O escrito e o oral: uma discussão inicial sobre os métodos da História

Antonio Vicente Marafioti Garnica

Resumos

O artigo procura discutir os métodos utilizados pela História, apresentando argumentos que advogam pela legitimidade do aproveitamento das fontes orais, contra a hegemonia das chamadas "fontes primárias". Argumenta sobre o equívoco de julgar as fontes escritas como mais seletivas ou menos tendenciosas que as orais, justificando como fundamental para as Ciências da Educação essa nova abordagem à História.

História; História Oral; Educação Científica


The article tries to discuss the methods used by History, presenting arguments which advocate to the legitimacy of the use of oral sources, against the hegemony of the called "primary sources". It Argues on the mistake to judge the written sources as more selectives or less tendencious than the oral ones, justifying as fundamental to the Sciences of Education this new approach to the History.

History; Oral History; Scientific Education


ARTIGOS

O escrito e o oral: uma discussão inicial sobre os métodos da História

Antonio Vicente Marafioti Garnica

Professor Assistente Doutor do Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências, UNESP - Câmpus de Bauru (e-mail: vgarnica@bauru.unesp.br)

RESUMO

O artigo procura discutir os métodos utilizados pela História, apresentando argumentos que advogam pela legitimidade do aproveitamento das fontes orais, contra a hegemonia das chamadas "fontes primárias". Argumenta sobre o equívoco de julgar as fontes escritas como mais seletivas ou menos tendenciosas que as orais, justificando como fundamental para as Ciências da Educação essa nova abordagem à História.

Unitermos: História, História Oral, Educação Científica.

ABSTRACT

The article tries to discuss the methods used by History, presenting arguments which advocate to the legitimacy of the use of oral sources, against the hegemony of the called "primary sources". It Argues on the mistake to judge the written sources as more selectives or less tendencious than the oral ones, justifying as fundamental to the Sciences of Education this new approach to the History.

Keywords: History, Oral History, Scientific Education.

Texto completo disponível apenas em PDF.

Full text available only in PDF format.

2 Agradeço a Romélia Mara Alves Souto por sua discussão sobre esse meu artigo. Algumas de suas sempre pertinentes considerações foram nele incluídas.

3 Esse fascínio pelo documento escrito parece desconsiderar o viés nitidamente ideológico da seleção imposta pelo poder da mídia. É nesse sentido que pretendemos caminhar nesse artigo.

4 Sabemos de culturas latino-americanas cujos documentos foram sumariamente eliminados pelos espanhóis. E não só os documentos escritos: considerados objetos demoníacos, praticamente todos os kipus - interessante instrumento mnemônico do Peru incaico, utilizado para cálculos e, inclusive, para registros históricos - foram destruídos pelos espanhóis. Mas a tentativa de dominação pela eliminação de registros escritos, obviamente, não é prerrogativa de algumas culturas de colonização espanhola. Fora desse contexto, lembramos da destruição da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos. Um exemplo que talvez nos seja mais próximo e familiar é o da queima das escrituras sobre a escravatura no Brasil, motivada por interesses político-econômicos e empreendida por Rui Barbosa.

5 "O pressuposto comum do historiador de que 'os fatos estão aí para serem usados' é, sem dúvida alguma, errado. Os fatos não são, na realidade, como rochedos que foram destacados, modelados e depositados exclusivamente para serem manipulados /.../. Os fatos são como rochas lascadas e britadas, como pedras rachadas ou tijolos. A ação humana conseguiu fazer deles o que são, e eles não seriam o que são se isso não tivesse ocorrido. Os fatos da história não são coisas brutas ou eventos alheios à mente, pois já foram filtrados antes que deles eu tivesse conhecimento./.../. Os fatos não podem tomar vida sem os bons ofícios de uma hipótese". (TOYNBEE, 1987)

6 Certamente há, nesse caso, severos limitantes. Segundo os defensores do que se chama, atualmente, História Oral (do que trataremos oportunamente), o apoio do depoimento falado servirá para o historiador contemporâneo em seu trabalho voltado aos fatos ocorridos após a década de 1930. A lucidez dos depoentes, entretanto, poderá ampliar ou diminuir esse espectro cronológico. Esses e outros redimensionamentos dependerão de fatores vários, estabelecidos por rigorosos parâmetros ainda sob apreciação.

7 "/.../ a desmontagem do quadro mental do Antigo Regime demandou violência, e /.../ temos a dificuldade em imaginar a própria violência, esse tipo de violência iconoclasta, destruidora do mundo, revolucionária. É verdade que vemos os assaltos e acidentes de trânsito como fatos corriqueiros. Mas, em comparação a nossos antepassados, nós vivemos num mundo onde a violência foi retirada de nossa experiência cotidiana. Os parisienses viviam passando por cadáveres pescados à margem do Sena e pendurados pelos pés ao longo da margem. Sabiam que uma mine patibulaire ('cara patibular') era um rosto parecido com uma daquelas cabeças degoladas e expostas pelo carrasco público na ponta de um forcado. Tinham presenciado esquartejamentos de criminosos em execuções públicas. E não podiam andar pelo centro da cidade sem empapar os sapatos de sangue

8 Como sabemos, às mudanças almejadas pelo governo revolucionário seguiram-se alterações na configuração do calendário, instituindo-se o calendário revolucionário, com a extinção de alguns feriados e a criação de outros, além de ter sido colocada em vigência um novo sistema de contagem para os dias e uma nomenclatura própria para os meses. Em nosso atual sistema, o 9 Termidor é equivalente ao dia 27 de julho, décimo primeiro mês do "novo calendário". Nesse dia a convenção decide a prisão de Robespierre. Robespierre, Saint-Just, Couthon e mais dezenove dos seus são guilhotinados em 10 Termidor. Mais setenta e dois jacobinos têm o mesmo destino no dia seguinte.

9 Embora esse parênteses tenha o objetivo de argumentar sobre o forte vínculo (ideológico) da escrita com interesses políticos e religiosos (no que, obviamente, também a fala exerce com extrema propriedade seu papel), cabe ressaltar que a trajetória da dualidade oral/escrito e sua relação com a memória coletiva é extremamente mais rica e dificilmente pode ser tratada linearmente. Há períodos intercalados de harmonia e severos conflitos entre o escrito e o oral, do mesmo modo como há, em determinadas épocas e contextos culturais, ocasos e ressurgimentos em relação a uma preocupação com a memória. Um bom exemplo disso é o culto à memória dos mortos. Na idade das Luzes, ao passo em que a memória coletiva parece insinuar seu reaparecimento (depois de tornada marginal e condenada pela Igreja, por volta do século XVI, dada sua ligação com o ocultismo) a memória funerária, representada principalmente pela comemoração do dia de finados e pelas inscrições tumulares, entra em crise. Parece se almejar uma eliminação da morte, o que o Romantismo tratará de reverter pelo ressurgimento da "atração pelo cemitério, ligada a memória". O túmulo separado da igreja volta a ser o centro da lembrança, parte essencial do ritual de visita aos defuntos. A comemoração dos finados, porém, foi instituída no século IX, e caiu lentamente em esquecimento. No século XII, a necessidade de se intensificar o esforço dos vivos em favor de seus falecidos queridos exige a criação de um terceiro lugar no Além, o purgatório, meio termo entre paraíso e inferno, do qual mais rápido a memória do defunto livrava-se quanto maiores fossem os esforços (facilmente quantificáveis) de seus parentes vivos.

10 Segundo o artigo são os seguintes os primeiros arquivos constituídos (mas não necessariamente abertos ao público) na cidade de São Paulo: (1560) Câmara Municipal e Irmandade da Santa Casa de Misericórdia; (1594) Venerável Ordem Terceira de N. Sra. do Monte do Carmo; (1640) Ordem dos Frades Menores;(1641) Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência; (1685) Ordem das Carmelitas Descalças; (1695) Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de São Paulo; (1711) Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Homens Pretos; (1720) Arquivo do Estado de São Paulo; (1722) Confraria de N. Sra. dos Remédios; (1728) Venerável Irmandade de N. Sra. da Boa Morte; (1742) Segundo Cartório de Notas; (1762) Venerável Irmandade de São Pedro dos Clérigos; (1774) Ordem da Imaculada Conceição e (1778) Primeiro Cartório de Notas.

  • ABENSOUR, M. et allii.. Tempo e História São Paulo: Cia das Letras, 1992.
  • ARIÈS, P. e DUBY, G. (orgs.). História da vida privada 5 v. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
  • BOSI, E.. Memória e sociedade: lembranças de velhos São Paulo: Cia das Letras, 1994.
  • DARNTON, R.. O beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução São Paulo: Cia das Letras, 1990.
  • FERREIRA, M. de M. e AMADO, J. (org.). Usos e Abusos da História Oral Rio de Janeiro: Getúlio Vargas, 1996.
  • ENCICLOPEDIA EINAUDI, vol. 1. Memória-História Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1997.
  • GINZBURG, C.. História Noturna: decifrando o sabá São Paulo: Cia das Letras, 1991.
  • GINZBURG, C.. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição São Paulo: Cia das Letras, 1987.
  • LE GOFF, J.. História e Memória Campinas: Unicamp, 1996.
  • MEIHY, J.C.S.B.. Manual de História Oral São Paulo: Loyola, 1996.
  • MONTENEGRO, A.T.. História Oral e Memória: a cultura popular revisitada São Paulo: Contexto, 1994.
  • MORAES, M. de. (org.). História Oral Rio de Janeiro: Diadorim, 1994.
  • OLSON, D.R. e TORANCE, N.. Cultura Escrita e Oralidade São Paulo: Ática, 1995.
  • TOYNBEE, A.. Um estudo da História São Paulo/Brasília: Martins Fontes/UNB, 1987.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2012
  • Data do Fascículo
    1998
Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, campus de Bauru. Av. Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, Campus Universitário - Vargem Limpa CEP 17033-360 Bauru - SP/ Brasil , Tel./Fax: (55 14) 3103 6177 - Bauru - SP - Brazil
E-mail: revista@fc.unesp.br