Open-access ALTAS HABILIDADES OU SUPERDOTAÇÃO NO CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO ESPECIAL: ESTUDO BIBLIOMÉTRICO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA1

GIFTEDNESS IN THE BRAZILIAN CONGRESS ON SPECIAL EDUCATION: A BIBLIOMETRIC STUDY OF SCIENTIFIC PRODUCTION

RESUMO

As altas habilidades ou superdotação (AHSD) pertencem à Educação Especial, mas são desconhecidas em muitas realidades brasileiras, o que coloca à luz a necessidade de que elas sejam cientificamente abordadas e divulgadas. Diante do exposto, esta pesquisa objetivou analisar, a partir de indicadores bibliométricos, a produção científica sobre AHSD veiculada no Congresso Brasileiro de Educação Especial (CBEE). Trata-se de um estudo quantitativo, que utilizou a Bibliometria como ferramenta metodológica para medir o campo acadêmico relacionado ao tema em questão, especialmente no tocante às seguintes variáveis: temporalidade das produções, palavras-chave, subtemas, autorias e métodos. O corpus totalizou 200 trabalhos, e os resultados indicaram que a maior quantidade de produções sobre AHSD no CBEE ocorreu em 2018; as principais palavras-chave empregadas foram “altas habilidades/superdotação” e “educação especial”; a autoria revelou tanto o predomínio de trabalhos elaborados por pares quanto diferentes contribuições institucionais; os subtemas mais dissertados junto às AHSD foram “atendimento” e “identificação”; e os métodos desvelaram, por fim, a prevalência de pesquisas qualitativas. Concluiu-se, por meio da análise bibliométrica, que a produção acadêmica alusiva às AHSD requer maior visibilidade na comunidade científica, para que essa temática possa se expandir tal como as demais áreas da Educação Especial.

PALAVRAS-CHAVE:
Altas habilidades; Superdotação; Congresso Brasileiro de Educação Especial; Bibliometria.

ABSTRACT

Giftedness fall within the field of Special Education but remain little known in many Brazilian contexts, which highlights the need for greater scientific attention to and dissemination of this topic. In this regard, this study aimed to analyze, based on bibliometric indicators, the scientific production on giftedness presented at the Brazilian Congress on Special Education (CBEE, acronym in Portuguese). This is a quantitative study that employed bibliometrics as a methodological tool to assess the academic field related to the topic, particularly in terms of the following variables: publication timeline, keywords, subthemes, authorship, and research methods. The corpus comprised 200 papers, and the results indicated that the highest number of publications on giftedness at CBEE occurred in 2018; the most frequently used keywords were “giftedness” and “special education”; authorship analysis revealed both a predominance of coauthored papers and diverse institutional contributions; the most recurrent subthemes associated with giftedness were “educational services” and “identification”; and research methods showed, finally, a prevalence of qualitative studies. It was concluded, through bibliometric analysis, that academic production related to giftedness requires greater visibility in the scientific community, so that this theme can expand like other areas of Special Education.

KEYWORDS:
Giftedness; Brazilian Congress of Special Education; Bibliometrics.

1 INTRODUÇÃO

As altas habilidades ou superdotação (AHSD) constituem um fenômeno no qual o seu público apresenta desempenho superior, isolada ou combinadamente, nos seguintes campos: intelectual, acadêmico, psicomotor, artístico, criativo e de liderança, conforme aponta a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI) (Ministério da Educação, 2008). Essa definição fundamenta-se na Teoria dos Três Anéis da Superdotação (Renzulli, 2002), cuja abordagem considera que os comportamentos superdotados decorrem da interação entre três anéis: a habilidade acima da média, o comprometimento com a tarefa e a criatividade.

A habilidade acima da média refere-se ao potencial elevado em uma ou mais áreas; o comprometimento com a tarefa relaciona-se à motivação empregada na execução de uma ação ou na resolução de algum problema; e a criatividade corresponde ao pensamento divergente, que possibilita ao indivíduo expressar suas realizações em campo(s) relacionado(s) à capacidade superior (Renzulli, 2002). Os três traços precisam estar presentes no comportamento superdotado, mas não necessariamente ao mesmo tempo.

À luz dessa teoria (Renzulli, 2004a), as AHSD podem ser acadêmicas (facilmente identificadas nas escolas e avaliadas por testes psicométricos e/ou outros instrumentos avaliativos) ou produtivo-criativas (relacionadas à arte, psicomotricidade, criatividade e liderança, com manifestações tão autênticas que não podem ser avaliadas numericamente). Essa variedade de expressões torna os indivíduos com potencial elevado singulares quanto às características que possuem (Martins et al., 2023). Sua atuação pode ocorrer em qualquer área potencialmente valiosa do desempenho humano (Renzulli, 1978).

Diante dessas duas naturezas, afirma-se que esse fenômeno é: a) interdisciplinar, pois pode ser abordado junto a outros ramos do conhecimento, e b) multidimensional, estando presente em diferentes áreas do conhecimento ou da expressão humanas, podendo ser observado em qualquer nível socioeconômico e cultural (Martins, 2020; Nakano et al., 2023). Por isso, a população com comportamentos superdotados requer acesso a oportunidades e serviços especializados (Renzulli, 1978), de modo que os seus potenciais encontrem condições ambientais e escolares favoráveis à sua expressão.

No âmbito escolar, o público com capacidades superiores começou a fazer parte dos serviços ofertados pela Educação Especial a partir de 1970, mediante “tratamento especial” (Pérez & Freitas, 2011, 2014). No entanto, as iniciativas educacionais que objetivavam atendê-lo eram pontuais e isoladas, e a atenção educacional às suas necessidades foi contemplada, de fato, na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

Esse dispositivo legal, juntamente com o Decreto nº 7.611, de 11 de novembro de 2011, passou a assegurar os seguintes direitos para os estudantes com AHSD: Atendimento Educacional Especializado (AEE); recursos de acessibilidade pedagógica (para a suplementação da formação escolar); e aceleração (medida que prevê o término da programação curricular em menor tempo). Embora existam essas e outras prerrogativas, ainda é escassa a identificação desse grupo estudantil, o que reduz as chances de a sua escolarização se desenvolver de forma mais eficaz.

Nessa lógica, Martins (2020) destaca que o alunado com capacidades elevadas carece de mais atenção, para além do contexto educacional, na sociedade em geral, como na mídia (que tende a veicular características deturpadas a seu respeito), no governo (cujas proposições políticas não consolidam seus direitos) e na comunidade acadêmica (que pouco dissemina informações precisas sobre essa população).

Somam-se à desatenção às AHSD outros problemas relacionados à carência e à precariedade das políticas públicas que buscam atendê-las (Pérez & Freitas, 2014); à demora no processo avaliativo (Silva & Geller, 2024), quando este é conduzido; aos mitos que incidem sobre essa população (Antipoff & Campos, 2010); à falta de clareza conceitual sobre o próprio tema (Rangni & Costa, 2011); e à organização do sistema escolar, propensa à recuperação dos estudantes com sub-rendimento, deixando à margem as necessidades daqueles com comportamentos superdotados (Martins, 2020).

Esses obstáculos revelam, no contexto educacional, a negligência àqueles que apresentam potencial superior. Tal cenário pode ser verificado nos dados do Censo Escolar de 2024 (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira [Inep], 2025), segundo os quais apenas 43.950 (0,09%) estudantes foram identificados com AHSD, dentre um total de 47.088.822 matriculados na Educação Básica. A partir desses dados, é possível perceber a subnotificação de matrículas dessa parcela estudantil - pois as estimativas percentuais consideram 15% a 30% de todo um grupo (Renzulli, 2004b) - e a consequente privação de acesso ao AEE e a outros direitos educacionais para esses alunos.

As adversidades fazem-se presentes, inclusive, nos estudos produzidos sobre a área, que são poucos se comparados aos de outras áreas da Educação Especial, mesmo com a existência de leis e documentos oficiais que balizam direitos educacionais para ela (Martins et al., 2016; Nakano et al., 2023; Pereira et al., 2020). Por isso, é pertinente conhecer a produção científica alusiva às AHSD, analisando como elas vêm sendo retratadas pelas pesquisas.

A esse respeito, Neumann (2023) desenvolveu uma proposta semelhante, com a finalidade de levantar os trabalhos produzidos sobre o tema nos anais do Congresso Brasileiro de Educação Especial (CBEE), de 2008 a 2021, para identificar se ele foi abordado em articulação com o desenvolvimento sustentável. A investigação recuperou 156 produções referentes ao potencial superior (quase 3% da produção de todo o evento), mas nenhuma delas foi elaborada na perspectiva da sustentabilidade. Em razão disso, a autora destacou a relevância dessa última temática e de sua relação com o potencial humano (Neumann, 2023).

Esta pesquisa também atribui visibilidade às AHSD no CBEE, considerando importante o avanço na avaliação da produção científica relacionada a essa área. Nesse sentido, revela-se a abordagem inovadora deste estudo, que se compromete com a análise quantitativa do fenômeno no evento em questão, por meio de indicadores como a temporalidade dos trabalhos, as palavras-chave, os subtemas, as autorias e os métodos. Tal verificação é crucial para o entendimento de como a área vem sendo retratada desde a primeira realização do evento, em 2003, até a última edição, ocorrida em 20235.

Vale destacar que o CBEE é o maior evento científico realizado no âmbito da Educação Especial em nosso país e se delineia como um relevante espaço acadêmico-social para a difusão do conhecimento científico sobre a referida modalidade, contemplando trabalhos que abordam os públicos atendidos pela Educação Especial6 (CBEE, 2023).

Quanto à sua história, o CBEE foi planejado pela primeira vez em 2003 pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial (ABPEE) e pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Especial (PPGEEs), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Desde então, foram realizadas mais nove edições, todas no campus da UFSCar, nos anos de 2005, 2008, 2010, 2012, 2014, 2016, 2018, 20217 e 2023.

Assim sendo, reconhece-se que o CBEE é um valioso contexto de divulgação do conhecimento científico, que pode oferecer, especificamente, um panorama de como as AHSD estão sendo retratadas na produção acadêmica brasileira. À vista dessa relevância, este estudo responderá às seguintes questões: Quantos trabalhos sobre AHSD o CBEE apresenta ao longo de todas as suas edições (2003-2023)? Quais palavras-chave têm sido mais utilizadas pelos estudos? Quais subtemas são mais pesquisados junto às AHSD? Que tipo de autoria prevalece nos trabalhos? E, ainda, quais métodos têm sido adotados pelas produções?

Para tanto, esta pesquisa adotou o objetivo de analisar, a partir de indicadores bibliométricos, a produção científica sobre as AHSD veiculada no CBEE, de forma a revelar os caminhos percorridos pelo conhecimento produzido sobre esse tema no maior evento científico brasileiro da Educação Especial.

2 MÉTODO

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, ao passo que descreve determinadas características de um fenômeno - as produções do CBEE que tratam do potencial superior -, utilizando técnicas padronizadas de coleta de dados com o intuito de estabelecer relações entre as variáveis (Gil, 2017).

Para evidenciar o que o evento tem produzido sobre o tema, foi empreendida uma análise bibliométrica, cuja finalidade é avaliar a produção científica por meio dos aspectos quantitativos das publicações (Hayashi et al., 2007; Hayashi & Gonçalves, 2018). A Bibliometria permite a elaboração de alguns parâmetros - os indicadores bibliométricos -, utilizados para medir a relevância, o impacto e a visibilidade dos trabalhos publicados.

Muitos indicadores podem ser adotados para analisar a atividade científica, mas foram eleitos aqueles apontados por Hayashi (2013) e Soares et al. (2018) que mais convergiram com o objetivo deste estudo, a saber: a temporalidade (que investiga a quantidade de pesquisas publicadas em relação ao tempo); as palavras-chave (que indicam termos frequentemente utilizados); os subtemas (que apontam o volume de publicações de outros temas relacionados à área investigada); a autoria (que verifica a frequência de produção individual/coletiva e a contribuição institucional nos trabalhos); e o método (que indica os procedimentos metodológicos mais adotados pelas pesquisas).

Com base na análise bibliométrica, foi realizada a coleta de dados sobre as AHSD nos anais do CBEE no período de 2003 a 2023. Como as duas primeiras edições desse evento (2003 e 2005)8 estavam disponíveis apenas em livros, efetuou-se a consulta aos materiais impressos. Importa ressaltar que, a partir de 2008, os dados do CBEE passaram a ser armazenados em acervos digitais. Isso possibilitou que fosse efetuada uma busca independente9 em suas plataformas, com o uso das seguintes expressões10: “altas habilidades”, “superdotação”, “altas capacidades”, “dotação”, “talento”, “precocidade”, “dupla-excepcionalidade” e “capacidade acima da média”, de modo a abranger toda a produção referente às capacidades elevadas.

Com relação aos critérios, foram eleitos apenas os trabalhos com disponibilidade de resumos e/ou textos na íntegra (entre apresentações orais e pôsteres), excluindo-se aqueles que não aludiam à temática. Em seguida, procedeu-se à leitura dos materiais obtidos.

A partir da coleta de dados, verificou-se que o CBEE totalizou n = 7.046 produções ao longo do recorte temporal de 2003 a 2023. Foram excluídos n = 6.846 trabalhos que não abordavam a temática selecionada por este estudo, o que resultou em n = 200 investigações que adotaram o tema AHSD. A Figura 1, inspirada no modelo proposto por Hayashi e Gonçalves (2018), exibe o fluxograma referente à busca e à seleção do corpus desta pesquisa.

Figura 1
Fluxograma de busca e seleção do corpus da pesquisa

Para tabulação e tratamento dos dados, foi utilizado o editor de planilhas Microsoft Excel®, que facilitou a análise dos indicadores bibliométricos. Os resultados derivados da produção científica sobre AHSD veiculada no CBEE serão apresentados a seguir.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os n = 200 trabalhos elaborados sobre as AHSD representam 2,8% da produção do CBEE (n = 7.046), proporção que pode ser considerada ínfima se analisarmos todo o volume de investigações produzidas nas dez edições do evento. Apesar disso, considera-se que o fácil acesso aos anais do CBEE é um fator positivo para o tema, pois possibilita que ele seja mais facilmente pesquisado e, ainda, permite observar as discussões acadêmicas que mais vêm sendo realizadas em seu âmbito.

A seguir, serão apresentados os seguintes aspectos bibliométricos analisados: temporalidade; palavras-chave; subtemas; autorias; e métodos.

3.1 TEMPORALIDADE DOS TRABALHOS

A Figura 2 apresenta a distribuição temporal dos trabalhos sobre AHSD veiculados no CBEE entre os anos de 2003 e 2023.

Figura 2
Distribuição temporal da produção científica sobre AHSD veiculada no CBEE (2003-2023)

Observa-se, a partir dos dados dispostos acima, que a quantidade de produções sobre a temática variou entre períodos de ascensão e declínio ao longo do recorte temporal investigado. Os anos de 2012 (n = 30), 2018 (n = 33) e 2023 (n = 32) concentram quase a metade de todo o número de publicações a respeito desse tema (n = 95), totalizando 47,5% dos trabalhos. Em contrapartida, as duas primeiras edições do CBEE, realizadas em 2003 (n = 3) e em 2005 (n = 5), revelaram a menor quantidade de trabalhos sobre AHSD.

Nota-se, também, uma diminuição no número de produções no ano de 2021 (n = 14), o que pode ser justificado pelo advento da pandemia de covid-19. Embora essa edição tenha sido realizada remotamente, ao que parece, essa alternativa não foi capaz de fomentar a submissão de novos trabalhos, afetando significativamente o volume de produções relacionadas ao potencial superior.

De modo geral, o quantitativo de trabalhos produzidos a respeito das AHSD mostrou-se pouco expressivo nos anais do CBEE, se comparado à produção relacionada a outros temas da Educação Especial. Esse resultado dialoga com os dados apresentados pela literatura especializada sobre a ínfima existência de estudos que retratem cientificamente essa área (Martins et al., 2016; Neumann, 2023; Pereira et al., 2020). A Tabela 1 apresenta os dados que corroboram essa análise.

Tabela 1
Distribuição dos trabalhos sobre AHSD no CBEE por ano e frequência

A partir desse panorama, pontua-se a necessidade de que mais produções sejam elaboradas sobre as AHSD e o seu público, a fim de que esse tema obtenha maior visibilidade tanto no CBEE quanto em qualquer outro contexto da comunidade científica. Como esclarece Martins (2020), esse fenômeno requer maior atenção e abordagem nas pesquisas e em outras atividades sociais, para fins de sua desmitificação.

3.2 PALAVRAS-CHAVE MAIS UTILIZADAS NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE AHSD

Consideradas todas as possíveis variações de escrita dos termos (sinônimos e termos equivalentes, flexões de gênero e de número), foi identificado o emprego de 220 palavras-chave nos trabalhos completos publicados nos anais do CBEE de 2008 a 2023.11

As 19 palavras-chave de maior ocorrência foram, respectivamente: “altas habilidades/superdotação” (n = 85), “educação especial” (n = 56), “altas habilidades” (n = 20), “superdotação” (n = 19), “educação inclusiva” (n = 16), “enriquecimento” (n = 16), “formação de professores” (n = 15), “inclusão” (n = 12), “identificação” (n = 12), “talento” (n = 7), “família” (n = 7), “educação infantil” (n = 6), “atendimento educacional especializado” (n = 6), “educação” (n = 4), “altas habilidades ou superdotação” (n = 4), “precocidade” (n = 4), “dotação e talento” (n = 4), “superdotado” (n = 4) e “aluno superdotado” (n = 4). A Figura 3, a seguir, exibe as palavras-chave mais verificadas nas produções referentes às AHSD.

Figura 3
Nuvem de palavras-chave mais encontradas nas produções sobre AHSD veiculada no CBEE

Destaca-se que a expressão “altas habilidades ou superdotação”, empregada pela Lei nº 9.394/1996, aparece como palavra-chave em um número menos expressivo (n = 4) de trabalhos, se comparada ao termo “altas habilidades/superdotação” (n = 85), instituído pela PNEEPEI (Ministério da Educação, 2008). Essa diferença terminológica pode ser causadora de inconsistências para a área, principalmente em relação ao uso de uma ou outra palavra-chave.

No tocante a isso, Rangni e Costa (2011) destacam que a flutuação das terminologias adotadas ainda pode gerar dúvidas e má interpretação sobre o fenômeno e, por essa razão, elas necessitam estar ancoradas em teorias que justifiquem sua aplicação. Ademais, constatou-se a ausência de palavras-chave em dez trabalhos nos anais do CBEE relacionados ao tema, sendo: três na 1ª edição, cinco na 2ª edição, um na 3ª edição e um na 5ª edição do evento.

Os dados postos evidenciam forte ocorrência de pesquisas voltadas à educação de pessoas com AHSD no CBEE, indicada pela predominância de palavras-chave que denominam etapas e modalidades educacionais, componentes curriculares, estratégias de ensino, avaliação e ferramentas pedagógicas nos trabalhos analisados. Há, ainda, uma tendência à interdisciplinaridade, observada na grande quantidade de trabalhos que tratam das AHSD em consonância com temáticas oriundas da Psicologia e da Sociologia.

3.3 SUBTEMAS INVESTIGADOS JUNTO ÀS AHSD

A temática AHSD é ampla e se estende por diferentes contextos, como faixa etária, gêneros, serviços oferecidos e locais de atendimento, além das necessidades educacionais e socioemocionais de seu público, dentre outros. Essas variantes, cuja descrição e categorização interessam imensamente para a compreensão da área, serão denominadas nesta análise bibliométrica como subtemas12. Com base nos dados coletados, foi constatada a presença de n = 93 subtemas nos trabalhos sobre AHSD apresentados no CBEE, dentre os quais n = 10 foram predominantes: Atendimento (n = 52); Identificação (n = 46); Enriquecimento (n = 28); Percepções docentes (n = 22); Produção científica (n = 21); Inclusão (n = 21); Formação docente (n = 18); Características (n = 12); Mitos (n = 10); e Família (n = 10). A Figura 4 atesta esses dados.

Figura 4
Frequência dos subtemas mais investigados juntamente às AHSD

Ressalta-se que a presença do subtema Atendimento (n = 52), que figura em maior número de produções se comparado aos demais, expressa menos da metade dos trabalhos sobre AHSD no CBEE, além de apresentar uma frequência variável nas dez edições do evento. Esse dado contradiz a necessidade de que sejam oferecidas formas de atendimento para o acolhimento dos estudantes com desempenho superior no contexto educacional.

Embora esse subtema tenha sido recorrentemente estudado ao longo do período analisado, é evidente que ainda demanda aprofundamento, especialmente no que diz respeito à escolha das práticas mais eficazes para o desenvolvimento desse público. Quanto às formas de atendimento descritas nesses n = 52 trabalhos, o enriquecimento curricular é a estratégia mais utilizada, enquanto outros caminhos, como a aceleração e o atendimento em Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S), ainda são timidamente empregados.

Outro subtema que merece destaque é a Identificação (n = 46), posicionando-se como a segunda abordagem mais investigada pelos estudos. Importante frisar que “Atendimento” e “Identificação” são tópicos frequentemente pesquisados em relação às capacidades elevadas, uma vez que garantem a efetiva inclusão de seu público (Pereira et al., 2020). Entretanto, também são propostas que ainda apresentam fragilidades quanto à execução. Para reverter esse quadro, recomenda-se o delineamento e a implementação de políticas públicas que busquem consolidá-las (Pérez & Freitas, 2014).

Um grande desafio apresentado à educação escolar é reconhecer os estudantes com potencial superior, a fim de retirá-los da invisibilidade nos sistemas de ensino (Martins, 2020), pois a sua matrícula, em termos de registro, ainda é irrisória - apenas 43.950 (0,09%) identificações efetuadas no último Censo Escolar (Inep, 2025) -, e muito abaixo das estimativas percentuais, que indicam pelo menos 15% a 30% de uma população (Renzulli, 2004b).

Nesse cenário, faz-se necessária a criação de instrumentos educacionais que garantam a identificação desse alunado (Pereira et al., 2020), permitindo-lhe o acesso ao AEE e a outros serviços especializados, assim como determinam a Lei nº 9.394/1996, e o Decreto nº 7.611/2011.

3.4 AUTORIAS NO CAMPO CIENTíFICO DAS AHSD

Em relação à autoria das produções, foi identificada a predominância do trabalho colaborativo na atividade científica. Os dados da Tabela 2 revelam que n = 84 (42%) investigações são de coautoria dupla, enquanto as outras produções conjuntas variam entre três e cinco autores. Quanto aos demais trabalhos, n = 23 (11,5%) são de autoria individual, e apenas n = 1 (0,5%) contempla a participação de 12 autores.

Tabela 2
Distribuição dos trabalhos de acordo com a autoria

Dados como esses são considerados relevantes por enfatizarem a escrita em parceria, o que pode tornar as produções coletivas mais visíveis, no meio científico, do que aquelas escritas individualmente (Pizzani et al., 2008).

Outra análise bibliométrica relacionada à autoria diz respeito às contribuições institucionais. De 2003 a 2023, n = 69 instituições publicaram trabalhos sobre as AHSD no CBEE: n = 21 pertencem ao âmbito federal (30,5%); n = 19 são da esfera estadual (27,5%); n = 10 são do setor privado (14,5%); e, por fim, n = 17 originam-se de diferentes secretarias municipais de educação (24,6%). Cumpre ressaltar, ainda, a presença de n = 2 instituições internacionais - mexicana e espanhola - (2,9% dos estabelecimentos).

A Tabela 3 apresenta as instituições que mais contribuíram com produções apresentadas no evento em questão e estabelece, como critério de corte, aquelas que possuem frequência igual ou superior a n = 6, para fins de sintetização dos resultados.

Tabela 3
Distribuição e frequência das instituições que mais dissertaram sobre as AHSD no CBEE

Destaca-se, a partir desses dados, que as instituições que mais publicaram trabalhos sobre as capacidades elevadas no CBEE foram, respectivamente: a UFSM; a UFSCar; e a UNESP, campus de Bauru, evidenciando sua importância na disseminação de estudos na área de AHSD no âmbito nacional. Outras instituições, como a UFMS; a UFPR; a UEL; a UEA; e a UNESP, campus de Marília, contribuíram de forma relevante para as AHSD, o que demonstra o interesse de instituições localizadas em diferentes porções geográficas do Brasil em relação à temática em estudo.

Contudo, convém registrar a presença de instituições cujas contribuições foram menores no CBEE, mas não menos importantes. A existência de trabalhos com distintas vinculações institucionais indica a tentativa de abordagem do tema em outros contextos formativos, fato imprescindível tanto para a elucidação da área quanto para a desmitificação de seu público. Além disso, vale realçar a aparição, na autoria das produções, de instituições vinculadas às Secretarias Municipais de Educação, o que sugere que as AHSD vêm sendo debatidas por diferentes entidades educacionais.

Embora os dados obtidos sejam significativos, ressalta-se o quão ainda é crucial que outras instituições - pertencentes às diversas esferas administrativas - debatam o tema em questão e se disponham a identificar e atender a parcela estudantil com capacidades elevadas que acolhem. É necessário que as instituições, juntamente com as políticas públicas, realizem esforços para que o alunado com AHSD saia da invisibilidade (Martins, 2020; Martins et al., 2016; Pérez & Freitas, 2011), a fim de que esse público passe a ser contemplado por ações específicas que atendam eficazmente às suas necessidades formativas.

Somente por meio do atendimento apropriado os estudantes com desempenho elevado poderão: a) desenvolver ao máximo o potencial superior; b) expandir suas habilidades cognitivas; c) ampliar percepções relacionadas à autoeficácia (crença positiva sobre as próprias capacidades) e à autorrealização (gerenciamento de emoções, pensamentos e atitudes que levam à satisfação e plenitude pessoal) (Renzulli, 2004a).

3.5 MÉTODOS UTILIZADOS PELOS TRABALHOS

Para se debruçar sobre os métodos empregados nas produções do CBEE sobre AHSD, é preciso lembrar que a pesquisa científica possui distintos níveis de classificação, de acordo com seus aspectos constituintes. Se forem levados em conta os seus objetivos, ela poderá ser descritiva, exploratória ou explicativa; se for considerada a abordagem adotada, pode tratar-se de uma pesquisa qualitativa, quantitativa ou, ainda, quanti-qualitativa. Já quando se trata dos procedimentos adotados para a coleta de informações, podem ser pensadas como pesquisa documental, pesquisa de campo, estudo de caso, pesquisa bibliográfica, pesquisa participante, pesquisa-ação, pesquisa etnográfica, pesquisa survey, dentre inúmeras outras (Marconi & Lakatos, 2003).

Um exame aprofundado do corpus em questão apontou que mais de dois terços das pesquisas nele contidas (n = 156, 78%) mergulham na busca por uma compreensão profunda de fenômenos sociais, explorando significados, interpretações e contextos específicos, caracterizando-se como pesquisas qualitativas. Em seguida, surgem as produções que empregam instrumentos estatísticos e matemáticos para analisar dados numéricos e testar hipóteses, na busca por resultados precisos e generalizáveis (n = 23, 11,5%), características de pesquisas quantitativas (Gil, 2017). Por fim, encontram-se as pesquisas que mesclam características das duas abordagens anteriores, as quanti-qualitativas (n = 21, 10,5%). Esses dados estão listados na Figura 5.

Figura 5
Frequência das produções do CBEE sobre AHSD quanto aos objetivos

No que diz respeito à classificação das pesquisas quanto aos seus objetivos, conforme pode ser visto na Figura 6, há um destaque expressivo para os trabalhos que detalham as características de seus objetos de estudo (n = 127, 63,5%), sendo, portanto, de cunho descritivo (Gil, 2017). Enquanto as pesquisas exploratórias correspondem a 30,5% (n = 61) dos trabalhos contidos no corpus, as explicativas representam apenas 6% do número total (n = 12).

Figura 6
Frequência das produções do CBEE sobre AHSD quanto à abordagem

Quanto aos procedimentos de coleta e tratamento dos dados, foram identificados 12 tipos distintos de pesquisas. Despontam em maior número as pesquisas de campo (n = 53, 24,88%), seguidas pelas bibliográficas (n = 49, 23%) e pelos relatos de experiência (n = 40, 18,78%). Em número menor surgem as pesquisas do tipo documental (n = 27, 12,68%), estudo de caso (n = 20, 9,39%), pesquisa-ação (n = 6, 2,82%), pesquisa survey (n = 6, 2,82%), pesquisa participante (n = 5, 2,35%), história de vida (n = 2, 0,94%), análise fílmica (n = 2, 0,94%), etnográfica (n = 2, 0,94%) e, por último, a bibliométrica (n = 1, 0,46%).

Foi possível notar, ainda, que, do conjunto formado pelas pesquisas sobre AHSD no CBEE, um total de 6,5% é composto por pesquisas mistas (n = 13), combinando os tipos bibliográfica e documental (n = 6), documental e pesquisa de campo (n = 5), bibliográfica e pesquisa de campo (n = 1) e documental e análise fílmica (n = 1). Dada a incidência de trabalhos que se enquadram em mais de uma tipologia, optou-se por apresentar a frequência com que elas aparecem nas produções (Figura 7).

Figura 7
Frequência das produções do CBEE sobre AHSD quanto aos procedimentos

Há a predominância de pesquisas qualitativas (quanto à abordagem), descritivas (em relação aos objetivos) e de pesquisas de campo e bibliográficas (quanto aos procedimentos de coleta e análise dos dados). Esses achados podem assinalar uma tendência a uma maior ênfase na compreensão aprofundada das experiências e dos contextos relacionados às AHSD, em detrimento de análises estatísticas e generalizações.

Nesse sentido, a abordagem qualitativa permite explorar as nuances e as complexidades da temática, capturando as perspectivas e os desafios enfrentados, no campo da Educação Especial, por estudantes com comportamentos superdotados. Essa perspectiva contribui, epistemologicamente, para a apreensão dinâmica do potencial superior em diferentes cenários nos quais ele se manifesta, possibilitando que suas particularidades sejam captadas em distintas realidades, à luz de um entendimento multifacetado sobre esse fenômeno.

Entretanto, é importante frisar que a baixa representatividade de pesquisas quantitativas pode inviabilizar a compreensão de padrões e tendências mais amplas relacionadas ao tema. Por isso, sugere-se que sejam realizados estudos que unifiquem as duas abordagens (qualitativa e quantitativa), a fim de que as AHSD sejam compreendidas de modo robustamente multiforme (em muitos aspectos).

Ainda em termos epistemológicos, os resultados desta pesquisa contribuem para a área da Educação Especial ao analisar o campo científico do potencial superior no CBEE, evidenciando tendências, perspectivas e métodos na produção acadêmica desse evento por meio de diferentes indicadores bibliométricos - o que configura certo ineditismo.

Essas análises não apenas revelam o estado atual do conhecimento sobre o tema, mas também podem orientar pesquisadores, direcionando-os para os pontos mais frágeis das AHSD que requerem atenção. Assim, este estudo fornece uma base que serve de orientação a futuras investigações, promovendo avanços na compreensão da temática para o reconhecimento do público com capacidades elevadas, à luz de sua efetiva inclusão nos sistemas de ensino e nos serviços da Educação Especial.

4 CONCLUSÕES

Este estudo analisou, a partir de indicadores bibliométricos, a produção científica sobre as capacidades elevadas veiculada no CBEE, evento de grande relevância acadêmico-social em nosso país. Foram analisados os trabalhos publicados entre 2003 e 2023, com base nos seguintes parâmetros: temporalidade, palavras-chave, subtemas, autorias e métodos.

Os resultados evidenciaram que os trabalhos referentes ao potencial superior, em termos de distribuição temporal, variaram em períodos de ascensão e declínio. Esse dado revelou um número exíguo de produções sobre essa área, em comparação a outros temas da Educação Especial. A realização de mais investigações é crucial para que sejam ampliados o alcance e a visibilidade das AHSD no CBEE.

As palavras-chave apresentaram variações terminológicas que podem causar inconsistências para o campo em questão, resultando em sua consequente incompreensão. Em razão da variedade de termos que se vinculam a esse fenômeno, sugere-se cautela quanto à adoção de terminologias. Além disso, os termos utilizados precisam estar de acordo com as vertentes teóricas que os sustentam.

Os subtemas também foram significativamente variantes, indicando a forte ocorrência de outros assuntos abordados junto às AHSD. Isso atestou a própria multidimensionalidade desse constructo, que pode ser dissertado em concomitância com temas diversos. Ademais, as autorias revelaram tanto a maior incidência de trabalhos produzidos em parceria quanto diferentes contribuições institucionais, refletindo o caráter colaborativo das produções no evento analisado.

Os métodos indicaram que as abordagens qualitativas foram predominantes para a apreensão de significados em relação às AHSD. No entanto, a baixa incidência de trabalhos quantitativos representa uma oportunidade para ampliar o entendimento de padrões e tendências mais amplas, para fortalecer a base de conhecimento sobre o tema com dados mais generalizáveis. Assim, recomenda-se, para futuras investigações, a adoção de métodos mistos, à luz de uma compreensão robusta e multifacetada sobre as capacidades elevadas.

Por fim, destacam-se as contribuições epistemológicas desta pesquisa para a área da Educação Especial: além de evidenciar o estado atual do conhecimento sobre o tema, os indicadores bibliométricos adotados neste estudo também revelaram tendências, perspectivas e métodos na produção acadêmica sobre o potencial superior no evento, os quais podem servir de orientação aos pesquisadores para que sejam investigados, na área, pontos de fragilidade que requerem atenção.

Com base no corpus pesquisado, concluiu-se que a atividade acadêmica relacionada ao desempenho superior, no CBEE, demanda maior aprofundamento e visibilidade, a fim de que essa área possa se expandir, assim como as demais da Educação Especial. É imperativo que a comunidade científica reconheça as AHSD como um campo que merece ser potencialmente investigado, de modo que adquira notoriedade e intervenções necessárias. O investimento na produção científica não apenas pode conferir robustez ao tema, mas também ampliar o entendimento sobre o público desta pesquisa. Compreendê-lo, valorizá-lo e incluí-lo são medidas emergenciais para a educação escolar brasileira.

  • 5
    A 11ª edição do CBEE, prevista para 2025, ainda não havia sido realizada no momento do levantamento de dados desta pesquisa, razão pela qual suas informações não foram inseridas.
  • 6
    A Educação Especial contempla os indivíduos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e AHSD (Lei nº 9.394, 1996).
  • 7
    Como evento bienal, era previsto que a 9ª edição ocorresse em novembro de 2020. Todavia, devido à pandemia da covid-19, o CBEE foi adiado para 2021, sendo realizado remotamente.
  • 8
    Os trabalhos pertencentes aos anais das primeiras edições apresentam somente os resumos.
  • 9
    Os anais correspondentes às edições de 2008 a 2023 encontram-se disponíveis no sítio eletrônico da 11ª edição do CBEE, realizada em 2025, na aba “Edições Anteriores”: https://www.even3.com.br/anais/xi-congresso-brasileiro-de-educacao-especial-xi-cbee-xiii-encontro-nacional-dos-pesquisadores-da-educacao-especial-xiii-enpee-546093/.
  • 10
    Todas as expressões utilizadas por esta pesquisa correspondem à diversidade de terminologias que fazem parte das AHSD.
  • 11
    Os trabalhos publicados nas primeiras edições do CBEE (2003 e 2005) não apresentaram palavras-chave.
  • 12
    Os subtemas elencados nesta pesquisa foram definidos com base no levantamento realizado por Mori et. al (2021), que descreve e categoriza os assuntos abordados dentro da temática das AHSD no intervalo de 2002 a 2020.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que deu suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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  • Editoras responsáveis
    Aline Maira da Silva (Editora-chefe)
    Carmem Lucia Artioli Rolim (Editora associada)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2025
  • Revisado
    01 Ago 2025
  • Aceito
    15 Set 2025
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