada ser “existe em maior ou menor grau segundo o número e o valor das conexões que passam por ele” (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009., p. 160).

Para Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999., p. 202), surge uma nova economia, que é capitalista, mas “um novo tipo de capitalismo, tecnológica, organizacional e institucionalmente distinto do capitalismo clássico”; existe um componente adicional e essencial na nova economia: as redes.

Enquanto o industrialismo é voltado para o crescimento da economia (maximização da produção), o novo modo de desenvolvimento - o informacionalismo - visa à acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento de informação. Nesse sentido, “a rede é especialmente apropriada para a geração de laços fracos múltiplos, úteis no fornecimento de informações e de novas oportunidades a baixo custo” (CASTELLS, 1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999., p. 445). Na economia informacional, organizações bem-sucedidas são aquelas “capazes de gerar conhecimentos e processar informações com eficiência; adaptar-se à geometria variável da economia global; ser flexível o suficiente para transformar seus meios tão rapidamente quanto mudam os objetivos” (CASTELLS, 1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999., p. 233).

Nos tempos líquidos em que hoje vivemos, é necessário aprender no caminho - e depressa. O jogo da dominação não é mais jogado entre o “maior” e o “menor”, e sim entre o mais rápido e o mais lento (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 234), pois “quando patinamos no gelo fino, o que nos salva é a velocidade” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 115). Dominam os que são capazes de acelerar além da velocidade de seus opositores; os mais escapadiços, que possuem a habilidade de se desengajar; “pessoas com as mãos livres mandam em pessoas com as mãos atadas” (BAUMAN, 2001, p. 151), uma vez que: “[a] presente versão liquefeita, dispersa, espalhada e desregulada da modernidade [...] anuncia o advento do capitalismo leve e flutuante” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 187).

Corpo esguio e adequação ao movimento, roupa leve e tênis, telefones celulares (inventados para o uso dos nômades que têm que estar constantemente em contato), pertences portáteis/descartáveis - são os principais objetos culturais da era da instantaneidade (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 162).

Para explicar essa nova versão da maneira como nos comportamos hoje, Bauman (2009BAUMAN, Z. Vida líquida. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar , 2009., p. 151-153) faz uso de uma metáfora em que compara um projétil (ou bala de arma de fogo) a um míssil inteligente. Durante as guerras de trincheiras, nas quais os alvos permaneciam imóveis, as qualidades do projétil o tornavam uma arma ideal: no instante em que a bala era disparada, a direção e a distância a ser percorrida já haviam sido decididas e, se miradas da maneira correta, tinham destino certo. Contudo, basta o alvo adquirir a habilidade de se mover para tornar essa arma inútil, fato que se acentua ainda mais quando se move “de forma errática e imprevisível, confundindo os cálculos preliminares da trajetória planejada”. Assim, “[f]az-se necessário então um míssil inteligente que possa mudar de direção no meio do caminho [...] que seja capaz de detectar imediatamente os movimentos do alvo [...] deduzir o ponto exato em que suas trajetórias se cruzarão” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 152).

Hoje, é necessário aprender no caminho e mudar de direção quantas vezes for preciso. A escolha do “alvo” é feita enquanto prosseguimos (e o perseguimos).

Analogamente às “organizações em rede” de Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.) - que mudam seus meios tão rapidamente quanto mudam seus objetivos - e aos mísseis inteligentes de Bauman, exige-se das pessoas que sejam capazes de aprender tanto quanto esquecer instantaneamente o que se aprendeu antes; que mudem de ideia e revoguem decisões prévias sem hesitação ou lamento. Assim, múltiplos laços fracos dão sentido e forma às redes.

Nesse cenário difuso, incerto e de falta de segurança de longo prazo, a “satisfação instantânea parece ser uma estratégia razoável” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 203). Paradoxalmente, é necessário saber adiar a satisfação, pois vivemos em uma “cultura de cassino”: “Na cultura de cassino, a espera é tirada do querer, mas a satisfação do querer também deve ser breve; deve durar apenas até que a bolinha da roleta corra de novo, ter tão pouca duração quanto a espera, para não sufocar o desejo” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 199).

Compromissos do tipo “até que a morte nos separe” se transformam em contratos do tipo “enquanto durar a satisfação”, temporais por definição, por projetos (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 205); e estes, justamente por serem transitórios, se ajustam a um mundo em rede.

É nesse contexto de mudança da organização da vida humana, que se torna “fluida”; da estrutura social, que passa a ser em rede; do modo de desenvolvimento baseado na acumulação e no processamento de informação; e do capital leve e flutuante, que ocorre a introdução da lógica de mercado nas universidades públicas.

De instituição à organização: a universidade operacional, competitiva e heterônoma

A análise de Chauí (1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_...
; 2001CHAUÍ, M.S. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora UNESP, 2001.; 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
; 2014CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional [aula magna]. São Paulo: Associação dos Docentes da USP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 8 ago. 2014. 174 min. Disponível em: <Disponível em: http://www.adusp.org.br/files/database/2014/tex_chaui.pdf >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.adusp.org.br/files/database/2...
; 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
) sobre o avanço das ideias neoliberais no campo da educação superior está apoiada essencialmente na questão da mudança da natureza da educação, ou seja, a sua transformação de direito social em um serviço. Desse fato decorre a passagem da universidade pública da condição de instituição à de organização, como mostra o Quadro 2.

Quadro 2:
Diferenças entre instituição e organização.

A universidade como instituição busca um conhecimento desinteressado e isento de valores, aproximando-se do que Slaughter e Rhoades (2004SLAUGHTER, S.; RHOADES, G. Academic Capitalism and the New Economy: Markets, State, and Higher Education. Baltimore: John Hopkins University Press , 2004., p. 76) chamam de Public Good Model of Research, guiado pelas normas mertonianas, pautado nas ideias da universalidade e do livre fluxo do conhecimento.

Quando ocorre a transformação da educação em serviço, são introduzidos no meio acadêmico termos como “qualidade universitária”, “avaliação universitária” e “flexibilização da universidade” (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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). A ciência torna-se uma força produtiva e a ideia de que a universidade pode ser dirigida segundo as mesmas normas e critérios com que se administra uma montadora de automóveis ou uma rede de supermercados passa a ser aceita (CHAUÍ, 2014CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional [aula magna]. São Paulo: Associação dos Docentes da USP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 8 ago. 2014. 174 min. Disponível em: <Disponível em: http://www.adusp.org.br/files/database/2014/tex_chaui.pdf >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.adusp.org.br/files/database/2...
).

A política de educação superior passa a ser tratada como um subconjunto da política econômica (SLAUGHTER; LESLIE, 2001SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Expanding and Elaborating the Concept of Academic Capitalism. Organization, Londres, v. 8, n. 2, p. 154-161, 2001. https://doi.org/10.1177/1350508401082003
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) e surge a “universidade empreendedora” (CLARK, 1998CLARK, B. Creating Entrepreneurial Universities: Organizational Pathways of Transformation. Nova York: Emerald Group, 1998.); o ensino superior começa a ser entendido e vendido como produto e serviço para alunos/pais que, por sua vez, passam a ser concebidos como clientes/consumidores; a pesquisa passa a ser avaliada - e valorizada - quase que apenas pelo seu potencial de gerar publicações ou patentes.

Assim, a sociedade deixa de ser a referência da universidade, que se encontra inserida em um ambiente de competição onde alcançam êxito aqueles que são mais flexíveis, adaptáveis e eficientes; instala-se a cultura da performatividade que, por meio de medidas de desempenho quantitativas, fomenta relações de competitividade entre instituições, programas e pesquisadores (BALL, 2005BALL, S. Profissionalismo, gerencialismo e performatividade. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 126, p. 539-564, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742005000300002
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). Torna-se imprescindível a capacidade de participar de vários projetos ao mesmo tempo - e de ser apreciado pelos outros para continuar sendo chamado. É preciso aprender e esquecer rapidamente, desengajar-se e não enraizar-se.

A universidade não mais precisa, necessariamente, enfrentar os problemas postos pelas dificuldades de seu tempo, superar o instituído. Como uma organização, as palavras de ordem são “eficiência”, “eficácia”, “produtividade”; é preciso diversificar formas de financiamento, gerar ganhos, bater metas, obter bom desempenho (financeiro, inclusive), mercadologicamente falando (CATANI; OLIVEIRA, 2000CATANI, A.M.; OLIVEIRA, J.F. A reestruturação da educação superior no debate internacional: a padronização das políticas de diversificação e diferenciação. Revista Portuguesa de Educação, Braga, v. 13, n. 2, p. 29-52, 2000.).

Perde-se a ideia de autonomia, de ser autor da norma, da regra e da lei, pois esta, agora, reduz-se à gestão de receitas e despesas de acordo com o contrato de gestão pelo qual o Estado estabelece metas e indicadores de desempenho (CHAUÍ, 2014CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional [aula magna]. São Paulo: Associação dos Docentes da USP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 8 ago. 2014. 174 min. Disponível em: <Disponível em: http://www.adusp.org.br/files/database/2014/tex_chaui.pdf >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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). A autonomia “significa tão somente a liberdade para atender aos objetivos oficiais, mediante a competição por fundos e outros incentivos econômicos” (LÉDA; MANCEBO, 2009LÉDA, D.B.; MANCEBO, D. REUNI: heteronomia e precarização da universidade e do trabalho docente. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 34, n. 1, p. 49-64, 2009., p. 56). A nova autonomia é uma “autonomia para livremente conformar-se” (MEEK, 2002 apudSGUISSARDI, 2005SGUISSARDI, V. Universidade pública estatal: entre o público e o privado/mercantil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 26, n. 90, p. 191-222, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302005000100009
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, p. 20).

A universidade operacional como expressão do mundo líquido-reticular

Chauí (1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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; 2001CHAUÍ, M.S. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora UNESP, 2001.; 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
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; 2014CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional [aula magna]. São Paulo: Associação dos Docentes da USP, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 8 ago. 2014. 174 min. Disponível em: <Disponível em: http://www.adusp.org.br/files/database/2014/tex_chaui.pdf >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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) mostra que, no Brasil, a transformação da universidade ocorreu em três etapas sucessivas: numa primeira fase, a “universidade clássica”, voltada para o conhecimento, torna-se Universidade Funcional, voltada diretamente à formação rápida de mão de obra para o mercado de trabalho, período que corresponde ao “milagre econômico” dos anos 1970; nos anos 1980, surge a Universidade de Resultados, que pode ser assim chamada por direcionar seus esforços à empregabilidade dos futuros profissionais e à utilidade imediata de suas pesquisas; e, finalmente, em meados dos anos 1990, quando da ascensão da ideologia neoliberal, nasce a Universidade Operacional, ainda presente nos dias de hoje, regida por programas de eficácia organizacional, avaliada por índices de produtividade e voltada para si mesma. O Quadro 3 mostra as principais características de cada uma dessas fases.

Quadro 3:
Fases da universidade pública brasileira no período 1970-atual.

Todas essas transformações colocam em movimento a operacionalização das instituições universitárias (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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). A universidade não mais (re)age, ela opera:

  • A docência, ainda que seja responsável por “formar novos docentes, incentivar novos pesquisadores e preparar profissionais para atividades não acadêmicas”, não entra na medida da produtividade e, portanto, não faz parte da qualidade universitária (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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    ; 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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    );

  • O docente torna-se um trabalhador flexível. Sua atividade passa a ser entendida como correia de transmissão de informação, reduz-se ao adestramento de novos pesquisadores e/ou a um meio de habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho no qual se tornam obsoletos e descartáveis em pouco tempo (CHAUÍ, 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
    http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
    ; 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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    );

  • A seleção de docentes passa a ter como principal critério seu “potencial de pesquisa”, expresso pela razão entre o número de publicações em um determinado período de tempo; ou porque, não tendo vocação para a pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos flexíveis de trabalho, isto é, temporários e precários (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
    );

  • Na pesquisa, não há mais tempo para a reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos instituídos, sua mudança ou sua superação (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_...
    ). Diversos são os instrumentos de controle, pressão e mensuração de pesquisadores, por exemplo, conceitos Qualis, rankings, currículo lattes e medidas de desempenho (quantidade de publicações, participação em bancas, verbas para pesquisa, número de orientandos bolsistas etc.). Se por pesquisa entendermos a investigação de algo que nos lança na interrogação, que nos pede reflexão, descoberta, invenção e criação, então é evidente que não pode haver pesquisa na Universidade Operacional (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_...
    );

  • Não se forma mais espíritos inquietos (RIBEIRO, 2014RIBEIRO, R.J. A universidade e a vida atual: Fellini não via filmes. 2. ed. São Paulo: Editora USP, 2014., p. 57); perde-se o significado de formação, que é o de “introduzir alguém ao passado de sua cultura e despertá-lo(a) às questões que este passado engendra para o presente, estimulando a passagem do instituído ao instituinte” (CHAUÍ, 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
    http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
    , p. 12).

A universidade deixou de ser uma instituição social e passou a ser uma organização prestadora de serviços, o que foi possibilitado pela forma com que se configura a sociedade: como “uma rede, móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si” (CHAUÍ, 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
, p. 7).

No jogo estratégico da competição no mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades e obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos microproblemas (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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). A Universidade Operacional está pulverizada em micro-organizações que ininterruptamente ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho do conhecimento (CHAUÍ, 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
, p. 7). Ainda que não deem prazer - ou causem desprazer -, o importante é nunca estar sem projetos, sem ideias, ter sempre algo em vista, em preparação; é preciso fazer “parcerias” que rendam publicações, ser hábil para multiplicá-las, “fazer render”; criar sua própria rede é uma necessidade para prosperar - e sobreviver - no mundo acadêmico competitivo.

Na Universidade Operacional é pré-requisito “ter sucesso” em um projeto para ser chamado para outro - é preciso ser dotado de “empregabilidade acadêmica”. A questão, porém, como aponta Chauí (2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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), é que a “medida do sucesso” é feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido. Não se indaga “o que” se produz, “como” se produz, “para que” ou “para quem” se produz (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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). O importante é produzir; e produzir cada vez mais.

A permanência de uma organização “depende muito pouco de sua estrutura interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas do ambiente”. A redução do tempo entre a aquisição de um conhecimento e sua aplicação tecnológica é acentuada “a ponto dessa aplicação acabar determinando o conteúdo da própria investigação científica” (CHAUÍ, 2003CHAUÍ, M.S. A universidade pública sob nova perspectiva. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 5-15, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003...
, p. 7-9). O “grande” de Boltanski e Chiapello (2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.), as “organizações em rede” de Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.), os mísseis inteligentes de Bauman (2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001.) e a Universidade Operacional de Chauí (2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
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): todos precisam ser flexíveis o suficiente para transformar os meios tão rapidamente quanto mudam os objetivos.

A cultura de cassino também se faz presente na Universidade Operacional. Não há tempo para refletir, descobrir, criar - o que, teoricamente, daria prazer ao pesquisador; “a satisfação do querer também deve ser breve, deve ter tão pouca duração quanto a espera, para não sufocar o desejo” (BAUMAN, 2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001., p. 199).

A existência do pesquisador, seja ele sênior ou de início de carreira, é também um atributo relacional: ele existe em maior ou menor grau segundo o número e o valor das conexões que passam por ele. Sua carreira não deixa de ser uma sucessão de projetos, que exige a multiplicação dessas conexões e a proliferação de seus elos - a ampliação da rede passa a ser a própria carreira acadêmica.

Soma-se a isso a precarização do trabalho docente e a corrosão do significado de docência, o que faz com que professores e alunos sejam instados a se libertarem do peso de suas próprias paixões e de seus valores. Para ser “grande”, a aceitação de que somente é possível enraizar-se em si mesmo é uma condição necessária. O resultado disso é o esfacelamento das relações humanas e de trabalho em uma universidade operacional, competitiva e heterônoma.

Capitalismo acadêmico no Brasil: das origens às expressões contemporâneas

Diversos são os estudos que buscam explicar como as tendências neoliberais têm moldado o campo da educação superior (SLAUGHTER; LESLIE, 1997SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997.; SLAUGHTER; RHOADES, 2004SLAUGHTER, S.; RHOADES, G. Academic Capitalism and the New Economy: Markets, State, and Higher Education. Baltimore: John Hopkins University Press , 2004.; CANTWELL; KAUPPINEN, 2014CANTWELL, B.; KAUPPINEN, I. Academic Capitalism in Theory and Research. In: CANTWELL, B.; KAUPPINEN, I. (Orgs.). Academic capitalism in the age of globalization. Baltimore: John Hopkins University Press, 2014. p. 3-9.; SCHULZE-CLEVEN; OLSON, 2017SCHULZE-CLEVEN, T.; OLSON, J.R. Worlds of higher education transformed: toward varieties of academic capitalism. Higher Education, Dordrecht, v. 73, n. 6, p. 813-831, 2017. https://doi.org/10.1007/s10734-017-0123-3
https://doi.org/10.1007/s10734-017-0123-...
; JESSOP, 2017JESSOP, B. Varieties of academic capitalism and entrepreneurial universities: On past research and three thought experiments. Higher Education, Dordrecht, v. 73, n. 6, p. 853-870, 2017. https://doi.org/10.1007/s10734-017-0120-6
https://doi.org/10.1007/s10734-017-0120-...
; 2018JESSOP, B. On academic capitalism. Critical Policy Studies, Londres, v. 12, n. 1, p. 104-109, 2018. https://doi.org/10.1080/19460171.2017.1403342
https://doi.org/10.1080/19460171.2017.14...
). Tornam-se cada vez mais tênues as fronteiras entre o público e o privado, o que ocorre por meio da ação de uma rede de atores guiados pela ideologia “the market knows best” (MOK, 2001MOK, K.H. Academic capitalisation in the new millennium: the marketisation and corporatisation of higher education in Hong Kong. Policy & Politics, Chichester, v. 29, n. 3, p. 299-315, 2001. https://doi.org/10.1332/0305573012501369
https://doi.org/10.1332/0305573012501369...
, p. 302) e pelo culto à performatividade (BALL, 2005BALL, S. Profissionalismo, gerencialismo e performatividade. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 35, n. 126, p. 539-564, 2005. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742005000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742005...
).

O estudo seminal realizado por Slaughter e Leslie (1997SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997.) - aprimorado mais tarde por Slaughter e Rhoades (2004SLAUGHTER, S.; RHOADES, G. Academic Capitalism and the New Economy: Markets, State, and Higher Education. Baltimore: John Hopkins University Press , 2004.) -, que popularizou o termo “capitalismo acadêmico”3 3 . Como registram os próprios autores, o termo “academic capitalism” já havia sido utilizado por Hackett (1990) para sumarizar importantes mudanças estruturais no campo acadêmico (SLAUGHTER; LESLIE, 1997, p. 8). , inspirou um grande número de pesquisadores, tornando-se uma das linhas de pesquisa mais influentes no campo da educação superior (CANTWELL, 2015CANTWELL, B. Laboratory management, academic production, and the building blocks of academic capitalism. Higher Education, Dordrecht, v. 70, n. 3, p. 487-502, 2015. https://doi.org/10.1007/s10734-014-9851-9
https://doi.org/10.1007/s10734-014-9851-...
, p. 487). O avanço do estudo sobre o tema mostrou que esse fenômeno de reconfiguração de fronteiras não tem suas próprias fronteiras, tendo sido identificado nos mais variados contextos, como Alemanha (MÜNCH; BAIER, 2012MÜNCH, R.; BAIER, C. Institutional struggles for recognition in the academic field: The case of university departments in German chemistry. Minerva, Dordrecht, v. 50, n. 1, p. 97-126, 2012. https://doi.org/10.1007/s11024-012-9189-3
https://doi.org/10.1007/s11024-012-9189-...
), Austrália (COLLYER, 2013COLLYER, F. The production of scholarly knowledge in the global market arena: University ranking systems, prestige and power. Critical Studies in Education, Londres, v. 54, n. 3, p. 245-259, 2013. https://doi.org/10.1080/17508487.2013.788049
https://doi.org/10.1080/17508487.2013.78...
), Brasil (MARTINS, 2008MARTINS, A.L.M. A marcha do “capitalismo universitário” no Brasil nos anos 1990. Avaliação, Campinas, v. 13, n. 3, p. 733-743, 2008. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772008000300006
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772008...
; DIAS SOBRINHO, 2014DIAS SOBRINHO, J. Universidade e novos modos de produção, circulação e aplicação do conhecimento. Avaliação, Campinas, v. 19, n. 3, 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772014000300007
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772014...
; 2015DIAS SOBRINHO, J. Universidade fraturada: reflexões sobre conhecimento e responsabilidade social. Avaliação, Campinas, v. 20, n. 3, 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015...
; DIAS; SERAFIM, 2015DIAS, R.; SERAFIM, M. Comentários sobre as transformações recentes na universidade pública brasileira. Avaliação, Campinas, v. 20, n. 2, 2015. http://dx.doi.org/10.590/S1414-40772015000200004
http://dx.doi.org/10.590/S1414-407720150...
), Canadá (METCALFE, 2010METCALFE, A.S. Revisiting academic capitalism in Canada: No longer the exception. Journal of Higher Education, Columbus, v. 81, n. 4, p. 489-514, 2010. https://doi.org/10.1353/jhe.0.0098
https://doi.org/10.1353/jhe.0.0098...
), China (MOK, 2001MOK, K.H. Academic capitalisation in the new millennium: the marketisation and corporatisation of higher education in Hong Kong. Policy & Politics, Chichester, v. 29, n. 3, p. 299-315, 2001. https://doi.org/10.1332/0305573012501369
https://doi.org/10.1332/0305573012501369...
), Colômbia (CARABALLO, 2016CARABALLO, M.P.R. Significado del trabajo y sentido de la profesión en la academia en Colombia. Athenea Digital, Cerdanyola del Vallès, v. 16, n. 2, p. 427-435, 2016. https://doi.org/10.5565/rev/athenea.1799
https://doi.org/10.5565/rev/athenea.1799...
), Coreia do Sul (HAN; HESHMATI, 2016HAN, J.; HESHMATI, A. Determinants of financial rewards from industry-university collaboration in South Korea. International Journal of Entrepreneurship and Innovation Management, Olney, v. 20, n. 3-4, p. 235-257, 2016. https://doi.org/10.1504/IJEIM.2016.077963
https://doi.org/10.1504/IJEIM.2016.07796...
), Estados Unidos (SLAUGHTER; CANTWELL, 2012SLAUGHTER, S.; CANTWELL, B. Transatlantic moves to the market: The United States and the European Union. Higher Education, Dordrecht, v. 63, n. 5, p. 583-606, 2012. https://doi.org/10.1007/s10734-011-9460-9
https://doi.org/10.1007/s10734-011-9460-...
; HERMANOWICZ, 2016aHERMANOWICZ, J. The Proliferation of Publishing: Economic Rationality and Ritualized Productivity in a Neoliberal Era. The American Sociologist, Dordrecht, v. 47, n. 2-3, p. 174-191, 2016a. https://doi.org/10.1007/s12108-015-9285-6
https://doi.org/10.1007/s12108-015-9285-...
, 2016bHERMANOWICZ, J. Universities, Academic Careers, and the Valorization of “Shiny Things”. In: BERMAN, E.P.; PARADEISE, C. (Orgs.). Research in the Sociology of Organizations. Bingley: Emerald Group, 2016b. v. 46. p. 303-328.; MCCLURE; TEITELBAUM, 2016MCCLURE, K.R.; TEITELBAUM, K. Leading schools of education in the context of academic capitalism: Deans’ responses to state policy changes. Policy Futures in Education, Londres, v. 14, n. 6, p. 793-809, 2016. https://doi.org/10.1177/1478210316653690
https://doi.org/10.1177/1478210316653690...
), Finlândia (KAIDESOJA; KAUPPINEN, 2014KAIDESOJA, T.; KAUPPINEN, I. How to explain Academic Capitalism: a mechanism-based approach. In: CANTWELL, B.; KAUPPINEN, I. (Orgs.). Academic Capitalism in the age of globalization. Baltimore: John Hopkins University Press , 2014. p. 166-186.), Japão (SHIBAYAMA, 2012SHIBAYAMA, S. Conflict between entrepreneurship and open science, and the transition of scientific norms. The Journal of Technology Transfer, Nova York, v. 37, n. 4, p. 508-531, 2012. https://ssrn.com/abstract=2287039
https://ssrn.com/abstract=2287039...
), Quênia (JOHNSON; HIRT, 2011JOHNSON, A.T.; HIRT, J. Reshaping academic capitalism to meet development priorities: The case of public universities in Kenya. Higher Education, Dordrecht, v. 61, n. 4, p. 483-499, 2011. https://doi.org/10.1007/s10734-010-9342-6
https://doi.org/10.1007/s10734-010-9342-...
), Reino Unido (WATERMEYER, 2014WATERMEYER, R. Issues in the articulation of “impact”: the responses of UK academics to “impact” as a new measure of research assessment. Studies in Higher Education, Londres, v. 39, n. 2, p. 359-377, 2014. https://doi.org/10.1080/03075079.2012.709490
https://doi.org/10.1080/03075079.2012.70...
), República Tcheca (STÖCKELOVÁ, 2014STÖCKELOVÁ, T. Power at the Interfaces: The Contested Orderings of Academic Presents and Futures in a Social Science Department. Higher Education Policy, Londres, v. 27, n. 4, p. 435-451, 2014. https://doi.org/10.1057/hep.2014.20
https://doi.org/10.1057/hep.2014.20...
), entre outros.

No Brasil, os primeiros sinais do capitalismo acadêmico ocorreram no período da Universidade Funcional (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
), quando teve início o processo de mercantilização das instituições de ensino (MARTINS, 2009MARTINS, C.B. A reforma universitária de 1968 e a abertura para o ensino superior privado no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 106, p. 15-35, 2009. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009000100002
http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009...
; DIAS SOBRINHO, 2010 DIAS SOBRINHO, J. Avaliação e transformações da educação superior brasileira (1995-2009): do provão ao SINAES. Avaliação, Campinas, v. 15, n. 1, 2010. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772010000100011
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772010...
). Nesse intervalo, que compreende desde os anos 1964 até 1980, ocorrem diversas transformações no campo da educação superior brasileira que impulsionam o movimento em direção ao mercado:

  • Em 1966, o Brasil encomenda o Plano Atcon junto aos Estados Unidos (MARTINS, 2009MARTINS, C.B. A reforma universitária de 1968 e a abertura para o ensino superior privado no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 106, p. 15-35, 2009. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009000100002
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009...
    , p. 19), que, fazendo uso de um discurso baseado nas ideias de “eficiência e desempenho”, recomenda novas formas de financiamento das universidades públicas brasileiras;

  • Por meio da Lei de Educação Superior (Reforma de 1968), o governo permite a criação de estabelecimentos privados isolados de cunho marcadamente profissionalizante (MARTINS, 2009MARTINS, C.B. A reforma universitária de 1968 e a abertura para o ensino superior privado no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 106, p. 15-35, 2009. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009000100002
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009...
    , p. 17);

  • Expansão desenfreada de instituições de ensino superior (IES) privadas visando a um novo nicho de mercado (nova classe média em busca de ascensão social por meio do diploma) (CUNHA, 2007CUNHA, L.A. O desenvolvimento meandroso da educação brasileira entre o Estado e o mercado. Educação & Sociedade, Campinas, v. 28, n. 100, p. 809-829, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302007000300009
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302007...
    ; CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
    );

  • O Banco Mundial (BM) torna-se o maior depositário internacional de estudos e estatísticas sobre os países em desenvolvimento (LEHER, 1999LEHER, R. O BIRD e as reformas neoliberais na educação. PUC Viva, São Paulo, v. 1, n. 5, p. 16-22, 1999.).

Na fase da Universidade de Resultados (1985-1994) (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
), o capitalismo acadêmico começa a ganhar contornos mais definidos:

  • Proprietários de IES privadas, ao notarem potenciais vantagens competitivas relacionadas ao aumento da diversificação de cursos em uma mesma instituição, aceleraram o processo de fusão entre pequenas IES, o que, segundo Martins (2009MARTINS, C.B. A reforma universitária de 1968 e a abertura para o ensino superior privado no Brasil. Educação & Sociedade, Campinas, v. 30, n. 106, p. 15-35, 2009. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009000100002
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302009...
    ), triplicou o número de universidades particulares;

  • O BM publica o relatório intitulado Higher education: the lessons of experience (BANCO MUNDIAL, 1994BANCO MUNDIAL. Higher education: the lessons of experience. Washington, D.C.: The World Bank Group, 1994.), documento-chave no processo de propagação de diversos conceitos relacionados ao capitalismo acadêmico, recomendando que as autoridades dos países em desenvolvimento ficassem “atentas aos sinais do mercado” (SGUISSARDI, 2008aSGUISSARDI, V. Modelo de expansão da educação superior no Brasil: predomínio privado/mercantil e desafios para a regulação e a formação universitária. Educação & Sociedade, Campinas, v. 29, n. 105, p. 991-1022, 2008a. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302008000400004
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302008...
    , p. 1000).

Finalmente, na fase da Universidade Operacional (1994-atual), que hoje está em curso (CHAUÍ, 2016CHAUÍ, M.S. Contra a universidade operacional e a servidão voluntária [palestra de abertura]. Bahia: Universidade Federal da Bahia, 14 jul. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://www.congresso.ufba.br/?p=1658 >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.congresso.ufba.br/?p=1658...
), é inaugurada uma sucessão de governos que seguem boa parte da cartilha do BM (MANCEBO; SILVA JR., 2015MANCEBO, D.; SILVA JR., J.R. Expansão da educação superior e a reforma da rede federal de educação profissional. Revista Educação em Questão, Natal, v. 51, n. 37, p. 73-94, 2015. http://dx.doi.org/10.21680/1981-1802.2015v51n37ID7172
http://dx.doi.org/10.21680/1981-1802.201...
), conforme sintetizado no Quadro 4.

Quadro 4:
Governos e medidas de cunho neoliberal referentes à educação superior durante a fase da Universidade Operacional (1994-atual).

As expressões mais recentes do capitalismo acadêmico brasileiro podem ser reconhecidas não só nas medidas adotadas pelo Governo Temer, mas também na mobilização do setor empresarial:

  • Aprovação da Proposta de Emenda à Constituição nº 55/2016 (PEC 55), que institui o Novo Regime Fiscal no âmbito dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, a qual representa, segundo Leher (2016LEHER, R. Reitor da UFRJ: PEC 241 trará o fim da gratuidade das universidades públicas. Conexão UFRJ, 2016. Disponível em: <Disponível em: https://www.brasil247.com/pt/247/rio247/260599/Reitor-da-UFRJ-PEC-241-trar%C3%A1-o-fim-da-gratuidade-das-universidades-p%C3%BAblicas.htm >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    https://www.brasil247.com/pt/247/rio247/...
    ), o fim da gratuidade da universidade pública, esta que é responsável por mais de 85% da pesquisa no Brasil;

  • Crescente envolvimento de empresários no meio político-educacional, como indicam a nomeação da ex-Lemann Fellow (apelido daqueles que receberam bolsa da Fundação Lemann de Jorge Paulo Lemann) Teresa Pontual para subsecretaria do Ministério da Educação (MEC); e a participação de diretores de empresas como Itaú, Unibanco, Gerdau, Ambev, Natura, entre outras, em audiência pública destinada à discussão sobre o futuro da educação brasileira (BORGES, 2016BORGES, H. Conheça os bilionários convidados a “reformar” a educação brasileira de acordo com sua ideologia. The Intercept Brasil, nov. 2016. Disponível em: <Disponível em: https://theintercept.com/2016/11/04/conheca-os-bilionarios-convidados-para-reformar-a-educacao-brasileira-de-acordo-com-sua-ideologia/ >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    https://theintercept.com/2016/11/04/conh...
    );

  • Intenso movimento de fusões e aquisições empreendido por grandes grupos educacionais privados e por fundos de investimento nacionais e internacionais, por exemplo, Apollo Group, Carlyle, Laureate International University, Whitney International University System (SGUISSARDI, 2008aSGUISSARDI, V. Modelo de expansão da educação superior no Brasil: predomínio privado/mercantil e desafios para a regulação e a formação universitária. Educação & Sociedade, Campinas, v. 29, n. 105, p. 991-1022, 2008a. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302008000400004
    http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302008...
    ), GP Investimentos, UBC Pactual, Capital Group e Cartesian Group (CARVALHO, 2013CARVALHO, H.A. A mercantilização da educação superior brasileira e as estratégias de mercado das instituições lucrativas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 18, n. 54, p. 761-776, 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782013000300013.
    http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782013...
    ); com destaque para o grupo Kroton Educacional, que detém as faculdades Anhanguera, Fama, LFG, Pitágoras, Unic, Uniderp, Unime e Unopar (MELO; SALOMÃO, 2016MELO, L.; SALOMÃO, K. Com compra da Estácio, Kroton se torna “inalcançável”. Exame, ago. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://exame.abril.com.br/negocios/com-compra-da-estacio-kroton-se-torna-inalcancavel/ >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://exame.abril.com.br/negocios/com-c...
    ), e possui no seu quadro de investidores fundos de investimento como Blackrock Inc., Capital World Investors e o GIC Private Limited;

  • Dominação da educação superior pelo setor privado, que dispõe de 88% das IES; 78% do total de matrículas, sendo 73 e 86%, respectivamente, entre presenciais e ensino a distância (EaD); 68% dos cursos presenciais; e 57% dos docentes (INEP, 2016INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Sinopse Estatística da Educação Superior 2015. INEP, out. 2016. Disponível em: <Disponível em: http://portal.inep.gov.br/sinopses-estatisticas-da-educacao-superior >. Acesso em: 21 abr. 2017.
    http://portal.inep.gov.br/sinopses-estat...
    );

  • Considerando o período de 2012 a 2014, houve alta valorização das ações de empresas como Kroton (299,59%), Estácio (245,50%) e Anhanguera (85,8%); comparativamente, empresas tradicionais diminuíram seu valor, como Vale (-23,83%) e Petrobras (-34,11%) (SILVA JR.; PIMENTA, 2014SILVA JR., J.R.; PIMENTA, A.V. Capitalismo, trabalho e educação: o caso das instituições federais de educação superior. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 6, n. 2, p. 28-41, 2014. http://dx.doi.org/10.9771/gmed.v6i2.13086
    http://dx.doi.org/10.9771/gmed.v6i2.1308...
    );

  • A difusão das ideias de atores emblemáticos do empreendedorismo nacional, do mercado de capitais e da gestão de corporações nacionais e internacionais, como o trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, que inspira legiões com o discurso meritocrático disseminado no interior das universidades por meio de organizações estudantis como Empresas Júnior, Clubes de Consultoria e Ligas de Mercado Financeiro (SIGAHI; SALTORATO, 2017SIGAHI, T.F.A.C.; SALTORATO, P. Ligas de Mercado Financeiro: perfil, atuação, inspirações e a corrida dos engenheiros de produção aos bancos. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 37., 2017, Joinville, SC. Anais... Joinville: ABEPRO, 2017. p. 1-25. https://doi.org/10.14488/enegep2017_tn_stp_247_429_32743
    https://doi.org/10.14488/enegep2017_tn_s...
    ).

Considerações finais

Visando tecer/retratar o pano de fundo sobre o qual se desvela o avanço do capitalismo acadêmico, este artigo entrelaçou um conjunto de referenciais teóricos (Boltanski e Chiapello, Bauman, Castells e Chauí) em torno da temática da “liquidez”, cara à compreensão do atual contexto de esfacelamento das relações humanas e de trabalho. Apesar desses referenciais convergirem em torno de tal temática, eles guardam posições teórico-metodológicas não convergentes entre si (GRÜN, 2003GRÜN, R. A promessa da “inserção profissional instigante” da sociedade em rede: a imposição de sentido e a sua sociologia. Dados, Rio de Janeiro, v. 46, n. 1, p. 5-37, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582003000100001
http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582003...
; SWEDBERG, 2004SWEDBERG, R. Sociologia Econômica: Hoje e amanhã. Tempo Social, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 7-34, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702004000200001
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702004...
; CASADEI, 2009CASADEI, E.B. Muito além do líquido: Modernidade, ideologia e cultura na obra de Zygmunt Bauman. Espaço Acadêmico, Maringá, n. 102, p. 81-88, 2009.; ARRUDA, 2010ARRUDA, R. Notas sobre o conceito de indivíduo na teoria social contemporânea: um percurso a partir das obras de Stuart Hall, Norbert Elias, Richard Sennet e Zygmunt Bauman. Revista Aurora, Marília, v. 3, n. 2, p. 71-78, 2010.; OLIVEIRA; MEIRA, 2013OLIVEIRA, D.C.; MEIRA, T.A.V. A construção de um novo “espírito” do capitalismo em uma sociedade em rede. Caderno Eletrônico de Ciências Sociais, Vitória, v. 1, n. 1, p. 140-154, 2013. https://doi.org/10.24305/cadecs.v1i1.5971
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; KIRSCHBAUM, 2015KIRSCHBAUM, C. As redes introrganizacionais são inclusivas? Utopia e testes. Organizações & Sociedade, Salvador, v. 22, n. 74, p. 367-384, 2015. http://dx.doi.org/10.1590/1984-9230744
http://dx.doi.org/10.1590/1984-9230744...
).

Tomando como exemplo as obras de Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.) e Boltanski e Chiapello (2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.); enquanto o primeiro apresenta um farto conjunto de dados (de teses acadêmicas a estatísticas da Organização das Nações Unidas - ONU e do BM) sobre inúmeros países visando identificar mudanças estruturais na sociedade e propor uma teoria transcultural da economia e da sociedade, supondo a emergência de uma nova estrutura social na Era da Informação; Boltanski e Chiapello (2009BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, E. O Novo Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.) analisam tais mudanças de forma qualitativa, restringindo-se ao território francês e sem empregar fontes estatísticas. Esses autores adotam o tipo ideal weberiano para distinguir as transformações capitalistas no período entre 1968 e 1998 e então circunscrever as concepções distintivas da expressão capitalista mais recente, a partir da literatura voltada para a gestão empresarial (considerando tanto seu aporte técnico como seu apelo moral), um dos principais espaços, segundo os autores, de inscrição do “espírito” capitalista que eles buscam conceber (OLIVEIRA; MEIRA, 2013OLIVEIRA, D.C.; MEIRA, T.A.V. A construção de um novo “espírito” do capitalismo em uma sociedade em rede. Caderno Eletrônico de Ciências Sociais, Vitória, v. 1, n. 1, p. 140-154, 2013. https://doi.org/10.24305/cadecs.v1i1.5971
https://doi.org/10.24305/cadecs.v1i1.597...
).

As escolhas teórico-metodológicas dos autores aqui amalgamados estão associadas à identificação pessoal de cada um deles com as possibilidades e os alcances desde seus objetos de estudo e ferramentas de análise de dados até seus projetos políticos e experiências/trajetórias pessoais em realidades distintas, resultando em tomadas de posições teórico-metodológicas não convergentes entre si, mas que de forma alguma inviabilizaram o propósito deste artigo, que foi, a partir deste mosaico, explorar a dissolução das fronteiras entre o público e o privado no campo da educação superior no Brasil; a submissão da universidade pública aos interesses empresariais; e a instauração de uma lógica de cunho financista sobre ela, degenerando não só o modo como conduzi-la, mas também como percebê-la e experimentá-la.

A “instigante promessa da inserção profissional” (GRÜN, 2003GRÜN, R. A promessa da “inserção profissional instigante” da sociedade em rede: a imposição de sentido e a sua sociologia. Dados, Rio de Janeiro, v. 46, n. 1, p. 5-37, 2003. http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582003000100001
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, p. 5) em um mundo líquido-reticular subordina-se à comunhão de seus fiéis às virtuoses inscritas no novo “espírito” do capitalismo materializado em redes conectadas por laços fracos, temporários (e fluidos), que engendram melhor custo-benefício comparado à rigidez inerente aos laços fortes que engessam as possibilidades de deslocamentos rápidos em busca de posições mais vantajosas/privilegiadas na rede. Entre tais virtudes figuram a conectividade, adaptabilidade, flexibilidade, polivalência, empregabilidade, autonomia, predisposição ao risco, dentre outras que compõem o receituário do discurso/credo empresarial voltado para o recrutamento/doutrinação de novos fiéis, acenando com a crença em um mundo edificante, alcançável por todos os conectáveis.

O processo de legitimação dessa nova ordem na reorganização da sociedade a partir de meados das décadas de 1980 e 1990, atinente com o projeto neoliberal (e seu corolário, a lógica de livre mercado), logrou, assim, engajar atores dos mais variados espaços (organizacional, financeiro, acadêmico, jurídico etc.) em um amplo processo de financeirização econômica que agora se esgueira educação superior adentro, materializado na institucionalização da universidade operacional instrumentalizada, entre outros, pelos mecanismos do capitalismo acadêmico.

Considerando tal “mundialização do capital presidida pelas finanças” (CHAUÍ, 1999CHAUÍ, M.S. A Universidade Operacional. Folha de S.Paulo, mar. 1999. Disponível em: <Disponível em: http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_Chaui_Universidade_Operacional.doc >. Acesso em: 21 abr. 2017.
http://www.cacos.ufpr.br/obras/Marilena_...
), a perspectiva do capitalismo acadêmico, explícita nas políticas de ciência, tecnologia e inovação, tem avançado por meio da atuação conjunta tanto de atores internos (e.g., reitores, professores, alunos) como externos (e.g., governos, corporações, órgãos multilaterais, fundações privadas) a ela - inclusive ela própria. Assim, para superar efetivamente os desafios impostos às universidades brasileiras, ainda é preciso adensar o debate a respeito de seus condicionantes e consequências, envolvendo, por exemplo, o discurso da “quarta missão da universidade”, o culto ao “inovacionismo”, a obsessão pelos rankings internacionais e a flexibilização curricular proposta pelo Processo de Bolonha (DIAS; SERAFIM, 2015DIAS SOBRINHO, J. Universidade fraturada: reflexões sobre conhecimento e responsabilidade social. Avaliação, Campinas, v. 20, n. 3, 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015000300002
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-40772015...
, p. 336).

À imagem deste trabalho, outros estudos têm tomado emprestados conceitos correlatos tratados por diversos autores (cujas posições teórico-metodológicas também nem sempre convergem entre si) para explorar as temáticas associadas ao contexto do capitalismo acadêmico. Por exemplo, como no caso do emprego da noção de campo bourdiesiana para retratar os atores e suas respectivas ações no âmbito da consolidação deste campo, conceito central tanto aos strategic action fields tratados por Fligstein e McAdam (CANTWELL, 2015CANTWELL, B. Laboratory management, academic production, and the building blocks of academic capitalism. Higher Education, Dordrecht, v. 70, n. 3, p. 487-502, 2015. https://doi.org/10.1007/s10734-014-9851-9
https://doi.org/10.1007/s10734-014-9851-...
) como ao habitus de Pierre Bourdieu (MENDOZA; KUNTZ; BERGER, 2012MENDOZA, P.; KUNTZ, A.M.; BERGER, J.B. Bourdieu and academic capitalism: Faculty “habitus” in materials science and engineering. Journal of Higher Education, Columbus, v. 83, n. 4, p. 558-581, 2012. https://doi.org/10.1080/00221546.2012.11777257
https://doi.org/10.1080/00221546.2012.11...
). Estudos futuros certamente se debruçarão visando explorar outras teorias e conceitos diversos de forma a contribuir para a compreensão das mudanças impetradas pelo capitalismo acadêmico.

Este estudo buscou explorar a formação, passando pela consolidação até as expressões contemporâneas do capitalismo acadêmico no Brasil, considerando esse processo de institucionalização anexo a um “mundo líquido-reticular”, onde afloram condições profícuas à ascensão de uma lógica financista sobre o espaço acadêmico. Tal dinâmica tem logrado êxito ao engajar atores egressos dos mais variados espaços (organizacional, financeiro, jurídico, acadêmico etc.) que, manuseando seus respectivos capitais simbólicos, têm produzido (imposto e reproduzido) novos sentidos acerca do que deva ser e consequentemente de como deva ser gerido, experimentado e vivido esse espaço. Espera-se, assim, subsidiar o de(com)bate acerca da desconfiguração desse espaço “onde se pensa o que normalmente não se pensa e/ou onde se pensa de outro e novo modo aquilo que normalmente é pensado ou já estava pensado” (DERRIDA, 2001 apudWAIZBORT, 2015WAIZBORT, L. Formação, especialização, diplomação: da universidade à instituição de ensino superior. Tempo Social, São Paulo, v. 27, n. 2, p. 45-74, 2015. http://dx.doi.org/10.1590/0103-2070201523
http://dx.doi.org/10.1590/0103-207020152...
, p. 63); do contrário, qual o sentido da universidade?

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    » https://doi.org/10.1080/03075079.2012.709490

  • *
    Este artigo está vinculado ao projeto de pesquisa que originou a dissertação intitulada A ascensão da lógica financeira sob a perspectiva da teoria do capitalismo acadêmico: consequências para a formação do engenheiro de produção, realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, e foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) (processo nº 1601669).

Notas

  • 1
    . Por neoliberal os autores entendem o conjunto de convenções cognitivas que a partir de meados da década de 1980 passaram a argumentar a favor da redução da atuação do Estado na economia (inclusive nas áreas da Previdência Social, da Saúde e da Educação) e a favor da disciplina de mercado (inclusive, e principalmente, o de capitais); da desregulamentação econômica/financeira/trabalhista decorrente de tal afastamento estatal; da privatização de bens públicos (inclusive recursos naturais); da ascensão da lógica de livre mercado para conduzir os espaços públicos e privados.
  • 2
    . Expressão criada pelos autores visando consubstanciar, em sentido amplo, as concepções sobre a sociedade de Bauman (2001BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar , 2001.; 2007BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar , 2007.; 2009BAUMAN, Z. Vida líquida. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar , 2009.; 2011BAUMAN, Z. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.) e Castells (1999CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. 8. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.), i.e., a liquidez e a organização em rede, respectivamente.
  • 3
    . Como registram os próprios autores, o termo “academic capitalism” já havia sido utilizado por Hackett (1990HACKETT, E. J. Science as a vocation in the 1990s: the changing organizational culture of academic science. The Journal of Higher Education, v. 61, n. 3, p. 241-279, 1990. https://doi.org/10.1080/00221546.1990.11780710
    https://doi.org/10.1080/00221546.1990.11...
    ) para sumarizar importantes mudanças estruturais no campo acadêmico (SLAUGHTER; LESLIE, 1997SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997., p. 8).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Set 2018
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2018

Histórico

  • Recebido
    10 Nov 2017
  • Aceito
    10 Jun 2018
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