Manual de educação infantil de 0 a 3 anos: uma abordagem reflexiva

MANUAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL DE 0 A 3 ANOS: UMA ABORDAGEM REFLEXIVA* * Resenha do livro de Anna Bandioli e Susanna Mantovani (orgs.), Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. ** Mestre em Educação pela PUC-Rio, Diretora da Casa Monte Alegre (Educação Infantil) e professora do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil da PUC-Rio. E-mail: daguimaraes@uol.com.br *** Doutora em Educação pela Unicamp, professora do Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil na PUC-Rio. E-mail: isbeleite@hotmail.com ART

Daniela de Oliveira Guimarães** * Resenha do livro de Anna Bandioli e Susanna Mantovani (orgs.), Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. ** Mestre em Educação pela PUC-Rio, Diretora da Casa Monte Alegre (Educação Infantil) e professora do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil da PUC-Rio. E-mail: daguimaraes@uol.com.br *** Doutora em Educação pela Unicamp, professora do Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil na PUC-Rio. E-mail: isbeleite@hotmail.com ART

Maria Isabel Ferraz Pereira Leite*** * Resenha do livro de Anna Bandioli e Susanna Mantovani (orgs.), Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. ** Mestre em Educação pela PUC-Rio, Diretora da Casa Monte Alegre (Educação Infantil) e professora do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil da PUC-Rio. E-mail: daguimaraes@uol.com.br *** Doutora em Educação pela Unicamp, professora do Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil na PUC-Rio. E-mail: isbeleite@hotmail.com ART

É muito importante para nós, que trabalhamos com educação infantil, a oportunidade de entrar em contato com este livro, sobretudo pela escassez de material disponível sobre crianças tão pequenas, e, mais ainda, pela possibilidade de fazer esta resenha partilhando com outros profissionais o que dele pudemos extrair de mais significativo.

A princípio o título produz um certo estranhamento ou até incômodo, afinal, em nossa língua, manual está associado a receita, dentro de uma perspectiva de cópia ou instrução programada não reflexiva. O impacto de estar diante de uma publicação nova e o fato de já conhecermos outros materiais italianos sobre creches fizeram-nos vencer a resistência inicial do título e mergulhar na leitura dos textos. Felizmente, aqueles que procurarem o livro com uma expectativa de encontrar modelos a serem seguidos se decepcionarão. Em italiano, o título Manuale critico sugere uma coletânea que se propõe a pensar criticamente o assunto - essa é a essência do livro.

A apresentação, escrita por Ana Lúcia Goulart de Faria, pesquisa-dora e professora da área, já é um convite à leitura. Aponta a Itália como local privilegiado de produção de conhecimento acerca dos pequeninos, sinalizando, especificamente, a inovação de vermos essa temática tratada no âmbito da pedagogia - uma pedagogia não-escolar, afastada do assistencialismo, trazendo para o espaço da creche a interlocução entre famílias, crianças e profissionais.

O livro é dividido em cinco partes, cujos títulos evidenciam o caráter heterogêneo e amplo dos assuntos a serem abordados: "A creche como serviço", "Os adultos", "As crianças", "Alternativas à creche" e "As características de algumas realidades". Essa multiplicidade, entretanto, escapa às armadilhas do superficialismo, trazendo contribuições relevantes e, ao mesmo tempo, abertas e polissêmicas. As partes são precedidas por uma consistente introdução das organizadoras - Anna Bandioli e Susanna Mantovani.

A introdução, além de trazer um histórico sobre o processo de constituição das creches na Itália, enfatizando o momento em que a instituição assume uma perspectiva pedagógica, procura discutir (desconstruir) alguns conceitos vigentes sobre creche como local de atividades não direcionadas ou cópia da escola - evidenciando, por um lado, a falta de especificidade em seus projetos e, por outro, a reprodução dos projetos escolares. O movimento atual é o de colocar a creche como espaço de formação de adultos (educadores e familiares) e crianças - mas o momento é de construção.

A creche aparece em seu caráter ambígüo e contraditório, com experiências esparsas e assistemáticas mas, essencialmente, abertas. Essa abertura é simultaneamente a vantagem e o problema da creche, o que não se traduz em fraqueza ou esvaziamento(ao contrário!). As pesquisas acadêmicas, mais do que nunca, se debruçam sobre as relações entre desenvolvimento infantil e interação social, sobre a valorização da autonomia, a socialização precoce, entre outros temas, possibilitando um diálogo entre teoria e prática que substancia as experiências das diferentes agências educativas, fomentando uma pedagogia própria da educação infantil. Na medida em que projeta uma pedagogia centrada nas relações, vai discutir o papel do adulto na educação das crianças, das famílias na construção cotidiana das creches, não deixando de ressaltar a importância dada à relação entre as próprias crianças.

A visão de creche assim desenhada estrutura-se tendo como base uma concepção de criança como sujeito capaz, desde pequeno, a estabelecer múltiplas relações entre pares e entre adultos diferentes; a construir sua autonomia e a participar ativamente do universo cultural no qual se insere. Essa idéia nos remete a pensar a creche, antes de tudo, como direito da própria criança.

"A creche como serviço" - É um item que levanta historicamente o processo de constituição das creches na Itália desde a promulgação da Lei 1044/71, que instituiu e regulamentou o serviço no país, discutindo, entre outros temas, o dimensionamento das políticas públicas dirigidas à infância. Os dois textos que compõem o referido item resgatam e resguardam a memória do projeto italiano para as creches e acabam por sublinhar a não-linearidade e o caráter inacabado do mesmo. O percurso histórico narrado, materializado de diferentes formas nas diversas regiões, carrega marcas singulares e revela, simultaneamente, pontos comuns em relação ao movimento instituinte de creches em outras regiões.

A leitura desses textos faz-nos compreender melhor os subseqüentes, além de possibilitar que nos debrucemos, a despeito dos regionalismos ou das especificidades de cada cultura ou estrutura sociopolítica, sobre o próprio momento da consolidação das creches no Brasil: a questão da função médico-sanitária em confronto com o papel educacional, a dimensão social (diferente de assistencial) do serviço, a relação mãe trabalhadora-criança, o projeto pedagógico específico, a discussão sobre continuidade/descontinuidade entre creche e famílias, as mudanças que a instituição Família sofre nos últimos tempos e o impacto sobre a creche.

"Os adultos" - É o título do segundo item que tem como característica principal focalizar a creche como espaço de formação dos adultos - educadores e pais. Considerando que as concepções sobre infância e trabalho educativo são diversas entre os adultos que interagem na instituição, os autores propõem a creche como espaço de uma vida relacional, de encontro, diálogo e atualização permanente. Esse segmento do livro é formado por oito diferentes trabalhos, erigidos na articulação entre variados campos de experiência teórico/prática: psicanálise, pedagogia, administração, gestão institucional, psicologia etc.

Embora com estilos variados, frutos de pesquisa acadêmica coletiva, reflexão individual, resultado de iniciativa institucional, os textos convocam-nos a pensar de modo aguçado sobre questões tais como: o adultocentrismo dos educadores na relação com a criança; diversidade, fusão e similaridade entre as linguagens do adulto e da criança; os diferentes papéis que a creche assume para os múltiplos atores sociais nela envolvidos (pais, educadores, crianças); os variados investimentos pedagógicos que a instituição vem requerendo - como trabalhos em grupo, discussão sobre as estratégias de coordenação/supervisão, formação permanente em serviço etc.

Destacamos como particularmente instigante o tratamento dado à adaptação, vista de forma especial como processo de inserção que envolve a relação intensa entre três protagonistas - crianças, pais e educadores -, e que ultrapassa a visão temporal de fase a ser superada em alguns dias iniciais. Sustentadas pela crença de que a criança é capaz de estabelecer relações significativas com outros sujeitos que não apenas os de sua rede primária, e de que pais e educadores também se encontram em processo permanente de aprendizagem, as investigações acadêmicas elucidam a personalização da experiência educacional. Apontam a importância de uma colaboração comunicativa, iluminando fundamentalmente o papel de intervenção do adulto educador por sua "presença tranqüilizadora e atenta disponibilidade" (p. 146). Sua atitude extrapola as questões do preparar atividades, receber famílias ou adaptar crianças ao espaço da creche, assumindo o papel de programar o espaço para propiciar não apenas à criança, mas também aos pais e a eles próprios, educadores, um espaço convidativo à sua ação/criação.

Chama-nos a atenção, então, que essa discussão esteja inserida no item "Os adultos", denotando a dimensão da creche como espaço de formação/criação também para os adultos, possibilitando uma circularidade maior de conhecimentos e uma ressignificação do papel de sujeito construtor de saber. Essa estruturação outra das relações não se dá sem conflitos e necessita/possibilita um permanente exercício de flexibilização, escuta e disponibilidade por parte de todos os envolvidos.

O item seguinte, "As crianças", passeia pela idéia de que, em conhecendo melhor as crianças e suas competências, podemos potencializar as possibilidades de ação/criação no espaço da creche. Com veios teóricos também diversos entre si, a unidade reside no fato de estarem sempre apontando para as conseqüências educativas de abordagens que confluem para a perspectiva da criança como sujeito social, sujeito constituído prioritariamente na e pela linguagem. Assim, o ponto central desse segmento é refletir sobre a potência da produção de linguagem da criança nas interações sociais.

A questão do jogo e o caráter lúdico que permeia as relações entre as crianças aparecem, aqui, como enfoques privilegiados de investigação. A concepção de jogo foge às correntes - jogo guiado/laissez faire -, trazendo-o como conjunto de mediações possíveis que o adulto pode oferecer ao grupo de crianças: adulto como aquele que acompanha, mas não entra na brincadeira, ou como aquele que joga paralelamente à criança. Destaca também a possibilidade de o educador ver-se como co-autor - alguém que compartilha o jogo, que deixa a criança livre e, simultaneamente, busca resgatar a criança em si mesmo, sem perder de vista seu papel de adulto.

Chama-nos a atenção que as investigações sobre o jogo o abordem sob o prisma da qualidade social da experiência. Os objetos, tendo clara a perspectiva do papel social que o meio cultural ocupa na relações, estão ali presentes como mediadores, como facilitadores das interações e não só para possibilitar a exploração de suas propriedades físicas - contrapondo-se, explicitamente, a uma perspectiva cognitivista. O objeto, assim, é o que me possibilita conhecer o mundo exterior, o que é diferente de mim e, ao mesmo tempo, possibilita que eu conheça a mim mesmo - a descoberta do outro e do eu são duas faces do mesmo processo. Os autores chegam a falar de um "triálogo" - evidenciando a relação triangular entre o eu/o outro/o brinquedo.

Retomando a idéia já presente nos textos anteriores de que há entre os pequeninos um alto grau de interação, pesquisas apontam para a existência de diferentes modalidades, classificando-as como complementar, recíproca ou imitativa, refutando o argumento do egocentrismo piagetiano. Consideramos importante destacar a reflexão sobre o que acontece nos três primeiros anos, especialmente acerca do processo de independentização criança-mãe; e a congregação de crianças de diferentes faixas etárias, iluminando, por meio de uma pesquisa sistematizada, o aspecto positivo da assimetria de competências num mesmo grupo.

"Alternativas à creche" - Apontando para duas modalidades de experiências diferenciadas, esse item procura fazer emergir sinais de flexibilização desse projeto-creche em construção: de um lado, traz à tona uma proposta de continuidade casa-creche-escola e, de outro, narra o processo de constituição de um espaço conjunto de educação para pais e filhos (Tempo para as famílias).

As autoras dessa coletânea enfatizam, assim, que a estruturação de uma "cultura da infância" - produção do conhecimento sobre a faixa etária de 0 a 3 anos - não se restringe e não se fecha no universo da creche, provocando nos leitores a possibilidade de refletir sobre as múltiplas opções e espaços sociais de pensar, agir e criar com e para crianças dessa faixa etária.

O livro finda com "As características de algumas realidades", última parte que, apesar de trazer dados sobre estruturação e funcionamento das creches em diferentes regiões da Itália, deixa-nos "com sabor de quero mais". A especificação do serviço em cada cidade é restrita e limitada a alguns poucos aspectos.

Vemo-nos em momento valioso de permeabilizar fronteiras, dialogando com autores/pesquisadores de outros continentes, ampliando as possibilidades de recriação de nossa realidade. Nesse sentido, sublinhamos a importância da leitura dessa publicação por todos que trabalham com educação infantil.

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    Resenha do livro de Anna Bandioli e Susanna Mantovani (orgs.), Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
    ** Mestre em Educação pela PUC-Rio, Diretora da Casa Monte Alegre (Educação Infantil) e professora do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil da PUC-Rio.
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    *** Doutora em Educação pela Unicamp, professora do Curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá e do Curso de Pós-Graduação em Educação Infantil na PUC-Rio.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Set 2001
  • Data do Fascículo
    Ago 2001
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