Percursos piagetianos

Percursos piagetianos*

Fernando Becker**

Em 1996 comemorou-se o centenário do nascimento de Jean Piaget (1896-1996). Em várias partes do mundo foram realizados eventos com grande presença de simpatizantes e de pesquisadores da obra desse genebrino, um verdadeiro teste de resistência das idéias desse epistemólogo que é, sem dúvida, um dos grandes pensadores do século XX. Essa data comemorativa prestou-se, e continua a prestar-se, como tempo propício para fazer-se um balanço da extensa obra do criador da epistemologia genética.

É nesse contexto que recebo esta instigante publicação da Editora Cortez, Percursos piagetianos, organizada por Luci Banks-Leite. Instigante por dois motivos: pela qualidade e trabalho sério de seus autores - embora eles não façam parte do primeiro escalão, no sentido da mídia editorial brasileira - e pelas temáticas discutidas nos textos, que se situam para além do círculo usual das discussões piagetianas e que, talvez também por isso, apresentam-se tão pertinentes.

Assim, podemos ler em Jacques Vonèche que "os cientistas mantêm em seus próprios campos idéias falsas sobre a natureza mesma ou sobre aquilo que fazem" e que, para Piaget, "a criança é um fóssil vivo". Em Fernando Vidal, lemos que Piaget foi analisado por Sabina Spielrein, "uma russa tímida e tenaz" e - surpreendente revelação! - que ambos teriam feito um projeto comum para elaborar uma teoria do símbolo. Jean-Blaise Grize, o lógico que tanto colaborou com Piaget, diz que a lógica não é só dedução mas, também, inferência, isto é, procedimento que traz algo novo ao raciocínio e que "a psicologia genética de Piaget é o estudo da aquisição, pela criança, de um certo número de conceitos científicos, bem como da álgebra de Boole". Diz ele que os grandes lógicos ocuparam-se sempre do pensamento adulto e daquele que se manifesta idealmente nos raciocínios lógico-matemáticos, enquanto Piaget vai buscar, nos esquemas enquanto ferramentas cognitivas, a gênese das competências na criança. Grize postula, para além disso, a busca de uma lógica do saber natural, do "saber em migalhas" do senso comum. Para articular essa sua proposta, parecida com a pretendida "lógica das significações" de Piaget, ele sugere acrescentar uma terceira categoria de abstração: ao lado da abstração empírica e reflexionante (réfléchissante), uma abstração esquematizante. Creso Franco procura, por um lado, saber o papel das convicções espontâneas e das provocadas assim como das fabulações da criança na entrevista clínica, e discute as formas de classificação usadas por Piaget do material coletado. Por outro, instiga os piagetianos a evitar a "burocratização do método" e a "cristalização da teoria" pela abertura a resultados novos de pesquisas não-piagetianas, por exemplo, sobre o primeiro ano de vida do bebê.

Leandro de Lajonquière convida o leitor a pensar o conceito piagetiano de inteligência, não dispensando boa dose de ironia, que funciona como alfinetada para aqueles que pensam que Piaget "não levou em conta o social"; ele traz a discussão para o lugar de onde ela, de fato, nunca deveria ter saído: a interação, característica fundamental do modelo piagetiano como instância explicativa da gênese e do desenvolvimento do conhecimento. Eduardo Diatahy B. de Menezes vai ainda mais longe ao propor ao leitor o estudo de Piaget, esse vigoroso pensador, como sociólogo: como alguém que não apenas levou em conta o social na sua epistemologia genética, mas que trouxe significativas contribuições à teoria sociológica de nosso século. Apresenta o genebrino como conhecedor dos clássicos da sociologia, como alguém que acolheu importantes sociólogos perseguidos pelo nazismo e foi professor de sociologia nas universidades de Neuchâtel e Genebra. Na contraface disso, mostra quão injustas são certas críticas que, no desconhecimento de documentos fundamentais desse pesquisador, afirmam que ele tem um conceito equivocado de sociedade. Propõe, finalmente, que se busque "a fecundidade e até a beleza da perspectiva sociológica contida em seu argumento". José Antonio Castorina afirma que a epistemologia genética desenvolveu um olhar original sobre os chamados conhecimentos de "domínio". Ao assumir uma perspectiva epistemológica, pode-se "indagar a aquisição de esquemas aptos para compreender os diferentes domínios de conhecimento, em particular o do social" além de poder fazer uma "crítica da crítica" da compreensão de que os estudos psicogenéticos reduzem a uma explicação de "domínio geral" os conhecimentos; isso é, de que não há lugar, nos estudos piagetianos, para os estudos dos conhecimentos de "domínio". Creso Franco retorna com "os modelos mentais", desta vez acompanhado de Dominique Colinvaux, Sonia Krapas-Teixeira e Glória Queiroz. Pelo menos em um ponto, opõem-se eles a Castorina, pois afirmam o que este autor esforça-se por rejeitar: que a teoria piagetiana enfatiza o caráter geral "independente de conteúdo e contexto" das competências do sujeito. Quanto aos aspectos figurativos do conhecimento, a imagem - incluindo, aí, o imaginário - concorda com Menezes no sentido de que Piaget supervalorizaria o aspecto operativo em detrimento daquele. O que instiga, aqui, é o confronto que fazem os autores de três modelos de funcionamento da mente humana, entre os quais está o modelo piagetiano. Luci Banks-Leite propõe uma reflexão crítica sobre os trabalhos de Piaget sobre a linguagem, assinalando que é necessário ultrapassar os limites de um tratamento funcional-instrumental da linguagem presente, também, em contribuições - de trabalhos produzidos neste século e, sobretudo, nas últimas décadas - de outra áreas como a lingüística, semiologia, filosofia da linguagem e psicanálise. A tendência, verificada nas últimas décadas, de se "enfatizar o estudo da função de comunicação" da linguagem ou de tratá-la "como um instrumento de interação social" mostrou que a tendência funcional-instrumental é muito mais refratária às críticas do que se presumira. Yves de La Taille procura estabelecer as bases para a investigação psicológica da honra, buscando saber por que a psicologia do século XX não valoriza esse tema em suas pesquisas. A vergonha, "o sentimento de ser um objeto para outrem", correlato da honra e tema já investigado pelo autor, compõe, com o sentimento de honra, uma díade de inestimável valor para quem mira esses objetos com o olhar do educador. O alcance dessa investigação é imenso e atualíssimo se visto sob a ótica do desrespeito quase generalizado com que as instituições, especialmente aquelas que integram a chamada mídia, tratam o que o autor chama de "fronteira moral da intimidade". O texto propõe esta investigação dentro do panorama heteronomia/autonomia de O juízo moral na criança, de Piaget. É nesse contexto que faz sentido a pergunta do autor: "Pode uma pessoa moralmente autônoma não defender a sua honra?" Thomas Kesselring procura dizer-nos como Jürgen Habermas introduziu Piaget no seu trabalho intelectual. Vale-se, para isso, de um escrito de Bárbara Freitag, publicado há quase dez anos. O autor da teoria do agir comunicativo nutriria uma convicção de que o desenvolvimento ontogenético implicaria necessariamente progresso. Entre as fontes desse otimismo estariam Jean Piaget e Lawrence Kohlberg para quem o desenvolvimento seria fundamentalmente individual e a evolução social não seria mais do que o acúmulo do desenvolvimento individual. O filão explicativo que nutre tal otimismo encontrar-se-ia nos processos de abstração reflexionante1 1 Cf. PIAGET, Jean. Abstração reflexionante; relações lógico-aritméticas e ordem das relações espaciais. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994, 292p. (e) PIAGET, Jean. "Nota prévia" (dos revisores da tradução). In: —. Lógica e conhecimento científico. Porto, Civilização, 1980. 588p. (não reflexiva, como diz o autor) e de descentração, ambos de Piaget. A postura instigante, mas também intrigante, de Kesselring acontece na medida em que sugere que Habermas ilude-se ao tentar explicar processos evolutivos coletivos utilizando-se de teorias - como a da descentração - que apresentam limites ontogenéticos; acontece, também, na medida em que "sua herança hegeliana" fundir-se-ia com as contribuições de Piaget, transformando Habermas não apenas num refém dos "limites" da explicação piagetiana mas, também da filosofia do idealismo alemão; sugere que Habermas quer explicar com a lógica da abstração reflexionante evoluções de causas históricas as mais diversas, como a da divisão do trabalho, a da gênese da cultura urbana, dos inventos tecnológicos etc. Enfim, Kesselring joga, com uma só tacada, para as sombras do Iluminismo, tanto Habermas, quanto Kohlberg e Piaget. Será que sua "musa inspiradora" sustentaria, hoje, essas idéias que levaram Kesselring a tal desfecho?

Para apimentar um pouco esse escrito instigante de Kesselring, pergunto se ele não reduziu o modelo explicativo piagetiano a um apriorismo que Piaget jamais cessou de combater. Caso contrário, como entender em Piaget o postulado de uma equilibração necessariamente majorante ou de uma abstração necessariamente descentradora independente do que acontece no entorno (social, político, econômico, histórico, meio-ambiental etc.) dos sujeitos de que trata a teoria?

É comum ouvirmos, especialmente nestes últimos anos, restrições ao pensamento de Piaget: ele não considerou..., ele não levou em conta..., ele não admitiu..., ele não deu importância... Entretanto, o que ele fez não deixa imune o estudioso de suas idéias. Basta reunir pouco mais de uma dúzia de autores, como faz Percursos piagetianos, para Piaget confirmar-se como um dos grandes pensadores do nosso século pelo alcance de suas idéias, pela originalidade de sua pesquisa, pelo rigor de seu trabalho empírico e de sua elaboração teórica, numa palavra, pelo alcance de seu pensar. Percursos Piagetianos nos proporciona ótimos momentos de genuíno debate, longe, muito longe, das concordâncias fáceis.

* Livro de Luci Banks-Leite (org.). São Paulo, Cortez, 1997, 256p.

** Professor titular do Departamento de Estudos Básicos e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFRGS.

  • 1
    Cf. PIAGET, Jean.
    Abstração reflexionante; relações lógico-aritméticas e ordem das relações espaciais. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994, 292p. (e) PIAGET, Jean. "Nota prévia" (dos revisores da tradução).
    In: —.
    Lógica e conhecimento científico. Porto, Civilização, 1980. 588p.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Abr 1999
  • Data do Fascículo
    Abr 1998
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