Estado da arte da área de educação & comunicação em periódicos brasileiros

The state of the art in the areas of education & communication in Brazilian periodicals

Resumos

O presente artigo relata o resultado de pesquisa bibliográfica na qual fizemos um levantamento de artigos publicados em 58 periódicos nacionais das áreas da educação e comunicação, entre os anos de 1982 a 2002, totalizando 1599 artigos lidos. O objetivo central foi traçar um perfil da produção brasileira sobre a problemática envolvendo Educação e Comunicação e, a partir deste, identificar alguns aspectos relevantes ou lacunas na produção. Quanto ao método utilizado buscamos identificar a forma, o conteúdo e o universo geográfico que essa produção apresentava, a partir de dados quantitativos e qualitativos coletados por meio de instrumentos de pesquisa desenvolvidos especificamente para esta pesquisa - em forma de questionário com questões abertas e fechadas. Os resultados apresentados neste texto se circunscrevem às análises de algumas variáveis fechadas do instrumento de pesquisa.

Mídia educação; Estado da arte em mídia educação; Educação e comunicação


This paper presents the result of a bibliographical investigation that surveyed 58 Brazilian periodicals published in Brazil between 1982 and 2002 in the areas of education and communication, and read 1,599 papers. The main objective was to draw a profile of the Brazilian academic research on the problems involving the fields of education and communication and to identify some relevant aspects or gaps they might present. Based on quantitative and qualitative data collected by means of research tools - questionnaires with open and close questions - specifically developed for this study, our methodology aimed at identifying the form, content and geographic location of this production. The results here presented are limited to the analysis of some variables of the research tool.

Media; Education; Communication; State of the art


REVISÃO & SÍNTESE

Estado da arte da área de educação & comunicação em periódicos brasileiros

The state of the art in the areas of education & communication in Brazilian periodicals

Sônia Cristina VermelhoI; Graciela Inês Presas AreuII

IDoutora em educação e professora do Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). E-mail: cristina.vermelho@pucpr.br

IIDoutora em Comunicação Social e professora do setor de comunicação da PUC-PR. E-mail: gpresas_@uol.com.br

RESUMO

O presente artigo relata o resultado de pesquisa bibliográfica na qual fizemos um levantamento de artigos publicados em 58 periódicos nacionais das áreas da educação e comunicação, entre os anos de 1982 a 2002, totalizando 1599 artigos lidos. O objetivo central foi traçar um perfil da produção brasileira sobre a problemática envolvendo Educação e Comunicação e, a partir deste, identificar alguns aspectos relevantes ou lacunas na produção. Quanto ao método utilizado buscamos identificar a forma, o conteúdo e o universo geográfico que essa produção apresentava, a partir de dados quantitativos e qualitativos coletados por meio de instrumentos de pesquisa desenvolvidos especificamente para esta pesquisa – em forma de questionário com questões abertas e fechadas. Os resultados apresentados neste texto se circunscrevem às análises de algumas variáveis fechadas do instrumento de pesquisa.

Palavras-chave: Mídia educação. Estado da arte em mídia educação. Educação e comunicação.

ABSTRACT

This paper presents the result of a bibliographical investigation that surveyed 58 Brazilian periodicals published in Brazil between 1982 and 2002 in the areas of education and communication, and read 1,599 papers. The main objective was to draw a profile of the Brazilian academic research on the problems involving the fields of education and communication and to identify some relevant aspects or gaps they might present. Based on quantitative and qualitative data collected by means of research tools – questionnaires with open and close questions – specifically developed for this study, our methodology aimed at identifying the form, content and geographic location of this production. The results here presented are limited to the analysis of some variables of the research tool.

Key words: Media. Education. Communication. State of the art.

Introdução

O presente artigo relata os resultados de pesquisa realizada junto ao Programa de Pós-graduação em Educação, que teve como título "Mídia e educação: uma análise da produção bibliográfica brasileira no período de 1982 a 2002". O objetivo a que nos propusemos foi de identificar aspectos da produção veiculada em periódicos científicos nacionais que abordavam temáticas envolvendo simultaneamente a educação e a comunicação. O período adotado compreendeu os anos de 1982 a 2002 inclusive. A definição da metodologia para o levantamento dos dados, ou seja, dos periódicos e textos a serem analisados mostrou-se um processo bastante complexo. Após analisar alguns trabalhos com objetivos semelhantes (Rocha, 1999; Messina, 1998; Ferreira, 2002; André & Romanowski, 1999 entre outros) pudemos identificar que teríamos que elaborar metodologia própria em função de que ao contrário de muitos trabalhos dessa natureza, os quais lançam mão de resumos e outros dados dos textos para análises, nós havíamos estabelecido que os textos dos periódicos seriam lidos na íntegra, mesmo porque nem sempre artigos de periódicos possuem resumos.

Essa definição metodológica nos impôs uma série de problemas, os quais não poderemos expor neste momento, mas que foram importantes para perceber alguns aspectos relacionados às produções veiculadas em periódicos: o primeiro, e pensamos como o mais importante, é a fragilidade em que se encontram ainda as bases de dados e as formas de acesso a esse tipo de documento. Foram várias as situações em que tivemos dificuldade de acessar os textos solicitados em função das instituições depositárias não disporem do material, apesar de ele contar nas bases de dados de consulta. Infelizmente, esses problemas nos mostraram que o tratamento dado aos periódicos em várias instituições brasileiras tem deixado muito a desejar, dificultando o acesso a um veículo que tem canalizado boa parte da produção científica de ambas as áreas e, dentro da nova política da pós-graduação, é considerado elemento de avaliação da produção do pesquisador e dos próprios programas de pós-graduação.

As etapas desenvolvidas na pesquisa foram as seguintes: a) busca de títulos de periódicos em sites que possuíam base de dados sobre periódicos. As principais bases de dados pesquisadas foram IBICT, USP, CAPES, FCC e PUC-SP com as seguintes palavras-chave: Educação, Tecnologia Educacional, Tecnologia, Mídia, Meios de Comunicação, Publicidade, Comunicação e as várias combinações com essas palavras. Em todas essas buscas foram utilizados como filtro o país da publicação (Brasil) e o idioma (português). Um outro critério utilizado foi: a) periódico produzido no Brasil; b) publicado num período compreendido entre 1982 a 2002; c) ser publicação da área de educação/comunicação; d) estar ligado a instituição de ensino superior, ou a outras instituições, inclusive editoras, desde que com caráter acadêmico. Nesse primeiro levantamento obtivemos uma listagem de 2052 periódicos de ambas as áreas.

Passamos a seguir por uma segunda filtragem, procurando identificar pelo título, temática abordada, instituição ou programa de pós-graduação a que estavam ligados e mais afinados com a área que pretendíamos analisar, pois nos interessava incluir periódicos que publicassem artigos sobre o tema mídia e educação. Nesse processo pudemos perceber que muitas vezes os títulos dos periódicos em nada expressam sua linha editorial; isso se mostrou um problema de relevância, uma vez que tínhamos que selecionar entre um conjunto de títulos, sendo que de um percentual não foi possível obter informações que nos garantissem afinidade com nossa temática. O resultado dessa seleção foi uma listagem de 61 periódicos na área de comunicação e 118 periódicos na área de educação. Uma nova seleção foi elaborada procurando atender a critérios de regionalidade, ou seja, ter produções de várias regiões brasileiras – ainda que já se tenha percebido ser o maior número oriundo da região sudeste; bem como ao critério de maior afinidade ao tema no interior das instituições educacionais, buscando informações dos respectivos programas de pós-graduação ao qual estavam ligados no site da CAPES. Nos periódicos da área de educação procuramos ainda selecionar aqueles analisados e avaliados pelo sistema Qualis.

Em termos regionais, na listagem dos periódicos da área da comunicação apareceram dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia, em maior número, e dos estados de Maranhão, Distrito Federal, Ceará e Paraná em número menor. O resultado dessa nova seleção gerou uma listagem de 24 periódicos, 3 da região Nordeste, 5 da região Sul e 16 da região Sudeste.

No caso dos periódicos em educação, por serem em número maior, tivemos que trabalhar com a proporcionalidade. Dos 118 periódicos selecionados nessa primeira fase, 22,8% eram provenientes da região Sul, 42,3% da região Sudeste, 13,5% da região Central, 10,1% da região Nordeste, 2,5% da região Norte e 8,8% das demais regiões ou instituições de âmbito nacional. Para manter a mesma proporcionalidade em relação à área de comunicação, uma nova seleção foi feita, trabalhando com um número total próximo ao da área de comunicação (24 periódicos), mantendo a proporcionalidade regional, cujo resultado final foi: 9 periódicos da região Sul, 4 da região Nordeste, 6 da região Centro-Oeste, 15 da região Sudeste. A relação final dos periódicos em educação contou com 34 títulos. Na Tabela 1, segue a relação dos periódicos selecionados e quantidade de textos lidos de cada um deles:

Uma vez selecionados os periódicos, passamos à fase seguinte que foi buscar o acesso aos sumários de todos os exemplares publicados para ser feita a seleção dos artigos, pois tendo como propósito analisar a produção científica voltada para as questões ligadas à mídia e educação, comunicação e educação, nem todos os textos desses periódicos era necessário que fossem lidos. A solicitação dos sumários foi feita via COMUT, e esse processo nos mostrou a fragilidade desse veículo, como comentamos anteriormente. Na base de dados do sistema nacional de Comutação Bibliográfica foram inúmeros os pedidos não atendidos sob a alegação de que a instituição não possuía tal periódico ou exemplar solicitado. Ou seja, aquilo que as bibliotecas enviam de informações sobre seus acervos não tem correspondência com a base de dados do COMUT e vice-versa. Esse e outros problemas, tais como a impossibilidade de acesso a alguns exemplares pelos mais variados motivos, nos impediram de consultar todos os exemplares publicados de todos os periódicos selecionados.

Na tabela 2 apresentamos os dados gerais de números de exemplares publicados por área.

A fase seguinte foi, em posse dos sumários, fazer a seleção dos artigos a serem lidos e analisados. Essa etapa foi certamente a mais complexa, pois selecionar pelo título não nos garantia necessariamente que o conteúdo do mesmo possuísse afinidade com a temática que pretendíamos analisar. Após algumas discussões com o grupo, decidimos por definir a priori alguns descritores que constassem no título e que poderiam nos garantir minimamente uma afinidade com a temática, conforme sugere Messina (1998). Num primeiro momento, os descritores definidos pelo grupo foram: a) Textos dos periódicos de comunicação cujo tema se relacione com os seguintes descritores: educação, escola, ensino-aprendizagem, docência; formação (escolar); mídia/meios de comunicação na escola; mídia/meios de comunicação na educação; disciplina (escolar) X mídia/meios de comunicação; b)Textos dos periódicos de educação cujo tema se relacione com os seguintes descritores: mídia educacional, meios de comunicação na educação, educomunicador, escola e mídias, tecnologia educacional, uso de rádio/ TV/ Informática/ Vídeo/ Cinema/ Filme/ Impresso/ Jornal na educação, formação docente X mídias/meios de comunicação, influência dos meios na educação/formação/aprendiza gem; c) Textos cujo tema seja uma reflexão teórica em torno do tema educação X educação, seja envolvendo teóricos ou de teorias. A seleção de todos os artigos foi feita por uma das pesquisadoras.

Concomitantemente a esse processo sentimos a necessidade de desenvolver um instrumento de pesquisa específico e que fosse muito mais que uma ficha de catalogação, pois a leitura do material, quase na sua totalidade, teria que ser feita pelos alunos bolsistas. Para definir quais elementos seriam relevantes na análise dos textos, nos apoiamos nos trabalhos realizados por Messina (1998) e Rocha (1999), os quais apontavam aspectos a serem considerados de uma dada produção visando a elaboração de um Estado da Arte. Como se tratavam de produções cuja grande maioria era oriunda de pesquisa, teríamos que definir alguns elementos quanto aos conceitos e abrangência de aspectos metodológicos. Como todos sabemos, quando se trata de definir conceitos e aspectos metodológicos não existe consenso e alguns autores sugerem tratamentos bastante distintos em termos do que seja uma metodologia, um método etc. Para dirimir essa questão, pois ainda que as produções possam ter partido de pontos de vista diferenciados, nós teríamos que ter uma compreensão comum sobre a questão metodológica para poder categorizar e analisar os materiais. Após a leitura de inúmeros autores, definimos, além dos elementos descritivos dos textos, as questões de ordem teórico-metodológica a partir dos seguintes conceitos e autores: quanto ao conceito de teoria trabalhamos com aquele trazido por Lakatos & Marconi (1985), ou seja, como um sistema de conceitos. Quanto à metodologia optamos por entendê-la como forma de pensamento teórico-filosófico (Demo, 1995; Asti Vera, 1983; Dencker & Da Via, 2001; Barros & Lehfeld, 2000; Lakatos & Marconi, 1985), e por assumir essa concepção consideramos inoportuno manter esse item, uma vez que exigiria dos alunos uma experiência muito maior em termos de conceituação filosófica para poder identificar a concepção dos autores quanto a esse aspecto. Quanto a método, adotamos a concepção que o entende como um conjunto de procedimentos (Dencker & Da Via 2001; Lakatos & Marconi, 1985; Barros & Lehfeld 2000; Asti Vera 1983; Ander-Egg 1974), com isso ao invés de perguntarmos qual o método da pesquisa utilizado, optamos por procurar identificar as técnicas e instrumentos, e quando o autor explicitasse um método utilizado, incluímos um campo aberto para ser descrito. Em termos de técnica, definimos por utilizar a classificação e conceituação de Ander-Egg (1974). Na definição de tema, problema ou objeto de pesquisa nossa opção foi conceituar a partir do entendimento dado por Lakatos & Marconi (1985) e Asti Vera (1983). E finalmente quanto ao tipo de pesquisa nossa definição foi por assumir a tipologia de Demo (1995). Assim o instrumento ficou com a seguinte estrutura:

Após a leitura e catalogação do material, pudemos observar algumas questões limitantes e que ao mesmo tempo tornaram complexo o tratamento do material. Uma das variáveis analisadas nos textos era quanto à mídia abordada. Com a seleção feita pelo título, nem sempre existia uma indicação direta sobre qual mídia estava sendo tratada no texto. No entanto, com uma análise mais acurada dos artigos, identificamos algumas especificidades nos textos que nos indicavam que a temática aparecia de forma indireta a partir de alguns enfoques. Com isso, optamos por criar uma nova categoria denominada indireto para esse conjunto de textos cuja variável mídia era tematizada a partir de alguns enfoques, os quais foram agrupadas nos seguintes temas gerais: a) a sociedade tecnológica; b) os processos de comunicação; c) a Educação a Distância; d) a linguagem dos meios; e) as políticas para a área da Educação/Comunicação e f) a formação de Educadores/Comunicadores para o uso dos meios. Com esse procedimento, ainda assim tivemos que eliminar 49 textos, representando somente 3,1% do total, os quais realmente não possuíam afinidade com nosso objeto de pesquisa. Destes 49 textos, 41 eram oriundos da área de Educação e somente 8 da área da Comunicação. Com isso, o total de textos das áreas foi os seguintes: 705 (45,5%) de Comunicação e 845 (54,5%) da Educação.

Passemos adiante a apresentar os primeiros resultados da análise quantitativa dos artigos pesquisados. Cabe ressaltar que ainda nos falta elaborar a análise de conteúdo das questões abertas, o que certamente nos permitirá identificar categorias de análise mais refinadas para traçar o perfil da produção brasileira na área de educação e comunicação.

Análise descritiva dos dados

A apresentação dos dados que faremos a seguir seguirá um formato bastante simplificado em função de que as análises, tanto as estatísticas quanto aquela apresentando as tendências nas variáveis abertas do instrumento, ainda estão em fase de elaboração. Tomaremos como base de análise para todas as variáveis a ordem cronológica, ou seja, as tabelas serão construídas a partir do período analisado. Utilizamos para definir a área a seguinte codificação: 01 são os textos da área da comunicação e 02 da educação; NE para os estados do Nordeste; S para os do Sul; SE para os do Sudeste; CO para os do Centro-Oeste, com isso o código 01CO significa que são textos oriundos de periódicos da área da comunicação publicados na região Centro-Oeste. Quanto à distribuição pelas regiões, o resultado, descrito na Tabela 3, foi o seguinte:

Conforme a Tabela 3 podemos observar que houve um crescimento de publicações envolvendo a temática Educação & Comunicação a partir da segunda metade da década de 1990. Podemos inicialmente procurar entender esse crescimento sob alguns aspectos: educacionais, econômicos, culturais, sociológicos etc.

Em termos educacionais na década de 1990, em particular a partir da aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9394/96) e dos Parâmetros Curriculares Nacionais para Educação Fundamental, as questões ligadas ao uso de recursos tecnológicos na educação tomam uma dimensão maior. Os documentos, ainda que merecedores de uma análise crítica, apresentam algumas indicações da necessidade de uso e de avaliação desses recursos no processo educacional em função da complexidade que a sociedade vem assumindo e, para uma educação que seja capaz de inserir o sujeito nesse meio social, os documentos apontam a urgência em preparar os alunos para terem domínio das linguagens dos meios. Aliado a esse aspecto, temos um crescimento enorme e um barateamento das tecnologias digitais (computadores), mas principalmente com a entrada da internet em cena nesse período.

Na década de 1990 também foram criados, de forma mais institucionalizada, alguns fóruns de pesquisadores na área, tal como o GT16 integrante da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Educação (ANPED), na INTERCOM o grupo de Comunicação e Educação, e com uma perspectiva voltada para as tecnologias digitais, surge a Sociedade Brasileira de Informática na Educação fazendo seu primeiro Simpósio (SBIE) no início dos anos 1990. Começam a chegar e ampliar o acesso no Brasil de publicações internacionais (Litwin, Barbero, Sancho etc.) oriundas de ambas as áreas, mas que começam a trazer uma enorme contribuição, além de outros autores já renomados. Além disso, aumenta a produção brasileira de forma vertiginosa, provavelmente em função de outros fatores ligados, em certa medida, às políticas para o setor etc. Sem dúvida a década de 1990 significa um marco na produção da área de Educação e Comunicação.

Quanto à regionalidade, como pode ser observado, em ambas as áreas, o Sudeste lidera com 65,1% da produção brasileira, seguido do Sul com 20,2%, o Centro-Oeste com 8,8%, e por último o Nordeste com 6,0%. Infelizmente esse quadro mostra uma concentração da produção nos centros em que estão sediados e concentrados as maiores universidades e centros de pesquisa, em particular São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda que esse quadro se apresente no geral, numa análise ao longo dos 20 anos de produção, o Sul aumenta bastante sua produção a partir de meados da década de 1990.

Quanto à mídia, na Tabela 4 apresentamos os resultados. Cabe esclarecer que essa questão era de múltipla escolha, portanto, o total será superior ao número de textos lidos.

Com relação a essa variável, cabem alguns esclarecimentos. Como já foi mencionado anteriormente, percebemos nas produções duas situações que mereceram um tratamento diferenciado: a primeira, a inclusão da categoria INDIRETO (18,5%) para incluir aqueles textos que tratavam da mídia de forma indireta, conforme explicitado anteriormente. Isso nos indica um dos aspectos da produção nessa área, que é de lidar com a problemática da educação e da comunicação sob alguns aspectos mais gerais, tais como: os processos de comunicação em geral, questões ligadas ao crescente uso de tecnologias na sociedade, a própria educação a distância que aborda questões relacionadas com educação e comunicação, mas com enfoque na ead, aspectos ligados às políticas para as áreas, bem como aos processos de formação, em particular de educadores, para o uso das mídias.

E, segundo, a inclusão da categoria TODAS (18,3%) para aqueles textos que não lidavam com uma ou mais mídia em particular, mas que tratavam da MÍDIA, ou seja, tratavam-na genericamente. Como pode ser observado, foram inúmeros textos nessa categoria. Entre as mídias mais citadas encontramos a Mídia Impressa (15,4%), a Televisão (19,1%) e a Informática/Internet/Softwares (25,7%).

Ainda que a produção em torno das tecnologias digitais (informática, internet e softwares) tenha crescido bastante na última década, as tecnologias mais tradicionais (televisão e mídia impressa) compõem um percentual significativo de 34,5% da produção. Podemos analisar como sendo um fator ligado ao período definido (1982-2002), no qual na primeira década as tecnologias digitais eram muito pouco difundidas e pesquisadas no Brasil, ainda que a produção da área no geral nos anos 1980 tenha sido inferior à da década de 1990. Mas, mesmo mais recentemente a televisão continua sendo uma mídia privilegiada pelas pesquisas, sendo citada como uma das três mais mais investigadas de 1982 a 2002, ora ficando em primeiro lugar, ora em segundo ou terceiro. Interessante observar que a internet, apesar de ser uma mídia bastante recente tem estimulado uma grande produção, em particular a partir de 1996 onde aparece entre as quatro mais citadas.

Quanto aos sujeitos que surgiram nos textos, na Tabela 5 apresentamos os resultados encontrados.

Dentre os sujeitos que apareceram nos textos selecionados e analisados, a categoria "Mídias" foi a mais citada, seguida pela dos "Alunos" e "professores". Ainda que a maioria dos textos tenham sido oriundos de periódicos da área da educação, as mídias foram muito privilegiadas. Mas outro fator a analisar é que a segunda e terceira categoria mais privilegiada sejam professores e alunos, o que pode indicar que a produção privilegiou, além da mídia, o interior da escola, mais especificamente a sala de aula. Com isso, podemos inferir que a relação professor-aluno-mídia é, tanto para educadores quanto para comunicadores, os sujeitos mais privilegiados em função, provavelmente, da complexidade dessa relação, invocando os pesquisadores a buscarem compreender e analisar as questões envolvendo esses sujeitos. Além dos sujeitos, é interessante analisarmos os objetos mais privilegiados nesses textos. Na Tabela 6 apresentamos os resultados da pesquisa.

Quanto ao objeto, segundo os autores adotados, entende-se como uma dificuldade que se pretende resolver (Lakatos & Marconi, 1985; Asti Vera, 1983) a partir de um dado sujeito. Da produção analisada, as questões ligadas às Metodologias Didático-Pedagógicas (31,6%) aparecem como a problemática de maior relevância. Se lembrarmos que os sujeitos mais citados, além da mídia, são professores e alunos, podemos inferir que um aspecto que caracteriza a produção brasileira é buscar entender em primeiro lugar, como esses meios estão sendo utilizados em sala de aula ou ainda com preocupações voltadas para a proposição de alguma prática de uso. Em seguida surge como segunda problemática mais citada a Relação do Sujeito com a Mídia (26,1%) e em terceiro lugar o Conteúdo da Mídia (24,3%). Lembrando-nos dos sujeitos professores e alunos, podemos inferir que não só a problemática da metodologia, mas também a relação que esses sujeitos (professores e alunos) estabelecem com os meios são as preocupações maiores da produção da área. E não só a relação está colocada num contexto de relevância, mas também o conteúdo que está sendo veiculado por esses meios. Esses três problemas – relação do sujeito com a mídia, conteúdo da mídia e metodologia – poderíamos inferir que se constituem nos aspectos centrais das problemáticas abordadas na produção brasileira nesse período analisado.

Quanto ao tipo de educação, na Tabela 7 apresentamos os resultados.

Cabe esclarecer que numa parcela dos textos não foi possível identificar que tipo de educação estava sendo abordado, por isso, o número total é inferior ao total de textos lidos. Do total da produção analisada no período, o maior percentual estava voltado para a educação básica (28,8%), seguida da educação superior (25,3%) e, por último, da educação extra-escolar (9,9%). Se lembrarmos que os sujeitos e problemáticas mais citadas diziam respeito às questões de ordem metodológica, da relação do sujeito com a mídia e do conteúdo da mídia, é para o ensino regular no interior das instituições, tanto da educação básica quanto superior, que se voltam as pesquisas. A escola, portanto, é o espaço privilegiado das pesquisas.

Mais especificamente, na Tabela 8 estão os resultados apresentando uma maior definição quanto à tipologia. Ainda que os valores sejam diferentes em função de que nem sempre era especificado o nível de que se tratavam os textos, na tabela 8 estão os resultados dos textos em que foi possível identificar de que etapa do processo de formação estavam sendo realizadas as produções.

Pelos resultados, podemos perceber que o ensino fundamental (12,1%) e superior (13,8%) foram os mais citados.

A maioria dos textos não apresentou o tipo de pesquisa realizada. Conforme indicado anteriormente, utilizamos nessa variável a classificação feita por Demo (1995), o qual apresenta quatro possibilidades de pesquisa, conforme a Tabela 9:

Na tabela a seguir, temos os resultados encontrados quanto ao tipo de pesquisa realizada.

Apesar de 68,11% dos textos não indicarem o tipo de pesquisa, daqueles que foi possível essa identificação, a realidade se coloca como um desafio para os pesquisadores, ou seja, a grande maioria das pesquisas buscavam encontrar no meio social, especificamente, no interior das instituições de ensino, respostas para as problemáticas levantadas. No entanto também aparece, como preocupação dos autores, buscar quadros de referência teórica para suas produções, tendo em vista as pesquisas do tipo teórico aparecerem em segundo lugar.

Algumas considerações

Esses primeiros resultados apresentados não esgotam todas as possibilidades de análise a partir dos dados coletados, mas nos mostram algumas tendências da produção na área no período analisado e num determinado tipo de veículo de divulgação das pesquisas, que são os periódicos. Um dos aspectos que identificamos após a leitura do material é que uma boa parte dos textos que são resultados de pesquisas não apresentam de forma clara os aspectos metodológicos e norteadores do trabalho. Ainda que devamos considerar que um artigo num periódico não é a mesma coisa que um relatório de pesquisa, ainda assim essas informações auxiliam os leitores a terem uma compreensão mais clara da problemática abordada, do contexto espacial e temporal em que foi realizada a pesquisa, os sujeitos envolvidos etc.

Uma outra consideração a ser feita não diz respeito especificamente ao conteúdo dos textos lidos, mas às dificuldades encontradas para a realização desta pesquisa, pois em alguns momentos foi possível identificar um certo descaso de algumas instituições com o acervo de periódicos, o que nos parece uma contradição com as políticas para a pesquisa científica, já que os periódicos são considerados um dos espaços reivindicados para divulgação dos resultados de pesquisa e, também, esse aspecto pode nos indicar que existe uma certa preferência por textos no formato de livros do que de artigos em periódicos. Com isso, cabe a nós pesquisadores repensar qual o papel que esse veículo ocupa no processo de formação de novos profissionais, para o avanço das pesquisas e do conhecimento sobre a área mídia e educação, e finalmente, qual a função social dos periódicos para as instituições e profissionais.

Especificamente sobre o conteúdo dos artigos lidos, podemos fazer algumas inferências as quais nos permitem, resumidamente, apontar alguns aspectos interessantes:

  • o crescimento de publicações envolvendo a temática Educação & Comunicação a partir da segunda metade da década de 1990;

  • a liderança do Sudeste sobre a produção brasileira em ambas as áreas;

  • a Televisão e Mídia Impressa sendo as mais estudadas durante todo o período analisado;

  • a Mídia como o sujeito mais privilegiado, seguido pelos Alunos e Professores, nos indicando que a produção tomou o interior da escola, mais especificamente a sala de aula, como foco de estudo;

  • os três problemas – relação do sujeito com a mídia, conteúdo da mídia e metodologia – se constituíram nos aspectos centrais das problemáticas abordadas na produção brasileira nesse período analisado,

  • o Ensino Fundamental e Graduação como o período de formação mais estudado, o que nos indica uma lacuna em relação à educação infantil, ao ensino médio e à educação extra-escolar;

  • e, finalmente, as pesquisas serem predominantemente empíricas, ou seja, buscando na realidade respostas ou novas inquietações para os pesquisadores.

Com essa pesquisa, após todo o processo de análise que ainda se encontra em fase final de elaboração, esperamos poder contribuir para o avanço das pesquisas na área a partir de um entendimento de nossa própria história.

Recebido em abril de 2005 e aprovado em junho de 2005.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2006
  • Data do Fascículo
    Dez 2005

Histórico

  • Aceito
    Jun 2005
  • Recebido
    Abr 2005
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