Accessibility / Report Error

Entre a Educação Física e os esportes modernos: circulação de saberes sobre práticas higienistas na Escola Superior de Agricultura de Viçosa (1940-1948)

Between the Physical Education and the modern sports: circulation of knowledges about hygienic practices on Escola Superior de Agricultura de Viçosa (1940-1948)

Entre la Educación Física y el deporte moderno: circulación de saberes sobre prácticas higienistas en la Escola Superior de Agricultura de Viçosa (1940-1948)

RESUMO

Objetivamos analisar a circulação de saberes sobre práticas higienistas, tomando como eixo as práticas corporais em um periódico estudantil da Escola Superior de Agricultura de Viçosa, em Minas Gerais (1940-1948). Para isso, tomamos como referência a operação historiográfica na produção de documentos, anunciada por Certeau (2015). Observamos que os pressupostos higienistas assumiram uma dupla função: veicular saberes sobre os cuidados do corpo em conformidade às pretensões dos higienistas brasileiros; e incentivar o uso das práticas corporais como uma ferramenta de cuidado higiênico. Consideramos que os saberes sobre as práticas buscavam circular uma formação higiênica moderna por meio da Educação Física e dos esportes, em favor do progresso nacional.

Palavras-chave:
Higienismo; Educação Física; Esportes; ESAV

ABSTRACT

This paper aimed to analyze the circulation of knowledges about hygienist practices concerning the body practices, contained it in a student journal of the Escola Superior de Agricultura de Viçosa, state of Minas Gerais, Brazil (1940-1948). It takes as reference the historiographical operation, by Certeau (2015), to produce documents. Were observed that the hygienist knowledges had a double function: put on circulation the knowledges about body cares that corresponded it with the hygienist discusses; and encourage the use of body practices as a hygienic tool to care of the body. Was concluded that the knowledges about the practices aimed circulating a modern hygienic formation through the physical education and the sports, allowing a national progress.

Keywords:
Hygienics; Physical Education; Sport; ESAV

RESUMEN

El objetivo fue analizar la circulación de saberes sobre prácticas higienistas, tomando como eje las prácticas corporales, en una revista estudiantil de la Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa, en Minas Gerais (1940-1948). Para ello, se tomó como referencia la operación historiográfica en la producción de documentos, por Certeau (2015). Se observó que los supuestos higienistas asumieron una doble función: transmitir conocimientos sobre el cuidado del cuerpo en línea con las pretensiones de los higienistas brasileños; y fomentar el uso de prácticas corporales para el cuidado higiénico. Se consideró que los saberes sobre las prácticas buscaban hacer circular la formación higiénica moderna a través de la educación física y el deporte, en pro del progreso nacional.

Palabras-clave:
Higienismo; Educación Física; Deporte; ESAV

INTRODUÇÃO

A Escola Superior de Agricultura de Viçosa (ESAV)1 1 A ESAV compreende o período de 1921-1948, que correspondeu ao período de construção da escola e de funcionamento das aulas, iniciadas em 1927. Em 1948, a Escola foi transformada em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG) e assim foi denominada até 1969, quando foi federalizada e se tornou Universidade Federal de Viçosa (UFV), perdurando desta forma. foi uma instituição concebida em 1921, que tinha como intuito contribuir para a modernização do interior e para o desenvolvimento econômico do Estado de Minas Gerais, sendo construída na cidade de Viçosa, na Zona da Mata Mineira. Sua construção se deu nos moldes dos Land Grand Colleges estadunidenses e, como tal, se inspirou na organização da trilogia do ensino, pesquisa e extensão, destinados à resolução prática dos problemas do campo2 2 Conforme Ribeiro (2006), os Land Grant Colleges foram colégios instituídos no oeste e meio-oeste dos Estados Unidos, a partir da segunda metade do século XIX. Esse modelo de ensino agrícola teve como finalidade a instrução prática, condizente às demandas dos espaços rurais e interioranos do país norte-americano, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão (Baêta, 2016; Ribeiro, 2006). Baêta (2016) complementa que este modelo instruía, junto a formação técnica, uma educação moral dos sujeitos voltada para a construção de um novo tipo de homem condizente as demandas produtivas. (Baêta, 2016Baêta OV. Estratégias como práticas sóciodiscursivas em uma universidade pública: uma abordagem crítica [tese]. Lavras (MG): Universidade Federal de Lavras; 2016. 439 p.; Azevedo, 2005Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005.).

Durante a criação e concepção da instituição, constituía no país uma ambiência que destacava o estado de abandono sanitário-educacional da população rural, e permitia o avanço de teses higienistas nesses espaços (Hochman, 2012Hochman G. A era do saneamento: as bases da política de saúde pública no Brasil. 3. ed. São Paulo: Hucitec; 2012.; Lima e Hochman, 1996Lima NT, Hochman, G. Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da primeira república. In: Maio MC, Santos RV, organizadores. Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1996. p. 23-40.). Em conformidade com essa ambiência, alguns estudos da historiografia da ESAV sinalizam investimentos na veiculação de saberes higienistas em sua ação formativa no campo (Milagres, 2022Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. ; Milagres et al., 2021Milagres PO, Oliveira G, Baía A. Uma forma de educar na Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa: a circulação de discursos higienistas e eugenistas na Revista Seiva (1940 a 1948). Horizontes. 2021;39(1):1-19. https://doi.org/10.24933/horizontes.v39i1.1193
https://doi.org/10.24933/horizontes.v39i...
; Paes, 2017Paes EB. A identidade do esaviano: práticas educativas e controles institucionais em uma escola agrícola mineira (1926 a 1948) [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2017. 164 p. ; Azevedo, 2017Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847.
http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847...
, 2005Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005.).

Milagres (2022)Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. analisa que, a partir dos primeiros anos de construção da ESAV, houve a constituição de um repertório de saberes e práticas higienistas que participaram do estabelecimento da instituição. Foram realizadas diversas ações médico-higiênicas visando a limpeza e a robustez dos corpos dos habitantes rurais, sendo, na primeira metade da década de 1930, integrado às práticas corporais no repertório higienista da Escola (Milagres, 2022Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. ).

Para o autor supracitado, a organização das práticas de esporte e de Educação Física contaram com a atuação do médico Dr. Raymundo de Faria enquanto esteve na direção do Departamento de Educação Physica, entre 1934 e 1935. Por meio de preleções, foi incentivada a racionalização das práticas corporais, feita a implementação de exames médicos, sendo instaladas uma sala para as medições, um banheiro externo e uma piscina, em benefício da higienização da escola (Milagres, 2022Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. ).

No que diz respeito a consolidação das práticas corporais, Baia (2006)Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p. identificou que o esporte veio a se tornar um elemento preponderante ao projeto formador esaviano, no intuito de fundar uma tradição inventada. As práticas esportivas se expandiram de forma diversificada, contudo, privilegiando aquelas ligadas aos valores modernos de civilidade (Baia, 2006Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.).

Sendo assim, as práticas corporais tiveram espaço na formação ofertada desde os primeiros anos do funcionamento da instituição. Nos interessa saber como, a partir de 1940, tais práticas institucionalizadas contribuíram para disseminar saberes sobre práticas higienistas na Escola. Para isso, temos como objetivo analisar a circulação de saberes sobre as práticas higienistas, tomando como eixo as práticas corporais, em um periódico estudantil da ESAV de Minas Gerais (1940-1948).

Para a investigação, foi tomado como fonte a Revista Seiva. O periódico foi fundado em agosto de 1940 e circulou na forma de publicação trimestral. Ele foi organizado pelo Centro de Estudantes da ESAV, tendo um papel relevante na sedimentação de conhecimentos, costumes, tradições e crenças da instituição. O periódico obteve um grande alcance, tendo sido registrado mais de 8.000 exemplares em uma de suas edições (Azevedo, 2005Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005.).

O conteúdo veiculado na Revista Seiva era organizado em quatro colunas (Estudos; Literatura; Esportes, e; Sociais) que continham artigos, entrevistas e palestras, no formato de ensaios informativos, de divulgação, de discussão e de orientação acerca dos conhecimentos produzidos na instituição, sobretudo no campo da Agricultura e Veterinária (Azevedo, 2005Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005.). As práticas corporais eram apresentadas e circulavam com frequência na coluna de Esportes, por vezes ganhando espaço da coluna de Estudos.

Metodologicamente, Certeau (2015)Certeau M. Escrita da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense; 2015. foi tomado como referencial, ao afirmar que, “em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em ‘documentos’ certos objetos distribuídos de outra maneira.” (Certeau, 2015, pCerteau M. Escrita da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense; 2015.. 69, grifo do autor). Ou seja, o próprio tratamento dos registros históricos presentes no periódico estudantil, no simples gesto de recopiar e lhe dar uma outra forma e estatuto, resulta na produção de documentos. Os indícios neles reunidos foram confrontados e redistribuídos - conforme as unidades de saber - ao longo do texto, para que fossem narrados (Certeau, 2015Certeau M. Escrita da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense; 2015.; Pesavento, 2014Pesavento SJ. História & história cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica; 2014.). Para esta pesquisa, foram consultados um total de 29 exemplares da Revista Seiva, que se encontram parte no acervo do Arquivo Central Histórico da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e parte no setor de periódicos da Biblioteca Central da mesma instituição, registradas no período de 1940 a 1948. O recorte histórico adotado corresponde à criação da Revista Seiva, em 1940, e à oficialização da alteração da ESAV, em 1948, quando passou a atender pelo nome de UREMG, apresentando a partir desse momento uma maior influência do Estado na organização de suas ações.

O texto está organizado em três momentos: no primeiro, analisamos a articulação das práticas corporais na forma de saberes sobre práticas higienistas em circulação na revista; no segundo, investigamos a caracterização higiênica das práticas corporais veiculadas como parte do processo formativo na Escola; e, por último, apresentamos as considerações finais.

A REVISTA SEIVA COMO ESPAÇO DE PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABERES SOBRE PRÁTICAS CORPORAIS

A Revista Seiva funcionou como um lócus de divulgação de saberes destinados à conscientização de problemas comuns a seu público leitor. Ela buscava representar o pensamento estudantil na ESAV, mas com contribuições das diferentes classes que compunham a comunidade esaviana. O periódico estudantil buscou explorar em suas páginas os problemas que atingiam as fazendas no interior brasileiro, fornecendo estratégias para o melhoramento das condições de vida da população rural e da produção agrícola e pecuária. Conforme expressam:

[...] Seiva, desde a sua fundação, vem trabalhando pelo melhoramento das condições do fazendeiro, quer levando-lhe artigos de utilidade prática, quer amenizando-lhe as horas de melancolia através de contos e crônicas leves. Como seu programa é batalhar, dentro de suas possibilidades, pelo engrandecimento da Agricultura Nacional, Seiva entrega aos interessados esta nova seção, que bem demonstra a utilidade dessa atitude de compreensão que a ESAV mantém para com os problemas do homem do campo. (Revista Seiva, 1940c, pRevista Seiva. Seiva: Órgão oficial do Centro de Estudantes da Escola Superior de Agricultura e Veterinária. Seiva 1940c;1:1.. 1).

Os saberes veiculados na revista, munidos de pretensões educativas, circularam pela instituição e pelas fazendas com um caráter nacionalista e moderno. Além de um teor educativo, a revista buscou legitimar as bases da instituição na formação de agentes do progresso. Segundo Barbosa e Barbosa (2010)Barbosa DHD, Barbosa LS. Elites técnicas, estado e desenvolvimento regional em Minas Gerais na Era Vargas. Cad CRH 2010;23(58):111-28. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792010000100008.
http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792010...
, era dado aos engenheiros-agrônomos formados na Escola um lugar de destaque na revista, colocando-os como agentes capazes operar novos conhecimentos de forma científica e prática, a fim de produzir transformações nas condições de vida no espaço rural.

Nesse sentido, um conjunto de saberes acerca das práticas de educação do corpo são veiculados em um caráter educativo3 3 Os saberes higienistas veiculados pela revista assumiam um caráter mais educativo e menos de instrução, uma vez que expressavam tentativas menos de instruir cada sujeito, de forma individual, e mais de veicular determinados saberes capazes de incutir valores e sentimentos, para uma transformação coletiva (Herold, 2005). . A Educação Física e os esportes apareciam como práticas corretivas capazes de contribuir para a regeneração nacional, pelo aperfeiçoamento dos atributos físicos dos sujeitos para a formação de um povo saudável.

Na revista, percebe-se a veiculação de saberes sobre as práticas corporais atreladas à ideia de recuperação de uma raça acometida pela natureza. Esse caráter corretivo das práticas é veiculado na revista com a reprodução de uma palestra proferida pelo médico e professor da instituição, Dr. Raymundo de Faria, intitulada Educação Física e desportos. Nela, o professor e médico afirma que:

A Educação Física e os esportes pelo seu otimismo sadio, de certo vão corrigir a nossa raça, dando-nos ânimo e origem e a garantia de nossa própria confiança vencendo a natureza que nos apavora, tornando-nos física e moralmente fortes, completando a obra eugênica de construção de uma nacionalidade, caldeada no idealismo e no sonho maravilhoso de um Brasil grandioso e forte [...]. (Faria, 1942, pFaria RL. Educação Física e desportos. Seiva 1942;7:32-4.. 34).

Na revista é alimentado um certo otimismo quanto às contribuições da Educação Física e dos esportes para a nação brasileira. Eles são apontados como capazes de intervir sobre os corpos dos indivíduos, os corrigindo e os fortalecendo, de forma a contribuir para crescimento do país. Esse pensamento com teor higienista se encontra em conformidade com os debates promovidos em organizações de âmbito nacional, como a Associação Brasileira de Educação e a Sociedade Brasileira de Hygiene, que atribuíam às práticas corporais a capacidade de formar uma população vigorosa, tão necessária ao progresso nacional (Linhales, 2006Linhales MA. A escola, o esporte e a “energização do caráter”: projetos culturais em circulação na Associação Brasileira de Educação (1925-1935) [tese]. Belo Horizonte (MG): Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação; 2006. 267 p.; Soares, 2004Soares CL. Educação Física: raízes europeias e Brasil. 3. ed. Campinas: Autores Associados; 2004.).

Já a natureza a ser superada era a “natureza selvagem” alimentada pelos higienistas, responsável pela precariedade física dos sujeitos no campo e que debilitavam as forças do progresso nacional (Murari, 2009Murari L. Natureza e cultura no Brasil (1870-1922). São Paulo: Alameda; 2009.; Lima e Hochman, 1996Lima NT, Hochman, G. Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da primeira república. In: Maio MC, Santos RV, organizadores. Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1996. p. 23-40.). Dado que foi essa a natureza apelada pela revista como algo que deveria ser “vencido” pela prática da Educação Física e dos esportes.

A Escola era caracterizada como uma “forja de gigantes” (Val, 1943, pVal JBC Fo. Noite molhada. Seiva 1943;11:24.. 24) e aparecia como um espaço de aplicação dessas práticas higienistas. A instituição concebia a Educação Física enquanto prática obrigatória na sua formação, mesmo não encontrando uma boa recepção entre os alunos, que a consideravam monótona (Faria, 1945Faria RL. A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Seiva 1945;22:4-6.). Suas ações se voltavam para o preparo físico por meio da ginástica4 4 A ginástica aqui referida tem relação com métodos ginásticos que circularam no Brasil nas primeiras décadas do século XX (Baia, 2006). . A justificativa para a obrigatoriedade era reforçada pelo caráter cientificista da prática, demarcado na revista, muitas das vezes, pela ideia de orientação racional, de método e de disciplina. O médico e professor Dr. Raymundo de Faria divulgava na revista estudantil que: “Se há uma ciência modernizada que influi decisivamente na formação do homem moderno, é esta, sem dúvida, a Educação Física Racional.” (Faria, 1946, pFaria RL. Influência da Educação Física na formação do homem moderno. Seiva 1946;23:33-4.. 23).

A prática dos esportes, por outro lado, não era obrigatória, porém tinha uma boa adesão entre os esavianos e era incentivada no tempo livre. Nas palavras de Baia (2006)Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p., os esportes modernos tiveram uma participação ativa na instituição, com a finalidade de atender a formação de um cidadão com corpo de atleta e mente de sábio. Na revista, a prática recebia críticas pela forma como era realizada pelos alunos na escola, devido a sua falta de sistematização e uso de métodos eficientes. Contudo, ela possibilitava benefícios higiênicos úteis ao trabalho no campo, como a expansão da força e o aumento do vigor físico (Faria, 1945Faria RL. A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Seiva 1945;22:4-6.; Athayde, 1944Athayde AA. O esaviano não se satisfaz com promessa apenas, quer ver a realidade. Seiva 1944;18:34-6.). Assim, os esportes corresponderiam ao pensamento médico-higiênico circulante no Brasil, sendo divulgados como úteis para a formação dos sujeitos no campo, pois “[...] o esporte que tonifica os músculos e revigora os nervos, dispondo-os a bem servir a primeira finalidade [o enobrecimento do espírito].” (Silva, 1942, pSilva AC. Cultura da Educação Física. Seiva 1942;8:32-3.. 32).

A circulação das práticas corporais na revista possibilitou um lugar para difusão dos saberes médico-higiênicos que participavam do saber especializado da Educação Física. Tanto a Educação Física quanto os esportes apareceram como temática central em cinco artigos (Faria, 1942Faria RL. Educação Física e desportos. Seiva 1942;7:32-4.; Silva, 1942Silva AC. Cultura da Educação Física. Seiva 1942;8:32-3.; Lima, 1943Lima SCP. Educação Física: resultados obtidos pela mesma. Seiva 1943;12:27-8.; Faria, 1945Faria RL. A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Seiva 1945;22:4-6.; Faria, 1946Faria RL. Influência da Educação Física na formação do homem moderno. Seiva 1946;23:33-4.) que vinculam as práticas corporais e a higiene, sendo três deles publicados por um médico da instituição e um por um técnico especializado na área5 5 As publicações nos números 7, 22 e 23 são de autoria do professor Raymundo Lopes de Faria, que era médico do Serviço de Saúde e dava aulas de Biologia e Zootecnia. Já a publicação de número 12 é de autoria do professor Sílio Carlos Pereira, que foi um técnico em Educação Física contratado pela ESAV, na década de 1940 (Baia, 2006). . Nesses artigos, a mesma apareceu resguardada pelas palavras de um médico e de um técnico de Educação Física, à qual foi atribuída a função de promover o cuidado do corpo na instituição, garantindo um lugar de “verdade” para as intervenções sobre os sujeitos pelas práticas corporais (Foucault, 2014Foucault M. A história da sexualidade I: vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra; 2014.).

Essa propagação de saberes sobre as práticas corporais na ambiência institucional da ESAV, atrelados aos preceitos higienistas, encontra correspondência com o arranjo educacional caracterizado por Azevedo (2017)Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847.
http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847...
e Milagres (2022)Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. . Azevedo (2017)Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847.
http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847...
identificou o investimento institucional em dispositivos pedagógicos que visavam a formação integral6 6 A educação intelectual, moral e física, que constituiu a tríade spenseriana, foi elaborada pelo evolucionista inglês Herbert Spencer (1820-1903). O intelectual exerceu forte influência sobre a elite modernizadora brasileira, e teve sua tríade difundida no país como um modelo pedagógico moderno e científico, nas primeiras décadas do século XX (Moreno e Vago, 2011; Murari, 2009; Nascimento, 2003). - intelectual, moral e física - dos esavianos, antes mesmo da criação da revista. Já Milagres (2022)Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. demonstrou como saberes e práticas higienistas foram investidas por meio de diferentes ferramentas desde a constituição inicial da instituição, estando entre elas as práticas corporais.

Assim, a Educação Física, enquanto uma pedagogia moderna e científica, e os esportes modernos, enquanto práticas que permitiam alcançar o vigor físico, ocuparam um lugar privilegiado dentre as práticas de educação do corpo difundidas pela Revista Seiva. Essas práticas estavam em conformidade com as pretensões da revista, que visava levar aos fazendeiros soluções para os problemas do campo. O respaldo para prática estava em seu caráter de ciência modernizada, sendo cultivada até mesmo no cotidiano da Escola para a formação dos novos profissionais.

Desta forma, as práticas corporais passam a funcionar na revista como um espaço de veiculação de saberes higienistas destinados ao corpo, incutindo a necessidade de uma formação corporal que vai de encontro à formação de um sujeito moderno alinhado às pretensões nacionais.

“DE QUE NOS SERVE MILHÕES DE [...] ENFERMOS”: A FORMAÇÃO PARA ALÉM DOS LIVROS

Em um texto publicado pelo aluno Alberto Campos Silva, intitulado Cultura da Educação Física, o autor se vangloria, em um tom ufanista, da obrigatoriedade da prática de educação física na ESAV. Para reforçar sua importância, o aluno questiona: “De que nos serve milhões de doutores e técnicos de agrícolas, se eles representam igual, número de enfermos?” (Silva, 1942, pSilva AC. Cultura da Educação Física. Seiva 1942;8:32-3.. 32).

O questionamento do aluno fazia alusão ao projeto de formação esaviana calcada na formação técnica e na constituição de hábitos higiênicos no cuidado corporal. Azevedo (2005)Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005. e Milagres (2022)Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p. apontaram que, desde a construção da Escola, foram implementadas medidas de combate ao analfabetismo e às doenças entre os funcionários da instituição, passando a vigorar medidas higiênicas para prevenção de moléstias entre os alunos.

Para Alberto Campos Silva não bastava a formação técnica e os cuidados com a higiene. A cultura física, em suas palavras, ganha relevância na formação. Na ESAV havia, além da prática de Educação Física obrigatória, o incentivo às práticas esportivas com valores modernos. Foram incentivadas práticas de Futebol, Futebol Americano, Vôlei, Basquete, Tênis, Atletismo, Natação, Ciclismo, Remo e Boxe, que ganharam uma maior ou menor inserção entre os alunos. Além disso, alguns atores se destacaram no cenário esportivo esaviano, como o Sargento Kümmel7 7 Waldemar Raul Kümmel (1908-1980) foi um sargento militar que atuou como instrutor de educação física na ESAV e, posteriormente, se tornou aluno no curso Superior em Agronomia. e o Dr. Raymundo de Faria, que atuaram na consolidação das práticas de esporte - e também de Educação Física - na instituição, o professor estadunidense B. T. Snipes, que contribuiu para o fortalecimento das práticas de Basquete, e o aluno João Cândido, que se destacou nas competições universitárias nacionais e internacionais pelo Atletismo. A defesa e o incentivo das práticas corporais na instituição propiciaram a construção de uma praça de esportes (Figuras 1-2) em 1931, contendo campo de Futebol, pista de Atletismo e quadras de Basquete, Vôlei e Tênis (Baia, 2006Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.).

Figura 1
Praça de esportes. Vista parcial da praça de esportes, [s/d].
Figura 2
Praça de esportes. Vista parcial da pista de Atletismo, [s/d].

Os indícios sinalizam que a construção da praça de esportes foi um importante acontecimento na propagação de práticas corporais na instituição, contribuindo para a educação higiênica do corpo. Na revista, a criação da praça de esportes chegou a ser citada em agradecimento ao Sargento Kümmel. Foi veiculado que:

A escola até então [antes da praça de esportes] vivia quase que exclusivamente para o estudo, não tinha os estudantes o nosso clássico “racha”, à tarde. Compreendendo a falta que isso fazia, o Sargento Kümmel, em 1931, iniciou a construção do nosso estádio, que, como ele, queriam não só o bem-estar seu, como também em melhoramento da ESAV. (Revista Seiva, 1941b, pRevista Seiva. Sargente Kummel. Seiva 1941b;5:36.. 36).

A construção da praça de esportes foi apresentada como um acontecimento que possibilitou a transformação da ambiência institucional, em favor do cultivo dos corpos. Com sua criação, foram possibilitados novos espaços para que os alunos pudessem interromper o excesso de estudos e, enfim, exercitar o seu físico. Desta maneira, as práticas corporais contribuiriam para a formação integral almejada pela instituição (Azevedo, 2017Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847.
http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847...
), permitindo uma formação física e também moral.

Relatou-se que, todas as tardes nas quadras de tênis, “vê a ESAV mais um grupo de seus filhos adestrar os músculos e o espírito [...].” (Revista Seiva, 1943, pRevista Seiva. Clube de tênis. Seiva 1943;11:42.. 42). Além disso, a prática dos esportes era incentivada como remédio para a fadiga dos estudos, visto que nela “está o melhor recreio para a mocidade, [uma vez que] ao lado da formação física e salutar, eles plasmam carácteres e cristalizam consciências.” (Revista Seiva, 1940b, pRevista Seiva. Esportes. Seiva 1940b;2:29.. 29).

As práticas corporais eram preponderantes dentro de um projeto de nacionalidade (Soares, 2004Soares CL. Educação Física: raízes europeias e Brasil. 3. ed. Campinas: Autores Associados; 2004.), e, para uma instituição rural que se propunha a formar agentes do progresso, elas se tornavam uma norma. Assim, “não há justificativa aceitável, para um jovem que não pratique esportes ou faz atletismos; é incrível que um moço, em plena força vital, não sinta os reclames musculares chamando-o aos campos.” (Revista Seiva, 1940a, pRevista Seiva. Comentário. Seiva 1940a;2:30.. 30).

Percebemos que os investimentos nas práticas corporais para a formação dos esavianos foram defendidos em reportagens que circulavam na revista. Os esportes eram vistos como preponderantes aos futuros profissionais formados pela Escola, devido aos benefícios higiênicos da prática. Justificou-se que “o estudante de agricultura necessita da prática dos esportes, por que resistirá as intempéries dos campos ou o abafamento do gabinete, o indivíduo fisicamente robusto.” (Athayde, 1944, pAthayde AA. O esaviano não se satisfaz com promessa apenas, quer ver a realidade. Seiva 1944;18:34-6.. 35).

Não se resta dúvida que o esporte foi um distinto primado na instituição dentre as práticas de educação do corpo na ESAV, e, entre os benefícios veiculados, estava sua capacidade de “estima da limpeza do corpo e do espírito.” (Faria, 1946, pFaria RL. Influência da Educação Física na formação do homem moderno. Seiva 1946;23:33-4.. 36). No entanto, os leitores são alertados quanto aos perigos dos excessos. Conforme afirma o médico e professor da instituição:

Além de não ser um tipo de beleza varonil [homens com grande massa muscular], pois não possui elegância de atitudes, a nobreza de movimentos tem um curto domínio intelectual, digno de lastima. São homens preparados para as sensações de espetáculo, mas não para servir de modelo a uma raça que pretenda desenvolver-se e dominar. (Faria, 1946, pFaria RL. Influência da Educação Física na formação do homem moderno. Seiva 1946;23:33-4.. 37).

Os excessos do trabalho muscular eram tidos com perigo na construção do homem moderno, uma vez que o objetivo da prática, na perspectiva de alguns higienistas, estava no desenvolvimento harmônico do físico. Tais excessos apareciam como uma transgressão a uma suposta ordem natural do corpo, no entanto, tem como pano de fundo apenas os ditames de uma arte de bem viver e a cientificidade das práticas do corpo (Góis, 2015Góis E Jr. Georges Demeny e Fernando de Azevedo: uma ginástica científica e sem excessos (Brasil, França, 1900-1930). Rev Bras Ciênc Esporte 2015;37(2):144-50. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11.017.
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11...
; Silva, 2012Silva PJC. Alimentação e males da alma em fontes do período moderno. Filos Hist Biol 2012;7(2):305-16.; Soares, 2004Soares CL. Educação Física: raízes europeias e Brasil. 3. ed. Campinas: Autores Associados; 2004.).

Algumas críticas eram propagadas pela revista quanto à falta de sistematização dos esportes praticados pelos alunos durante a permanência na Escola e, em contrapartida, buscou-se conscientizar acerca da organização das práticas esportivas. Exemplo disso foi o artigo publicado logo ao início do número 22, na coluna de Estudos, intitulado A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Nele, se entrelaçavam explicações sobre partes do treinamento e observações do cotidiano esportivo dos esavianos, indicando que seus praticantes demonstravam dispensar os ensinamentos das aulas de Educação Física. Ao fim do artigo se fazia um apelo: “É preciso praticar desportos, mas praticá-los conscientemente, com método e disciplina.” (Faria, 1945, pFaria RL. A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Seiva 1945;22:4-6.. 8).

Sendo assim, os esportes eram, além de disseminados, aproximados dos preceitos higienistas de fadiga e de método para que fossem aplicados pelos esavianos. Já a organização da prática de Educação Física era feita pela escola.

Conforme difundido pela revista, todos alunos “estão obrigados à Educação Física indicada pelo médico” e que a ausência do cumprimento por algum aluno “acarretará mais tarde, dificuldades sérias no registro dos diplomas” (Faria, 1942, pFaria RL. Educação Física e desportos. Seiva 1942;7:32-4.. 33). Mesmo com a obrigatoriedade médica e institucional, havia uma resistência de alunos que preferiam os esportes, a despeito da necessidade de cumprir a Educação Física por estarem sujeitos ao regulamento. Com isso, antes das aulas de ginástica, “enquanto passam os 10 minutos até a hora regular, um ‘racha’ é travado em cada tempo [no campo de basquete].” (Revista Seiva, 1941a, pRevista Seiva. Bola ao cesto. Seiva 1941a;5:33-4.. 34).

A fim de incentivar a adesão às práticas de Educação Física, a revista foi utilizada pelo Dr. Raymundo de Faria para difundir os benefícios da Educação Física obrigatória. Foram listados vários benefícios da prática sob bases científicas, sendo eles:

Primeiro de tudo, produz resultados higiênicos, cuja síntese é a saúde. De fato, aperfeiçoando e melhorando a respiração, como também a circulação, normalizando a construção muscular e ritmando os fenômenos nutritivos, atua a Educação Física, indiscutivelmente, sobre as condições de saúde do indivíduo.

[...]

A segunda consequência da Educação física produz resultados estéticos e corretivos, cuja síntese é a beleza.

[...]

Em terceiro lugar, a Educação Física traz resultados econômicos, cuja síntese é a destreza. O trabalho físico sistematizado e progressivo determina excitabilidade mais pronta, aperfeiçoamento dos movimentos, coordenação dos grupos musculares, permitindo habilidade em utilizar a força e empregá-la inteligentemente, o que traz verdadeira flexibilidade corporal.

Corre, ainda, finalmente, a Educação Física para produzir resultados de ordem moral, cuja síntese é a virilidade [...]. (Lima, 1943, pLima SCP. Educação Física: resultados obtidos pela mesma. Seiva 1943;12:27-8.. 27).

O convencimento dos alunos quanto à adesão das práticas obrigatórias de Educação Física estava fundamentado em pressupostos médico-higienistas. A construção da saúde, seguida de atributos físicos de força, beleza, robustez e vigor, eram contribuições higiênicas comumente atribuídas às práticas corporais (Soares, 2004Soares CL. Educação Física: raízes europeias e Brasil. 3. ed. Campinas: Autores Associados; 2004.). Não obstante, o estímulo à adesão das práticas de Educação Física possibilitaria a difusão de seus benefícios higiênicos na Escola.

Desta forma, podemos perceber que a Revista Seiva imprimiu um teor educativo ao aproximar um conjunto de saberes higienistas às práticas corporais que ocorriam na instituição, de forma a circular os saberes voltados ao cuidado do corpo. O incentivo aos usos dos espaços esportivos aparecia como uma possibilidade de atender ao projeto de educação integral almejado pela ESAV (Azevedo, 2017Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847.
http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847...
; Baia, 2006Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.), difundido cuidados higiênicos entre os alunos esavianos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Revista Seiva foi um periódico que permitiu a circulação do pensamento estudantil esaviano por meio da colaboração entre alunos, professores e a administração da Escola. Seu compromisso ligado aos problemas do homem do campo, na busca de soluções por meios científicos, contribuiu para a veiculação do pensamento médico-higiênico acerca das práticas corporais - destacado na revista como práticas de Educação Física e de esportes.

Os pressupostos higienistas que circularam junto às práticas corporais assumiram uma dupla função, de veicular saberes sobre os cuidados do corpo, incutindo uma determinada formação corporal em conformidade com as pretensões dos higienistas brasileiros, e, ao mesmo tempo, legitimava as práticas corporais enquanto ferramentas higiênicas a serem cultivadas pelos alunos esavianos na Escola e pelos leitores nas fazendas.

Assim, de modo geral, as práticas corporais eram caracterizadas pela capacidade de aperfeiçoar os corpos, revigorando seus atributos físicos e morais, o que garantiria o caráter higiênico das práticas. Esses atributos também estavam contidos nas práticas incentivadas dentro da instituição, indicados como primordiais para a formação dos engenheiros agrônomos “forjados” por ela.

A Educação Física estava caracterizada por seu caráter racional e cientificista, ligada aos atributos de uma prática dotada de sistematização, método e disciplina, o que garantiria a eficiência dos benefícios higiênicos. Já os esportes, por sua vez, eram vistos como práticas modernas que contribuíam para a formação higiênica dos sujeitos pelo ganho de força e vigor. Contudo, por vezes, se buscava aproximar os esportes da sistematização da Educação Física, a fim de prevenir os excessos na prática esportiva.

Portanto, podemos considerar que os saberes sobre práticas higienistas encontraram espaço na revista para circular junto às práticas corporais. Saberes estes que buscavam convencer os leitores acerca dos cuidados higiênicos do corpo, por meio da Educação Física e dos esportes, visando promover uma formação tida como moderna e útil ao progresso nacional.

  • 1
    A ESAV compreende o período de 1921-1948, que correspondeu ao período de construção da escola e de funcionamento das aulas, iniciadas em 1927. Em 1948, a Escola foi transformada em Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG) e assim foi denominada até 1969, quando foi federalizada e se tornou Universidade Federal de Viçosa (UFV), perdurando desta forma.
  • 2
    Conforme Ribeiro (2006)Ribeiro MG. Caubóis e caipiras: Os land grant colleges e a Escola Superior de Agricultura de Viçosa. Hist Educ 2006;19:105-20., os Land Grant Colleges foram colégios instituídos no oeste e meio-oeste dos Estados Unidos, a partir da segunda metade do século XIX. Esse modelo de ensino agrícola teve como finalidade a instrução prática, condizente às demandas dos espaços rurais e interioranos do país norte-americano, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão (Baêta, 2016Baêta OV. Estratégias como práticas sóciodiscursivas em uma universidade pública: uma abordagem crítica [tese]. Lavras (MG): Universidade Federal de Lavras; 2016. 439 p.; Ribeiro, 2006Ribeiro MG. Caubóis e caipiras: Os land grant colleges e a Escola Superior de Agricultura de Viçosa. Hist Educ 2006;19:105-20.). Baêta (2016)Baêta OV. Estratégias como práticas sóciodiscursivas em uma universidade pública: uma abordagem crítica [tese]. Lavras (MG): Universidade Federal de Lavras; 2016. 439 p. complementa que este modelo instruía, junto a formação técnica, uma educação moral dos sujeitos voltada para a construção de um novo tipo de homem condizente as demandas produtivas.
  • 3
    Os saberes higienistas veiculados pela revista assumiam um caráter mais educativo e menos de instrução, uma vez que expressavam tentativas menos de instruir cada sujeito, de forma individual, e mais de veicular determinados saberes capazes de incutir valores e sentimentos, para uma transformação coletiva (Herold, 2005Herold C Jr. Da instrução à educação do corpo: o caráter público da educação física e a luta pela modernização do Brasil no século XIX (1880-1915). Educ Rev 2005;25:237-55.).
  • 4
    A ginástica aqui referida tem relação com métodos ginásticos que circularam no Brasil nas primeiras décadas do século XX (Baia, 2006Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.).
  • 5
    As publicações nos números 7, 22 e 23 são de autoria do professor Raymundo Lopes de Faria, que era médico do Serviço de Saúde e dava aulas de Biologia e Zootecnia. Já a publicação de número 12 é de autoria do professor Sílio Carlos Pereira, que foi um técnico em Educação Física contratado pela ESAV, na década de 1940 (Baia, 2006Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.).
  • 6
    A educação intelectual, moral e física, que constituiu a tríade spenseriana, foi elaborada pelo evolucionista inglês Herbert Spencer (1820-1903). O intelectual exerceu forte influência sobre a elite modernizadora brasileira, e teve sua tríade difundida no país como um modelo pedagógico moderno e científico, nas primeiras décadas do século XX (Moreno e Vago, 2011Moreno A, Vago TM. Nascer de novo na Cidade-Jardim da República: Belo Horizonte como lugar de cultivo de corpos (1891-1930). Pro-Posições. 2011;22(3):67-80. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300006.
    http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011...
    ; Murari, 2009Murari L. Natureza e cultura no Brasil (1870-1922). São Paulo: Alameda; 2009.; Nascimento, 2003Nascimento JC. As viagens pedagógicas. São Paulo difundindo a pedagogia moderna e a Escola Nova no Brasil. Cad Ceru 2003;14:149-55.).
  • 7
    Waldemar Raul Kümmel (1908-1980) foi um sargento militar que atuou como instrutor de educação física na ESAV e, posteriormente, se tornou aluno no curso Superior em Agronomia.
  • FINANCIAMENTO

    Este trabalho recebeu apoio, por meio de bolsa, do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal de Viçosa, conveniada ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Edital PIBIC UFV 2019-2020, número do processo da bolsa 12280728680.

REFERÊNCIAS

  • Athayde AA. O esaviano não se satisfaz com promessa apenas, quer ver a realidade. Seiva 1944;18:34-6.
  • Azevedo DS. As ‘Reuniões Gerais’ como dispositivo pedagógico de modelação no ensino de Agricultura em Minas Gerais (1928-1951). Rev Bras Hist Educ 2017;17(1):116-39. http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847
    » http://dx.doi.org/10.4025/rbhe.v17n1.847
  • Azevedo DS. Melhoramento do homem, do animal e da semente: o projeto político pedagógico da ESAV (1920-1948), organização e funcionamento [tese]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo; 2005.
  • Baêta OV. Estratégias como práticas sóciodiscursivas em uma universidade pública: uma abordagem crítica [tese]. Lavras (MG): Universidade Federal de Lavras; 2016. 439 p.
  • Baia AC. O esporte na consolidação e propagação do espírito esaviano [dissertação]. Uberlândia (MG): Universidade Federal de Uberlândia; 2006. 144 p.
  • Barbosa DHD, Barbosa LS. Elites técnicas, estado e desenvolvimento regional em Minas Gerais na Era Vargas. Cad CRH 2010;23(58):111-28. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792010000100008
    » http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792010000100008
  • Certeau M. Escrita da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense; 2015.
  • Faria RL. A sessão preparatória e a volta à calma nos desportos. Suas razões fisiológicas. Seiva 1945;22:4-6.
  • Faria RL. Educação Física e desportos. Seiva 1942;7:32-4.
  • Faria RL. Influência da Educação Física na formação do homem moderno. Seiva 1946;23:33-4.
  • Foucault M. A história da sexualidade I: vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra; 2014.
  • Góis E Jr. Georges Demeny e Fernando de Azevedo: uma ginástica científica e sem excessos (Brasil, França, 1900-1930). Rev Bras Ciênc Esporte 2015;37(2):144-50. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11.017
    » http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.11.017
  • Herold C Jr. Da instrução à educação do corpo: o caráter público da educação física e a luta pela modernização do Brasil no século XIX (1880-1915). Educ Rev 2005;25:237-55.
  • Hochman G. A era do saneamento: as bases da política de saúde pública no Brasil. 3. ed. São Paulo: Hucitec; 2012.
  • Lima NT, Hochman, G. Condenado pela raça, absolvido pela medicina: o Brasil descoberto pelo movimento sanitarista da primeira república. In: Maio MC, Santos RV, organizadores. Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 1996. p. 23-40.
  • Lima SCP. Educação Física: resultados obtidos pela mesma. Seiva 1943;12:27-8.
  • Linhales MA. A escola, o esporte e a “energização do caráter”: projetos culturais em circulação na Associação Brasileira de Educação (1925-1935) [tese]. Belo Horizonte (MG): Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação; 2006. 267 p.
  • Milagres PO. Em “pról dos destinos prátrios”: a Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa e as marcas do higienismo no campo [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2022. 201 p.
  • Milagres PO, Oliveira G, Baía A. Uma forma de educar na Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa: a circulação de discursos higienistas e eugenistas na Revista Seiva (1940 a 1948). Horizontes. 2021;39(1):1-19. https://doi.org/10.24933/horizontes.v39i1.1193
    » https://doi.org/10.24933/horizontes.v39i1.1193
  • Moreno A, Vago TM. Nascer de novo na Cidade-Jardim da República: Belo Horizonte como lugar de cultivo de corpos (1891-1930). Pro-Posições. 2011;22(3):67-80. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300006
    » http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300006
  • Murari L. Natureza e cultura no Brasil (1870-1922). São Paulo: Alameda; 2009.
  • Nascimento JC. As viagens pedagógicas. São Paulo difundindo a pedagogia moderna e a Escola Nova no Brasil. Cad Ceru 2003;14:149-55.
  • Pesavento SJ. História & história cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica; 2014.
  • Paes EB. A identidade do esaviano: práticas educativas e controles institucionais em uma escola agrícola mineira (1926 a 1948) [dissertação]. Viçosa (MG): Universidade Federal de Viçosa; 2017. 164 p.
  • Revista Seiva. Bola ao cesto. Seiva 1941a;5:33-4.
  • Revista Seiva. Clube de tênis. Seiva 1943;11:42.
  • Revista Seiva. Comentário. Seiva 1940a;2:30.
  • Revista Seiva. Esportes. Seiva 1940b;2:29.
  • Revista Seiva. Sargente Kummel. Seiva 1941b;5:36.
  • Revista Seiva. Seiva: Órgão oficial do Centro de Estudantes da Escola Superior de Agricultura e Veterinária. Seiva 1940c;1:1.
  • Ribeiro MG. Caubóis e caipiras: Os land grant colleges e a Escola Superior de Agricultura de Viçosa. Hist Educ 2006;19:105-20.
  • Silva AC. Cultura da Educação Física. Seiva 1942;8:32-3.
  • Silva PJC. Alimentação e males da alma em fontes do período moderno. Filos Hist Biol 2012;7(2):305-16.
  • Soares CL. Educação Física: raízes europeias e Brasil. 3. ed. Campinas: Autores Associados; 2004.
  • Val JBC Fo. Noite molhada. Seiva 1943;11:24.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Abr 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    26 Jan 2023
  • Aceito
    10 Fev 2023
Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte Universidade de Brasilia - Campus Universitário Darcy Ribeiro, Faculdade de Educação Física, Asa Norte - CEP 70910-970 - Brasilia, DF - Brasil, Telefone: +55 (61) 3107-2542 - Brasília - DF - Brazil
E-mail: rbceonline@gmail.com